• Nenhum resultado encontrado

O teatro de Oswald de Andrade

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2020

Share "O teatro de Oswald de Andrade"

Copied!
31
0
0

Texto

(1)

O TEATRO DE OSWALD DE ANDRADE

José J o i o CURY*

OSWALD DE ANDRADE r e p r e s e n t a , no panorama da l i t e r a t u r a b r a s i l e i r a , juntamente com Qorpo Santo, o grande gerador de novas a t i t u d e s formais. Em qualquer que s e j a o r e c o r t e de sua obra p o e s i a , p r o s a , t e a t r o -, a t r a n s g r e s s ã o dos v a l o r e s i n s t i t u í d o s é a sua c a r a c t e r í s t i c a preponderante.

A nossa i n t e n ç ã o è a a n á l i s e de suas p e ç a s - O Rei da Vela, O Homem e o Cavalo e a A Horta -, s i t u a n d o - a s na

dramaturgia b r a s i l e i r a enquanto dramas desautornatizadores e e n t r ò p i c o s , r e s u l t a n t e s de uma d e s m i s t i f i c a ç ã o dos mitos e s s e n c i a i s , da forma e do d i s c u r s o d r a m a t ú r g i c o que se c a r a c t e r i z a m pelo tom p a r o d i s t i c o . A p r o d u ç ã o do seu t e x t o , " a b s o r ç ã o e t r a n s f o r m a ç ã o de outros t e x t o s " (1, P . 7 8 ) , desencadeadores de um d i s c u r s o d r a m á t i c o , d i a l ó g i c o , aberto, p o l i f ô n i c o , s i t u a Oswald de Andrade na história e sociedade, encaradas e s t a s como t e x t o s que o e s c r i t o r lê e nos quais se i n s e r e <Haiakóvsk i , Marx, E n g e l s , Reed, Kropotkin, Bakunin, A B í b l i a , A R e v o l u ç ã o de 30, 0 Fascismo, e t c ) . A p r o d u ç ã o do drama oswaldiano parece s i t u a r - s e na c o n f l u ê n c i a da t r a n s g r e s s ã o concomitante do c ó d i g o e da i d e o l o g i a : o desvio das e s t r u t u r a s t r a d i c i o n a i s . Na s e q u ê n c i a das p e ç a s , O Rei da Vela, que é cronologicamente sua p r i m e i r a grande incursão t e a t r a l acabada, será considerado seu p r i m e i r o momento d i a l é t i c o na d i n â m i c a ideológica do autor. É a c o n s t a t a ç ã o da r e a l i d a d e b r a s i l e i r a , burguesa, criadora »C.A.l/t.LA. t EAD/Ü3P.

(2)

da moda capits 1 ista de produção e do antagonismo e n t r e duas c l a s s e s formadas h i s t o r i c a m e n t e : a burguesia e o p r o l e t a r i a d o .

A e v i d ê n c i a h i s t ó r i c a deste p r i m e i r o momento, o de O Rei da Vela, l e v a -nos à r e f l e x ã o sobre as l u t a s de c l a s s e s , f r u t o das r e l a ç õ e s de p r o d u ç ã o e de t r o c a s , i s t o ê , das r e l a ç õ e s e c o n ô m i c a s por que passava o B r a s i l . A p e ç a , c o n s t r u í d a dentro de toda a p r e v i s i b i l i d a d e do drama t r a d i c i o n a l , corresponde a um c o n t e ú d o c l a r o , t r a n s p a r e n t e , detectando uma i s o m o r f i a e n t r e a e s t r u t u r a e a i d e o l o g i a - uma forma simples para uma s u b s t â n c i a d e f i n i d a , d e f l a g r a , por um d i s c u r s o bufo, c a r n a v a l e s c o , p a r o d i s t i c o , um t e a t r o altamente t r a n s g r e s s o r e p o l i t i c o .

Já em O Homem e o Cavalo, a e s t r u t u r a c a ó t i c a , fragmentada, r e l a c i o n a d a com a abrupta t r a n s f o r m a ç ã o por que passava a sociedade b r a s i l e i r a , e a r e i t e r a ç ã o i d e o l ó g i c a p e r m e á v e l no t e x t o p e l a procura o b s e s s i v a de uma s o l u ç ã o m e s s i â n i c a , c a r a c t e r i z a d o r a da i m a g i n a ç ã o u t ó p i c a do autor, fazem da peça uma i s o m o r f i a das d i f e r e n ç a s . D i f e r e n ç a s p e l a e s t r u t u r a e n t r e c o r t a d a e, como se v e r á , p e l a i m p r e g n a ç ã o e x a u s t i v a da d o u t r i n a m a r x i s t a . Os d i s c u r s o s de v á r i o s personagens se aproximam de um s o c i a l i s m o e c l é t i c o : de um lado o s o c i a l i s m o u t ó p i c o a e x p l i c a r a c o n s c i ê n c i a do homem por e l e mesmo, como a d e s c o b e r t a c a s u a l do i n t e l e c t o g e n i a l ; e, de outro, a c o n s c i ê n c i a m a t e r i a l i s t a da h i s t ó r i a , que se e x p l i c a p e l a e x i s t ê n c i a e como produto n e c e s s á r i o da l u t a de c l a s s e s , ou s e j a , o s o c i a l i s m o ao n i v e l do d i s c u r s o e da p r á x i s . Em A horta, a t r a j e t ó r i a m o d i f i c a -s e , p o i -s o d i -s c u r -s o da peça -se tran-sforma, tornando-se opaco, ambivalente, projetando na d e c o d i f i c a ç ã o a i n s t a b i l i d a d e p r o p u l s o r a de l e i t u r a s m ú l t i p l a s . A p o e t i c i d a d e de A Horta

(3)

aponta' grandes m e t á f o r a s , ao lado de f a t o s profundamente a n a r q u i s t a * dos cremadores. Há uma i n s o n d á v e l e e t e r n a fonte c r i a d o r a de v i d a - a ânsia de d e s t r u i r que pode s e r compreendida como uma ânsia animadora. Há uma r a r e f a s ã o das i d e o l o g i a s dominantes: a c a p i t a V i s t a e. a m a r x i s t a . Mas um grande momento se i n s t a u r a : a n e g a ç ã o dos v a l o r e s i n s t i t u í d o s ; a d e s t r u i ç ã o pelo fogo e a s a l v a ç ã o dos homens p e l a i m a g i n a ç ã o u t ó p i c a , base da c r i a ç ã o p o é t i c a . Axiologicamente, o u n i v e r s o se recupera p e l a m e t á f o r a e p i s t e m o l ó g i c a , p o i s o poeta, com a sua p e r t i n á c i a , é o c r i a d o r e o d e s t r u i d o r dos mitos, dos deuses, da á r v o r e c r i a d o r a . A Marta é a n e g a t i v i d a d e a t r a v é s da c o d i f i c a ç ã o

e da p r á t i c a u t ó p i c a do f a z e r p o l i t i c o .

Partimos do c o n c e i t o de t e a t r o como a t i v i d a d e d i n â m i c a , p r á t i c a d i a l é t i c a , c u j a p o t e n c i a l i d a d e se f a z imanente ao p r ó p r i o signo d r a m á t i c o , na sua a m b i v a l ê n c i a , is-to é , "o termo i m p l i c a a i n s e r ç ã o da h i s t ó r i a (da s o c i e d a d e ) , no t e x t o , e do t e x t o na h i s t ó r i a " . ( 1 2 » p.67) 0 t e x t o t e a t r a l como um r e g i s t r o e s c r i t u r a r que se t o r n a , ainda que sem a r e p r e s e n t a ç ã o c ê n i c a , uro v i r - a - s e continuo que requer a v a l i a ç õ e s c o n s t a n t e s . Ainda que a mais adequada abordagem s e j a a do sigma t e a t r a l como s i s t e m a s i g n i f i c a n t e m u l t í e o d i f i c a d o e que a r e p r e s e n t a ç ã o se faça por enunciados i c ô n i c o s g e s t u a i s e v e r b a i s e que, dentro d e s t a p e r s p e c t i v a s e m i ó t i c a , já não é o t e x t o que produz o conjunto de personangens, a t o r e s , mas sim- e s t e conjunto que modula a modaliza o t e x t o d r a m á t i c o , a nossa l e i t u r a é do t e x t o e s c r i t o .

Considerando a linguagem d r a m á t i c a como a s í n t e s e de todas as linguagens e s c r i t u r a i s , já que e l a requer d i a l e t icament e a p r e s e n ç a e s t r u t u r a n t e da p o e s i a m e t a f ó r i c a e par adiymaticamente concebida, e do processo metorvimico - s i n t a g m à t i c a produtor da p r o s a ,

(4)

e s t a d i n â m i c a e v i d e n c i a - s e na p r o s p e c t i v a da obra o s w a l d i a n a » mas> de forma a t r a n s g r e d i r sempre e s t a p r o p o s i ç ã o .

Oswald cte Andrade è, antes de tudo» um dramaturgo: tanto a sua p o e s i a sintética» quanto a sua prosa fragmentada consolidam a e s c r i t u r a d r a m á t i c a . A linguagem f u t u r i s t a -c u b i s t a - s u r r e a l i s t a da sua p o e s i a e das ( n a r r a t i v a s p a r a t á t i c a s da sua prosa é» sem dúvida», o suporte e s t r u t u r a n t e de uma Índole p r o p i c i a a d e s e n v o l v e r - s e » c o n t u n d e n t e m e n t e » para uma f o r m a l i z a ç ã o d r a m a t ú r g i c a . 0 que se quer d i z e r è que o t e a t r o é seu signo p r e v a l e n t e .

