A R T I G O zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
EDUCAÇÃO EM DEBATE
Renata Queiroz Maranhão!
T e r r o r c o t i d i a n o
e p r o d u ç ã o
d e m o d o s
d e s o c i a b i l i d a d e
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ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAR e s u m o
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p r e s e n t e a r t ig o a v a lia a p r o d u ç ã o e d if u s ã o do m e d o no c o t id ia n o p o r u s u á r io s da in t e r n e t , b a s e a d o na a n á lis e de c o r r e s p o n d ê n c ia s e le t r ô n ic a s do t ip o hoaxes ou e - r u m o r e s ( r u m o r e s e le t r ô n ic o s ) .GFEDCBAO t e x t o p r o c u r a v e r if ic a r de q u e m o d o o s e - r u m o r e s s e f o r m a m , a p o ia n d o - s e em o d if ic a n d o of u n c io n a m e n t o de c o r r e s p o n d ê n c ia s do t ip o c o r r e n t e da s o r t e . P r o p õ e q u e e n t r e a s a n t ig a s c o r r e n t e s da s o r t e e a s a t u a is c o r r e s p o n d ê n c ia s e le t r ô n ic a s e s t a b e le c e - s e ump r o c e s s o de d e s c o n t in u id a d e nof u n c io n a m e n t o dom e d o em q u e , nop r im e ir o c a s o , om e d o s e lig a a e le m e n t o s s o b r e n a t u r a is e, no s e g u n d o , om e d o t o m a c o m o a lv o p e s s o a s e o b je t o s do c o t id ia n o . D e s s a f o r m a , p r o p õ e um m o d o de s o c ia b ilid a d e b a s e a d o na d e s c o n f ia n ç a do o u t r o e na d if u s ã o c o n s t a n t e da in s e g u r a n ç a em d iv e r s a s e s f e r a s do c o t id ia n o .P a la v r a s - c h a v e s : M e d o . C o t id ia n o . M o d o s de s o c ia b ilid a d e . I n t e r n e t . E - r u m o r e s .
A b s t r a c t
Daily terror and production of the modes of sociability on the internet: an analysis of electronic rumors
T h e a r t ic 1 e e v a lu a t e s t h e p r o d u c t io n a n d t h e d is s e m in a t io n o f f e a r a m o n g in t e r n e t u s e r s b y a n a ly z in g e - m a ils e n t it le d h o a x e s o t e - r u m o r s ( e le c t r o n ic r u m o r s ) . I t a im s t o v e r if y h o w e - r u m o r s a r e f o r m e d , m o d if y in g and s u p p o r t in g t h e f u n c t io n o f m a ils s u c h a s lucky chains. T h e a u t h o r a r g u e s t h a t b e t w e e n t h e o ld lucky chains and t h e r e c e n t e - m a ils , ap r o c e s s o f d is c o n t in u it y is e s t a b lis h e d a s af u n c t io n o f f e a r . B e c a u s e o f t h a t , in t h e f ir s t c a s e t h e f e a r is c o n n e c t e d t o s u p e r n a t u r a l e v e n t s w h ile in t h e s e c o n d t h e f e a r t a k e s p e o p le and o b je c t s o f e v e r y d a y lif e a s t a r g e t s . A s a r e s u lt , t h e n e w s o c ia b ilit y is b a s e d on d is t r u s t o f t h e o t h e r and c o n s t a n t s p r e a d o f in s e c u t it y in d if t e r e n t a r e a s o f d a y - t o - d q y . lif e .
K e y w o r d s : F e a r . D a ily r o u t in e . W a y s o f s o c ia liz a t io n . I n t e r n e t . E - r u m o r s .
