UFRJ
Quando o trem passa: retratos em 3x4 de italianos no sul fluminense
Sandra Regina Garcia Leite
Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção Literatura Italiana).
Orientador: Prof. Dr. Marco Americo Lucchesi
Quando o trem passa: retratos em 3x4 de italianos no sul fluminense
Sandra Regina Garcia Leite
Orientador: Marco Americo Lucchesi
Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos, opção Literatura Italiana).
Examinada por
______________________________________________________________________ Presidente, Prof. Doutor, Marco Americo Lucchesi, Univ. Federal do Rio de Janeiro
______________________________________________________________________ Prof.a Doutora Silvia Inés Carcamo de Arcuri, Univ Federal do Rio de Janeiro
______________________________________________________________________ Prof. Doutor Luiz Barros Montez, Univ. Federal do Rio de Janeiro
______________________________________________________________________ Profa Dra Maria do Carmo Leite de Oliveira, Pontifícia Univ.Católica do Rio de Janeiro
______________________________________________________________________ Profa Doutora Vanise Gomes Medeiros, Univ. do Estado do Rio de Janeiro
______________________________________________________________________ Prof. Doutor Julio Aldinger Dalloz, Univ. Federal do Rio de Janeiro, Suplente
______________________________________________________________________ Profa Dra Teresa Cristina Meireles de Oliveira,Univ.Federal do Rio de Janeiro,Suplente
Leite, Sandra Regina Garcia.
Quando o trem passa: retratos em 3x4 de italianos no sul fluminense/Sandra Regina Garcia Leite. Rio de Janeiro: UFRJ/CLA, 2008.
226f.
Orientador: Marco Americo Lucchesi
Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação de Letras Neolatinas, 2008.
1. Imigração Italiana no Brasil. 2. Espaço. 3. História oral.
– Teses. I. Lucchesi, Marco Américo (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Pós-Graduação em Letras. III. Título.
AGRADECIMENTOS
A todas as famílias que me acolheram como pesquisadora em seus lares, em especial às
famílias de “Renato” e “Vittorio”; a Marco Americo Lucchesi, intelectual notável que
durante todo o processo da tese demonstrou ser, além de um grande amigo, um inestimável sensei - mestre intelectual para quem se deve algo que não pode ser retribuído; a meus irmãos e irmã, cada um com seu jeito único de me apoiar; às minhas cunhadas Paola Wyatt e Bruna Leite que além de apoiarem meus irmãos me incentivam; a meus avós, suaves recordações; a meus pais, que em suas diferenças ajudaram a me construir; a meus padrinhos, pelo entusiasmo e afeto; às famílias
Gomes, Canaverde Fernandes, D’Ávila Estigarribia, Marangon, refúgios de alegria e tranqüilidade; a Lara Feldmann, minha adorável afilhada, que me traz serenidade e tanta alegria; a Paolo Targioni, a Marinei Almeida, a Simone Gugliotta, a Angela
Leite e a Guilherme Reich, pelo apoio incondicional; a Bernardo Borges Forte, a Chris Braun, a Márcio Galvão, a Allan Crean, pela lealdade; a Milene Gomes e Carla Faria, pelas fugas necessárias; a Marcello Arruda e Olga Arruda (em
memória), por parte do material bibliográfico sobre Barra do Piraí; a Vanise Medeiros e Roberval Silva, grandes mestres; a Thiago Carvalhaes, William Alves, Guilherme
Turon e Brunna Noznica, pelas conversas e estímulos; a Milene Ahouagi, André Luiz Silva, Sérgio Iotte, pela seriedade com que desempenham seus múltiplos papéis;
a Margareth Santos, Vanessa Barbosa, Carol Lippi, Allan Calixto e Rosana de
Oliveira, pelo empenho; a Jussara, Telma, Monique, Regina exemplos de mulheres e
de diretoria democrática, tenho aprendido muito com vocês, muito obrigada; a Maria
Lizete dos Santos, pelas sugestões a cerca do espaço, a Liliana Cabral Bastos, a Maria do Carmo de Oliveira, a Maria das Graças Pereira, a Érica Camargo, a Teresa Cristina Meireles, a Julio Dalloz, a Silvia Arcuri, a Luiz Montez, pelos
RESUMO
Quando o trem passa: retrato em 3x4 de italianos no sul fluminense
Sandra Regina Garcia Leite
Orientador: Marco Americo Lucchesi
Resumo da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras.
A partir da coleta de histórias de vida de imigrantes italianos no sul fluminense, sob um olhar da Sociolingüística Interacional para a Análise do Discurso ao analisar a construção de identidade de dois imigrantes italianos, em situação de pesquisa. O estudo analisa a organização discursiva da fala dos entrevistados focalizando diferentes dimensões de sua construção identitária, bem como as estratégias de envolvimento utilizadas e suas implicações para a construção da identidade dos narradores. Após observar em que medida as histórias de vida dos entrevistados foi orientada por valores da cultura italiana e por sua condição de imigrante no Brasil foi elaborado um texto ficcional de apresentação das histórias dos entrevistados e do percurso da pesquisadora levando-se em conta que as identidades constituem-se simultaneamente nos universos da história, da interação e dos valores sócio-culturais.
