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ARTES VISUAISUniversidade
deÉvora
Departamento de Artes Visuais Meshado em Artes Visuais/
IntermédiaOlhar
para Dentro
/ Olhar
para Fora
A
dialécticainterior /
exterior
no espaço dapintura
Disserta$o
deMestrado
Orientador - Professor Doutor Filipe Rocha da Silva
Carlos José Correia Femandes
Abril
de 2008ARTES VISUAIS
Universidade
deÉvora
Departarnento de
AÍes
VisuaisMestado
em Artes Visuais / IntermédiaOlhar
para Dentro
/
Olhar
para
Fora
A
dialécticainterior
/ exterior
no espaço itapintura
AS
L,Liê
I
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Dissertaçãou"**Tuyr{
ill,_
Orientador - Professor Doutor Filipe Rocha da Silva
Carlos José Correia Fernandes
Abril
de 2008Áru
Departanental dasArtc
B-o
-
7Ão
EtrEadaN.o
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Data
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Olhar
para
dentro
/
Olhar
parafora
A
dialéctica
interior
/
esderior
no espaço
dapintura
A
articúação entre teoria epútica
é um dos princípios orientadores da nossa tese.Partindo de uma questÍio
-
a dialectica interior / exterior como intervalo e,nte intuição ep€nsamento racional - surgida na nossa prática de esúdio, tentámos detectar a existência dessa mesma questÍio (ou de vestígios dela) no
tabalho
de vários artistas psrtencentes a épocas diversas. Assim, colocámos em confronto o Renascimento e a presente epocaUma vez que a obra
de
,m determinado artista não é imune ao que a rodeia"lançamos um olhar aos diversos aspectos que, na nossa opinião, mais influenciaÍam a produção pictórica das duas
épcas
em anáIise.Ainda que durante o texto surjam referências a outros artistas e a
oufas
obras, a maior porção da nossa atenção recai, na época do Renascimeúo, sobre Fra Angélico, SandroBoticelli
e Leonardo DaVinci
e nos nossos dias sobre Dana SchrE, Neo Rauche Glenn Brown"
A
ultima parte da investigaçiio é dedicada à interpretaçÍlo da dialégtica inte,Íior/
exterior na nossa produção pnáticaLook
inside
/
Look
ouÍside
The
interior
/
derior
dialectics
in
the space
of patnüng
The articulation between theory and practice is one of the main principles of our thesis. Departing from one question
-
the interior/
eÉerior dialectics as anintsrval
between
intuition
and rational thought-
formulated in our studio practice, we hadtried
to
find
out this same question (or her vestiges) in the workof
artists belongingto
different epochs. Therefore, we had confronted the Renaissance and
úe
present Being tbat one artistswork
is not indifferent to thestuffrhat
surrormds it, we had looked at several aspects that, in our opinion, had influenced the pictorial productionof
the two epochs zubmitted to analysis.During the text they might appear references to some other artist and works,
bú
our great attention goes for, in the Renaissance epoclu Fra Angelico, SandroBoticelli
andkonardo
DaVinci
andin
our days for Dana Schutz, Neo Rauch andGlern
Brown. The last partofour
study is dedicatsd to the interpretationofthe
interior / extedor dialecücsin
our own practical production.folnrcr
Reconhecimento edeücatória...
6INTRODUÇÃO
8a)
A dialéctica ,,,...14 ...,...,,17 b) c) d)() conllito Apolo / Dionísio em Frederico Niebche ..
A imagem dialéctica em
\talter
Benjamin ...Aby lYarburg e a sobrevfuência
t9
...,.,.,.2| ,...'...,....24 ?§ ...28 ..32..34
e)
A intulçâo em Henri Bergson ...D
CI
h)
D
Rlzoma e coÍpo sem Órydos em Gilles Deleuze e Féllx Guattari
A Montuge em Sergei IM. Eisenstein
O espaço da plntura em Eliane Escoubas
Outros pontos de vista sobre o interior e o exter1or...
PRIMEIRAPARTE
Capftulo
I
A
dial6ctica
interior
/exterior
napintura
do Renascimento1.1
-
Os textos firndadores12
-
Retórica e pintura ....13
-
Os oradores1.4-
Ae@hrasis
e pintura 1.5-
Os tratados...1.6
-
O início de uma critica de arte?...1.7
-
A
estetica da inquietação... 444
5l
54 .58 62 74 801.8
-
O artista e a sociedade na época do Renascimento 86 1.9-
As relações comerciais entre artistas e patronos ...-921.10
-
O impacto das reformas religiosas na produção artística .-...96 1.11-
o
aparecimento das Academias e as relações entre mestre e discípu1o...101 1.12-
únplicações exteriores no interior do plano: a perspectiva e a composição..l03Capítulo
2 Osaúistas
2.1
-
Fra Angélico-
A
representação do invisível religioso...2.2- Boticelli
-
A
pele e as entranhas23
-
Leonardo - O reverso dos esboços e as manchas na parede..Capítulo
3A
dialéctica
interior /exterior
napintura
dos nossos dias 3.1-
Os nossos dias3.1
-
Pintura e tecnologia 3.2-
O peso da tradição ....33
-
Os fantasmas de hoje3.4 - Dentro e fora do plano: Marcel Duchamp e Gerhard Richter ... 3.5
-
As histórias de Dana Shutz3.6
-
A
composição interior em Neo Rauch 3.7-
A
particular revisão de Glenn Brown.114 ...123
...t32
SEGL]I\DA
PARTE
,...,142 142 145 148 157 168 177 ..180 ..182TERCEIRAPARTE
Capítulo
4Olhar
para dentro
/Olhar
para
fora:
uma experiência pessoalCONCLUSÃO
ÍNucr
DE
rLUsrRAÇoEs....
IMAGENS
I
-
Tese Teorica...IMAGENS
II
-
TesePrática...
IMAGENS
III
-
Selecçâo detrabalhos
realizadosdurante
operíodo
de elaboraçâo da teseBIBLIOGRÂFIA
187 187 193 203 219 282 292 320Reconhecimento e
dedicatória
Agradeço aajuda do meu orientador, Professor Filipe Rocha da Silva. Agradego também irqueles que, por acreditarem no meu
trúalho,
tornaram possível arealiração deste estudo: os galerisüas Andrea Baginski, Pedro Oliveira e Luís Serpa, os curadores Miguel von Haffe Pérez,Miguel
Amado e Adriano pedrosae a todos os coleccionadores que continuam a acompenhal-s1g.
Agradeço à
miúa
mulher, Cecília, pelos debates estimulantes, pelas acertadas sugestões e pela paciência- Àsmiúas
filhas,Anita
e Inês, pela permanente einesgotavel fonte de energia e inspiração.
A
minha irmã, Helen4 e aos meus paiso Maria e José.A
todos dedico o que de melhor tiver este trabalho.t, -':,,.'i ':i.' !. ,.t 'r ,;i
lii{
í , 1 !g1;. , ., i :,;is1i'.:;11 , , j ;:t.:1 ii-i. ,1 ; ,;.:,jir. 1,r'\.
',-- ,],.1 '1, .ar'i'rjlii rr 'lri: '.; ,t j rl,l. rll; . tyí.i:' : r,-. '.t . i'.:jt- i,; r:: , ;rr:,INTRODUÇÃO
"(...)
Teremos dado um gmnde p€rsso, e promovido o progressoda ciência estética, quando chegarmos não só à indução da lógica" mas também à certeza imediata, deste pensaÍrento:
a evolução progressiva da arte resulta do duplo canícter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco,
tal como a duaLidade dos sexos gera a vida no meio das
luas
que são perpétuas e
pr
aproximações que são periódicas.(...)"Friedrich
Nietzsche,I
origem da tragédtato'(...)
