UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL
FILIPE MONTEIRO DA COSTA LAGO
ACONTECIMENTO E VIOLÊNCIA SOCIORRACIAL:
valores e embates contemporâneos no caso DG
Belo Horizonte 2016
1 FILIPE MONTEIRO DA COSTA LAGO
ACONTECIMENTO E VIOLÊNCIA SOCIORRACIAL:
a eclosão de valores e embates contemporâneos no caso DG
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação Social.
Área de concentração: Comunicação e Sociabilidade Contemporânea.
Linha de Pesquisa: Processos Comunicativos e Práticas Sociais.
Orientadora: Profa. Dra. Laura Guimarães Corrêa.
Belo Horizonte 2016
2
3 Às Marias, que seguem em luta
4
AGRADECIMENTOS
5
6 Whites would acuse you of causing trouble when all you were doing was acting like a normal human being instead of crying.
Rosa Parks
7 RESUMO
A presente pesquisa busca compreender de que maneira um acontecimento marcado por violência sociorracial, ao ser dotado de destaque midiático, ganha novas camadas de significados; e quais valores e embates sociais contemporâneos são revelados a partir desse processo de significação. O nosso objeto de estudo se refere ao chamado caso DG, acontecimento desencadeado a partir da morte de Douglas Rafael da Silva Pereira, 23, assassinado por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora instalada numa favela da Zona Sul carioca. Se, normalmente, a relevância midiática dada a atos marcados por violência policial está restrita à tematização em programas policiais e notas em jornais, é possível afirmar que o caso DG foge à regra. Dentre muitos fatores, destaca-se o fato de que Douglas Rafael trabalhava no programa televisivo Esquenta!.
Desse modo, o caso ganhou projeção significativa na grande mídia, além de receber comentários em variadas redes sociais. Com base na reflexão proposta sobre o conceito de acontecimento, a metodologia utilizada na análise articula movimentos próprios do caso DG aos eixos do processo de individuação do acontecimento. Observamos que o objeto apresentou, durante o tempo em que foi tema de debate midiático, três momentos de destaque, todos com significativa reverberação na mídia: o assassinato de Douglas;
a edição de homenagem do programa Esquenta!; as declarações públicas de Maria de Fátima, mãe da vítima, contra a Rede Globo, o programa Esquenta! e Regina Casé.
Com a nossa grade de análise, tecemos uma articulação entre os momentos supracitados e os seguintes conceitos operacionais da análise do acontecimento: a descrição, a narrativização, o pano de fundo pragmático, a caracterização como problema público e a normalização. Entendemos que, a partir dessa análise, será possível acessar os valores e embates contemporâneos construídos nos processos de significação atribuídos ao acontecimento.
Palavras-chave: acontecimento; violência sociorracial; valores e embates sociais;
contemporaneidade.
8 ABSTRACT
This research aims to understand how an event, which was raised by socio-racial violence, acquires other meanings after being highlighted by media; and what contemporary social values and struggles are revealed from these signification processes. Our object of study refers to the occurrence named DG case, a event triggered from the death of Douglas Rafael da Silva Pereira, 23, killed by policemen of a Pacifying Police Unit (UPP) installed in a favela located in the southern area of Rio de Janeiro. Usually, the media relevance given to acts marked by police violence is restricted on thematizing these occurrences in policial TV programs and in notes published on newspapers. DG case is clearly an exception. Among several particularities, the fact that Douglas Rafael used to work in the TV show Esquenta!
stands out. Thereby, the case had gained significant midiatic projection in media, in addition to comments posted on various social networks. Based on the proposed reflection on the concept of event, the methodology used in the analysis articulates the particular movements of the DG case with the axes of the event individuation process.
We noticed that the current object, while debated by media, sprouted three standout moments, all of them with significant mediatic reverberation: Douglas’s murder; the tribute edition of the TV show Esquenta!; and the public statements of Maria de Fátima, mother of the victim, against Rede Globo, Esquenta! and Regina Casé. Our analysis grid proposes to develop an articulation between the moments listed above and the following operational elements of event analysis: description, narrativization, the pragmatic background, characterization as a public issue and normalization. After this analysis, it was possible to understand how this event involved processes of signification that could reveal contemporary values and struggles.
Keywords: event; socio-racial violence; social values and struggles; contemporaneity.
9 LISTA DE IMAGENS
1. Regina Casé, Ludmilla e Sandy interagem com a plateia em uma edição do
programa ... 56
2. Maria de Fátima mostra em foto o atestado de óbito do seu filho ... 61
3. Policiais se aproximam da barricada feita em protesto contra o assassinato de Douglas ... 62
4. Regina Casé abre o programa enquanto todos falam: “vem que vem que vem com tudo ... 63
5. Regina Casé e Larissa conversam sobre o relacionamento entre DG e sua filha Laila ... 69
6. Maria de Fátima relata o tratamento dado ao assassinato de seu filho DG no programa Esquenta! ... 71
7. Algumas manchetes de notícias analisadas sobre o assassinato de DG ... 74
8. Bruna Karla e Maria de Fátima cantam juntas ... 78
9. Regina Casé conversa com Maria de Fátima ... 81
10 LISTA DE ANEXOS
Tabela 1: Caso DG – Primeiras notícias ... 99 Tabela 2: Caso DG – Atravessamento no programa Esquenta! ... 100 Tabela 3: Caso DG – Discurso de Maria de Fátima... 102 Tabela 4: Caso DG – Caracterização enquanto problema público e normalização .. 103
11 SUMÁRIO
1. Introdução ... 12
2. Fundamentação teórico-conceitual ... 19
2.1 Relações sociorraciais e o poder das instituições no Brasil ... 19
2.2 Sobre acontecimento e seus significados ... 34
2.2.1 Algumas utilizações do conceito de acontecimento ... 35
2.2.2 O acontecimento sob o viés do pragmatismo ... 38
2.3 Violência: para onde apontam os conceitos ... 41
3. A individução do acontecimento como uma direção metodológica ... 49
4. Descortinando o caso DG: um acontecimento em três atos ... 52
4.1 Primeiras notícias de um acontecimento em polvorosa ... 53
4.2 Era só mais um Silva? O atravessamento do caso DG no Esquenta! ... 54
4.3 A voz de Maria de Fátima e o acontecimento reavivado ... 58
5. Descrição ... 60
6. Narrativização ... 72
7. Pano de fundo pragmático ... 84
8. Caracterização enquanto problema público ... 87
9. Normalização ... 89
10. Considerações Finais ... 90
11. Referências bibliográficas ... 95
12
1. Introdução
Na televisão, a verdade não importa É negro favelado, então tava de pistola Cadê o Amarildo? Ninguém vai esquecer Vocês não solucionaram a morte do DG Afastamento da polícia é o único resultado Não existe justiça se o assassino tá fardado.
MC Carol
As favelas1 têm, ao curso da história brasileira, se mostrado um objeto a ser abordado e representado pelo senso comum, além de despertar interesse em investigações empreendidas por estudiosas e estudiosos dos mais diversos campos científicos. Talvez pela impossibilidade – e, por conseguinte, incoerência – de agrupar uma gama incontável de interações sociais e práticas culturais variadas em uma só categorização comum, esses estudos, muitas vezes, endossam a ideia estereotípica de uma favela estigmatizada, ora descrita como o reduto da criminalidade e da falta, ora romantizada e glamorizada.
