• Nenhum resultado encontrado

Com essas Palavras Maria Orientou Seus Corações para o Bem (Ev. de Maria 9,19)

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Com essas Palavras Maria Orientou Seus Corações para o Bem (Ev. de Maria 9,19)"

Copied!
23
0
0

Texto

(1)

SANDRO GALLAZZI

COM ESTAS PALAVRAS MARIA ORIENTOU SEUS CORAÇÕES

PARA O BEM (Ev. de Maria 9,19)

A

o redor do ano 50 e pela forte influência de Paulo, de Priscila e das ekklesias da Ásia, o movimento de Jesus se constituiu em dezenas de pequenas ekklesias de irmãs e irmãos que se reuniam para celebrar a memória de Jesus, por eles conhecido e proclamado Senhor e Ungido, e vivenciar uma fraternidade construída sobre a igualdade e a solidariedade.

A imagem central que visualiza esta proposta é a imagem do único corpo do qual Jesus é a cabeça.

Esta alegoria coloca em destaque três dimensões comuns a todas as ekklesias. São ekklesias onde as relações são igualitárias e não hierárquicas; são ministeriais e não autoritárias; são laicas e não sacerdotais.

Resumo: ao longo de seis anos, entre 64 e 70 ec, importantes acontecimentos

obri-garam as comunidades cristãs a tomar decisões significativas: a perseguição de Nero, a revolta zelote, o início da escola rabínica de Jâmnia e a destruição de Jerusalém obrigaram as comunidades a tomar posição diante do império romano. Algumas comunidades permaneceram firmes no testemunho do evan-gelho até à morte sabendo que não se pode servir a dois senhores. Outras buscaram se conformar com a mentalidade comum para poder ter uma vida sossegada. Outras ainda se concentraram na experiência espiritual do conhe-cimento da verdade e ignoraram completamente o império. Neste ensaio buscaremos conhecer estas posições diferentes e, de maneira especial, iremos ver qual o papel que as mulheres tinham em cada uma delas.

(2)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 5656565656 Esta é a obra do Espírito, esta é vida do Reino a ser ensaiada entre nós. Esta vida é só o que vai sobrar quando desaparecerem a profecia, as lín-guas, a ciência e até desaparecerem a fé e a esperança. O que vai sobrar é somente a agape, o amor de Deus para conosco e entre nós (1Cor 13).

Ekklesia é muito mais um “movimento no Espírito” do que uma

institui-ção. O Espírito é a vida do Corpo de Cristo: é ele que derrama o amor de Deus em nosso coração (Rm 5,5).

Depois, em 64, veio a perseguição do imperador Nero; em 66 veio a revolta dos zelotes contra Roma; em 68 vieram os rabinos que, com o apoio de Roma, abriram a escola de Jâmnia e. em 70, veio a destruição de Jerusalém pelas legiões romanas de Tito.

Em cinco ou seis anos mudaram, radicalmente, as relações com o império romano: judeus e cristãos foram obrigados a se confrontar com esta nova realidade.

Aos poucos vieram aparecendo diferenças que viraram verdadeiras diver-gências e provocaram fortes tensões e conflitos.

Foram tensões com a sociedade envolvente: qual deve ser a relação com o império romano? E tensões internas: quem é o verdadeiro discípulo de Jesus que nós devemos seguir?

Nas últimas décadas do primeiro século e ao longo do secundo século, estes debates produziram textos divergentes e, podemos até dizer, antagô-nicos. Teremos que usar o plural e falar de cristianismos.

O IMPÉRIO PERSEGUE OS CRISTÃOS

O historiador romano Tácito nos conta como se deu a primeira persegui-ção cruenta contra os cristãos, nos tempos do imperador César Nero

Para fazer calar os rumores relativos ao incêndio de Roma, Nero designou como acusados, indivíduos detestados por causa de suas abominações, a quem o povo chamava cristãos, O nome lhe veio de “Chrestos” que, sob o reinado de Tibério, fora entregue ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida por momentos a execrável superstição transbordou novamente não apenas na Judéia, berço do flagelo, mas em Roma para onde aflui tudo que se conhece de mais atroz e infame. Prenderam primeiro os que confessavam a fé e, em seguida, por indicação destes, prenderam um multidão de outros, acusados não tanto de terem posto fogo na cidade, mas de

(3)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 57 57 57 57 57

odiarem o gênero humano. Sua execução foi acompanhada por escárnios: assim alguns cobertos de peles de animais, eram dilacerados pelos dentes dos cães; outros, cravados em cruzes, eram queimados ao cair do dia à guisa de tochas noturnas (ANNALES, XV, 44).

O texto de Tácito reflete as acusações que eram feitas aos cristãos: abomi-nações, superstição, ódio ao gênero hu-mano. Eles eram acusados de serem ateus, uma vez que deixavam de participar das festas religiosas romanas, não iam ao teatro ou ao circo e dificultavam o casamento com quem não fosse cristão.

Além disso, os cristãos celebravam um culto à parte não permitindo a par-ticipação dos demais, o que criava certo ar de mistério em torno deles. Da idéia de costumes diferentes se evoluiu para a idéia de cos-tumes desuma-nos. Foram acusados de praticarem abominações e infâmias (flagitia), uma vez que, em suas reuniões secretas, os cris-tãos praticariam ritos de assassínio de crian-ças, seguidos de caniba-lismo (comer a carne e beber o sangue) e se uniriam incestuosamente em orgias (formar um só corpo, ser membros uns dos outros). A acusação de ser ateu era gravíssima. Em Roma, assim como na Grécia, a

“polis”, a cidade se fundava sobre a religião. A religião era uma fun-ção do estado, desempenhada por homens especialmente designados para isto. O culto formava o laço de união e dava coe-são a toda a sociedade. Assim como o altar doméstico con-gregava em torno de si os membros de uma família, do mes-mo modo a cidade era a reu-nião dos que tinham os mes-mos deuses protetores e cumpriam o ato religioso no mesmo altar. Era o que os romanos chamavam de “piedade” (pietas). Renegar os deuses era não somente uma apostasia, mas uma traição à prática, pois o ato religioso era um ato cívico. Por isso, Roma mostrava-se tolerante para com os deuses dos povos por ela

subjugados. O princípio desta tolerância era a consideração de que cada povo, cada cidade, tinha seus próprios deuses; a conquista ou a anexação a Roma do território significava a anexação, também de sua religião. Exigia-se, porém, de todos, um mínimo de conformis-mo com a religião romana.