Escrever nada tem a ver com significar, mas com calcorrear, cartografar, mestno terras por
vir. (..,)"
Gilles Deleuze,
Felix
Guattari, A
Thousand Plateaus - Capitalism and schizophrenia 2Sendo esta uma tese em Artes Visuais, iírea científica que pressupõe a
aÍiculação
pnítica / teórica como um dos seus elementos estruturantes, paÍece-nos relevante declarar que a génese do tema que nos propomos abordar se encontra na nossa
pútica
de esúdio3.A
dialéctica interior/
exterior, entendida sob a perspectiva comI
NfETZSCHE,
Fúdrich,l
Origem da Tragédia, ed. Guimarães Editores, Lisboa, 19gS, p. 35.2
DELEUZE, GiIIes, GUATARI, Félix,
I
thousand platecas*
Capitalism and Schizophrenia, ed,.Continuum, New York 2004, p. 5.
3
Na sua Tese de Doúoramento, Filipe Rocha da Silva questiona-se acerca da conduta mais adequada
a uma tese de Doutoramento em AÍes Visuais, ao levantar questões como: ,'(...) Como poderão
factores como a iüuição ou a livre associação de ideías, muito utilizados na criação de obras de qrte
[o autor faz aqui uma chamada de aÍenção para os estudos de Henri Bergson acerca da infuição,
referindo-se à sua influência no "desenvolvimento daq artes ao Iongo do século
§"1,
ser transpostosque a enc,ariamos aqui, mais não será que a tensão ou intervalo entre criação e imitação, com toda a carga de zubjectiüdade que uma tal definição
apzÍreta-Dizemos 'cargade subjectividade', pois não existe apenas rrma definição paÍa o que realmente é'crJração'ou
'imitaçâo'.
Em época.s divetsas, autores distintos oudiferentes contextos, qualquer um destes termos implica diferentes significações, paÍa tal contribuindo em larga medida a expressiva espessura temporal que se coloca
ente
a fundação destas questões e o modo como elas são ente,ndidas nos nossos dias.Aindaque
tudo em seu redor se alúere de modo mais oumenos radical, existem questões que, devido precisamente ao seu carácter essencial, pennanecem intocáveis na sua posição de edificadoras de toda uma ordem de discurso. Falarnosaqü
do entendimento e priítica do que tem sido a teoria dapintura
indçendentemente dasua proveniência
filosofia
textos religiosos ou história daaÍe.
Assim sendo, o que nos propomos
úordar
sená o modo como a dialéstica interior/exteriorfoi
entendida,dissúida
explorada e posta em prática em doispríodos
distintos da nossaculturu
o período do Renascimento e a presente épo"an. Iniciaremos este estudo com a exposigão de uma série de questões prévias, que preüendem ser uma espécie de mapa das inquietações que esüarão na base da investigação.No primeiro capítulo passaremos em reüsta alguns dos textos e ideias que nos surgem como fundamentais para a fomrulação do que entendemos ser uma teoria da pintura- De Platão e Aristóteles, até Cesare
Ripq
passando, entreoutos,
porPlínio,
Plásticas, qae possa ou que deva ser ailizada mtma Tese de Doutorarrrento nesÍa órea? Como
distinguir, neste último calto üma Tese da pura criação de obras de
tte,
garantindo a sua nattÍ@a esp ecul ativ a e c ie tufi
c a? (...1' .Àinda que a presente seja não uma Tese de Doutoramento mas sim de Mesnado, as questões e
dúvidas levantadas na tese affis referida foram por nós igualmente experienciadas.
ROCIIÂ DA
§ILVÀ
Fllipe,,4 Maniera Moderno" Tese de Doúoramento em Artes Visuaisapresentada à Universidade de Évora em 200?, Volume I, p. 53.
a
Fazemos, desde já, uma chamada de aten@o para a ircontomável imprtcisão que qualquer desas
duas definigões de tempo e espaço implicam. Tentêmos, então, balizar a nossa incidência cronológica:
por 'período do Renascimento' entendemos o intervalo compreendido sensivelmente entre 1450 e
1580. Por 'nossa presente époa', entendemos o perÍodo que compreende maioritriamente as duas
Alberti,
Lomazzn ou Zuccaro, faremos uma súmula do modo como se constituíram edifundiram as ideias que contribuíram para a teoria da arte.
As relações entre retórica e
pintur4
o papel desempenhado pelos oradores e ainda outras questões relacionadas com a palavraescrit4
serâo râmbém colocadas emevidência.
Falaremos do que decidimos apelidar "estética da inqüetação": bruxas, demónios
e outras manifestações do mundo invisível, que muito contribuíram para o avivar da
criatividade dos
aÍistas
de então.Os inícios da crítica e história da arte, bem como os incontorniâveis tratados redigidos na altura, serão igualmente tema de debatç.
Olharemos de seguida para a evoluçâo do esüaÍuto do
aíista,
as relações sociais ecomerciais por ele estabelecidas, atentando no modo como influenciaram o trabalho de criação propriamente
dito-O impacto da Reforrna protestante sení também abordado.
A
forma como a iconoclastia - e todas as manifestações que consigo acarretou esta novaüsâo
sobre a fé dos homens - alterou o psrcurso da produção aúística do Renascimento, sobretudo nos países donoÍe
da Europa mas tambem emltáli4
seráaqü
passada emrevist4
tentando descortinar manifestações mais ou menos explicitas das tensões dialécticas
ente
interior e exterior, o assunto da nossa pesquisa.A
academia e o academismo, como forma de vida e estatuto social, serão os temas que se seguem.Por
fim,
faremos uma breve analise de dois outros pontos que, surgindo no exterior do plano, vieram alterar profundamente a estrurura do seu interior. Falamosda composição e perspectiva, componentes da linguagem pictórica que, a partir da época do Renascimento. se instalmam definitivamente como dois dos seus elementos estruturumtes.
Aqui
a dialéctica interior/
exterior conheçe uma nova feição, talvez até, num certo sentido, Iiteral. Neste ponto falaremos de questões que têm lugar no interior do plano do quadro, considerando-o como um espaço independente daquele que habitamos. O plano pictórico deixa de ser apenas superficie para pÍrssar a abarcar em si lodas as demais coordenadas. Teremos por base, entreoutos,
o incontornáveltexto de
Erwin Panofs§
A Perspecttva como Forma SimbóIico, por considerarmos que nestia obra o autor trás à tona o entendimentodial&tico
que corcideramos ser central neste e§tudo.Passaremos de seguida à análise de algumas obras pictóricas dos seculos
XIV
eXV
onde as questões que julgamos prementes para o entendimento da questiio seencontam Inais explicitaÍnente elaboradas. Neste capíhrlo trataÍemos obras de Fra Angélico,
Boticelli
e L,eonardo.Entamos
depois na segunda parte do estudo, onde pÍetendemostransfeú
algUns dos conceitos essenciais apurados na primeim parte, para um contextoconúemporâ[eo. Como atnís se disse, esta etapa da nossa investigação será mais
subjectivq ainda que,
namedidado
possível, tentaremos fimdamentaras nossa§opiniões e,rr bases precisas. Quando apelidamos esta secção de omais
sújectiva'
o que queremos acima de tudo dizer é que ela se baseia em grande medida na nossapúpria
experiência enquanto artistas visuais, bem como na observação que fazemos do que se passa na produção da pintura contemporânea5.Começarnos por fazer uma espécie de estado da arte
dapinttna
contemporânea, como modo de introdução às questões que de seguida serão debatidas.Falaremos depois das relações entre pintura e
tecnologi4
pois esta é gma questãoonde a dialéctica interior/exterior pode ser
facilnente
detectadaA
quesüio domodelo enquanto entidade visível e susceptível de apreensão pela máquina6 revela-§e
da maior pertinência para a discussão.
