dez anos de abphe
T a m á s S z m r e c s á n y i
Professor do Departamento de Política Científica e T e c n o l ó g i c a do Instituto de Geociências da U N I C A M P
S e m ter a d e r i d o ao ufanismo c o m p l a c e n t e da indústria das efemé¬ rides e do c u l t o às personalidades, resolvi aceitar este c o n v i t e p o r imaginar que a presente sessão p o d e r á ser útil: ( 1 ) para informar nos¬ sos c o n v i d a d o s e visitantes, b e m c o m o nossos associados mais recentes, d o q u e t e m sido e d o q u e t e m feito a A B P H E ; e ( 2 ) para levantar al-gumas questões a serem debatidas e aprofundadas, na Assembleia de amanhã, questões q u e se referem n ã o só aos últimos d e z anos, mas, antes, aos p r ó x i m o s d e z anos de nossa A s s o c i a ç ã o . Estes são os dois objetivos que procurarei alcançar através da m i n h a e x p o s i ç ã o .
C o n t a n d o mais de 2 5 0 m e m b r o s atuantes em todas as regiões do País, a Associação Brasileira de Pesquisadores em História E c o n ô m i c a c o m p l e t a esta semana dez anos de combativa e profícua existência. Esta década é um p e r í o d o m u i t o curto em termos históricos, mas, ao m e s m o t e m p o , constitui u m p e r í o d o bastante l o n g o e m termos e c o n ô m i c o s , levando em conta as dificuldades e as adversidades da conjuntura que estamos atravessando. Incluem-se até agora entre seus ativos a realização de quatro grandes encontros científicos internacionais (este aqui é o quinto da série); a publicação de seis livros; a e d i ç ã o de u m a revista semestral, c o m dez números já publicados; e, principalmente, a reativa¬ ção de disciplinas acadêmicas até recentemente consideradas decadentes, em crise, superadas e / o u substituídas p o r outras especialidades mais na m o d a . Mais adiante, falarei t a m b é m do seu passivo e dos nossos atuais problemas.
Por enquanto, quero lembrar que esta Associação foi criada em se¬ t e m b r o de 1993, ao t é r m i n o do I C o n g r e s s o Brasileiro de História E c o n ô m i c a e da 2a C o n f e r ê n c i a Internacional de História de Empresas,
duas reuniões conjuntas c o m o as atuais, c o m cerca de 150 participantes, realizadas no campus da USP, em São Paulo. Na sessão de encerramento das mesmas foi efetivada a fundação de nossa sociedade, c o m a escolha de uma diretoria provisória, que ficou encarregada de organizá-la, elabo¬ rando e registrando seus estatutos, e c o n v o c a n d o eleições para a cons¬ tituição e a posse da sua primeira diretoria definitiva. D e v i d o a vários problemas, esse processo preparatório acabou d e m o r a n d o quase dois anos, c o m as primeiras eleições apenas v i n d o a ser convocadas no m o ¬ m e n t o em que foi atingido o patamar m í n i m o de c e m associados for¬ malmente inscritos.
Antes de ir mais adiante, gostaria de destacar e explicar a defasagem numérica que até h o j e se m a n t é m entre as duas reuniões conjuntas de nossa Associação. Trata-se de uma defasagem que t e m a sua razão de ser n u m d o s antecedentes que acabaram levando à criação de A B P H E . R e f i r o - m e à C o n f e r ê n c i a Internacional de História de Empresas, rea-lizada em o u t u b r o de 1991, na cidade de N i t e r ó i , p o r iniciativa de nossa e x - c o l e g a , de saudosa m e m ó r i a , Maria-Bárbara Levy, c o m a fina-lidade de criar uma Associação Brasileira de História E c o n ô m i c a . Maria-Bárbara, que já estava m u i t o d o e n t e na é p o c a , v i n d o a falecer p o u c o s meses depois, não p ô d e completar seu projeto. Mas este não m o r r e u c o m ela, frutificando na decisão de levar avante sua iniciativa e, depois, de manter juntas as reuniões de História E c o n ô m i c a e de História de Empresas, l e m b r a n d o pela n u m e r a ç ã o díspar de ambas a importância de seu gesto p i o n e i r o .
