Turma e Ano: Flex A (2014)
Matéria / Aula: Civil (Parte Geral) / Aula 14 Professor: Rafael da Motta Mendonça
Conteúdo: Fraude Contra Credores. Prescrição e Decadência.
6) FRAUDE CONTRA CREDORES (cont.):
Fraude contra credores clássica = Transferência de bens realizada pelo devedor
com o intuito de dificultar o adimplemento da obrigação:
Transmissão gratuita (art. 158 CC) – Insolvência (transmissão gratuita pelo devedor
já insolvente ou quando a transmissão levar à insolvência)
Transmissão Onerosa (art. 159 CC) - Insolvência + Notoriedade da insolvência =
Conluio na fraude
Para evitar a configuração da fraude contra credores (art. 160 CC):
Pagar o preço de mercado + depositar em juízo + citação de todos os
credores
Anulabilidade x Ineficácia:
De acordo com a interpretação dogmática, a fraude contra credores gera um
negócio jurídico anulável (art. 171, II CC).
Questão do Concurso Tabelionato Pernambuco:
Crítica: No entanto, a doutrina critica a opção legislativa pela anulabilidade, pois a
esta exige vício nos elementos essenciais do negócio jurídico, o que não ocorre na
fraude contra credores. Diante disso, a doutrina defende a fraude contra credores
gera a ineficácia em relação ao credor, haja vista que o instituto se destina a
proteger o credor. Portanto, a fraude contra credores atuaria no plano da eficácia do
negócio jurídico, e não da validade por ausência de vício.
Ação Pauliana ou Revocatória:
Configurada a fraude contra credores, poderão impugnar as transferências sob
esta alegação somente o credor quirografário (sem garantia real) ou o credor com
garantia real insuficiente (art. 158, caput e §1º CC).
A Ação Pauliana deverá ser proposta em face do devedor e de todos os
adquirentes, constituindo um litisconsórcio passivo necessário.
Muitos defendem que a fraude contra credores é o embrião da função social do
contrato, em razão da possibilidade do credor responsabilizar terceiros estranhos à
relação contratual pelo seu inadimplemento. O outro embrião está presente no direito do
consumidor - fato do produto, casos em que haverá a responsabilização do fabricante.
Os bens transferidos retornam ao patrimônio do devedor – transmissão ineficaz (não
recaindo diretamente sobre o patrimônio do credor).
Obs1: Remissão de dívidas:
A remissão de dívidas pode ser considerada hipótese de fraude contra credores?
Sim (art. 158 CC).
Art. 158 CC. Os negócios de transmissão gratuita de bens ou remissão de dívida, se os praticar o devedor já insolvente, ou por eles reduzido à insolvência, ainda quando o ignore, poderão ser anulados pelos credores quirografários, como lesivos dos seus direitos.
Obs2: Dívida Prescrita:
Se o cumprimento de obrigação natural (dívida prescrita) pelo devedor levá-lo à
insolvência, o credor poderá ajuizar Ação Pauliana com o objetivo de impugnar tais
pagamentos, fazendo com que o valor retorne ao patrimônio do devedor.
A obrigação natural é caracterizada pela irrepetibilidade, tendo em vista que apesar
da pretensão do credor estar prescrita, o seu direito subjetivo não está. Esta hipótese de
dívida prescrita caracterizando fraude contra credores configura uma exceção à
irrepetibilidade das obrigações naturais como uma forma de proteção a terceiro de
boa fé.
Obs3: Ausência de notificação:
Diante da ausência de notificação, a cessão de crédito será ineficaz em relação ao
devedor:
Art. 290. A cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a este notificada; mas por notificado se tem o devedor que, em escrito público ou particular, se declarou ciente da cessão feita.
Mesmo diante de ausência de notificação da cessão de crédito ao devedor, o
cessionário poderá alegar fraude contra credores, a fim de impugnar transmissões
gratuitas. Ademais, a própria citação da Ação Pauliana funcionará como forma de
notificação do devedor.
Art. 293. Independentemente do conhecimento da cessão pelo devedor, pode o cessionário exercer os atos conservatórios do direito cedido.
