I Curso de Metodologia de
Pesquisa em Saúde da
População Negra
Módulo: Estudos qualitativos
Conceitos e referenciais teóricos
Regina Facchini (Núcleo de Estudos
de Gênero PAGU/UNICAMP)
Objetivo:
Introduzir conceitos fundamentais para os
estudos qualitativos - tais como sociedade,
representações coletivas, ação social, tipo
ideal, cultura, sistema simbólico e sistemas
de classificação – tomando em conta
noções de indivíduo, corpo, saúde e
doença.
Oferecer reflexão introdutória sobre a
relação entre diferentes marcadores sociais
de diferença.
Campos disciplinares e conceitos
Referencial teórico para os estudos qualitativos têm relação com
o desenvolvimento das ciências sociais (Sociologia e Antropologia)
A sociologia se constituiu como ciência a partir do século XIX:
definiu seu objeto próprio, o social, foi construindo métodos próprios para abordar seu objeto, um corpo de conhecimentos considerados científicos e conceitos que expressam esses conhecimentos.
Conceitos são palavras que passam a ser utilizadas com
determinado significado de forma consensual pelas pessoas que compartilham determinado conhecimento. Por vezes, uma
mesma palavra é tomada como conceito, com sentidos diferentes, por diferentes autores.
Indivíduo <-> sociedade
A sociedade não é apenas uma soma de
indivíduos: estes não compartilham apenas o
espaço social, mas os significados relativos ao
universo social.
As sociedades se movimentam a partir de forças da
ação individual e grupal, com preponderância da
ação grupal.
Há várias linhas para pensar a relação entre
indíviduo e sociedade nas ciências sociais, mas as
que mais influenciaram a pesquisa qualitativa vêm
de Emile Durkheim e Max Weber.
Durkheim: a análise dos fatos sociais
e das representações coletivas
O objeto da sociologia são os fatos sociais:
fenômenos que se distinguem por se apresentarem
como exteriores e coercitivos às consciências
individuais.
As regras socialmente aprovadas e os valores
morais fundantes da sociedade se impõem em
relação ao indivíduo, sendo transmitidos a ele
através do processo de educação.
A sociedade é vista como sendo maior do que a
soma dos indivíduos, o compartilhar de regras e
valores morais cria uma consciência coletiva, que
se sobrepõe e é diferente da soma das
Representações e mudança social
Visto dessa maneira, o indivíduo está sendo
formado pela sociedade e a possibilidade de que
possa romper com suas regras e trazer
transformações sociais é muito menor.
Entretanto, com a rapidez das transformações
sociais, teria se criado um estado de anomia: havia
uma ausência de consenso e definição a
respeito das regras e valores morais que
deveriam guiar a sociedade. Com isso, a
sociedade não era mais capaz de exercer controle
sobre o comportamento de seus membros.
Representações, indivíduo e
social
Sua noção de indivíduo está baseada no fato de que
sua [do indivíduo] percepção da realidade/ mundo físico
que o rodeia está marcada por categorias e valores
previamente estabelecidos pela sociedade em que vive.
Sua abordagem está centrada principalmente nas
representações coletivas, percepções do mundo
socialmente determinadas. Os pensamentos e
comportamentos individuais se inserem dentro de um
contexto mais amplo que é a sociedade/cultura e
portanto são dependentes dos valores, instituições e
sistemas de classificação desta sociedade.
A origem das representações é social e, por seu caráter
coercitivo (obrigatório) podem ser observadas no plano
individual. O indivíduo é percebido aqui como
representante da cultura (o que justifica a pesquisa
qualitativa)
Representações: como
funcionam?
As representações coletivas são diferentes da “realidade
concreta”, pois referem-se a uma interpretação da
realidade, com diferentes significações e sentidos.
Elas criam uma realidade particular e, neste sentido, as
relações individuais devem ser entendidas não como
uma reação à realidade, mas sim como uma reação às
representações que possuem desta realidade.
As representações coletivas descrevem, explicam e
prescrevem.
Embora sejam referência para a ação, as representações
coletivas não são equivalentes às práticas. Existe toda
uma complexa mediação entre representações e práticas
sociais.
As representações sociais são, em geral, de caráter
inconsciente e podem se contrapor às opiniões
manifestas e conscientes
Como chegar às representações
sociais?
O discurso (oral ou escrito) é a forma privilegiada de acesso
às representações sociais.
Por seu caráter inconsciente, as representações não são
claramente enunciadas pelos indivíduos.