1Professora da Faculdade de Educação de Itapipoca da Universidade Estadual do Ceará (Facedi-Uece) e aluna de doutorado do
Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: [email protected]
I n t r o d u ç ã ozyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
"Tomado de estupor, fiquei de cabelos
arrepiados e sem voz."ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA ( V ir g í lio )
Montaigne (1991), no início do século XVI, dizia do medo como uma violenta força que rompe com o cotidiano e é capaz de desestabilizar a boa consciência de quem sofre seus efeitos. O filósofo coloca o medo ao lado do poder justamente quando aquele rompe com o cotidiano. Em seu texto, o amedrontado é o guarda de subúrbio, ou uma tropa inteira, que ao se defrontar subitamente com o inimigo de guerra perde a capacidade de discemimento. Impossibilitado de decidir, outros acidentes são decorrentes de tais encontros. Ele nos fala, fundamentado em textos de filósofos da Antiguidade, de um instante na guerra em que o medo pode ser capaz de decidir o seu destino: o momento do assalto. A associação que faz entre o medo e o assalto na guerra não deve ser desprezada, visto que é um evento raro e decisivo. A oposição entre medo e cotidiano marca o texto de Montaigne, assim como a associação entre medo e acidente (o medo como algo que surge de um acidente e provoca novos acidentes).
Quatro séculos depois, escreve Deleuze (1998, p. 75): "Os poderes têm menos neces-sidade de nos reprimir que nos angustiar, ou, como diz Virilio,de administrar nossos pequenos terrores íntimos". Deleuze coloca o medo cor-tando o nosso cotidiano, movimencor-tando-o e até mesmo compondo-o. O medo, já antes instru-mento de tomada de poder, não pode escapar aos cálculos do poder que se exerce no cotidiano e através dele (cf. FOUCAULT,1999). O medo deve, ao máximo, sair da esfera do acidente e entrar no ãmbito do controle contínuo, calculado e planejado que se exerce sobre e através das vidas cotidianas.GFEDCBAÉ , portanto, no detalhe do cotidiana -que encontraremos uma organização do medo que tem por finalidade estabelecer o controle social.
O objetivo do presente texto é analisar a produção e disseminação do medo cotidiano exercitadas por usuários da intemet mediante correspondências eletrônicas que vem sendo chamada de h o a x e s ou e-rumores.
O texto procura avaliar de que modo tais correspondências eletrônicas se formam, de que maneira se apóiam e modificam o
funcío-namento das formas tradicionais de comu-nicação, compondo assim uma novidade que interfere na produção de subjetividades e nos modos de sociabilidade contemporãneos. Trata, específícamente, da passagem que se dá das correntes da sorte para osh o a x e s . Entre eles há uma série de elementos comuns, tais como: o apelo àdistribuição, a promessa de dádiva a ser alcançada etc. E é justamente por possuir tantos elementos comuns que os h o a x e s têm sido pensados como a nova forma de correntes da sorte ou a continuação das lendas urbanas (ver www.e-farsas.com.br).
Porém, se analisados como uma conti-nuidade apenas transposta para os meios eletrô-nicos, perde-se de verificar aquilo que nesses modelos de comunicação deixa de ser repetição e inclui a diferença. Importa considerar que, uma vez que subsista de modo desigual, provoca efeitos distintos dos que eram ante-riormente provocados. Daí a importância de pensar o que há de diferente para que se possa compreender também a dissimilitude de seu funcionamento e de seus efeitos.
A s c o r r e n t e s d a s o r t e
Esta corrente vem da Suazilândia. Foi começa-da por Frei Pantaleão começa-das Mercês, missionário ao norte de Moabane, e deve dar quatro vezes a volta ao mundo, sem qualquer interrupção. . Faça 48 cópias, mande-as a seus amigos ou
co-nhecidos, e terá uma surpresa agradabilíssima dentro de nove dias. Se não for supersticioso, preste atenção no seguinte:
1) O coronel Tapitang, depois de copiar e ex-pedir, ganhou 100 mil dólares no Iansquenês, uma semana após.
2) A doutora Zerbinda Pucks, que recebeu e rasgou, foi fulminada por derrame cerebral ao fim de quatro dias.
3) O romancista Ludwig Kostelreuter, tendo copiado e passado adiante, foi presenteado por
uma admiradora com um castelo na
Dina-marca, na manhã seguinte.
