B
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Departamento de Economia, Sociologia e Gestão
A (in) compatibilidade dos processos de Crescimento, Desenvolvimento
Humano, Competitividade e Corrupção
De: Andreia Filipa Gouveia Figueiredo
Orientador: Professor Doutor Francisco Diniz
C Este trabalho foi expressamente elaborado como dissertação original para efeito de obtenção do grau de Mestre em Economia, sendo apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
D Aos meus queridos pais, sem eles nunca teria conseguido.
Ao Sérgio, pelo apoio dado em todos os momentos.
Às minhas irmãs, porque me aturaram nos momentos de stress.
E
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar agradeço ao meu orientador Professor Francisco Diniz, o muito obrigada por toda a orientação dada desde o início deste processo.
A todos os professores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro que se cruzaram comigo ao longo destes anos de aprendizagem, que de certa forma contribuíram para que eu chegasse até aqui.
Aos meus pais agradeço por todas as razões e mais algumas. Às minhas irmãs pela compreensão.
À minha família pelo apoio.
Por último, mas não menos importante, ao Sérgio por todo o apoio dado nos momentos em que me ia abaixo, levando-me a acreditar que ia conseguir.
G
RESUMO
Este trabalho aborda os processos de Crescimento Económico, Desenvolvimento Humano, Competitividade e Corrupção. O objetivo é tentar perceber quais os efeitos que o Desenvolvimento Humano, a Competitividade e a Corrupção têm no Crescimento Económico.
A metodologia utilizada consistiu na recolha de dados estatísticos relativamente às taxas de crescimento do PIB de 2010, ao IDH, ao IPC e IGC e todos os componentes dos diferentes índices. Para se perceber quais as influências destas variáveis nas taxas de crescimento, recorreu-se a vários modelos econométricos lineares, através do modelo MQO.
Os resultados obtidos mostraram que as taxas de crescimento são sensíveis ao IDH, em que países com um IDH mais elevado crescem significativamente menos. Também se observou um efeito positivo de IGC, mais concretamente, os pilares de Ambiente Macroeconómico, Dimensão de Mercado, Sofisticação dos Negócios e Inovação, por outro lado, o pilar das Infraestruturas tem uma influência negativa no crescimento económico. Quanto ao IPC não mostrou influenciar as taxas de crescimento neste modelo.
Palavras-Chave: Crescimento Económico; Desenvolvimento Humano; Competitividade; Corrupção; e Modelos de Regressão Linear.
H
ABSTRACT
This works focus on Economic Growth, Human Development, Competitiveness and Corruption. The aim is to try to understand the effects that Human Development, Competitiveness and Corruption have on the Economic Growth.
The chosen methodology consisted on the gathering of statistic data concerning the 2010 GDP growth rates, the HDI, CPI, GCI and all the components of the different data. To understand the influence of these variables on the growth rates, several linear econometric models have been used through the OLS model.
The final results have shown that the growth rates are sensitive to HDI: countries with a higher HDI grow significantly less. It has also been observed a positive effect of GCI, specifically, on the Macroeconomic Environment pillars, Market Dimension; Business Sophistication and Innovation. On the other hand, the Infra-structure factor has a negative influence on the economic growth. As far as the CPI is concerned, it did not show to influence the growth rates on this model.
Key-words: Economic Growth; Human Development; Competitiveness; Corruption
I
LISTA DE FIGURAS
Figura 1.1: Estrutura da Tese ... 5
Figura 2.1: Determinantes do Crescimento ... 16
Figura 3.1: Evolução de Conceitos _ Evolução de Mentalidades ... 21
Figura 3.2: Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável ... 22
Figura 3.3: Componentes do IDH ... 24
Figura 3.4: Componentes do IDH_2010 ... 27
Figura 3.5: Ligações entre o Crescimento Económico e o Desenvolvimento Humano .. 29
Figura 4.1: Os 12 Pilares de Competitividade e os Sub-Índices ... 37
Figura 6.1: Processo de Investigação ... 64
Figura 6.2: Questões de Investigação ... 68
Figura 6.3: Conjunto de Países BRIC e OCDE ... 70
II
LISTA DE QUADROS
Quadro 3.1: Definições Curtas de Desenvolvimento Humano desde 1990 ... 25 Quadro 4.1: Definições de Competitividade de uma Nação ... 33 e 34 Quadro 5.1: Medidas Anticorrupção ... 56 Quadro 6.1: Variáveis de Investigação ... 66 Quadro 6.2: Quadro Resumo das Principais Técnicas de Amostragem ... 71
III
LISTA DE TABELAS
Tabela 4.1: Pesos dos Sub-Índices em cada Estádio de Desenvolvimento ... 43
Tabela 4.2: Limites de Rendimento para Estabelecer os Estádios de Desenvolvimento 43 Tabela 7.1: Estatísticas Descritivas das Variáveis... 81
Tabela 7.2: Estimativas MQO e Testes para o Modelo Econométrico a) ... 83
Tabela 7.3: Estimativas MQO e Testes para o Modelo Econométrico b) ... 90
Tabela 7.4: Estimativas MQO e Testes para o Modelo Econométrico c) ... 93
Tabela 7.5: Estimativas MQO e Testes para o Modelo Econométrico d) ... 97
IV
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ATLAS – Método de Conversão Internacional do Banco Mundial BLUE – Best Linear Unbiased Estimators
BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China CPI – Corruption Perception Index ESA – European System of Accounts FEM – Fórum Económico Mundial GCI – Global Competitiveness Index GDP – Gross Domestic Product
GRETL – GNU Regression, Econometrics and Times-series Library HDI – Human Development Index
I&D – Investigação e Desenvolvimento
IDG – Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Género IGC – Índice Global de Competitividade
IPC – Índice de Perceção da Corrupção IPH – Índice de Pobreza Humana
MPG – Medida de Participação segundo o Género MQO – Método dos Quadrados Ordinários
OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico OLS – Ordinary Least Squares
V
ONGs – Organizações não-governamentais PIB – Produto Interno Bruto
PNB – Produto Nacional Bruto
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PPC – Paridade do Poder de Compra
RDH – Relatório de Desenvolvimento Humano RGC – Relatório Global de Competitividade RNB – Rendimento Nacional Bruto
SNA – System of National Accounts SAS – Statistical Analysis System
SPSS – Statistical Package for Social Sciences SQR – Soma dos Quadrados dos Resíduos TEB – Taxa de Escolaridade Bruta
TI – Transparency International
TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação VIF – Fatores de Inflacionamento da Variância
VI
ÍNDICE
Parte I - Introdução ... 1 Capítulo I – Introdução ... 2 1.1. Introdução... 2 1.2. Objetivos da Tese ... 3 1.3. Estrutura da Tese ... 4Parte II – Revisão da Literatura ... 6
Capítulo II – Crescimento Económico ... 7
2.1. Introdução ... 7
2.2. Conceito de Crescimento Económico ... 8
2.3. Como Medir Crescimento Económico ... 9
2.4.Taxas de Crescimento Económico ... 11
2.5.Teoria do Crescimento Económico ... 13
2.6.Síntese e Conclusão do Capítulo ... 19
Capítulo III – Desenvolvimento Económico / Humano ... 20
3.1. Introdução ... 20
3.2. Conceito de Desenvolvimento Económico / Humano ... 20
3.3 Como Medir o Desenvolvimento Humano ... 23
3.4. Desenvolvimento Humano_2010 ... 26
3.5. Ligações entre o Conceito de Crescimento Económico e Desenvolvimento Humano ... 28
3.6. Síntese e Conclusão do Capítulo ... 31
Capítulo IV – Competitividade ... 32
4.1. Introdução ... 32
VII
4.3. Como Medir a Competitividade ... 36
4.4. Síntese e Conclusão do Capítulo ... 44
Capítulo V – Corrupção ... 45
5.1. Introdução ... 45
5.2. Conceito de Corrupção ... 46
