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(1)

I Curso de Metodologia de

Pesquisa em Saúde da

População Negra

Módulo: Estudos qualitativos

Conceitos e referenciais teóricos

Regina Facchini (Núcleo de Estudos

de Gênero PAGU/UNICAMP)

(2)

Objetivo:

Introduzir conceitos fundamentais para os

estudos qualitativos - tais como sociedade,

representações coletivas, ação social, tipo

ideal, cultura, sistema simbólico e sistemas

de classificação – tomando em conta

noções de indivíduo, corpo, saúde e

doença.

Oferecer reflexão introdutória sobre a

relação entre diferentes marcadores sociais

de diferença.

(3)

Campos disciplinares e conceitos

 Referencial teórico para os estudos qualitativos têm relação com

o desenvolvimento das ciências sociais (Sociologia e Antropologia)

 A sociologia se constituiu como ciência a partir do século XIX:

definiu seu objeto próprio, o social, foi construindo métodos próprios para abordar seu objeto, um corpo de conhecimentos considerados científicos e conceitos que expressam esses conhecimentos.

 Conceitos são palavras que passam a ser utilizadas com

determinado significado de forma consensual pelas pessoas que compartilham determinado conhecimento. Por vezes, uma

mesma palavra é tomada como conceito, com sentidos diferentes, por diferentes autores.

(4)

Indivíduo <-> sociedade

A sociedade não é apenas uma soma de

indivíduos: estes não compartilham apenas o

espaço social, mas os significados relativos ao

universo social.

As sociedades se movimentam a partir de forças da

ação individual e grupal, com preponderância da

ação grupal.

Há várias linhas para pensar a relação entre

indíviduo e sociedade nas ciências sociais, mas as

que mais influenciaram a pesquisa qualitativa vêm

de Emile Durkheim e Max Weber.

(5)

Durkheim: a análise dos fatos sociais

e das representações coletivas

O objeto da sociologia são os fatos sociais:

fenômenos que se distinguem por se apresentarem

como exteriores e coercitivos às consciências

individuais.

As regras socialmente aprovadas e os valores

morais fundantes da sociedade se impõem em

relação ao indivíduo, sendo transmitidos a ele

através do processo de educação.

A sociedade é vista como sendo maior do que a

soma dos indivíduos, o compartilhar de regras e

valores morais cria uma consciência coletiva, que

se sobrepõe e é diferente da soma das

(6)

Representações e mudança social

Visto dessa maneira, o indivíduo está sendo

formado pela sociedade e a possibilidade de que

possa romper com suas regras e trazer

transformações sociais é muito menor.

Entretanto, com a rapidez das transformações

sociais, teria se criado um estado de anomia: havia

uma ausência de consenso e definição a

respeito das regras e valores morais que

deveriam guiar a sociedade. Com isso, a

sociedade não era mais capaz de exercer controle

sobre o comportamento de seus membros.

(7)

Representações, indivíduo e

social

Sua noção de indivíduo está baseada no fato de que

sua [do indivíduo] percepção da realidade/ mundo físico

que o rodeia está marcada por categorias e valores

previamente estabelecidos pela sociedade em que vive.

Sua abordagem está centrada principalmente nas

representações coletivas, percepções do mundo

socialmente determinadas. Os pensamentos e

comportamentos individuais se inserem dentro de um

contexto mais amplo que é a sociedade/cultura e

portanto são dependentes dos valores, instituições e

sistemas de classificação desta sociedade.

A origem das representações é social e, por seu caráter

coercitivo (obrigatório) podem ser observadas no plano

individual. O indivíduo é percebido aqui como

representante da cultura (o que justifica a pesquisa

qualitativa)

(8)

Representações: como

funcionam?

As representações coletivas são diferentes da “realidade

concreta”, pois referem-se a uma interpretação da

realidade, com diferentes significações e sentidos.

Elas criam uma realidade particular e, neste sentido, as

relações individuais devem ser entendidas não como

uma reação à realidade, mas sim como uma reação às

representações que possuem desta realidade.

As representações coletivas descrevem, explicam e

prescrevem.

Embora sejam referência para a ação, as representações

coletivas não são equivalentes às práticas. Existe toda

uma complexa mediação entre representações e práticas

sociais.

As representações sociais são, em geral, de caráter

inconsciente e podem se contrapor às opiniões

manifestas e conscientes

(9)

Como chegar às representações

sociais?

 O discurso (oral ou escrito) é a forma privilegiada de acesso

às representações sociais.

 Por seu caráter inconsciente, as representações não são

claramente enunciadas pelos indivíduos.

 Deve-se atentar para as categorias, oposições e formas de

racionalidade utilizados para traduzir e organizar a experiência.

 Cabe à análise buscar o nível mais geral, o código partilhado,

a lógica comum subjacente a um conjunto de falas.

