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2.2 Sobre acontecimento e seus significados

2.2.2 O acontecimento sob o viés do pragmatismo

Motivada por tratar das situações cotidianas a partir da prática e das marcas deixadas pela experiência, essa pesquisa busca amparo no pragmatismo, para o qual a comunicação é entendida a partir da interação estabelecida durante a ação. A perspectiva pragmatista, que serviu de base e ganhou ainda mais corpo nas pesquisas de estudiosos como John Dewey e George Herbert Mead na Escola de Chicago entre o fim do século XIX e XX, serve de amparo para reflexões contemporâneas sobre o conceito de acontecimento.

Preocupado com a dimensão de afetação dos acontecimentos, por sua vez, marcados pela experiência, o sociólogo e filósofo francês Louis Quéré propõe que se compreenda o acontecimento levando em conta seu poder hermenêutico, revelador de um passado e um futuro. Sob essa ótica, é possível entender que acontecimentos nos fazem pensar e, em função disso, convocam-nos à ação. O autor ainda salienta que os acontecimentos, quando emergem na realidade cotidiana, provocam rupturas e descontinuidades. Segundo Quéré (2005), como nossa resposta imediata a essa ruptura é a tentativa de resgatar a normalidade dos eventos rotineiros, buscamos compreender, classificar e dar sentido aos acontecimentos, para que, assim, seja possível reduzir nosso estranhamento diante deles.

39 O autor, além disso, propõe pensar o acontecimento sob duas óticas, às quais chama de primeira e segunda vida. Segundo Quéré (2012), as duas formas do acontecimento existem mutuamente em nosso campo de experiência. A primeira vida diz respeito à dimensão existencial do acontecimento, enquanto a segunda vida revela os processos de significação nos quais ele é inserido. Nesse sentido, enquanto na primeira vida do acontecimento, “enfrentamos suas qualidades imediatas e sua força brutal – elas são abordadas pela experiência direta” (QUÉRÉ, 2012, p. 24), na segunda vida acessamos um acontecimento recortado da situação de onde emerge. É neste momento que buscamos compreender o acontecimento e identificá-lo. Na segunda vida, os acontecimentos são compreendidos como objetos simbólicos marcados por sentidos a ele agregados.

À luz desse amparo teórico, esta pesquisa propõe investigar o acontecimento a partir de sua segunda vida, em sua dimensão simbólica, de modo a buscar uma aproximação com o contexto estabelecido durante a sua existência na primeira vida. Com isso, pretendo compreender o acontecimento não como um fato restrito. O entendimento que se deve ter ante a este fenômeno compreende as narrativas, sentidos, discursos e representações construídos em seu entorno, bem como a sua relação com a mídia e com a realidade social sobre a qual e com a qual dialoga.

No Brasil, a perspectiva pragmatista acerca do acontecimento ganhou amparo reflexivo a partir de pesquisas desenvolvidas pelas pesquisadoras Vera França, Paula Simões, Lígia Lana, Raquel Dornelas e Cecília Nascimento no GRIS – Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade da Universidade Federal de Minas Gerais8. Nas pesquisas de Paula Simões e Lígia Lana, o conceito de acontecimento se mostrou profícuo para pensar a relação entre a cultura das mídias e das celebridades. Dornelas e Nascimento tratam em suas pesquisas da relação entre acontecimento, mídia e violência. Nascimento, ao fazer o cotejamento entre dois crimes passionais, recorre ao acontecimento como caminho teórico e metodológico. Dornelas relaciona o conceito de acontecimento à violência a fim de investigar a disputa de sentido inaugurada a partir do movimento black bloc durante as Jornadas de Junho de 2013.

França, ao desenvolver as reflexões propostas por Quéré, aproxima o conceito à nossa realidade brasileira ao mesmo tempo em que o sistematiza e promove

8 O grupo estuda práticas comunicativas a partir da inserção de imagens e representações na configuração de diferentes modos de interação e convivência social. Os trabalhos desenvolvidos no GRIS adotam uma perspectiva relacional acerca da comunicação, que destaca seu lugar no domínio da experiência e do cotidiano. Para mais informações sobre o grupo e suas pesquisas, acesse: http://www.fafich.ufmg.br/gris.