5.3. Como Medir a Corrupção ... 47
5.4. Causas e Consequências da Corrupção no Crescimento e Desenvolvimento Económico ... 49
5.5. Combate à Corrupção – Reformas ... 55
5.5. Síntese e Conclusão do Capítulo ... 60
Parte III – Dados e Metodologia de Investigação... 61
Capítulo VI – Métodos e Técnicas de Investigação ... 62
6.1. Introdução ... 62
6.2. Método, Variáveis, Hipóteses e Questões de Investigação ... 62
6.3. População, Amostra e Técnicas de Amostragem ... 69
6.4. Técnicas de Recolha de Dados ... 72
6.5. Registo, Verificação e Tratamento dos Dados Recolhidos ... 74
6.6. Síntese e Conclusão do Capítulo ... 75
Parte IV – Apresentação e Análise dos Resultados ... 76
Capítulo VII – Apresentação e Análise dos Resultados ... 77
7.1. Introdução ... 77
7.2. Modelo Econométrico ... 77
7.3. Estatísticas Descritivas ... 81
7.4. Resultados dos Modelos de Regressão ... 82
7.5. Síntese dos Resultados Obtidos ... 106
7.6. Síntese e Conclusão do Capítulo ... 107
VIII
Capítulo VIII – Reflexões e Recomendações ... 109
8.1. Introdução ... 109
8.2. Conclusões da Investigação ... 109
8.3. Limitações da Investigação ... 112
8.4. Sugestões para Futuras Investigações ... 112
Referências Bibliográficas ... 113
Anexos ... 122
Anexo A: Dados Recolhidos ... 122
Tabela A: Dados Observados para o IDH ... 122
Tabela B: Dados Observados para IGC ... 123
Tabela B: Dados Observados para IGC (cont.) ... 124
Tabela B: Dados Observados para IGC (cont.) ... 125
Tabela C: Dados Observados para IPC ... 127
Tabela D: Dados Observados para as Taxas de Crescimento em Volume ... 128
Anexo B: Outputs do Gretl ... 129
Tabela E: Coeficientes de correlação ... 147
1
Parte I -
Introdução
2
Capítulo I – Introdução
1.1. Introdução
Perceber quais os efeitos que o desenvolvimento humano, a competitividade e a corrupção têm no crescimento económico é o objetivo desta dissertação.
Estes fenómenos são complexos e não podem ser separados uns dos outros, há sempre algo que os liga.
São vários os autores que apontam como impulsionadores do crescimento económico: a escolaridade; a I&D; o papel do Governo; o progresso tecnológico e a abertura do mercado. (Pereira, 2003; Diniz, 2010; Dias 1997/1998; e Figueiredo, et. al. 2008) A ligação entre crescimento económico e o desenvolvimento humano apesar de não ser automática é facilmente entendida. O crescimento económico é visto como um meio, para atingir o fim que é o desenvolvimento humano. (PNUD, 1996)
Atendendo por exemplo, à definição de competitividade de Scott e Lodge (1985) como a capacidade de um Estado-Nação para produzir, distribuir bens e serviços na economia internacional… e fazê-lo, para que ganhe nível de vida. (citado em, Aiginger e Landesmann, 2002) Ou seja, a competitividade implica aumento de produtividade e aumento do crescimento económico.
Por outro lado, a corrupção aparece aqui como uma negação ao crescimento económico, ao desenvolvimento humano e à competitividade. Segundo Mauro (1997) a corrupção reduz o investimento e retarda o crescimento económico de forma significativa; distorce a composição das despesas do Governo; e reduz os fluxos de ajuda.
Este trabalho não esgota de todo a abordagem a estes temas. Aliás seria pretensioso da minha parte pensar de outro modo, de qualquer forma este trabalho permitiu-me chegar a algumas conclusões.
Também o facto de estarmos a atravessar uma época conturbada a nível de acontecimentos económicos impulsionou a escolha do tema, além do gosto pessoal. A
3 maioria dos países não têm alcançado o crescimento económico desejado, só alguns países experimentam um crescimento económico extraordinário.
1.2.Objetivos da Tese
―A gula livresca ou estatística consiste em “encher a cabeça” com uma quantidade de livros, artigos ou dados numéricos, esperando encontrar aí, ao virar de um parágrafo ou de uma curva, a luz que permitirá enfim precisar, corretamente e de forma satisfatória, o objetivo e o tema do trabalho que se deseja efetuar. Esta atitude conduz invariavelmente ao desalento, dado que a abundância de informações mal integradas acaba por confundir as ideias ‖ (Quivy e Campenhoudt, 1992, p.19)
Para não cair nesse erro, fica a promessa de ao longo de todo o trabalho ser o mais focada possível em torno dos objetivos que seguir se apresentam:
Objetivo Geral:
Este trabalho tem como objetivo principal perceber quais os efeitos que o Desenvolvimento Humano, a Competitividade e a Corrupção têm no Crescimento Económico.
Objetivos Específicos:
Estimar a taxa de crescimento em função do IDH (e seus componentes), do IGC (e seus componentes) e do IPC para 2010 através de modelos econométricos. Identificar quais as variáveis que afetam as taxas de crescimento.
Identificar qual o efeito que o IDH tem na taxa de crescimento.
Identificar qual o efeito que as componentes do IDH têm na taxa de crescimento. Identificar qual o efeito que o IPC tem na taxa de crescimento.
Identificar qual o efeito que o IGC tem na taxa de crescimento.
4
1.3. Estrutura da Tese
Este trabalho contempla cinco grandes partes: a introdução, a revisão da literatura, recolha de dados e metodologia de investigação; apresentação e análise de resultados; e por último reflexões e recomendações.
Relativamente à primeira parte, esta contempla apenas o primeiro capítulo de introdução com a apresentação dos objetivos principais da tese e como ela está organizada.
A segunda parte contempla o segundo capítulo até ao quinto capítulo. No segundo capítulo é explorado o processo de Crescimento Económico através do seu conceito e medida pelas taxas de crescimento. Também é feita uma pequena abordagem à teoria do crescimento. Relativamente ao terceiro capítulo é explorado o processo de Desenvolvimento Económico/Humano em torno do seu conceito e da sua medição através do IDH e por último um pequeno resumo das ligações entre Crescimento Economico e de Desenvolvimento Humano. No que respeita ao quarto capítulo o objetivo é retratar a competitividade através da definição e da medição pelo IGC. Por último, o quinto capítulo expõe o fenómeno da corrupção através da definição e medição pelo IPC e é feita uma abordagem das causas e consequências que a corrupção tem no Crescimento e Desenvolvimento e nas reformas de combate à corrupção.
A terceira parte contempla o sexto capítulo onde é apresentado o método e as técnicas de investigação empírica.
A quarta parte contempla o sétimo capítulo onde são apresentados e analisados os resultados da investigação.
A quinta parte contempla o oitavo capítulo onde são expostas as reflexões e apresentadas as limitações do estudo que induzem a recomendações para estudos futuros.
5
Figura 1.1: Estrutura da Tese
Fonte: autor
Parte I - Introdução
•Capítulo I - Introdução
Parte II - Revisão da Literatura
•Capítulo II - Crescimento Económico •Capítulo III - Desenvolvimento
Económico/Humano
•Capítulo IV - Competitividade •Capítulo V - Corrupção
Parte III - Dados e
Metodologia de Investigação
•Capítulo VI - Métodos e Técnicas de Investigação
Parte IV - Apresentação e
Análise dos Dados
•Capítulo V - Apresentação e Análise dos Resultados
Parte V - Reflexões e
Recomendações
•Capítulo VIII - Reflexões e Recomendações
6
Parte II –
Revisão da
7
Capítulo II – Crescimento Económico
2.1. Introdução
O fenómeno de crescimento económico é confundido com a própria Revolução Industrial. Dá-se início à industrialização, novos processos fabris em que tudo era permitido e com o forte crescimento económico surgem também as desigualdades. O crescimento económico de um país/nação é a expansão da economia, tornando possível oferecer à população cada vez mais produtos e também eles cada vez mais diversificados.
