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O problema da tradição

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Academic year: 2021

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O problema da tradição

Por Harding Meyer (Exposição resumida de um seminário sôbre o problema da tradição)

No dia 8 de setembro de 1964 realizou-se, pela primeira vez, a convite do Centro Acadêmico José Mors do Colégio Jesuíta Cristo Rei, um encontro de maiores proporções entre estudantes de teologia católico-romanos e evangélico-luteranos. Por ocasião do m esm o fui solicitado a apresentar um relatório sôbre o problema da tradição, problema com o qual nos ocupamos durante o primeiro sem estre do ano letivo de nossa Faculdade num tra­ balho em comum de caráter sistem ático teológico, chamado por nós de "seminário". Dei ao meu relatório a forma duma exposição resumida dêste seminário, para, ao discorrer sôbre o problema, proporcionar simultânea- mente uma visão do trabalho teológico em nossa Faculdade. A publicação dêste trabalho nos "Estudos Teológicos” deverá servir igualmente a êstes dois fins, ou seja, introduzir num problema teológico extremamente atual e, por outro lado, proporcionar uma visão do trabalho que realizamos na nossa Faculdade.

Talvez seja adequado dizer, neste contexto, em poucas palavras o que entendemos sob um seminário, pois não sei, se essa espécie de trabalho em comum, que em nossa Faculdade faz parte obrigatória do currículo, também é conhecida em outras faculdades. Consiste o seminário de uma sessão semanal de duas horas, na qual nós, isto é, o respectivo professor e um número de estudantes se reunem. O tema proposto é, então, discorrido durante o percurso do sem estre da seguinte maneira: após duas ou três sessões, nas quais se é introduzido no problema em si, na maioria das vêzes através de conversações conjuntas sôbre um ou vários artigos fundamentais, leitura obrigatória para todos os participantes, tem início, à mão de um plano fixo, uma série de relatórios, elaborados e depois apresentados pelos diversos estudantes. No início de cada sessão é apresentado, via de regra, um relatório, o qual, em seguida, é debatido, criticado e discutido em con­ junto, sob a orientação do professor. De sessão em sessão os participantes se integram, assim, mais e mais no tema, procurando compreendê lo o mais profundamente possível. De cada sessão é redigida uma ata, a qual, reproduzindo o andamento da discussão, é lida na sessão subseqüente, ligando, assim, as diversas sessões entre si.

O característico, pois, de um tal seminário reside, sobretudo, no fato de que aqui não é som ente o professor quem fala, apresenta e assum e a res­ ponsabilidade, mas, em primeiro plano, os próprios estudantes através de seus relatórios e contribuições de conversação. Dessa maneira queremos e s ­ timular e desenvolver a capacidade dos estudantes na apresentação de re­ latórios próprios, diálogos e debates teológicos.

Com o p o n te de p a r tid a p a r a os tra b a lh o s de no sso se m in á rio escolhem os o a rtig o " S c h rift u n d T r a d itio n ” ( E s c r itu r a e T ra d i­ çã o ) 1) do teólogo ev an g élico -lu teran o S k y d sg a a rd , p o r sinal, u m dos o b se rv a d o re s oficiais evangélicos no p re s e n te concílio. Ê sse

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a rtig o co m en ta, em larg o s tra ç o s, o desen v o lv im en to do co n ceito cató lico -ro m an o de “tra d iç ã o " desde T re n to a té a encíclica “H um a- ni G e n e ris ” e ao d o g m a d a A ssu m p ta (1950). Ê ste a rtig o ao m esm o tem p o expõe com o no m eio evangélico n o v a m e n te se reco n h eceu a rele v ân c ia d a tra d iç ã o , tra z e n d o consigo algo com o u m a re a b ili­ tação do co n c eito de tra d iç ã o . S k y d sg a a rd vê no co n ceito d a “tra- d itio v iv a ” a b a se p a ra u m a p o ssib ilid a d e de diálogo e n tre a teo lo ­ gia c a tó lic a e evangélica, e n te n d e n d o sob “tra d itio v iv a ” o p ro ce sso que a tu a liz a a p a la v ra de D eus em c a d a no v a situ a ç ã o h istó ric a . Ê ste a rtig o de S k y d sg a a rd , lido e d isc u tid o p o r to d o s os p a rtic i­ p a n te s do se m in á rio , n a tu ra lm e n te n ã o reso lv eu o p ro b le m a . C ons­ titu iu , c o n tu d o , u m a in tro d u ç ã o à a m p la e s tr u tu r a d a p ro b le m á tic a , fam iliarizan d o -n o s com os p rim e iro s , m ais im p o rta n te s e fu n d a ­ m e n ta is conceitos.

N as sessões seg u in tes tiv e ra m início os re la tó rio s d o s p a r ti­ c ip a n tes. N elas tratav£-se, s o b re tu d o , de trê s com plexos de pergún- tas:

I . Com o se p e n sa a tu a lm e n te no seio d a teo lo g ia evangélica sô b re o p ro b le m a de tra d iç ã o ? E s ta p e rg u n ta se d iv id iu em d u a s o u tra s : E xiste u m co n ceito leg ítim o de tra d iç ã o no p e n s a m e n to evangéli­ co? e: Com o se e n te n d e e se c ritic a , p o r p a rte dos evangélicos, a d o u trin a c a tó lic o -ro m a n a d a tra d içã o ? 2)

I I . Com o é e x p o sta a d o u trin a d a tra d iç ã o n o s m a n u a is d o g m á­ ticos d a teo lo g ia cató lica, e sp ec ialm en te em P o h le-G um m ersbach 3 ); D iekam p 4), B a rtm a n n 5) e S c h m au s 6)?

