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Imunidade celular ao antígeno S em pacientes com uveíte endógena

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Imunidade celular ao antígeno S em pacientes

com uveíte endógena*

Cellular immune responses to S-an tigen in endogenous uveitis

J. H. Yamamoto 11• 2• 3' C. E. Hirata 11, 3' C. R. Gonçalves 141 Y. Fujino 151 E. Olivalves 111 J. Kalil 121

Apoio CNPq: Processo 3 0 1 0 1 1 /93 e FAPESP: 94/ 04 1 2-4

"' Divisào de üfialmologia

"' Laboratório de Imunologia de Transplante, Instituto do Coração

"' Laboratório de Investigação em Oftalmologia

141 Departamento de Reumatologia

Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

"' Departamento de Oftalmologia, Universidade de Tó­ quio, Japão.

Endereço para correspondência: Joyce H isae Yamamoto - R. Guará, 9 -Sumaré - São Paulo - SP ­ CEP 0 1 256-050 -Brasil - Fone: (O I ! ) 28293 5 0

-Fax:(O ! I ) 282-2354.

598

RESUMO

A auto-imunidade retiniana desempenha um papel na etiopatogenia de várias uveítes endógenas. Estudos experimentais e ensaios clínicos têm demons­ trado a importância de antígenos retinianos, como o antígeno S (AgS), não somente na patogenia mas também na elaboração de estratégias de imunoterapia. O presente trabalho visa analisar o perfil da imunidade celular in vitro ao AgS e a dois de seus peptídeos relevantes, denominados M e G, em uma população brasileira com diagnóstico de uveíte por doença de Behçet (DB) (n=19), doença de Vogt-Koyanagi-Harada (DVKH) (n=27) e vasculite de retina (n=S) acompa­ nhados no serviço de uveíte do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Pacientes com DB sem uveíte (n=17) e 16 controles normais foram também analisados. A freqüência de respostas positi­ vas ao AgS (índice de estimulação maior ou igual a 2) foi 42%, 52%, 80%, 47% e 25% em pacientes com uveíte por DB, DVKH, vasculite de retina, DB sem uveíte e no grupo controle, respectivamente. A freqüência de positividade ao peptídeo M foi 2 1 % , 26%, 60%, 6% e 6%, e ao peptídeo G foi 2 1 %, 30%, 80%, 6% e 6%, respectivamente. Embora não houvesse diferença estatisticamente significante entre os grupos estudados, o presente trabalho demonstra a importância do AgS em várias uveítes endógenas. Em pacientes com DB sem uveíte o reconhecimento da molécula total mas não dos peptídeos M e G sugere diferentes respostas aos diversos fragmentos do AgS podendo se especular sobre os mecanismos de indução da uveíte.

Palavras-chave: Auto-imunidade; Imunidade celular; Antígeno S; Peptídeos imunodominantes; Uveíte endógena

INTRODUÇÃO

O termo uveíte endógena abrange um contingente de doenças inflamató­ rias da úvea e estruturas adj acentes nas quais alterações imunológicas são fre­ qüentes, porém o agente causal é ainda desconhecido . As uveítes endógenas, em sua grande maioria, resultam em grave prejuízo funcional, sendo impor­ tantes causas de cegueira. A teoria da auto-imunidade retiniana como fator etiopatogênico dessas uveítes foi ini­ cialmente proposta em 1 908 pela ob­ servação de que a inoculação de

antí-genos específicos da retina em animais sadios j untamente com adjuvante indu­ zia uma uveoretinite alérgica ou uveo­ retinite auto-imune experimental (UAE) (experimental autoimmune uveoretini­ tis) a qual se assemelha em vários as­ pectos a algumas formas de uveítes em humanos 1 • 2• Assim, UAE é considera­ da o modelo experimental das uveítes endógenas. O linfócito T CD4+ ativado diante do reconhecimento de auto­ antígenos retinianos é o principal me­ diador da UAE 3. Vários autores têm

demonstrado, em pacientes com uveí­ tes endógenas, a presença de

(2)

de celular in vitro aos antígenos espe­ cíficos da retina, quer sej am, a proteína presente dentro dos fotorreceptores (antígeno S, AgS), a proteína presente no espaço extra-celular entre os fator­ receptores (IRBP), a rodopsina 4• 5 e/ou recoverina. O presente estudo visa a análise da imunidade celular in vitro ao AgS e a dois de seus fragmentos relevantes, peptídeo M e peptídeo G, em uma população brasileira de pa­ cientes com uveíte endógena atendida no Serviço de Uveíte da Clínica Oftal­ mológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universi­ dade de São Paulo (HCFMUSP), em pacientes com doença de Behçet (DB) sem envolvimento ocular, e em um grupo controle, durante o período de novembro de 1 993 a julho de 1 99 5 .