Palavras-chave
Imigração italiana; história oral; identidade; narrativa; Sociolingüística Interacional
ABSTRACT
When Train Goes By: 3”x4” portraits of Italian Immigrants in South Fluminense
Sandra Regina Garcia Leite
Orientador: Marco Americo Lucchesi
Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Letras.
Collecting Italian Immigrants Life Stories on south of Rio de Janeiro State, based on Interactional Sociolinguistics approach to discourse analysis, this investigation has a discursive approach, namely, that of analyzing the construction of identity of two Italian immigrants in a research interview situation. At the start the analysis focuses on different dimensions of identity construction. Involvement strategies and its implications for the constructions of the narrators’ identities, using during the interview, were analyzed based on the statement that narratives are co-constructed by participants
in a communicative event. After observed how the narrators’ identities constructions in
relation to their Italian culture-based attitudes and which extent the interviewed life stories were oriented by Italian Cultural values and also his immigrant condition in Brazil, a fictional text was made in order to present the interviewed stories and the researcher paths. Important to remark that Identity is built simultaneously in three different universes: story, interaction and social-cultural values.
Keywords
Italian Immigration; Oral History; Identity; Narrative; Interactional Sociolinguistic
Siccome questo è il vuoto c´è posto per tutto, e quel poco che c´è, è come se non ci fosse.
Anche i binari sono perfettamente inerti, le lucertole immobili i vagoni dimenticati
(Fabio Pusterla. Paesaggio. Poesia Sempre, ano 3, n. 6, outubro 1995,120)
Como isto é o vácuo há lugar para tudo, e o pouco que há é como se não fosse.
Até os trilhos são perfeitamente inertes os lagartos imóveis, os vagões abandonados.
O ITINERÁRIO: Sumário
1. O APITO: Introdução 11
2. A VIAGEM: história ficcional de italianos no sul fluminense 20
3. A PAISAGEM: Panorama Sócio-Histórico 66
3.1. Fluxos migratórios 66
3.1.1. os êxodos de massa entre o século XIX e XX 66
3.1.2. as migrações da segunda metade do século XX 70
3.2. O trem é vida 71
3.3. A malha ferroviária no Brasil 73
3.4. A Estrada de Ferro em Barra do Piraí 80 4. O VAGÃO: Espaço 86
4.1. A Cidade 86
4.2. O Habitar doméstico 87
4.2.1. a casa 90
4.2.2. o lar e a memória afetiva 96 5. OS PASSAGEIROS: Renato e Vittorio 101 5.1. Vidas Paralelas 5.1.1. Renato 101 103 5.1.2. Vittorio 104
5.2. Os Estilos Narrativos 5.2.1. o contar histórias 106 108 5.2.2. o uso de repetições 110
5.2.3. o uso de imagens 118
5.2.4. o uso de diálogo construído 5.2.5. o dueto conversacional 5.3. Conexões e Desvios: as trajetórias de Renato e Vittorio 121 124 126 6. A PLATAFORMA: Considerações Finais 132 7. A BAGAGEM: Referências Bibliográficas 136 8. O DIÁRIO DE VIAGEM: Anexos 152
8.1. Anexo I: Convenções de Transcrição 153
8.2. Anexo II: transcrição da segunda entrevista com Renato 155 8.3. Anexo III: transcrição da primeira entrevista com Vittorio 192
Velhas estórias (quase) em busca
de uma “moral” nova
O APITO: INTRODUÇÃO
Quando o trem passa, quando a vida passa, desde o início dessa pesquisa o trem estava presente, a metáfora não estava clara, mas a idéia de deslocamento, mais do que por nave ou avião subjazia no meu inconsciente.
Até pouco tempo o título era “Das FFSS a Barra do Piraí: histórias de vida de imigrantes italianos no sul fluminense”, mas ao redigir o texto ficcional que encontra-se no segundo capítulo, a metáfora da vida como uma viagem de trem revelou-se. Assim como a metáfora epistemológica que se anuncia desde o sumário, sendo este denominado itinerário por descrever os caminhos por mim traçados ao longo da elaboração escrita desta pesquisa.
Durante a minha graduação um professor me indicou um livro intitulado
Contesti italiani, um compêndio didático com diversos tipos de textos, de material autêntico em língua italiana, em dois dos quais, dos meus preferidos, está presente o trem, a saber: “Anche i treni bevono”, de Giorgio Manganelli, no qual o autor trata sobre
a degradação do trem e “La bella sconosciuta”, cuja passagem “e sai chi vide affaciata al finestrino? La bella sconosciuta”, de Achille Campanile, que sempre me desperta emoção pelas imagens e sentimentos que suscita e cuja passagem “La vide affacciata a um finestrino”, sempre me remeteu ao retrato, como representação.
Portanto, acredito que a literatura italiana tenha influenciado minha opção por trabalhar com a língua italiana, ao invés, da língua inglesa, que na época estudava paralelamente na UERJ; cujos textos de Shakespeare me eram mais caros: Romeu e Julieta, os amantes de Verona, e A megera domada, ambientada entre a Toscana e Veneto, tinham relação com a Itália. De qualquer forma, foram decisivos o contato com as pinturas italianas na Pinacoteca de Brera e as aulas do Prof. Marco Lucchesi cujo conceito de leitura não se resumia ao textual, mas também à imagética e à semiótica.