4) O ministro Leopold Pagabert, da câmara de Finanças de Heligville, não quis perder tempo
em cumprir a recomendação, e o teto do seu
gabinete desabou sobre ele, três dias depois, esmagando-o.
Não vacile. Não descreia. Não escarneça. Faça você mesmo as cópias e ponha-as no correio antes que seja tarde: dentro de 48 horas e não mais. (DRUMMOND DEANDRADE, 1977).
95
ÉzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAcom11Corrente da sorte" que Drummond
inicia seu livro de crônicas intituladoZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAD ia s
L in d o s , escrito em 1977. Quem a recebe é João
Brandão, um quase cético que, apesar de não acreditar no poder da corrente lhe fornecer qualquer tostão ou mesmo alguma desgraça, pensa que tem a Obrigação de fazer cumprir a determinação expressa na correspondência recebida: enviar 48 cópias em 48 horas.
Para João Brandão trata-se de um exer-cício a ser cumprido: por ser adepto da "frater-nidade universal" , ele crê que as correntes 11são um dos raros meios de ligação positiva entre os habitantes do planeta" (DRUMMOND DE ANDRADE,1977, p. 12). Empenhou-se, portanto naquilo que cria ser um "projeto gradualista de satisfação universal" (p. 13).
Apesar de não acreditar, João Brandão avalia que mandar as correntes pode fornecer fortuna para 48 pessoas. Essa crença desacre-ditada faz parte daquilo que Drummond des-creve como sendo um "exemplo do que sucede a tantas coisas que nos provocam reações duplas, triplas ou múltiplas, sucessiva ou simul-taneamente" (p.1 6 ). De sorte que se puder ser
descrito um certo estado de disposição para João Brandão, far-se-á de modo a convencer o leitor de que ele estava convicto de que talvez não pudesse haver benefício algum no seu exercício, entretanto, certamente nenhum male-fício poderia ser provocado.
A corrente que chega às mãos de João Brandão é um exemplar típico de uma série de correntes muito comuns há três ou quatro décadas e que persistem até hoje. Tais correntes podiam ser recebidas via correio, encontradas no chão da casa postas por debaixo da porta ou ainda nos bancos das igrejas. Elas falam de seres e lugares inacessíveis ou até mesmo inexistentes. Um reino distante da África e pessoas que, caso tenham de fato existido, jamais poderiam ser encontradas para atestar a veracidade das informações fornecidas.
Ainda que a nobreza e o clero façam parte da materiálidade mais ou menos próxima em nossas vidas, muitas dessas correntes com-portam personagens como anjos e santos mila-grosos capazes de fornecer um naco qualquer de felicidade ou riqueza. O povoamento de seres "transmundanos" é uma característica im-portante, pois revela que ao enviar as correntes,
2otexto foi integralmente mantido, incluindo erros gramaticais que nele estão contidos.
3Extraído de uma corrente sobre Samara, criança morta após um acidente de bicicleta, no interior do Paraná.
ao se conectar com esse tipo de texto, os seus remetentes conectavam-se também com sua fé, seja ela em uma possível ligação terrena e universal, como no caso de João Brandão; ou a fé nos santos, almas e anjos como seres capazes de intervir direta e positivamente em suas vidas.
A corrente que se segue serve de exemplo:
Era uma vez 20 lindos anjos. 10 tiravam uma soneca sobre as nuvens, 9 brincavam juntos e 1 pequenino está acabando de ler essa mensa-gem. Eu te adoro. Envie essa mensagem a 10 pessoas que você gosta muito, a mim também, se eu estou entre eles, se 5 forem enviadas de volta para você, amanhã 1 pessoa que você ama
muito te fará uma surpresa ... Recebi esta
mensagem hoje cedo e me lembrei como é bom contar com amigas especiais como vocêsl?