PACIENTES E MÉTODOS

Pacien tes

Pacientes com uveíte com diagnós­ ticos de DB (n= l 9), doença de Vogt­ Koyanagi-Harada (DVKH) (n=2 3 ) ,

Imunidade celular a o antígeno S e m pacientes com uveíte endógena

oftalmia simpáti c a ( O S ) (n=4) ou vasculite de retina (n=5) (Tabela 1) atendidos no Serviço de Uveíte da Clí­ nica Oftalmológica do HCFMUSP fo­ ram analisados quanto à imunidade ce­ lular ao AgS e aos seus peptídeos M e G . Pacientes com diagnóstico de DB porém sem uveíte (n= 1 7) e controles normais (n= 1 6) foram concomitante­ mente examinados. Pacientes com dia­ gnóstico de DVKH e OS foram analisa­ dos em conjunto devido às grandes se­ melhanças nos quadros c línico, his­ topatológico e etiopatogênico e serão definidos somente como DVKH . Os pacientes com DB com uveíte apresen­ tavam quadro bilateral de uveíte ante­ rior recidivante associado à vasculite retiniana. Segundo o critério da escola j aponesa, 9 apresentavam a forma completa da doença e 1 O a forma in­ completa. A atividade de doença ocu­ lar, definida como presença de células na câmara anterior e/ou corpo vítreo, edema de retina, embainhamento vas­ cular e/ou hemorragia perivascular, estava presente em 6 pacientes à época da realização do exame de imunidade

TABELA 1

Características cl ínicas dos pacientes e do g rupo controle.

Entidade clínica Número de Idade média :t DP Sexo Raça Terapêutica

pacientes (variação) FIM BIPIPD/A• sistêmica•

DB com uveíte 19 38 ± 10 (21 -59) 9/1 0 8121712 1 0 DVKH/Oitalmia Simpática 27 37 ± 1 4 (1 2-59) 1 819 1 6/31612 8

Vasculite de retina 5 35 ± 21 (1 8-59) 213 211/2/0 3 DB sem uveíte 17 38 ± 8 (29-56) 1 215 1 4/0/310 6

Grupo controle 16 37 ± 1 5 (22-84) 818 1 6/0/0/0

'8/P/PD/ A = branca/preta/parda/amarela;•Terapêutica sistêmica = consistia em corticosteróide (dose imunossupressora), clorambucil, azatioprina, ciclofosfamida, e/ou ciclosporina.

TABELA 2

Reatividade aos antígenos da retina

Entidade clínica N2 de pacientes AgS Peptídeo M Peptídeo G

DB com uveíte 1 9 8/1 9 ' (42%) 4/1 9 (2 1 %) 4/1 9 (2 1 %) DVKH/Oitalmia Simpática 27 1 4/27 (52%) 7/27 (26%) 8/27 (30%)

Vasculite de retina 5 4/5 (80%) 3/5 (60%) 4/5 (80%)

DB sem uveíte 1 7 8/1 7 (47%) 1 /1 7 (6%) 1 /1 7 (6%)

Grupo controle 16 4/1 6 (25%) 1 /1 6 (6%) 1 /1 6 (6%)

' Número de pacientes com respostas positivas/número de pacientes testados para aquele antígeno.