Essas cristalizações acerca do que seria a favela colaboram, cada uma à sua forma, com um imaginário raso e irreal acerca desse espaço social. Quando descrita como o não-lugar, ou o lugar da falta, do terror e da vulnerabilidade àqueles que não a compõem, a favela é encarada como o espaço promotor do crime organizado, do narcotráfico e da violência urbana. No momento em que passa a ser romantizada, a favela é vista como um espaço de constante fruição construído por relações geralmente pacíficas entre todos que por ali transitam (moradores, visitantes, policiais, agentes de saúde, etc.).
Ambas as categorizações ignoram e, por vezes, massacram as relações de opressão que acompanham a história dessas comunidades desde que surgiram, as tensões sociais decorrentes da desigualdade de oportunidades, preconceito de classe e racismo. Ao atribuir a causa da violência urbana aos moradores da favela ou quando ela é abafada em prol da construção de uma imagem positiva da comunidade, elimina- se do debate público a ativa participação da instituição policial em episódios marcados, com frequência cada vez maior, por autoritarismo, hostilidade, tortura e assassinato.
Ao longo dos anos de abandono e negligência por parte do Estado, algumas intervenções na segurança pública das favelas foram empreendidas na tentativa de
1 O léxico utilizado para tratar dos conjuntos habitacionais no Brasil é amplo. Optei por iniciar a reflexão tratando essas comunidades de convivência como favela pela popularidade do nome e por buscar tratar dessas regiões urbanas tidas como periféricas de maneira direta.
13 diluir o poder do crime organizado e recuperar o controle das comunidades. Podemos destacar a implementação das Bases Comunitárias de Segurança (BCS) na Bahia, das Unidades de Segurança Comunitária (USC) no Maranhão e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro.
Essas iniciativas, a priori, deveriam estar comprometidas com o bem-estar da população residente nas comunidades e inseridas em projetos socioculturais locais.
Se tomarmos como exemplo o projeto das UPP, é possível encontrar esse objetivo expresso no 2º parágrafo do decreto-lei número 42.789 de seis de janeiro de 2011, a saber: “devolver à população local a paz e a tranquilidade públicas necessárias ao exercício da cidadania plena que garanta o desenvolvimento tanto social quanto econômico2”.
O que se observa a partir da implementação das UPP em comunidades do Rio de Janeiro é uma realidade que em muito contrasta com os objetivos que constam no projeto efetivado pelo governo do estado. Desde o estabelecimento do programa, não são raros os casos de uso desproporcional da força, violência e abuso de poder por parte dos policiais nessas comunidades. Podemos citar alguns exemplos que recentemente mobilizaram, ainda que de maneira incipiente, o debate público.
Um desses casos desenvolveu-se em torno do desaparecimento de Amarildo Dias de Souza, pedreiro de 47 anos que morava na Favela da Rocinha.
Durante os dias 13 e 14 de julho de 2013, a Rocinha foi palco de mais uma operação de combate ao narcotráfico. Os policiais militares envolvidos na chamada Operação Paz Armada prenderam dezenas de civis sem envolvimento com o tráfico. Com esse argumento, Amarildo foi conduzido à sede da UPP, onde, segundo a versão contada pelos policiais, prestou depoimento e deixou o local sozinho. Desde então, Amarildo nunca mais foi visto, o que mobilizou muitas comunidades, ONGs e pessoas em redes sociais a questionar seu desaparecimento e se posicionar ativamente contra as práticas da Polícia Militar. As investigações concluíram, meses depois, que Amarildo havia sido brutalmente torturado por quatro policiais e a justiça decretou a morte presumida da vítima.
No ano seguinte, a Polícia Militar foi, novamente, responsável por mais uma morte. Cláudia Silva Ferreira, 38, teve o coração e o pulmão perfurados por um tiro durante uma operação da Polícia Militar no Morro da Congonha no dia 16 de março de 2014. Após ter sido baleada, Cláudia foi colocada no porta-malas de uma viatura da PM.
No caminho para o hospital, o porta-malas abriu e Claudia caiu no asfalto. Presa à
2 Disponível em:
<http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/Uploads/DecretoSeseg42.787Upp.pdf>. Acesso em: 25 de junho de 2016.
14 viatura pela roupa, ela foi arrastada por, no mínimo, 350 metros. Hoje, dois anos após a morte de Cláudia, os policiais responsáveis ainda não foram julgados.
Em 2015, veio a público a morte do menino Eduardo de Jesus Ferreira. Ele tinha apenas 10 anos quando foi assassinado por um policial militar, no dia dois de abril.
No intervalo de dois dias em que se deu o confronto entre a UPP e os traficantes do Complexo do Alemão, seis pessoas foram baleadas, dentre as quais, três morreram.
Rafael de Freitas Rodrigues, o policial autor do disparo que tirou a vida da criança alegou legítima defesa com o amparo da Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil. Somente em novembro, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro contestou o resultado do inquérito da DH e denunciou o policial responsável pelo assassinato.
No fim do mesmo ano, cinco jovens negros foram brutalmente assassinados por oficiais da Polícia Militar enquanto estavam em um carro no bairro de Costa Barros, localizado na periferia carioca. Sem qualquer razão aparente, os jovens Wilton Esteves Domingos Júnior (20), Wesley Castro Rodrigues (25), Cleiton Corrêa de Souza (18), Carlos Eduardo da Silva de Souza (16) e Roberto de Souza Penha (16) foram alvo de um fuzilamento em que quatro policiais dispararam 111 tiros, sendo 81 de fuzil e 30 de pistola. Os policiais foram exonerados de seus cargos, após serem acusados dos assassinatos cometidos, com agravante por terem manipulado a cena do crime. Hoje, respondem em liberdade.
Atos de violência como esses aqui expostos estão presentes na realidade cotidiana de quem mora nas periferias dos grandes centros. A injustificável redenção desses crimes diante da chamada guerra às drogas serve de amparo para que o principal poder de controle e segurança pública, o uso abusivo e desproporcional da força, por vezes letal, seja dado à instituição policial. Frente a esse processo de legitimação da violência, o resultado que se tem são os altos índices de mortes causadas por violência policial. Esses índices requerem nossa atenção e, por isso, trataremos disso com mais zelo adiante neste trabalho.
Um breve olhar sobre esses exemplos apresentados nos posiciona diante de alguns aspectos contextuais comuns. Mesmo com a recorrência com que se dão esses atos de violência, não é sempre que eles aparecem na cena pública. Na maior parte do tempo, a relevância midiática dada a esses casos é restrita à tematização em programas policiais e notas em jornais. As mortes de Cláudia, Amarildo, do menino Eduardo e dos cinco jovens fuzilados conseguiram projeção um pouco maior no debate público por conta do engajamento de canais midiáticos independentes e do ativismo em redes sociais. Na grande mídia, no entanto, os casos não ganhariam qualquer visibilidade não fosse por breves aparições nos noticiários, notas em jornais e, ocasionalmente, em suítes quando novas evidências das investigações vinham à tona.
15 É justamente neste ponto, o da projeção e visibilidade midiática, que um caso também marcado por violência policial chamou-me a atenção. Era abril de 2014 quando desenvolvia uma pesquisa precedente a esta, na qual investigou-se, por meio das interações estabelecidas em edições do programa televisivo Esquenta!, formas peculiares de apropriação e representação de elementos da cultura popular. O planejamento traçado para a pesquisa e o caminho que ela vinha tomando se viram postos à prova diante da emergência de um acontecimento frente às notícias do cotidiano.