Deve-se atentar para as categorias, oposições e formas de
racionalidade utilizados para traduzir e organizar a experiência.
Cabe à análise buscar o nível mais geral, o código partilhado,
a lógica comum subjacente a um conjunto de falas.
É fundamental, ainda, levar em consideração os aspectos
contextuais que podem concorrer para as representações.
A análise das representações ao longo do tempo, de suas
modificações e permanências, ajuda também a compreender representações específicas (Ex: aids e sífilis).
Uma ciência voltada para a compreensão
interpretativa da ação social
Ao contrário de Durkheim, Weber pensava que a sociedade
deve ser concebida como obra da ação do próprio homem.
Entretanto, a ação dos indivíduos não é livre de condições
históricas existentes: o indivíduo constrói a realidade em
que vive ao mesmo tempo em que é construído por ela.
Ação social é uma forma específica de ação orientada em
seu sentido/motivação pelo agente (indivíduo) conforme a conduta que este espera que os outros agentes tenham. Os indivíduos são agentes sociais uma vez que sua ação sempre está baseada na expectativa de reação dos outros indivíduos com os quais interage.
A motivação é o que fundamenta a ação e a tarefa do
sociólogo é compreender as ações sociais através da reconstrução do motivo. A ação é a forma pela qual um
agente pretende alcançar determinados fins através de certos meios, o que implica uma escolha, que sempre é feita
Sintetizando: o problema
Reconstruir o motivo da ação e a escolha entre
diversas possibilidades de ação é tratar de um
processo de ação, que, no entanto, não é
meramente individual.
Se o processo de ação não é meramente individual,
por que Weber parte do indivíduo para
compreender os fenômenos sociais?
Porque concebe a realidade como composta por diferentes
esferas da existência humana – economia, política, cultura,
religião – que são autônomas, isto é não se determinam entre si. O único lugar em que essas esferas estão presentes ao
mesmo tempo e podem entrar em contato é no indivíduo. Só
o agente individual pode conferir sentido a suas ações a partir da interação que faz em si mesmo dessas esferas da existência.
Dos processos individuais à
análise sociológica
Para dar um caráter sociológico à análise Weber constrói um conceito
que dá conta das regularidades de conduta encontradas socialmente e do fato de que elas têm um caráter coletivo: relação social - a
conduta de cada um dos agentes sempre é orientada por um conteúdo de sentido compartilhado por todos os envolvidos na ação.
Não há garantias prévias de que esses sentidos compartilhados se
traduzam em condutas efetivas, entre sentidos compartilhados e condutas efetivas há uma relação de probabilidade. Sentidos compartilhados só se transformam em conduta quando são aceitos como legítimos.
O procedimento que sela a ligação entre ação individual e fenômenos
sociais é construção de tipos ideais através da comparação das
motivações e justificativas e do exagero de algumas características que se quer ressaltar entre o que se observa como sendo regular nas ações sociais de determinados tipos de agentes.
O tipo ideal faz referência a um modelo para a análise, mas
certamente não é facilmente encontrado na realidade da mesma forma como é descrito.
Cultura: um conceito
antropológico
Uso tem por objetivo principal compreender um único fenômeno: a
organização da experiência e da ação humanas por meios simbólicos.
A noção de simbólico remete ao fato de que as pessoas, relações e
coisas que povoam a existência humana manifestem-se
essencialmente como valores e significados, que não podem ser determinados a partir de propriedades biológicas ou físicas. (ex: um macaco não é capaz de apreender a diferença entre água benta e água destilada, até porque a composição química das duas é a mesma).
Esse tipo de reordenação do mundo é capacidade singular da espécie
humana. O conceito de cultura surgiu como meio para compreender as diferenças existentes entre as sociedades humanas sem recorrer ao determinismo biológico ou geográfico (ex determinismos: negros são bons em música e esportes; habitantes dos trópicos são preguiçosos e sensuais)
Há variedades e não graus de cultura. Por caracterizar formas
específicas de vida, o conceito de cultura é necessariamente plural, em contraste com a noção de um progresso universal da “razão” que
Cultura
É a dimensão a partir da qual os significados e as
representações são elaborados e ganham sentido;
Refere-se a um conjunto de elementos de diferentes ordens:
instituições sociais (parentesco, sistema político, religião etc.),
valores, conhecimentos, sistemas de classificação, artefatos
(cultura material) e organização da vida social;
Configura a visão de mundo de um determinado grupo social e
sua forma de inserção no mesmo.