Toda a v i s ã o r e c o r t a d a do u n i v e r s o oswaldiano a s s e g u r a - l h e uma trajetória» c u j a c o n v e r g ê n c i a è a linguagem dramática» p o i s e s s a v i s ã o é o d i s c u r s o raanifestadamente teatral» sem os llames que sintagmaticamente encaminham o processo v e r b a l das n a r r a t i v a s e p o e s i a s quaisquer.

Vamos à a n á l i s e das petas O Rei da Vela (1933-1937), ü Homem e o Cavalo (1934) e A horta (1937), ainda que o u t r a s p e ç a s tsnbam

sido anteriormente e s c r i t a s : A Recusa ( 1 9 1 3 ) , drama em três a t o s , manuscrito inacabado, Mon Caeur_BaIance e Leur Ame (1916, em f r a n c ê s , e s c r i t a s em c o l a b o r a ç ã o com Guilherme de Almeida)? O Filho do Sono ( 1 9 1 7 ) , drama em três a t o s * manuscrito inacabado* E» após 1917, a peça também inacabada» sem capa e sem data, de i n s p i r a ç ã o anarquista» sobre a greve de 1917, em S ã o Paulo» na qual p a r t i c i p a r a m 70 mil o p e r á r i o s .

A T R A N S P A R Ê N C I A I D E O L Ó G I C A DE n gff DA vTI.A

t a u n c i a ç ã u e s u j e i t o são in-d i ssoc i áve i s, já- que o p r i m e i r o supõe o segundo e o s u j e i t o , por sua ve-z, p r e s s u p õ e duas i n s t â n c i a s » nem sempre percebidas por e l e ; a i d e o l o g i a e o i n c o n s c i e n t e .

(5)

Recordemos que Oswald de Andrade, s i t u a d o numa d i r e i t a marcada, se v i u , de repente, "emaranhado em d i v i d a s : l e t r a s de c â m b i o , p r o m i s s ó r i a s , desordem t o t a l nos n e g ó c i o s - sempre a e s p e r a n ç a ingênua de vender um t e r r e n o e a p l i c a r o d i n h e i r o . (...) G e t ú l i o Vargas dá novas d i r e t r i z e s ao seu governo - l u t a a b e r t a c o n t r a a agiotagem

(...) A p r o v e i t a (Oswald) todos os segundos para c o l h e r m a t e r i a l " ( 7 ) .

Tudo d e c o r r ê n c i a da c r i s e mundial do c a p i t a l i s m o , d e f l a g r a d a pela d e p r e s s ã o de 29 e p e l a r e v o l u ç ã o de 30. Muitos e s c r i t o r e s e i n t e l e c t u a i s b r a s i l e i r o s e v o l u í r a m rapidamente para p o s i ç õ e s de esquerda. Nesta é p o c a , P a t r i c i a G a l v ã o e Oswald de Andrade estavam j u n t o s . Fora p r e c i s o , além da e x a l t a ç ã o oswaldiana c o n t r a a s i t u a ç ã o e c o n ô m i c a p r e c á r i a por que n ã o só e l e p a s s a v a , mas também a sociedade b r a s i l e i r a , a p r e s e n ç a de Pagu, m a r x i s t a , para desempenhar um papel fundamental na e v o l u ç ã o do pensamento de Oswald de Andrade. E, conforme suas p r ó p r i a s p a l a v r a s : " A t é 30, mesmo quando s u r g i u o movimento a n t r o p o f á g i c o , n ã o h a v i a d i v e r g ê n c i a s e s s e n c i a i s ( e n t r e os m o d e r n i s t a s ) . Só com o vendaval p o l í t i c o

-e c o n ô m i c o d-e 30 s-e d -e f i n i r a m p o s i ç õ -e s i d e o l ó g i c a s (...) Numa e s t r e i t a s o l i d a r i e d a d e com meu estado de a r r u i n a d o , tornei-me um m a r x i s t a - m i 1 i t a n t e e p a s s e i a conhecer c o r t i ç o s , v i l a s , p r i s õ e s , lençóis rasgados

(6,P.98>" 4

Em 1931, Oswald de Andrade e Pagu montam uma t r i b u n a , O Homem do Povo, j o r n a l p a n f l e t á r i o , a g r e s s i v o , ideologicamente de esquerda. Engajados no P a r t i d o Comunista do B r a s i l , Pagu p u b l i c a , em 1933, o primeiro romance p r o l e t á r i o b r a s i l e i r o , Par que Industrial , e Oswald de Andrade dá i n i c i o aos t r a b a l h o s de i d e o l o g i a comunista: O Rei da Vela, O Homem e o Cavalo, A horta, Us

(6)

condenadas. Marca Zero. E n t r e 1933/1935, no c e n á r i o p o l i t i c o b r a s i l e i r o , e s t ã o de um lado a A ç ã o I n t e g r a l i s t a e, de outro, o PCB, o que l e v a A n t ô n i o R i s é r i o a comentar: "Todos reagem d i a n t e da p o l a r i z a ç ã o i d e o l ó g i c a . E n t r e os modernistas " h i s t ó r i c o s " , dos do grupo Anta, " v e r d e - a m a r e l i s t a " envergam a camisa verde do fascismo cabloco. Os da a l a " a n t r o p o f á g i c o " , antes d i s s o , já haviam s i d o a t r a í d o s , i r r e s i s t i v e l m e n t e , para o pensamento de esquerda. P e l a p r i m e i r a vez, e n t r e n ó s , o "perigo vermelho" t r a z i a alguma ameaça ao poder. A ANL (Aliança Nacional L i b e r t a d o r a ) , agrupando, numa " f r e n t e ú n i c a " , os elementos de esquerda, s i n d i c a t o s , alguns t e n e n t e s , e t c . , expandia-se sob a p r e s i d ê n c i a g e r a l de L u i s C a r l o s P r e s t e s " . <17,P.22) E s t ã o a í , de um lado a r e a l i d a d e do s u j e i t o a i n s t i g a r a e n u n c i a ç ã o e, do outro, a r e a l i d a d e s o c i a l na qual e l e se i n s e r i a -os motores geradores de O Rei da Vela.

Nesta r e l a ç ã o nasce o Oswald " m a r x i s t a " que, por mais que se conduza p e l a s premissas m a r x i s t a s , será sempre um s o c i a l i s t a u t ó p i c o no p e r í o d o de 30 a 45, e s p a ç o - t e m p o r a l que c o i n c i d e com a sua p r o d u ç ã o t e a t r a l . Em O Rei da Vela há um reconhecimento c u l t u r a l e i d e o l ó g i c o no c o n t e ú d o do o b j e t o a r t í s t i c o e nas suas formas p r ó p r i a s . E o d o m í n i o sobre as e s t r u t u r a s formadoras do u n i v e r s o b u r g u ê s , o modo c a p i t a l i s t a de p r o d u ç ã o , a d i v i s ã o do t r a b a l h o , a propriedade p r i v a d a , a mais v a l i a , o casamento, a função do i n t e l e c t u a l e os a p a r e l h o s i d e o l ó g i c o s , tudo para manter a

(7)

c l a s s e dominante.

O Rei da Vela, ( 5 ) peça e s c r i t a na I l h a de P a q u e t á , no Rio de J a n e i r o , em 1 9 3 3 , e d i t a d a p e l a p r i m e i r a vez pela José Olympio E d i t o r a , em 1 9 3 7 , e encenada pelo Teatro O f i c i n a de S ã o Paulo em setembro de 1 9 6 7 , com a d i r e ç ã o de José C e l s o Martinez C o r r ê a , p o s s u i uma e s t r u t u r a p r e v i s í v e l com três atos

equilibradamente d e s e n v o l v i d o s . Os personagens Abelardo I e H e l o í s a de Lesbos,

com a f r e q u ê n c i a a l t í s s i m a de aparecimento no t e x t o , p r i n c i p a l m e n t e Abelardo I , constituem o n ú c l e o da a ç ã o d r a m á t i c a e, como e s t r a t é g i a d r a m a t ú r g i c a , promovem a c r i t i c a s a r c á s t i c a da sociedade c a p i t a l i s t a . Na t r a g i c ò m i c a h i s t ò r i a de amor de Abelardo e H e l o í s a se produz um d i s c u r s o profundamente p o l i t i c o .

Não obstante o tom irônico que permeia o t e x t o e todas as a l u s õ e s às pessoas preeminentes no meio s o c i a l oswaldiano, o que na verdade e x i s t e na cena em que se encontram o Cliente e os Abe 1 ardas I e II, e que abre o

1Q ato da p e ç a , ê justamente uma

micro-e s t r u t u r a micro-e c o n ô m i c a produzida pmicro-elo c a p i t a l i s m o b u r g u ê s . Vejamos o que dizem os personagens:

ABELARDO K E x a m i n a ) - V e j a ! I s t o não é c o m e r c i a l , seu P i t a n g a ! 0 senhor f a z o p r i m e i r o e m p r é s t i m o em

f i n s de 2 9 . Liquidou em maio de 1 9 3 3 . Reformou sempre. Há dois meses suspendeu o s e r v i ç o de j u r o s . . . N ã o é c o m e r c i a l < . . . )

0 CLIENTE - Mas eu f u i pontual d o i s anos e meio. Paguei enquanto pude! A minha d i v i d a e r a de um conto de r é i s . Só de j u r o s eu lhe trouxe aqui n e s t a s a l a mais de d o i s contos e quinhentos. E a t é agora n ã o me u t i l i z e i da l e i c o n t r a a u s u r a . . . 0 CLIENTE (Desnorteado) -Eu já lhe paguei duas vezes ... .