Daí, ao pesquisarmos as histórias de vida (Linde, 1993) de imigrantes italianos residentes em Barra do Piraí que vieram ao Brasil após a segunda guerra mundial nos questionarmos a respeito de essas narrativas se tratarem de uma literatura coletiva,
elaborada pelo sujeito da enunciação, posto em perspectiva de um “griot” da atualidade, um sujeito que rememora eventos coletivos e privados sob a luz da atemporalidade de provérbios e de algumas lendas tradicionais ou se as limitaríamos como registros orais da presença de uma comunidade italiana no sul fluminense.
Se considerarmos a literatura de forma abrangente, social, literatura coletiva, plural e flutuante, percebemos que não poderíamos circunscrevê-la somente a livros, posto que se perpetua em várias formas de expressão do imaginário do imigrante, a
saber: em cartas, diários “científicos” ou pessoais, biografias, jornais, crônicas, folhetins
e porque não em registros orais em situação de entrevista? Como sugere Cláudio Murilo Leal em artigo no Caderno Prosa & Verso dO Globo de 1º de novembro de 2008 ao
analisar a coletânea “Viver & escrever” de Edla Van Steen.
Evidentemente há a diferente semiose que presidem a escrita e o relato oral, conforme constata argutamente o escritor angolano Manuel Rui:
Eu sou poeta, escritor, literato. Da oratura à minha escrita quase só me resta o vocabular, signo a signo em busca do som, do ritmo que procuro traduzir numa outra língua. E mesmo que registre o texto oral para estruturas diferentes – as da escrita – a partir do momento em que o escreva e procure difundi-lo por esse registro, quase assumo a morte do que foi oral: a oratura sem griô, sem a árvore sob a qual a estória foi contada; sem a gastronomia que condiciona a estória; sem a fogueira que aquece a estória, o rito, o ritual. (RUI, 1981, 29-30)
No momento em que ocorre a consciência de construção de um novo momento no qual o imigrante torna-se o sujeito de sua própria história, a cultura trilha novos rumos e um deles é buscar na oralidade as formas para que os impasses sejam transpostos. Sendo assim, a matéria híbrida da qual os textos são constituídos é exposta
e a fala se torna escrita e a escrita, a fala ritualizada no papel.
Literatura-memória, movimento contínuo, linha de união entre dois povos, duas
Traz em si as múltiplas formas concretas da existência interpessoal e subjetiva, a memória e o sonho, as marcas do cotidiano no coração e na mente, o modo de nascer, de comer, de morar, de dormir, de amar, de chorar, de rezar, de cantar, de morrer e de ser sepultado.
(BOSI, 1992, 27)
Coletando os dados para a pesquisa em questão, as narrativas, os relatos de vida de imigrantes italianos residentes na anteriormente citada situação de pesquisa, convivía com a história, com a memória imigrante a ser registrada, ilustradas por documentos tais como fotos, cartas, menções honrosas, passaportes antigos é verdade, mas formas documentais a espera de uma narrativa que as vivifique, que as reconstruam que as tornem presentes. Assim como os documentos, às vezes guardados em caixas, às vezes expostos pela casa, necessitavam de uma narrativa. Os fatos históricos não, poderiam ser desprezados como enquadre que se apresenta.
Deste modo, antes de observar a possível produção literária oral, devemos
refletir sobre os motivos que trouxeram os italianos ao Brasil, assim afloram questões,
tais como: quando os “italianos” começaram a chegar ao Brasil? Quais as principais levas migratórias? Como era a realidade italiana no segundo pós-guerra e no Brasil? Havia uma participação culturalmente ativa da comunidade italiana? Quando teria sido o início de participação em atividades culturais no Estado do Rio? Algumas das tantas questões que se apresentam quando o objeto a ser pesquisado refere-se a uma literatura italiana que começa na Itália, mas se firma no Brasil em língua portuguesa com acento
“italiano”.
As relações entre História e Literatura, muitas vezes vistas como evidentes, se
fazem necessárias quando se pretende observar de que maneira os imigrantes “italianos”
que vieram para o Rio de Janeiro registram e expressam suas impressões e experiências e, em que proporção tais registros se definem entre texto literário, ou seja, possuem uma estética literária e um histórico.
Para tal, senti necessidade de não somente entrevistá-los e transcrever suas falas, mas também de me inserir na comunidade, como eles o fizeram, por meio não só de minhas identidades de pesquisadora e professora, mas também pela de empresária, de modo a realizar uma pesquisa etnográfica densa.
Concomitantemente a análise das narrativas não pode deixar de lançar um olhar às raízes histórico-sociais que alimentaram essa árvore geradora de frutos como as referidas narrativas, pois de acordo com Sevcenko (1995,20):
Fora de qualquer dúvida: a literatura é antes de mais nada um produto artístico, destinado a agradar e a comover; mas como se pode imaginar uma árvore sem raízes, ou como pode a qualidade de seus frutos não depender das características do solo, da natureza do clima das condições ambientais?