I I I . Q ual é a m o d e r n a con cep ção c a tó lic a de tra d iç ã o em teólogos com o, p o r exem plo, G eiselm ann 7), L engsfeld 8) e B eu m er 9)?

Os p a rtic ip a n te s do se m in á rio tin h e m à su a d isp o siç ão ta m ­ b ém os tra b a lh o s de C ongar 10) e T a v a rd H ), re sp e c tiv a m e n te em

2) Numa série de relatórios foram estudadas e apresentadas as posições dos seguintes teólogos evangélicos da atualidade: P. Althaus (Die Christliche Wahrheit, t. I, Guetersloh, 1947, pp. 184 ss.), W. Eiert (Der christliche Glaube, 3.“ ed., Hamburgo, 1956, pp. 175 ss.), R. Prenter (Schöpfung und Erlösung, Gotinga, 1960, pp. 107 ss.), E. Brunner (Das Missverständnis der Kirche, 2.“ ed., Zurique, 1951, pp. 35 ss.), O Weber (Grundlagen der Dogmatik, t. I, Neukirchen, 1955, pp. 302 ss.),

G. Ebeling (Die Geschichtlichkeit der Kirche und ihrer Verkündigung als theologisches Problem, Tubinga, 1954), K. Barth (Kirchliche Dog­ matik, t. 1/2, 4.“ ed., Zurique, 1948, pp 598 ss.) H. Diem (Die Theologie als kirchliche Wissenschaft, t. I, Munique, 1951, t. II, Munique, 1955). 3) Lehrbuch der Dogmatik, t. I, 10.“ ed., Paderborn, 1952.

4) Katholische Dogmatik, t. I, 8.“ e 9.“ ed., Münster, 1938. 5) Teologia Dogmática, t. I, São Paulo, 1962.

6) Katholische Dogmatik, t I, 3.“ e 4.“ ed., Munique, 1948.

7) Das Konzil von Trient über das Verhältnis der Hl. Schrift und der nichtgeschriebenen Traditionen, em: Die mündliche Überlieferung, edt. por M. Schmaus, Munique, pp. 123 ss; Die Heilige Schrift und die Tradition, Quaestiones disputatae 18, Friburgo, 1962.

8) Überlieferung, Paderborn, 1960.

9) Die mündliche Überlieferung als Glaubensquelle, Handbuch der Dog­ mengeschichte, t. I, fascículo 4, Friburgo, 1962.

10) La Tradition et les Traditions, Paris, 1960. 11) Holy Writ or Holy Church, New York, 1959.

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fran cês e inglês, m as n ão fo ra m o b je to de re la tó rio . N ão te n h o co n h ecim en to de q u a n to s p a rtic ip a n te s , su p e ra n d o as d ific u ld a d e s lin g uísticas, e x a m in a ra m p a rtic u la rm e n te ê stes im p o rta n te s t r a ­ balhos. Creio, p o ré m , n ão in c o rre r em ê rro , a firm a n d o que, c e rta ­ m ente, n ã o fo re m m u ito s. Abre-se aqui, ev id e n tem e n te , u m a lacu n a no exam e do te rn á rio p o r nós fo rm u la d o .

O u tra la c u n a su rg iu ao d e ix a rm o s de c o n s id e ra r o co n ceito de tr a d i­ ção d a teo logia c a tó lic a do século 19, com o se re a lç a em M õhler, F ranzelin, S c h ra d e r, N ew m an e S cheeben, c u ja s d o u trin a s servem de guia p a ra os d e b a te s c o n te m p o râ n e o s. É b em v e rd a d e q u e êstes p o n to s fo ra m a b o rd a d o s a tra v é s das exposições e fe tu a d a s p o r G eiselm ann ou B eu m er a re sp e ito do co n ceito de tra d iç ã o do sé­ culo 19, m as, m esm o a ssim , n ã o nos foi possível o b te r u m a visão p ró p ria e clara.

O co nceito de tra d iç ã o de T re n to e do V atican o I foi a b o rd a d o , em co m p en sação , com m ais ex tensão. C o m en tam o s T re n to , ten d o à m ão u m tra b a lh o de G eiselm ann 12), que c o n s titu iu le itu ra o b ri­ g a tó ria no se m in á rio . A p o sição do V atic a n o I foi a b o rd a d a n u m re la tó rio breve, b a sea d o n o tra b a lh o de K a s p e r 13) e n u m a a n á ­ lise m in h a, que d e n tro em p o u c o se rá p u b lic a d a n a A lem anha 14). A que conclu sõ es chegou, pois, o se m in á rio , o rie n ta d o pelas p e rg u n ta s a c im a m en c io n ad a s?

I

E m rela çã o à p rim e ira g ra n d e p e rg u n ta (C om o se p e n sa a tu a lm e n te no seio d a teologia evangélica a re s p e ito do p ro b le m a d a tra d iç ã o ? ) chegam os às seg u in tes re sp o sta s: N a teo lo g ia evan­ gélica m o d e rn a o co n ceito de " tr a d iç ã o ” n ã o m ais é u m tê rm o m al-visto com o e ra n a época da R e fo rm a e d u ra n te m u ito tem p o após. A tra d iç ã o re p re s e n ta , h o je, ta m b é m p a ra o p e n sa m e n to ev an ­ gélico, u m fen ô m en o teológico legítim o e necessário. N ão é m ais e n c a ra d a com o u m a m e ra " tr a d itio h u m a n a ”, eo ipso co n d en ad a à reje iç ã o 15).