(8)

-ABELARDO I - Suma-se daqui! ( L e v a n t a - s e ) S a i a ou chamo a p o l i c i a . Ê sò dar o s i n a l de crime neste a p a r e l h o . A p o l i c i a ainda e x i s t e . . .

0 CLIENTE - Para defender os c a p i t a l i s t a s ! E os seus c r i m e s !

ABELARDO I - Para defender o meu d i n h e i r o (...) ( 5 , P . 66-7) (0 g r i f o è nosso) I n s t a u r a - s e p e l a linguagem» n ã o um contexto que l e v a r i a à c a t a r s e a r i s t o t é l i c a , mas ao r e s g a t e da c o n d i ç ã o s o c i a l b r a s i l e i r a , a n a l i t i c a m e n t e observada pelo c o n f l i t o de c l a s s e s . C r i o u - s e , n e s t a cena i n i c i a l , todo o u n i v e r s o de um processo e c o n ô m i c o de a c u m u l a ç ã o sempre c r e s c e n t e do c a p i t a l p e l a t e o r i a da e x p l o r a ç ã o : o emprego do d i n h e i r o com a f i n a l i d a d e e x p r e s s a de ganhar mais d i n h e i r o . 0 processo de a c u m u l a ç ã o , na r a z ã o

i n v e r s a do p r o l e t a r i a d o - o C l i e n t e e s p o l i a d o , expropriado.

No processo do c a p i t a l i s m o , as c r i s e s geram a r o t a t i v i d a d e dos senhores do c a p i t a l . É o que v a i r e f e r e n d a r o prot agon i s t a:

ABELARDO I - Os velhos senhores da t e r r a tinham que dar lugar aos novos senhores da t e r r a (...) Estamos de f a t o num ponto c r i t i c o em que podem predominar, aparentemente e em numero» as pequenas lavouras. Mas nunca como

p o t ê n c i a f i n a n c e i r a . Dentro do c a p i t a l i s m o , a pequena propriedade s e g u i r á o d e s t i n o da a ç ã o i s o l a d a nas s o c i e d a d e s a n ô n i m a s . 0 possuidor de uma é um mito e c o n ô m i c o . Senhora minha noiva, a c o n c e n t r a ç ã o do c a p i t a l é um

(9)

minhas m ã o s . Sob a lei da concorrência, os fortes comerão sempre os fracos, Desse modo ê que desde já os lat ifândios paul is tas se reconst i tuem sob novos proprietários. (5»p. 83) (0 g r i f o é nosso) Enquanto funciona p e r s o n i f i c a d o o c a p i t a l , o c a p i t a l i s t a possui o seu v a l o r d i a l é t i c o perante a h i s t ó r i a . Sua e x i s t ê n c i a l i g a d a ao modo c a p i t a l i s t a de p r o d u ç ã o , s e j a na i n d ú s t r i a ou no campo, como i n d u s t r i a l ou

l a t i f u n d i á r i o , mas sempre motivado pelo c a p i t a l i s m o em p o t e n c i a l , p e l a m e c â n i c a do c a p i t a l i s m o v i r t u a l : um Abelardo I I ou os i n g l e s e s f a l i d o s ou o americano.

E o que se l ê :

ABELARDO - < . . . ) O regimen capitalista que Deus guarde.

H E L O Í S A - E v o c ê . Não teme nada?

ABELARDO I - Os ingleses e americanos temem por nós. Estamos

ligados ao destino deles. Devemos tudo, o que temos e o que não

temos. Hipotecamos palmeiras...quedas de àgua. Cardeais. H E L O Í S A - Eu l i no j o r n a l que devemos só à I n g l a t e r r a t r e z e n t o s m i l h õ e s de l i b r a s , mas só chegaram aqui t r i n t a m i l h õ e s . . . ABELARDO I - E p o s s i v e l ! Mas o compromisso é compromisso! Os paises inferiores têm que trabalhar para os paises superiores como os pobres t rabalham para os ricos. Você a c r e d i t a que New York t e r i a aquelas b a b é i s v i v a s de a r r a n h a -c é u s e as v i n t e mil pernas mais b o n i t a s da t e r r a se não se t r a b a l h a s s e para Wall S t r e e t de R i b e i r ã o Preto à Cingapura, de

(10)

Manaus até a L i b é r i a ? Eu s e i que sou simples f e i t o r do c a p i t a l e s t r a n g e i r o . Um l a c a i o , se quiserem! Mas n ã o me queixo. Ê por i s s o que possuo uma l a n c h a , uma i l h a e v o c ê . . .

( 5 , P . 84) <0 g r i f o é nosso)

0 regime c a p i t a l i s t a , na l i n h a condutora oswaldiana, n ã o só explora o homem p e l a e x a c e r b a ç ã o do poder e c o n ô m i c o , mas também derruba os v a l o r e s humanos, como o casamento e a função s o c i a l do a r t i s t a . S e n ã o vejamos como d i z H e l o í s a , a noiva de Abelardo I :

H E L O Í S A - Em troca da minha liberdade chegamos ao casa-mento...Que você no começo disia

ser a mais imoral das instituições humanas^.

ABELARDO I - E a mais útil à nossa c l a s s e . . . A que defende a herança. H E L O Í S A - Enfim...aqui estou...ne-gociada. Como uma mercadoria

va-liosa ('...»* (5,p. 81) (0 g r i f o é nosso) Quanto ao i n t e l e c t u a l , ao e s c r i t o r , a ignorância» o oportunismo e a f a l t a de c o n v i c ç ã o p o l i t i c a , s ã o as suas c a r a c t e r í s t i c a s . Leiamos:

ABELARDO I - Mas qual ê a sua cor p o l i t i c a n e s t e s agitados d i a s de debate soe i a 1 ?

PINOTE - Eu tenho posição intermediária„ neutra.. .fitao me meto. E, mais a d i a n t e : H E L O Í S A - Coitado. <Referindo-se a P i n o t e ) ABELARDO I - Voltará» De c a n i s a amarela» a z u l ou verwelha. E de a l a b a r d a . E ficará montando guarda à minha p o r t a ' E me defenderá com a

(11)

própria vida, da maré vermelha que ameaça •subir, tomar conta do mundo!

0 i n t e l e c t u a l deve s e r t r a t a d o assim.

(5,p. 80-1) ( 0 g r i f o é nosso) Vejamos o que dizem Marx e E n g e l s :

"As idéias da c l a s s e dominante s ã o também as idéias dominantes de cada é p o c a ou, em o u t r a s p a l a v r a s , a c l a s s e que é a p o t ê n c i a m a t e r i a l dominante da sociedade e também a p o t ê n c i a e s p i r i t u a l dominante. A c l a s s e que d i s p õ e dos meios de p r o d u ç ã o i n t e l e c t u a l , de maneira que, em m é d i a as idéias daqueles a quem s ã o recusados os meios de p r o d u ç ã o i n t e l e c t u a l e s t ã o desde

logo submetidos a e s s a c l a s s e d o m i n a n t e " . ( 1 6 , p . 9 )

0 2 Q ato ( 0 Modo de Vida B u r g u ê s ) c r i a o u n i v e r s o do a r i s t o c r a t a decadente, na sua r e l a ç ã o amistosa com a burguesia em a s c e n s ã o , i s t o é , uma c l a s s e o c i o s a que quer s o b r e v i v e r faustosamente na d e p e n d ê n c i a e c o n ô m i c a de uma burguesia c a p i t a l i s t a , s u b s e r v i e n t e ao imperialismo americano.

Se o 1 Q ato é todo marcado por um d i s c u r s o ideologicamente c l a r o , e x p l i c i t o , o 2 Q a t o se f a z mais p e l a d i n â m i c a i n t e r n a , provocada pelo modo de vida da burguesia o c i o s a , motora de qualquer c r i s e s o c i a l . E s t e 2 Q ato apresenta a fáustica s o m a t ó r i a dos i g u a i s , nivelando-os p e l a s suas r e l a ç õ e s de p r o d u ç ã o que g e r a r ã o sempre a s grandes r e v o l u ç õ e s , i s t o ê , a decadente família do Coronel Belarmino, o novo usura - c a p i t a l i s t a Abelardo, á v i d o de acesso l i v r e em qualquer a l t a - sociedade, e o imperialismo americano: è a igualdade provocadora de um i n s t i g a n t e momento do processo d i a l é t i c o .

No modo de v i d a b u r g u ê s , em se t r a t a n d o de defender a i d e o l o g i a da c l a s s e

(12)

dominante, é p r e c i s o usar da força, como instrumento de r e p r e s s ã o . E s t a p r á t i c a está c l a r a nas cenas em que Perdigoto aparece.

ABELARDO I - Que quer comigo?