A
identidade do pintor dos nossos dias, como alguém que carrega-para
o bem epara o mal
-
o peso da longa tradição serfu igualmente abordada5
Um vez que (enquanto paticantes de pintura, hoje) nos encontrmos inseridos no que chamamos de
.pintura contemporanea', o olhar que rlaqú l«rçamos será interior à púpria prática da pintra. Já nos
textos sobre o Rena§cimento, esta posição interior do olhar não se verifica, pois o nosso será semprre
exterior a uma prática que ocorreu hà cerca de cinco séculos. Esüa chamada de afenção serve, acima de tudq para dmonstra que a dialéctica interior / exterior será abordada de diversos (e nem sempre coincidentes) pontos de
vista-6
ÊsE .entidade visivel e susceptível de aprensâo pela máquina' será, no limite tudo o que tem uma
exist&rcia flsica no mundo vislvel. Ou seja, o mundo üsÍvel e tudo o
çe
nele podemo§ encontrar nãoé mais do que um modelo potencial. Essa entidade visÍve! uma vez sujeita à captação fotogÉfica ou
videogúfica, passa ao desempeúo do papel de 'modelo' para o pintor, pois tudo
@e
ser assmto de uma pintura.Na primeira
paÍe
falámos de,ma
'estéüca da inquietação'.ora
essa inclinação continua perfeitamente activa e identiÍicável nos nossos dias, embora, como apontece com todos os demais assuntos aqui abordados, se manifeste de modos divçrsos. Assim, olharemos nesta fase do texto para ooosfantasrnas de hoje", passaremos em revista determinadas posiçôes criticas som ancoragem na pintura dos nossos dias, que mais activamente contribuem para o restabelecimento destas tensões.
À
semelhança do que fizemos na primeira parte, investigaremos nesta segunda a obra de alguns artistas dos nossos dias que, aos nossos olhos, reflectem aspreocupações elaboradas no decorrer da investigação. sâo eles Dana schutz, Neo Rauch e Glenn BrownT.
como
noinício
desta introdução referimos, a natmeza teórica e prática que umatese em Artes Visuais compreende, exige cúdada observação da produção de
estudio, elaborada em simultÍineo com o presente estudo.
uma
não pretende ser o complemento daoutr4
antes constituindo as duas um ser orgânico, que aperas em coqiunto atinge aploritude
de sentido.Ençontrando-se estas duas pníticas em estreita relação, será elaborada uma recensão crítica a
fim
de expor o plano de intenções teóricas que enforrna a nossa investigação pratica.Gostaríamos ainda de clarificar a nossa posição no que concerne ao contributo para o conhecimento que uma tese de mestrado nesta disciplina
implica
Sendo esta uma lese em Artesvisuais
e o seu autoÍ, por conseguinte,Artista visual
e nãorm
oleórico'o,
gostaríamos então de clarificar que o que entendemos por contributo para o aumento do corhecimento na nossa área de estudo se ancora em larga medida no campo
pútico.
PaÍindo
doprincipio
de que a presente tese engloba uma componentetórica
eoutra prática e tendo em conta a natureza da nossa fomração, é nosso
intuito
realizar'Ainda que estes três artistas não sejam os ftiicos cuja obra apareceú em análise na segunda parte do
na componente teorica uma súmula de
coúecimentos
que se prendem com aexploraçÍüo de
lma
questão eminentemente práÍica e que, comojá
a&âshaüa
sido explicitado, teve a sua génese napúüca
de atelier. O que querernos com isto dizer é que não temos a pretensão de acrescentar algo de novo no que ao esfudo dasquestões que
aqú
nos ocupam diz respeito, mas simpaÍtilhaÍ
experiências einquietações. Limitar-nos-emos a analisar e conÊontar úextos firndamentados
(q
nanossa opinião, fundamentais), que abordam a dialectica interior
/
exterior. Assim, o estiatuto de novocoúecimento
hipoteticamente indexado àpresente tese, a teÍ lugar, tê-lo-á na componente prática desta investigação.Questões Prévias
*(...)
O problema da
filosofia
é adquirir uma consistência, sem perder oinfinito
no qual o pensamento mergulha(...)"
GILLES
ITE,Ltr.]AzjE,fÉI-,IXGUATTARI,
O que éafilosofiaa
Ainda que esta não seja rrma tese em
filosofia,
estadisciplira
ocupauna
relevante posição na construção do nosso discurso não só teórico, mas também prático. Assimo tentaÍemos de seguida explicitar os principais conceitos
filosóficos
que se encontram
ra
base da investigação, pois no decorrer do texto propriamente dito, estes surgirão aperus de fomra mais ou menosimplícita
Não necessariamente por estra ordem, os conceitos filosóficos que mais direçtamente nos influenciaÍam são: a dialectica (na sua forma arcaica, passando também por Hegel e por wna leitura contemporânea efectuada por Slavoj
Zize$;
o8
confronto entoe
Apolo
e Dionísio em NieEsche, o conceito deimagan
dialéctica em Walter Benjamin, o trabalho 'oà margemoo realizado porAby
Warburg e a intuição frlosófica em Henri Bergson. Estes conceitos estão iguaLnente presentes no texto acerca da nossa prática de esúdio.Aí
e para além destes, iremos igualmente abordar os conceitos de rizoma e de corpo sem órgãos em Gilles Deleuze eFélix
Guattari.As
ideias desenvolvidas por Sergei
M.
Eisensein em tomo do conceito de montage serão, igualmente, debatidas.a)
A
dialécúicaComeçamos, obviamente, pela dialéctica. Zenão de Eleia (490
-
430 a.C.) écomummente aceite como o seu inventor. Neste autor e em Sócrates (470
-399
a.C.), a dialéctica é um método de argumentação e de refutação através de perguntase respostas. Procura colocar o advers{áÍio em dificuldade, demonstrando as
contradições do seu discurso. Neste contexto, pode dizer-se que a dialéctica é mais um modo de desmascarar o falso do que de descobrir o verdadeiro, mais uma técnica do que uma ciência.
Com PlatÍio inâ mudar de estatuto. Para este
aúor
a dialéctica é uma verdadeira ciência, um movimento através do qual o espírito passa.las aparências sensíveis paraos conceitos racionais e depois às ideias, para atingir finalmente o princípio absoluto
de toda a realidade: a ideia de Bem.
A
dialectica é, para Platiio, a ciência do verdadeiro.Com Aristóteles, a dialéctica píssa a ser entendida de modo diverso: enquanto a
ciência é de essência demonstativa, a dialectica é de essência argumentativa.
Arisóteles
não quer com isto dizer que a dialectica se rcge pela regra do arbitrário,mas
júga
que através da dialéctica não se atinge o verdadeiro (estatuto reservado àdiatectica se torna
útil
e mesmo necessária Pam Afistóteles, a dialécüca a1fls § maisque a técxrica do verosímil.
Seguindo, de algum modo, as distinções aristotélicas,
KantnaCrítica
do RazãaPura
opfre a dialéctica ou «lógica da aparêncior à analítica ou «dógica da veÍdade». Em Hegel, a dialéctica assume uÍn papel totalmente renovado. O falso pÍlssúr a ser visto como fecundo, como um momento necessário ao verdadeiro.A
fim
deatingir
um estado no qual seja possível perceber a totalidade, Hegel desenvolve o conceito original de pensamento dialéctico. O pensamento e o ser desenvolvem-se
rimicamente
segundo umrituo
ternário: afirrnação (tese), negação (antítese) enegação da negaçÍto (sintese). Pode, então, dizer-se que a dialéctica é o úabalho do negativo. Por exemplo: Todos os fiknes são bons (tese). Titanic é um mau
fi.lne
(antítese).
A
maior parte dos filmes silo bons (síntese).A
síntesepas*l
entÍlo a ser a oova tese e o pÍocesso recomeça aÍé que se apure a verdade sobre determinado assunto-
a totalidade-
que neste caso poderia setr o'apsnas alguns filrnes são bonso'.eMam
lê a dialéctica num sentido que decorre de Hegel, isto é, como um processoe movimsnto atavés de contradiçôes ulrapassadas.