Obs4: Garantia real sobre bem de família em relação a apenas um dos credores:
O estabelecimento de garantia real sobre um bem de família afasta a garantia da
impenhorabilidade. Se o devedor constituir garantia real sobre um bem de família em
relação a apenas um dos credores restará configurada a fraude contra credores em relação
aos demais?
CESPE
– Considerou hipótese de fraude contra credores, pois o devedor deveria
constituir a garantia real sobre o bem de família, abrindo mão da impenhorabilidade,
em relação a todos os credores. Segundo a Banca, a fraude contra credores decorre
de qualquer conduta do devedor que venha a dificultar ou não privilegiar o
pagamento da dívida.
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- PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA –
No CC de 1916, a grande preocupação da doutrina era criar critérios de
diferenciação entre prescrição e decadência, tendo em vista estarem previstos no mesmo
dispositivo. Atualmente, o CC/02 separa o prazo prescricional do decadencial:
Prazo Prescricional
– arts. 205 (prazo prescricional ordinário – aplicação
residual = 10 anos) e 206 CC
Prazo Decadencial – todos os demais prazos.
Prazos Prescricionais:Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor.
Art. 206. Prescreve: § 1o Em um ano:
I - a pretensão dos hospedeiros ou fornecedores de víveres destinados a consumo no próprio estabelecimento, para o pagamento da hospedagem ou dos alimentos;
II - a pretensão do segurado contra o segurador, ou a deste contra aquele, contado o prazo:
a) para o segurado, no caso de seguro de responsabilidade civil, da data em que é citado para responder à ação de indenização proposta pelo terceiro prejudicado, ou da data que a este indeniza, com a anuência do segurador;
b) quanto aos demais seguros, da ciência do fato gerador da pretensão; III - a pretensão dos tabeliães, auxiliares da justiça, serventuários judiciais, árbitros e peritos, pela percepção de emolumentos, custas e honorários;
IV - a pretensão contra os peritos, pela avaliação dos bens que entraram para a formação do capital de sociedade anônima, contado da publicação da ata da assembléia que aprovar o laudo;
V - a pretensão dos credores não pagos contra os sócios ou acionistas e os liquidantes, contado o prazo da publicação da ata de encerramento da liquidação da sociedade.
§ 2o Em dois anos, a pretensão para haver prestações alimentares, a partir
da data em que se vencerem. § 3o Em três anos:
I - a pretensão relativa a aluguéis de prédios urbanos ou rústicos;
II - a pretensão para receber prestações vencidas de rendas temporárias ou vitalícias;
III - a pretensão para haver juros, dividendos ou quaisquer prestações acessórias, pagáveis, em períodos não maiores de um ano, com capitalização ou sem ela;
IV - a pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa; V - a pretensão de reparação civil;
VI - a pretensão de restituição dos lucros ou dividendos recebidos de má-fé, correndo o prazo da data em que foi deliberada a distribuição;
VII - a pretensão contra as pessoas em seguida indicadas por violação da lei ou do estatuto, contado o prazo:
a) para os fundadores, da publicação dos atos constitutivos da sociedade anônima;
b) para os administradores, ou fiscais, da apresentação, aos sócios, do balanço referente ao exercício em que a violação tenha sido praticada, ou da reunião ou assembléia geral que dela deva tomar conhecimento;
c) para os liquidantes, da primeira assembléia semestral posterior à violação;
VIII - a pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial;
IX - a pretensão do beneficiário contra o segurador, e a do terceiro prejudicado, no caso de seguro de responsabilidade civil obrigatório.
§ 4o Em quatro anos, a pretensão relativa à tutela, a contar da data da
aprovação das contas. § 5o Em cinco anos:
I - a pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular;
II - a pretensão dos profissionais liberais em geral, procuradores judiciais, curadores e professores pelos seus honorários, contado o prazo da conclusão dos serviços, da cessação dos respectivos contratos ou mandato;
III - a pretensão do vencedor para haver do vencido o que despendeu em juízo.