(Sevcenko, 1995, 20 - grifo meu).
Como podemos notar, literatura e história entrelaçam-se de tal modo que ao pesquisarmos a presença italiana em Barra do Piraí a partir das narrativas de imigrantes, faz-se necessário traçar um panorama da história da imigração italiana nessa cidade, como veremos no capítulo 3, desde a primeira grande leva, no final do século XIX, em decorrência da necessidade de mãos de obra para a colheita do café; quando chegou a Barra do Piraí o avô de um dos entrevistados. Assim, podemos compreender que a Estrada de Ferro foi fundamental para o crescimento da população e comércio locais por possibilitar os deslocamentos de pessoas e mercadorias, trazendo a Barra pessoas de diversas etnias, dentre as quais a italiana.
A investigação, o fato da pesquisa de campo ter sido a pioneira na coleta das fontes primárias, em anexo, constitui a originalidade desta investigação. Cabe ressaltar
que o material em questão serve de contra-prova do trabalho científico, por mim realizado.
Importante lembrar que o Rio de Janeiro foi o primeiro pólo imigratório do Brasil e que tem sido deixado de lado no que se refere a memória da imigração italiana, pois os pesquisadores tendem a restringir seus estudos ao Estado de São Paulo.
a couraça de uma Maria fumaça, tão intenso e prazeroso como seu apito característico. Memória dissipada como ocorria com a névoa que saia das caldeiras dessa máquina tão querida, fumaça que aos poucos ao longo do percurso deixava seu rastro. A respeito dessa sensação de felicidade que o encontro com o passado suscita cito uma passagem de Walter Benjamin (1885, 223):
O passado traz consigo um índice misterioso que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que já foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? (...) Se assim é, existe um encontro secreto marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo.
(Benjamin, 1885, 223)
Paul Thompson assinala o fato de que geralmente nas famílias há ao menos um filho detentor da história da família, geralmente o primogênito, mais não necessariamente este, como veremos adiante, ao entrevistarmos Vittorio e Renato esses confirmam a tese, o primeiro dizendo que seu primogênito é o que mais respira a Itália, ao passo que a filha do segundo é a única a inscrever-se em um curso de língua italiana e mantêm a sala de sua casa, como a da casa paterna, inclusive com o mesmo pôster da cidade de Luzzi.
Não é raro famílias irem ao encontro ao apelo do passado, aflancando História e
Literatura, expressas em discursos híbridos, pois que conjugam idéias de homens divididos entre a possibilidade de abrasileirarem-se ou de permanecerem o outro, o
estrangeiro. Importante ter presente a existência desses sentimentos contraditórios, posto que podem desencadear alguns mecanismos de autopreservação cultural ou de formação do estereotipo do vero italiano no Brasil ou o que lhe valha.
Segundo Labov e Waletzky (1997) e Labov (1972), a narrativa é um método de recapitular as experiências passadas e se caracteriza por sua estrutura organizada em uma seqüência temporal, por ter um ponto e por ser contável, porém essa aboradagem tem sido objeto de críticas, como por exemplo, a de não problematizar a relação entre o evento passado, memória e narrativa.
diz respeito ao espaço, ao tempo e a natureza do evento; ao passo que a ação
complicadora se relaciona aos eventos descritos na narrativa e a avaliação se refere ao
motivo da ação estar sendo contada; o resultado ou resolução compreende o fechamento da narrativa e; a coda é o elemento que pode aparecer para ligar a narrativa à situação atual dos participantes da interação onde a narrativa ocorre, como veremos no capítulo 5, no qual analiso as estratégias de envolvimento dos entrevistados ao narrarem suas estórias de vida.
Importante ressaltar que o estudo de estórias de vida é uma boa forma de se pesquisar como as pessoas constroem suas identidades sociais (Linde, 1993; Mishler, 1999) por meio de suas produções narrativas, já que, ao narrar estórias, as pessoas tem o
poder, segundo Mishler (1986), “não apenas de falar com sua própria voz e contar sua
própria estória, mas de aplicar o entendimento adquirido para agir de acordo com seus
interesses”. Deste modo, como aponta Santos(2007), “o narrador evidencia o desejo de construir significados específicos de si e de seu posicionamento no mundo”, fato este
que, por meio de instrumental adequado, dá ao pesquisador a possibilidade de traçar uma análise de como o indivíduo co-constrói a sua narrativa e a sua identidade social
por meio do discurso.
Sendo assim, é fulcral a percepção de que, ao narrar estórias, as pessoas utilizam a narrativa não apenas para (re)construírem um evento passado, mas também para que elas sejam interpretadas segundo suas representações, por isso, segundo Riessman (1993:2), as
“análises em estudos da narrativa se abrem para formas de contar sobre a experiência, não simplesmente para o conteúdo ao qual as línguas se referem.”
Além disso, assim como obras literárias sofrem adaptações para serem contadas em diferentes espaços, uma mesma estória pode ser contada de diferentes maneiras, dependendo do público, contexto e objetivo.