A
grande divergêacia entre asleituras que estes dois autores fazem da dialéctica reside no facto de que, para Hegel,
as contradições que animam a história são as do espírito. Já para
Marx
ascontadições são as materiais e sociais da vida dos homens. Asstm,
Mam
provoca uma reviravolta na dialéctica de Hegel.A
leitura do pensamento dialéctico que mais se coaduna com a nossa investigaçãoé a que nos é proposta por um
filósofo
contemporâneo, o esloveno Slavoj Zizek, queopera uma mutação 4fud4 mais profunda na dialéctica de Hegel. Para este pensador, Hegel
foi
urnfilósofo
muito mais radical do que é comummente aceite. Na leituraqrc
Zizek faz de Hegel, a dialéctica não produz a reconciliação ou um ponto de vista sintetizado mas, em vez disso,taz-nos
a constatação de que "a contadição é uma condiçilo intema de qualquer identidade"l0. Assim, retomando o exemplo anterior, a síntesedeZizekseria:
"todos os filmes são bons porque Titanic é um maufilme",
oe
MYER§, Tony , Slavoj Zizek
-
Roaledge Critical Thinlcers, ed" Roúledge, Nova Iorquq 2003, páC.16r0
que nos remete para o ditado popular "a excepção confirma aregrd,_ Ainda que, à primeira vista, estas afirmações possam parecer contraditórias, o que
ziz*knos
diz éque é precisamente nessa contradição que reside a verdade desta acepção: se não houvessem maus filmes, nós não saberíamos o que é um bom filme, pois não teríamos nada com que o comparar.
No sentido de nos explicar melhor a dialéctica de
Ziznk,Myen
diz-nos o seguinte:"(...) A totalidade da nossa cultura
-
tudo desdeoyiz
eyang
até à,.Terceira via,, de Tony Blair-
é baseado na noção de que a verdade éúsoluta
de que se tu vires as coisas de ummodo e eu vir de outro, existe entÍio um meio camiúo, uma maneira de reconciliar
harmoniosamente a nossa divergência, um modo que pode incluir os dois pontos de vista.
Para Zizek, contudo, a verdade deve ser sempre encontrada na contradição, ern vez de na
polida supressão das nossas diferenças. Isto é o que
pde
ser chamado um estilo depensamento oximorónico. Um oximoro é, simplesmente, uma frase que emprega terÍnos
contraditórios, tal como "chuva seca", 'febre gelada'' ouo abjectamente, ..inteligência
militar". O trabalho de Hegel e, subsequentemente, o deZizekestá cheio de oximoros.
(...)'"
Ora, é precisamente esta ideia de instabilidade, de perpétuo movimento e de devir que grra em torno da dialéctica (nas vrárias interpretações e
úilizações
as quaisfoi
sendo sujeita ao longo dos tempos) que nos move ao longo do nosso tÊxto.
Ainda
que, por vezes, adoptemos uma
Frspectiva
histórica convencional-
isto é, linear-
a ideia de um permanente estado de devir estará semFre subjacente.rrMYER§,
b)
Oconflito
Apolo
/Dionísio
emFriedrich
NietzschePassamos à leitura que Friedrich Nietzsche faz do
conflito
Apolo / Dionísio e aomodo como o nosso texto se enconta impregnado desta interpretação. É com a obra
O Nascimento da Tragédia que surge a figura de Dionísio, o que
viria
a revelar-se um acontecimento fulcral no p€nsamento de Nietzsche. Esta figura encerra a inquietude que, no present€ estudo, relacionamos com o interior. Seguindo o confronto que opõe Dionísio aApolo,
facilmente podemos depreender que osegundo é no nosso texto interpretado como representante do extsrior. Este confronto é uma manifestação do movimento dialéctico que no dçcorrer da investigação iremos explorar, pois esta atribúção de papeis nem sempre étão çlara como poderá parecer
à primeira
vista
Intsntemos, entiÍo, numa breve definição ds rrm s de outro.Apolo
é o Deus da música, da medicina e da luz na Antiguidade gregaA
ele associamos a ordern, as formas definidas e acabadas.Apolo
é igualmente conotado com a perfeição plástica e, por conseguinte, com as aparências e com a imagem. Destas características, fazemos uma súmula das mais relevantes para os nossosintentos e o que obtemos é a ligação de
Apolo
à ordem e à imagem' Ora" essas sãocryacterísticas sempÍe presentes no que aqui entendemos por'tpinturas extsriotes". Isto é, o "olhar pata fora", para algo que se
controlq
que seidentificq
que se vê.As
pinturas que peÍtencsm a esta ordem são sempre representação de algo (imagem, ilusão, dissimulação).
Já DionÍsio, "deus da Música e do
viúo
na Antiguidade grega, designa em Nietzsche a tendência da vida para se desprender de toda a forma constituída para seafirrnar através do sofrime.ntoo de um dilaceramento
perÉtuo.A
embriaguez Dionisíaca é bem, para Nietzsche, esse momento em que a identidadeindividual
seperde, para se afundaÍ, em delírio, na totalidade cósmica"l2
A
Dionísio associamos ainda o irracional, o etertrodeür
de todas as formas que se ligam e desügam emD
CLÊMENT, Elisabeth, DEMONQIIE, Chantal, HÂNSEN- LOVE, KAIIN, Pierre, Dicionário
perpétuo movimento.
A
semelhança do que acontece com as características deApolo
relativamente às pinturas exteriores, o mesmo se verifica em Dionísio paÍa as
pinturas interiores: estas provém do instinto, da intuição, do irracional, são pinturas
sem programa e em perpétua mutaçâo. Não são representação de nada, pois não se
referem ao mundo visível: partem do interior invisível.
Tal como nos diz Nietzsche na Origem da Tragédia, é deste confronto entre
Apolo
e Dionísio-
entre exterior e interior, dizemos nós-
que nasce a verdadeira obra de arte:*(...) a evolução progressiva da arúe
resulta do duplo canicter do espÍrito apolíneo e do
espírito dionisíaco, tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio r{as lutas que são
perpétuas e por aproximações que são periódicas.(...)"13
Ainda que, por estas palavras se possa depreender que afirmamos existir uma separação sempre verificável entr-e pinturas exteriores e pinturas interiores, o decorrer da investigação encarregÍr-se-á de nos mostrar que tal distinçâo não é tiio clara como à primeira vista
pderia
parecer. Existem, de facto, pinturas que olham para dentro e outras que olham para fora, mas também existem as que lançanr olhares nas duas direcções, também existem contaminações. É precisamente nestecamp
de indefinição, de perpétuo movimento que a investigação se desenrola, dando assim pleno sentido ao emprego da dialéctica que anima as páginas que seseguem.
13
c)
A
imagemdialéctica
emWalter Benjamin
É neste contexto que
intoduzimos
o conceito de imagem dialéctica., formulado por Walter Benjamin.Importa
antes de mais, perceber o novo entendimento do conceito de história proposto por Benjamin nÍrs suas Teses sobreafilosofia
da história. Este escrito surge oomo tentativa de ler e reescrever ahistórig
uma outra história, onde o papel principal não éjá
pertençaúsoluta
dos vencedores e dos seusfeitos gloriosos. Nestas Teses subjaz uma çrítica ao modo de emprego das noçõ€s de
oprogressoo
e 'decadência' e, consequenteÍnente, à ideia de uma história linear. Como diz Caroline
Mitroütchra "(...)
contra a inqúetude imobilizante dohistoricismo, anestesiado pelo mito da marcha
inexoúvel
do progresso, Benjamin propõe um o'estado de excepção pennanente'(...)".
No mesmo texto, mais à frente,percebemos um dos modus operondi sob o qual esta nova maneira de fazer história
se produz : *(...)
A
figura do coleccionador, que aparece interminavelmente na obra de Benjarnin,ilusta
exemplarmente esse procedimento: o coleccionador retira ascoisas do contexto em que valem e do contexto em que são úteis e assim,
descontexfualizando-as, inscreve-as numa ordem que nada tem a ver com a ordem em que funcionavam antes. (...)"15, Para Benjamin, a história não pode ser
compreendida como acabada, mas sim como permanente construção. Beqiarnin propõe, entêloo que abandonemos o nosso modo de pensar tradicional e que passemos
a pensar por imagens, pois assim poderemos entender o
temp
e, consequentemente,a história de urn novo modo. Ê neste contexto que surgem as imagens dialécticas. Voltando novamente a
Mitrovitçh:
"(...)