De m o d o g e ra l essa rec e n te re a b ilita ç ã o d a tra d iç ã o resid e em trê s causas:

1. T ra d iç ã o c o n s titu i u m e le m e n to e s tr u tu ra l da existência h u m a ­

na, p o rq u e a e x istên cia h u m a n a n ã o se co n c re tiz a n u m vazio, m as

sim n a c o n tin u id a d e d a h istó ria . T ô d a a tu a lid a d e é d e te rm in a d a pelo fa to de q u e o p a s sa d o n e la p e n e tra , m an ifestan d o -se n a exi­ gência de se r o u v id a e aceita. D essarte, tra d iç ã o (em se n tid o geral e p ré-teo ló g ico ) é o passado e m c o n tín u a propagação e, p o r isso 12) Ver acima nota 7.

13) Die Lehre von der Tradition in der Römischen Schule, Friburgo, 1962. 14) O trabalho (Das Wort Pius’ IX. "Die Tradition bin ich ”. Päpstliche Unfehlbarkeit und apostolische Tradition in den Debatten und Dekreten des Vatikanum I) de minha autoria deverá ser publicado em breve na série "Theologische Existenz heute”, pela editora Kaiser, Munique. 15) N esse sentido os escritos confessionais luteranos falam da tradição;

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m esm o, p a s sa d o c o n s ta n te m e n te p re se n te , e n c e rra n d o em si um m o m e n to e stá tic o , e u m m o m e n to d in âm ico , co n serv a ç ão e v a ria ­ ção, e sta g n a çã o e a tu alização .

2. No s e to r teológico p ro p ria m e n te d ito a tra d iç ã o se to r n a rele ­ v an te e n e c essá ria b a se a d a no fa to de que a rev elação de C risto se c o n c re tiz o u n u m p o n to d e te rm in a d o d a h istó ria ; m as que, n ã o o b s­ ta n te , exige p e rm a n e c e r p re se n te . E isto significa: a rev elação deve s e r trasm itida. N ão existe fé c ris tã sem tra d iç ã o .

C hegam os, a ssim , ao co n c eito teológico de tra d iç ã o em seu se n tid o m ais am plo: Tradição é “a indispensável tra n sm issã o do evento da

revelação" 16).

3. P a rtin d o d ê ste co n c eito de tra d iç ã o em seu se n tid o m ais a m p lo e co n ceb en d o a S a g rad a E s c ritu ra com o veículo de tra n s m is s ã o dêsse evento d a revelação, reconhece-se que a E s c ritu ra com o le tra fix a d a n ã o g a ra n te e s ta tra n s m is s ã o a tu a liz a n te da revelação. A concepção de u m tal p rin c íp io e s c ritu ra i, p o r a ssim dizer p a ra li­ sad o — com o, sem d ú v id a alg u m a, foi d e fe n d id o em c e rta s épocas d a h is tó ria d a teo logia evangélica — parece-nos, h o je, e rrô n e o . Se a E s c ritu ra q u e r tra n s m itir, isto é, t o r n a r p re s e n te o evento da salvação, e n tã o tem que se r interpretada. A E s c ritu ra p re c is a no a to da p ro c la m a ç ã o , re n o v a d a m e n te v o lta r a se r “p a la v ra o r a l ”, “viva vox evangelii", algo que j á L u te ro n ã o c a n so u de a c e n tu a r 17). (N este c o n te x to cabe, aliás, o re c o n h e c im e n to d a m o d e rn a ciên­ cia b íb lica, já co n h ecid o ta n to d a teo lo g ia c a tó lic a com o dos re ­ fo rm a d o re s, de que a n te s d a E s c ritu ra a m en sag em a p o stó lic a p o s ­ su ía fo rm a o ra l.)

E s ta s reflexões n o s c o n d u z ira m ao co n ceito teológico de T ra ­ dição em seu se n tid o m ais re s trito , com o se a p re s e n ta n a d e fro n ta- ção dos tê rm o s “ E s c ritu ra — T ra d iç ã o ". “T ra d iç ã o ” n e ste se n tid o m ais r e s tr ito se d efine com o a interpretação atual das Sagradas

E scritu ra s com o o te ste m u n h o ap o stó lic o o rig in a l do evento de

C risto.

N e sta d efin ição m ere ce o b se rv â n c ia :

a ) A S a g ra d a E s c ritu ra faz n e c e ssà ria m e n te p a r te d a d efin ição de tra d iç ã o . Com o fixação su fic ie n te e ú n ica do te s te m u n h o a p o s tó ­ lico o rig in a l é a fo n te e n o rm a de tô d a tra d iç ã o . S o m en te a ssim é a sse g u ra d a a n e c e ssá ria re c o rrê n c ia d a p ro c la m a ç ã o , fé e Ig re ja a rev elação de C risto.

b ) E ssa tra d iç ã o , c o m p re e n d id a co m o p ro c e sso de in te rp re ta ç ã o , o c o rre fu n d a m e n ta lm e n te n u m a p lu ra lid a d e de tra d iç õ e s. N e n h u ­ m a tra d iç ã o c o n c re ta p o d e to rn a r-se a b s o lu ta e a rr o g a r p a r a si c a rá te r n o rm a tiv o p e rm a n e n te , pois, n e ste caso, d e ix a ria de ser in te rp re ta ç ã o a tu a l.

16) Assim o formula, p. ex., E. Brunner, Das Missverständnis der Kirche, p. 36.

17) Ver meu artigo “Das geschriebene und das mündliche Evangelium ”, em: Estudos Teológicos, cad. 1/1961, pp. 17 s.

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c) E ssa tra d iç ã o se c o n c re tiz a p rim á ria , m as n ão ex clu siv am en te n a preg ação . T am bém n a c o n fissão c ú ltic a , nos sa c ra m e n to s e n a litu rg ia se p ro c e ssa tra d iç ã o .