Anoitecia no dia 22 de abril de 2014, quando portais de notícias começaram a noticiar um protesto que ocorria nas imediações da Rua Sá Ferreira e da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro. Moradores da comunidade Pavão-Pavãozinho protestavam contra a morte Douglas Rafael Pereira da Silva, assassinado por policiais da UPP local. O jovem foi encontrado morto naquela madrugada após uma noite de confrontos entre policiais e moradores da comunidade suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas. No primeiro momento, a cobertura tecida em torno do caso seguiu uma dinâmica comum em casos do gênero, atenta ao desenrolar das investigações. Somente após ter sido tema de uma emissão do programa Esquenta!, do qual Douglas Rafael fazia parte, o acontecimento ganhou destaque midiático e alargou debates.
O programa que, até aquele momento, limitou-se em tematizar de maneira positiva – e muitas vezes superficial – práticas culturais populares, quebrou o padrão habitual ao veicular uma emissão em homenagem ao dançarino e tecer um discurso sobre a paz em busca de um tratamento à situação violenta presente em diversos espaços periféricos brasileiros. Devido a essa abordagem peculiar, não somente o caso relacionado ao assassinato de Douglas Rafael da Silva ganhou projeção midiática, como também o programa se tornou pauta para uma onda de críticas em matérias jornalísticas e artigos de opinião.
Muito se questionou sobre a legitimidade de Regina Casé e os demais produtores do programa para abordar um caso tão delicado. Criticou-se também a postura do programa, acusado de minimizar e omitir a dinâmica abusiva e rotineira da violência policial. No extremo oposto, Regina Casé e o programa como um todo sofreram duras acusações de fazer apologia ao narcotráfico. Foi o caso do artigo intitulado Traficantes assistiram ao Esquenta! comendo pipoca?, publicado no portal online da revista Veja no dia 27 de abril daquele ano. No texto, o jornalista Felipe Moura Brasil, dentre outras acusações, alega que o programa faz uso da “velha estratégia esquerdista de mostrar negros como vítimas predominantes de crimes violentos, sem
16 perguntar se não são também predominantemente ou em grande parte os autores desses crimes?” (BRASIL, 2014).
Nos dias que se seguiram, o caso correu sem grandes alterações ou reviravoltas na cobertura midiática. O caso DG parecia ter desaparecido do debate público quando a calmaria foi interrompida sete meses depois. O caso voltou a ocupar os espaços midiáticos em novembro daquele ano quando, durante um evento em Brasília, Maria de Fátima Pereira, mãe da vítima, deu declarações públicas sobre o tratamento que recebeu durante a gravação do programa Esquenta!. Ao longo de sua fala na SerNegra – Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça, Maria de Fátima disse que foi orientada pela apresentadora e pela produção do programa a se pronunciar apenas quando fosse solicitado e que não poderia falar sobre violência policial. A mãe de Douglas alegou, ainda, que não foi bem tratada durante a gravação e disse que Regina Casé era uma farsa, chamando-a de mentirosa e cretina3.
As declarações de Maria de Fátima foram amplamente divulgadas na mídia, o que levou a apresentadora Regina Casé a publicar uma resposta às acusações em sua página pessoal no Facebook. Segundo Casé, as declarações da mãe de DG não só eram infundadas, como também injustas. A apresentadora disse que elaborou o programa com as melhores intenções e que sempre prezou pela transparência e a verdade4. O discurso de Maria de Fátima e as réplicas de Regina Casé e da Rede Globo alimentaram a cena midiática por algum tempo até que o debate em torno do caso DG cessasse.
O acontecimento exposto acima foi o ponto de partida para a elaboração do projeto que orienta essa pesquisa. Diante das circunstâncias específicas que delinearam o caso DG e frente ao espaço midiático que alcançou na grande mídia – maior que o ocupado pelos demais exemplos aqui citados, entendemos que a dinâmica em que se inseriu esse acontecimento tem muito a dizer sobre o tempo em que vivemos.
Frente a esse cenário e cientes do contexto social em que se deu o acontecimento aqui tratado, adotei como problema de pesquisa a seguinte questão: de que maneira o caso DG, aqui entendido como um acontecimento marcado por violência sociorracial, ao receber destaque midiático, ganha outros significados e, dessa forma, revela valores e embates sociais contemporâneos?
3 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=u9Ha0uNGG1o>. Acesso em 10 de setembro de 2016.
4 Disponível em: < http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/bruno-astuto/noticia/2014/11/bregina- caseb-quebra-o-silencio-e-rebate-acusacoes-de-mae-de-dancarino-dg-nas-redes-sociais.html>.
Acesso em 10 de setembro de 2016.
17 A partir dessa questão, este trabalho está organizado da seguinte maneira:
apresento as reflexões teórico-conceituais que amparam essa pesquisa, em seguida trato da metodologia utilizada e do detalhamento do corpus, para que, por fim, a análise proposta seja apresentada. No primeiro momento, apresento o terreno que serve de base a esse trabalho. Neste ponto reflito sobre as relações sociorraciais constitutivas da sociedade brasileira e que por ela são forjadas. Por isso, este momento inicial busca delinear uma reflexão que aborda temas relacionados às noções de classe, raça, cultura, identidade e diferença. Além disso, trato das questões contextuais acerca das instituições midiática e policial, para que se compreendam as noções de força e poder, bem como da representação de pessoas negras na mídia. Esse será o momento de situar nossa discussão em um contexto com dinâmicas e interações próprias.
Em seguida, a discussão trata de outros importantes eixos conceituais que amparam a questão central da pesquisa. O conceito de acontecimento ganha uma abordagem que abarque algumas das muitas maneiras com que vem sendo apropriado por campos diversos do conhecimento. Feito esse percurso, é possível apresentar o viés pragmatista do acontecimento, no qual essa pesquisa se ampara. A reflexão proposta nesta pesquisa incide, ainda, sobre as percepções acerca do conceito de violência, para que seja possível, dessa forma, tratar das especificidades de um acontecimento marcado por atos violentos.
Em seguida, a pesquisa chega ao seu cerne: a metodologia utilizada, o delineamento do corpus e o trabalho de análise. Analiso o caso DG à luz do processo de individuação do acontecimento (QUÉRÉ, 2011). A minha proposta de trabalho analítico é relacionar três momentos em que o acontecimento ganhou mais destaque midiático aos eixos de análise propostos por Louis Quéré e organizados por Vera França (2011). A partir desse cruzamento, é possível compreender de que modo o chamado caso DG pôde indicar campos problemáticos relacionados ao contexto violento em que se inseriu este acontecimento.
As considerações finais dessa pesquisa apresentam o resultado de análise em conjunto outros tópicos que serão apresentados de maneira conclusiva, mas que também abrem espaço para desdobramentos em pesquisas futuras. Esse espaço de discussão será dedicado a apresentar de maneira breve algumas características que o contexto contemporâneo em que vivemos revela. Nesse sentido, será possível compreender quais normas, valores e embates balizam a sociedade diante da atual conjuntura. De maneira consequencial, os achados de pesquisa levarão à reflexão acerca dos papéis desempenhados pela instituição midiática a partir do discurso que constrói sobre o outro. Buscarei resgatar os resultados da análise da individuação do acontecimento para refletir sobre a maneira com que os veículos de comunicação no
18 Brasil abordaram o assassinato de Douglas Rafael e seus desdobramentos. Dessa forma, é possível acessar, ainda que de maneira pontual e não total – essa não é a pretensão deste trabalho –, quais valores e embates estão presentes na sociedade em que vivemos.