Com efeito, Benjamin propõenas
Teses sobre o conceito dehistória
ma
revolução na maneira habitual de pensarmos o tempo. E essa adopção de um
14
MITROVITCII, Carotirer
l
"destraiçdo construtiva" da história,f contlrtÍ- 12 Jan. 20081,Reüsh Urutágua
-
revista académica multidisciplinar:15 MITRoyITCH,
cil
pensamento por imagens que determina a opção de uma construção alegórica da história, em que as alegorias se transformam em imagens dialecticas. (...)"16
O que é, então, uma imagen dialéctica e em que sentido é que esse conceito
contribü
para apresente investigaçâo? De um modo sucinto, podemos afimrar que a imagem dialéctica nasce da articulação entre o antigo e o moderno, sendo que o antigo (ao voltar) não éjá
o mesmo: é outro, mas ainda semelhante a si mesmo:"(...) Por isso a sua imagem não é simples cópia, reprodução do mesmo. É uma imagem
dialéctica como a chama Benjamin. Dialectica, explica Gagrebin, "porque junta o passado e o presente numa intensidade temporal diferente de ambos; dialéctica também porque o passado, neste seu ressurgir, não é repetição de si mesmo; tampouco pode o presente, nesta
relação de interpelação pelo passado, continuar igual a si mesmo" (GAGNEBIN, àOOOQ.É,
claro que ambos continuam a ser passado e presente mas, no ontantq diferentes de si
mesmos na imagem fugitiva que" ao reuni-los, indica a possibilidade da sua redenção
(Erli)sung) ao serem arrancados da continuidade temporal. (...)"r7
O aparecimento de citações da Antiguidade na pintura do Renascimento parece-nos em perfeita harmonia com o ressurgimento do passado no presente de que nos fala Benjarnin. E entiio neste sentido que o conceito de imagem dialéctica se nos apresenta como da maior relevância para as questões abordadas na investigaçãol8. Esta recuperação de imagens de um tempo ido nÍi,o se prende com o que pode ser
entendido com uma qualquer pnítica saudosista e estéril. Voltando a
Mitrovitch:
*(...) Não se trata da projecção do passado no presente, nem
da projecção do presente no
passado. A imagem é aquela em que o que já foi (Gewesme) se funde com o agora (Jetz), numa conjunção veloz como o relâmpago. Em outras palawas: a imagem é a dialectica em
estado de repouso lDialectik im Stillstand). Pois enquanto a relação do presente com o
lu MITRoVITCH,
cit.
"MITRoVITCH,
cit.18
A utilização deste conceito não se fica apenas pela tese teóric4 aplicandese também à práticq pois
a citação de imagens do passado bem como o seu confronto com imagens dos nossos dias é um
passado é puramente temporal e contínu& a 'do que
foi'
[o outrora] com o agora é dialéctica:não fluro, mas imagem brusca @ENJAMIN apadROUANET, 1987, p.83). (..,)'te
Éo entilo, esúa a proposta de Walter Benjamin: voltar a ler a história como algo de
inacabado, descontínuo e em perpétuo movimento. Uma história que é sinónimo de construção, construção essa que seria alicerçada em imagens dialécticas.
d)
Aby
Warburg
e a sobreviYênciaO que atrás
foi
dito sobre Beqiamin despoleta relevantes ecos e encontradivenos
pontos de apoio ras investigações de
Aby
Warburg, como sugereAntónio
Guçrreirorc
1r-rtoAby Warbtrg
e os arquivos da memórido:'(...) Uma comparação errfre o Bilderdlas Mremosyne (fig.
I
e 2) e a P assagm'Werlçambos projectos inacúadog entre a «imagem dialéctica» de Benjamin e as imagens dotadas de vidapóstgma de Warburg entre a concepção benjaminiana da história (em que o passado
é carregado de «actualidade»
e
mca está definitivamente concluído) e a teoria da <<memóriasooiab» de Warburg chegaria por certo a conclusões interessantes e mostraria alguns poutos
de proximidade ente estas duas grandes figuras do p€n§amento do século
XX.(...)'
Consequentemente, o trabalho deste historiador o'à margem 'o veio a revelar-se da maior relevância para a nossa própria investigação teórica e trabalho de estúdio. Quer seja nas suas composições teóricas, quer nas investigações
historiogúficas
e antropológicas, na construção da sua biblioteca ou ainda na elaboração do seuAtlas
Mnemosyne,Warburg propõe uma outra leitura da hi§tóda da ane. Mas em que
re
MlrRovITcH,
cit
20
GuERnnRo
,
Aatónio, Áby Warburg e os arqutvos da memóriç [ consult9
Dez 2007)consiste, mais precisamente, a diferença desta outra leitura e em que medida é que
esta conhibuiu para o nosso
Íabalho?
Esta leitura apoia-se no pressuposto de que ahistória nâo esüí acabada
-
tal como em Beqlamin-
o que possibilita olhar para a história da arte enquanto 'tnemória erráÍica de imagens que regressamconstanúemente como sintomas"2l.
Central no pensamento de Warburg é o conceito, de
dificil
hadução,pathosformeP2.
warburg
interessou-se pela sobrevivência ou reaparecimento de formas de um tempo passado num outro tempo que lhe é posterior. No contexto dosseus estudos sobre a arte do Renascimento, falamos obúamente da reaparição das
formas da Antiguidade clássica
(Íig.
3 a5)
rLo quattrocentoita)iano.Mais
especificamente,
warburg
notou a grande preocupação demonstrada porBoticelli
(Íig.
6 a 10) no que à representação das vestes e cabelos esvoagantes das suas figuras femininas dizia respeito. ara" a representação destes movimentos gerava, por vezes, formas 'antinaturalistasoo o que, de algum modo, ia conha os pressupostos teóricos de então (que afiançavam uma marchadapintura
em direcção a um cadavez mais preciso naturalismo). Estas considerações levaram Warburg a coloçar a possibilidadeda existência de uma motivação psicotógicaparaareutilizagão de tais forrnas antigas. Nessas formas estariam contidos determinados conteúdos expressivos que fariam, assim, a sua aparição no contexto da pintura renascentista- É a esta
trausmissâo de intensidades expressivas que
warburg
cbamapathosformel. Estesnãasão conteúdos, mas sim valores expressivos
"(...)
onde se dá a ver uma «mímica intensificado»o uma gestualidade expressiva do corpo, com origem nas paixões e nas afecções sofridas pela humanidade.(...)"23Evidentemente, contudo, estas imagens resgatadas a um passado mais ou menos distante nem sempre se çoadunam na perfeição com a época que as vê Íenascer: daqui, deste confronto, resulta a polaridade que Warburg (à semelhança de
2t cIrERRErRo,cit.
22
Este conceito. gue veio a tomar-se uma teoria sobre os mecanismos de transmissão da memória
coletiva por meio das imagens, surge pela primeira vez e com toda a claridade no vocabulário de
Aby Waóurg em 1905, no texto intitulado Diirer and ltolian Antiquity. Estetexto está incluído na
obra, The Renewal of Pagan Antiquity: Contributions to the Calhtral History of the European
Renaissance, p. 553-558.
ts
Nietzsche, como vimos atrás) considera'1tma categoria interpretativa de todos os fenómenos cultr.nais. Tudo entra numa relação bipolar: cultura antiga e moderna, cristã e pagã, pensame,lrto mágico e peruamento
lógico,
etc,'a4.Intensificando ainda mais a esteita relação do pensamento de Warburg com o de Nietzsche no que aí)tratamenüo da polaridade diz respeito (e, consequentemente, ao no§so
plóprio
estudoda dialectica), voltamos a citaÍ
António
Guerreirc:.(...) A polaridade fundamental é, no entanto, aquela que Warburg vai buscar aNietzsche: o
apolineo e o dionisíaco, que correspondem, em Warburg, ao ollmpiw (olympisc&) e ao
demónico (ütmonisch). O conceito warburguiano de «polaridade» é essencial para
peroebermos como é que detenninadas formas vindas de um passado longínquo encoÍt.am
em deterrrinadas épocas uma disposição para acolhê-las e noutras
úo;
ou de que modoo em contacto com urna nova epocq o seu sentido é completamente invertido.(...)'trE na tendência para a universalização deste conceito (ou a sua não aplicação exclusiva as transmissões
ente
Antiguidade e Renascimento) que se verificawna
estreita pÍoximidade
tamEm
com Benjamin e com a sua concepção da história-Ora, qualquer desras (a de Benjamin e a de Warburg) arrojadas propostas de leitura da história ç das imagens comporta ruruI carga interior. O que queremos dizer com isto? Nenhuma destas proposições é posiúvamente veri.ficável, sendo que a intuição será a forma mais indicada paÍa a elas termosacesso.fu,
é justamente de'intuição',
mais precisamenúe da intuiçãofilosófica
em Henri Bergson que falaremos de seguida2a
GUERREIRo, cit.