A p a r d êste co n c eito p rin c ip a l de tra d iç ã o , com o p ro ce sso a tu a l, co stum a-se e m p re g a r no seio d a teo logia evangélica, o conceito de tra d iç ã o ta m b é m p a r a os d o c u m e n to s da tradição, ou seja, fo rm a s fix ad as de tra d iç ã o , p. ex., c o n fissõ es fixas da Ig re ja, e sc rito s d a p a trís tic a , ou o c a n o n e e s c ritu ra i com o cânone. E sta tra d iç ã o d o c u m e n tá ria n ã o p o ssu i p a ra o p ro c e sso a tu a l da tra d iç ã o u m a fu n çã o a u to r ita tiv a o u n o rm a tiv a , m as a p e n as auxi­ lia r e e s tim u la d o ra . E s tá s u je ita a u m exam e c rític o q u a n d o da realização da in te rp re ta ç ã o a tu a l d a E s c ritu ra .

Até aq u i o co n ceito de tra d iç ã o d a teo logia evangélica d a a tu a lid a d e . P assam o s, em seguida, a a b o rd a r a se g u n d a p e rg u n ta : Com o se e n te n d e e se c ritic a n a teo lo g ia evangélica o co n c eito católico- ro m a n o de tra d iç ã o ?

A g ra n d e m a io ria dos teólogos evangélicos a tu a is p re te n d e m ver a e ssên cia do co n c eito c a tó lic o de tra d iç ã o n o seguinte: Desde T re n to 18) e, p rin c ip a lm e n te , desd e a teo lo g ia do século 19 (E sc o la de T u b in g a e V atic a n o I) a tradição p a s so u a to rn a r-se c a d a vez m ais o co n c eito p o r exelência p a ra o a u to -d e s d o b r a m e n to da Igre­

ja den tro da história. N ão se a cen tu a m ais a fu n çã o c o n se rv a d o ra

da tra d iç ã o . Da m esm a fo rm a , o c a rá te r de c o m p le m e n ta ç ã o da E s c ritu ra n ã o se ria m ais a p e c u lia rid a d e específica do co n c eito c a ­ tó lico de tra d iç ã o .

A Ig re ja (co n c e b id a com o “C h ristu s p r o lo n g a tu s ”, ou seja, o “Cor- p u s C h risti M ysticum " vivificado pelo E s p írito S a n to ) en co n tra-se n u m p ro ce sso de c o n tín u o a u to -d e sd o b ra m e n to . E ê ste p ro ce sso se ria a tra d iç ã o , sen d o que o M ag istério E c lesiástic o c o n s titu iria in stâ n c ia e n o rm a d ê ste p ro ce sso . P a rtin d o d êste p o n to de v ista, m u ito s teólogos evangélicos c o n sid e ra m a talvez a p ó c rifa p a la v ra de Pio IX "A tra d iç ã o so u e u ”, a e x p re ssã o a d e q u a d a , a in d a que ex tre m a , p a r a d e sig n a r e s ta concepção.

As rese rv as e c rític a s evangélicas d ia n te de u m a ta l co n cep ­ ção de tra d iç ã o são severas. R eproduzo-as em seus p o n to s e sse n ­ ciais, m as g o s ta ria de fris a r, de a n te m ão , q u e o n o sso se m in á rio n ã o pô d e c o n c o rd a r p le n a m e n te com as m esm as. (Algo q u e se evi­ d e n c ia rá no que segue.) Dizem os teólogos p ro te s ta n te s que, com isso, a d o u trin a e p ro c la m a ç ã o d a Ig re ja c a tó lic a a b a n d o n a r a m

a necessária recorrência à o rigem apostólica, pois, essa re c o rrê n ­

cia só p o d e se r g a ra n tid a p e la ligação e s tre ita e severa d a p ro c la ­ m ação a tu a l e d a d o u trin a ec le siá stic a com o te ste m u n h o a p o s tó li­ co o rig in al, com o o e n c o n tra m o s no Nôvo T e sta m en to , e n ã o p o r a p e la re m ao M ag istério E clesiástico . A Ig re ja se s u b tra iria , a ssim , à su a n e c e ssá ria c o n fro n ta ç ã o com a o rig em a p o stó lic a e, se en ­ c o n tra ria n u m m o nólogo, ao invés de o u v ir a rev elação . M ais ain d a: p o d e n d o o M ag istério E c lesiástic o d e te rm in a r n o rm a tiv a m e n te o 18) Denzinger, Enchiridion Symbolorum, n." 783.

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que deve se r c rid o com o v e rd a d e rev elad a, a I g re ja e s tá se id e n ti­ ficando, em ú ltim a an álise, com a p r ó p ria revelação. D essarte, afirm a-se, que ela m esm a p o d e c ria r novos dogm as, com o o d em o n s­ tra m os do g m as m ario ló g ico s.

D epois de o se m in á rio ter-se in te ira d o , d ev id am en te, em suas p rim e ira s sessões, dessa co n cepção dos teólogos evangélicos, fêz-se a se g u in te p e rg u n ta c rític a : E ssa exposição evangélica do co n ­ c e ito cató lic o de tra d iç ã o c o rre s p o n d e à re a lid a d e ? C o n seq ü en te­ m en te tem su a c rític a razão de ser?