Ao longo dessa pesquisa, ao analisar as narrativas de Renato e Vittorio, percebi que diferentemente do sujeito de pesquisa de minha dissertação de mestrado
Eles se utilizam de estratégias discursivas semelhantes às de Salvatore, e como ele, lhes são importantes os tópicos família, emigração, trabalho, sendo que detectei, durante a minha análise a importância do espaço doméstico, como desenvolvo no capítulo 4. Porém, a estética, a plasticidade em suas narrativas, não são comparáveis a de Salvatore.
Tal fato suscitou um dilema: continuar o trabalho com essas narrativas, e caso o fizesse como apresentá-las, ou, simplesmente trilhar o caminho mais fácil e analisar a(s) narrativa(s) de outro(s) informante(s). Porém, Renato e Vittorio são as referências da colônia italiana em Barra do Piraí por serem os mais velhos, os de sua geração que estão há mais tempo na localidade.
Optei, portanto, pela primeira e, após o exame de qualificação, tive a certeza de que a solução seria criar um relato, uma adaptação para a apresentação das narrativas. Ressalto que muitos historiadores como Rui Castro, por exemplo, lançam mão desse recurso, assim como, escritores de romances, tal qual José Saramago, partem de um fato histórico e criam romances formidáveis.
Eu, como visto anteriormente, defendo que a história oral deva ser vista como
literatura e, como no início desse capítulo, evoco a figura do Griot que poderia ser representada aqui pelos filhos detentores das histórias de família.
O problema é que nunca havia criado um texto ficcional, nem ao menos histórias para fazer minha irmã mais nova dormir. Ela tinha que se contentar com textos de Umberto Eco, em italiano! Posto que, na época, ainda estava cursando minha graduação.
Além disso, ao visitar Sandrino Santoro, o Salvatore, de minha dissertação, após sua leitura de meu trabalho, compreendi o quanto a preservação da nossa fase negativa (Brown & Levison) nos é cara. O quanto desejamos ser aceitos e como, segundo Montaigne, sermos julgados por outras pessoas nos incomoda.
Sendo assim, mais uma vez, realizaria um julgamento no qual os sujeitos da pesquisa estariam em situação de desvantagem. A solução? Ao menos para minimizar essa disparidade?
Expor-me, assim como eles, generosamente e credulamente, o fizeram ao me receberem e ao narrarem suas estórias de vida (Bastos, 2005).
Deste modo, após coletar os dados, analisá-los no capítulo 5, fazer o levantamento bibliográfico, conviver com a comunidade italiana em Barra do Piraí, trabalhando como professora de italiano em uma escola pública e inserir-me na comunidade barrense como empresária, abrindo uma escola de idiomas, após um processo de amadurecimento, elaborei o capítulo que compõem o capítulo dois, no qual além das vozes de Renato e Vittorio, há também a minha como personagem, ao relatar trechos da minha história, fruto da necessidade de paridade aos meus entrevistados e, a do narrador, como observador de essas histórias.
Como este trabalho foi construído em base a metáfora do trem e, como a Literatura é importante em nossas vidas, cada capítulo é iniciado por trechos de poemas, músicas ou materiais que circulam pela internet.
“É muito interessante, porque nossas vidas parecem ser realmente como uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis ou não.
Quando nascemos e embarcarmos nesse trem, encontramos duas pessoas que acreditamos, farão conosco a viagem até o fim: nossos pais. Não é verdade. Infelizmente, em alguma estação, eles desembarcam, deixando-nos órfãos de seus carinhos, proteção, amor e afeto. Mas isso não impede que, durante a viagem, embarquem outras pessoas interessantes que virão ser especiais para nós: nossos irmãos, amigos e amores.
Muitas pessoas tomam esse trem a passeio. Outras fazem a viagem experimentando somente tristezas. E no trem, há, também, outras que passam de vagão em vagão, prontas para ajudar quem precisa. Muitos descem e deixam saudades eternas. Outros tantos viajam no trem de tal forma que, quando desocupam seus assentos, ninguém sequer percebe.
Curioso é considerar que alguns passageiros que nos são tão caros acomodam-se em vagões diferentes do nosso. Isso nos obriga a fazer, essa viagem, separados deles. Mas isso não nos impede de, com grande dificuldade, atravessarmos nosso vagão e chegarmos até eles. O difícil é aceitarmos que não podemos sentar ao seu lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.
Essa viagem é assim: cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, embarques e desembarques. Sabemos que esse trem jamais volta. Façamos essa viagem da melhor maneira possível, tentando manter um bom relacionamento com todos, procurando em cada um o que tem de melhor, lembrando sempre que, em algum momento do trajeto poderão fraquejar e, provavelmente, precisaremos entender isso. Nós mesmos fraquejamos algumas vezes. E, certamente, alguém nos entenderá.
O grande mistério é que não sabemos em qual parada desceremos. E fico pensando: quando eu descer desse trem sentirei saudades ? Sim. Separar-me dos amigos que nele fiz, do amor da minha vida, será para mim dolorido. Mas me agarro na esperança de que, em algum momento, estarei na estação principal e terei a emoção de vê-los chegar com sua bagagem, que não tinham quando embarcaram.
E o que me deixará feliz é saber que, de alguma forma, eu colaborei para que essa bagagem tenha crescido e se tornado valiosa. Agora, neste momento, o trem diminui sua velocidade para que embarquem e desembarquem pessoas. Minha expectativa aumenta, à medida
que o trem vai diminuindo sua velocidade …
Quem entrará? Quem sairá?