ARQ. BRAS. OFTAL. 60(6), DEZEMB R0/ 1 997

celular. Dos 19 pacientes examinados, 1 O estavam sob alguma forma de tera­ pia sistêmica ( corticosteróide, cloram­ bucil, ciclofosfamida e/ou ciclospori­ na) . Os pacientes com DVKH apresen­ taram comprometimento uveal difuso. Oito pacientes apresentavam doença ativa com uveíte anterior, edema de retina profunda e/ou coróide, desco­ lamento de retina exsudativo, e/ou ede­ ma de disco óptico. Os pacientes com doença inativa apresentavam altera­ ções pigmentares da retina com aspec­ to de "pôr-do-sol" (sunset glow fun­ dus). Oito pacientes estavam em uso de medicação sistêmica ( corticosteróide e/ou ciclofosfamida) quando examina­ dos. Cinco pacientes com vasculite de retina sem doença sistêmica associada foram incluídos na presente amostra. Todos apresentavam doença ocular em atividade, exceto um, sendo que 3 esta­ vam em uso de medicação sistêmica (corticosteróide) . Um dos pacientes com vasculite de retina sem doença ativa havia sido submetido a panfoto­ coagulação da retina devido à impor­ tante isquemia de retina. Dezessete pa­ cientes com DB sem envolvimento ocular (forma incompleta), em segui­ mento no Departamento de Reumato­ logia do HCFMUSP, foram incluídos na análise. Todos esses foram submeti­ dos ao exame oftalmológico completo e não apresentavam nenhum sinal de uveíte, presente ou passada. Uma pa­ ciente apresentou catarata em decor­ rência do uso prolongado de corticoste­ róide sistêmico, sendo submetida à fa­ cectomia extra-capsular do cristalino com implante de lente intra-ocular bi­ lateralmente. O grupo controle consis­ tiu de 1 6 voluntários de laboratório e da equipe médica, os quais não apre­ sentavam nenhuma doença ocular nem tinham tido contato prévio com antíge­ nos de retina.

Antígenos

O AgS de origem bovina foi purifi­ cado segundo o método de Dorey e col.6. Os peptídeos sintéticos do AgS

(3)

ocupam as seguintes posições do AgS de origem humana 7: peptídeo M 8

(DTNLASSTIIKEGIDKTV) posição 306 a 323 e peptídeo G 9 (GEL TSSE V ATEVPFRLMHP) posição 343 a 3 62 . Os peptídeos foram sintetizados pelo "Byo Science Lab . , Fuj iya Co. Ltd. ", Kanagawa, Japão. O AgS foi testado nas seguintes concentrações : 0,0511M, 0 , 1 11M, 0 , 5 11M e l!lM; os peptídeos M e G foram testados nas seguintes concentrações : 0 , 5 11M, 1 11M, 211M, 411M e I 0 11M. Para a análise dos dados foram considerados os maiores índices de estimulação obtidos dentro das concentrações testadas de antígeno. Fitohemaglutinina (5 11g/ml) (Difc o Laboratories, Detroit, M l , U SA) foi usada como antígeno controle.

Proliferação de linfócitos com mitógenos

O isolamento de linfócitos a partir do sangue periférico de amostras de sangue venoso heparinizado foi feita segundo o método de gradiente de den­ sidade com solução de Ficoll-Hypaque (Pharmacia B iotech, Uppsala, Swe­ den) . A cultura de linfócitos foi feita em meio RPMI- 1 640 (Gibco Laborato­ ries, Grand Island, NY, USA) , acresci­ do de antibióticos (gentamicina e pe­ flacin) e 211M L-glutamina (Sigma, St. Louis, MO, USA), 1 11M piruvato de sódio (Sigma, St. Louis, MO, USA) e 1 0% soro humano normal inativado. Culturas em triplicata, contendo I x 1 0 5 células/poço, c o m o u sem antígeno, em placas de 96 poços (Costar, Cam­ bridge, MA, USA), fundo chato, foram incubadas por 5 dias em atmosfera umidificada com 5% C02 e a 37°C. Nas últimas 1 8 horas, as células foram pul­ sadas com timidina tritiada eH-TdR, TRA. 3 1 0, Amersham Life Science) (0,5 11Ci/poço). As células foram colhi­ das em filtro de fibras de vidro usando o Filtermate 1 96 (Packard) e a radiação incorporada pelas células foi mensu­ rada usando-se o contador beta MA­ TRIX 96 (Direct B eta Counter, Pa­ ckard) . Os resultados são apresentados

600

Imunidade celular ao antígeno S em pacientes com uveíte endógena

em contagens por minuto (CPM) ou índice de estimulação (I.E.) = CPM das

culturas com o antígeno/CPM das cul­ turas sem o antígeno. Os resultados com variação entre as culturas triplica­ das menor que 20% foram considera­ dos . Resposta positiva ao antígeno foi definida como aquela com índice de estimulação maior ou igual a 2,0. A análise estatística entre os vários gru­ pos foi feita através do teste "ANOV A" em uma direção e o teste k2•