Uma vez que o exercício seja realizado, cumpre-se o tempo de espera: nove dias, uma noite, ou uma espera indeterminada. A espera de um milagre ou de uma realização inusitada. Deve-se esperar o tempo do sobrenatural,
um
tempo sobre o qual não se tem controle, mas que fatalmente chegará. Tais correntes não .tratam especificamente do que acontece na vida terrena e atual, ainda que venham a se abater sobre ela. Ao contrário, os únicos determinantes explícitos são o de provocar comunicação com mais pessoas (como bem pensou João Brandão) e o estabelecimento da fé. Pela fé pode-se alcançar a boa sorte: dinheiro, uma surpresa do ser amado, ou ainda, fazer a alma de uma criança de 13anos, que teve morte súbita em um acidente de bicicleta, descansar empaz".
A fé aqui é um traço distintivo que deve ser pensado. A fé é aquilo que envolve alguém com seu santo. É a relação da pessoa com o
sobrenatural, que, nesse caso, é atestada por seu esforço ao transmitir as correntes. No caso de João Brandão, é necessário datilografar ou manuscrever e depois enviar 48 cópias em 48
horas. Uma tarefa que visa disciplinar o desti-nador para os atos de fé. Talvez por isso mesmo as igrejas tenham sido lugares tão propícios à sua distribuição.
A pouca fé é demonstrada pelo não envio da corrente a outras pessoas. E foi a recusa a enviá-Ia que levou "a doutora Zerbinda Fucks, que Ia] recebeu e rasgou, Ia ser] fulminada por derrame cerebral ao fim de quatro dias" (DRUMMOND DE ANDRADE, 1977). E foi também a falta de fé que propulsou, no "dia 15 de julho, Mariana Ia] rir dessa corrente e uma noite depois ela sumiu sem deixar vestígios. "4
Nesse tipo de corrente, o medo - provo-cado pela força de alertas trágicos e sobre naturais - exerce papel disciplinador. A men-sagem explícita evidencia que a ausência de fé e o não cumprimento da tarefa podem acarretar danos irreparáveis. O medo é então est.imulado da seguinte forma: caso você não acredite e se furte à consecução da tarefa, algo pode lhe acontecer: perda de rendas, adoecimentos, mortes trágicas ou ainda aparições sobre-naturais. Tais acontecimentos são de autoria dos seres sobrenaturais e se voltam contra o incrédulo, num círculo que se refere exclusi-vamente a um "transmundano", ao destinatário e a sua fé. O medo, junto com a crença, toma parte do tempo, do corpo e da mente do indi-víduo, para colocá-lo na função de prova de fé, pela transmissão de uma corrente.
Tem-se, portanto, aqui explicitados seis elementos funcionais das correntes da sorte: 1) a proposição de um exercício ao destinatário (o de enviar a corrente a um certo número limitado de pessoas); 2) um contágio de fé religiosa entre sujeitos pela comunicação; 3) a narrativa que se desenvolve a partir da atuação de seres sobrenaturais ou inacessíveis aos sentidos humanos imediatos; 4) o tempo marcado pelo prazo de realização da tarefa e pela espera do bem alcançado; 5) o tipo de bem a ser alcançado: um milagre; e 6) a utilização do terror como forma de disciplinarização do crédulo a questões sagradas, num círculo fechado entre o fiel, o sobrenatural e sua fé.A
A s n o v a s c o r r e n t e s : o s
hoaxes
Embora se encontrem ainda hoje as tradi-cionais correntes da sorte (e, excetuando a proveniente da literatura, todas as citadas neste texto circulam atualmente na internet), elas dividem o lugar, antes absoluto, com um novo
tipo de corrente que vem sendo denominadaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
h o a x o u ainda e-rumores".