O PIB é o agregado mais utilizado para medir a dimensão económica, ou seja, o crescimento económico. Torna-se importante o papel das taxas de crescimento económico na medição, uma vez que exprimem a variação do produto independentemente das flutuações de curto prazo.
São vários os autores que discutem a problemática do crescimento económico. A teoria do crescimento desenvolveu-se ao longo dos tempos passando pelos economistas clássicos (como, Adam Smith, David Ricardo, Malthus, Schumpeter, entre outros) e neoclássicos (como, Harrod, Domar, Solow, Cass, Koopmans, Lucas, entre outros.). A teoria continua a evoluir, sendo um importante suporte teórico e científico.
Este capítulo tem como principal objetivo definir crescimento económico, saber como o medir e retratar a evolução da teoria do crescimento económico.
8
2.2. Conceito de Crescimento Económico
A Definição
A Revolução Industrial (séc. XVIII) despoletou por assim dizer o aumento e o fomento do crescimento económico. Inicia-se um período de industrialização com a introdução da máquina a vapor e de novos processos de produção fabril.
O crescimento económico marcou os séculos que se seguiram. No séc. XIX, as três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, conhecidos como os trinta anos Gloriosos, foram caracterizados por um forte crescimento económico, em que tudo era permitido e as desigualdades inter e intra nações se acentuavam.
Segundo Nunes e Valério (2004), o processo de crescimento económico moderno caracteriza-se por uma subida comparativamente rápida e geralmente sustentada do nível de vida médio, por uma modificação da estrutura da economia, por uma alteração profunda dos espaços económicos relevantes e por uma modificação radical do modo da organização da economia. É um processo contínuo, mas não uniforme. Este processo nunca foi interrompido desde que se iniciou mas não se processou num ritmo constante. Torna-se difícil e depois do que já foi dito não fazer uma ligação estreita entre crescimento económico, progresso e industrialização que muitas vezes, aparecem como sinónimos. A industrialização é responsável por todas as transformações na economia para que o produto aumente e para que as pessoas tenham cada vez mais à sua disposição um maior número de bens e serviços. Mas afinal, como se pode definir crescimento económico? E para quem se destina?
Segundo Kuznets (1971), ― O crescimento económico de um país pode ser definido como o aumento a longo prazo da sua capacidade de oferecer à população bens económicos cada vez mais diversificados, baseando-se esta capacidade crescente numa tecnologia avançada e nos ajustamentos institucionais e ideológicos que esta exige. Qualquer dos três componentes da definição é importante.‖ (citado em Figueiredo, et al., 2008, p.18).
9 Esta definição tem presente a noção de tempo e o aumento da oferta de bens, ou seja, no longo prazo e com o aumento do produto as pessoas têm acesso e capacidade de adquirir bens.
Para Soubbotina e Sheram (2000), o crescimento económico é a alteração ou expansão da economia de um país, (…) uma economia pode crescer extensivamente usando mais recursos (físico, humano e capital natural) ou intensivamente, usando a mesma quantidade de recursos mas com mais eficiência. Sendo que um crescimento económico intensivo requer desenvolvimento económico.
2.3. Como Medir Crescimento Económico
O PIB (Produto Interno Bruto) é o agregado utilizado com mais frequência para representar a dimensão económica de um país. Para que sirva como indicador de escala da economia de um país deve ser dividido pela população do país-PIB per capita. (OCDE, 2005)
Pode-se considerar que o conceito de crescimento económico é restrito, é medido pelo PIB, onde são contabilizados os produtos e serviços de uma economia, daí o próprio conceito ter um carácter quantitativo, que muitas vezes lhe é atribuído.
Besser-Pereira (2008) define crescimento económico como o simples aumento do rendimento per capita.
O PIB combina, sem contagem dupla, a produção realizada por todas as empresas, instituições sem fins lucrativos, órgãos do governo e das famílias em determinado país durante um período de tempo, desde que a produção ocorra dentro do território económico. (Lequiller e Blades, 2006)
No Relatório de Desenvolvimento Humano de 1996 estão descritas algumas limitações do PIB como: registar apenas as trocas monetárias; não contabilizar o lazer; contabilizar ―vícios e curas‖, por exemplo contabiliza uma vez a comida quando ela é consumida e uma segunda vez quando são gastos valores na indústria de dieta; não contabilizar a degradação do meio ambiente; e ignorar a liberdade humana. (PNUD, 1996)
10 No relatório Beyond Economic Growth são apontadas como limitações ao PIB, o facto de além de incluir os consumos das famílias residentes, também incluir serviços tais como a defesa. É uma medida resumo, nada diz sobre a distribuição dos rendimentos dentro de um país, nem indica se o crescimento é resultado do gasto em defesa ou pelo aumento de gastos com educação, por exemplo. (Soubbotina e Sheram, 2000)
Também para Soubbotina e Sheram (2000) o PIB per capita tem inúmeras limitações quando se trata da medição real do bem-estar das pessoas: não mostra como equitativamente a renda de um país é distribuída; não leva em conta a poluição ambiental, degradação e esgotamento dos recursos; não regista o trabalho que não é pago dentro das famílias ou comunidades, nem o trabalho informal e atribui igual importância a bens como medicamentos e cigarros, por exemplo.
Porém, apesar de serem muitos os críticos em relação a forma de medir o crescimento económico através do PIB, este mostra como a economia está no geral. A principal vantagem que suplanta todas a críticas é que todos os países têm este dado disponível para as suas economias e são fáceis de analisar.
Há uma correlação forte e positiva entre o que é medido pelo PIB e as outras medidas de bem-estar económico e social. Em países mais ricos normalmente significa que estão mais saudáveis, mais instruídos, e o rendimento é equitativamente distribuído (quebra o ciclo vicioso da pobreza). (Soubbotina e Sheram, 2000)
Uma ressalva muito importante é o facto de haver uma separação entre o que é um bom crescimento (quantidades) e o mau crescimento (inflação). O indicador da mudança na quantidade (PIB real ou PIB em volume) e um indicador na mudança nos preços (deflator do PIB). A mudança do PIB expresso em volume é o principal indicador da mudança na actividade macroeconómica. (Lequiller e Blades, 2006)
O PIB real mede a quantidade de todos os bens e serviços que são produzidos, informando assim sobre as alterações da produção agregada e conceptualmente é diferente do PIB nominal. O PIB real retira o efeito preço, consegue-se perceber se a produção aumentou, em vez do aumento dos preços. (Davis, 2009)
11
2.4.Taxas de Crescimento Económico
O crescimento económico é medido frequentemente pela taxa de crescimento do PIB. Sendo o crescimento económico um fenómeno de longo prazo, a taxa de crescimento deve exprimir basicamente a variação do produto independentemente das flutuações de curto prazo. (Figueiredo, et. al., 2008)
No mundo de informação em que vivemos é usual a banalização das taxas de crescimento, tanto em notícias, conferências de imprensa, revista, ou entre outros meios de comunicação. No entanto, é necessário saber em que contexto as taxas estão a ser utilizadas e como foram calculadas.