40 comparações com outras matrizes teóricas. Dessa forma, a autora sintetiza a reflexão de Quéré acerca dos acontecimentos compreendendo-os enquanto

[...]fatos que ocorrem a alguém; que provocam a ruptura e a desorganização, que introduzem uma diferença. Eles fazem pensar, suscitam sentidos e fazem agir (têm uma dimensão pragmática). E tais ocorrências curto-circuitam o tempo linear; ocorrendo no presente, eles convocam um passado e re-posicionam o futuro (FRANÇA, 2012, p. 14).

Para que seja possível adotar, nesta pesquisa, uma perspectiva adequada para analisar o caso DG, é preciso tratar da relação entre acontecimento e mídia. A superfície midiática representa mais que um espaço de veiculação de acontecimentos. Na mídia, os acontecimentos ganham outras camadas de sentido, são relacionados e comparados a outros acontecimentos e orientam o debate social, revelando assim problemas e impasses de interesse público. A relação entre acontecimento e mídia está longe de ser externa, conforme indica François Dosse (2013). Segundo o autor, a mídia participa da natureza constituidora dos acontecimentos de que dizem. O autor percebe a recorrência de acontecimentos que existem por meio da mídia e atribui a ela papel de destaque na projeção de acontecimentos que emergem em nossa realidade cotidiana.

A partir disso, quando se direciona o olhar ao caso DG, alguns questionamentos podem ser feitos. Em meio à dura realidade vivida nas favelas brasileiras, moradores dessas comunidades estão sujeitos a sofrer atos de violência e opressão. Não é incomum ler (ou saber de) notícias de jovens negros que foram assassinados por policiais militares, em circunstâncias similares às de DG. Por que, então, o assassinato de Douglas Rafael ganhou tamanha projeção na mídia e alimentou canais de notícia por tanto tempo?

Essa questão não traz respostas imediatas e de fácil elaboração. Todavia, e por isso, ela provoca uma inquietação. A partir desse questionamento, somos convocados a pensar o importante papel que a mídia desempenha na segunda vida dos acontecimentos, projetando-os e revelando problemas negligenciados até então. Essa reflexão me levou a tratar de um conceito que, nos últimos anos, vem sendo amplamente utilizado e debatido no campo da comunicação: a midiatização.

A midiatização, conforme disserta Muniz Sodré (2006), revela diferentes maneiras de interação social balizadas pela mídia, que desempenha expressiva função na organização da sociedade. José Luiz Braga (2006) caminha ao encontro de Sodré, quando indica que a mídia tem participado fortemente dos processos de construção da realidade social, bem como vem alterando e orientando formas de se pensar as relações comunicacionais. Para Braga, a midiatização nos leva, não somente a refletir acerca

41 das mudanças nos modos de interação, mas, também, nas maneiras com as quais a sociedade se organiza, as instituições se estabelecem e as práticas sociais se alteram. Diante do conceito de midiatização, não pretendo restringir à mídia o protagonismo das interações sociais, tampouco atribuir a ela a noção midiacêntrica de completa construção da realidade e dos acontecimentos. O conceito de midiatização se mostra útil para que seja possível compreender a mídia enquanto instituição forte, influente em questões sociais e opinião pública. Se a mídia se faz presente em nossas relações sociais, é natural pensar que a ela é conferido o poder de hierarquizar as situações que ocorrem em nosso cotidiano e torná-las visíveis em detrimento de outras. A partir do destaque midiático alcançado pelo caso DG e sob a égide deste amparo conceitual, busco compreender de que maneira o acontecimento, ao produzir rupturas e ser revestido de sentidos quando narrado pela mídia, pode dizer de um contexto mais amplo. Interessa-me, por meio disso, compreender um cenário contemporâneo marcado por fortes embates sociais, cujos valores podem ser revelados a partir da análise deste acontecimento.