T a m p o u c o poderia omitir deste m e u d e p o i m e n t o u m outro evento precursor, ainda mais antigo, que foi a constituição, em n o v e m b r o de 1985, na cidade de Brasília, da Sociedade Brasileira de História E c o n ô -mica - S O B R A H E . Criada p o r n o v e colegas nossos, ainda t o d o s vivos e p o r isso não n o m e a d o s aqui, essa entidade nunca saiu do papel, d e v i d o a u m a desinteligência insanável entre dois de seus fundadores. Quatro destes já se tornaram m e m b r o s da ABPHE, e um q u i n t o n o s está d a n d o o prazer de sua participação neste e n c o n t r o . Q u e r o , de p ú b l i c o , prestar minhas h o m e n a g e n s a t o d o s eles, não apenas p o r isto, mas t a m b é m p e l o
fato de os Estatutos de nossa Associação terem t o m a d o os da referida Sociedade c o m o m o d e l o e p o n t o d e partida.
Fechando estes parênteses, e v o l t a n d o à nossa própria história, dese¬ jo assinalar que a primeira diretoria eleita da ABPHE, integrada p o r
m e m b r o s de São Paulo e do R i o de Janeiro, t o m o u posse no i n í c i o de setembro de 1995, e o r i e n t o u os destinos da Associação até o final de agosto de 1997.
Nestes dois anos, o c o r r e r a m a sua filiação à Associação Internacional de História E c o n ô m i c a , que c o n g r e g a a nível mundial as associações nacionais de dezenas de países, b e m c o m o a publicação dos c i n c o livros c o m a maioria dos trabalhos apresentados no I C o n g r e s s o e na 2a C o n ¬ ferência, livros estes que foram republicados no ano passado em c o e d i -ção c o m a Editora da USP.
Mas o p o n t o alto dessa gestão foi a realização, em o u t u b r o de 1996, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, do II C o n g r e s s o Bra¬ sileiro de História E c o n ô m i c a e da 3a C o n f e r ê n c i a Internacional de História de Empresas, cujos anais (os últimos impressos em papel) so¬ maram outros c i n c o v o l u m e s . D e v i d o ao grande êxito dessas reuniões, foi eleita, no ano seguinte, uma nova diretoria, constituída p o r associa¬ dos daquela Universidade e da Universidade Federal do Paraná. C o u b e a esta segunda diretoria eleita criar a revista semestral História Econômi¬ ca & História de Empresas, c u j o primeiro n ú m e r o foi publicado no se¬ g u n d o semestre de 1998, e que, desde então, v e m saindo ininterrup¬ tamente, c o m o lançamento do p r ó x i m o n ú m e r o (o segundo de 2003) estando previsto para antes do final deste ano.
A l é m disso, a mesma diretoria levou a b o m t e r m o a organização con¬ junta do III Congresso Brasileiro de História E c o n ô m i c a e da 4ª Confe¬ rência Internacional de História de Empresas, duas reuniões de grande sucesso, realizadas em Curitiba, no final de agosto e início de setembro de 1999. Os trabalhos deste encontro foram registrados em C D - R O M . Nessa ocasião, t o m o u posse a terceira diretoria eleita da ABPHE, integra¬ da por membros da Universidade Federal do Paraná e das três universidades públicas estaduais de São Paulo (USP, U N I C A M P e UNESP). Durante sua gestão, foi criado o atual l o g o t i p o da Associação, e deu-se a publicação em livro da tese de doutorado de Celso Furtado, defendida na Universi¬ dade de Paris em 1948, e que até então havia p e r m a n e c i d o inédita.
Ao m e s m o t e m p o , foram sendo adotadas as medidas necessárias para a organização do IV C o n g r e s s o Brasileiro de História E c o n ô m i c a e da 5a Conferência Internacional de História de Empresas. Estas duas reu¬ niões conjuntas foram realizadas em setembro de 2001, novamente no campus da USP, em São Paulo, e ambas tiveram igualmente grande êxito, c o m seus trabalhos gravados em C D - R O M . A nova diretoria então em¬ possada, que ora está terminando seu mandato, foi c o m p o s t a de asso¬ ciados de São Paulo e de Minas Gerais, local do nosso atual encontro.
A l é m de organizar o presente C o n g r e s s o Brasileiro de História E c o n ô m i c a e a atual Conferência Internacional de História de Empre¬ sas, ela teve a feliz iniciativa de promover, em setembro do ano passado, no campus da UNESP, em Araraquara, a realização do I E n c o n t r o Na¬ cional d e Pós-Graduação e m História E c o n ô m i c a . Tratou-se d e u m evento que nos leva a encarar c o m o t i m i s m o o futuro desta Associação. Por outro lado, tem-lhe c a b i d o a inglória tarefa de c o l o c a r em dia a d o c u m e n t a ç ã o administrativa da ABPHE, a fim de que esta possa recu¬ perar plenamente a sua personalidade jurídica j u n t o às organizações fiscais e bancárias do País.