19
2. Fundamentação teórico-conceitual
2.1 Relações sociorraciais e o poder das instituições no Brasil
Antes de apresentar os caminhos conceituais que se anunciam neste trabalho, é preciso dizer que não se pode pensar na formação social do Brasil sem que se leve em conta a colonização imperialista imposta a diversos povos negros de países africanos e a forçada migração para as américas. O abismo de desigualdade racial e social que há anos se mantém na sociedade brasileira tem seu principal alicerce no sistema escravocrata. Para que uma elite constituída por brancos se consolidasse social e economicamente, diferentes nações africanas foram maculadas com a escravidão de pessoas negras.
Ainda que vigore na sociedade brasileira contemporânea a tendência em minimizar ou ignorar o debate em relação ao contraste presente no privilégio ou no preterimento social com base na cor da pele humana, o preconceito racial se fez notar desde que europeus desembarcaram em terras sul-americanas. De acordo com Lilian Moritz Schwarcz, desde que o Brasil ainda era uma América portuguesa, a sua sociedade era distinguida pela cor. Foram muitos os relatos de europeus colonizadores sobre a “nova terra”, que às vezes era descrita como um exótico paraíso e às vezes como representação do inferno ou de um submundo. O que havia de comum em todas as observações enviadas a Portugal era a ausência completa de empatia e o reforço da diferença de um povo sempre narrado sob o olhar de estranheza.
A América não era apenas imperfeita, mas também decaída, e assim estava dado o arranque para que a tese da inferioridade do continente, e de seus homens, viesse a se afirmar a partir do século XIX. O fato é que, seja nas versões mais positivas, seja nas evidentemente negativas, esse então Novo Mundo sempre foi “um outro”, marcado por suas gentes com costumes tão estranhos. (SCHWARCZ, 2014, p. 18)
A planificação do debate racial está também presente em pesquisas de autores cujas obras são consideradas consagradas na construção reflexiva acerca da escravidão no Brasil. Gilberto Freyre, autor reconhecido por ter buscado mapear os caminhos das pessoas negras na constituição da sociedade nacional, é igualmente criticado por sua postura romântica e racista em relação às relações entre pessoas negras e brancas. No estudo que fez sobre os anúncios de compra, venda e busca de pessoas negras escravizadas publicados em jornais brasileiros do século XIX, Freyre (2010) narra, à sua maneira, o tratamento estabelecido entre negras e negros escravizados e pessoas brancas. Ao trazer como exemplo os anúncios publicados por
20 pessoas brancas que buscavam escravos em fuga, o autor descreve os nomes atribuídos às pessoas negras.
É certo que em determinados documentos brasileiros ele [o negro] é apenas coisa: “peça de Guiné”. Certo, também, que, em alguns dos próprios anúncios de negros postos à venda ou incluídos entre objetos de leilão, o escravo é reduzido quase a animal: cabra. Mas do negro fugido raramente o anunciante deixa de dar o nome cristão que abrasileira o negro em pessoa da família sociológica do seu senhor branco. (FREYRE, 2010, p. 70)
Ainda que apresente a inferioridade com a qual as pessoas negras eram tratadas pelas brancas, Freyre atribui o caráter do afeto à relação marcada por violência e opressão. Nas palavras do autor, a atribuição de um nome cristão a uma pessoa escravizada é suficiente para aproximar a relação estabelecida à de uma família. É verdade que a opressão se faz presente em diferentes níveis de interação social, inclusive no familiar, mas ao difundir a ideia de que negros e brancos mantinham uma relação amistosa aos moldes de uma família, Freyre minimiza e apaga da discussão a assimetria da relação de poder e violência que se mantinha durante o regime escravocrata. Para o autor, os anúncios analisados revelavam que, em muitos casos, a busca de um senhor branco a um escravo desaparecido se assemelhava quase à jornada de um pai que procura por seu filho.
Um pai autoritário, severo, exigente, é verdade. Um senhor que castigava os escravos; que os marcava com chicotadas; que os prendia aos troncos; que lhes punha máscaras de flandres para não comerem terra; que os alugava a trabalhos de rua. Mas esse patriarca que punia assim os escravos punia igualmente (grifo nosso) os filhos.
Dentro do sistema patriarcal brasileiro, o menino branco e senhoril – o
“sinhozinho” – era também castigado com palmatória, com vara de marmelo; preso nas cafuas; posto de joelho sobre grãos de milho. O castigo ao escravo, como o castigo ao filho de família, fazia parte de um sistema de educação, de assimilação e de disciplina – o patriarcal – que não podia desmanchar-se em ternuras para com os necessitados de educação, de assimilação e de disciplina. Para se integrarem nos papéis ou nas funções que deviam desempenhar nesse sistema, escravo e menino precisavam ser disciplinados, assimilados e educados pelos brancos e pelos adultos à maneira da época, que era uma maneira da qual ninguém concebia que estivesse ausente a palmatória ou o chicote; o castigo que doesse no corpo; a punição cruelmente física. (FREYRE, 2010, p. 70-71 grifos nossos)
Tal como fez Freyre ao igualar a violência sofrida por pessoas negras escravizadas à punição aplicada em crianças brancas por seus pais, muitas foram as formas de planificar a opressão e apagar do debate público o racismo. Além do contexto violento e desigual aqui descrito, o racismo encontra ramificações em outros campos de prática do ódio humano. Assim, os impactos causados pelo preconceito racial servem
21 de base a outras tantas formas discriminatórias presentes na sociedade atual, como a xenofobia e o preconceito de classe. A diferença de cor da pele, heranças culturais e hábitos sociais foram marcas acionadas para que se propagasse a desigualdade. É com base nessa relação marcada, desde seu início, por opressão e violência, que a sociedade brasileira, como conhecemos hoje, se constitui.
O fim do sistema escravocrata após mais de três séculos de escravidão não foi suficiente para que a população negra recém-liberta se integrasse à sociedade livre.
Sem emprego, renda e estruturas com que contar, as pessoas negras estavam submetidas às decisões governamentais – ou à ausência delas – de um sistema republicano que despontava com a promessa de igualdade racial sem promover mudanças efetivas nas políticas de base para tal (SCHARCZ, 2014). O término da escravidão atrelado à substituição do trabalho escravo pela mão-de-obra de imigrantes italianos fez com que as pessoas negras recém-libertas migrassem aos grandes centros em busca de oportunidades de sustento. Dessa forma, associada ao processo de urbanização das cidades no Brasil, está também a formação de favelas e comunidades periféricas, composta por essa população que buscava um lugar para morar. A partir disso, observa-se que a relação entre raça e classe social no Brasil está diretamente ligada.
Em Sobrados e Mucambos (2015), obra que sucedeu Casa-Grande &
Senzala, também escrita por Freyre, o autor busca retratar a formação social urbana consolidada com o fim do império e o início da estrutura governamental republicana. Os registros do autor destacam as modificações arquitetônicas dos grandes centros, bem como as novas relações raciais e de classe construídas após o fim da escravidão. De acordo com o autor, nessa nova conjuntura social, nota-se o declínio do regime patriarcal, que leva os grupos sociais a estabelecerem relações de maneiras opostas à organização senhor-família-escravos. Ainda que o autor reconheça a manutenção de algumas facetas do patriarcalismo, vejo a necessidade de criticar seu posicionamento, já que a estrutura do patriarcado não só perdura na sociedade brasileira contemporânea, como é também responsável pela permanência de diversas práticas discriminatórias que vão além do racismo.
Outro aspecto destacado pelo autor que demanda um contraponto crítico é a abordagem unidimensional feita por ele em relação às novas relações estabelecidas após o término da escravidão e o começo da formação urbana que encontra nítidos reflexos até hoje. Freyre novamente mostra ter uma visão reducionista em relação às relações sociorraciais no Brasil. De acordo com o autor, “o prestígio variava mais com o poder econômico e as condições regionais de espaço físico do que com a origem social ou étnica” (FREYRE, 2015).