O judaísmo era considerado religião lícita por ser uma religião nacional e por celebrar, todo dia, um culto a Deus em favor do imperador. Tertuliano, teólogo cristão, observa que foi à sombra do judaísmo que o

(4)

le-, Goiâniale-, v. 7le-, n. 1le-, p. 55-77le-, jan./jun. 2009 5858585858 gislação vigente. A situação mudou quando, aos olhos da autoridade romana, ficou clara a distinção entre judaísmo e cristianismo. Quanto aos cristãos, espécie de homens afeitos a uma superstição nova e

maléfica, infligiram-se-lhes suplícios (Suetônio: vida dos doze Césares) Tratava-se de algo novo e não antigo como o judaísmo. Era “uma superstição nova e maléfica” que aparecia no Império, com uma missão universal de reunir todos os homens na mesma fé, atingindo, assim, a religião do estado, fundamento ideológico da grandeza do Império Romano. Otáviano, o iniciador do império, introduzirá a divinização do imperador.

O imperador era o sumo sacerdote, o pontífice máximo do culto imperial e, com o tempo, passou a ser chamado de augusto, divino, sol invicto, senhor e deus. A divinização do Imperador tinha por finalidade fortalecer a coesão de todo o império. O culto do impera-dor tornou-se o denominaimpera-dor comum para todos os habitantes do vasto império.

O cristianismo foi considerado não apenas religião ilí-cita, mas associação

ilícita (collegium illicitum). Quem formava uma associação não

per-mitida ou fora da lei cometia um crime equiparado à lesa-majestade, para o qual a lei romana não conhecia abrandamento possível no rigor de sua condenação.

O cristianismo foi proscrito por Nero sob a acusação de superstição ilícita

(superstitio illicita), tornou se religião ilícita (religio illicita). Não se

sabe ao certo como se estabeleceu juridicamente esta proscrição. Tertuliano diz que Nero decretou uma lei cujo teor teria sido este: não é lícito ser cristão. O fato é que o cristianismo passou a ser con-siderado legalmente criminoso.

Por volta do ano 112, Plínio, o Moço, governador da Bití-nia, consultou o imperador Trajano a respeito da atitude que devia ter com relação aos cristãos. Trajano respondeu com um rescrito que se tornou a jurisprudência seguida du-rante um século. Substancialmente ele declarava:

• a autoridade governamental não deve tomar a iniciativa das perse-guições, ela não tem que procurar os cristãos;

• os que forem denunciados e declararem não ser cristãos, ou não sê-Io mais (apostasia), manifestando-o por um ato de culto aos deu-ses, serão absolvidos;

• aqueles que confessarem seu cristianismo serão condenados; • não se devem aceitar delações anônimas..

(5)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 59 59 59 59 59

Adriano, em 124, deu mais algumas prescrições: só se-rão aceitas denúnci-as com provdenúnci-as, não através de aclama-ções e gritos; e se alguém acu-sar caluniosamente deve ser castigado.

Era, portanto um crime ser cristão. Mas um crime especial, pois aqueles que o cometiam não deviam ser pro-curados; mas, como o simples fato de ser cristão infringia a lei, se alguém fosse acusado e confessas-se, devia ser cas-tigado. Porém não de modo absoluto, porque se renegasse a sua fé estava automaticamente absolvido: para isso bas-tava uma palavra e alguns gestos.

Com Septímio Severo, em 202, iniciou-se um novo regi-me, seguido por vários de seus sucessores: a autoridade pú-blica assume a iniciativa de per-seguições. A regra de Trajano – os cristãos não devem ser procurados – foi abandonada. Começava a era das perseguições por editos (decretos).

Do início do século III ao início do sé-culo IV, a Igreja sofreu o choque de explosões bruscas e violentas, uma violência sempre crescente. NÃO PODEIS SERVIR A DOIS SENHORES

Muitos foram os mártires.

Diante da perseguição, se firmou um cristianismo de resistência que pode-mos chamar de evangélico ou profético.

Alimentando a fidelidade a Jesus, único Senhor e ao projeto de ekklesias laicas, igualitárias e ministeriais, encontramos os textos dos quatro evangelhos canônicos; neles e, sobretudo no evangelho de João, a palavra agape é central para determinar as relações entre os crentes1.

Nos evangelhos canônicos, a relação com império e com seus poderosos aliados é, decididamente, conflitual. O confronto e a perseguição são realidades inevitáveis para quem segue Jesus. Poderíamos, aqui, citar uma longa série de textos que evidenciam esta proposta de cristianismo. Não é preciso, pois creio que não haja dúvidas a este respeito: o “evangelho” é o Jesus crucificado, verdadeira e inequívoca revelação do filho de Deus. Não é possível dissociar o “filho de Deus” do “filho do homem”2 que deve enfrentar Jerusalém e seus poderes, ser condenado à morte como blasfemador e subversivo e, depois de três dias, ressuscitar. A comunidade dos crentes é “testemunha” deste evangelho, mesmo sabendo que, por isso, será perseguida.

(6)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 6060606060 Baste para consolidar esta reflexão, a síntese operada por Mateus no início

do “sermão da montanha”, nas “bem-aventuranças”.

A primeira e a última bem-aventurança dizem a mesma coisa, são uma o verso da outra, os dois lados de uma mesma moeda: o Reino dos céus é dos pobres no Espírito, é dos que são perseguidos por causa da justiça.

Os pobres no Espírito são os que buscam em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça; os que não têm outra preocupação, que nada põem antes da justiça do reino de Deus.

Uma justiça que provoca a perseguição não pode ser sublimada ou idealiza-da; não pode ser reduzida a algo meta-histórico, celestial, espiritualista. É a justiça de quem crê que o Reinado de Deus já chegou e age de consequência.

O próprio Mateus se encarrega de nos fazer entender o que é a justiça, apontando rumos, indicando métodos. As outras seis bem-aventuran-ças são a concretização da justiça. Por isso estão ao futu-ro, porque isso ainda não aconteceu.

Justiça é fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que este futuro se trans-forme, aos poucos, em presente. Justiça é sofrer perseguição porque queremos que os mansos possuam a terra; que os que choram sejam consolados; que os que têm fome e sede de justiça sejam sacia-dos; que a lógica da misericórdia, da pureza no coração e da paz, seja a que governa a nossa vida, a nossa história, as nossas relações. Vamos ser perseguidos, sim, porque ainda hoje, tem muita gente que não

quer entregar a terra aos pequenos; que não quer que os que choram sejam consolados; que não quer saciar a fome de justiça do povo; que considera a maior ilusão agir segundo a lógica da misericórdia, da pureza no coração e da paz.

Daí a perseguição. Inevitável. A cruz não é um acidente no caminho do pobre no Espírito: é o sinal de fidelidade à memória de Jesus e ao seu projeto.

Querer eliminar a perseguição é querer eliminar a ação do Espírito. É in-ventar nossa própria es-piritualidade.