Segundo Diniz (2010), o PIB real per capita resulta da divisão entre o PIB nominal e o total da população (POP) multiplicando pelos preços (P):
Então, a fórmula da taxa de crescimento (tc) do PIB real per capita entre o ano 1 e o ano 2 escreve-se da seguinte forma:
Depois de conhecida a fórmula de cálculo da taxa de crescimento do PIB real per capita o passo seguinte é definir uma metodologia de conversão de valores, para que se possam comparar internacionalmente os níveis de rendimento.
Distinguem-se três métodos de comparação internacional de produto per capita: a taxa de câmbio simples; a taxa de câmbio ajustada— método ATLAS; e a paridade do poder de compra— PPC. O objetivo é encontrar um método que compare internacionalmente níveis de bem-estar material entrando em linha de conta com as diferenças de nível geral de preços entre as economias. O último método é apresentado como sendo o mais consistente. (Figueiredo, et. al., 2008, p. 32-48)
12 Segundo Kitov (2008) a comparação entre países implica que o PIB per capita esteja na mesma unidade monetária, havendo duas possibilidades, ou através do uso das taxas de câmbio ou através da paridade do poder de compra (PPC).
O conceito e a mensuração da Paridade do Poder de Compra para uso internacional (ou PPP, Purchasing Power Parity) foram desenvolvidos a partir do Programa de Comparações Internacionais das Nações Unidas. A PPC, embora com sérios problemas metodológicos, alguns intrínsecos, apresenta-se hoje como uma forma mais apurada para realizar comparações internacionais. (Kilsztajn, 2000)
A teoria da Paridade do Poder de Compra estabelece que, no longo prazo, ambos os níveis de preço nacional e estrangeiro são iguais quando medidos em termos da mesma moeda. A PPC implica que uma unidade de moeda, após conversão, deve trocar-se contra o mesmo cabaz de bens na economia nacional e no estrangeiro. (Duarte, 2001) Para comparar internacionalmente o PIB em volume é necessário cumprir quatro condições: (1) a definição do PIB tem que ser o mesmo; (2) a medição do PIB tem que ser a mesma; (3) a unidade monetária em que o PIB é expresso tem que ser a mesma; (4) e o nível de preços em que o PIB é valorizado tem que ser o mesmo. A primeira condição é atendida através dos dois sistemas internacionais de contas nacionais (SNA 93 e ESA 95); relativamente à segunda condição não há uniformidade em todos os países, no entanto as organizações têm trabalhado nesse sentido para melhorar a compatibilidade das estimativas do PIB; a terceira condição é conseguida em alguns países da zona euro; em relação à última condição, esta também não é atendida porque os países apresentam diferentes níveis de preços. Assim sendo, as taxas de câmbio dão resposta à terceira condição, no entanto só quando surge a PPC é que se consegue satisfazer a quarta condição, pois a PPC é uma taxa de conversão de moeda e deflator de preços. (OCDE, 2005)
É de referir que a PPC é importante sobretudo quando se pretende comparar países com diferentes níveis de desenvolvimento como é o caso neste trabalho.
13
2.5.Teoria do Crescimento Económico
A discussão da problemática do crescimento económico não é nova, foram vários os autores que contribuíram para que a teoria do crescimento económico se desenvolvesse ao longo dos vários anos, na tentativa de encontrar fatores determinantes da taxa de crescimento.
O objetivo deste ponto passa por ser feita uma pequena análise à teoria económica e aos seus modelos de crescimento.
O modelo de Solow em 1956 tornou-se como principal marco teórico. A importância deste modelo foi comprovada pela resistência que tem apresentado face ao confronto com cerca de 50 anos de evidências empíricas. Ainda hoje o modelo de Solow está presente na formação universitária como base macroeconómica. (Figueiredo, et. al., 2008).
Apesar de toda a importância que este modelo representa, não é possível desprezar ou omitir os contributos dados pelos economistas clássicos, senão vejamos.
O Crescimento Económico – Clássicos
Como contributos prestados por Adam Smith 1956 temos principalmente o conceito de rendimentos crescentes que o processo de divisão social e técnica do trabalho permite gerar. A divisão social e técnica do trabalho assegura, via rendimentos crescentes, condições para a reprodução sustentada do crescimento económico. (Figueiredo, et. al., 2008)
A capacidade de se proceder à divisão social do trabalho aliada à especialização, permite aumentar a produção e consequentemente a acumulação de capital, necessário ao crescimento económico. Enquanto não houver obstáculos à divisão social do trabalho e à especialização o crescimento económico continuará indefinidamente. (Diniz, 2010) O contributo de David Ricardo 1817 adianta consequências penalizadoras para o desenvolvimento do capitalismo que resultam do facto de a terra ser um factor fixo sujeito à lei dos rendimentos marginais decrescentes, que conduziu à tese do estado
14 estacionário. Este modelo também foi importante pela apresentação de temas como a acumulação de capital, crescimento e distribuição funcional do rendimento entre os fatores de produção. (Figueiredo, et. al., 2008)
Malthus 1798 introduziu o conceito de rendimentos decrescentes causados pela existência de fatores fixos de produção. Malthus não via com bons olhos o crescimento da população, referindo as tão conhecidas restrições ao crescimento da população, que se resumiam na abstenção moral no vício e na miséria. Contudo negligenciou o papel do progresso tecnológico. (Diniz, 2010)
Joseph A. Schumpeter 1934 deu o seu contributo nos seguintes pontos: a questão da inclusão da inovação, de novos produtos, dos métodos de produção e posteriormente a análise de que a inovação não acontece repentinamente, mas através de ações requeridas pelas empresas. (Pereira, 2003). Ou seja, dá-se o tão famoso fenómeno da destruição criadora que é o processo de desenvolvimento, na sua essência, e que implica uma constante e profunda concorrência entre maneiras novas e antigas de fazer as coisas. (Diniz, 2010)
Crescimento Económico – Neoclássicos
Harrod 1939 e Domar 1946, sendo de influência Keynesiana, desenvolveram um modelo independente um do outro, partindo do pressuposto de que há um número ilimitado de desempregados e por isso a produção pode ser aumentada sem o recurso ao aumento de custos e por conseguinte ao aumento dos preços. Parte também de outro pressuposto: o investimento produtivo é sempre igual à poupança logo, cada unidade adicional de capital aumenta o produto e que cada aumento de poupança se traduz num aumento de investimento, então, um aumento de poupança acarretará sempre um aumento da taxa de crescimento. (Diniz, 2010)
O modelo de Solow 1956 surge em resposta ao modelo de Harrod Domar e tornou-se num modelo padrão do crescimento económico porque permite uma análise crítica da compreensão do processo de crescimento. (Diniz, 2010)
O modelo de Solow focou-se em quatro variáveis o produto (Y), o capital (K), trabalho (L) e o progresso tecnológico (A).
15 Segundo Solow a taxa de poupança e o investimento não têm qualquer efeito a longo prazo na taxa de crescimento económico. O progresso tecnológico como fonte de crescimento económico a longo prazo (variável exógena). Solow também admite rendimentos decrescentes do fator capital, o que faz com que amorteça o efeito do investimento no crescimento do produto per capita. O crescimento da população também não foi esquecido sendo, no entanto, considerado uma variável exógena ao modelo. (Diniz, 2010)
Há quem defenda que estes dois modelos anteriores são o marco teórico importante: o primeiro como fundador da teoria do crescimento económico e o segundo sendo ainda a principal referência da atualidade.
Em contrapartida aos modelos exógenos, surge uma nova teoria, a teoria do crescimento endógeno em que a motivação essencial reside na tentativa de explicar o crescimento de longo prazo. O progresso tecnológico deixa de ser considerado uma variável aleatória independente das estratégias das empresas e passa a ser entendido como algo que deriva precisamente de inovações destas últimas, para captar rendas extraordinárias, os fatores passam a ser explicados pelos modelos e deixam de ser uma caixa negra. (Dias, 1997/1998)
Segundo Barro (1996), os trabalhos recentes sobre a teoria do crescimento endógeno tem procurado suprir a falta de explicação do crescimento a longo prazo. O progresso tecnológico é um dos elementos centrais em falta do modelo neoclássico.