PERDIGOTO (Sentando-se a c a v a l o numa c a d e i r a . T i r a um c i g a r r o . Oferece. Fuma) - Propor-lhe úm n e g ó c i o

PERDIGOTO - Tenho notado lá e em algumas propriedades v i z i n h a s um descontentamento c r e s c e n t e e n t r e os c o l o n o s . E l e s e s t ã o ficando

i n c o n t e n t à v e i s .

ABELARDO I - Naturalmente sempre foram i n c o n t e n t á v e i s . . .

PERDIGOTO - E s t ã o ficando i n s o l e n t e s , até desaforados. Ê p r e c i s o c a s t i g a r e meter medo. Eu tenho v e l h o s amigos, quase todos desocupados...gente disposta...Que sabe b r i g a r . . .

PERDIGOTO - Fora de b r i n c a d e i r a . A s i t u a ç ã o obriga a i s s o . Organizemos uma m i l í c i a p a t r i ó t i c a . Que acha? Nos i n s t a l a r e m o s provisoriamente na Casa C e n t r a l . Combinaremos com os outros f a z e n d e i r o s . Arrolaremos gente, a capangada está sempre p r o n t a . . . S e r á o nosso q u a r t e l -g e n e r a l . E se a c o l ô n i a der um p i o . . .

ABELARDO I - Será o massacre... Processos conhecidos!

( 5 , P . 105)

0 aparelho r e p r e s s i v o passa a s e r o p r i n c i p a l instrumento de l u t a c o n t r a o movimento o p e r á r i o ou o homem do campo. Sob o

f a l s o p r e t e x t o de defender-se da a m e a ç a comunista, o imperialismo l e v a a cabo a m i l i t a r i z a ç ã o da economia, da p o l i t i c a e da

(13)

i d e o l o g i a , aumentando as forças armadas e ampliando as a t i v i d a d e s do complexo b é l i c o . A l t h u s s e r afirma que a f o r m a ç ã o da sociedade c a p i t a l i s t a não se r e s t r i n g e às r e l a ç õ e s de p r o d u ç ã o , isoladamente, i s t o è, aos p r o c e s s o s de p r o d u ç ã o e c i r c u l a ç ã o . E p r e c i s o que o processo de r e p r o d u ç ã o c a p i t a l i s t a e s t e j a centrado na l u t a de c l a s s e s , que i m p l i c a a i n t e r v e n ç ã o de toda a s u p e r e s t r u t u r a . Diz e l e : A burguesia só pode a s s e g u r a r a e s t a b i l i d a d e e a c o n t i n u a ç ã o da e x p l o r a ç ã o (que e l a impõe na p r o d u ç ã o ) sob a c o n d i ç ã o de t r a v a r uma permanente l u t a de c l a s s e s c o n t r a a c l a s s e o p e r á r i a . E s s a l u t a de c l a s s e é travada mediante a p e r p e t u a ç ã o ou r e p r o d u ç ã o das c o n d i ç õ e s m a t e r i a i s , i d e o l ó g i c a s e p o l i t i c a s de e x p l o r a ç ã o . E l a è

levada a cabo na p r o d u ç ã o (cortando s a l á r i o s d e s t i n a d o s a r e p r o d u ç ã o da força de t r a b a l h o , r e p r e s s ã o , s a n ç õ e s , d i s p e n s a s , l u t a c o n t r a os s i n d i c a t o s , e t c . ) . Ao mesmo tempo e l a è conduzida f o r a da p r o d u ç ã o . Ê a i que o papel do Estado - dos ARE e dos AIE (o s i s t e m a p o l i t i c o , e s c o l a s , c a n a i s de i n f o r m a ç ã o ) i n t e r v é m a fim de submeter a c l a s s e o p e r á r i a , t a n t o p e l a r e p r e s s ã o como p e l a i d e o l o g i a . ( l , p . 6 5 ) A função d e s s e s a p a r e l h o s é forçar as c l a s s e s dominadas a submeter-se à e x p l o r a ç ã o . As Aparelhos R e p r e s s i v o s de Estado (ARE) detêm a força que irá r e p r i m i r

qualquer r e a ç ã o c o n t r a o s i s t e m a i n s t i t u í d o ; já os Aparelhos I d e o l ó g i c o s de Estado ( A I E ) , d i s c r e t a m e n t e , impõem a sua i d e o l o g i a a t r a v é s dos meios r e l i g i o s o s , f a m i l i a r e s , c u l t u r a i s , p o l i t i c o s , e s c o l a r e s , j u r í d i c o s , s i n d i c a i s , in format i v o s .

(14)

No 3Q ato (A Luta dos I g u a i s ) , a d i s p u t a que ocorre e n t r e Abelardo I e I I , a t r a i ç ã o do segundo e a morte do p r i m e i r o , n ã o se c a r a t e r i z a m como o p o s i ç ã o , c o n t r a d i ç ã o , mas um jogo pelo poder, enquadrado por i d e n t i f i c a ç õ e s de v a l o r e s , p e l a i d e o l o g i a c a p i t a l i s t a . Será a i n s t i t u i ç ã o de uma l u t a de i g u a i s , tendo em mira a polpuda propriedade burguesa.

A c o n c o r r ê n c i a dos i g u a i s (Os Abelardos) a n i q u i l a qualquer t e n t a t i v a moral, r e l i g i o s a , e s p i r i t u a l , para r e s o l v e r os problemas humanos. Só há um o b j e t i v o : o poder. Ou como dizem Marx e E n g e l s :

F o i e l a (a c o n c o r r ê n c i a ) que, p e l a p r i m e i r a vez c r i o u a h i s t ó r i a u n i v e r s a l na medida em que tornou dependentes de todo o mundo todas as n a ç õ e s c i v i l i z a d a s e todos os i n d i v í d u o s n e l a s e x i s t e n t e s para a s a t i s f a ç ã o das suas n e c e s s i d a d e s ( . . . ) . Dum modo g e r a l , a n i q u i l o u a n a t u r a l i d a d e , tanto quanto é p o s s í v e l no s e i o do t r a b a l h o e r e s o l v e u todas as r e l a ç õ e s n a t u r a i s em r e l a ç õ e s de d i n h e i r o . (15,p.77) A contenda n ã o é entre c l a s s e s d i f e r e n t e s , n ã o è a l u t a e n t r e o p r e s s o r e s e oprimidos, e n t r e burgueses e p r o l e t á r i o s . 0 que é , sim , a b r u t a l o b s e s s ã o de acumular c a p i t a l desenfreadamente, que v a i gerar a d i s s e n ç ã o i n t e s t i n a operada na sociedade c a p i t a l i s t a .

0 instrumento demolidor è a t r a i ç ã o , o engodo. S ã o as t r a i ç õ e s mutuas que promovem as m u d a n ç a s dos i g u a i s , referendando o r e a c i o n á r i o c o n c e i t o h i s t ó r i c o das r e i t e r a ç õ e s dos f a t o s h i s t ó r i c o s . Toda e s t a c o n d i ç ã o humana burguesa è r e t r a t a d a por Abelardo I , ao n a r r a r a P a r á b o l a do Jujuba, o cão s o l i d á r i o com todos os demais cães

(15)

s o l d a d o s , r e p r e s e n t a n t e s dos Aparelhos R e p r e s s i v o s de Estado, p o d e r ã o , um d i a , d e i x a r os q u a r t é i s e r e b e l a r - s e c o n t r a o Estado opressor e desencadear a r e v o l u ç ã o s o c i a l . N ã o b a s t a só n ã o t r a i r , é p r e c i s o l u t a r c o n t r a a s i t u a ç ã o .

A peça termina com a morte de Abelardo I . Mas h a v e r á sempre outro Abelardo capaz de amparar sempre H e l o í s a , p o i s na sociedade c a p i t a l i s t a o m a t r i m ô n i o depende de

f a t o r e s e c o n ô m i c o s , de modo "que n ã o s ó a mulher tem seu p r e ç o , como também o homem, embora n ã o segundo suas qualidades p e s s o a i s e sim conforme a i m p o r t â n c i a de seus bens".

<11,P.87> A R E D U N D Â N C I A I D E O L Ó G I C A EM 0 HflMFM F n CAVALO Se O Rei da i/ela r e p r e s e n t a a r e v o l u ç ã o c a p i t a l i s t a , i s t o é , "o produto s o c i a l é apropriado pelo c a p i t a l i s t a i n d i v i d u a l " (10,p.77) c o n d i ç ã o fundamental para que se movam todas as c o n t r a d i ç õ e s , O Homem e o Cavalo r e p r e s e n t a a s o l u ç ã o das c o n t r a d i ç õ e s , a r e v o l u ç ã o p r o l e t á r i a - "o p r o l e t á r i o toma o poder p o l i t i c o e, por meio d e l e , converte em propriedade p ó b l i c a os meios s o c i a i s de p r o d u ç ã o que escapam das m ã o s da b u r g u e s i a " . ( 910,P.77)

Para t a n t o , Oswald de Andrade lança mão de um t e x t o e s t r u t u r a d o à maneira medieval, todo fragmentado, e que se r e l a c i o n a com a abrupta t r a n s f o r m a ç ã o por que passava a c i v i l i z a ç ã o o c i d e n t a l , a r t i c u l a n d o -se isomorficamente com uma i d e o l o g i a r e i t e r a n t e , obsedante, impregnada de um s o c i a l i s m o u t ó p i c o , p e r m e á v e l às t r ê s p e ç a s da d é c a d a de t r i n t a .