II

P a ra re s p o n d e r a e s ta p e rg u n ta , u m re la tó rio m ais ex tenso te n to u a p re s e n ta r a d o u trin a d a tra d iç ã o com o a expõem alg u n s im p o rta n ­ tes m a n u a is d o g m átic o s d a teo lo g ia c a tó lic a 19). O re la tó rio chegou à se g u in te conclusão:

A " tra d iç ã o o r a l ”, seg u n d o a q u eles m a n u a is, c o n s titu i em rela çã o à S ag rad a E s c ritu ra u m a fo n te a u tô n o m a de revelação. C ontém a rev elação d iv in a com o a re c e b e ra m os a p ó sto lo s que, p o r sua vez, a tra n s m itir a m o ra lm e n te à Ig re ja , sendo desde e n tã o tr a n s ­ m itid a p rim à ria m e n te pelo M ag istério E clesiástico , e, secu n d ária- m en te, ta m b é m p elos fiéis. Cabe n isso ao M ag istério E clesiástico , sob a a ssistê n c ia do E s p írito S an to , a ta re fa de e x tra ir com segu­ ra n ç a e in te g rid a d e o c o n te ú d o da rev elação com o se e n c o n tra no m aciço d a tra d iç ã o , de in te rp re tá -lo e a p re se n tá -lo com o "creden- d u m ”, sem , e n tre ta n to , m o d ific a r ou a m p lia r ê ste m esm o co n teú d o . A rela çã o d e s ta tra d iç ã o p a r a com a S a g ra d a E s c ritu ra , segundo os m a n u a is, é a seguinte:

1. A E s c ritu ra , in s p ira d a p o r Deus, é a p a la v ra de D eus n o se n tid o fo rm a l, e n q u a n to a tra d iç ã o so m e n te o é no se n tid o m a te ria l. N êste a sp ec to a E s c ritu ra p o ssu i u m a c e rta p rim a z ia sô b re a tra d iç ã o . 2. A inda a ssim a tra d iç ã o é u m a g ra n d e z a a u tô n o m a . C onform e D iekam p 20) é p e rfe ita m e n te p o ssív el q u e ela, te o ric a m e n te , e x ista sem E s c ritu ra , a p e n a s sob a c u s tó d ia do M agistério.

3. A tra d iç ã o se a p re s e n ta , sob o p o n to de v ista do c o n te ú d o , com o m ais a m p la do q u e a E s c ritu ra , exercendo, p o r isso, em rela çã o c om a E s c ritu ra , fu n ç ã o c o m p le m e n ta d o ra . É " tr a d itio c o m p le tiv a ”. 4. Além d isto a tra d iç ã o p o ssu i, sob a c u s tó d ia do M agistério, m a io r p e rs p ic u id a d e do que a E s c ritu ra , ex ercendo, p o r isso, fu n çã o h e rm e n ê u tic a p a r a com as p a rte s m en o s c la ra s d a B íblia. É “t r a ­ d itio in te r p r e ta tiv a ”.

P areceu-nos que a co ncepção dos m a n u a is d o u trin á rio s ca­ tólicos, e m b o ra em p a r te a in d a c u n h a d a p e la te o ria das d u a s fo n ­ tes de ap ó s T re n to , se d ista n c ie c la ra m e n te d e s ta te o ria com sua se p a ra ç ã o q u a se m ec â n ic a de E s c ritu ra e tra d iç ã o o ra l, ev ita n d o 19) Ver acima notas 3—6

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o velho “p a rtim - p a r tim ” 21). D ado ao fa to de que concebe a t r a ­ dição com o um to d o , o q u a l inclu i ta m b é m as v e rd a d e s d a S ag rad a E s c ritu ra , crem o s p o d e r c a ra c te riz á -la com a fra se de G eiselm ann: "V eritas fidei p a r ti m in s a c ra s c rip tu ra , totaliter in sine sc rip to tra d itiô n ib u s ” 22).

A p a r t i r d e s ta con cep ção de tra d iç ã o , p areceu -n o s n e c essá ­ rio refutar, em c e rto s p o n to s, a crítica evangélica ao c onceito ca­

tólico de tradição com o sendo d u v id o sa e m esm o n ã o a c e rta d a .

No conceito cató lico de tra d iç ã o tra ta -se c la ra m e n te de u m a a u ­ tê n tic a co n serv ação do o rig in al. C o n form e a d o u trin a católica,, o M agistério E clesiástico so m en te p o d e d e c la ra r com o v e rd a d e s de fé aq u elas v e rd a d e s que d esd e se m p re e stã o c o n tid a s no "d e p o situ m fid e i”, isto é, n a E s c ritu ra o u n a tra d iç ã o . N ovos dogm as não podem se r c ria d o s; pois, o M ag istério E c lesiástic o goza d a “ assis- t e n tia ”, m as não d a " in s p ira tio S p iritu s S a n c ti”. A d ife re n ç a essen ­ cial e n tre a época d a rev elação e e n tre a época d a Ig re ja p arece, assim , a sse g u ra d a . A Ig re ja e, em especial o P ap a, n ão p o d e m ser sim p lesm en te id e n tific a d o s com a tra d iç ã o . T a n to S cheeben com o B a rtm a n n d e c la ra m e x p re ssa m e n te falsa e in a u tê n tic a a a firm a ç ã o de Pio IX "A tra d iç ã o sou e u ” 23).

No d e c o rre r do se m in á rio , n a tu ra lm e n te tam b é m , su rg ira m

perguntas críticas a re sp e ito d e s ta co ncepção c a tó lic a de tra d iç ã o :

1. A S a g ra d a E s c ritu ra n ã o so fre co n sid e ráv e l d e p re c ia ç ã o n o que diz re sp e ito a sua in te ire z a e clareza, q u a n d o v isivelm ente é s u b o rd i­ n a d a à tra d iç ã o ? N ão se to rn a ela inclusive dispensável, ao m en o s em p rin c íp io e te o ric a m e n te , com o o deixa tra n s p a re c e r D iekam p? 2. N a teologia c a tó lic a se a c e n tu a que o M agistério E clesiástico n ã o tem o u tra fu n çã o a n ão se r a de a p re s e n ta r e in te r p r e ta r o de de­ p o s itu m ” o rig in al. N ós, p ro te s ta n te s , q u a se sem c rític a p o d e ría m o s a c e ita r e s ta fu n çã o do M agistério, se n ão fô sse ela a c o m p a n h a d a d a exigência de que e s ta in te rp re ta ç ã o s e ja d o ra v a n te n o rm a tiv a p a ra to d o s os tem p o s. Com isso, a ssim crem os, a in te rp re ta ç ã o to m a o lu g a r que ü n ic a m e n te cabe à q u ilo que deve se r in te rp re ta d o , pois, c a d a in te rp re ta ç ã o p e r d e fin itio n e m está s u b o rd in a d a ao que

deve ser interpretado; e, p o r isso, c a d a in te rp re ta ç ã o deve c o n s e n tir

que a p a r t i r daí se ja c ritic a d a e re fo rm a d a .