22 Mesmo que a ascensão econômica mostrasse ser uma forma de reconhecimento social, algumas questões ficam de fora da reflexão feita pelo autor. O autor não se preocupa em destacar que, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelo patriarcalismo – por mais que ele defenda o seu declínio como premissa –, a origem social e étnica é uma das principais causas da desigualdade. Quando atribui ao poder econômico maior força enquanto fator de prestígio social em detrimento da origem étnica, Freyre não aborda a extrema dificuldade imposta às pessoas negras em ascender economicamente. Critico a opção do autor em atribuir de maneira generalista às pessoas negras aspectos referentes a uma minoria, também mal descrita por Freyre, que negligencia os obstáculos sociais dirigidos a ela.
A crítica que faço vai ao encontro do que diz a psicóloga e cientista Sílvia Ramos sobre a uma forte tendência que se observa no meio acadêmico e em centros de pesquisa especializados nas questões raciais. De acordo com a autora, os estudos tendem a privilegiar as diferenças de classe como causa da desigualdade entre brancos e negros no Brasil. O que se buscou fazer nesta pesquisa foi apresentar aspectos de uma conjuntura mais ampla e profunda que considerassem o racismo como base do preconceito de classe, não o contrário. Daí opção por compreender o acontecimento analisado como um caso marcado por violência sociorracial.
No âmbito das políticas públicas, programas de combate à “pobreza”
sistematicamente substituíram políticas de reconhecimento das desigualdades de recorte racial. As desigualdades raciais, contudo, resistem a sucessivos planos econômicos, crises e ritmos de desenvolvimento e mostram-se quase intransponíveis. Até no aumento geral de anos de escolaridade, a distância entre negros e brancos se mantém surpreendentemente inalterada. Salários diferentes para trabalhos iguais, dependendo da cor do trabalhador, são registrados até mesmo nas atividades agrícolas. (RAMOS, 2002, p. 6)
Nesta pesquisa, a busca em se pensar a desigualdade social no Brasil enquanto resultado da discriminação racial não é fortuita. Dados divulgados em pesquisas do IBGE revelam que a estrutura presente na pirâmide social brasileira é fortemente marcada pela diferença de raça. Doriam Borges (2002) apresenta informações referentes à disposição da população em relação ao acesso a bens de consumo, nível de escolaridade, inserção no mercado de trabalho, entre outros fatores sociais. O autor utiliza pesquisas divulgadas até o ano de 2001 para mostrar o contraste da sociedade brasileira.
Por ter sido o último país a abolir a escravidão negra e também a nação que mais importou escravos africanos – estima-se o tráfico de quatro milhões de pessoas – , o Brasil tem a segunda maior população negra do mundo, ficando atrás apenas da
23 Nigéria. No ano de 2000, a distribuição populacional de negros e pardos compreendia a 45,3% da população total. A relação entre raça e classe pode ser observada na distribuição econômica do país no ano anterior. Os indicadores de renda afirmavam que 63,6% da população brasileira considerada pobre era constituída por pessoas negras.
Em relação à população considerada indigente, os dados eram ainda mais alarmantes.
O percentual de negros classificados abaixo da linha da pobreza era de 68,8% contra 30,7% de pessoas com pele branca.
Quando se observa a diferença de renda média de assalariados, os dados mostram que em todas os níveis de escolaridade, pessoas negras são menos pagas em relação às brancas. Se pessoas brancas com 1º grau incompleto recebiam em média R$ 506,00 por mês, negros recebiam R$ 447,00. No caso de empregos destinados a pessoas com 1º grau completo, brancos recebiam R$ 633,00 e negros R$ 533,00. À medida que se consideram graus de escolaridade mais elevados, a diferença se eleva ainda mais. Assim, enquanto pessoas brancas com nível superior completo possuíam uma renda média de R$ 2003,00 por mês, negros recebiam R$1278,00. De acordo com os dados analisados, a população negra também representava ampla maioria em relação ao analfabetismo e às taxas de mortalidade e trabalho infantil.
A relação com a instituição policial é outro ponto em que a diferença sociorracial se faz presente. Durante uma pesquisa feita pelo Datafolha em 1997, pessoas brancas e negras foram indagadas se tinham mais medo da polícia ou dos criminosos. Do total de pessoas brancas, 71,2% afirmaram ter mais medo dos criminosos, enquanto, do total de pessoas negras entrevistadas, 52,4% disseram ter mais medo da polícia. Esse resultado encontra amparo no tratamento desigual destinado a negros pela instituição policial. Em pesquisa divulgada naquele mesmo ano, negros correspondiam a 47% da população de São Paulo que já havia sido parada pela polícia. É preciso destacar que a população de São Paulo em 1997 era formada por 25,3% de negros, 73,5% de brancos e 1,2% de outras raças. A vulnerabilidade das pessoas negras em relação à polícia e ao sistema prisional no Rio de Janeiro é ainda maior. Negros correspondem a 59,6% de toda a população prisional do estado e, entre 1993 e 1996, 70,2% da quantidade de pessoas assassinadas pela polícia eram negros.
A pesquisa indica que a probabilidade de negros serem assassinados pela polícia é três vezes maior que o total populacional de pessoas negras nos dois estados.
As dificuldades enfrentadas por pessoas negras recém-integradas à sociedade livre não ficaram restritas ao campo dos reconhecimento social e econômico.
Às pessoas negras foi atribuída a ideia de negatividade e inferioridade intelectual propagada por uma elite branca. A formação sociocultural imposta por essa elite propagou uma ideia de inferioridade dos negros que vai além dos limites do fim da
24 escravidão e perdura até hoje, com contornos bem nítidos. De acordo com Gislene Aparecida dos Santos (2002), muito antes que a noção de raça fosse entendida como um elemento de diferenciação social, a dicotomia entre o simbolismo das cores negra e branca já atribuía à primeira um caráter de negatividade.
O mesmo aspecto é destacado por Schwarcz, que exemplifica como o privilégio da branquitude se fazia presente em diversas instâncias sociais, até mesmo na literatura infantil. Conforme a autora, em muitos livros e contos infantis, o enredo era sempre o mesmo: o sonho de uma pessoa negra poder tornar-se branca.
Dizem que “quem conta um conto aumenta um ponto”. Se o dito é verdadeiro, a insistência na ideia de branqueamento, o suposto de que quanto mais branco melhor, fala não apenas de um acaso ou de uma ingênua coincidência em uma narrativa infantil, mas de uma série de valores dispersos na nossa sociedade e presentes nos espaços pretensamente mais impróprios. A cor branca, poucas vezes explicitada, é sempre uma alusão, quase uma bênção; um símbolo dos mais operantes e significativos até os dias de hoje. (SCHWARCZ, 2012, p. 11)
A própria conceituação de raça no Brasil foi um dos pontos em que questões racistas se sobrepuseram às científicas. Schwarcz reflete acerca da ausência de neutralidade no tratamento de temas relacionados a raça. Dentre as abordagens dadas às pesquisas em torno da noção de raça, a autora destaca uma vertente negativa que ganhou corpo no final do século XIX, em que à miscigenação era atribuídos os problemas da nação. Schwarcz traz como exemplo a pesquisa desenvolvida por Nina Rodrigues, pesquisador da escola baiana de medicina. Para Rodrigues, adepto da corrente científica do darwinismo racial e de modelos do poligenismo, as raças
“correspondiam a realidades diversas, fixas e essenciais, e portanto não passíveis de cruzamento –, acreditava-se que a miscigenação extremada era ao mesmo tempo sinal e condição da degenerescência” (SCHWARCZ, 2012, p. 20, 21).