Para chegar a uma s o l u ç ã o n ã o s ó para o B r a s i l , mas para o u n i v e r s o , Oswald de Andrade f a z a p a r ó d i a da h i s t ó r i a u n i v e r s a l ,

(16)

ironicamente apresentada p e l o s personagens que d e s f i l a m nos nove quadros de sua p e ç a . M e t o n i m i c a m e n t e » se v a i desenrolando a d i a c r o n i a da h i s t ó r i a burguesa» a t r a v é s dos personagens que representam v a l o r e s marcados na sociedade c a p i t a l i s t a , para chegar a s o l u ç õ e s m a r x i s t a s - a r e v o l u ç ã o p r o l e t á r i a .

E s t a d i a c r o n i a p a r o d i s t i c a se f a z na ordem i n v e r s a da a s c e n s ã o c r i s t ã : na d e s c i d a do c é u para a t e r r a è que a n a r r a t i v a d r a m á t i c a se produz. E a c h a t i c e do p a r a í s o que impulsiona os personagens a buscarem a ventura de outro p l a n e t a - o móvel desencadeador da a ç ã o d r a m á t i c a em O Homem è o Cavala. (2)

Perpassando por toda a p e ç a , " r e v o l u ç ã o " é o termo r e c o r r e n t e , expectante em O Homem e o Cavalo*

Depois de mostrar nos 1Q, 2Q e 3Q quadros a d e c a d ê n c i a - da burguesia c r i s t ã e c a p i t a l i s t a p e l a falácia de seus a t o r e s c o r r u p t o s , de suas i n s t i t u i ç õ e s f a l i d a s e de seus v a l o r e s apodrecidos, Oswald de Andrade, a p a r t i r do f i n a l do 4Q a t é o 5Q quadro, e s t r u t u r a a p a r ó d i a das r e v o l u ç õ e s r u s s a s de

1905 e 1917.

Na peça d i z :

0 MESTRE DA BARCA - Chamem todas as p o l i c i a s do mundo, eu s a b e r e i r e v o l t á - l a s . Que s ã o os soldados s e n ã o explorados como n ó s ! <2,P.i70) Ora, i n c i t a r os m i l i t a r e s f o r a a t á t i c a dos i n s u r r e c t o s da R e v o l u ç ã o Russa de 1905. 0 d i a 22 de j a n e i r o de 1905* o "Domingo Sangrento", è considerado o c o m e ç o da R e v o l u ç ã o Russa. M i l h a r e s de o p e r á r i o s , conduzidos por um s a c e r d o t e chamado Gapon, vão a t é a p r a ç a do P a l á c i o de Inverno para e n t r e g a r uma p e t i ç ã o ao C z a r , r e i v i n d i c a n d o a n i s t i a , l i b e r d a d e s p ú b l i c a s , s a l á r i o decente, d e v o l u ç ã o gradual das t e r r a s ao povo

(17)

e a c o n v o c a ç ã o de uma A s s e m b l é i a C o n s t i t u i n t e , e l e i t a por s u f r á g i o u n i v e r s a l . Mas e i s que chegam as t r o p a s m i l i t a r e s , os c o s s a c o s , e se lançam sobre a m u l t i d ã o - mais de mil mortos e d o i s mil f e r i d o s .

Ai está o suporte i d e o l ó g i c o da f a l a do Mestre da Barca.

No 4Q quadro, A Barca de S ã o Pedro, o V a t i c a n o se torna a s í n t e s e de toda a sociedade burguesa, e s p a ç o c a t a l i s a d o r da sindrome c a p i t a l i s t a que f i c a sendo um àancing para os t r a b a l h a d o r e s , d i r i g i d o por C l e ó p a t r a , e n t r e a l t a r e s , hermas f a l a n t e s e

f o r n a l h a s . 0 status é abalado por tumultos, c o r r e - c o r r e . É a tomada da Barca de S ã o Pedro, o qual se manifesta a r e s p e i t o :

0 MESTRE DA BARCA - Súcia H«= l a d r õ e s . 0 vosso d i a c h e g a r á e bem p r ó x i m o . A vossa hora v i r á ! Há v i n t e anos que t r a b a l h o 14 horas por d i a sem a l m o ç a r . Para v o c ê s terem v i c i ó s e d o e n ç a s mentais. Estamos à v i s t a dos e s t a l e i r o s . Vou

l e v a n t a r os meus i r m ã o s . Somos m á r t i r e s e queremos l i b e r d a d e ! (...) 0 clamor do c a i s aumenta. G r i t o s e vozes s u b v e r s i v a s . ( 2 » P . 171) E s t a o p e r a ç ã o da tomada da Barca de São Pedro tem muito a ver com o e p i s ó d i o da i n s u r r e i ç ã o dos m a r i n h e i r o s do E n c o u r a ç a d o Potemkixn, em 1905.

Vejamos:

0 MESTRE DA BARCA - Marinheiros da v e l h a barca podre de S ã o Pedro, l e v a n t a i - v o s ! L e v a i o e s p i r i t o de "-pbelião ao fundo das f o r n a l h a s j onde t o r r a i s as vossas v e i a s para dar c o n f o r t o aos r i c o s ! Quebrai as v o s s a s c a d e i a s s e c u l a r e s .

0 tumulto redobra.

(18)

c a p i t a l i s t a * uni-vosJ Marinheiros e soldados a t i r a i c o n t r a os vossos o f i c i a i s ! Ouvem-se as p r i m e i r a s e s t r o f e s da Internacional entoadas pelo povo. <H,p. 180) (0 g r i f o è nosso) As d e r r o t a s do e x é r c i t o r u s s o na P r i m e i r a Guerra Mundial e a c r i s e s o c i o -e c o n ó m i c a * por qu-e passava a R ú s s i a , abalaram o s i s t e m a c z a r i s t a , fazendo e c l o d i r a guerra c i v i l que v a i f o r c a r Nicolau I I a a b d i c a r do poder. I n s t a u r o u - s e um Governo P r o v i s ó r i o que f o r a s u b s t i t u í d o , em j u l h o de 1917, por Kerensky» do p a r t i d o menchevique (0 P a r t i d o S o c i a l Democrata d i v i d i a - s e em bolchevique e mpnrkpvique. Os p r i m e i r o s , a m a i o r i a , eram m a r x i s t a s e defendiam a l u t a armada e a s o c i a l i z a ç ã o dos meios de p r o d u ç ã o , os segundos, os mencheviques, a m i n o r i a , visavam à i n t r o d u ç ã o do s o c i a l i s m o p a c i f i c a m e n t e -eram r e v i s i o n i s t a s dos p r i n c í p i o s m a r x i s t a s ) . I n s i s t i a m os mencheviques em c o n t i n u a r a guerra com a Alemanha, que já se i n i c i a r a .

A o f e n s i v a falhou e o r e s t a n t e do e x é r c i t o r u s s o f o i praticamente derrotado.

Dois l i d e r e s b o l c h e v i q u e s , d e f e n s o r e s da paz imediata com a Alemanha»

retornam à R ú s s i a e organizam a l u t a c o n t r a o governo de Kerensky. Eram e l e s Lênin e T r o t s k y . Houve a R e v o l u ç ã o , a c o n s o l i d a ç ã o do regime comunista por Lênin» os planos quinquenais e o Estado m o n o l í t i c o de S t á l i n .

E nesse contexto que v ã o s e r produzidos os 4Q» 5Q» 6Q e 7Q quadros de ü Homem g Q

Cavalo-A r e v o l u ç ã o e c l o d e :

S i n a i s . Foguetes de g u e r r a . H o l o f o t e s (...) uma voz (de um c o m í c i o no c a i s ) - Camaradas! A b u r g u e s i a subestima a nossa capacidade de v i v e r . Somos uma

(19)

c l a s s e què nasceu sob o c h i c o t e dos h o r á r i o s c a p i t a l i s t a s . Sabemos t r a b a l h a r ! Saberemos comer!

OUTRA VOZ - Abordar a barca Podre de São Pedro que submerge e faz á g u a ! Desmantelai a v e l h a sòc í e d ã d e ! (..*.)

S e r e i a s uivam. Ma cidade acende-se um c a r t a z luminoso ohde se lê! " P r o l e t á r i o s dé todo o mundo, u n i -vos". H o l o f o t e s . E s t r o n d o s . Bombas a é r e a s (..)

0 MESTRE (Aparecendo ao fuhdo e falando aos m a r i n h e i r o s ) - E s c u t a i a p a l a v r a dos vossos condutores*

(...) L e v a n t a i - v o s e l u t a i c o n t r a a guerra! Guerra à guerra i m p e r i a l i s t a ! (£,p. 173,5,8,80)

Mas S ã o Pedro» determinador do poder r e l i g i o s o c a p i t a l i s t a , reage aos

i n v a s o r e s da Barca» como reagiram os mencheviques ao poder r e v o l u c i o n á r i o dos b o l c h e v i q u e s ^

Diz SSo Pedro (tomando do seu a l t o f a l a n t e e d i r i g i n d o s e às massas -V o c ê s h ã o e s t ã o preparados para fcoinar o poder. P l e i t e a r e i hovas reformas s o c i a i s < *. -.)