Entenda-se por h o a x e s aquelas correntes eletrônicasGFEDCBA(e -m a íls ) que chegam como um
serviço de utilidade pública que deve ser di-vulgado a todos os conhecidos. São comuni-cações massificadas e diferenciam-se do s p a m , uma vez que este está associado ao m a r k e t in g empresarial. Geralmente, os e-rumores chegam ao destinatário através de uma longa cadeia de encaminhamentos. Quem os envia é um conhecido que, com pouco esforço, redireciona-os a todredireciona-os redireciona-os seus contatredireciona-os. De qualquer modo, o emissor conhecido se empenhou na tarefa a cumprir, já determinada pelo h o a x : "PASSE ESSA MENSAGEM A TODOS QUE VOCÊ CONHECE!!"
Esse tom apelativo não aparece apenas quando é pedida a divulgação da mensagem. Ao contrário, o apelo parece ser a forma geral do funcionamento metalingüístico dos e-rumores. A profusão de sentenças digitadas em CAIXAALTAe a enorme quantidade de pontos de exclamação evidenciam que o objetivo maior dos h o a x e s é a apelação. Poder-se-ia dizer que, assim como as correntes da sorte, ele funciona como um vocativo. Ele é uma fala que se dirige a uma segunda pessoa, tem funções específicas de interpelar o outro e colocá-lo em uma determinada posição, de modo a fazê-lo
responder de alguma forma. Nos dois casos, sem dúvida, trata-se de dar continuidade à
transmissão das correntes. E em ambos, o medo é parte motriz de tal exercício.
A despeito da semelhança, muitas diferenças subsistem, pois é justo nessa continuidade, nessa repetição do medo, que algo se separa, que se diferencia. Enquanto o medo, nas correntes da sorte, está restrito ao círculo de uma prova de fé marcada pelo exercício de um certo número de cópias e envios em um tempo determinado, nos e-rumores o próprio exercício é alterado, chegando a ser quase suprimido. Menos que o exercício, elemento mais importante no funcionamento das correntes da sorte, o que sobressai nos rumores eletrônicos é o medo agindo em outro território.
Se as correntes da sorte determinavam a quantidade de pessoas a quem deveriam ser reencaminhadas, no caso dos e-rumores pede-se encaminhamento ilimitado: "não deixe de
• Idem.
5Dauphin (2004) prefere a terminologia e-rumores por acreditar que as comunicações não objetivam a difusão de informações relativamente plausíveis. Utiliza-se, neste artigo, indistintamente os dois termos.
9 7
repassar essa mensaçem'", "passe adiante, afinal você pode ajudar um amigo a não ser a próxima vítima?".
Essa característica do ilimitado associa-se à rapidez com que associa-se pode cumprir a tarefa proposta. A datilografia e/ou a tarefa de cópia manual de um texto a ser postado pelo serviço de correio são suprimidas, bastando apenas
uma pequena quantidade de cliques noZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAm o u s e atrelado ao computador. Desse modo, a notícia
espalha-se numa velocidade e com alcance surpreendente, não sendo necessário grande esforço para a execução de tal objetivo. Dauphin (2004) avalia que se cada pessoa tem em média dez endereços em sua caixa postal, em duas gerações de mensagens cem indivíduos a receberiam e em seis gerações o número de pessoas a tomar conhecimento do rumor sobe para um milhão de pessoas.
A velocidade da transmissão da infor-mação, segundo Virilio (1996), é o que garante a consecução de um é t h o s comum, com poucas variações regionais. Para ele,
[...] uma vez eliminada essa perspectiva espa-ço-temporal pelos efeitos de aceleração das técnicas de comunicação, todos os homens sobre a terra terão alguma chance de serem mais contemporâneos que cidadãos e de
evo-luírem simultaneamente do espaço contíguo
e contingente do velho Estado-Nação (ou
Cidade-Estado) abrigando o demos, para a
comunidade atópica de um Estado-Planeta" (VIRILIO, 1996, p. 40, grifos do autor).