Até pouco tempo, muitas foram as correntes científicas de cunho racista se valiam do que diziam se tratar de estudos geográficos e biológicos para apresentar a raça negra como uma raça inferior à branca. Ainda que essa ideia não tenha se perpetuado no meio científico, de acordo com Kabengele Munanga (1988), ela e as outras tantas ideologias racistas foram fundamentais no processo de inferiorização do negro. Conforme indica Munanga, essa ideia foi tão fortemente difundida que, pouco a pouco, o próprio negro passou a assimilar que a única maneira de ser aceito em sociedade é por meio da incorporação de valores brancos. A esse processo, Munanga denomina “embranquecimento cultural”.
25 No cotidiano, o negro vai enfrentar o seu inverso, forjado e imposto.
Ele não permanecerá indiferente. Por pressão psicológica, acaba reconhecendo-se num arremedo detestado, porém convertido em sinal familiar. A acusação pertuba-o, tanto mais porque admira e teme seu poderoso acusador. Perguntar-se-á afinal se o colonizador não tem um pouco de razão. Será que não somos mesmo ociosos e medrosos, deixando-nos dominar e oprimir por uma minoria estrangeira? [...] Bem divulgado, o retrato degradante acaba por ser aceito pelo negro, e contribuirá para torná-lo realidade e, portanto, uma mistificação.
Podemos comparar esta situação com a da ideologia da classe dirigente, que é adotada frequentemente pelas dominadas. Ao concordarem com ela, os submissos confirmam o papel que lhes foi atribuído. Assim como o colonizador é tentado a aceitar-se, o colonizado, para viver, é obrigado. Em pouco tempo, a situação colonial perpetua-se, fabricando uns e outros. (MUNANGA, 1988, p.
16)
Como resposta a esse processo de inferiorização, a ideia de negritude ganha força. Ainda de acordo com Munanga, a negritude nasce como resposta racial negra a uma agressão que sofreram, dos brancos, desde o processo colonizador. A negritude se mostra, dessa forma, como um processo de autoafirmação e reconhecimento. Nesse sentido, a negritude representa a emancipação do povo negro que se apresenta em um lugar de diferença em relação ao branco. Resgata-se, assim, a valorização de práticas culturais e elementos simbólicos de origem africana e a afirmação do orgulho negro.
Esse movimento, fundamental à luta por direitos políticos e civis, ganhou visibilidade entre as décadas de 1960 e 1970 por meio dos conflitos que ocorreram nos Estados Unidos naquela época. O engajamento por direitos civis de movimentos sociais negros influenciou aquela geração e reverberou em outros espaços. No entanto, se nos EUA a afirmação negra se deu de maneira mais combativa, na realidade brasileira, essas fronteiras parecem ser menos demarcadas. Esse aspecto encontra referência nas maneiras com as quais a negritude é compreendida nos dois países. Se, nos Estados Unidos, o racismo encontra força nas origens afrodescendentes do indivíduo, no Brasil a identificação da raça negra é feita com base em traços fenotípicos, tais como a cor da pele e a textura do cabelo5.
É bem comum que ainda se propague uma identidade nacional brasileira ancorada no mito da cordialidade propagado por Sério Buarque de Holanda (1995).
Visto sob essa perspectiva, por povo brasileiro se entende aquele que é alegre, pouco
5 Sobre esse aspecto de identificação e autoconhecimento da negritude, é importante destacar que o debate sobre colorismo que tem ganhado força nos últimos anos é fundamental no reconhecimento de diferenças e privilégios entre pessoas negras e no aumento da população autodeclarada negra no país. Para saber mais sobre colorismo, acesse:
<https://www.blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/ > acesso em 12 de junho de 2017.
26 propensos a guerras e conflitos. As diferenças sociorraciais do país com a mais longa escravidão urbana das américas são, dessa forma, camufladas pelo mito do povo cordial. As duras linhas que demarcam o racismo no Brasil são por vezes maquiadas com a noção de uma sociedade da partilha em que negros e brancos ocupam lugares igualitários. Muito se percebe disso no campo das artes, em que brancos fazem uso da expressão cultural negra que emerge de um cenário de resistência e afirmação. De acordo com Ramos, ainda que o racismo no Brasil seja visível e responsável por incontáveis violações de direito e liberdade, em alguns momentos, lugares ocupados por pessoas negras são assimilados, incorporados e muitas vezes apropriados por uma população de elite branca quando lhes é conveniente.
A música é, talvez, o campo da sociedade brasileira que mais incorporou, não só a presença do negro, mas a tematização aberta da problemática racial. Em nenhuma outra esfera da sociedade brasileira se fala tanto das desigualdades e da afirmação da negritude como na música. É interessante notar que a tradição brasileira, especialmente das elites, é praticamente muda em relação ao racismo e econômica em relação à negritude; mas a música brasileira tematiza racismo e negritude o tempo todo. A presença da temática da negritude na música vem da tradição do samba, atravessa muitas fases da música brasileira e chega, hoje, como expressão máxima ao hip-hop, que tem produzido verdadeiros hinos de discussão sobre o racismo, e produz questionamentos abertos ao racismo, indagando-o, desafiando-o, como é da tradição discursiva do hip-hop. (RAMOS, 2002, p. 86)
Outro fator que deixa difuso o movimento negro no país é a ideia de que a sociedade brasileira é uma sociedade miscigenada e que, por isso, ninguém aqui é totalmente negro ou branco. Essa noção é abordada por Liv Sovik (2009), que reflete sobre a tendência que a sociedade brasileira tem de camuflar os contrastes sociorraciais e minimizar o racismo com base nesse argumento. De acordo com a autora, a discussão racial no Brasil é deixada de lado quando, confrontadas em relação a atitudes racistas, pessoas brancas saem em defesa própria com a alegação de que no Brasil ninguém é totalmente branco. Ignora-se, assim, as diferenças raciais e o privilégio branco quando se utiliza da miscigenação como amparo para propagar o racismo livremente.
É preciso destacar que a simples ideia de se valer do argumento da miscigenação para figurar uma sociedade igualitária já pressupõe uma anulação de relações de opressão. Se operada em um regime violento de escravidão e imposição – como ocorreu ao longo de três séculos –, a miscigenação não pode ser reconhecida como um processo natural de vontades e autonomia dos indivíduos. A miscigenação que serve de base para esse argumento de negação da existência do racismo contemporâneo deve ser entendida, antes de tudo, como uma relação abusiva.
27 Schwarcz, no mesmo caminho de Sovik, diz que a elite brasileira não apresenta engajamento real na resolução dos conflitos sociais. A nossa história atesta a tendência em minimizar ou tirar o conflito de debate na esperança de que não se fale mais dele e que problematizações futuras não sejam feitas.
Faz parte de um certo modelo brasileiro negar e camuflar o conflito antes mesmo que ele se apresente de forma evidente. Em 1900, por exemplo, diante da constatação de que este era mesmo um país mestiço e negro, preferiu-se simplesmente retirar o quesito “cor” do censo demográfico. Dessa maneira, embora os censos tenham sido realizados no Brasil em 1872, 1890, 1900, 1940, 1950, 1970 e 1980, o item “cor” não foi utilizado pelo menos em três momentos: 1900, 1920e 1970. (SCHWARCZ, 2012, p. 97).