A R e v o l u ç ã o a t i n g i u os f o r t e s . M á s ainda estamos Senhores da situação*. Por que ainda p o s s u í m o s a M a g i a e um dancing ( 2 , P . 177)

N ã o obstante, f e z - s e a r e v o l u ç ã o , e a soeiedade n a s c i d a da r e v o l u ç ã o e modelada por esta» segundo seus l i d e r e s , d e v e r á p e r m i t i r o desenvolvimento completo de cada

s e r i n d i v i d u a l e da sociedade na sua t o t a l i d a d e . Um modo de produção s o c i a l i s t a pretende marcar o fim de c o n t r a d i ç õ e s e n t r e a propriedade p r i v a d a dos meios de produção e o c a r á t e r cada vez mais s o c i a l das -forças produtivas, as quais e s t ã o sempre l i g a d a s às

(20)

rel a*aes de produção.

E n t r e e s s e s d o i s d o m í n i o s há uma c o n e x ã o tamanha que todo o desenvolvimento das f o r ç a s p r o d u t i v a s (maquinaria, t é c n i c a , o r g a n i z a ç ã o de processo de t r a b a l h o , c i ê n c i a ) t r a n s f o r m a r á as relações de produção e n t r e os homens na p r o d u ç ã o m a t e r i a l da sua e x i s t ênc i a .

0 6Q quadro de O Homem e o Cavala* A I n d u s t r i a l i z a ç ã o , i l u s t r a e s s e modo de

p r o d u ç ã o s o c i a l i s t a , utopicamente manifestado.

K a r l Mannheim d i z :

Um estado de e s p i r i t o è u t ó p i c o quando está em i n c o n g r u ê n c i a com o estado de r e a l i d a d e dentro do qual o c o r r e . E s t a i n c o n g r u ê n c i a é sempre e v i d e n t e pelo f a t o de que e s t e estado de e s p i r i t o na e x p e r i ê n c i a , no pensamento e na p r á t i c a se o r i e n t a para o b j e t o s que n ã o existem na s i t u a ç ã o r e a l . ( 1 4 , P . 2 1 6 )

Alguns personagens se tornam imagens-desejos p e l a perda da v i s ã o m a t e r i a l i s t a do u n i v e r s o , retomando o tom de todas a s u t o p i a s e as imagens de todos os sonhos n a s c i d o s da c i v i l i z a ç ã o i n d u s t r i a l .

E p r e c i s o sonhar! (...) Há desacordos e desacordos. Meu sonho pode u l t r a p a s s a r o curso n a t u r a l dos acontecimentos (...) No p r i m e i r o caso, o sonho n ã o produz nenhum mal. (...) 0 desacordo e n t r e o sonho e a r e a l i d a d e nada tem de nocivo s e , cada vez que sonha, o homem a c r e d i t a seriamente em seu sonho. (..) Quando e x i s t e contato e n t r e o sonho e a v i d a , tudo v a i bem. (13,p.132-133)

E s t e 6Q quadro, p r i o r i t a r i a m e n t e r e f e r e n d a um t e a t r o de i d é i a s , n a r r a t i v o , é p i c o , em que alguns personagens, com seus

(21)

c a r a c t e r e s e contextos» s ã o relegados a um plano s e c u n d á r i o . As vozes de Stálin e de E i s e n s t e i n representam mais que as a ç õ e s que e l e s poderiam desencadear ou que já teriam desencadeada - as suas f a l a s s ã o os a t o r e s d e l e s mesmos. A a u s ê n c i a dos corpos provoca um estranhamento na recepção» e assim redobra o poder do d i s c u r s o enunciado.

A I n d u s t r i a l i z a ç ã o » o s a l t o q u a l i t a t i v o se e s t a b i l i z a n d o » è a e r a da m á q u i n a sob o d o m í n i o do pantecnicismo que g r a s s a na i d e o l o g i a moderna e desencadeia o nascimento de uma sociedade ideal» c u j o d e s e j o i n t e n s o de se r e a l i z a r l h e d a r á forma.

Uma v i s ã o de um e s p a ç o p e r f e i t o aparece na p e ç a : a cena r e p r e s e n t a a entrada monumental da maior u s i n a do mundo soe i a l i s t a.

A VOZ DE STALIN - 0 s o c i a l i s m o è o poder dos s o v i e t s mais a e l e t r i f i c a ç ã o . E i s o testamento de L ê n i n . Novas c i d a d e s s a í r a m dos d e s e r t o s » das estepes» das p l a n í c i e s . Do s é c u l o da madeira passamos ao s é c u l o do motor e do

a ç o . A economia a g r i c o l a repousa agora sobre a base t é c n i c a da grande p r o d u ç ã o moderna. <2,p. 186)

Enquanto o p e r á r i o s a l e g r e s entram na usina» onde m á q u i n a s trabalham sempre, outros grupos de o p e r á r i o s f e l i z e s saem para d e s c a n s a r . E o sonho de toda u t o p i a que a n s e i a romper a ordem v i g e n t e . Ainda p e l a voz de S t á l i n , a f u t u r a sociedade r a d i a n t e surge na p e ç a :

VOZ DE STALIN - E d i f i c a r um novo mundo. Sobre as f á b r i c a s entregues aos t r a b a l h a d o r e s s u r g i u o entusiasmo da nova sociedade. Ê o patos da c o n s t r u ç ã o . <2,p.l87)

E a r e a l i z a ç ã o do sonho comunista: o modo de p r o d u ç ã o dos bens m a t e r i a i s p e l a s

(22)

forças produtoras e p e l a s r e l a ç õ e s de p r o d u ç ã o , determinando o aparecimento de numa sociedade s o c i a l i s t a i d e a l : o fim da magia, da r e v o l u ç ã o , de Deus, da h i p o c r i s i a , da p á t r i a d é s p o t a , ou como d i z a voz do personagem E i s e n s t e i n :

Eu vos apresento os documentos da t r a n s f o r m a ç ã o do mundo. (...) Nem b a n d e i r a s ao vento nem g r i t o s nem c a n h õ e s ! (...) Nem amor da p á t r i a nem Deus, nem a h i p o c r i s i a honesta (...) Nem o i n c ê n d i o da r e v o l t a nem a grande l u t a r e v o l u c i o n á r i a . (...) 0 fim da magia. 0 t r a t o r . Inaugura-se por toda a t e r r a c o l e t i v i z a d a a é p o c a do vapor e da e l e t r i c i d a d e .

(2,P. 189)

No 7Q quadro - A Verdade na boca das C r i a n ç a s - As três C r i a n ç a s e o M é d i c o fazem a c r i t i c a ao regime c a p i t a l i s t a e a e x a l t a ç ã o do mundo comunista.

A i a C R I A N Ç A - Defendam a h e r a n ç a . Por i s s o se batiam p e l a monogamia que se apoiava nas duas muletas do regimen - a p r o s t i t u i ç ã o e o •adul t è r i o . . .

A 3a C R I A N Ç A - 0 nosso Engel& d i s s e uma c o i s a estupenda a p r o p ó s i t o do c o m e ç o da monogamia e da e s c r a v i d ã o da mulher, que foram o a p a n á g i o da propriedade p r i v a d a ( . . . )

A E i CRIANÇA. - 0 que f o i que Engel s d i s s e ?

A i a C R I A N Ç A - Eu s e i . 0 homem venceu a mulher e e l a coroou a c a b e ç a do vencedor. (2,p. 195)

Negando a família burguesa, como i n s t i t u i ç ã o f a l i d a e todas a s suas i m p l i c a ç õ e s , uma nova família desponta: a família que é a sociedade s o c i a l i s t a , s u r g i d a com a r e v o l u ç ã o o p e r á r i a , i d e a l e u t ó p i c a .

(23)

m i s t e r i o s o na a p l i c a ç ã o p r á t i c a da c i ê n c i a s o c i a l . Não temos mais as desigualdades e as i n f â m i a s produzidas p e l a h e r a n ç a burguesa. Eliminamos com i s s o 90% das t r a g é d i a s s o c i a i s . Não temos mais a d u l t é r i o . Não temos p r o s t i t u i ç ã o . Eliminamos as neuroses, os a s s a s s i n a t o s , as d e p r a v a ç õ e s que eram o a p a n á g i o da b u r g u e s i a . A s í f i l i s desapareceu, a l o u c u r a se e x t i n g u i u . Fechamos as c a d e i a s . P o s s u í m o s 2.000 maternidades g r a t u i t a s . Temos 10.000 c r e c h e s . Colocadas ao lado das f á b r i c a s , dos l a b o r a t ó r i o s , da u n i v e r s i d a d e . Suprimimos a c o n t r a d i ç ã o e as l u t a s e n t r e o campo e a c i d a d e . Matamos o monstro empolado do urbanismo. Liquidamos o desemprego.

( 2 , P . 198)

0 8Q quadro, 0 T r i b u n a l , é uma c r í t i c a i n j u r i o s a , c á u s t i c a , ao c r i s t i a n i s m o ao desenvolver uma s e q u ê n c i a c o n t i n u a de p a r ó d i a s de alguns e x c e r t o s dos Evangelhos Segundo São Mateus, São Lucas e São J o ã o .

No ultimo quadro, Ò Estrataporto, as cenas ocorrem numa gare i n t e r p l a n e t á r i a na T e r r a S o c i a l i s t a .

Consolidada a r e v o l u ç ã o b o l c h e v i s t a e i n d u s t r i a l , os vencidos, no P a i s Vermelho, lamentam os seus d e s t i n o s esquecidos por Deus e impedidos de p a r t i c i p a r deste mundo novo, onde as viagens e s p a c i a i s se c o n c r e t i z a m . Quando, a f i n a l , parte o " í c a r o 3.007" para Marte, J ú p i t e r e S o l , S ã o Pedro e Mme. 1'Car ficam t r i s t e m e n t e em t e r r a para a b r i r uma vendinha, já que o pequeno c o m é r c i o é permit i d o .