RESULTADOS

As respostas linfoproliferativas in vitro , representadas pelo índice de estimulação aos AgS , peptídeo M e peptídeo G nas várias entidades clíni­ cas testadas estão representadas nas figuras 1 a 3 . A freqüência de resposta positiva (IE maior ou igual a 2 ,0) aos AgS e seus peptídeos está representada na tabela 2. Com relação ao AgS , 42% dos pacientes com DB com uveíte, 52%

dos pacientes com DVKH, 80% dos

pacientes com vasculite de retina, 4 7% dos pacientes com DB sem uveíte e 25% do grupo controle apresentaram

1 6

14

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2

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DB com uvelte DVKH

respostas positivas. Com relação ao peptídeo M, 2 1 %, 26%, 60%, 6% e 6%, respectivamente, reconheceram esse peptídeo. Com relação ao peptídeo G, 2 1 %, 3 0%, 80%, 6%, e 6%, respectiva­ mente, o reconheceram. As respostas em pacientes com DVKH e OS se com­ portaram de maneira semelhante.

Quanto ao reconhecimento simul­ tâneo do AgS e de ambos peptídeos, 50% dos pacientes com uveíte por DB, 60% daqueles com vasculite de retina e 27% daqueles com DVKH reconhece­ ram os 3 antígenos, enquanto nenhum daqueles com DB sem uveíte ou do grupo controle os reconheceram simul­ taneamente. Dois pacientes ( 1 3%) com DVKH reconheceram o AgS e o peptí­ deo G e I paciente (25%) com vasculite de retina reconheceu somente o peptí­ deo G. Setenta e um por cento dos pa­ cientes com DB sem uveíte e 80% do grupo controle responderam isolada­ mente à molécula total.

Pacientes que apresentavam res­ postas positivas ao AgS foram analisa­ dos quanto a alguns parâmetros e testa­ dos quanto à presença de algum fator de correlação. Os parâmetros analisa­ dos foram: idade; sexo; raça; atividade

Vasculite

de retina DB sem uveíte controle Grupo

Entidade cliDica

Fig.1 - Respostas linfoproliferativas ao Antígeno S nas várias entidades clínicas. Resposta positiva definida como aquela com índice de estim ulação ;:: 2,0

(4)

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DB com uveíte DYKH

Imunidade celular ao antígeno S em pacientes com uveíte endógena

Vasculite

de retina

DB sem uveíte Grupo

controle Entidade clínica

Fig.2 - Respostas l infoproliferativas ao Peptídeo M nas várias entidades cl ínicas. Resposta positiva definida como aquela com índice de estimulação � 2,0

l O

9

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DB com uveíte DYKH Vasculite de retina

DB sem uvelte Grupo controle

Entidade clinica

Fig.3 - Respostas linfoprolife rativas ao Peptídeo G nas várias entidades cl ínicas. Resposta positiva definida como aquela com índice de estimulação � 2,0

de doença ocular; duração da doença; acuidade visual no melhor olho; acui­ dade visual no pior olho; uso de corti­ costeróide sistêmico; uso de imunossu­ pressores; em pacientes com DVKH, a presença do antígeno do Complexo

ARQ. B R A S . OFTAL . 60(6), DEZEMBR0/ 1 997

Principal de H i stoc ompatibi lidade (CPH) de classe

11

HLA-DR4; e, em pacientes com DB com uveíte a forma da doença (completa ou incompleta) ; . Vinte e cinco por cento dos pacientes responsivos com uveíte por DB e 27%

dos não responsivos apresentavam doença ocular ativa. Em pacientes com DVKH também não houve diferença na freqüência de doença ocular ativa entre os responsivos e não responsivos (28% e 3 1 %, respectivamente). O HLA-DR4 foi testado em 1 7 pacientes com DVKH (6 responsivos e 1 1 não responsivos ao AgS). Um terço dos responsivos e 54% dos não responsivos apresentavam DR4. Em pacientes com DB com ou sem uveíte, 1 9% dos pacientes respon­ sivos e 5 3 % dos pacientes não respon­ sivos estavam sob uso de imunossu­ pressores. Em p acientes com DVKH, nenhum dos responsivos fazia uso de corticosteróide sistêmico acima de 40 mg/dia enquanto que 3 8% dos não responsivos faziam uso dessa terapia. Nos parâmetros analisados não se en­ controu nenhum fator de correlação estatisticamente significante.