Espiritualidade é deixar-nos conduzir pelo Espírito. E ele, sempre, nos conduz ao calvário, porque cremos, apesar de todo projeto neo-liberal, que a terra pertence aos pobres. Cremos, apesar de todo sacrifício imposto pelo mercado, que ninguém tem que chorar. Cremos, apesar do tri-unfo do capitalismo, que ninguém deve continuar com fome e sede

(7)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 61 61 61 61 61

de justiça. Cremos, apesar das forças internacionais da ONU/EUA, que a misericórdia e a paz são a lógica das nossas relações. Cremos, apesar de todo consumismo idolátrico, que a pureza no coração é que vem de Deus.

Cremos, e por isso damos a vida!

Por isso a conclusão: Felizes vós, quando vos amaldiçoarem, vos persegui-rem, mentirem maldosamente contra vós, por causa de mim... Este é o ponto de chegada de todas as bem-aventuranças. Todas elas se

re-sumem, agora nesta: Felizes vós quando sois perseguidos. O testemunho de Lucas confirma o de Mateus: “Felizes vós quando vos

perseguirem [...] ai de vós quando não vos perseguirem...” (Lc 6, 22.26)

A perseguição distingue o verdadeiro, do falso profeta.

Neste contexto de resistência à lógica imperialista, sem medo da persegui-ção, os evangelhos canônicos, vão buscar a memória de Jesus como fonte da vida nova e alternativa que deve caracterizar as comunida-des cristãs.

Não deve, então, nos surpreender o espaço que os evangelhos canônicos dão às mulheres na vida e no grupo de Jesus, colocando em destaque sua dignidade e afirmando seu protagonismo.

As mulheres são, sempre, figuras centrais nas narrativas evangélicas: seus gestos de fé e seu profundo amor serão apresentados como referencial para as comunidades dos crentes. Bem mais do que os próprios após-tolos, muitas vezes censurados por sua fé escassa e fraca.

No momento em que os homens, com medo, fogem, abandonando Jesus, as mulheres serão as únicas testemunhas da sua morte e da sua ressur-reição. Únicas, entre todos os discípulos, elas vivenciam totalmente o que o livro dos Atos estabelece como os critérios necessários para pertencer ao grupo dos doze:

Os que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição (At 1,21-22).

Durante três dias, os discípulos homens não conviveram com o Senhor Jesus. Na hora da perseguição eles fugiram.

(8)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 6262626262 discípulas e discípulos, falará das mulheres, dizendo às comunidades que só elas “o seguiram, o serviram, quando estava na Galiléia e subi-ram com ele a Jerusalém” (Mc 15,41).

PARA QUE TENHAMOS UMA VIDA QUIETA E SOSSEGADA Nem todas as ekklesias, porém, estavam prontas a continuar vivendo

rela-ções de conflito com o império romano.

Também os rabinos fariseus, reunidos em Jâmnia com a autorização de Roma, depois da destruição de Jerusalém, procuraram repensar o judaísmo buscando a convivência pacífica com o império. Num si-nal evidente desta disposição, os mestres de Jâmnia eliminaram do cânon sagrado toda a abundante literatura apocalíptica, baseada em “novas” revelações, escritas e guardadas nas tábuas celestiais e, só agora, reveladas. Esta subversiva “revelação” garantia a chegada do Reino de Deus para os “eleitos”, depois da destruição de todas as nações inimigas. Em Jâmnia tudo o que podia ser lido como anti-romano foi deixado de lado.

Algo parecido acontece, também, com algumas comunidades cristãs, traumatizadas pela violenta e cruel perseguição de Nero. Este clima de rejeição é presente na 1ª carta de Pedro: “os que ultrajam o vosso bom comportamento em Cristo” (1Pd 3,17); “quem sofre como cristão não se envergonhe” (1Pd 4,15).

Estes fatos fizeram com que alguns cristãos, sobretudo em Roma, sentissem a necessidade de fazer com que o cristianismo fosse considerado uma

religio licita, para evitar as perseguições e para poder ter o direito ao

culto público.

As cartas pós-paulinas (1 e 2 Timóteo e Tito) trazem o esboço deste novo caminho de ekklesia com características bem diferentes das ekklesias paulinas. Um modelo de cristianismo que se tornará hegemônico ao longo dos tempos.

Poderíamos dizer que, a partir destas cartas, a ekklesia – e aqui já podemos usar o singular - está passando de movimento no Espírito para uma “religião” constituída regularmente com as dimensões próprias de todas as religiões: uma doutrina, uma estrutura, um rito, uma lei. A ekklesia está se transformando na igreja que conhecemos.

Esta igreja pretende conviver com a sociedade imperial contemporânea, em paz com as autoridades e evitando provocar reações adversas.

(9)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 63 63 63 63 63

O que é bom e agradável diante de Deus nosso Senhor é orar “pelos reis, e por todos os que têm autoridade, para que tenhamos uma vida quie-ta e sossegada, em toda a piedade e dignidade” (1Tm 2,2-3). Só havia uma maneira de não provocar reações adversas: deixar de viver de

forma “diferente”, evitando, sobretudo, de subverter as “normais” relações de governo que sustentavam a sociedade greco-romana. Por isso, os cidadãos deviam “ser submissos aos magistrados e às

autorida-des, ser obedientes e estar sempre prontos para qualquer trabalho bom” (Tt 3,1).

Por isso as mulheres deviam ser “moderadas, castas, boas donas de casa, submissas aos seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tt 2,5).

Por isso “todos os servos que estão debaixo do jugo considerem seus patrões dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1Tm 6,1)

É preciso viver de maneira a não provocar as reações dos adversários (1Tm 5,14; Tt 2,8) e ter, assim, uma vida sossegada.

Esta necessidade tornou-se ainda mais premente depois da guerra judaica. Os cristãos fizeram de tudo para não ser mais identificados como um movimento dentro do judaísmo, para não sofrer ulteriores retalia-ções.

Só no IV século o cristianismo será oficialmente reconhecido, por Constantino, como religio licita, mas a semente começou a ser plantada desde o fim do primeiro século.

Para ser considerada religio licita, como vimos, eram necessários três ele-mentos essenciais: doutrina, organização e piedade.

É disso que tratam as cartas a Timóteo e a carta a Tito: a didaskalia, a doutrina, a instrução; o proistemi, o governar, presidir; a eusebeia, a piedade, a religiosidade. São palavras quase exclusivas das cartas pas-torais3 e constituem os assuntos centrais das mesmas.

A doutrina, única e intolerante com tudo que era diferente, substituirá, aos poucos, o evangelho que, por sua vez, quase sempre, será reduzido a uma doutrina e suas palavras serão usadas nas grandes polêmicas cristológicas que só terminarão com os concílios realizados com a autorização imperial, depois que o cristianismo será reconhecido como religião lícita pelo imperador Constantino.

As relações de governo substituirão aos poucos, as relações igualitárias e fraternas que eram a características das ekklesias paulinas

(10)

persegui-, Goiâniapersegui-, v. 7persegui-, n. 1persegui-, p. 55-77persegui-, jan./jun. 2009 6464646464 das. Os serviços precisam ser identificados, oficializados e institucionalizados. Os ministérios proféticos e carismáticos perdem espaço e passam a ocupar lugares secundários4. As relações passam a

ser, assim, relações de “governo”, como na sociedade imperial greco-romana5.

