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2.2 Sobre acontecimento e seus significados

2.2.1 Algumas utilizações do conceito de acontecimento

Para que seja possível compreender o panorama e a situação comunicativa na qual a questão central dessa pesquisa se inscreve, é necessário caminhar por algumas perspectivas em que o conceito de acontecimento é apropriado. Não pretendendo apresentar aqui a completude da aplicabilidade desse conceito. Busco indicar, todavia, em que áreas do conhecimento o acontecimento é mais usualmente utilizado e qual a sua validade para esses diferentes campos. À medida que abordar neste trabalho as apropriações do conceito, destaco algumas pesquisas que trouxeram resultados bastante relevantes a esse campo de estudo e se mostraram fundamentais na construção temática dessa pesquisa.

Vimos que, ao conceito de acontecimento, uma série de cargas semânticas pode ser atribuída. Ainda que essa ampla noção de acontecimento seja utilizada em

36 larga escala pelo senso comum, o conceito é caro a diversas áreas do conhecimento, como, por exemplo, a história. Neste campo, é possível acionar o acontecimento como elemento orientador do tempo e demarcador de épocas.

É a partir dos acontecimentos que as narrativas são construídas e um passado é remontado. Eles podem, conforme indica Reinhart Koselleck, “ser experimentados pelos próprios contemporâneos como um conjunto de fatos, como uma unidade de sentido que pode ser narrada” (KOSELLECK, 2006, p.135). Quando inscrito nos meandros da temporalidade e do espaço, os acontecimentos são matéria-prima para a reconstrução de fatos e peculiaridades capazes de revelar práticas culturais, comportamentos sociais, normas, valores e códigos específicos de instituições de determinados períodos históricos.

A utilidade do conceito de acontecimento no campo da história vai além da viabilidade de reconstrução de um passado. Conforme François Dosse (2013), o conceito se mostra profícuo para a compreensão da história enquanto campo. Refletir sobre as maneiras com as quais o acontecimento foi apropriado em diferentes períodos históricos é, portanto, um meio de acessar o que se entendia por história em diferentes momentos.

É preciso levar em conta, todavia, que a utilização de acontecimentos para reconstruir períodos históricos é, em geral, uma atividade ideológica, hierárquica e seletiva. Se, num primeiro momento, o estudo do acontecimento sob a perspectiva histórica se mostra de grande valia no registro de situações como as guerras mundiais ou os períodos marcados pelo domínio de grandes impérios, há outros episódios que são excluídos desse circuito tradicional da história. A permanência de uma valorização cultural eurocêntrica em detrimento de outras culturas tem grande impacto na seleção e na organização do que é supostamente mais relevante. Esses outros acontecimentos, ou até mesmo outras visões acerca do mesmo acontecimento, tendem a ser erroneamente entendidos como eventos de menor importância e é nisso que se calca a reprodução de uma história única. Ao deixar claro que na atividade de remontar períodos históricos, há uma escolha bem posicionada na relevância dada a cada um dos acontecimentos, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie debate os perigos da história única durante o evento Technology, Entertainment and Design. Nas palavras de Adichie, “a consequência da história única é essa: ela rouba a dignidade das pessoas. Dificulta nosso reconhecimento da nossa humanidade compartilhada. Enfatiza como somos diferentes, ao invés de como somos iguais”7

7The consequence of the single story is this: it robs people off dignity. It makes our recognition

37 Ao tratar da relação entre narrativa histórica e memória, Paul Ricoeur nos posiciona diante da seguinte provocação: “da escrita da história, também, não se deveria perguntar se ela é remédio ou veneno?” (2007, p. 151). Nesse sentido, devemos estar atentos a esses aspectos para que compreendamos que, em diversos momentos, determinada narrativa histórica se sobrepõe a outras, que, por razões políticas e sociais, ficam de fora do curso da história tradicional podendo, inclusive, caminhar para o esquecimento.

Há outro campo que, rotineiramente, incorpora o conceito de acontecimento como objeto de estudo: a comunicação. Nesse terreno, o jornalismo se apresenta como a atividade prática que se desenvolve em torno dos acontecimentos. Ao tratar dos elementos do jornalismo e das circunstâncias que balizam a produção de notícias, Nilson Lage apresenta seu entendimento em relação ao papel do jornalista frente aos acontecimentos. Em seu tradicional manual prático, o autor define notícia como o relato hierarquizado de uma série de fatos. Ainda assentado na ideia de que narrativa deve ser entendida como a organização de fatos em sequência linear, o autor afasta o jornalismo dessa prática, já que, segundo ele, a estrutura da notícia se baseia na organização de fatos por relevância. Para Lage, a atividade do jornalista “não se trata exatamente de narrar os acontecimentos, mas de expô-los” (LAGE, 2006, p. 17).

Longe de concordar com a visão tradicional de Lage e orientado por compreensões mais atuais em relação à prática jornalística, entendendo que, para o jornalismo, acontecimentos são cruciais no processo de construção da notícia. Cabe aos jornalistas a função de selecionar e lapidar tais acontecimentos, possibilitando o agrupamento e a hierarquização de acordo com o interesse público. Quando se tornam os objetos centrais da narrativa jornalística, aos acontecimentos são conferidos outros sentidos. É neste momento que se destaca a força que o jornalismo tem sobre os acontecimentos. De acordo com Pierre Nora (1988), à imprensa, volta-se um tipo específico de acontecimento:

Aquele onde os fatos se escondem e demandam a crítica da informação, a confrontação de testemunhos, a dissipação do segredo mantido pelos desmentidos oficiais, o colocar em questão princípios que apelam à inteligência e à reflexão, o apelo obrigado a um saber prévio que somente a imprensa escrita pode recordar (NORA, 1988, p. 182).

O acontecimento, quando assimilado pelo jornalismo, funciona de maneira peculiar. Há um interesse na desordem e certa valorização do acidental. No jornalismo,

similar. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg>. Acesso em 08 de

38 a temporalidade do acontecimento tende a ser pautada no interesse público e na velocidade de veiculação, o que, por diversas vezes, torna a narrativa imprecisa, desconexa e pouco linear. É importante inferir que, diante do poder creditado ao jornalismo, a própria narrativa construída em torno do acontecimento original pode ganhar destaque elevado. Dessa forma, o que se fala, escreve ou relata sobre um estopim motivador pode também ser compreendido como acontecimento.

Alguns estudos acerca da relação entre acontecimento e jornalismo defendem a mídia como instituição central na vida humana. Nesse sentido, o acontecimento só existiria quando narrado e descrito pela mídia. Essa perspectiva midiacêntrica ignora a dimensão existencial do acontecimento e passa a compreendê-lo apenas como um produto construído. Eduardo Meditsch (2010) põe essa visão em questão ao criticar a má utilização do conceito de construção social da realidade proposto por Peter Berger e Thomas Luckmann (2010). Segundo Meditsch (2010), ao tratar da construção social da realidade, deve-se compreender o jornalismo como um autor que contribui significativamente para essa construção, mas não como único e principal.