(24)

A OPACIDADE DE A MORTA ( 4 )

Se, em O Rei da Vela, o b u r g u ê s c a p i t a l i s t a , Abelardo I , que c a p i t u l o u , è r e i n t e g r a d o p e l a sua a l t e r i d a d e Abelardo I I , l a t e n t e nas c l a s s e s dominantes, e se O Homem e o Cavalo, p e l a r e v o l u ç ã o b o l c h e v i s t a , c r i a

a i m a g i n á r i a sociedade u t ó p i c a da d i t a d u r a s t a l i n i s t a , A Morta, por sua v e z , neste contexto dramaturgico, v a i p r i v i l e g i a r a p r á t i c a constante da n e g a t i v i d a d e , i s t o é , o d i s c u r s o a p o c a l í p t i c o , d e s t r u i d o r da c u l t u r a burguesa. 0 1Q a t o , "0 P a i s do I n d i v i d u o " , é a n e g a ç ã o da a t i v i d a d e i n d i v i d u a l , da postura e g o i s t i c a , r o m â n t i c a , n a r c í s i c a , p r ó p r i a da sociedade burguesa; o 2Q a t o , "0 P a í s da G r a m á t i c a " , é a n e g a ç ã o da língua e s t r a t i f i c a d a , empedernida, c h e i a de c l i c h ê s , da e r u d i ç ã o l i n g u i s t i c a e da f a l t a de c o m u n i c a ç ã o ; e o 3Q a t o , "0 P a i s da A n e s t e s i a " , è também a n e g a ç ã o do a n t i g o , da o b s e s s ã o s e x u a l , atacando a perda da s e n s i b i l i d a d e , da c r i a t i v i d a d e e da soc iab i 1 idade.

Toda e s t a n e g a t i v i d a d e aponta para un d i s c u r s o novo que " s ó pode s u r g i r com o paradoxo que toma o c o n t r á r i o <e muitas vezes a p a r t e ) , a doxa c i r c u n v i z i n h a ou precedente; só pode nascer como d i f e r e n ç a , - d i s t i n ç ã o , destacando-se c o n t r a o que se c o l a a e l e " . ( 9 , p . 3 5 )

E a n e g a ç ã o dos elementos c o n s t i t u t i v o s da e s t r u t u r a s o c i a l .

VOCE - Como e quando se d ã o e s s a s t r a n s f o r m a ç õ e s ?

EU - A forma por que processam e s s a s m u d a n ç a s h i s t ó r i c a s já f o i estudada por mais de um exegeta. A s u p e r e s t r u t u r a da sociedade

( d i r e i t o , moral, forças e s p i r i t u a i s , l e t r a s e a r t e s ) passa

(25)

a n ã o mais corresponder à e s t r u t u r a

( f o r ç a s d i n â m i c a s , progresso t é c n i c o , índice d e m o g r á f i c o ) . E a derrocada dos sistemas dominantes se produz inexoravelmente. (3,p.2ó0 E a n e g a t i v i d a d e que se aproxima dos t e x t o s a n a r q u i s t a s de Bakunin e Kropotkin. Bakunin d i z : 0 p o s i t i v o e o negativo n ã o s ã o , em c o n s e q u ê n c i a , i g u a i s em d i r e i t o s , como o pensam os c o n c i l i a d o r e s : a c o n t r a d i ç ã o n ã o è um e q u i l í b r i o , mas uma p r e p o n d e r â n c i a do n e g a t i v o . 0 negativo é , portanto, o f a t o r dominante da c o n t r a d i ç ã o , determina a e x i s t ê n c i a do p o s i t i v o e e n c e r r a sò em s i a t o t a l i d a d e da c o n t r a d i ç ã o : é também e l e o ú n i c o que está a u t o r i z a d o , por d i r e i t o , de maneira a b s o l u t a . ( 8 , p . i l 7 )

A p a r t i r do 2Q a t o , a o p o s i ç ã o se faz notar p e l a p r e s e n ç a de d o i s grupos de personagens a n t a g ô n i c o s , engendrando a c o n t r a d i ç ã o : o Poeta e os Cremadores, opondo-se aos demais personagens, r e p r e s e n t a n t e s das c l a s s e s dominantes. Ê notória a o p o s i ç ã o , quando o P o l i c i a d i z :

POLICIA - 0 Mundo é um d i c i o n á r i o . P a l a v r a s v i v a s e v o c á b u l o s mortos. Não se atracam porque somos s e v e r o s vig i 1ant e s .

Fechamo-las em r e g r a s i n d i c u t i v e i s e f i x a s .

Fazemos mesmo que e s t e s que s ã o a serenidade tomem o lugar daqueles que s ã o a r a i v a e o ferimento. Fundamos para i s s o as

academias ... os museus...os cód i g o s . . .

0 TURISTA - E os v i v o s reclamam7

0 POLICIA - Mais do que i s s o . Querem que os outros d e s p a r e ç a m

(26)

-para sempre (...)

OS CREMADORES - Abaixo os mortos! Limpemos a t e r r a ! Abaixo!

0 POLICIA - De um tempo para c á , não s e i porque agravou-se a contenda. C r e i o que os v i v o s cresceram, agora querem se emancipar. Os mortos os agrilhoam à i n d ú s t r i a . E e l e s querem ocupar f á b r i c a s , cidades e o mundo... I n g r a t os. N ã o sabem que, sem os mortos, e l e s n ã o teriam

tudo, emprego, s a l á r i o s , a s s i s t ê n c i a . . . (4,p. 20)

A n e g a ç ã o dos v a l o r e s que formam a s u p e r e s t r u t u r a s o c i a l è muito c l a r a quando o T u r i s t a d i z :

0 TURISTA - E p a t r õ e s . Que s e r i a do mundo sem os p a t r õ e s .

0 POLICIA - E l e s querem queimar todos os c a d á v e r e s , os mais r e s p e i t á v e i s , os que fazem a f o r t u n a das empresas f u n e r á r i a s , mais dignas, como a imprensa, a p o l i t i c a .

VOZES AO FUNDO - Abaixo a autoridade dos o c i o s o s ! Abaixo! Queremos o verbo c r i a d o r da a ç ã o . . . ( p . 31)

0 Poeta de A Marta, na n e g a ç ã o dos f a l s o s v a l o r e s que redundam na f o r m a ç ã o de um pseudo-poeta, f a z r e s s u r g i r o poeta-novo,

i s t o é , aquele que na visão oswaldiana é o d e s t r u i d o r do i n d i v i d u a l i s m o achacante do homem s o c i a l , da língua e s t r a t i f i c a d a e de todos os v a l o r e s t o x i c a n t e s do s e r em a s c e n s ã o .

OS CREMADORES - Fora! Fora os exploradores da v i d a ! Limparemos o mundo!

BEATRIZ - Quem s ã o e s s e s d e s o r d e i r o s7

(27)

O POETA - É a Vanguarda чие l u t a p e l a l i b e r t a ç ã o humana. Mais à f r e n t r : 0 POETA - V i v e r e i no à g o r a . V i v e r e i no s o c i a l . L i b e r t a d o . ( 4 , P . 33) Além da n e g a ç ã o dos v a l o r e s j á mencionados] há a n e g a ç ã o dos v a l o r e s r e l i g i o s o s . Sob o dogma de que a i d e o l o g i a è um r e f l e x o das r e l a ç õ e s e c o n ô m i c a s , sob a d e t e r m i n a ç ã o do m a t e r i a l i s m o h i s t ó r i c o е nas pegadas de seu a t e í s m o , Oswald de Andrade f a z a p a r ó d i a da Queda е da Arvore da Vida:

A DAMA DAS C A M É L I A S - E s t a á r v o r e não tem sombra.

0 RADIO-PATRULHA - Gastou o que t i n h a em s e s s e n t a s ê c u l p s !

A SENHORA MINISTRA - Por чие a trouxeranv para c á ? . . .

0 HIEROFANTE - Е uma peça de museu. Como n ó s .

A DAMA DAS C A M É L I A S - F o i e l a que fez a queda do p r i m e i r o p a i .

0 HIEROFANTE - A queda... Quando o t r o g l o d i t a desceu da á r v o r e . . . c a i u . Е s e tornou o hpmem..,

Á DAMA DAS C A M É L I A S - É a á r v o r e da V i d a . . . (4,P,47

(•.-.>-A D(•.-.>-AM(•.-.>-A D(•.-.>-AS C (•.-.>-A M É L I (•.-.>-A S - Mas n ã o tem f r u t a s e s s a á r v o r e ?

0 HIEROFANTE - Tinha uma. Comeram. Foi com seus galhos que se acendeu o p r i m e i r o fogo...e com e l a toda se

fará a últinra f o g u e i r a . . .

A SENHORA MINISTRA - E n t ã o è uma i n c e n d i á r i a ? (...)

A DAMA DAS C A M É L I A S - Conte-nos a h i s t ó r i a da queda de A d ã o . . .

0 HIEROFANTE - Levou um tombo... Quando se levantou do s o l o e s t a v a c r i a d a a propriedade p r i v a d a . . .

(28)

Arvore que e l e despencou... (...)