Essas questões mostram ser mais do que alicerces para o contexto em que o acontecimento analisado nessa pesquisa se insere. Quando entendemos que, ainda que seja extremamente desigual, a sociedade brasileira se vale da cordialidade e da miscigenação como argumento para negligenciar suas injustiças, é possível acessar um quadro de compreensão acerca de acontecimentos marcados por violência sociorracial.
Se tomarmos o caso DG como exemplo, veremos que as questões relativas ao assassinato de um jovem negro em uma comunidade da periferia não alcançam o debate público ou o midiático. O crime motivado por questões sociorraciais passa a ser abafado por uma ideia de ocasionalidade e de violência ampla que poderia ocorrer a qualquer um, de qualquer raça ou classe social.
A noção generalista em relação ao crime cometido e a tantos outros que seguem padrões similares deve ser combatida, sobretudo quando se observa que as marcas do racismo e do preconceito de classe estão institucionalizadas em diversas esferas sociais. É preciso destacar o poder desempenhado pelas instituições nas abordagens relacionadas a raça, na representação e nas forças física e simbólica dirigidas às pessoas negras.
Com forte poder de apontar padrões de influência social, as instituições desempenham papel determinante nas relações humanas. De acordo com Raquel Dornelas, Marta Maia e Fabíola Nascimento (2014), as instituições nascem da perpetuação de hábitos e regras construídos por meio das interações sociais. Nesse sentido, às instituições é associado um caráter histórico devido à impossibilidade em se estabelecer uma instituição em um curto espaço de tempo. A consolidação de uma instituição depende da repetição que se faz de suas atividades e hábitos fundantes até que isso ocorra organicamente, de modo que se mantenha a tendência em não questionar a existência da instituição.
28 Segundo as autoras, outro mecanismo-chave utilizado para que seja possível reconhecer uma instituição é o controle, pelo qual são estabelecidos os códigos de conduta e as normas e valores sociais. As autoras recorrem a Berger e Luckmann, para os quais esses códigos estabelecidos são internalizados na sociedade de tal forma, que as instituições passam a ser compreendidas como estruturas orgânicas
“inalteráveis, como se o mundo fosse feito assim desde sempre, já que a realidade objetiva ofusca o fato de que elas são uma contínua produção humana e que, apesar de serem produto, exercem coerção sobre o mundo social que as produziu” (BERGER;
LUCKMANN, 2008).
De acordo com Berger e Luckmann, a coerção é um dos recursos que ajudam a manter e legitimar a instituição, pois a sociedade prefere não cometer desvios de conduta quando estão cientes de que podem ser punidos por isso. Nesse sentido, a postura social em relação ao que está instituído é também reveladora da força e da estabilidade de cada instituição. A quebra de regras e padrões de conduta estabelecidos pode indicar possíveis falências e crises em algumas instituições.
Amparado pela sociologia crítica em que as instituições ocupam a ideia de construção social da realidade, Luc Boltanski (2011) reflete acerca do que chama de crítica às instituições. O autor aborda o poder delegado às instituições quando as compreende enquanto organismos não-corpóreos6. De acordo com Boltanski, às instituições é delegado e autorizado o papel de afirmar o que deve ou não ser feito.
Às instituições recai a tarefa de dizer e confirmar o que importa. Essa operação supõe o estabelecimento de padrões, que devem ser fixados e memorizados de um modo ou de outro (memória dos mais velhos, códigos de leis escritos, narrativas, contos, exemplos, imagens, rituais, etc.) e, por vezes, armazenados em definições, de modo a estarem disponíveis, quando a necessidade aparecer, para qualificar, em situações de incerteza, estados de assuntos que são objeto de interpretações e usos ambíguos e contraditórios. Em particular, instituições devem distinguir o que deve ser respeitado do que não deve; o que deve ser considerado por hora, em associação com um contexto e como se isso fosse um acidente, e, por comparação, o que se deve olhar mais de uma vez. Isso também implica na distinção do que ocorre, aqui e agora, em relação ao que ocorreu no passado e ao que pode ocorrer em um futuro indeterminado. É por isso que a fenomenologia das instituições atribui a elas, como propriedade essencial, a capacidade que têm em estabelecer entidades duradouras ou, em certo sentido, até eternas. Ao contrário dos corpos individuais daqueles que lhes dão voz, servem, ou simplesmente vivem e morrem nas esferas da realidade que elas podem ajudar a construir e a durar, elas parecem ser removidas do desgaste do tempo. (BOLTANSKI, 2011, p. 75, tradução nossa)
6 Tradução livra para bodiless beings.
29 Quando se atenta ao poder exercido por estruturas já estabelecidas socialmente em relação ao caso DG, observa-se a força de duas instituições em particular: a instituição policial e a instituição midiática. À primeira, responsável pela ação violenta que tirou a vida de Douglas Rafael, delega-se a função social de manter a ordem, proteger a população, investigar atos criminosos e combater a violência. À segunda, através da qual o assassinato de DG foi alçado como um acontecimento, é delegado o papel de informar e estabelecer relações comunicativas entre os indivíduos.
Ainda que a origem da ideia de polícia seja atribuída às civilizações gregas antigas, a organização policial em moldes minimamente similares aos atuais tem influências nas estruturas políticas de controle e segurança iniciadas na França do século XVII e na Inglaterra do século XIX. Foi nesse período, em que se consolidou o modelo de governabilidade baseado na noção moderna de um Estado com poder centralizado e, por conseguinte, o controle da ordem. Para que se entendam as ações praticadas por agentes policiais no Brasil, é preciso compreender aspectos básicos da estrutura de uma instituição mais ampla.
No Brasil, há diversas formações policiais, que, por sua vez, respondem a diferentes instâncias de governo. Enquanto a Polícia Federal, ainda que autônoma, esteja relacionada ao governo federal, as Polícias Civil e Militar são organizações subordinadas aos governos dos estados. Os pilares de estruturas e códigos de cada uma dessas instituições é variado e em muito alteram o processo de formação e ação dos agentes. De acordo com Gilberto Gaspareto (2008), até 1988, não havia na Constituição Federal um texto que delegasse papéis objetivos à polícia. Dessa forma, a instituição não era compreendida como responsabilidade da administração pública.
Além disso, a formação da Polícia Militar como conhecemos hoje tem uma forte influência das Forças Armadas, cujos princípios e códigos foram em sua maioria estabelecidos durante os regimes ditatoriais. Nesse sentido, José Vicente Tavares do Santos (1997) afirma que o processo de militarização da polícia, que encontra seu divisor de águas durante os anos de chumbo, faz com que a ação de policiais bem como as estruturas da instituição passe a conservar um aspecto comum: a violência – e os seus diferentes e desproporcionais usos.
Tratarei de maneira mais detalhada sobre o conceito de violência e suas variadas formas mais adiante. Por hora, destaco o papel que a violência desempenha nas relações entre policiais e os indivíduos que apontam como alvo da ação. Santos diz que, para além do rotineiro uso da violência já legitimada na instituição policial, o excesso de poder concedido à instituição faz com que os agentes dirijam à sociedade o exercício arbitrário da violência física ilegítima. De acordo com o autor, o trabalho policial
30 na sociedade brasileira se destaca por um limite que está constante tensão: o limite da vida.