Eu gostaria que você pensasse no desembarque do trem, não só como a representação da morte, mas também, como o término de uma história, de algo que duas ou mais pessoas construíram e que, por um motivo ínfimo, deixaram desmoronar. Fico feliz em perceber que certas pessoas como nós, têm a capacidade de reconstruir para recomeçar. Isso é sinal de garra e luta, é saber viver, é tirar o melhor de todos os passageiros.
Agradeço muito por você fazer parte da minha viagem e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado, com certeza, o vagão é o mesmo.”
2.
A VIAGEM: história ficcional de italianos no sul fluminense
I
A primeira vez que cruzei o rio me emocionei. A grande ponte metálica me lembrava os tempos de pendolario na Itália...
Todo dia ia a Milão de trem, via Monza, partindo de Bergamo. Desse viavai similar ao movimento de um pêndulo de um relógio de parede foram feitos meus dias. Assim como os das pessoas que como eu, iam e vinham de uma cidade a outra para trabalhar ou, no meu caso, estudar a língua italiana sendo assim chamadas, pendolari.
Não sei dizer se o rio estava caudaloso ou tranqüilo, bege ou verde. Tenho-o atravessado de duas a três vezes por semana e cada dia ele se apresenta de um modo diverso, porém sempre belo e misterioso. Vendo-o assim sedutor compreendo Ofélia e Virgínia.
Com a distância temporal, que nos faz criar realidades, não saberia precisá-lo naquela primeira tarde, há dois anos, quando, naquela manhã, atravessei-o cometendo um erro, como quem confunde uma perna com um braço, atravessei o Paraíba acreditando ser o Piraí.
lua – subiu aos céus. Seus olhos viraram estrelas, seu bafejo, o vento, enquanto que seus outros membros, ao retornarem à terra que ardia em chamas foram pedaço a pedaço transformando-se em mares a partir do tronco, pernas e braços em rios e lagos. Uma perna e um braço, respectivamente transformaram-se no rio Paraíba e no Piraí.
A grande conspiração contra Maíre custou à humanidade dias de grande penúria, castigo imposto por Monan, o criador do homem que teria destruído a primeira leva humana pela culpa adquirida e, desse grande aniquilamento teria poupado somente um ser Irin-Magé, do qual Maíre descendia. O grande feiticeiro Maíre, introduzido nas artes das transformações por Monan, tomado de piedade pela grande penúria na qual se encontrava a humanidade, transforma-se em uma criança Manai e ensina a agricultura aos Tupinambás, trazendo-lhes todos os vegetais que passaram a constituir a base da alimentação de seus descedentes. Além disso, ensina-lhes a distinguir os vegetais úteis dos nocivos e o uso que podiam fazer de suas virtudes medicinais.
Séculos depois a agricultura impulsionaria Barra do Pirai e a colocaria em destaque no Império como grande produtora da região que seria denominada Vale do Café. Além de no caso dos italianos, promoverem uma grande transformação culinária,
não somente introduzindo a massa e impulsionando esse tipo de indústria, como veremos mais adiante, como mostrando aos brasileiros, que, por exemplo, poderiam comer as flores de alcachofra e não somente dá-las aos porcos.
Naquela manhã atravessei a ponte metálica com grande esperança para encontrar o secretário de trabalho e desenvolvimento de Barra do Pirai. Sabia que era um grande entusiasta da cultura italiana por ser descendente de italianos. Imaginara-o um senhor convencional. Deparei-me com um jovem empreendedor, o secretário empreendedor, como se lhe refere um amigo, dono de pousada, em Ipiabas, distrito turístico do Município.
O secretário conhecera meu irmão em uma divulgação de nosso curso e soubera que eu era professora de italiano. Sim, professora de italiano, mais que uma formação, um papel social, essa tem sido a minha existência. Posso realizar diversas atividades, mas ao me definir, me defino e me compreendo como professora de italiano.
italiana nas escolas públicas, cheguei a fazer uma prova em Santa Catarina somente para ter a sensação de prestar um concurso público para o ensino da língua italiana, nos ensinos: fundamental e médio.
Problema resolvido, pensamos... Porém, nada é tão simples, em meio a negociações, acertos, contratos, levou-se um ano para que víssemos a língua italiana na Faetec de Barra do Piraí.
II
Há quem diga que Barra é feia. Eu sou feia, tímida e anacrônica, mas, como o escritor, por força de pensar-me diferente, consegui simular exatamente o contrário.
Quem julga Barra feia atenta para alguns detalhes, tais como o viaduto que leva de lugar algum a nenhum lugar ou à agitação do centro que lembraria Madureira. Nada contra Madureira. Porém, tenho certeza que se a pensassem olhando o céu, o rio, os casarios e, principalmente, os descendentes de Maíre com os filhos de África e Europa, veriam-na gentil e hospitaleira, pois em Barra temos hausses, daomeetros, bantus, iorubas, libaneses, italianos, alemães, portugueses, franceses, espanhóis, russos.