Por este ser um corpo teórico recente, vou fazer só uma pequena referência a algumas contribuições prestadas, baseado no trabalho de pesquisa de Pereira (2003).
Cass e Koopmans 1965, endogeneizaram a taxa de poupança, deixando de ser uma função constante e passa a ser determinada de forma exógena. No entanto mantêm o pressuposto de que toda a poupança é transformada em investimento produtivo. (Pereira, 2003 e Diniz, 2010)
As contribuições de Arrow 1962 e a Sheshinski 1967 foram sobre a formulação moderna do “learning-by-doing” (aprender fazendo), ou seja, a criação do conhecimento decorre do processo produtivo.
16 Durante um período de mais ou menos 15 anos nada mais foi anotado como nova contribuição ao estudo da teoria do crescimento. Surgem então as contribuições de Romer 1986 e Lucas 1988 que contribuíram na questão do progresso tecnológico endógeno e na incorporação do “learning-by-doing”, do capital humano e de externalidades. Para Lucas o capital humano era o motor do progresso tecnológico. São apresentadas como últimas contribuições as de Romer 1987 e 1990, as de Aghion e Howitt 1991 e as de Grossman e Helpman 1991, eles inseriram, dentre outras coisas, a incorporação da investigação e do desenvolvimento, a concorrência imperfeita, o governo e o progresso tecnológico nos modelos.
Figura nº 2.1: Determinantes do Crescimento
Fonte: autor, baseado em Pereira (2003), quadro nº1.
Impulsionadores do Crescimento
• Escolaridade
• Investimento em Educação • Investimento em Equipamentos • Nível de Capital Humano • (...)
Redutores do Crescimento
• Gastos do Governo em Consumo • Instabilidade Social e Política • Barreiras ao Comércio• Socialismo • (...)
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- Balanço Provisório das Teorias de Crescimento Endógeno
No artigo escrito por Dias (1997/1998) foi feita uma referência a aspectos positivos e negativos que são apontados à nova teoria do crescimento.
Apesar da teoria do crescimento continuar a evoluir, o modelo de Solow continua a ser um ponto de referência apesar de apresentar algumas limitações. No entanto, é importante referir os avanços que a teoria do crescimento endógeno apresenta, ainda que recentemente.
Dias (1997/1998) destacou dois avanços desta teoria que considerou mais importantes. O primeiro, que se prende com as fontes de crescimento. As teorias de crescimento endógeno procuram explicar essas fontes dentro do sistema económico. Como principais fontes temos:
- os rendimentos de escala constantes ou crescentes no investimento (podem resultar de externalidades positivas associadas à acumulação de capital, o conhecimento é visto como um bem público puro. Logo a aprendizagem pela prática irá beneficiar as restantes empresas);
- a Investigação e Desenvolvimento (I&D);
- as competências dos trabalhadores, acumuladas por via dos investimentos em educação;
- as infraestruturas públicas (visa combater a ideia de que o estado só vem introduzir distorções no sistema económico contudo, o estado fornece as infraestruturas, a formação e conservação do capital humano e a garantia dos direitos de propriedade). O segundo avanço deriva do anterior, e tem a ver com o papel que as externalidades desempenham nestes modelos. Na presença de externalidades os mecanismos de mercado tornam-se sub ótimos.
Não há consenso entre os economistas e são citadas duas falhas neste tipo de modelos. A primeira tem a ver com o facto de considerarem que há uma multiplicidade de mecanismos que no fundo convergem todos para a mesma teoria económica e a segunda tem a ver com os fatores que estão na base do crescimento endógeno serem supostamente invariantes no tempo e no espaço.
18 Para uma formalização mais completa do crescimento económico é necessário ter em conta aspetos e dimensões da evolução das economias de mercado tais como a evolução diferenciada de firmas e setores, a complexidade dos processos de formação e acumulação de conhecimento técnico, a evolução das instituições e o papel da procura dinâmica de longo prazo. (Figueiredo, et. al., 2008)
A evolução da teoria do crescimento económico proporcionou um maior arcabouço teórico e científico, permitindo uma melhor análise da evolução do PIB dos países ao longo do tempo. Aos modelos onde constavam as variáveis capital e trabalho foram-se acrescentando o capital físico, capital humano, trabalho e tecnologia/inovação. (Pereira, 2003)
Há sempre o reverso da moeda, como em tudo em Economia, e as dúvidas em relação ao crescimento económico não são novas, apesar de se ter verificado um aumento da riqueza aquando do nascimento da indústria, os benefícios ficaram concentradas nas mãos de algumas elites e de alguns países ricos. Para muitas pessoas crescimento económico era visto como uma nova forma de escravização. (PNUD, 1996)
Por muitos anos o crescimento económico tem sido o grande objetivo dos decisores e líderes políticos, pois o crescimento económico era visto como a solução de muitos problemas económicos e políticos. Esta opção, conduziu a um crescimento económico desequilibrado. Era óbvio que este crescimento não podia continuar e não tardou a que começasse a surgir um outro vocábulo ―crescimento sustentável‖, ou seja, um crescimento económico virado para o desenvolvimento – é um crescimento que promove o desenvolvimento em todas as suas dimensões, ou seja, um crescimento que gera pleno emprego e assegura os meios de subsistência; que promove a liberdade das pessoas e a sua capitação; que distribui os benefícios de forma equitativa; que promove a coesão social e a cooperação; e que garante o desenvolvimento humano futuro. (PNUD, 1996)
Chegando a este ponto é indiscutível a ligação que parece existir, embora não consensual, entre crescimento económico e desenvolvimento humano. (PNUD, 1996) ―de uma perspetiva de desenvolvimento humano, crescimento económico não é um fim em si mesmo. É um meio, para um fim de alargar as escolhas das pessoas.‖
19 O crescimento económico (muito limitado na sua esfera económica) por si só não se transforma em desenvolvimento humano, por outro lado, o desenvolvimento adivinhava-se como uma forma de liberdade – alargamento de escolhas. O passo seguinte é perceber afinal do que se trata quando se fala em desenvolvimento económico e sobretudo em desenvolvimento humano.
2.6.Síntese e Conclusão do Capítulo
O crescimento económico segundo Kuznets pode ser definido como o aumento a longo prazo da capacidade de oferecer à população bens económicos cada vez mais diversificados.
Este fenómeno é medido pelo PIB, apesar de lhe serem apontadas várias críticas como: o registar apenas trocas monetárias; incluir serviços como a defesa; não contabilizar o lazer nem o trabalho feito pelas comunidades que não é pago; não mostrar como o rendimento está distribuído; etc. No entanto, mostra como a economia está no geral, os dados estão disponíveis para todos os países e estes são fáceis de analisar.
O PIB tem uma forte correlação positiva com as outras medidas de bem-estar económico e social.
Para que se possa comparar o PIB a nível internacional é necessário cumprir quatro condições: (1) a definição do PIB tem que ser a mesma; (2) a medição do PIB tem que ser a mesma; (3) a unidade monetária tem que ser a mesma; (4) e o nível de preços a que é valorizado tem que ser o mesmo.
Apesar da teoria do crescimento ter evoluído, o modelo de Solow continua ainda hoje a estar presente na formação universitária. Aos modelos onde constam as variáveis capital e trabalho foram-se acrescentando o capital físico, capital humano, trabalho e tecnologia/inovação.
Um bom crescimento económico deve estar voltado para o desenvolvimento humano, uma importante deixa para a introdução do capítulo seguinte.
