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Etologia: Nota de abertura

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Academic year: 2021

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Nota

de

abertura

I

1. Tanto quanto sabemos, é a primeira vez que uma revista científica portuguesa dedica integralmente um número a temas etológicos. Este amn- tecimento assume um significado da maior imprtân& dada a situação em qhie se encontra esta disciplina no nosso país.

Em Portugal existem seguramente dezenas de anos de atraso no desen- volvimento da etalolgia. Em muitas das escolas superiores em que o ensino e 4 investigação neste campo se deviam desenvolver por direito própria, niro existem disciplincrs dedicadas 2 etologia. N ã o existe nenhum centro de inves- tigação a nível ncrcional, não existe qualquer associação científica que coor- dene e dinamize o trabalho e a troca de experiência.

De tudo isto resdta que os esforços de docência e de investigação são apenas possíveis graças & persistência e entusimmo de um punhado de pessoas ou de pequenos grupos desapoiados, ressentindo-se do isolamento científico qhqe prevalece neste domínio.

Uma das mais graves consequnCiçes desta Situaçh manifesta-$e a nível da opinião pública, dado que a pouca divdgqão que se tem feito não olbe- dece, a maior parte d a vezes, a qw*sqraer critérios de qualidade. Assim, publicam-se so{bretdo as obras mais sensacionalista, muitas vczes com deze- nas de anos de desactudizqão, quase sempre explorando teorizaçijes super- ficiais com base nos comportumentos que em homens e animais se apresen- tam «mais parecidos».

2. Este número de ANÁLISE PSICOLÓGICA surge num momento que poderá corresponder a uma viragem decisiva para o desenvolvimento da etdogia em Portugal. No ano lectivo de 1985186 realizouse o I CURSO LIVRE DE ETOLOGIA, iniciativa conjunta do Instituto Superior de Psi-

cologia Aplicada e da Faculdade de Ciências de Lisboa. Este curso despertou um grande interesse entre os estudantes, demonstrada nomedamente pelas

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muitas pessoas q w depois se integraram em projectos de investigação em curso. A fim de dar continuidade ao trabalho de cooperação e troca de experiências, bem como para prolmover acções de formqão, está em acti- vidade um secretariado em que participam docentes e estudantes.

O entusiasmo suscitado p r esta experiência e o surgimento de múltiplos projectos de trabalho conjunto levou um grupo de etólogos a iniciar con- tactos a nível nacional no sentido da constitLciçCfa, num futuro próximo, da primeira associação científica portugwso dedicada d etologia. B nesta nova dinâmica q w se insere o aparecimento deste número de ANALISE PSICO- LÓGICA. A o organizá-lo, procurámos cobrir a diversidade de temas e de áreas de investigação etológica quv se desenvolvem em Portugal. Com grande satisfação verificámos que a quantidacde de trabalhos propostos superava em muito as dimensões de um número da revista. Assim, o presente volume foi den’gnculo p r ETOLOGIA I para bem exprimir a ideia de que constitui, apenas, a primeira parte de um projecto mais vasto.

A etologia está, pois, bem viva em Portugal, e estamos certos de que o atraso existente será rapidamente suprado.

Ao contrário de ovtros ramos de investigação que envolvem alta tecno- logia e grandes meias em equipamento, a etologia é uma das disciplinas cujo desenvolvimento, se for minimamente apoiado, depende sobretudo do poten- cial humano de criatividade e intelighia.

Em etologia animal não faltam oportunidades de investigação, ao mesmo tempo ricas cientificamente e de flagrante utilidade social. Um trabalho eficaz de conservqão e ordenamento do nossa património natural requer um conhecimento adequado do comportamento de cada espécie, e neste domínio muito há a fazer.

No

plano da etologia humana passou-se de uma fase de disputa entre etólogos, psicólogos e antropólogos, para uma nova perspectiva em que a etolo&, a psicologia e a antropologia se revelam cada vez mais como facetas complementares.

A s ferramentas etológicas são uma parte dos instrumentos de investiga- ção nas ciências da comportamento humano, com as suas limitações e áreas em que são particularmente fecundas, que i0 psicólogo olu o antropólogo podem utilizar

em

conjugação

com os

instrumentos

tradicionuis das suas

dis- ciplinas.