Nos meus 34 anos já morei em duas dezenas de casas e viajei por várias cidades e países. Eu sou do tipo que para disfarçar a timidez puxo assunto e fico a escutar os causos dos desavisados. No entanto, nunca conheci povo tão gentil, pessoas tão agradáveis e olhares tão caridosos.
Dia 26 de julho fui à festa julina no “sítio dos italianos”, o sítio pertence a uma família italiana, por isso ser conhecido como sítio dos italianos. Duas de minhas alunas,
professoras que se encontram na casa dos sessenta, são bisnetas de um friulano que fundou o sítio e foram criadas segundo a doutrina espírita.
Barra do Piraí possui o mais antigo centro espírita do Rio de Janeiro, muitas pessoas com as quais tenho convivido em Barra, alguns descendentes de italianos, professam essa doutrina o que nos faz rever a associação de italianos ao catolicismo. Devemos lembrar que além de católicos, vieram para o Brasil judeus, espíritas e até mesmo ateus. Todos com um desejo comum, fare la Merica, melhorar de vida, trabalharem e darem aos filhos a oportunidade de estudar
Minhas alunas do sítio dos italianos, são indubitavelmente as mais aplicadas, uma vez me relataram como o desejo de estudar sempre prevaleceu às roupas e sapatos, pois que tinham que optar em comprá-los ou ir à escola, na qual trabalhavam para que pudessem estudar. Imediatamente lembrei-me das histórias de minha mãe que tinha que usar o dinheiro do pão para pagar a passagem de ônibus ou ir a pé, até o colégio, que era há muitos quilômetros de distância da casa de seus pais.
viagens a qualquer sapato ou roupa da moda. Não me importo de pegar ônibus, van, trem ou combi se no final chego ao destino de minha viagem e durante o percurso posso conhecer pessoas diferentes. O único senão é andar até a rodoviária, mas daí me lembro que o problema com as academias é o mesmo: chegar até lá, depois é só se divertir.
Tenho uma amiga que diz que eu sou a Sra. Perrengue, já seu namorado é mais gentil na sua análise e diz que na verdade eu sou determinada. Ela diz que eu complico a vida por não andar somente de carro. Aliás, depois de prestar o exame do Detran e ser aprovada aos 19 anos nunca mais dirigi, isso nunca me atrapalhou, somente por ocasião da segunda festa de casamento do Paolo, por questão de tempo, não poderia me dar ao luxo de dispor de três dias para ir e voltar a Ilha Grande, organizei o evento com carinho por telefone, mas fiquei profundamente triste por não poder comparecer, quisera ter um helicóptero a disposição, às vezes um pouco de luxo faz falta, não é verdade? Minha amiga também aponta o fato de eu ser um tanto quanto Kamicaze nos negócios, posto que quando acredito em algo mergulho de cabeça, como no caso das duas escolas que abri com meu irmão sem ter um tostão, me endividando absurdamente com empréstimos que estão quase quitados a custa de acreditar que iria dar certo e viver por
três anos uma vida espartana. Sinceramente deixo a vocês o julgamento sobre merecer ou não tal apelido.
E por falar em negócios, curiosamente tenho outros dois alunos descendentes de friulanos, de Pordenone, um que a família pode ser considerada do Veneto ou do Friuli, que se instalaram em Barra há pouco tempo, originalmente são de Jundiaí, vieram, começaram com gado, depois café, mas felizmente optaram em abrir um laticínio. Eles têm uma linha de produtos italianos que são realmente maravilhosos, atestados pelo Paolo, meu amigo toscano que adorou os queijos e a manteiga. Conseguiram expandir seus negócios e agora estão com um novo braço da empresa, uma fábrica de cerveja que acredito mantenha a mesma qualidade dos produtos do laticínio. In bocca al Lupo!
Interessante notar que Barra, talvez por ser o maior entrocamento aéreo-rodo-ferroviário da América Latina traga constantemente pessoas de outras localidades.
Assim temos a comunidade italiana constantemente renovada com descendente dos italianos que vieram no ottocento plantar café no vale e outros que por motivos de trabalho ou coração elegeram Barra do Piraí sua cidade.
Ontem qual não foi minha surpresa ao abrir meu email e ter um convite para ingressar em uma comunidade de um famoso site de relacionamento, que se intitula:
“Vale do café parla italiano”, elaborada por um aluno descendente de portugueses. Não precisa dizer que imediatamente me juntei à causa. Afinal, como dizia Raul, sonho que se sonha só, é sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade.
O curioso é que grande parte de meus alunos não são descendentes de italianos, mas adoram a língua e a cultura italiana. Vive le Italian style de vida!
III
Disse que minha mãe morava a quilômetros de distância de sua escola. O sonho dela era estudar no Colégio Pedro II, e conseguiu. Nada a faria perder essas aulas e sua paixão pelo colégio foi transmitida a mim. Agora é tradição familiar estudar no CPII. Como não poderia deixar de ser, durante os anos no colégio nutri profunda admiração pela figura de Dom Pedro II e quem sabe por extensão ao trem, já que a Central do Brasil chamava-se Dom Pedro II.