20
Capítulo III – Desenvolvimento Económico / Humano 3.1. Introdução
O desenvolvimento humano, e segundo o que está descrito pelo PNUD, é um processo de alargamento de escolhas. Este fenómeno não contempla só a parte económica como o crescimento económico, contempla também a parte social e política.
Sendo um fenómeno complexo e multidimensional foi criado, em 1990 o IDH como forma de medir o desenvolvimento humano. Este índice compreende três dimensões: o conhecimento, uma vida longa e saudável e um nível de vida digno.
Em 2010 foram assinalados os vinte anos de existência do IDH e houve um reforço do conceito de desenvolvimento humano e o próprio índice sofreu alterações em relação aos indicadores que compõem as três dimensões e em relação à forma de cálculo.
O conceito de crescimento económico e desenvolvimento humano encontram-se ligados: o crescimento é o meio para atingir o desenvolvimento, que é o fim.
Este capítulo tem como objetivo definir o conceito de desenvolvimento humano, passando pela definição e objetivos do desenvolvimento sustentável. Expõe o IDH como medida principal do desenvolvimento humano e ainda se exploram algumas ligações entre desenvolvimento humano e crescimento económico.
3.2. Conceito de Desenvolvimento Económico / Humano
A Definição
Para melhor compreensão deste fenómeno importa atender à génese da palavra – desenvolvimento.
Para Houaiss, et. al. (2007), o desenvolvimento é considerado como: uma acção ou efeito de desenvolver- (se), desenvolução; aumento da capacidade ou das possibilidades de algo; crescimento, progresso, adiantamento.
Atendendo a esta definição, vemos que o crescimento e o progresso estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento, ou seja, são o meio para que se alcance o
21 fim que é o desenvolvimento. De acordo com Diniz (2010) ―O progresso será visto como uma plataforma ou uma rampa de lançamento para o desenvolvimento…‖ (p.37). As diferentes instituições agrupam os países em grupos de desenvolvimento, segundo diferentes critérios. Por exemplo, o Banco Mundial agrupa os países usando o PIB per capita. (Soubbotina e Sheram, 2000)
Muitos são os autores que vão dando o seu contributo na definição de desenvolvimento, uns pela via das necessidades básicas, outros pela melhoria nas condições de vida, aumento do emprego e aumento do rendimento. Este conceito é multidimensional e complexo pois, não engloba só a parte económica, mas também aspectos sociais e políticos. Ao longo de várias décadas existiram várias alterações. Nos anos 60, por exemplo, não era dada importância ao desenvolvimento, ou melhor, acreditava-se que o crescimento económico levaria ao desenvolvimento humano. Na década que se seguiu, o otimismo em relação ao crescimento económico desaparece devido ao aumento das desigualdades entre países. Na década de 80 o termo que se aplicava era o desenvolvimento sustentável – permite satisfazer as necessidades das gerações presentes sem comprometer as gerações futuras. É então que, na década de 90 e através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento com a apresentação do primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano é introduzido o conceito de desenvolvimento humano, onde o ser humano passa a ser o centro de todo o processo.
Figura nº 3.1: Evolução de Conceitos_Evolução de Mentalidades
Fonte: autor Anos 60 •Crescimento Económico Anos 70 •Desenvolvimento Económico Anos 80 •Desenvolvimento Sustentável Anos 90 •Desenvolvimento Humano
22 O desenvolvimento sustentável é um termo que é amplamente utilizado por políticos de todo o mundo. Importante como ele é, este conceito é revisto, ampliado e refinado constantemente. O desenvolvimento é sustentável quando satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades. A acumulação de riqueza nacional é o indicador do desenvolvimento sustentável. O cálculo das taxas de poupança real para os diferentes países é extremamente desafiador devido à dificuldade da valorização do capital humano. (Soubbotina e Sheram, 2000)
Figura nº 3.2: Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
Fonte: autor, baseado em Soubbotina & Sheram (2000), figura 1.2, p.9.
Como mostra a figura, o desenvolvimento sustentável contempla objetivos económicos, ambientais e sociais. Tudo isto, com o intuito de satisfazer as gerações presentes sem comprometer as gerações futuras. Estes objetivos não deixam de ser ambiciosos, no entanto parecem objetivos ideais.
O primeiro capítulo do RDH de 1990 não poderia começar de maneira diferente, senão com uma declaração que funciona como rampa de lançamento para a definição de desenvolvimento humano, fazendo um ―corte‖ com o crescimento económico. ― As pessoas são a verdadeira riqueza de uma nação. O objetivo básico do desenvolvimento é
Objetivos
Económicos
• Crescimento • Eficiência • EstabilidadeObjetivos
Ambientais
• Ambiente Saudável • Uso Racional dosRecursos Naturais Renováveis • Conservação dos Recursos Naturais não Renováveis
Objetivos Sociais
• Equidade • Coesão Social • Mobilidade Social • Participação • Identidade Cultural23 criar um ambiente habilitador para que as pessoas tenham vidas longas, saudáveis e criativas. Isto pode parecer uma verdade simples. Mas é frequentemente esquecido, com a preocupação imediata de acumulação de bens e riqueza financeira.‖ (PNUD, 1990, p.9)
Como definição curta de desenvolvimento humano é citado no mesmo relatório que ―O desenvolvimento humano é um processo de alargamento de escolhas das pessoas. As mais vitais são as de levar uma vida saudável, de receber instrução e de desfrutar de um padrão de vida digno‖. (PNUD, 1990, p.10)
3.3 Como Medir o Desenvolvimento Humano
Existem pelo menos dois índices que medem o desenvolvimento humano: o IDH e o Development Diamonds, sendo que o primeiro é o mais conhecido e utilizado.
Para medir o desenvolvimento humano o Banco Mundial usa o chamado Development Diamonds. Este relaciona quatro indicadores (expectativa de vida ao nascer; matrículas brutas no ensino primário; acesso à agua potável; e RNB per capita) para um determinado país em relação à média do rendimento de um grupo de países (rendimento baixo; rendimento médio-baixo; rendimento médio-alto; e rendimento alto). Esta metodologia tem as desvantagens de visualmente não ser muito explícita e não poder ser usada para comparar países que estão num grupo de rendimento diferente. (Soubbotina e Sheram, 2000)
O conceito de desenvolvimento humano contempla três aspetos essenciais que têm que ser quantificados para que este conceito seja passível de ser mensurado, segundo as Nações Unidas. Foi criado um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que tem por base incluir as três dimensões do desenvolvimento humano – saúde, educação e nível de vida. Começa então também aqui a grande diferença em relação à medição do crescimento económico, e ao mesmo tempo um desafio de enquadrar estas dimensões num só índice. O IDH varia entre zero e um, quanto mais um país estiver afastado de um e mais próximo de zero, maiores serão as suas carências.
24
Figura nº 3.3: Componentes do IDH
Fonte: autor, baseado em Diniz (2010) no quadro 1.4. p.50 A popularidade e o interesse que este Relatório despertou com a introdução deste importante instrumento de medição do desenvolvimento humano que é o IDH, trouxeram louvores e algumas críticas, continuando ainda nos dias de hoje a ser um tema muito debatido na área económica.