Os anciãos constituem uma instância organizativa: formam o “presbité-rio”. A de supervisor/epíscopos, por sua vez, é tarefa de uma pessoa. Seja como for, é evidente que as cartas pastorais, no fim do 1º século, nos falam de uma organização constituída e que deve “regular” a vida da comunidade (Tt 1,5).

Era tudo o que a sociedade greco-romana considerava “normal”. Evidente-mente, estas atitudes não iriam provocar reações negativas, pois não iriam incomodar ninguém, a não ser, eventualmente, os que deviam continuar “submissos”. Como sempre, na história, religio licita é a religião a serviço do poder.

Nas cartas pastorais a piedade6 ocupa o lugar central que a agape tinha nas

cartas de Paulo e terá nos escritos de João. Podemos dizer que, de certa maneira, a piedade substitui a agape.

É famosa a afirmação de Cícero: “a piedade é o fundamento de todas as virtudes”.

É importante compreender, então, as dimensões da piedade/eusebeia no mundo greco-romano.

O verbo grego sebomai que está na raiz do substantivo eusebeia indica reve-rência, respeito, retirar-se diante de alguém, “saber qual é o meu lu-gar”. Este conceito define a maneira própria da religiosidade dos gregos: é uma mescla de temor, maravilha, espanto sagrado provocado por uma “majestade” presente nas coisas, nas divindades e nas pessoas. Por isso a veneração religiosa pode ser dirigida a diversos objetos: pátria, território, sonhos, pais, defuntos, heróis e, sobretudo, aos ordenamentos por estes estabelecidos7.

Lealdade e obrigação. Estas são as características da piedade do mundo greco-romano.

A piedade deriva da obrigação de aceitar, obedecer e respeitar um vínculo que não pode ser quebrado: é uma relação necessária e imutável pela qual eu sou obrigado a uma lealdade indiscutível.

Por isso a piedade comporta, necessariamente, a aceitação da submissão fiel e leal a alguém ao qual devo tudo: aos pais, aos deuses, ao patrão, ao

(11)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 65 65 65 65 65

estado. É o respeito e a veneração pelos valores da tradição, pela reli-gião, pelos governantes e pelos antepassados8.

Neste contexto podemos entender muito bem porque a igreja só pode al-cançar uma vida calma em “toda piedade” se reverenciar e orar pelos reis e por todos os que têm autoridade (1Tm 2,2).

Piedade é também a atitude dos escravos em relação aos seus patrões (1Tm 6,1-4). Piedade é a família tomar conta de suas viúvas (1Tm 5,4). Piedade é o centro da vida cristã:

“Exercita-te a ti mesmo para a piedade” (1Tm 4,7). “A piedade é de fato grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar” (1Tm 6,6). Para as cartas pastorais, a lealdade submissa à doutrina, às instituições e às autoridades, é a virtude principal e a característica fundamental da

ekklesia. As outras virtudes – típicas, também, do ambiente estóico

-servem de corolário para que o homem de piedade seja exemplar, aceito e estimado por todos e sua fé possa ser vivida nos parâmetros da religião lícita.

As cartas pastorais são a expressão de uma igreja que decidiu que não irá mais incomodar ninguém, conformando-se à lógica do governo (arqhe), mesmo que seja sacerdotal (hieros), à lógica da hierarquia.

A proposta de igreja que nasce das cartas pastorais será confirmada pela Carta de Clemente Romano aos Coríntios e, definitivamente, consa-grada nas cartas de Inácio de Antioquia e em grande parte dos escri-tos dos padres apostólicos.

Quase dois séculos mais tarde, bem antes de Constantino, o papa Cornélio afirmará em claras letras: Boni christiani, boni cives romani9.

O espaço das mulheres, neste modelo de igreja, fica fechado.

Durante a instrução a mulher conserve o silêncio, com toda subordinação. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve pois o silêncio (1Tm 2,11-12).

Já não se trata de um caso polêmico de falar em línguas, como em Corinto. Aqui o silêncio se dá durante a instrução, a normal atividade da co-munidade, antes sempre aberta às mulheres. E, ainda mais, o silêncio é imediatamente associado à subordinação. Na comunidade ela deve ficar subordinada. Vale ressaltar o binômio – que será típico de uma certa compreensão de magistério – ensinar = dominar. Este serviço será exclusivo dos homens.

(12)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 6666666666 Também, não se trata de uma norma de decoro ou de ordem. Tem uma razão aparentemente teológica, a mais velha, a que sempre foi usada:

Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E não foi Adão que foi seduzi-do, mas a mulher, seduzida, caiu em transgressão. Entretanto será salva pela maternidade, desde que com modéstia, permaneça na fé, no amor e na santidade (1Tm 2,13-15).

A dignidade da mulher é, assim, reduzida à sua função biológica da mater-nidade. Pelo resto ela não vale mais nada. Não para a comumater-nidade. A modéstia é sua primeira virtude e vem antes do que a própria fé. “Roupas

decentes, enfeitadas com pudor e modéstia, sem tranças, nem jóias” (1Tm 2,9). Esta é a primeira instrução para as mulheres destas co-munidades.

Estas cartas mostram sempre uma desconfiança com qualquer tipo de mu-lher. Cuidado com as viúvas, que podem ser viúvas alegres; cuidado com aquelas que têm parentes para sustenta-las; cuidado com aque-las que buscam o prazer; só inscreve no rol das viúvas as com mais de 60 anos; e que “tenham lavado os pés aos santos” (1Tm 5,3-10). O texto não consegue esconder o desprezo para “estas gunaikaria /

mulher-zinhas carregadas de pecado, possuídas de toda sorte de desejos, sem-pre asem-prendendo, mas sem jamais poder atingir o conhecimento da verdade” (2Tm 3,6)

Mulher burra, que quer aprender, mas não vai chegar a conhecer. E não se trata de outro assunto que não o da doutrina. Como vai poder ensi-nar se ela não vai conseguir conhecer?

As mulheres idosas não sejam caluniadoras, nem bebam demais. Sejam capazes de dar bons conselhos às recém-casadas para que estas aprendam a amar os seus maridos e filhos, a ser ajuizadas, fiéis e submissas a seus esposos, boas donas de casa, amáveis, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada (Tt 2,3-5).

Nenhum recado para os homens, nenhum para os senhores, só para os es-cravos, exortados a obedecer “para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1Tm 6,1-2).