N ã o irei tratar aqui do presente e n c o n t r o , q u e apenas a c a b o u de c o m e ç a r , n e m da p r ó x i m a diretoria de nossa Associação, q u e sequer c h e g o u ainda a tomar posse. Em c o m p e n s a ç ã o , pretendo agora apre¬ sentar algumas considerações prospectivas de mais l o n g o prazo, apon¬ tando alguns problemas que t e m o s enfrentado, e sugerindo s o l u ç õ e s para os m e s m o s .
Um primeiro problema diz respeito ao n ú m e r o e à distribuição espacial de nossos associados. S e m prejuízos para a b o a qualificação acadêmica média do nosso quadro associativo, penso que esse n ú m e r o poderá ser facilmente d o b r a d o nos p r ó x i m o s dez anos. Mas, ao m e s m o t e m p o , teremos que nos esforçar para que isto se dê em b o a parte fora do e i x o R i o - S ã o Paulo e além das fronteiras das regiões Sudeste e Sul do país, e m b o r a nestas t a m b é m haja até agora Estados sub-representados. O grande desafio será, portanto, o de p r o m o v e r a ampliação do núme¬ ro de associados nas regiões N o r t e , Nordeste e C e n t r o - O e s t e .
Estas regiões até o m o m e n t o não t ê m apresentado uma estrutura mínima quer para representantes seus v i r e m a integrar a diretoria da Associação, quer para se responsabilizarem pela realização de reuniões de maior porte. O p r ó x i m o grande e n c o n t r o da ABPHE deverá ser
realizado dentro de dois anos, no Estado do R i o de Janeiro. E, mantidas as coisas c o m o estão, é b e m provável que o outro, daqui a quatro anos, t a m b é m o c o r r a nas regiões Sudeste ou Sul. Trata-se, p o r é m , de uma situação que não se p o d e manter indefinidamente.
Para acelerar o i n í c i o de sua mudança, as próximas diretorias da A B P H E deverão procurar ajudar a p r o m o v e r reuniões de m e n o r porte nas regiões até agora marginalizadas, c o n g r e g a n d o seus professores e estudantes de pós-graduação, potencialmente interessados em nossas disciplinas.
A ampliação numérica e a m a i o r dispersão regional de nosso quadro associativo permitiriam aumentar a tiragem e diminuir os custos unitᬠrios de nossa Revista. Essa tiragem, que atualmente gira em t o r n o de quinhentos exemplares p o r números, e que, m e s m o assim, t e m gerado um considerável encalhe, não apresenta as c o n d i ç õ e s necessárias para despertar o interesse quer de editoras comerciais, capazes de assumir parte dos custos de sua p r o d u ç ã o , quer de entidades de f o m e n t o , aptas a ajudar a custeá-las.
Em outros países, e m e s m o em outras associações de nosso país, são as revistas que ajudam a sustentar as associações, e não o contrário, c o m o t e m o c o r r i d o até agora entre nós. E m b o r a a qualidade dos seus artigos seja bastante b o a , nosso p e r i ó d i c o n ã o t e m apresentado a circulação que seria de se esperar, p o r falta de u m a m e l h o r divulgação. Trata-se, na verdade, de u m a revista ainda semissecreta, só para iniciados...
O c a m i n h o para aumentar sua circulação passa pela ampliação do n ú m e r o de seus assinantes, principalmente os de caráter institucional. M i n h a proposta para tanto é de doar c o l e ç õ e s d o s n ú m e r o s já pu¬ b l i c a d o s para bibliotecas universitárias do País e do exterior, q u e se c o m p r o m e t a m a assinar a Revista daqui em diante. C o m esses assi¬ nantes institucionais e um quadro associativo em expansão, acrescidos de u m a distribuição p o r c o n s i g n a ç õ e s para livrarias universitárias, po¬ d e r e m o s alcançar as c o n d i ç õ e s mínimas para tornar nossa Revista autossustentável. E t a m b é m para receber auxílios dos órgãos de fomen¬ to, que n ã o c o n c e d e m recursos a q u e m precisa, mas s o m e n t e àqueles que se mostrarem capazes de garantir um r e t o r n o para os investimen¬ tos realizados.