O nosso se m in á rio estêve co n scie n te de que, com e sta ú ltim a p e r­ g u n ta, n o v a m e n te se a p ro x im av a d a c rític a evangélica, a n te rio rm e n ­ te ex posta, ao co n ceito cató lico de tra d iç ã o : a Ig re ja se s u b tr a ir ia 21) Na teologia da controvérsia de após Trento o “ . . . i n libris scriptis et

sine scripto traditionibus. .. aprovado pelo Concílio, passou a ser interpretado, via de regra, como um "partim-partim" (partim in libris scriptis, partim in sine scripto traditionibus) com o que foi mal-enten­ dido no sentido de uma devisão das verdades da revelação em duas fontes; cfr. Geiselmann (Das Konzil von Trient über das Verhältnis der Hl. Schrift und der nichtgeschriebenen Traditionen), ao qual a maioria dos teólogos da atualidade parece unir-se.

22) Das Konzil von T r ie n t..., pp. 187 e 196.

23) Scheeben, Handbuch der katholischen Dogmatik, t. I, 2.“ ed., Friburgo 1948, p 165, nota 4; Bartmann, Teologia Dogmática, t. I, p. 33.

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à c o n fro n ta ç ã o com a o rig em a p o stó lic a e, com isto , e s ta ria nu m m onólogo.

N este co n te x to su rg iu , e n tre nós, em a u to c rític a , a p e r­ g u n ta: N ão p o ssu ím o s ta m b é m nós p ro te s ta n te s , em n o ssa Ig re ja c e rta s a firm a ç õ es de fé e d o u trin e s fixas e irre fo rm á v e is? E, se n ão as a c a ta rm o s , não p e rd e com isso a n o ssa fé a n e c essá ria se g u ra n ç a e firm eza, a b a n d o n a d a e ssim ao su b je tiv ism o e ao ce ti­ cism o?

Q u a n to a e sta p e rg u n ta não se chegou a u m plen o acô rd o . De m a ­ n e ira g e ra l a re s p o s ta p e re c e u te n d e r p a ra o seguinte: T em os, nós, a certeza d a fé, a in ab aláv el “f id u c ia ”. E sta, p o rém , n ão p o d e ser o b je tiv a d a em se n te n ç as teológicas se g u ra s e de c a rá te r irre fo rm á - vel. Aqui nos p e re c e u que a d iv ergência e n tre a p o sição c a tó lic a e evangélica se fu n d a m e n ta n u m a d iv ersid a d e do co n ceito de fé. P a ra nós a fé é p rim à ria m e n te u m a “fid u c ia c o r d is ”, que ju s ta m e n ­ te p o d e d isp e n s a r a se g u n ra n ç a do s a b e r 24) ( e n q u a n to que p a r a o católico a fé p o ssu i u m a co lo ra çã o m ais in te le c tu a l. É p rim a ria ­ m en te u m " c re d e re v e ra e s s e ” 25) ( u m “a c tu s in te lle c tu s ”.

I II .

A través d essas discu ssõ es fom os co n d u zid o s à te rc e ira g ren d e p a r ­ te de nosso se m in á rio , ou seja, ao exam e de alguns im D ortantes tra b a lh o s de a u to re s cató lico s d a a tu a lid a d e sô b re o p ro b le m a da tra d iç ã o .

Os re la tó rio s sô b re êsses tra b a lh o s ev id e n c ia ra m , que a tu a l­ m en te no lad o cató lico , em g ran d e p a rte , a p e sa r de p ro te s to s oca­ sionais, com o o de L ennerz 26) ( Se re n u n c io u d e c id id a m e n te à te o ria das ducS fo n te s de ap ó s T re n ío com seu “p a rtim - p a r tim ”, e que se a b a n d o n o u , tam b é m , a concepção que e n c o n tra m o s nos m a ­ n u a is d o g m átic o s cató lico s, os q u ais, com o seu “p a r ti m in scrip- tu ra sa cra , totaliter in sine sc rip to tr a d itio n ib u s ”, a p re s e n ta m u m a c e rta m o d ific a ç ão e a m p lia ç ã o d e s ta te o ria das d u as fo n tes. S egundo G eiselm ann e o u tro s p a re c e p re d o m in a r a tu e lm e n te a concepção de que a v e rd a d e d a rev elação e s tá c o n tid a “t o t u m in sa c ra s c rip tu ra , e t ite ru m t o tu m in sine sc rip to tra d itio n ib u s ” 27). Com isso, no â m b ito católico, é rec o n h e c id a n o v a m e n te de m an e ira fu n d a m e n ta l a suficiência m aterial da Sagrada Escritura. A E sc ri­ tu ra é a fixação m e te ria lm e n te su fic ie n te d a p ro c la m a ç ã o a p o s tó ­ lica.

24) Nesse sentido Lutero compreendeu Hb. 11,1, passagem que durante tôda a sua vida teve para êle o valor de uma definição de "fé”; cfr. v. Löwenich, Luthers Theologia crucis, 4.“ ed., Munique, 1954, p 33. 25) Denzinger, n.° 1789; cfr. Diekamp. Katholische Dogmatik, t. II, 11.“

e 12.“ ed., Münster, 1958, pp. 539 s.