Como dissemos, as comunidades tendem a se conformar com o “normal” da vida do momento. Ser diferentes significa perseguição,

(13)

difama-, Goiâniadifama-, v. 7difama-, n. 1difama-, p. 55-77difama-, jan./jun. 2009 67 67 67 67 67

ção, incompreensão. Então, para sermos aceitos e respeitados só nos resta uma alternativa: não ser alternativa. Ser iguais aos outros. Mu-lheres e escravos têm que se submeter para que a comunidade não seja mal vista ou até perseguida.

O “Senhor” não é mais central. Ocupa um lugar secundário nas cartas a Timóteo e sequer é nomeado na carta a Tito.

Novos senhores vão ocupar este lugar como seus representantes: autorida-des civis e religiosas, patrões e maridos!

Hoje, na igreja romana, continuam vigorando, hegemônicos, estes parado-xos, em relação às mulheres.

MARIA ORIENTOU SEUS CORAÇÕES PARA O BEM (EV DE MARIA 9,18-19)

Uma terceira maneira de pensar e de organizar a ekklesia começou a se ma-nifestar no fim do primeiro século; poderíamos, muito bem, falar num terceiro cristianismo.

É, também, uma terceira maneira de se relacionar com o império, depois da perseguição de Nero. Nem o confronto, nem a convivência. O impé-rio deixa de ser o problema principal; em muitos casos, ele é comple-tamente ignorado.

Este cristianismo encontra um chão muito fecundo no pensamento gnóstico que vinha se difundindo em todo o mundo mediterrâneo. Mesmo sendo muitas as correntes deste pensamento, podemos identificar um eixo comum: a salvação vem através do conhecimento, vem do en-contro da alma transcendente da pessoa humana com o Deus trans-cendente fora do mundo. O mundo e o corpo são elementos limitantes a serem superados. O império e a política fazem parte deste universo material ao qual o gnóstico não dá nenhuma importância.

Há um dualismo irreconciliável entre o mundo e a divindade, uma vez que a criação é resultado de um descuido celestial do qual um “sub Deus” se aproveitou para criar a matéria. O criador não passa de um inter-mediário, falsamente adorado como deus pelos ignorantes.

Quase a recuperar o mal cometido, no ser humano, foi colocada uma luz divina que permanecerá escondida e abafada até que a gnosis a des-perte e a torne consciente. Os verdadeiros “crentes” são os que con-seguem, pelo conhecimento, aderir à vocação da transcendência à qual somos chamados.

(14)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 6868686868 O verdadeiro crente pode ser encontrado em qualquer tipo de religião, sem distinção, pois todas as religiões que existem fazem parte da materialidade do universo e, por isso, devem ser superadas pela gnose. Este é o ambiente cultural no qual se consolida o cristianismo gnóstico e que faz do centro de sua experiência de fé e de vida, a gnosis, o conhe-cimento a partir de Jesus.

O Cristo foi o grande mestre, a presença da divindade que veio a nós, com aspecto humano, para revelar os segredos do conhecimento, os segre-dos do encontro profundo da alma com a divindade, numa experiên-cia única, individual e inefável, o verdadeiro caminho para a salvação. A gnose era, como diz Theissen (2009, p. 321), a “privatização da religião” que permitia aos cristãos de sobreviver sem passar pelo confronto com o império.

A experiência da gnose, por ser individual e privada, dispensava, segundo alguns, a confissão pública da fé diante das autoridades, evitando assim de serem condenados.10

Havia uma forte corrente gnóstica que, inclusive, esvaziava o martírio de Jesus na cruz, afirmando que na hora da paixão a divindade já havia deixado o corpo de Jesus, de maneira que só morreu o corpo materi-al. Alguns chegaram a afirmar que quem morreu, na verdade, foi Simão o Cirineu, enquanto Jesus estava lá, imperturbável, ao lado da cruz, sabendo que ninguém podia lhe fazer algo. É o retrato do per-feito gnóstico que permanecia imperturbável e anônimo diante dos mártires (THEISSEN, 2009).

O cidadão podia viver a vida comum de todos os cidadãos, participando, inclusive, dos cultos públicos às divindades protetoras da cidade e do estado, sem trair sua fé, pois esta era pessoal e inalcançável.

A teologia gnóstica se desdobrou em diversos ramos e produziu diferentes e até antagônicas experiências de vida pessoal e de organização eclesial que, porém, tinham em comum alguns elementos: a centralidade da dimensão da experiência mística individual de uma ascesi espiritualista que ainda subsiste nos nossos dias e que se expressou em diversas formas de vida monástico-eremítica.

Outro elemento comum era a relação, antagônica, com a estrutura da igreja que, como vimos, vinha se construindo segundo os modelos do es-quema imperial.

Posso estar errado, mas acredito que a eliminação sumária dos escritos gnósticos do cânon sagrado dependa, em grande parte, da crítica interna em

(15)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 69 69 69 69 69

relação ao esquema hierárquico que estava se impondo a partir, so-bretudo, de Roma.

É interessante, neste sentido, ver qual era a presença e qual era o espaço das mulheres, nas comunidades de tendência gnóstica.

Encontramos vários textos nos quais transparece, evidente, o conflito entre Pedro que representa a igreja de Roma e Maria, uma importante re-presentante das ekklesias da Ásia.

Começamos pelo mais antigo evangelho gnóstico, o evangelho copto de Tomé:

Simão Pedro lhes disse: “Maria deve ir embora, porque as fêmeas não são dignas da vida”. Jesus disse: “Eis, eu a guiarei de maneira a fazer dela um macho, para que se torne um espírito vivo igual a vós machos. Porque toda fêmea que se faz macho entrará no Reino dos céus (ET, 114).

Apesar do aparente machismo, contido nestas palavras, aparece evidente a relação especial de Jesus que conduz Maria no caminho da gnose e que sempre parece despertar os ciúmes de Pedro.

A memória desta relação/revelação é colocada em destaque numa das maio-res obras gnósticas, a Pistis Sophia:

Depois de dizer isso a seus discípulos, Jesus acrescentou: - Quem tem ouvido para entender, ouça! Maria, tendo escutado as palavras do Salvador, permaneceu uma hora fixando o ar; depois disse: - Senhor, me ordena de falar abertamente. Jesus, misericordioso, respondeu a Maria: Tu bem-aventurada Maria. Te farei perfeita em todos os mistérios, aqueles do alto. Fala abertamente, tu, cujo coração é dirigido ao reino dos céus, mais do que todos teus irmãos (Pistis Sophia, 17).

O protagonismo da mulher aparece em muitos momentos desta obra e nos permita fazer uma análise mais aprofundada do papel das mulheres no meio do gnosticismo cristão a partir dos meados do segundo sé-culo. Em nenhum outro escrito tão antigo encontramos a autoridade e a dignidade que a mulher tem aqui.