Conforme define Geertz, pode ser pensada como uma “teia de
significados” que o homem teceu e no qual ele se encontra
preso e que funciona como um mapa de referências para o
estar no mundo.
Universo simbólico
É parte integrante da cultura, visto que refere-se
ao conjunto de símbolos e significados de uma
determinada cultura;
Poderíamos dizer que é a visão de mundo de um
grupo social pois não se refere à realidade em si,
mas a como esta é percebida e classificada pelo
grupo.
É de fato um “universo” no sentido da articulação
entre os diferentes significados e da inter-relação
que esses mantém entre si.
Sistemas de classificação
Através da capacidade de simbolização, os seres humanos das
diferentes culturas vão atribuindo significados e valores às coisas que estão no mundo que os cerca. A partir desses significados, vamos
classificando as coisas que nos cercam de acordo com uma escala de valores. Daí, que cada cultura valorize coisas diferentes e que as
explique também de modos diferentes.
Muito do que supomos ser uma ordem própria da natureza não passa,
na verdade, de uma ordenação que é fruto de um procedimento cultural e que não tem a ver com uma ordem objetiva. A ordenação cultural dá sentido à aparente confusão das coisas naturais. É esse procedimento, particular de cada cultura, que consiste num sistema de classificação.
Entender a lógica dessa classificação nos permite, entre outras coisas,
perceber relações de poder no interior de uma dada cultura: o que é bom, o que é mau, o que é viável, o que é inviável, o que tem poder, o que oferece perigo?
Etnocentrismo, identidade e
diferença
A criação de classificações (nomes e atribuição de status) e de
dicotomias (separações rígidas) entre “nós” e os “outros”
expressam em vários níveis a tendência a valorizar aquilo que nos parecer familiar e tomar o familiar como parâmetro para olhar para os outros (etnocentrismo). Assim, toma-se como ponto de
referência fundamental não a humanidade, mas o grupo social ao qual julgamos pertencer, num jogo entre identidade e diferença:
Numa mesma sociedade, especialmente nas de pequena escala, a
divisão pode ocorrer sob a forma de parentes e não-parentes, na qual os parentes são melhores por definição e recebem um
tratamento diferenciado;
Em sociedades que possuem uma organização social mais
complexa, como a nossa, os grupos se multiplicam quase infinitamente.
A identidade social não é fixa, não é completa. É relacional (se
produz na relação) e situacional (pode variar de acordo com a situação)
Como falar dessa
complexidade?
Durante muito tempo falou-se na formação de
“subculturas” (subgrupos no interior de uma mesma
cultura, que possuem formas específicas de ver o
mundo). Será que a idéia de subculturas é uma
ferramenta útil para ler o mundo de hoje?
Transformações históricas: segmentação e
multiplicação de identidades que se sobrepõem
Ênfase atual na importância de analisar
simultaneamente vários marcadores sociais de
diferença (raça, classe, gênero, geração, sexualidade)
e falam em interseccionalidades
Interseccionalidades: conceito
em construção
Várias concepções:
Soma de opressões
Inter-relações específicas em relação a determinados indicadores e
potencialização
Estabelecimento de hierarquias e subordinação de determinados
marcadores a outros, considerados mais “estruturantes” a priori
Avtar Brah e Ann Phoenix (2004) definem o conceito de
interseccionalidade como designando os efeitos complexos,
irredutíveis, variados e variáveis, que se seguem quando múltiplos eixos de diferenciação – econômicos, políticos, culturais, psíquicos, subjetivos e experienciais – se intersectam em contextos históricos específicos.
Marcadores se inter-relacionam dentro de determinado contexto,
constituindo-se mutuamente. Na realidade, não são campos distintos de experiência, isolados uns dos outros ou simplesmente justapostos, mas que existem concretamente em e através de relações com cada um dos outros.
É obrigatório pensar vários
marcadores ao mesmo tempo?
A ênfase na valorização das intersecções não
implica o demérito de fazer um trabalho a partir
de um único marcador de diferença.
No entanto, faz com que as diferenciações
internas de um dado objeto de pesquisa
precisem necessariamente ser exploradas e,
portanto, teorizadas. (ex: mulheres negras
usuárias de serviço público ou mulheres negras
e brancas usuárias de serviço público X
usuários de serviços públicos ou negras/os
usuários de serviço público).
Referências
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s.d. Disponível em: <www.coepbrasil.org.
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MOUTINHO, L.
Negociando com a adversidade: reflexões sobre “raça”, (homos
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