BGuERRERo,cit
e)
A
intuição
emHenri
Bergsono
conceito de infuição nãofoi
originalmente criado por Bergsog ainda que esrelhe
teúa
conferido um tratamentomúto
particular. para DescaÍes, a intuição é intelectual, ou seja, é não sensível. É a concepção imediaúa de uma ideia peloespírito. Assim, Descartes encontra uma grande divergência entre esta e a dedução, a qual (a
fim
de atingir as suas verdades) se encontra na contingência de passar pela mediação de uma demonstração.Já em Kaat a intuição mais não é que o modo através do qual determinado objecto
se dá ao nosso conhecimento. Kant diverge na concepção intelectual que Descartes atribui à intuição, na medida em que, para ele, a intuição intelectual estií reservada a Deus. Ao homem apenas resta a intuição sensível.
Para Henri Bergson, a intuição é passível de atingir o absoluto. sendo diversa da inteligência (que pensa a matéria), a intuição em Bergson revela-se como o único modo de
coúecer
directamente o espírito. Para Bergson, a intuição tem uma natweza intelecfual e pode ser definida como «o conhecimento directo do espírito pelo espírito»26.A
exploração, por Bergson, da polaridade entre inteligência e intuição, pode ser aproximada aos pólos que formam a dialectica por nós desenvolvida. Assim, a inteligência representaria o exterior e a intuição, o interior. Atentemos numa breve descrição destes dois conceitos neste autor. segundo Bergson, o homem é detentor de dois instrumentos decoúecimento:
um de ordem intelectual e outro de ordemintuitiva.
Sendo complementaÍes um do outro, a intuição responde às questões asquais a inteligência nÍio consegue dar resposta
A
inteligênci4
aliada da ciência, é a tentativa por parÍE do homem para dominar a natureza. Operando através da quantificação e espacialização, o homem tentasubordinar a natureza aos seus fins.
os
instrumentos que o homem inventou para a mesura do tempo - as horas, os dias, os anos e os séculos - sâo um exemplo desta2ó
investida do homem no sentido de
domirar
o real, mediando a sua relaçâo com ele atraves de dados quantitativos e numéricos. Na realidade o tempo nãopossú
essasdivisões. Elas são tnn modo criado pelo homem, que assim tenta aprisionar o mrmdo
dento
de limites que ele própÍiocoúece
e descodificaContudo, para Bergson, este tipo de
coúeçimento
é apenaszuperficial
poissomente satisfaz necessidades de orderr pnâtica Este é, dizemos nós, tun
coúecimento
exterior. O homem sente, então, necessidade de umcoúecimento
mais profundo, interior. Ou sejq um
coúecimento
não mediado por fórmulas numéricas, pois o real não é fragmentado, §omos nós que o repartimos edividimos
para melhor nos apossannos dele. De que modo pode, então, o homem p€netar no interior da duração pura e contÍnua que é o real? Segundo Bergson, a
üa
para esseconhecimento interior, puÍo e não mediado é a intuição, esse modo de conhecimento que tem algo do instinto e da emoçÍlo, orL como diz Bergson,
é'tma
espécie de simpatiaespirituat'.
Depois desta breve introdução à polaridade
'inteligência'
/
'intuição'
paÍece-nostere,m ficado mais eüdentes os paralelisrnos que entre ela e a dialéctica interior
/
exterior.0
Rizoma e corpo sem Órgãos emGilles
Deleuze eFélix
Guattari
Resta-nos falar brevemente de duas ideias ou çonceitos cuja mais valia para esta tese se manifestou sobretudo na sua componente prática: falamos do
'rizoma'
e do'corpo ssm órgãos, ambos em Gilles Deleuze.
Imaginemos dois conjrmtos de linhas de tipos diversos. No primeiro conjunto as
linhas sstaÍiam subordinadas ao ponto, à verticalidade e à horizontalidade, formando
contomos e
súmetendo
multiplicidades variáveis ao Uno.No
segUndo conjtmto aslinhas nâo se submeteriam ao Uno, pois ele não
existiria
Um rizoma seriaumao^Í
especie de segundo conjunto, pois ele nâo é exacto mas sim um agregado de
elementos vagos.
EmA
thousand Plqteaus:capitalism
andschizofrenidT,
maisprooisamente noprimeiro
dessesplateaas, Deleuze e Guattari definem viários princípios: o primeiro eo segundo dizem respeito à conexão e heterogeneirtade: eualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sêJo. Descentramento do sujeito, negação da genealogia, afimração de uma heterogénese em oposição à ordem de filiação do modelo de iirvore e ratz.
o
rizoma é tudo isso, pois não fixa pontos nem ordens - hrí apenasliúas
e trajectos, estados e coisas, e nada remete neçessariamentea outra
coisa
o
terceiroprincipio
é o de multiplicidade e uma boa maneira de compreender esta ideia é tomando como exemplo uma marioneta, os seus fios e omanipulador: nesta situação o papel da multiplicidade nlio seria desempeúado nem pelo que
controla
nem pelo boneco controlado, mas sim pelas próprias cordas, quecomunicarn uÍna parte à ouha- São as linhas de um ponto ao outro que
impoÍam,
não os pontos em si.
Como
affis
se disse, qualquer ponto de um rizoma pode e deve ser conectado a outro q ralquer, sendo que ele se faz de dimensôes, ou melhor, de direcçõescambiantes.
o
rizoma não temjá
qualquer semelhança com a rírvore (a árvore como imagem do mundo), pois esta evocaalôgicabinrária e a ramificação dicotómica e o rizoma não temprincipio
nemfim
mas apenas um meio por onde crescer e se ultrapassar. Constitui multiplicidades lineares de z dimensões, sem sujeito nem objecto, distribuídas por rrm plano de consistência do qual s€mpre se subtrai o Uno.Oizomafaz-se
de linhas de estratificação, mas também linhas de fuga edesterritorialização.
Frente à cópia e a todo o procedimento mimético, o rizoma tem a ver com um mapa que há-de ser produzido, construído, sempre conectável, alterável, com múltiplas entradas e saidas.
27
A
nossaprodução prática, com as suas séries (sempre e,ln actualização), cuja orgnizaqão 5s manife§ta apena§ no acto expositivo e segundo uma baduçâoliwe
do processo de montage (que analisaremos mais à frente), assemelha-se ao rizoma2s ou, melhor dizendo, assgme umaestruflra
izomfittcaenquanto processo de produção.Recapitulando:
. O nosso corpo de trabalho (no seu todo) pode aproximar-se dsum corpo sem órgãos,pois carece de uma organização penÍranenteo duradoura Como Deleuze nos diz em Frsncis
Bocon-
TfuIngic
of Sensation:*(...) O oorpo sem órgãos opõe-se menos aos órgãos do que a essa organização de órgãos à qual chamamos organismo.(...)"2e
. Enquanto está a ser produzido, o nosso corpo de trabalho a§sume uma postura de
rizoma,pois
não existe um eixo central, mas sim ramificações passíveis de serem agupadas-
e defimcionrem
assim entre si-
em infinitas combinações.. Essas combinações - essa organização ou a atribuição de uma função orgânica a cada um dos potenciais órgãos que fomram este corpo 'acontecem através do processo de montage e apenasi no momento expositivo (sendo que ainda assim a forma assumida não sera a única possível, pois ela é passível de ser reagrupada ou montada de um modo diverso, anibuindo diversas funções a cada um dos seus
órgâos). Mas o que é, afinal vfi. corpo sem órgãos e em que consiste o processo de
montage?