DISCUSSÃO

A auto-imunidade retiniana é um fator participante na etiopatogenia das uveítes endógenas. O obj etivo do pre­ sente estudo foi determinar o perfil de resposta celular in vitro ao AgS e a dois de seus peptídeos imunodominantes, denominados M e G, em uma popula­ ção com uveíte endógena por DB, DVKH e vasculite de retina. Além des­ ses pacientes e daqueles do grupo con­ trole foram examinados pacientes com DB sem envolvimento ocular para se comparar com o grupo de pacientes com DB com uveíte e investigar a im­ portância dos antígenos de retina na patogenia da uveíte nessa doença.

Este estudo demonstrou que aproxi­ madamente metade dos pacientes com uveíte endógena por DB e DVKH apre­ sentaram respostas positivas ao AgS, enquanto apenas 25% do grupo contro­ le apresentaram casos positivos. Nos pacientes com vasculite de retina 80% reconheceram esse antígeno. Outro re­ sultado interessante é a presença de respostas positivas em metade dos pa­ cientes com DB sem uveíte. Apesar do

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presente estudo não demonstrar dife­ rença estatisticamente significante en­ tre os grupos, esses resultados são se­ melhantes aos relatados por nós num trabalho similar em pacientes j apone­ ses e norte-americanos 5 . No referido

estudo, a média das respostas prolife­ rativas para o AgS foi estatisticamente significante em pacientes com uveíte por DB ou DVKH em relação ao grupo controle . A menor reatividade ao AgS em pacientes com uveíte por DB em nosso meio poderia estar relacionada à impressão clínica de que nesses pa­ cientes a vasculite de retina parece ser de menor severidade, em relação àque­ la encontrada em pacientes j aponeses. Nesse estudo e em outros 4• 5• 10 a respon­

sividade aos antígenos retinianos foi correlacionada à atividade da doença ocular. No presente estudo essa corre­ lação não pode ser demonstrada, pro­ vavelmente devido ao pequeno número de pacientes com doença ocular ativa no momento do teste (3 1 %) em con­ traste com os 67% no estudo de Yama­ moto 5 .

A doença de Behçet é uma vasculite sistêmica na qual vários fatores pare­ cem participar na sua etiopatogenia, dentre os quais a autoimunidade reti­

niana 1 0 • Assim, um estudo abordando a

auto-imunidade retiniana na DB foi realizado em pacientes com uveíte e

sem uv�íte 1 0 . Alta freqüência de respos­

ta aos antígenos retinianos foi encontra­ da não somente nos pacientes com uveíte mas também naqueles sem uveí­ te, sugerindo que o reconhecimento dos antígenos retinianos pudesse participar como fator desencadeante ou talvez preditivo de uma uveíte na DB. No pre­ sente trabalho abordou-se também esse grupo de pacientes com DB sem uveíte e a mesma responsividade ao AgS foi ob­ servada. Discutiremos a seguir as impli­ cações dessa observação.

A molécula do AgS bovino apre­

senta 404 aminoácidos sendo que vá­

rios epitopos têm sido estudados em detalhes por serem os fragmentos su­ postamente mais patogênicos em

mo-602

Imunidade celular ao antígeno S em pacientes com uveíte endógena

delos animais. O peptídeo M (DTN LAS STIIKEGIDKTV), cuj a seqüência é idêntica em moléculas bovina e hu­ mana, apresenta homologia com várias proteínas presentes no habitat humano

(vírus, pão) 8, sendo lhe atribuído uma

alta patogenicidade e dominância den­ tro da molécula total. O estudo do peptídeo G (GEL TSSEV ATEVPFRL MHP) surgiu ao se analisar os frag­ mentos importantes na molécula do AgS humano, observando-se que esses fragmentos não eram necessariamente os mesmos dos encontrados na molécu­ la bovina. Estudos experimentais com­ provam sua patogenicidade e talvez até sua maior importância em relação ao peptídeo M na molécula humana. No presente trabalho, observou-se que aproximadamente metade dos pacien­ tes com uveíte reconheceram j unta­ mente com o AgS os peptídeos M e G, e que alguns pacientes com DVKH reco­ nheceram mais o peptídeo G, do que o peptídeo M, j untamente com o AgS . Já pacientes com DB sem uveíte reconhe­ ceram em sua maioria somente o AgS e nenhum dos indivíduos do grupo con­ trole responsivos ao AgS reconheceu os peptídeos. Este trabalho corrobora para a importância dos peptídeos testa­ dos e sugere que o reconhecimento do AgS em pacientes com DB sem uveíte é dirigido a outros epitopos que não os peptídeos M e G . A alta freqüência de resposta ao AgS em pacientes com DB sem uveíte em relação ao grupo contro­ le pode indicar respostas diferentes a epitopos diferentes, e que possibilita a especulação de peptídeos "protetores" da doença ou mesmo uma fase precur­ sora do envolvimento ocular nesses pacientes com DB. Estudo realizado