26) Scriptura sola? em: Gregorianum 1959, pp. 38 ss.

27) Geiselmann, Das Konzil von Tri ent. . . , p. 206: Die Heilige Schrift und die Tradition, p. 282.

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0 tê rm o chave d e sta nova co ncepção de tra d iç ã o , co n fo rm e n ossa o pinião, se a p re s e n ta no co n ceito de tra d iç ã o com o " traditio

interpretativa scripturae s a cra e”. D aí p o rq u e n o sso s d e b a te s e

p e rg u n ta s g ira ra m em to rn o d a c o m p re e n sã o d ê ste conceito. O positivo que n ã o p o d e p a s s a r d e sap e rc eb id o d êste conceito, nos p a re c e u situ a d o no fa to de que nêle se e x p re ssa a v e rd a d e ira co­ ord en ação e su b o rd e n a ç ã o d a tra d iç ã o à E s c ritu ra e, com isso, a re c o rrê n c ia n e c e ssá ria d a d o u trin a e p ro c la m a ç ã o ec le siá stic a s à origem in su b stitu ív e l e n o rm a tiv a . Isso p o rq u e a tra d iç ã o — r a d i­ calm en te co n ceb id a com o in te rp re ta ç ã o — tem n a E s c ritu ra sua n o rm a , com o tôda a in te rp re ta ç ã o tem su a n o rm a n a q u ilo que é in te rp re ta d o .

Assim sendo, E s c r itu r a e tradição n ã o se rela cio n a m m ü tu a m e n te com o d u as fc n te s a u tô n o m a s ou dois c a m in h o s in d ep e n d e n te s, dos q uais se p o d e e sco lh e r u m ou o u tro , m as se e n c o n tra m intrinsica

e inseparàvelm ente ligadas u m a a o u tra . São dois m o m e n to s de

um m esm o p ro cesso , no q u al o te ste m u n h o a p o stó lic o o rig in a l da revelação vem a nós. D iferenciam -se, ap e n as, no asp ec to modal: A E s c ritu ra p re s e rv a e s tà tic a m en te o " d e p o s itu m f id e i” ao p r s s o que a tra d iç ã o a sse g u ra d in â m ic a m e n te êsse " d e p o s itu m fid e i”, ao tra n sm iti-lo e esclarecê-lo no a to d a a tu a liz a ç ã o e in te rp re ta ç ã o .

N ecessária se to rn a r a aq u i a p e rg u n ta : N ão e s tá s u p e ra d a n este co n ceito de tra d iç ã o a diverg ên cia e n tre a d o u trin a c ató lica e a evangélica? Pois, ta m b é m p a r a nós, p ro te s ta n te s , " tr a d iç ã o ” significa o p ro ce sso n e c essá rio e leg ítim o d a in te rp re ta ç ã o atuali- zante do te ste m u n h o a p o stó lic o o rig in a l d a revelação, ta l com o e stá c o n tid o n a E s c ritu ra . T am b ém n a n o ssa o p in iã o , a E s c ritu ra com o livro não nos con d u z à fé; so m en te nos con d u z à fé, q u a n d o fô r in te r p re ta d a no hic et n u n c, to rn a n d o -se a ssim , com o dizia L u tero , " p a la v ra o r a l ”. Assim c o n sta ta m o s, que n e ste p o n to de fa to se a p ro ­ xim am , s o b re m a n e ira , o p e n s a m e n to cató lico e o p e n sa m e n to evangélico.

U m a série de p e rg u n ta s , p o rém , evidenciou, ao m esm o tem p o , que e x a ta m e n te n e ste p o n to de a p ro x im aç ã o a m b a s as lin h a s p a s ­ sam n o v a m e n te a se d ista n c ia r. A fig u ra d a h ip érb o le, c u ja s d u as cu rv as se a p ro x im a m no vértice, p a ra , em seguida, se d ista n c ia re m m ais u m a vez, p areceu-nos d e scre v e r de m a n e ira c la ra a situ a ç ão . E m tô d as e sta s p e rg u n ta s c rític a s tra to u -se , em ú ltim a análise, da seg u in te q u e stã o : O que p o d e m o s c o m p r e e n d e r sob “in te rp re ­

tação ” ?

1. O co n ceito cató lic o de " in te r p r e ta d o s c rip tu ra e s a c r a e ” nos p a re c e u d e m a sia d a m e n te extenso. P a ra c ita r u m exem plo: os dog­ m as m ario ló g ico s n ã o m ais p o d e m se r aceito s p o r n ó s com o in te r­ p re ta ç ã o a u tê n tic a d a S a g ra d a E s c ritu ra . O tê r m o interpretação se nos a p re s e n ta a q u i com o sobrecarregado, pelo que tê rm o s com o " d e s d o b ra m e n to ” e “a m p lia ç ã o ” p a re c e m m ais a c e rta d o s.

2. Isso nos levou à p e rg u n ta : O nde se e n c o n tra a n o r m a da inter­

pretação d a S a g ra d a E sc ritu ra ? Q uem decide sô b re a a u te n tic i­

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P a ra a concepção c a tó lic a e s ta n o rm a se e n c o n tra no M agistério E clesiástico a s sis tid o pelo E s p írito S an to . É c la ro que, p a r a o p e n ­ sa m en to católico, o M ag istério n ã o se c o n s titu i em n o rm a d a E s­ c ritu ra S a g rad a . Ao c o n trá rio , ao in te r p r e ta r e n co n tra-se sob a " n o rm a n o r m a n s ” d a E s c ritu ra . No to c a n te ao s c re n te s, e n tre ta n to , a d o u trin a d a Ig re ja c o n s titu i ú ltim a in stâ n c ia n o rm a tiv a , " n o rm a n o rm a ta n o r m a n s ”.