28
Mas se as fomnções rizomáticas rejeitam e transformam as estruturas de rigidez, o pensamento e o julgamento fixo e binfoio, como podem elas ser empregues ou sequer associadas a tmu questão que se
desenvolve sob uma lógica aparentemente bipolar
-
o interior e o exterior? Or4 efectivamente o quese passa é que a singela bipolaridade desta questÍto é apenas aparente, pois como veÍemos no
desenrolar do prwente texto, a nafureza das obras postas a análise @em como as obras por nós
produzidas) nunca se revela apenas interior ou apenaq exterior'
29
DELEUZE, Gillrr., Francis Bacon
-
The Logic of Sensationd.
Continuum, London; New YorhA
ideia do corpo sem órgãos é extraída e desenvolvida por Deleuze ao tertopour
enJinir
uvec le jujement de Dieu de Antonin Artaud 30.voltando
a pegar na frase de Deleuze atrás citada, Ana Godinhoen
ldeias do estilo diz-nos o seguinte:*(...) Nâo
são os corpos
üüdos
da fenomenologia, os corpos orgânicos ou metaforicos. Mas também não são o contrário dos órgãos. são corpos não corporais, não orgânicos.como
Deleuze repete amiúde, o corpo sem órgãos não se opõe aos órgãos mas ao organismo, a uma certa organização-estatificagão dos órgãos.(...)',31Ora, é precisamente fazendo uso desta dificuldade (ou, melhor dizendo, da psmlanente carência de uma deÍinição precisa e estanque) na definição da ideia de corpo §em órgãos que a adaptamos ou traduzimos livremente para o contexto da nossa produção pnítica. Se o corpo de trabalho, na sua totalidade, é am corpo sem órgãos, é porque cada pintura ou cada
deseúo
é (em potencial) um órgão.com
estaafirmação, que pode à primeira vista conter uma conhadição, queremos
di,er
o seguinte: cada pintura pode ser um órgão, mas não é permanentemente esse mesmo órgão. Isto é: agora deterrninada pintura pode ser uma boca, mas num outro contextoserá um figado. Este permanente devir na
atibuição
daftnção
específica de cada pintura-órgão , faz do seu conjunto vm corpo sem órgdos.g)
AMonloge
em SergeiM.
EisensteinFalta-nos agora falar um pouco sobre a tradução da montagem em Sergei
M.
Eisenstein
(Iig
1l
al5).
para o nosso trabalhopÉtico.
A
montagem enquanto processo de sigrrificação é uma prática habitualmente associacía à imagem em30
GODINHO, A na, Linhos do estilo
-
Estética e ontologid em Gilles Deteuze, ed. Relógio de Águ4Lisboa 2007, p. 208 rr GoDINHo,
movimento e não à pintura- Contudo, o que
aqú
prcpomos é uma releitura dos pressupostos teorizados e postos em pnítica por Eisenstein, levando em linha de conta as necessárias alterações que a mutação da linguagern cine,matográfica em tinguagem pictórica necessariamenteimplica
Ainda que Eisenstein não tenha sido o inventor da montagem
-
esse papelcúe
aD.W.Griffith
- elefoi
sçm dúvida um dos seus mais proficuosúilizadores,
ficando aliás o seu nome para sempÍe associado a esta (chanremos-lhe assim)técnica
Aceitando a sugestão de Jorge Leitão Ramos
emsergei
EisensÍein32, comecemos por falar de umoufo
teórico do cinemq o Russo Kuleshov, cujas experiênciasexerceram uma forte influência no
tabalho
de Eisenstein."(...)
A
sua experiência mais célebre é clarificadora: Kuleshov montou um grande planoexpressivo do rosto do actoÍ Mosjoukine (tirado de um velho filme de Geo Bauer) com outro
mostrando um praro de sopa; depois montou o mesmo plano do rosto do actor com oufro
mosEando um caixão de criança; ainda uma terceira vez montou o memo plano com um de
uma mulher seminua em pose provocante. Depois projectou o total perante uma audiência.
Foi unônime a opiniâo de que Mousjoúine era 'm óptimo actor dado que expressava de um
modo magnífico sentimetrtos de fome (primeiro), dor (a seguir) e desejo (por fim). Kushelov
demonstrava assim que a signifrcação de uma sequência pode depender exclusivamente da
relacionação subjectiva que o espectador faz de planos diversos que, separadamenteo a não
possuem nem sequer parcelarmente.(...)'3
Ainda segundo Jorge
Leitiio
Ramos o'as teorias de montagem de Eisenstein são,em
laga
medid4
baseadas neste pressuposto". Eisenstein pretendia assim trabalhaÍ as reacções smocionais e ideológicas do espectador, procurando e provocando osestírnulos nervosos que mais se adequassem a operar essas reacções3a.
'
RAMO§, Jorgel*lúo,
Sergei Eisensteirl ed- Liwos Horizonte, Lisboq I 98 I , p. 22-2333RAMogcit, p.D,-23
I
Como nos alerta Jorge Leitão Ramos, na obra já citada, pág.23: "(...) Claro que hojq esmvigo
mecanicista da psicologia humana foi ultrapassada por novas descobertas (mormente as devidas aoe
trúalhos de Jean Piage! no que diz respeito à génese da inteligência humma), maq, na década de 20,
Eisenstein elaborou, teorica e praticamente, diversos tipos de montagem. São eles
a montagem métrica ("baseada fundamentalmente no comprimento dos fragmentos
de montagem"), montagem
rÍtnica
("o
movimento no interior dos planos", suasconcordâncias e conflitos), montagem üonal ("úbrações luminosas dos planos não esquecendo porém a sua componente
ritmica", "confliÍos
entre dois/ors
dominantes numa mesma cena"), montagem harmónica (depois de umfilme
estar montado e à semelhança do que se passa com a música "a um som central se adicionam ssmpre harmónicas superiores e inferiores"), montagem intelectual ("montagem não dossons harmónicos geralmente fisiológicos, mas de sons harmónicos de um
tipo
intelectual, isto é, conflito-justaposição de efeitos intelectuais paralelos'o nas palawas do próprio Eisenstein.) e montagem vertical
('tendo
mais a ver com concepção global dofilme
que com a estrita relacionação de vários planos"). Comoafimn
Jorge Leitiio Ramos, Eisenstein "aventura-se no terreno da pura especulação psicofi siológica de precária confi rrnação científi ca".Guardaado as devidas distâncias, é um processo (ajustado ás especificidades do nosso caso particular) de montage - que vai buscar alguma fundamentação teórica a Eisenstein
-
que pretendemos pôr em pnítica no momento expositivo. Damos um breve exemplo: pouco tempo depois dos ataques terroristas no metropolitano de Londres, tivemos uma exposição individual numa galeria do Porto.Aí
realizámos uma montagem que pode ilustrar a adaptação deste processo: a primeira pinturarepresentava um qualquer tunel de metropolitano vazio
(fig,
16); na que lhe sucediana parede da galeria vislumbrava-se o que parecia ser um acidente de avião
(fig.
17); no conjunto que se situou na parede em frente estavam quatro pinturas quecompunham uma série e que representavam apenrts aviões
(fig.
18) e ao lado destasaparecia ainda uma ouha pintura em que se podia vislumbrar o que parecia ser um
gupo
de seguranças ou policias numa qualquer situação de acidente(frg.