por de Smet 1 1 demonstra que uma di­

versidade de peptídeos do AgS humano é reconhecida por pacientes com uveí­ te, apontando para a dificuldade em se determinar se existiria um único peptí­ deo mais importante para cada doença.

O teste de proliferação de linfócitos de sangue periférico diante de antíge­ nos específicos é um ensaio com boa

reprodutibilidade, porém alguns fato­ res podem interferir nos resultados. A concentração de antígeno que determi­ na uma maior resposta pode diferir conforme a entidade clínica a ser estu­ dada. Assim, para se atenuar esse fator foram testadas várias concentrações de antígenos nos vários pacientes e a maior resposta obtida foi usada para a presente análise. O uso de terapia imu­ nossupressora, com corticosteróide e/ ou imunossupressor, poderia alterar os resultados, suprimindo a resposta do linfócito diante do antígeno. Alguns pacientes estavam na vigência de imu­ nossupressores, não sendo possível a suspensão dos mesmos para a realiza­ ção dos testes por motivos éticos. As­ sim, na análise dos resultados obtidos observou-se uma tendência de freqüên­ cia menor de respostas positivas nos pacientes sob terapia imunossupres­ sora. Por conseguinte, as freqüências de positividade encontradas poderiam ser maiores se todos os pacientes não estivessem sob nenhuma terapia que pudesse influir nos resultados.

O presente trabalho demonstrou que a reatividade ao AgS está presente em pacientes com uveíte de mecanis­ mos fisiopatogênicos diversos. E em­ bora se desconheça a função exata da auto-imunidade nas diversas uveítes, várias formas de imunoterapia utili­ zando-se do AgS têm sido elaboradas. A imunoterapia poderia ser instalada de forma específica ao AgS, mas com efetores não específicos que atuariam sobre as células imunes e inflamatórias presentes no globo ocular que estariam causando ou favorecendo a doença e as suas recidivas. A reatividade encontra­ da em pacientes com DB sem uveíte e no grupo controle aponta para a neces­ sidade de prosseguimento dos estudos no sentido de se estabelecer as diferen­ ças dessas reatividades. Estudos poste­ riores analisando as células envolvidas nessa resposta e todos os demais frag­ mentos envolvidos do AgS nesses gru­ pos de pacientes poderão vir de encon­ tro a essas especulações.

(6)

SUMMARY

Experim ental and clinicai s tudies on S-an tigen (SAg) and other retina ! specijic an tigens h a ve dem onstrated th eir importance not o n ly in th e pathogenesis of various endogenous

u veitis but also in th e elaboration of

n e w forms of immunotherapy. Th e present study aims to analyze the

projile of in vitro cellular im m u n i ty

to bovine SAg and to two of its immu nodominant pep tides, pep tide M

and p eptide G, in Brazilian pa tien ts

with Behçet 's disease (BD) with

u veitis, Vogt-Koyanagi-Harada 's

disease (VKH) , retina / vasculitis, BD with o u t u veitis and in a con tra /

gro up. The fi'equency of positive

responses to SAg was 42%, 52%,

RO%, 4 7% and 25% in patients with

BD with u veitis, VKH, retina/

vasculitis, BD without uveitis and in th e contra ! group, respectively. Th e Fequency of positive responses to

peptide M was 26%, 60%, 6% and

6%, respectively, and, to pep tide G

was 2 1 %, 30%, 80%, 6% a n d 6%,

A RQ B R A S . O FTA L . ô0(6), D EZEM B R0/ 1 997

Imunidade celular ao antígeno S em pacientes com uveíte endógena

respectively. A ltho ugh there was no statistica lly sign ifica n t difference among th e groups analyzed, the present study demonstra ted th e

importance o f AgS in patients with endogenous u veitis. Patien ts with BD without uveitis recogn ized th e whole m o lecule but not the pep tides suggesting tha t there are different

responses to diverse AgS epitopes m aking possible some speculation about the mech anisms of uveitis induction .

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Referências

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