Nesse sentido interessa observar que grande parte dos e-rumores é tradução quase direta (modificando-se apenas endereços, nomes de pessoas e outros pequenos elementos) de textos criados nos Estados Unidos (verGFEDCBAw w w .
e-farsas.com.br). Ou seja, o que se conta que aconteceu por lá e os efeitos que lá provoca, transfere-se para o Brasil como se os brasileiros estivessem sujeitos às mesmas condições do lugar onde foi originado oh o a x . O mesmo pode ser dito em relação a textos que falam (também
aos nordestinos) de roubos e seqüestros que, caso tenham existido, ocorreram em um s h o p p in g da região Sudeste do Brasil.
Esse apagamento das diferenças regio-nais é tão intensificado que correntes eletrônicas têm seu conteúdo modificado dentro do mesmo país. Um h o a x e , que avisava sobre roubo e seqüestro no cinema do Shopping Iguatemi em São Paulo, poucos meses depois chegava com uma pequena e única modificação: a palavra São Paulo era substituída por Fortaleza.
Deduz-se de toda essa discussão mais uma diferença. Se nas correntes da sorte o palco dos acontecimentos é um reino distante da África ou o lugar de morada de anjos e santos, nos rumores eletrônicos fala-se de cenários que parecem reais e de crimes que, pensa-se, poder, acontecer com qualquer um. "Não ande sozinha em ruas estreitas, nem dirija em bairros mal-afamados à noíte?", alerta um h o a x sobre como se proteger em relação a seqüestros; "esses caras estão atuando em bares, estacionamentos próximos de faculdade etc."lO, avisa um rumor sobre um golpe do perfume; "numa discoteca, festa ou jantar, não larguem seus copos para ir dançar e voltar a beber nele"11, clama uma
corrente sobre e a s y d a t e , uma nova droga no mercado. Os exemplos poderiam multiplicar-se, entretanto estes são suficientes para argumentar que osh o a x e s saem do mundo celeste e descem à terra a fim de alertar a todos sobre os perigos do mundo cotidiano.
Ao mesmo tempo que os e-rumores descem para o mundo terreno, para falar de lugares próximos, novas personagens vão com-pondo a trama que se encerra nas corres-pondências. Nada mais de anjos, santos ou integrantes de uma corte distante. Fala-se da cidade e de seus habitantes e, nesse momento, faz-se uma divisão binária da organização da cidade, dos seus habitantes, em tomo de vítimas e culpados.
Importa observar a inversão no enten-dimento sobre a posição e, s t a t u s social de grupos economicamente minoritários. De víti-mas de um sistema social perverso passam
6Extraído de umhoax sobre cuidados com extensão de telefone pelo comando vermelho.
7Extraído de umhoax sobre nova forma de assalto envolvendo limpadores de vidros de carros em semáforos.
8Interessante observar que essa perspectiva do Estado-Planeta também se configura no campo do Direito. Bobbio (2004),
diferentemente de Virilio, vê nas regulações provocadas pelo direito internacional não a supressão do cidadão, mas a possibilidade da criação do cidadão do planeta, um novo cidadão não mais limitado a um Estado-Nação, um cidadão globalizado.
9Extraído de umhoax sobre como evitar e/ou agir em casos de seqüestros. 10Extraído de um hoax sobre o golpe do perfume.
I IExtraído de um hoax sobre easy date, nova droga no mercado.
rapidamente a culpados. Nesse sentido, Castel (2005) afirma que a nossa sociedade contribui para que parte do corpo social, mais perdido do que mau, se transforme no ceme da problemática da insegurança. Desse modo, não se discutem os fatores que geram a insegurança (tal como desemprego, racismo, desigualdade social) e criam-se idéias de estratégias de resolução por meio de policiamento e segregação de tais personagens.
Não se trata aqui de negar as conse-qüências sociais da violência, mas de proble-matizar o modo como uma parte da população (provavelmente abastada, com amplo acesso à
internet) constrói uma moral de si para si mesma que implica determinar o que é ou não violência, buscar incessantemente personificar inimigos e combatê-los. Tais inimigos são integrantes do comando vermelho, flanetinhas nos sinais, desconhecidos ou conhecidos em boates, ado-lescentes usuários de drogas, grupo de adoles-centes que usam bonés e óculos escuros, pro-prietários de carros tipo vans, moradores de bairros mal-afamados, entre outros.