A l é m disso, as publicações da Associação não se r e s u m e m apenas a sua Revista; há t a m b é m as c o e d i ç õ e s de livros, mencionadas há p o u c o ,
e que p o d e m vir a constituir u m a outra fonte de receita para a ABPHE. Este t e m sido o caso d o s c i n c o livros resultantes do e n c o n t r o de 1993, cujos direitos autorais p e r t e n c e m à A s s o c i a ç ã o , e t a m b é m da publica¬ ç ã o da tese de d o u t o r a d o de C e l s o Furtado, que c e d e u os direitos autorais da primeira e d i ç ã o para nossa A s s o c i a ç ã o . E, neste particular, p o d e s e m e n c i o n a r ainda o livro Escritos Selecionados, de A n n i b a l V i l -lela, editado p e l o IPEA, em 2000, e cuja p u b l i c a ç ã o c o n t o u c o m o a p o i o d a A B P H E , b e m c o m o c o m o s esforços atualmente desenvolvi¬ dos para publicar a coletânea d o s artigos e d o s demais trabalhos avul¬ sos de A l i c e Canabrava.
No que se refere à publicação de textos apresentados em encontros anteriores da Associação, será naturalmente preciso fazer uma seleção dos de m e l h o r qualidade e daqueles, c u j o c o n t e ú d o p e r m a n e c e válido até h o j e , c o m as atualizações q u e f o r e m eventualmente necessárias. Estou plenamente c o n v e n c i d o de que, mediante algum esforço p o r parte dos organizadores de cada v o l u m e , será possível resgatar trabalhos de relevante valor e utilidade, passíveis de despertar o interesse das edi¬ toras universitárias do R i o de Janeiro, do Paraná e de São Paulo. O m e s m o se aplica obviamente aos melhores trabalhos a serem apresenta¬ dos neste encontro, os quais, depois de reunidos em um ou mais livros, p o d e r ã o vir a ser publicados pela Editora da U F M G .
Mas as relações entre a ABPHE e as editoras do País não d e v e m limitarse apenas à c o e d i ç ã o de livros e à eventual publicação de nossa Revista. Elas p o d e m vir a abranger outras áreas, c o m o o barateamento do material bibliográfico para nossos associados e seus alunos respectivos. Isto teria p o r contrapartidas o f o r n e c i m e n t o dos n o m e s e endereços dos integrantes da Associação para vendas de livros p o r mala direta, b e m c o m o a cessão de espaços para e x p o s i ç ã o e venda dos m e s m o s p o r oca¬ sião de nossas reuniões.
O último, mas não m e n o s importante problema a ser resolvido nos p r ó x i m o s anos é o da perene falta de recursos para financiar e custear as atividades e a desejável expansão da ABPHE. Tais recursos deveriam p o d e r sair de um fundo renovável, inicialmente constituído p o r d o a ç õ e s . Para tanto, p o r é m , torna-se indispensável que a nossa Associação venha a ser declarada de utilidade pública pelas autoridades tributárias c o m p e ¬ tentes. Trata-se de algo que, sem dúvida, irá dar bastante trabalho, mas que, uma v e z c o n s e g u i d o , poderá vir a resolver muitos dos atuais p r o b l e
-mas financeiros que afetam as atividades correntes e o desejo de crescer
d a A B P H E .
Para concluir, q u e r o dizer-lhes que os p r ó x i m o s d e z anos de nos¬ sa A s s o c i a ç ã o n ã o serão iguais aos d e z primeiros. A l é m de diferentes, p o d e r ã o ser melhores, m e n o s difíceis e mais produtivos. Os i n d í c i o s dessa virada já se fazem sentir neste c o n g r e s s o e nesta encantadora cidade d e C a x a m b u , que, p e l o m e n o s dentro d o triângulo R i o - S ã o P a u l o - B e l o H o r i z o n t e , é, indubitavelmente, das mais democráticas, na m e d i d a em q u e se localiza igualmente l o n g e de t o d o s .
T e r m i n o , pois, desejando feliz aniversário a t o d o s que aqui v i e r a m e m u i t o sucesso na n o v a década q u e ora se abre. Estas são as conside¬ rações q u e c o n s e g u i alinhavar, c o m base na m i n h a v i v ê n c i a na Asso¬ ciação e dentro do t e m p o disponível para a formatação das mesmas. N ã o sei se era isto q u e v o c ê s esperavam ou desejam ouvir. M a s , de qualquer forma, q u e r o agradecer a paciência c o m q u e me aturaram, e c o l o c a r - m e à disposição d o s presentes para os eventuais questiona¬ m e n t o s q u e tiverem.