Nestes capítulos os interlocutores de Jesus ressuscitado são os seus discípu-los, acompanhados por quatro mulheres: Maria, a mãe de Jesus, Salomé, Marta e Maria Madalena. A mãe intervém três vezes (59, 61, 62), Salomé mais três vezes (54, 58 e 145) e Marta quatro (38, 57, 73 e

(16)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 7070707070 80). Maria Madalena intervém sessenta e sete vezes e em situações muito importantes. Várias vezes ela é louvada por Jesus e até ajuda os discípulos quando eles não entendem (94). Na Pistis Sophia, Maria Madalena, esposa e sacerdotisa de Jesus, é o símbolo da gnose. Quanta diferença do ambiente da igreja de Roma que proibia que as

mu-lheres ensinassem aos homens!

Interessante, neste sentido, é o trecho do evangelho de Filipe que se tornou famoso depois das ilações eróticas propostas pelo livro O código Da

Vinci de Dan Brown:

A Sofia – a quem chama “infecunda”– é a mãe dos anjos. E a companheira de [...] Madalena. [...] mais que a todos os discípulos e a beijava na [...] repetidas vezes. Os demais [...] lhe disseram: - por que a amas mais que a todos nós? O Salvador respondeu-lhes dizendo: - Como é possível que eu não vos ame tanto quanto a ela? (63,34-64,5).

Longe de ser a prova histórica de um eventual matrimônio de Jesus com Maria Madalena, este texto é a alegoria de uma precisa visão teológi-ca pela qual as duas maiores emanações (eones), o Salvador e a Sofia, se encarnaram no Cristo e na Madalena, perpetuando na terra sua relação celeste. O beijo na boca, segundo este mesmo evangelho, é um sinal ritual comum também aos demais personagens, porque: Veio o Logos se alimentar pela boca e ser perfeito. O perfeito concebe e dá

à luz através do beijo. É por isso que nós nos beijamos um ao outro. Nós somos fecundados pela graça que está no meio de nós (59,1-3). É o centro da teologia gnóstica: o encontro fecundo e gerador da Sofia com o Cristo: é o caminho de todos os seres rumo à perfeição do entendi-mento, à perfeição do existir e do ser, numa ascesi sempre mais espi-ritual.

É a mulher que, numa importante corrente gnóstica, reúne em si todas as qualidades da verdadeira experiência do conhecimento mais elevado e do encontro inefável com o mundo superior. Maria – a mãe, a irmã e a companheira - é a mulher que vivenciou todas as formas do en-contro amoroso com o Cristo:

(17)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 71 71 71 71 71

Madalena, aquela que era chamada de sua companheira. Sua irmã e sua mãe e sua companheira eram, cada uma, uma Maria. (Ev. Filipe

59,4-6)11.

Significativos são os textos em que Maria, a mãe, substitui a Madalena, no jardim, na manhã da ressurreição (MORALDI, 1994). Num deles, Maria recebe a incumbência de trazer de volta os onze que estariam se desviando:

Alegra-te (Maria) e te apressa a ir aos onze. Os encontrarás reunidos na beira do Jordão. O traidor os induziu a voltar a serem pescadores, como antes. Dize-lhes: “Pedro, vamos, vos chama o vosso irmão!”. Se eles me despre-zarem como irmão, dize-lhes: “É o vosso mestre!”. Se não me considera-rem como mestre, dize-lhes: “É o vosso Senhor!”. Usa toda tua habilidade e teu conselho para reconduzir as ovelhas ao pastor. (Agrapha Christi,

Psalm-book, II, 187,1-19) (MORALDI, 1994, P. 541-2). Maria deve “re-converter” os apóstolos, guiar as ovelhas.

Apesar de todos os títulos dados a Maria - inclusive o de rainha dos apósto-los – nunca a igreja reconheceu a uma mulher a autoridade apostóli-ca. Apascentar ovelhas e cordeiros, confirmar os irmãos na fé, tarefas, canonicamente, atribuídas a Pedro, aqui são de Maria, seja qual for a das três.

É importante, neste sentido, a contribuição que nos traz o Evangelho de Maria, composto por dois fragmentos. É um indiscutível texto gnósticos do segundo século. Apesar da opinião mais comum, não ha nada, nestas páginas, que indique que se trate de Maria Madalena: é, sim-plesmente, o “evangelho de Maria”.

A teologia gnóstica perpassa todas as linhas: a matéria é “contrária á nature-za divina”; o apego à matéria gera uma “paixão contra a naturenature-za”; pecado é agir segundo os hábitos de nossa “natureza adúltera”. Por isso o “Bem” veio entre nós e “compartiu nossa natureza para reconduzi-la às suas raízes”.

São importantíssimas as últimas palavras que Jesus falou aos seus:

Quando o Filho de Deus assim falou, saudou a todos dizendo: “A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para que ninguém vos afaste do Caminho, dizendo: ‘Por aqui’ ou ‘Por lá’, pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o

(18)

encontra-, Goiâniaencontra-, v. 7encontra-, n. 1encontra-, p. 55-77encontra-, jan./jun. 2009 7272727272 rá. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não instituais como legisla-dor, senão sereis cerceados por elas”. Após dizer tudo isso, partiu. O evangelho do reino é o encontro interior com o filho do homem que vive

em nós. Este é o caminho. Qualquer outra regra, qualquer outro legislador será uma cerca que nos impede de caminhar.

A missão assusta os discípulos: “Como vamos pregar às nações o Evangelho do Reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, vão poupar a nós?”.

É Maria que “depois de beijar todos seus irmãos” fala com firmeza: “Não fiqueis tristes nem choreis nem hesiteis, pois sua graça estará inteira-mente em vós e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois ele nos preparou e nos fez homens”

Com estas palavras, Maria orientou seus corações para o bem e ficaram iluminados para as palavras do Mestre.

É o caminho da gnose, da iluminação, do beijo que manifesta a graça e nos prepara para a busca.

Pedro sabe que esta revelação passa por Maria: “Irmã, sabemos que o Salva-dor te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as pala-vras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos”.

Maria fala, então, de uma visão que ela teve do Mestre; uma visão que nem a alma, nem o espírito podem compreender, mas somente a “mente” que está entre os dois e que é a fonte de toda gnose.

Faltam aqui algumas páginas. Mesmo assim, podemos intuir que Maria fala do caminho da alma no rumo da perfeição superando os obstá-culos que vêm da cobiça, da ignorância, da ira, do medo da morte e outros obstáculos.

Maria não se limita a repetir o que o mestre tinha revelado a ela. Maria fala do caminho de perfeição que sua “mente” viu e conheceu e que vai levar a alma ao “descanso onde descansa o tempo na eternidade do

tem-po, no silêncio”.

Pedro e André questionam esta revelação. André por não acreditar que o que Maria falou venha do Salvador, “Pois esses ensinamentos carregam

idéias estranhas”. Pedro – que tinha pedido que Maria falasse – agora

não acredita que o Salvador tenha revelado a Maria verdades que tinham ficado ocultas aos demais discípulos. Ele que sabia que Jesus

(19)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 73 73 73 73 73

a amava mais que as outras mulheres, agora questiona: “Será que ele a preferiu a nós?”.