O IDH é criticado por várias razões: é limitado no número de dimensões; é composto por indicadores simples; implica possibilidades de substituição ilimitada entre as três dimensões; a insensibilidade do IDH a uma desigualdade entre os subgrupos da população; e o facto de ser uma média. Esta última é apontada como uma das grandes críticas. (Harttgen e Klasen, 2010)
No entanto ao longo destes anos o IDH foi considerado um índice de sucesso, os seus pontos fortes como a transparência e simplicidade evidenciaram-se ofuscando, assim, todas as críticas. Também podem ser consideradas como argumentos às limitações do IDH, o Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Género (IDG), o Índice de Pobreza Humana (IPH), e a Medida de Participação Segundo o Género (MPG). Estes índices complementam as informações dadas pelo IDH, ao nível da pobreza, desigualdade entre géneros e pela participação política e económica das mulheres
Dimensões
Indicadores
25
- Alterações / Aperfeiçoamento do Conceito de Desenvolvimento Humano e do IDH
Ao longo destes 20 anos e com a produção dos vários relatórios houve sempre uma articulação entre o conceito de desenvolvimento humano e os vários temas que caracterizaram cada um dos relatórios. No quadro que se segue dá para ter uma pequena ideia de como o conceito se foi alterando.
Quadro nº 3.1: Definições curtas de Desenvolvimento Humano desde 1990 Anos Definição
1990 Um processo de alargamento das escolhas das pessoas.
1991 O objectivo real do desenvolvimento é aumentar as escolhas das pessoas. 1992 Um processo de alargamento das escolhas das pessoas.
1993 Envolve o alargamento das escolhas [pessoas].
1994 Para criar um ambiente no qual todas as pessoas possam expandir suas capacidades. 1995 Um processo de alargamento das escolhas das pessoas.
1996 Um processo de alargamento das escolhas das pessoas. 1997 O processo de alargamento das escolhas das pessoas. 1998 Um processo de alargamento das escolhas das pessoas. 1999 O processo de alargamento das escolhas das pessoas. 2000 Um processo de reforço das capacidades humanas.
2001 Sobre a expansão das suas escolhas para levarem uma vida que eles valorizem.
2002 Sobre pessoas, sobre a expansão das suas escolhas de levar uma vida que eles valorizam. 2003 Para melhorar a vida das pessoas, expandindo as suas escolhas, liberdade e dignidade. 2004 O processo de alargamento de escolhas para as pessoas fazerem o que valorizam na vida.
2005 Acerca das capacidades humanas, um conjunto de coisas que as pessoas podem fazer, e o que podem ser.
2007/8
Sobre a expansão das escolhas das pessoas e das suas liberdades substantivas -as capacidades - que lhes permitam levar uma vida que valorizem.
2009 A expansão da liberdade das pessoas, a viverem as suas vidas como quiserem.
2010 Ampliar a liberdade de escolha das pessoas – capacitar as pessoas para participarem activamente no processo de desenvolvimento.
2011 O desenvolvimento humano, que consiste em alargar as escolhas das pessoas, baseia-se na partilha dos recursos naturais.
26 Em conformidade com a análise deste quadro pode ver-se que as pessoas estão no centro do desenvolvimento, ou seja, a ampliação das escolhas das pessoas, da liberdade, das suas capacidades e dignidade. A primeira definição feita em 1990, no fundo veio-se reafirmando ao longo das várias definições que foram feitas posteriormente.
Também pelo estudo efetuado por Alkire (2010) verifica-se que ao longo dos anos, com a publicação dos diferentes relatórios, foram introduzidas várias dimensões no conceito de desenvolvimento humano. Fazendo referência às que foram mais utilizadas, temos: um nível de vida digno; uma vida longa e saudável; o conhecimento; liberdade política; garantia dos direitos humanos; respeito próprio; ser criativo; e ser produtivo. São contudo, as três dimensões contempladas no primeiro relatório que se mantiveram ao longo de todos os relatórios sem exceção. Esta flexibilização que é atribuída a este conceito através, não só dos diferentes relatórios mas também pelas várias dimensões que pode adquirir, é vista como uma vantagem pois é conseguida uma adaptação a vários contextos – culturais e nacionais, países ricos e pobres.
No fundo, a ampliação das escolhas das pessoas é o fundamental, mas não o suficiente, deve ser acompanhada pelos princípios, como a equidade, sustentabilidade, a eficiência, o respeito pelos direitos humanos e a responsabilidade.
3.4. Desenvolvimento Humano_2010
Segundo Alkire (2010) a nova declaração do conceito de desenvolvimento humano é a seguinte: ―O Desenvolvimento Humano tem como objetivo expandir a liberdade das pessoas – capacidades que valem a pena as pessoas valorizarem – e capacitar as pessoas a participarem ativamente nos processos de desenvolvimento, num planeta compartilhado. E procurando fazer isso de forma, a que apropriadamente se promova a equidade, a eficiência, a sustentabilidade e outros princípios fundamentais.‖
No RDH de 2010 foi feito um aperfeiçoamento no IDH, embora se mantenham as três dimensões – saúde, educação e nível de vida – as alterações deram-se em relação aos indicadores usados e na forma como são agregados.
27
Figura 3.4: Componentes do IDH_2010
Fonte: autor, baseado em PNUD (2010), p.13.
A figura deixa transparecer as alterações efetuadas em relação ao IDH. Relativamente à dimensão uma vida longa e saudável o indicador associado à dimensão não foi substituído por nenhum outro mantendo-se a esperança de vida à nascença; a dimensão
conhecimento vê os seus dois indicadores anteriores a serem alterados. A média de
anos de escolaridade é estimada na maior parte dos países, por isso substituiu a taxa de escolaridade bruta. Os anos de escolaridade esperados substituiu a taxa de alfabetização de adultos, assim está de acordo com toda alteração, por ser feita em anos; por último, a dimensão nível de vida digno, o indicador PIB per capita foi alterado pelo RNB per capita (rendimento nacional bruto) porque devido a toda a conjuntura económica global não faz sentido medir só a produção interna. Uma última alteração que não está evidenciada na figura anterior, mas que é muito importante e responde a uma crítica, foi o facto de ser alterado o método de cálculo para uma média geométrica dos índices de dimensão que evita a substituibilidade entre eles. (PNUD (2010), caixa 1.2, p.15)
Dimensões
Indicadores
28 Todas estas alterações não transformaram o IDH numa outra coisa qualquer; a origem do índice não foi alterada mantendo a simplicidade e a praticidade que tanto o caracteriza. Estas alterações no fundo traduzem uma evolução, aperfeiçoamento e celebração dos 20 anos de existência do IDH.
3.5. Ligações entre o Conceito de Crescimento Económico e Desenvolvimento Humano
A problemática que existe entre o crescimento económico e o desenvolvimento humano, não é nova e não tem um fim à vista. Estes conceitos estão intrinsecamente ligados o que torna difícil perceber o limiar entre um e outro, se é que ele existe.
Estes conceitos apresentam ligações diferentes de dependência, isto se estivermos a falar no curto ou no longo prazo. O crescimento económico e o desenvolvimento humano no curto prazo tendem a ser independentes um do outro. Por outro lado, se estivermos a falar no longo prazo tendem a mover-se em conjunto.
Além destas ligações, existem ligações fortes que neste caso ambos contribuem um para o outro tornando a ligação ainda mais forte, e ligações fracas ou desequilibradas que neste caso levam a que se comprometam um ao outro.
A figura seguinte é interessante porque nos permite visualizar de uma forma rápida as várias ligações existentes entre o crescimento económico e o desenvolvimento humano. Com certeza que não estão aqui todas a ligações porque é um tema complexo. No entanto, o RDH de 1996 abarcou um bom conjunto.
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Figura 3.5: Ligações entre o Crescimento Económico e o Desenvolvimento Humano
Fonte: PNUD (1996), figura 3.3, p.68.
A ligação entre crescimento económico e desenvolvimento humano não é automática, como é várias vezes afirmado ao longo de todo o RDH de 1996. A figura 3.4 mostra um ciclo ou uma cadeia de reações entre crescimento económico e desenvolvimento humano. Também aqui é importante que as ligações sejam fortes, caso contrário, esta cadeia deixa de funcionar.