 É fundamental, ainda, levar em consideração os aspectos

contextuais que podem concorrer para as representações.

 A análise das representações ao longo do tempo, de suas

modificações e permanências, ajuda também a compreender representações específicas (Ex: aids e sífilis).

(10)

Uma ciência voltada para a compreensão

interpretativa da ação social

Ao contrário de Durkheim, Weber pensava que a sociedade

deve ser concebida como obra da ação do próprio homem.

Entretanto, a ação dos indivíduos não é livre de condições

históricas existentes: o indivíduo constrói a realidade em

que vive ao mesmo tempo em que é construído por ela.

Ação social é uma forma específica de ação orientada em

seu sentido/motivação pelo agente (indivíduo) conforme a conduta que este espera que os outros agentes tenham. Os indivíduos são agentes sociais uma vez que sua ação sempre está baseada na expectativa de reação dos outros indivíduos com os quais interage.

A motivação é o que fundamenta a ação e a tarefa do

sociólogo é compreender as ações sociais através da reconstrução do motivo. A ação é a forma pela qual um

agente pretende alcançar determinados fins através de certos meios, o que implica uma escolha, que sempre é feita

(11)

Sintetizando: o problema

Reconstruir o motivo da ação e a escolha entre

diversas possibilidades de ação é tratar de um

processo de ação, que, no entanto, não é

meramente individual.

Se o processo de ação não é meramente individual,

por que Weber parte do indivíduo para

compreender os fenômenos sociais?

Porque concebe a realidade como composta por diferentes

esferas da existência humana – economia, política, cultura,

religião – que são autônomas, isto é não se determinam entre si. O único lugar em que essas esferas estão presentes ao

mesmo tempo e podem entrar em contato é no indivíduo. Só

o agente individual pode conferir sentido a suas ações a partir da interação que faz em si mesmo dessas esferas da existência.

(12)

Dos processos individuais à

análise sociológica

 Para dar um caráter sociológico à análise Weber constrói um conceito

que dá conta das regularidades de conduta encontradas socialmente e do fato de que elas têm um caráter coletivo: relação social - a

conduta de cada um dos agentes sempre é orientada por um conteúdo de sentido compartilhado por todos os envolvidos na ação.

 Não há garantias prévias de que esses sentidos compartilhados se

traduzam em condutas efetivas, entre sentidos compartilhados e condutas efetivas há uma relação de probabilidade. Sentidos compartilhados só se transformam em conduta quando são aceitos como legítimos.

 O procedimento que sela a ligação entre ação individual e fenômenos

sociais é construção de tipos ideais através da comparação das

motivações e justificativas e do exagero de algumas características que se quer ressaltar entre o que se observa como sendo regular nas ações sociais de determinados tipos de agentes.

O tipo ideal faz referência a um modelo para a análise, mas

certamente não é facilmente encontrado na realidade da mesma forma como é descrito.

(13)

Cultura: um conceito

antropológico

 Uso tem por objetivo principal compreender um único fenômeno: a

organização da experiência e da ação humanas por meios simbólicos.

 A noção de simbólico remete ao fato de que as pessoas, relações e

coisas que povoam a existência humana manifestem-se

essencialmente como valores e significados, que não podem ser determinados a partir de propriedades biológicas ou físicas. (ex: um macaco não é capaz de apreender a diferença entre água benta e água destilada, até porque a composição química das duas é a mesma).

 Esse tipo de reordenação do mundo é capacidade singular da espécie

humana. O conceito de cultura surgiu como meio para compreender as diferenças existentes entre as sociedades humanas sem recorrer ao determinismo biológico ou geográfico (ex determinismos: negros são bons em música e esportes; habitantes dos trópicos são preguiçosos e sensuais)

 Há variedades e não graus de cultura. Por caracterizar formas

específicas de vida, o conceito de cultura é necessariamente plural, em contraste com a noção de um progresso universal da “razão” que

(14)

Cultura

É a dimensão a partir da qual os significados e as

representações são elaborados e ganham sentido;

Refere-se a um conjunto de elementos de diferentes ordens:

instituições sociais (parentesco, sistema político, religião etc.),

valores, conhecimentos, sistemas de classificação, artefatos

(cultura material) e organização da vida social;

Configura a visão de mundo de um determinado grupo social e

sua forma de inserção no mesmo.

Conforme define Geertz, pode ser pensada como uma “teia de

significados” que o homem teceu e no qual ele se encontra

preso e que funciona como um mapa de referências para o

estar no mundo.

(15)

Universo simbólico

É parte integrante da cultura, visto que refere-se

ao conjunto de símbolos e significados de uma

determinada cultura;

Poderíamos dizer que é a visão de mundo de um

grupo social pois não se refere à realidade em si,

mas a como esta é percebida e classificada pelo

grupo.

É de fato um “universo” no sentido da articulação

entre os diferentes significados e da inter-relação

que esses mantém entre si.