Levi censura o ciúme de Pedro e reafirma o relacionamento especial entre o Salvador e Maria: “Se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí tê-la amado mais do que a nós”.

Levi reconfirma os dois mandamentos deixados pelo Salvador: ser homens perfeitos, seguindo o caminho indicado por Maria e pregar o evan-gelho sem criar outra lei além das que o Salvador nos legou.

São os dois pilares do gnosticismo: a busca da perfeição interior e a rejeição de toda estrutura eclesiástica ou hierárquica.

Maria é a “reveladora” deste evangelho.

Outro texto antigo é o livro dos Atos de Paulo e Tecla, venerada pela igreja ortodoxa como “protomártir” entre as mulheres e “isoapóstola”, igual aos apóstolos. Ela, a partir das palavras de Paulo, vivencia um violen-to confliviolen-to com a família, recusando-se a casar com o noivo escolhi-do pelos pais. A conquista de uma autonomia deste tipo, impensável na cultura dominante da época12, leva Tecla a enfrentar diversos

ti-pos de martírios que, pela sua importância, acabaram recebendo uma áura mítica e lendária.

Enviada por Paulo a pregar o evangelho ela é perseguida. Em Antioquia de Pisídia ela encontra o apoio das outras mulheres que a defendem diante das autoridades e, em Seléucia, recolhe ao seu redor outras mulheres, formando assim, a primeira comunidade feminina, sem-pre perseguida.

Parece ser a expressão de uma posição autônoma da mulher no meio dos cristianismos originários. Algum tempo depois, Tertuliano se quei-xava que os cristãos de Alexandria, a partir deste texto, reivindica-vam a possibilidade para as mulheres de batizar e ensinar na igreja (De baptismo, 17).

Toda esta contribuição foi sumariamente eliminada da celebração comuni-tária. Nunca mais estes textos serão lidos publicamente: eram apócrifos. UMA TENTATIVA DE DIÁLOGO: O EVANGELHO DE JOÃO Três modelos de ekklesia, três maneiras de se relacionar com as mulheres,

podemos até falar, no fim do primeiro séculos, de três cristianismos: o de Paulo e dos sinóticos, o das cartas pastorais, o do mundo gnóstico.

(20)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 7474747474 No fim do primeiro século, as comunidades de João - em polêmica com o modelo de igreja que estava surgindo em Roma e buscava a convivência com o império, para ter uma “vida sossegada” - tentaram uma espécie de síntese entre a proposta eclesial paulino/sinótica e o pensamento gnóstico. O Evangelho de João voltará a falar da centralidade do Senhor; falará de serviço e de lava-pés e não de poder e governo; falará do pastor que conhece, chama, precede e dá a vida e não de quem governa e manda. E falará, também, de logos (17 vezes), de glória (19 v.), de luz (23 v.), de verdade (25 v.) e, sobretudo, falará de conhecimento (57 v.) e de mundo material (78 v.). É uma terminologia muito próxima à do mundo gnóstico, assim como o são os longos diálogos de Jesus, o mestre, com Nicodemos, com a Samaritana, com os fariseus e, so-bretudo, com os seus discípulos, diálogo que ocupa os 5 capítulos da última ceia, marcados pela experiência do encontro vivificador entre Jesus e o “discípulo amado”.

Ao contrário, porém, de muitos textos gnósticos, não é o Jesus ressuscitado que fala e revela o caminho. É o Jesus que se prepara para o confronto final com o “mundo” e o “príncipe deste mundo”. É o Jesus que se prepara a morrer e que nos prepara a morrer em testemunho da verdade.

O discípulo amado aparece aqui nos dois momentos principais: recostado em Jesus, durante a ceia, atento a toda palavra que sai da boca do mestre (13,23) e, aos pés da cruz, recebendo em sua casa a mulher, a mãe (19,26-27), único entre os discípulos a ver e testemunhar a úni-ca verdade que deve ser anunciada, a de um homem que derramou sua última gota de sangue por amor de todos e todas.

“E aquele que o viu testificou e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais” (Jo 19,35). Só assim o discípulo que Jesus amava poderá testemunhar a ressurreição: “e

viu e acreditou” (Jo 20,8).

E, assim, a comunidade de João nos falará de mulheres. O discípulo amado não poderá mais deixar a mulher de lado, mantendo-a submissa e em silêncio obsequioso, mas recebendo-a em sua casa como mãe amada. Sete vezes uma mulher será colocada na frente da comunidade como

exem-plo de profecia, de discipulado e de apostolado.

Maria, a mãe de Jesus, fará acontecer a “hora” no início e no fim de sua caminhada, nas bodas de Cana e aos pés da cruz. A Samaritana, por primeira, profetiza e anuncia o messias. Uma mulher adultera nos en-sinará que a casa de Deus é para os pecadores e não para os justos que

(21)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 75 75 75 75 75

de lá terão que sair, a começar dos mais velhos, dos “presbíteros”. Marta – e não Pedro - proclamará a fé no Cristo, filho do Deus vivo. Maria de Betânia, ao enxugar, com seus cabelos, o perfume derramado sobre os pés de Jesus, sairá com sua cabeça ungida e Maria de Mágdala, tes-temunha privilegiada da morte e da ressurreição do Senhor, receberá a missão de anunciar aos “irmãos de Jesus” o centro da fé evangélica: “O Deus de Jesus é o nosso Deus, o Pai de Jesus é o nosso Pai”.

O capítulo 21, acrescentado ao texto de João, durante o segundo século, irá estabelecer o acordo entre a igreja de Roma e as igrejas da Ásia: Roma vai aceitar a cristologia das igrejas da Ásia: é o discípulo amado a revelar o Senhor a Pedro. As igrejas da Ásia vão aceitar o governo de Roma: será Pedro que irá apascentar as ovelhas.

Roma, por sua vez, vai assumir o risco do confronto e da perseguição: Pedro será amarrado e levado aonde não quer. A Ásia vai conservar para sempre a presença do discípulo amado e seu testemunho e ensinamento. Depois desta operação, os textos gnósticos serão definitivamente relegado

ao segredo, ao apócrifo.

Em pouco mais de dois séculos o cristianismo se tornará, não somente uma

religio licita, mas o imperador Teodósio, em 380 ec, a proclamará a

única religião oficial do império romano e iniciará, assim, um pro-cesso, muitas vezes violento, de eliminação de qualquer outro culto ou tipo de religião.

Fé será sinônimo de ordem e submissão. As perseguições acabarão e a gran-de preocupação eclesial será a “liberdagran-de religiosa” - maneira mais moderna de falar da religio licita – e a busca de concordatas entre os poderes sagrados e profanos.

E as mulheres? Elas não terão mais lugar nas funções públicas das comuni-dades; terão que ficar caladas, sem poder exercitar nenhum tipo de autoridade e ministério.