O crescimento económico por si só não funciona, ou seja, não permite que se chegue a um desenvolvimento humano. Para isso é necessário que as famílias e o estado de um
Emprego Produção, I&D e Tecnologia Capacitar trabalhadores e agricultores gestores empresários Composição da produção e das exportações Poupança Externa Capital Físico Poupança Interna Desenvolvimento Humano Reprodução Social Gastos sociais prioritários Emprego Atividades domésticas e gastos Despesas com necessidades básicas
Distribuição de recursos públicos e privados Capital social, ONGs e Organizações Comunitárias
Crescimento Económico Instituições e Governo
Política do Governo e das
30 país contribuam, que é o que está representado nas duas setas que levam ao desenvolvimento humano.
Segundo o que está escrito no RDH 1996, as atividades domésticas contribuem fortemente para o desenvolvimento humano, ainda que estas atividades sejam invisíveis nas contas nacionais. Não importa a quantidade de dinheiro gasto pelas famílias mas sim, naquilo em que é gasto. Está comprovado que quando são as mulheres que controlam o dinheiro é mais provável que este seja gasto em desenvolvimento humano. Por isso, se as famílias investirem em comida, educação e saúde obtêm-se pessoas nutridas, capazes e saudáveis. Também as atividades económicas potenciam as despesas em necessidades básicas.
O papel do estado é muito importante em todo este ciclo, na medida em que é necessário haver uma distribuição dos recursos públicos e privados. A política dos governos toma aqui um papel de grande importância para incentivar a criação de empregos e, consequentemente, o aumento dos salários reais, para a correção de falhas de mercado que tendem a inibir o investimento e incentivar os privados para investiram em desenvolvimento humano.
O desenvolvimento humano também contribui para mais crescimento económico. Com o aumento da escolaridade, há um aumento da produtividade que depende por sua vez da tecnologia disponível. Capacitar as pessoas permite, por exemplo, que os agricultores estejam mais informados e tenham mais capacidade de aprender com a sua experiencia e com a dos outros traduzindo-se em aumentos de produtividade. Acontece o mesmo no que diz respeito à tecnologia, países do Leste Asiático absorvem tecnologia estrangeira, ou seja, no fundo aprendem com os outros também. É necessário combinar aumentos de tecnologia com pessoas instruídas e com I&D. Desta interação entre desenvolvimento humano e tecnologia resulta numa alteração do padrão do comércio. Pessoas mais capazes exportam produtos manufacturados/transformados em vez de produtos primários e assim permitem beneficiar de vantagens competitivas/ou de cadeia de valor. O desenvolvimento leva a que as taxas de poupança cresçam. No entanto, é necessário que os governos incentivem privados a mobilizarem esse capital para o investimento em I&D e para que não se corra o risco de haver fuga de capital.
31 Depois de expostas várias ligações entre crescimento económico e desenvolvimento humano, importa referir que todas estas reações não acontecem na perfeição em todos os países. Há desvios dos gastos do governo, por exemplo, há países que desperdiçam elevadas quantias em serviço militar que podiam ser canalizadas para o desenvolvimento; as elites pressionam os governos para satisfação dos seus interesses tanto a nível da educação como em saúde.
Fica uma dicotomia no ar: se para que estas ligações funcionem é necessário a intervenção do estado e das suas boas políticas, estes desvios de dinheiro e corrupção dos interesses são a negação ao desenvolvimento humano.
3.6. Síntese e Conclusão do Capítulo
É com a apresentação do primeiro RDH que surge o conceito de desenvolvimento humano – as pessoas são a verdadeira riqueza de uma nação, levando uma vida longa, saudável e criativa. O homem encontra-se agora no centro do desenvolvimento.
O IDH contempla estas três dimensões e varia entre 0 e 1, se um país estiver próximo de zero maiores são as suas carências. Sendo criticado por uns e utilizado por muitos, a verdade é que este índice é tão popular e já se cumpriu o seu vigésimo aniversário, apresentando alterações ao IDH como forma de resposta a certas críticas.
As ligações entre o crescimento económico e o desenvolvimento humano têm que ser fortes na medida em que contribuem um para o outro.
Para que as economias continuem e crescer economicamente e aumentem o nível de desenvolvimento humano é importante que as economias sejam também elas competitivas, uma economia aberta ao exterior tem a possibilidade de aumentar o seu rendimento. Ponto a ser explorado no capítulo seguinte.
32
Capítulo IV – Competitividade
4.1. Introdução
A competitividade aparece definida em vários artigos como sendo a capacidade de criar bem-estar, produtividade e aumento do rendimento.
Os líderes políticos têm uma certa obsessão por este termo, servindo para justificar certas escolhas. Porém tornar um país competitivo pode acarretar perigos como o desperdício de dinheiro, guerras comerciais, proteccionismo e uma má política pública em detrimento de assuntos importantes.
O RGC explica porque é que uns países são mais bem sucedidos que outros, utilizando um Índice Global de Competitividade composto por doze pilares de forma a abranger este fenómeno ao nível de requisitos básicos, requisitos de eficiência, e inovação e fatores de sofisticação.
Este capítulo tem como objetivo a definição de competitividade, a exploração de algumas definições de diferentes autores e a explicação do IGC.
4.2. Conceito de Competitividade
A Definição
Pelas inúmeras vezes que o termo competitividade nos é apresentado, quer por parte dos economistas, dos mass média e sobretudo pelos diversos líderes políticos, este termo parece-nos claro. Por detrás de toda esta naturalidade, a verdade é que este conceito se apresenta de uma forma muito mais complexa e imprecisa.
Há muitos artigos que definem competitividade como a capacidade de criar bem-estar (Aiginger, 2006), outros equiparam competitividade com produtividade, disponibilidade de recursos baratos. (Aiginger e Landesmann, 2002)
33 A competitividade pode também ser vista como a capacidade de uma economia para aumentar o rendimento numa economia aberta (Aiginger e Landesmann, 2002). É de referir que há vários conceitos de competitividade que se aplicam às economias nacionais como competitividade no mercado interno, competitividade dos preços externos, competitividade de custos externos e competitividade com base em fundamentos de crescimento. (Hawkins, 2006)
O termo competitividade é utilizado tanto a nível de uma empresa como de uma nação. No entanto, definir competitividade de uma nação é muito mais problemático do que a definição de competitividade de uma empresa. (Krugman, 1994)
Apesar desta dificuldade em definir competitividade, estão disponíveis várias definições de competitividade de uma nação, o que mostra um grande esforço para se chegar a uma definição, mas também a complexidade do termo. O quadro seguinte sugere várias definições ao longo dos anos e de diferentes autores.
Quadro nº4.1: Definições de Competitividade de uma Nação
Autor Ano Definição
Uri 1971 "A capacidade de criar as condições para salários altos"
The German Sachverständigenrat
1981 "Capacidade de desenvolver produtos especiais e soluções técnicas que geram o crescimento do rendimento sob o pleno emprego, apesar da concorrência emergente dos novos países industrializados"
Orlowski 1982 "A capacidade de vender"
Scott & Lodge 1985 "A capacidade de um Estado-nação para produzir, distribuir bens e serviços na economia internacional... e fazê-lo, para que ganhe nível de vida"
Fagerberg 1988 "A capacidade de um país central para realizar objetivos económicos, especialmente o crescimento do rendimento e do emprego, sem entrar em dificuldades na balança de pagamentos"
Porter 1990 "O único conceito significativo de competitividade a nível nacional é a produtividade nacional"
OCDE / TEP 1992 "Para produzir bens e serviços que atendam o teste da concorrência externa, ao mesmo tempo manter e expandir a rendimento real doméstico"
Competitive Policy Council (EUA)
1994 "A capacidade de vender produtos nos mercados internacionais, enquanto aumenta o rendimento nos mercados domésticos de uma forma sustentável"