Os dados foram coletados através de observações em terreiros de candomblé e entrevistas com os componentes da amostra selecionada. Ambas as técnicas, como afirmam Marconi e Lakatos (2002), são bastante utilizadas nas pesquisas das ciências sociais e humanas e permitem compreender opiniões, motivações, condutas e aspectos da realidade dos sujeitos, o que justifica sua utilização. Definições mais detalhadas das modalidades dessas técnicas utilizadas durante a coleta de dados estão apresentadas nos itens adiante.
4.4.1 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE E DIÁRIO DE CAMPO
As dinâmicas específicas existentes nos grupos pesquisados, distintas dos referenciais do pesquisador, dificilmente seriam captadas exclusivamente pela literatura e pelos relatos dos participantes. Para contornar essa dificuldade, recorreu-se a antropologia para buscar ferramentas que permitissem ao pesquisador compreender melhor a realidade dos grupos que os adolescentes estudados participavam. Adotou-se, então, a observação participante, um dos recursos tipicamente utilizados no método etnográfico, produto da disciplina antropológica. As observações foram realizadas nos dois terreiros de candomblé que aceitaram colaborar com o estudo devido a sua influência direta com a população estudada e objetivaram, como afirmam Mónico et al. (2017), garantir ao pesquisador uma posição favorável para a obtenção de informações com maior profundidade, algumas das quais não poderiam ser acessadas a partir de uma investigação exterior.
Segundo Mónico et al. (2017), a observação participante foi originada na antropologia, mas atualmente faz parte do arsenal de recursos de pesquisadores de diferentes formações e
constitui uma metodologia de investigações qualitativas de pesquisa. A observação participante é uma das modalidades da técnica da observação científica e é caracterizada pela imersão na realidade de um grupo que, como assinala Angrosino (2009), pode ser realizada a partir de diferentes níveis de associação do pesquisador com o grupo, podendo atuar de observador invisível a participante totalmente envolvido. Neste estudo, a participação consistiu em envolvimentos com os grupos em determinados momentos, da maneira mais integrada possível. O pesquisador não se tornou efetivamente um membro do grupo e adepto da religião, mas obteve permissão para participar de algumas cerimônias e, nessas ocasiões, pôde se aproximar do grupo e compartilhar alguns de seus costumes.
Para registrar as experiências proporcionadas pela utilização da observação participante, elaborou-se um diário de campo, ferramenta comumente associada à técnica mencionada. O diário de campo resultante desta pesquisa retratou todas as visitas realizadas e conteve tanto descrições objetivas de cenários, pessoas e situações ocorridas durante as observações quanto impressões e interpretações do observador sobre o campo, conforme orientações de Oliveira (2014). Ao inserir o próprio pesquisador como elemento de estudo, a observação participante garante às experiências vivenciadas pelo cientista no campo o status de dados constituintes da pesquisa.
As observações ocorreram entre os meses de março a julho de 2019, precederam a realização das entrevistas e se estenderam por um período após a realização delas. A partir das observações, foram levantados elementos que contribuíram para o planejamento das entrevistas e a aproximação com a população estudada facilitou os contatos com os adolescentes para que fossem convidados para as entrevistas. Os dados obtidos através das observações foram articulados às entrevistas, discutidas em seguida, para a efetuação da análise.
4.4.2 ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA
As entrevistas desempenharam papel de destaque nesta pesquisa e, dentre as diversas referências em que podem ser baseadas, optou-se pelo uso da metodologia da história oral, caracterizada, segundo Meihy (2002), pela captação de narrativas das experiências de vida das pessoas como fontes de dados científicos. Buscou-se, a partir desse tipo de entrevista, compreender como o objeto de estudo havia interferido na trajetória pessoal dos entrevistados.
A história oral é, como apontam Brisola e Marcondes (2011), amplamente utilizada em estudos qualitativos e não está associada a uma área específica, podendo ser aplicada na investigação de variados objetos. Dentre as possibilidades de aplicação da história oral, utilizou-se a denominada história oral temática, na qual os participantes são convidados a relatar suas vivências a partir de um tema específico proposto pelo entrevistador.
Estudos sobre identidades têm íntima relação com os métodos da história oral, como aponta Meihy (2002), especialmente pelo fato de que os relatos de histórias individuais carregam consigo aspectos da memória cultural dos grupos identitários aos quais os sujeitos estão inseridos, revelando associações entre as dimensões grupal e individual. A referida memória cultural pode ser descrita, em suma, como o conjunto de expressões que dão coesão a um grupo e preservam sua identidade.
Dentre as formas de utilização da metodologia da história oral, Brisola e Marcondes (2011) destacam o uso da entrevista em formato semiestruturado. Nesse tipo de entrevista, formula-se previamente um roteiro de questões ou tópicos que podem ser complementados por outros de acordo com o desenrolar da entrevista, conduzida em um tom mais informal do que a entrevista estruturada. Boni e Quaresma (2005) afirmam que, nesse formato de entrevista, é garantida liberdade ao participante, ainda que o entrevistador proponha uma delimitação do tema. Optou-se pela entrevista semiestruturada a fim de garantir os objetivos elaborados para a pesquisa, pois a especificidade temática demandava um parcial direcionamento por parte do entrevistador, sem destituir o participante do controle do andamento da entrevista.
As entrevistas foram realizadas a partir de um roteiro de tópicos elaborado pelo pesquisador e que pode ser visualizado no apêndice C. A construção do roteiro foi baseada nas contribuições existentes na literatura científica sobre o objeto estudado e nos dados obtidos durante as observações. Formulou-se, assim, um roteiro composto por 4 eixos: Dados pessoais e familiares, Atividades, Vida religiosa e Questões de gênero. Buscou-se, inicialmente, levantar dados que permitissem a compreensão dos contextos dos entrevistados para que, em seguida, fossem introduzidos os tópicos diretamente relacionados ao objeto de estudo, favorecendo a produção de discursos sobre o tema. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas para serem submetidas ao processo de análise.
A partir de sucessivos contatos com integrantes do Ilê Axé Oxum Karê e do Ilê Axé Oyá Meguê, duas datas, uma em cada terreiro, foram combinadas para a realização das entrevistas, ambas no mês de maio de 2019. No Ilê Axé Oyá Meguê, foram conduzidas 04 entrevistas com
adolescentes e no Ilê Axé Oxum Karê, 06 dos participantes da amostra foram entrevistados. Após cada dia de condução de entrevistas, as gravações em áudio foram ouvidas pelo pesquisador para verificar se a busca por outros participantes seria necessária. Foi possível perceber que alguns temas, especialmente aqueles diretamente relacionados ao objeto de estudo, já emergiam com conteúdo semelhante. Logo, instaurou-se o fechamento da amostra com os 10 participantes, visto que o ponto de saturação teórica havia sido alcançado e a quantidade de entrevistados era suficiente para ser representativa da população investigada.