(16)

Sistemas de classificação

 Através da capacidade de simbolização, os seres humanos das

diferentes culturas vão atribuindo significados e valores às coisas que estão no mundo que os cerca. A partir desses significados, vamos

classificando as coisas que nos cercam de acordo com uma escala de valores. Daí, que cada cultura valorize coisas diferentes e que as

explique também de modos diferentes.

 Muito do que supomos ser uma ordem própria da natureza não passa,

na verdade, de uma ordenação que é fruto de um procedimento cultural e que não tem a ver com uma ordem objetiva. A ordenação cultural dá sentido à aparente confusão das coisas naturais. É esse procedimento, particular de cada cultura, que consiste num sistema de classificação.

 Entender a lógica dessa classificação nos permite, entre outras coisas,

perceber relações de poder no interior de uma dada cultura: o que é bom, o que é mau, o que é viável, o que é inviável, o que tem poder, o que oferece perigo?

(17)

Etnocentrismo, identidade e

diferença

 A criação de classificações (nomes e atribuição de status) e de

dicotomias (separações rígidas) entre “nós” e os “outros”

expressam em vários níveis a tendência a valorizar aquilo que nos parecer familiar e tomar o familiar como parâmetro para olhar para os outros (etnocentrismo). Assim, toma-se como ponto de

referência fundamental não a humanidade, mas o grupo social ao qual julgamos pertencer, num jogo entre identidade e diferença:

 Numa mesma sociedade, especialmente nas de pequena escala, a

divisão pode ocorrer sob a forma de parentes e não-parentes, na qual os parentes são melhores por definição e recebem um

tratamento diferenciado;

 Em sociedades que possuem uma organização social mais

complexa, como a nossa, os grupos se multiplicam quase infinitamente.

 A identidade social não é fixa, não é completa. É relacional (se

produz na relação) e situacional (pode variar de acordo com a situação)

(18)

Como falar dessa

complexidade?

Durante muito tempo falou-se na formação de

“subculturas” (subgrupos no interior de uma mesma

cultura, que possuem formas específicas de ver o

mundo). Será que a idéia de subculturas é uma

ferramenta útil para ler o mundo de hoje?

Transformações históricas: segmentação e

multiplicação de identidades que se sobrepõem

Ênfase atual na importância de analisar

simultaneamente vários marcadores sociais de

diferença (raça, classe, gênero, geração, sexualidade)

e falam em interseccionalidades

(19)

Interseccionalidades: conceito

em construção

Várias concepções:

 Soma de opressões

 Inter-relações específicas em relação a determinados indicadores e

potencialização

 Estabelecimento de hierarquias e subordinação de determinados

marcadores a outros, considerados mais “estruturantes” a priori

 Avtar Brah e Ann Phoenix (2004) definem o conceito de

interseccionalidade como designando os efeitos complexos,

irredutíveis, variados e variáveis, que se seguem quando múltiplos eixos de diferenciação – econômicos, políticos, culturais, psíquicos, subjetivos e experienciais – se intersectam em contextos históricos específicos.

 Marcadores se inter-relacionam dentro de determinado contexto,

constituindo-se mutuamente. Na realidade, não são campos distintos de experiência, isolados uns dos outros ou simplesmente justapostos, mas que existem concretamente em e através de relações com cada um dos outros.

(20)

É obrigatório pensar vários

marcadores ao mesmo tempo?

A ênfase na valorização das intersecções não

implica o demérito de fazer um trabalho a partir

de um único marcador de diferença.

No entanto, faz com que as diferenciações

internas de um dado objeto de pesquisa

precisem necessariamente ser exploradas e,

portanto, teorizadas. (ex: mulheres negras

usuárias de serviço público ou mulheres negras

e brancas usuárias de serviço público X

usuários de serviços públicos ou negras/os

usuários de serviço público).

(21)

Referências

CARRARA, S. Educação, diferença, diversidade e desigualdade.

s.d. Disponível em: <www.coepbrasil.org.

br/portal/Publico/apresentarArquivo.aspx?ID=1908>. Acesso em:

13/11/2008.

 HERZLICH, C. A problemática da representação social e sua

utilidade no campo da doença. Physis - Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.1, n.2, p.23-36, 1991.

 MOUTINHO, L.

Negociando com a adversidade: reflexões sobre “raça”, (homos

) sexualidade e desigualdade social no Rio de Janeiro. Estudos

Feministas, Florianópolis, v.14, n.1, p.103-107, 2006.

VELHO, G. Observando o familiar. In: ______. Individualismo e

cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1987, p.121-132.

 VÍCTORA, C. G.; KNAUTH, D. R.; HASSEN, M. N. A. Corpo, saúde

e doença na antropologia. In: ______. Pesquisa qualitativa em

saúde: uma introdução ao tema. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000.

Referências

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