A DAMA DAS C A M É L I A S - E n t ã o f o i um choque f i s i c o que produziu o homem? 0 HIEROFANTE - N ã o . F o i um choque e c o n ô m i c o . Caindo da á r v o r e e l e perdeu os f r u t o s com que se alimentava (4,p. 48)

De um choque e c o n ô m i c o , portanto, o homem perdeu os seus p r i v i l é g i o s e passou a v i v e r o c o n t e ú d o das m i t o l o g i a s , que é o alimento e s p i r i t u a l dos mortos, o s u s t e n t á c u l o das r e l i g i õ e s . A h i s t ó r i a da queda de A d ã o é a h i s t ó r i a da burguesia c a p i t a l i s t a , detentora da propriedade p a r t i c u l a r que só será r e c h a ç a d a pela d e s t r u i ç ã o da Arvore da Vida, obra do Poeta, o redentor do mundo morto, a t r a v é s do fogo p u r i f i c a d o r .

0 fogo p u r i f i c a d o r , l i b e r t a d o r , sugere o d e s e j o de mudar, de p r e c i p i t a r , de interromper a v i d a ; desperta o i n s t i n t o de v i v e r ou de morrer. No â m a g o do fogo, a morte pode n ã o s e r a morte, mas s i m b o l i z a r , p e l a d e s t r u i ç ã o , a m u d a n ç a , a r e n o v a ç ã o .

0 POETA - R e c o n h e ç o - t e , empresa f u n e r á r i a !

Na m a t é r i a do meu c é r e b r o ficará o t e u e p i t á f i o .

Nunca mais! (Toma do facho e c o m e ç a a i n c e n d i a r a Arvore da V i d a ) . N ã o mais e s t e s simbolos d i a l é t i c o s do sexual p e r t u r b a r ã o a marcha do homem t e r r e n o . Foge ave do P a r a í s o ! ( 4 , P . 55)

E a d e s t r u i ç ã o , pelo fogo, do pecado o r i g i n a l , mas o poeta è o s e r capaz de transformar o u n i v e r s o e em c u j a s mãos está a s a l v a ç ã o do mundo, passa o facho aceso ao corpo de B e a t r i z e conclama:

0 POETA - Todo o m i s t é r i o será a c l a r a d o .

(29)

-Basta que o homem queime a p r ó p r i a alma!

E, num ato h e r ó i c o : Flamba tudo. (4,p. 56)

E p r e c i s o d e s t r u i r tudo» p o i s o s í m b o l o d i a l é t i c o do fogo è aqui redentor e d i n â m i c o , capaz de reacender de suas c i n z a s a chama de um novo mundoj gerador de sociedades mais j u s t a s .

Mas não obstante tudo i s t o , há a e x p e c t a t i v a burguesa de que algo muito morto escape da f o g u e i r a u t ó p i c a do Poeta, p o i s o H i e r o f a n t e , s a c e r d o t e de E l ê u s i s , que t i n h a a seu cargo a i n i c i a ç ã o dos n e ó f i t o s e a i n t e r p r e t a ç ã o dos m i s t é r i o s e c o i s a s s a g r a d a s , e portanto símbolo do conservador e r e p r e s e n t a n t e da t r a d i ç ã o , dos dogmas e da ordem e s t a b e l e c i d a , personagem que e s t r a t i f i c a toda a i d e o l o g i a p o l í t i c a , a moral, a r e l i g i ã o burguesa, simbolizada pelos mortos nos t e x t o s , e o mentor, do sintagma Deus, P á t r i a , F a m í l i a , aproximando-se da p l a t é i a , a p e l a :

HIEROFANTE - R e s p e i t á v e l p ú b l i c o ! Não vos pedimos palmasi, pedimos bombeiros! Se quiserdes s a l v a r as vossas t r a d i ç õ e s e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se p r e f e r i r d e s a p o l i c i a ! Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado! S a l v a i nossas p o d r i d õ e s e t a l v e z vos s a l v a r e i s da f o g u e i r a acesa do mundo! (4,p. 56)

Vimos que em O Rei da Velat houve o t r i u n f o do c a p i t a l sobre o t r a b a l h o , ocorrendo o i n v e r s o em O Homem e o Cavalo, p o i s toda a conduta " m a t e r i a l i s t a " , " c i e n t i f i c a " , c r i t i c a que p e r c o r r e o p r i m e i r o momento é desviada para um s o c i a l i s m o mitigado, onde a s o l u ç ã o , não obstante a sociedade c a p i t a l i s t a , f o i a r e v o l u ç ã o que no e s t á d i o s e g u i n t e da peça se manifesta em

(30)

estado i d e a l . P e l a n e g a ç ã o da micro-e s t r u t u r a » a socimicro-edadmicro-e b r a s i l micro-e i r a dmicro-e O Rmicro-ei da Vela, Oswald c r i o u a macroestrutura s o c i a l -o estad-o "c-omun-o-stal in i st a" de O H-omem e -o Cavalo, com toda a t e c n o l o g i a que lhe d e v e r i a s e r p r ó p r i a . E i s que uma outra n e g a t i v i d a d e se i n s t a u r a , e constatamos em A Horta a d e s t r u i ç ã o de todos os v a l o r e s humanos r e t r ó g r a d o s , p a s s a d i s t a s , i n d i v i d u a l i s t a s e r e l i g i o s o s . Ocorre, em A Morta, a c r i a ç ã o do u n i v e r s o a n a r q u i s t a , detentor do a p o c a l í p t i c o regenerador do topos p o é t i c o : a l i b e r d a d e l i b e r t á r i a , s e j a na i d e o l o g i a ou na c o n t r a -i d e o l o g -i a , s e j a optando por "esquerdas" ou " d i r e i t a s " , " t r a n s v e r s a i s " ou " v e r t i c a i s " . 0 Poeta é o élan de qualquer e s t r u t u r a que se manifesta em A Morta. N ã o é poeta passivamente l í r i c o , mas o poeta s o l i d á r i o , combativo, transformador.

REFERENCIAS B I B L I O G R Á F I C A S

1. ALTHUSSER, L. Marxisme et l u t t e de c l a s s e s . I n : . Fositions.Par is: Hachete, 1976

2. ANDRADE, 0. de. ü homem e o cavalo. Rio de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1978.

3. ANDRADE, 0. de. Meu testamento. I n : Do Pau Brasil à antropofagia e às utopias. Rio de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1978.

4. ANDRADE, 0. de. A morta. Rio de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1978.

5. ANDRADE, 0. de. O Rei da Vela. R i o de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1973.

(31)

6. ANDRADE, O. de. Te 1efonemas. Rio de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1970. 7. ANDRADE FILHO, 0. de Quem è o Rei da

V e l a . I n : . Dia seguinte e outras dias. (Inédit o ) .

8. BAKUNIN, M. A reação na Alemanha. L i s b o a : A s s i n o & Alvim, 1976.

9. BARTHES, R. Escritores, intelectuais, professores. L i s b o a : P r e s e n ç a , 1975.

10. ENGELS, F . Do socialismo utópico ao socialismo.São Paulo: G l o b a l , 1985.

11. ENGELS, F . Origem da familia, da propriedade privada e do Estada. R i o

de J a n e i r o : C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a , 1984.

12. KRISTEVA, J . Introdução à semana 1ise.São Paulo: P e r s p e c t i v a , 1974.

13. LCNIN. Oue fazer. S ã o Paulo: H u c i t e c , 1976.

14. MANNHEIM, K. Ideologia e utopia. R i o de J a n e i r o : z a h a r , 1982.

15. MARX, K . , ENGELS, F. A ideologia alemã. L i s b o a : Avante, 1981.

16. MARX, K. , ENGELS, F . Sobre literatura e arte. S ã o Paulo: G l o b a l , 1979.

17. RISERIO, A. Pagu: v i d a - obra, obra v i d a . I n : CAMPOS, A. de. Pagu. S ã o Paulo: B r a s i l i e n s e , 1982.

Referências

Documentos relacionados

Quando contratados, conforme valores dispostos no Anexo I, converter dados para uso pelos aplicativos, instalar os aplicativos objeto deste contrato, treinar os servidores

Dada a plausibilidade prima facie da Prioridade do Conhecimento Definicional, parece que não se poderia reconhecer instâncias de F- dade ou fatos essenciais acerca

Um novo produto lançado no merca do consumidor, conhecido po r RIPERCOL INJETAvEL (Clori drato de Tetramizol a 10 % ), foi então empregado com a finalidade de tentar-s e o controle

Facilidade global de minimização do resíduo é diretamente proporcional ao somatório dos pesos das perguntas cuja resposta é &#34;SIM&#34;, multiplicado ou dividido pelo índice

A PRÓ-SAÚDE - Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, entidade sem fins lucrativos, denominada como Organização Social vem através deste, demonstrar o resultado

A Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Contabilidade (PPGCC) e a Comissão de Pós-Graduação da FEA-RP/USP tornam pública a abertura de inscrições

RESULTADOS DOS TRÊS PROJETOS MUNICIPAIS APOIADOS PELO PROGRAMA LIFE: PIGS – Projeto Integrado para Gestão de. Suiniculturas (2000-2003), REAGIR – reciclagem de Entulho no Âmbito

Foi realizado um ensaio na região de Campo Verde - MT para avaliar a influência da seqüência de fungicidas no controle da ramulose, na variedade DP-4049, em 3 e 4 aplicações,