Salvo muitas, lindas e teimosas exceções... Notas

1 A frequência das palavras nem sempre é sinal de uma teologia, mas é um detalhe

interessante. Nos textos joaninos o verbo agapao/amar aparece 22 vezes no evan-gelho e 32 vezes nas cartas e a palavra agape é usada 6 vezes no evanevan-gelho e 23 vezes nas cartas. Por outro lado, agapao só é usado 2 v em 2Tm e agape se encon-tra 5 v em 1Tm, 4 v em 2Tm e 1v em Tito e, quase sempre, de forma secundária.

(22)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 7676767676

2 A expressão “filho do homem”, aplicada a Jesus, é exclusiva dos evangelhos, não a

encontramos em nenhum outro texto do NT, com exceção de At 7,56.

3 Didaskalia, no NT, aparece, ao todo 21vezes; 15 v só nas pastorais; proistemi é

usado 8 vezes no NT, das quais 6 nas pastorais; eusebeia, além de At 3,12, encon-tra-se só nas pastorais (10 vezes) e na 2Pd (4 vezes).

4 As cartas pós-paulinas não relacionam a profecia entre os serviços comunitários. 5 Serão relações deste tipo que farão com que a igreja, mais tarde, seja definida

“sociedade perfeita”: dividida entre hierarquia e fiéis, igreja docente e igreja dis-cente, igreja clero e igreja leiga. Teremos que esperar pelo concílio Vaticano II para voltar a ouvir que igreja é “povo / laos de Deus”.

6 Eusebeia = piedade, temor reverencial, religião (religiosidade). Esta é mais uma

palavra completamente ausente do dicionário paulino. Eu creio que aqui está uma das principais razões que nos faz afirmar que as cartas pastorais, em sua redação final, não podem ser paulinas.

7 Ver Gunther (1976). Trata-se, de certa forma, do que o deuteronomista entende

por “temor de Deus” e, também, mesmo com as devidas diferenças, nos lembra os hassidim, os piedosos dos quais se originou o movimento farisaico.

8 Na época imperial, a piedade foi venerada como a deusa preposta ao

cumprimen-to do dever em relação ao estado, às divindades e à família. Para os romanos, a piedade é o atributo do herói civilizatório que supera as qualidades exclusiva-mente militares dos heróis míticos. O Pius Enéias é o herói simbólico que une o mito à história romana. Herói da piedade no respeito ao pai e aos deuses, ele foi considerado o tataravô de Rômulo e Remo, os míticos fundadores de Roma

9 Bons cristãos, bons cidadãos romanos.

10 Segundo as disposições de Trajano, deixar de confessar publicamente a fé cristã

era igual a escapar do martírio.

11 Três Marias que, segundo alguma literatura posterior, eram uma única e mesma

pessoa. A Virgem Maria teria dito a Cirilo de Jerusalém (315-387): “Meu pai se chamava Joaquim, isto é Cléofas. Minha mãe se chamava Ana, mas era chamada de Mariham. Eu me chamo Maria Madalena, por causa do nome do povoado em que nasci: Mágdala. O meu nome, porém, é Maria de Cléofas. Sou a Maria de Tiago, filho de José, o carpinteiro” (WALLIS BUDGE, apud MORALDI, 1994, p. 48). Esta identificação deve-se, talvez, à necessidade de harmonizar os sinóticos e João, quanto à presença de Maria aos pés da cruz e na manhã da ressurreição, o que era uma difundida crença popular.

12 As ekklesias gnósticas eram acusadas de proibir os casamentos (1Tm 4,3). Não há

dúvida que isso depende da concepção dualista própria do mundo cultural gnóstico, pela qual tudo que é instinto corporal deve ser dominado e superado. É o que

(23)

, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 55-77, jan./jun. 2009 77 77 77 77 77

diz, por exemplo, o Evangelho grego dos Egípcios quando afirma que a absten-ção sexual é necessária para romper o ciclo negativo da reproduabsten-ção da matéria através do nascimento e para recuperar o estado original de homem andrógino. Este entendimento, porém, só vale se olharmos este costume na perspectiva do homem. Mas se olharmos do ponto de vista das mulheres, não podemos deixar de ver nesta prática a defesa de uma autonomia, impensável no mundo grego. Na linha paulina mais autêntica, a mulher é dona do seu próprio corpo e pode deci-dir de não se casar, mesmo que por isso, venha a ser perseguida.

Referências

GUNTHER, W. Pietá. Dizionario dei conceitti biblici del nuovo testamento. Bologna: Edizioni Dehoniave, 1976.

THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos. São Paulo: Paulinas, 2009. MORALDI, Luigi. Apocrifi del nuovo testamento – Vangeli. Piemme: Casale Monferrato, 1994.

Abstract: Over six years, between 64 and 70 CE, important events have forced the

Christian communities in making significant decisions: the persecution of Nero, the Zealot revolt, the beginning of the rabbinical school of Jamnia destruction of Jerusalem and forced the communities to take position before the Roman Empire. Some communities have remained firm in the testimony of the gospel to death knowing that you can not serve two masters. Others have sought to conform to the common mentality in order to have a quiet life. Still others have focused on the spiritual experience of knowing the truth and completely ignored the empire. This essay will seek to know these different positions and, in particular, we will see what role women had in each.

Keywords: Christian communities, Roman Empire, Body of Christ

Recebido em 12 de março de 2010. Aceito em 30 de maio de 2010.

Referências

Documentos relacionados

Em 1981 esse grupo de enfermeiros elaborou um documento com atribuições do enfermeiro, oficializado pela direção da Secretaria (Porto Alegre, 1981) que definia aos chefes de

produção e distribuição dos suportes, para expor seu material, tendo a possibilidade de contato direto com os consumidores ou com as lojas digitais. É importante salientar

A seqüência analítica • Definição do problema • Escolha do método • Amostragem • Pré-tratamento da amostra • Medida • Calibração • Avaliação •

Este trabalho é resultado de uma pesquisa quantitativa sobre a audiência realizada em 1999 envolvendo professores e alunos do Núcleo de Pesquisa de Comunicação da Universidade

6 Consideraremos que a narrativa de Lewis Carroll oscila ficcionalmente entre o maravilhoso e o fantástico, chegando mesmo a sugerir-se com aspectos do estranho,

Mário Jabur Filho, conforme dispõe a legislação vigente, comunica que estarão abertas as inscrições para seleção dos candidatos para preenchimento de vaga para Médico

O desenvolvimento das interações entre os próprios alunos e entre estes e as professoras, juntamente com o reconhecimento da singularidade dos conhecimentos

mandar para Eretz,para os chaverim da Aliat-Hancar de Bror Chail, Além do dinheiro da Kupa, vancs fazer trabalhos manuais para vender, e mais fâãcilmente comprar o presente,.