A vida situa-se como limite seja pelo risco de vida a que se sentem submetidos os policiais, civis e militares, nos campos e cidades brasileiros, devido ao aumento dos conflitos sociais-agrários e à criminalidade urbana violenta; seja a ameaça à vida enquanto efeito de muitas ações violentas de membros das polícias no contexto social brasileiro. Nessa perspectiva, o trabalho policial se realiza sempre na margem da vida, ou no limite da norma social, exercendo um poder de modo próximo ao excesso. (SANTOS, 1997, p. 162)
Apesar de concordar com a reflexão traçada pelo autor, observo a necessidade dirigir aos atos violentos cometidos pela Polícia Militar uma apropriação mais crítica e equiparada ao cenário de vulnerabilidade em que se encontra grande parte da população do Brasil. De minha parte, vejo que o trabalho policial já ultrapassou em muito o limite de que Santos fala. Tenho a impressão de que, ao classificar a ação policial no Brasil como próxima ao excesso, o autor não dá tratamento adequado aos assassinatos, atos violentos e outras formas de tortura aplicados pela PM a grupos sociais específicos. Ainda de acordo com Santos, os fenômenos violentos cada vez mais recorrentes na sociedade brasileira e a consequente ineficácia em combatê-los derivam da falta de um entendimento adequado à presença da violência nas instituições.
Estabelece-se assim uma relação contraditória em que se busca eliminar a violência das relações sociais ao passo que ao Estado é dado total controle e legitimidade para agir com violência sob a justificativa da segurança.
O controle que o Estado detém em relação às instituições policiais colaboram para que sejam perpetuados, na formação de agentes de polícia, normas e valores de conduta em que o uso da violência é autorizado. Conforme afirma Santos, a anomalia que se observa no funcionamento da instituição policial no país tem origem nas transformações sociais ocorridas após o fim da escravidão e ganharam com a legitimação do uso da tortura em presos políticos durante o Estado Novo e o regime militar. A situação violenta do Brasil contemporâneo encontra seu paradoxo após a redemocratização. As formas de governo e as estruturas políticas se democratizaram, mas as práticas autoritárias e opressoras de violência não deixaram de existir. Elas apenas ganharam novos contornos, ocorrem de outras maneiras e, por muitas vezes são assimiladas pela sociedade.
Há, na violência praticada por policiais, um agravante que, na maioria das vezes não encontra respaldo nem visibilidade crítica em esferas sociais. De acordo com Santos, vincular as ações violentas da polícia apenas a determinações políticas e econômicas não é o bastante para que se compreenda a conduta dos agentes. Para o autor, a violência praticada tem direção e alvos específicos.
31 As práticas violentas apresentam uma racionalidade específica, a qual envolve o arbítrio, na medida em que o desencadear da violência produz efeitos incontroláveis e imprevisíveis. Subjacente a todas as formas possíveis de violência, percebe-se – como foco ordenador da lógica de coerção social, como efetividade ou virtualidade nunca esquecida, ou como princípio operatório das relações, o exercício da violência física. Temos, então, o recurso à força e a aplicação da coerção como pertencentes às relações sociais de violência. A violência é fundadora de uma sociedade dividida, atingido mais alguns grupos sociais do que outros: as práticas de violência vão se inserir em uma rede de denominações, de vários tipos – classe, gênero, etnia, por categoria social ou a violência simbólica –que resultam na fabricação de uma teia de exclusões, possivelmente sobrepostas. (SANTOS, 1997, p. 163).
Aos processos de violência presentes na ação policial, Santos reflete sobre um padrão comum. Para o autor, a violência institucionalizada segue na contramão do que deveria seguir uma sociedade baseada em princípios democráticos e igualitários.
Para que se aja com violência, é preciso que o reconhecimento do outro seja suplantado pelo uso da força seja ela coercitiva ou não. Na instituição policial em específico, o autor reconhece duas formas nítidas de violência: a legítima – aquela que é autorizada socialmente e assimilada como normal – e a ilegítima, que geralmente ganha pouco ou nenhum espaço no debate público. O autor ainda afirma que a violência física geralmente é acompanhada da violência simbólica. A última está também presente em muitos dos processos de construção social da realidade pela mídia, outra forte instituição que desempenhou papel importante no acontecimento analisado nesta pesquisa.
Dentre os muitos valores que constituem o que hoje se entende como mídia, a visibilidade possui uma importância central. É em consequência dela que as mídias conseguem levantar questões, mobilizar os públicos e fazer com que discursos e ideologias sejam assimilados. De acordo com Dornelas, Maia e Souza, o desenvolvimento dos meios de comunicação colabora para que se acelerem as mudanças nas instituições. As mídias têm o poder de fazer com que as instituições e seus códigos sejam ouvidos e, ao mesmo tempo, propagar críticas, questionamentos e mobilizações que visam modificar ou até mesmo acabar com práticas institucionalizadas. Isso ocorre, de acordo com as autoras, porque às instituições não está reservado apenas um agir, mas também uma série de discursos, representações e símbolos, que as caracterizam e são responsáveis pela identificação ou não de grupos sociais em relação a elas.
Quando se pensa a inserção da mídia na sociedade, devemos compreender que há estabelecida uma relação de via dupla. Se a mídia a todo tempo oferece à
32 sociedade discursos, símbolos e outras representações, ela “também os busca na vida social, estabelecendo uma relação de mútua-alimentação” (DORNELAS; MAIA;
SOUZA, 2016, p. 98). Através dessa relação, observa-se o poder da mídia em selecionar o que deve ser mais visível e na organização hierárquica das coisas do mundo, bem como na escolha dos discursos que devem ser ouvidos e nas maneiras de construir representações do real. O controle que tem sobre o que é simbólico faz com que a mídia passe a ser compreendida enquanto uma instituição com códigos, padrões, normas e poderes próprios.
Junto com a instituição policial, destaco o papel da mídia na construção do acontecimento que se entende como o caso DG. Não fosse pela ação da mídia, ocupada em descrever, enquadrar e classificar os fatos, o assassinato de Douglas Rafael pela Polícia Militar não teria sido compreendido como um acontecimento. Ao longo da análise que fiz, é possível observar a constante ação da mídia em dar um nome a esse acontecimento, em ocultar o que não era de seu interesse em detrimento da reverberação de algumas questões. Abordo mais adiante nesta pesquisa uma noção ampla do conceito de mídia. Por hora, destaco o poder reservado a essa instituição no tratamento e na representação de temas relacionados a raça e classe.
Ramos atribui às mídias o papel fundamental ao tratamento e ao alargamento do debate racial. A noção defendida pela autora lança aos meios de comunicação uma visada crítica que considera o poder da instituição midiática em difundir ideais racistas e, ao mesmo tempo, representar um caminho viável de visibilidade e influência, sem o qual não se pode pensar as mudanças de outras instituições e a representação empoderadora das pessoas negras. Os meios são, portanto, responsáveis pela tendência em silenciar e naturalizar as desigualdades raciais, mas também são instrumentos poderosos que, se bem utilizados, podem contribuir com a luta pela igualdade racial.
Nenhum processo cultural de superação do racismo, de combate aos estereótipos e de luta contra a discriminação será realizado sem os jornais, a televisão, as artes, a música. Por essa centralidade – e a despeito de ter sido até recentemente pouco explorada pela militância anti-racista –, a mídia tende a ter cada vez mais, na sociedade brasileira, um papel vital na construção de saídas capazes de reduzir a exclusão racial. (RAMOS, 2002, p. 9)
Quando analisou a representação do corpo negro em anúncios publicitários de revistas, Laura Corrêa (2006) buscou acessar as maneiras com as quais se representam as pessoas negras nos meios de comunicação de massa. A pesquisa revelou aspectos relevantes em relação à instituição midiática, sobretudo a publicitária.