T am b ém sob o p o n to de v ista evangélico é, em p rin c íp io , a Ig re ja qu em in te r p re ta a E s c ritu ra . T odavia, e s ta in te rp re ta ç ã o ja m a is re to m a — n e m m esm o em rela çã o aos crentes! — o p a p e l de “n o r­ m a n o r m a n s ”. E m to d o caso, “n o rm a n o r m a n s ” é e p e rm a n ec e a E s c ritu ra S a g rad a , ta n to com o "re g u la fidei re m o ta " , com o ta m ­ b ém “reg u la fidei p ró x im a ”. E la o p o d e ser, p o rq u e ta m b é m p a ra os c re n te s n ã o é o b sc u ra , m as sim c la ra, in te rp re ta n d o -se a si m esm a.

Aqui, sem dú v id a, se d ista n c ia m os c a m in h o s d a co ncepção c a tó ­ lica e evangélica d a E s c ritu ra , pois, a fu n çã o da E s c ritu ra com c “sui ip siu s in te r p r e s ” é re je ita d a p ela teo logia cató lica.

3. R elacio n ad o com isso e stá o fato , de que no â m b ito evangélico a tradição — c o m p re e n d id a com o in te rp re ta ç ã o a tu a liz a n te d a S a­ g ra d a E s c ritu ra — ja m a is p o d e se r fix a d a em dogm as, com o n a Ig re ja cató lico -ro m an a. N a v e rd ad e, ta m b é m nós tem o s dogm as, confissões eclesiásticas, i. é in te rp re ta ç õ e s fix ad as d a E s c ritu ra S a g rad a . E c o n c o rd a m o s que n a p rá tic a m u ita s vêzes p o ssa a p a ­ re n ta r, que n o sso s dogm as e co n fissõ es e clesiásticas n ão são m enos n o rm a tiv o s do que os dogm as de fé d a Ig re ja cató lica.

M as, fu n d a m e n ta lm e n te , p a ra nós, faz p a r te do c a rá te r de c a d a c o n fissão eclesiástica: que n ã o se to rn e u m p o n to fixo, o b so lu ta m e n - te n o rm a tiv o , m as a p e n as sirv a com o u m a in d icação , re la tiv a m e n ­ te n e c essá ria e v á lid a p a r a o te ste m u n h o orig in al. As confissões eclesiásticas, n a q u a lid a d e de in te rp re ta ç õ e s d a E s c ritu ra , devem se su b m e te r c o n s ta n te m e n te ao p ro ce sso d a in te rp re ta ç ã o . Podem , c e rta m e n te , c o n stitu ir-se n u m auxílio p a r a o u v ir com c o rre ç ã o a E s c ritu ra . É, c o n tu d o , p e rfe ita m e n te possível que v e n h a m im p e d ir o o u v ir c o rre to da E s c ritu ra ao invés de estim ulá-lo. S uced en d o isso elas m esm as exigem de nós o seu ab a n d o n o .

N ão nos foi possível em no sso se m in á rio , a p e sa r de tu d o , re n u n c ia r to ta lm e n te à p e rg u n ta : se a d o u trin a católica de E s c ritu ra e tr a d i­ ção re a l e su fic ie n tem e n te preserva a recorrência d a Ig re ja e da d o u trin a e c le siá stic a à sua origem.

Assim p e rg u n ta n d o , e stá v a m o s cientes, de que ju s ta m e n te n este p o n to é decisivo p a r a o c ris tã o ca tó lic o a convicção do c a rá te r a p o s­ tólico do M ag istério E clesiástico e a fé no E s p írito S an to , p ro m è tid o à Ig re ja . N ão nos foi possível, p o rém , a b o rd a r as p e rg u n ta s rela cio n a d a s com e s ta q u e stã o .

Dois re la tó rio s m ais ex tensos e n c e rra ra m o no sso sem in á­ rio. O p rim e iro v e rso u sô b re a p ro b le m á tic a do p rin c íp io e s c ritu ra i

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da R eform a, e o o u tro sô b re a co ncepção c ató lica d a S a g ra d a E s­ c ritu ra com o se n o s a p re s e n ta n o s p ro n u n c ia m e n to s p a p a is desde a encíclica de Leão X III. D ada a escassez de tem p o n ã o n o s foi possível u m a d isc u ssã o c o n ju n ta pelo que ta m b é m aq u i m e a b ste n h o de c o n sid eraçõ es a seu resp e ito . Além d isto n ão u ltr a p a s s a ra m os lim ites do sem in ário .

E sta m o s p e rfe ita m e n te c ien tes d a re a lid a d e de que n ã o nos foi possível a b ra n g e r n e ste se m in á rio tô d a s as n u a n ç a s do c o m p li­ cado p ro b le m a d a tra d iç ã o . C o n tu d o , c re io que ao m en o s alg u n s p o n to s essenciais te n h a m s o b re ssa íd o c la ra m e n te . C reio, a in d a , que algum as q u e stõ e s im p o rta n te s fo ra m le v a n ta d a s e re sp o s ta s de relevância e n saia d as.

V im os onde, no diálogo teológico de h o je, as d ife re n te s concepções se tan g e n c ia m e n o v a m e n te se d ista n c ia m . E m to d o s os casos, fo­ m os in tro d u z id o s n a p ro b le m á tic a de u m a das q u e stõ e s teológicas m ais im p o rta n te s do m o m e n to , p ro b le m á tic a e s ta a in d a n ã o e n c e r­ rad a , ta n to p a r a a teo lo g ia c a tó lic a com o p a r a a evangélica.

Referências

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