Dada a impossibilidade de definire apontar com exatidão os indivíduos perigosos - já que podem ser "dois homens muito elegantes"12 ou ainda qualquer "amigo ou desconhecido [que podem ser) violadores ocasionais que [se) aproveitam da ocasião que lhes éoferecida'T'<,
o que acaba por acontecer é uma distribuição desmedida do medo, as pessoas são levadas a desconfiar de qualquer um, nas diversas situações cotidianas em que se encontram. Tem-se como forma subjetiva resultante de tais procedimentos o isolamento, coerente com a incapacidade de se tomar decisões coletivas.
Parece inegável que a conseqüência da disseminação do perigo é uma intensa proble-matização dos aspectos cotidianos. Importa
aqui referir o conceito deZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAr e t le x iv id a d e , cunhado por Giddens (1991). Para esse autor, a
mul-tiplicação de informações (que supõe sempre a
multíplícação das desinformações) impõe ao
sujeito atual um constante e crônico moni-toramento reflexivo das ações, por mais co-tidianas que elas sejam.
Essa profusão de informações faz parte da estratégia de controle aberto, característico
das sociedades atuais. Para Deleuze (1998, p. 216), as sociedades atuais funcionam "por controle contínuo e comunicação instantânea" , ou seja, o excesso de instruções acarreta falta de tempo para pensar, não sendo possível "perder tempo" com o pensamento.GFEDCBAÉ uma comunicação instantânea que requer uma resposta igualmente rápida. Ora, se as infor-mações são, de certo modo, massificadas e repetidas, as respostas vão se constituindo como algo natural. Faz parte dessa política de controle a intensificação de informações acerca do terror, sob a forma de transmissão coletiva de neurose, que cria uma "aversão ao risco que faz com que o indivíduo contemporâneo jamais possa se sentir em segurança" (CASTEL, 2005, p. 10).
Uma última diferença deve ainda ser mencionada. Se ao enviar as correntes da sorte pretende-se alcançar a dádiva de um milagre, nos rumores eletrônicos a expectativa é a ga-rantia da segurança, compreendida como um esforço individual para manter-se vivo. Corres-pondências comoessas põem em funcionamento a lógica do "salve-se quem puder" a partir de mobilizações de forças particulares que visam não à coletividade, mas à sobrevivência dos escolhidos, da única forma de vida humana que merece ser preservada14 .A
R e f l e x õ e s f i n a i s
A violência,no Brasil,é dado que não pode ser menosprezado. Atualmente é sabido que o Brasilé o segundo país latino-americanoque mais gasta com segurança, perdendo apenas para a Colômbia (STEFANOin: http://www.terra.com. br/istoedinheiroI156/economia/,acessado em 18 de fevereiro de 2006).
O Centro Internacional de Investigação e Informação para a Paz (CIIIP),avalia que, nos países latino-americanos, o encargo financeiro direcionadoàviolência despotencializa um pos-sível investimento voltado para a paz, ou seja, gasta-se muito com a violência e os resultados visíveis de tais investimentos são mínimos. Os índices de violência continuam crescendo e, mesmo tempo,
12Extraído de um hoax sobre o golpe do perfume.
13Extraído de um hoax sobre easy date, nova droga no mercado.
1 4Sobre essa questão, ver as análises de Giorgio Agambem (2004), que afirma que, na modemidade, a partir dos campos de
con-centração do nazismo criou-se um modelo de estratégia política do capitalismo que prega a matabilidade, a descartabilidade de determinados grupos humanos.
99
[...) observa-se um desgaste da cidadania" que-leva as pessoas a criarem mecanismos de
auto-defesa, independente das instituições
respon-sáveis pela segurança pública. Ao lado ~sto, verifica-se o aparecimento de novos comporta-mentos sociais como o isolamento (em especial das camadas mais altas), a desconfiança, o in-dividualismo (CIllP, 2002, p. 22).