19).Num
outro ponto da galeria aparecia, isolada uma pintura que representava um carro abandonado numa paisagem inósptta (ng. 20). Imaginemos agora viírias hipóteses de montagern a partir destas obras: se retiramros o tunel do metropolitano, o espectador provavelmente leria que o artista tinha um qualquer fascínio pela representação de
aviões; se
retiramos
o aviâo acidentado, aquele coqjunto apenasrevelariaum
inleresse do artista por meios de transpoÍe; contudo, com todas estas obras ern confronto dfuecto, a associa{ão com os atenúados de Londres (e, consequente,lnente, com o de I
I
de Setembro) seria mais provável de acontecer.A
pintura do carro corrobora estas associações, pois a lembrança de imagens de carros armadilhados (imagem recorrente em qualquer noticiri,rio) é, assinr, facilmenteaccionada-Mas o leque de possibiüdades não se fecha aqui, pois a hipótese do observador ver, em qualquer das
tês
hipóteses, apenas pintrnas de aviões e de tuneis demetopolitano,
sem fazer qualqueresffcie
de ligação com acontecimentos mais oume,nos recentes da nossa história é perfeitamente posslvel e até bastante provável. O que teíúâmos (com a tradução do processo de montage e de
outos
mecanismos) ésriar uma teia de sigrrificação. Mas essa teia nâio se encontr4 obüamente, fechada sobre si mesma
Aqú
entram emjogo
alguns dos conceitos atrás discutidos, como aestruhra
rizomática com que asi nossas séries de trabalho se desenvolvem e se relacionam enlre si, bem como o corpo sem órgãos,no que à sua 'organização momentlinea"
diz
respeito. Dizemos 'organização momentÍineao, pois, por exemplo, a pintura que
naquela exposição serviu para acciorar a possibilidade da leitura que
afás
referimos, poderia voltar a serúilizada
agora num contexto completamente diferente, servindo assim ouTro propósito-
pintura-órgao cujanatweza penrunece em psrmanente estado de devr4 agora é boca" logo é figado.Resta deixar uma nota para o facto de todas estas adaptações ou traduções de conceitos filosóficos e teóricos para o universo da nossa actiúdade prática surgir
a
posteriori.Isto
é, a prática vem primeiro, as ligações começam a desenhar-se e,então, dá-se a jrmção entre teoria e
prática
A partir desse momento, teoria e ptáticah)
O
espaço dapintura
emEliane
EscoubasAinda assirn, achamos por bem estender um pouco mais esta discussâo acerça de sab€r o que é que o pintor coloca na
tel4
trazendo paralal
a lume uma reflexão sobre um texto de Eliane Escoubas3s, onde a autora discorre precisamente acerca danatureza e espaço da
pintura-A
fim
de annlisar o espaço pictórico, a autora parte doprincipio
de que"o
que a pinturapinta'são
as condições de visibilidade segundo uma determinadamodalidade historial e não as condições de reprodução do real, pois o espaço da pintura é mais um espaço de manifestação do que representaçâo.
Aptntwapõe-em-obra
o
olhat
O espaço do quadro é um espaço plural e disso é testemunha a história da
pintura
Para corroborar esta tese, a autora exernplifica com a inegável diferença existente entre o espaço numa pintura de Ucello (frg. 21 e 22), de Rembrandt(Iig.23)
ou deCézarne {fi9-24).
Avança
poÍanto
que, no sentido de provar que a pintura pinta nâo as condiçôes de reprodução do real, mas sim as condigões de visibilidade segundo umadeterrninada modalidade historial.
sffí
maisüável
construir uma ontologia do espaço pictórico do que elaborar uma mera história (cronológica) dapintura
A
autora recorre a Heidegger p ara dizer que tambern as coisas da pintura sãocorpos que são lugares, acontecimentos:
" (...)
Em pintura os corpos não§o
partes do espaço, mas antes lugares. E são-no porque pertencem à ordem do acontecimento(. .
.)-.
A
pintura dá a ver aquilo que só atavés dela podemos ver. O mundo por ela criado não tem portanto lugar na objectividade das coisas mas sim na puravisibi-lidade,
navisibilidqde
em si."A
vinda-q-si doüsivel:
o que quer isto dizer?A
"
E§COUBAS, Eliane-
L'Espace pictural, Fotocópias disponibilizadas pelo docente Cartos CoutoSequeira Cost4 durante o seminário de Teoria do Projecto e do Acto Criativo, leccionado durante o
vindo-a-si do
üsível
é um redobramento doüsível
sobre si mesmo, um retomar a si dovisíve[."
Este aconteçimento, esta inversão através da qual observador eobservado trocaur de posição entre si é o que define o espaço pictórico e igualmente o que o separa da objectiüdade do espaço cartesiano.
O espaço pictórico é onde as forrnas têm lugar. Não é um contentor de
fomns,
mas sim um lugar que instaura as fomtas. Ou seja, o acontecimento aravés do qual
as formas devêm
foÍmlse
o espaço devém espaço. Ê um espaço instaurador de formas-
fomras que não são nem imagens, nem figuras, nemsip.os.
Qual é enüto o modo de ser do espaço pictórico?
*(...)
O espaço pictórico éforma/acontecimento;aforrna/acontecimentoéritmo:oespaçopictóricoéorifuo
do visível, O acontecimento do
ritmo
e o acontecimento da aparição são o mesmo acontecimento. Ritmo e acontecimento são o começo da pintura-
de toda a pintura-o
xup6r-em-obra,o
sevpôr-em-espaço. O ritnro e aaparição não têm antecedente: apaÍecem a partir denada
Eles são a origem da pintura1...y'.
A
autora prossegue depois, fazendo uma distinção entre o que poderia ser uma história da pintura e uma história da ciência, afirrnando que esta úútfuna obedece a uma continúdade, enquanto a ouha progride por descontinúdades, pois nela "cada mudança é origem".Independentemente da necesúria inserção numa determinada historicidade, o espaço pictórico não é nem seÉ ntrnca apenas runa porção de espaço mas sim um modo de aparição. Ele é nascença sob o olhar de rrm mundo
outo,
esse sení o etemo "enigma da pintura''.Com esta breve interve,nção, que conduzimos no sentido de
tazer
à discussão outras possibilidades acerca do entendimento do espaço da pintura e ondeapresentámos, aEavés da análise do pensamento de Eliane Escoubas, 'ma concepção
de pintura nem sempre coincidente com aquela que iremos abordar neste estudo, pretendemos acima de tudo reafirmar que a perspectiva através da qual
abrdaremos
i)
Outros
Pontos devista
sobre ointerior
e oexterior
Como atrás dissemos, o ponto de vista sob o qual paÍthemos para esúa
investigação tem a sua génese na nossa pnítica de estudio, adoptando por isso uma posturap€ssoal e subjectiva- Contudo, gostaríamos de
deixarclaro
o facto derecoúecermos a existência, a pertinência e a mais-valia de outros modos de abordar
esta questão.
Ainda que o nosso ponto de
üsta
seja o fiiocondúor
da presente investigação, no decorrer da mesma serão frequentes as incursões por modos diversos (muitas vezes coincidentes, outras antagónicos) do nosso, facto que, assimjulgamos, contribuirá para uma mais proficua abordagem a este assunto.AssirrL voltamos a recordar que o nosso ponto de vista é tomado pela perspectiva do autor e referir-se-á essencialmente
ànainezadaobra
por nósproduzida
Essanatureza deve em grande medida a sua identidade à fonte da qual o autor partiu para arealização da obra. Neste sentido, temos pinturas interiores
-
sem qualquerreferente no mundo
üsível;
pinturas exteriores-
partem de um referente com manifestação no mundo visível.Dito
desta forma, a questilo parece não oferecer grandes dúvidas ou incertezas.No
decorrer doteÉo
iremos comproyar que, pelo contrárioo a questão nunca é linear e o factor "contaminação" estará praÍicamente sempre presente.Reafimrado o ponto do qual partimos para a investigação, passamos agora à
exposição de outros pontos de vista sobre este mesmo assunto. Comegamos pelas ideias desenvolúdas por Jaques Derrida na sua obra The