Em psicologia e antrotplogia crfirma-se, coda vez mais, uma orientqão profundamente convergente com a que os etólogos sempre desenvolveram no estudo dos animais. Para a caracterizar em poucas palavras, diremos que se trata de uma: perspectiva ECOLÓGICA. Trata-se de estudar os seres humanos em acção perante os problemas que se lhes põem normalmente nas rnndições concretas da sua vida quotidiana. Em vez da busca de mecanismos universais que seriam os ingredientes básicos da arquitectura da mente, aper- cebemo-nos, de forma crescente, da diversidade do modo de funcionamento psíquica dos seres humanos, e da mdtiplicidade de níveis de complexidade postos em acçiio mesmo na realização dos actos mais simples.

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Este fenómem de abandono da busca de mecanismos universais tem um paralelo no desenvolvimento histórico recente da etologia. Se os pri- meiros etólogos pensavam estar a elaborar m a «teoria geral do instinto)), hoje poucos defendem essa perspectiva. A evolução, rios múltiplos caminhos que seguiu, produziu uma grande diversidade de sistemas nervosos, de siste- mas sensoriais e de estruturas efectoras. N a evolqão de cada espécie as pressões selectivas operaram sobre as estruturas neuro-sensoriais e mrcscula- res, de modos mrcito diversos, em junção dos problemm concretos que os mi-

mais têm que enfrentar ao longo do seu ciclo de vida. Os denominadores camuns na investigação comportamental são, portanto, de natureza ecoló- gica

-

animais com estruturas efectoras diferentes e sistemas nervosos distin- tos, vivendo numa diversidade âe biótopos e ocupmdo nichos igualinente diversos, enfrentam um conjunto de problemas comms - obter alimentos, minimizar o impacto de factores ambientais desfavoráveis, reproduzir-se. Actualmente, o esforço de elaboração de princípios e modelos de explicqão funcional centra-se na diversidade das salqões que a evolução originou em torno destes problemas biológicos f undamentais.

Os sistemas de aprendizagem e as formas complexas de prmessamento âe informação a que chamamos processos cognitivos, são tão relevantes nas relações entre o organismo e o meio e na solução dos problemas ecológicos, como os comportamentos estereotipados e os dispositivos menos dependentes da experiência. Numa perspectiva ecológica não tem sentido opor «ins- tinto» - ainato)) como terreno próprio da etologia a «aprendizagem» - wognição)) como terreno próprio da psicologia. N o estudo concreto do com- portamento duma espécie e d a suas relações com o meio, as fronteiras entre etologia e psicologia toirnam-se cada vez menos nítidas. Do mesmo modo,

6 medida que se amplia o nosso conhecimento da originalidade e da diversi- dade de solugGes que cada animal exibe perante os problemas ecológicos, surge uma nova forma de pensar as relações entre o comportamento humano e o dos outros anima's.

N a época objectivista a crença numa teoria universal do instinto levava os etólogas a fazer facilmente inferêncim do ganso paxa o Homem, quando não o faziam a partir d o esgana-gata. Perpetuava-se a opasição entre ciên- cias naturais e ciências humanas, ao conceber

a

nolssa espécie como formada por <(macacos instintivos>> com uma camada de cdtura sobreposta ao animal. A superação dos «modelos universais das pdsõem, a ultrapassagem da dicotomia «inato/cldquiridol», a percepção crescente da diversidade dos meca- nismos comportameritais nas espécies animais, tornaram possível um diálogo incomparavelmente mais fecundo entre ciências naturais e ciências humanas. As sociedades humanas enfrentaram e soJucionaram ci sua maneira os problemas ecológicos que se põem a qualquer ser vivo. A cultuxa não é uma camada sobreposta sob a qual se esconde um animal munido de instintos universais, ela faz parte integrante da nossa história natural e da nossa ecologia.

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ETOLOGIA

Em 1951 TINBERGEN publicou «The Study of Instinct)) onde integrou uma substancial quantidade de informação sobre comportamento animal numa armadura coinceptuul coerente, delineando, ao mesmo tempo, os pro- blemm f d a m e n t u k a explorar. Deste modo, ele deu fosma ci futura inves- t i g q ã o neste domínio.

A aproximçrção ao estudo d o comportamento que TINBERGEN advo-

gou, e que mreito simplesmente definiu como uma abordagem biológica do

comportamento, b geralmente conhecida por ETOLOGIA.

O vocábulo tem exactQmente o mesmo estatuto que «ecologia» ou cgené- ticax denomina uma dm grandes sub-divisões da Biologia.