A criação de mecanismos individuais na
internet aponta para o quadro atual de
socia-bilidade cotidiana que
[...) tem sido duramente atingida pela
dete-rioração da qualidade de vida que vem, sobre-tudo, pela recessão econômica: estagnação do
emprego, falta de perspectiva, de lugar na
ordem profissional, para não falar da pobreza espantosa de metade da população do país que, somada às famílias ditas "remediadas", forma uma visível sociedade excluída que convive com as classes médias de forma extremamente
tensa (PAOLI, s/d, p. 498).GFEDCBA
É necessário considerar o perfil de quem
utiliza internet no Brasil. A partir de 2002, o
Ibope/NetRatings começou a avaliar o tempo
de conexão do usuário doméstico, bem como
aspectos relacionados a seu perfil sociocultural.
Em 2003 havia 2,8 milhões de usuários
bra-sileiros ou residentes no Brasil conectados à
internet, sendo a maioria composta por jovens e
crianças . No mesmo ano, o perfil socioeconômico
do proprietário de computador indica o jovem
de classe média como principal usuário
do-méstico da internet (tais dados podem ser
en-contrados na tabela abaixo). No ano de 2005,
em alguns meses, o Brasil ficou em primeiro
lugar noZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAr a n k i n g mundial no quesito referente ao tempo de acesso.
Ou seja, os jovens e as crianças brasileiras,
provenientes da classe média, estão sendo
e d u c a d o s e s e educando entre si (na condição
de multíplicadores de informações) através de
dispositivos como b l o g s , f l o g s , e - m a i l s , entre
outros. Importa pensar que se os estudos de
psicologia estão certos, uma vez que os usuários
são de faixa etária reduzida estes estão mais
suscetíveis à aprendizagem. E, de acordo com
Guatarri (1987), os processos educativos
en-contrados na mídia estão bastante ligados à
serniótica dominante, ou seja, aquela que
ga-rante o funcionamento e a multiplicação de
modos de enfrentamento da vida compatíveis
com os requeridos para o funcionamento do
capitalismo.
Tabela 1 - Perfil socíoeconômíco do proprietário de compu-tador e usuário da internet no Brasil, em 2003.
Classe
Possuem computador em
casa (% )
Possuem acesso
doméstico à
internet (%)
A 2 6 % 3 2 %
5 4 % 5 5 %
B
c
1 8 % 1 2 %DeE 2 % 1 %
Total 100% 100%
Caso Agambem (2004) tenha razão, faz
parte do procedimento de instauração das
sociedades capitalistas uma série de
movi-mentos alternados de exclusão e inclusão
(controlada), que tem por modelo base o
funcio-namento dos campos de concentração. Ou seja:
incluir grupos humanos apenas visando a sua
exclusão. Os h o a x e s , funcionando como
publi-cidade, como palavra de ordem que circula
entre a classe média, acabam por gerar esse
tipo de procedimento quando tornam visíve
um grupo humano e nessa visibilidade
pro-movem a incitação à segregação, ao
dístan-ciamento em relação a esse grupo.
Os rumores eletrônicos, desse modo
expressam uma moral construí da pela classe
média para ela mesma, moral em que perrneis
a segregação, a exclusão e culpabilização _
grupos minoritários e, ao mesmo tempo,
._-veste em mecanismos individualistas de s
lução de problemas sociais complexos. U :
forma de funcionamento moral que contrib
sobremaneira, para solapar um possível projet _
democrático que inclua a cidadania em s :
pauta cotidiana.
15Paoli (S/D, p. 498) possui uma visão mais otimista e complexificada da cidadania no país hoje. Para ela, se quisermos compre
-a socied-ade br-asileir-a, temos que "compreender esse encontro direto e contr-aditório entre -a gener-aliz-ação d-a percepção d-a cid-a
e a generalização do sentimento de uma crise moral profunda, ambas convivendo nos mesmos espaços e tempos, nos me
--grupos, numa mesma pessoa".
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