A s grandes diferenças que distinguem a ETOLOGIA das outras pers- pectivas de análise comportamental, como a Psicologia Comparada, a Antro- pologia e a Neurofisioi1og.a estão na sua conceptuulização biológica particular e no facto de os seus principais iniciadores se terem formado no3 processos de obordagem da Vida próprios da História Natural.

Assim, um dos aspectos fundamentais da anrtlz'se etológica consiste na necessidade de os mimais serem estudadoa em condições naturais. Este tipo de estudo baseia-se inicialmente na observação e descrição exaustiva do comportamento dos animais no seu meio natural e, se necessárias, as inter- ferências experimentais a realizar devem ser simples e, sempre que possível, no campo.

M m

tambkm a forma de colheita de dados caracteriza a abordagem eto-

lógica; os etologistas tendem a descrever (<o que os animais fazem» em termos

de compnentes comportamentais relativamente simples, tais como posturas e movimentos, e a atribuir-lhes denoiminações descritivas preferencialmente a designqões interpretativas.

A arlálise etológica tem demonstrado que o comportamento é passível deste tipo de aproximqão e que uma dada espgcie tende a apresentar um reprtório característico de padrões compcrtamentais.

O objectivo de muita da investigação etológica inicial é a elaboração excwtiva de inventários destes actos (etogramas) nL.rm conjunto de animais, do mesmo modo que <i unatomista descreve os ossos que constituem os esque-

Eetos desses mesmoa animais.

Este aspecto comparativo da ETOLOGIA & uma herança directa da Zoologia e deste modo, a extensão 2 ETOLOGIA das técnicas descritivas e comparativas uitilizadas anteriormente pelos zdlogos em relação aos carac- teres físicos abre um novo campo, extremamente fecundo, ao desenvolvi- mento das teorias ecológica e evolutiva.

O estudo d o ccmportamento tem deyta forma, vindo a tornar-se uma das dimensijes centrais em toda a investigação zoológica.

Através dos comportamentos, as estruturas anatómicas são postas em acça0 e assim não se podem compreender a evolução e o funcionamento dos

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estruturas do corpo dos animais sem compreender os esquemas de acção que as tornam eficazes.

Por outro lado, o sistema nervoso e o sistema endócrinoi ocupam um lugar central na organização das relações entre o organismo e o meio. Fazem depender as resymstas fisiológicas da informação proveniente do ambiente, integram e coordenam as actividades das diferentes partes do corpo de modo a formur respostas globais coerentes, ujustadas às diferentes condições am- bientais e fases do ciclo de vida em que o animal se encontra.

Para se ter uma ideia da medida em que os comportamentos são decz'si- vos para o animul, bastam algumas constatações simples:

1. Grande parte da energia dus nutrientes obtidos na alimentação1 é utilizada na construção1 das estrutu- ras de movimentação do corpo e na edificaçãol do sis- tema nervoso e brgãcus sênsoriais, de tal modo que umu enorme proporção da biomassa d o animal estb impli- cada, directa ou indirectamente, no1 seu comporta- mento.

2. A própria obtenção de energia e nutrientes é inseparável dos esquemas de comportamento p l o s quais se procuram e extraem alimentos do meio.

3. A protecção relativamente aos predadores e a resposta aos factoves ambientais hostis são inseparáveis dos dispositivos comportamentats. O mesmo se aplica 2 biologia da reprodução.

A reprodução de uma dada Ave, por exemplo, seria impensável sem o complexo de comportamentos que tornam possível o acasalamento, a construção do ni- nho, a incubação dos ovos, a defesa e alimentação das crias, etc.

4. Finalmente, os animais ao responder activamente às condições do meio1 através de comportamentos espe- cífico - ao seleccionar determinados alimentos, ao evi- tar determinados lugares e procurar mtivamente man- ter-se noutros, determinam parcialmente o( seu nicho e as pressões selectivas a que ficarão sujeitos.

O comportamento torna-se assim um elemento activo no próprio pro- cesso evdutivo.

A selecção de parceiros no processo de acasalamento, por sua vez, leva os caracteres comportamentais a poderem afectar activamente o padrão de fluxo génico nas populações, podendo influenciar de um modo impor- tante o próprio processo de especiação.

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As interacções sociais podem, por seu tiano, desempenhar um papel f andamental na determinação da estrutura, organização e dinâmica das populações.

A própria taxonomia recorre frequentemente a caracteres comporta- mentais para desrriminar espécies dificilmente diferenciáveis apenas com base nos caracteres morfológicos.

LUÍS A. VICENTE VÍTOR ALMADA

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