Também para Barra do Piraí o trem possui papel fundamental e um dos episódios famosos em Barra é a vinda de Sua Majestade Dom Pedro II no dia 07 de agosto de 1864 para a inauguração da Estação Ferroviária de Barra do Piraí, hoje um prédio abandonado no qual parte da comunidade barrense anseia para que seja transformado em Centro Cultural.
S.S.M.M. chegou a Barra do Piraí em um trem de passageiros especial, transportado pela “Baroneza”, locomotiva que, em terra de barões, como os anfitriões José de Oliveira Faro e Matias Gonçalves de Oliveira Roxo, futuros barões do Rio
Bonito e de Vargem Alegre, nada mais apropriado do que chamar a “vedete” do momento de Baroneza, locomotiva a vapor, única tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, primeira a circular no Brasil e que media 7 metros e meio de comprimento por 2 metros e meio de largura e 3 metros e 40 centímetros de altura, uma verdadeira miss, neste caso, inglesa. Construída em 1852 por William Fair Bairn & Sons- Manchester- Inglaterra.
Além da antiguidade e do contraste entre seus cobres polidos e os cromados
modernos das automotrizes, a “Baroneza” despertava interesse pela riqueza do
acabamento e dos ornamentos artísticos dos carros que puxava.
Após 20 anos de serviços prestados ao Imperador D. Pedro II, a então senhora retirou-se de cena por decreto do Gabinete Imperial, regressando à cena por ocasião da visita do Rei Alberto da Bélgica, ao Brasil. Em 1954, ao completar um centenário de existência foi incorporada ao patrimônio nacional, por decreto e recolhida à área das Oficinas do Engenho de Dentro.
também plantaria uma oreodoxa régia em uma aléia na Rua Angélica e que inauguraria a pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora de Sant´Anna ao lado esquerdo do Rio Paraíba.
Porém, para chegar à margem esquerda do Paraíba o imperador teria que passar por terras de pessoas não-gratas. Para resolver o impasse, José Pereira Faro, numa visão diplomática, mandou enfeitar luxuosamente uma de suas embarcações utilizadas no transporte de carga e ancorou-a no cais de alvenaria, atualmente Avenida Rabelo. No tombadilho colocou um trono dourado, sobre um tapete vermelho, tendo ao fundo uma bandeira imperial brasileira. Contornando o barco foram dispostos os integrantes da banda de música e alguns militares.
Deste modo, Sua Majestade D. Pedro II embarcou e desceu o Rio Piraí sob aplausos populares, ao som de alegres marchas marciais, atravessou a foz do Paraíba e desembarcou em frente a Casa do Imigrante, atual Rua Angélica, sem em nenhum momento pisar terras de barrenses malquistos pela corte.
Com a chegada da estrada de ferro, cada vez mais desembarcavam em Barra do Piraí levas de imigrantes, cuja maioria integrava-se facilmente, passando a contribuir
positivamente para o enriquecimento material e cultural do povoado.
Uma torrente de cargueiros vindos de Minas Gerais, Goiás e comarcas vizinhas, passam por Barra, linha do centro e do ramal São Paulo.
Era um mar de imigrantes, mercadorias, matéria-prima, todos utilizando a Estrada de Ferro de Barra do Piraí, atraindo filiais de importantes comissários de café na Corte Imperial, tais como: Guerra & Ribeiro; Barbosa Júnior & Cia; José Ferreira Cardozo; José Lourenço Torres; Bernardo Santiago & Cia; Barros Coelho & Cia; Jacintho Lopes de Azevedo; Francisco José Corrêa Quintella; Joaquim José Ferreira e Francisco Eugênio de Azevedo & Cia.
Além disso, a Diretoria da Estrada de Ferro Dom Pedro II centralizou em Barra do Piraí seu depósito de material, onde funcionava também uma oficina de pequena conserva e reparo dos trens de ferro, escritórios administrativos, e assistência aos trabalhadores dos dois ramais em construção.
Gomes, atravessando a Mantiqueira na Garganta de João Ayres, alcançando a Borda do Mato, ao passo que o traçado ferroviário de São Paulo seguia quase a antiga Estrada real da Boiada, partindo de Barra do Piraí, passando por Vargem Alegre, Pinheiro, Barra Mansa, Resende e, finalmente, chegando a São Paulo.
IV
Dia vinte nove de julho de quarenta e nove para dois mil e sete, fiz cinqüenta e... Nossa! Cinqüenta e oito anos de Brasil.
Vim de avião, cheguei no dia 29 de julho de 1949. E vim de avião. Trinta e seis horas voando, em um avião de quatro motores, no qual as asas eram utilizadas para armazenar o combustível. O avião veio enguiçando por aí afora. Descemos no Senegal, em Dacar, depois paramos em Natal, no Rio Grande e, finalmente Rio de Janeiro.
A viagem era longa, naquela época era a Pistão, não existia Jato, nada disso. O avião tinha só treze lugares, vinha enguiçando, era asa e tanque e, acredite ou não, não explodia. Quando chegou ao Rio de Janeiro, ao descer quebraram-se dois motores, pifou o terceiro e a asa virou, o piloto conseguiu acertar, se batesse com a asa explodiria. Então a chegada foi assim. Não tive medo porque eu era garoto, tinha treze anos. Tudo para mim naquela época era festa. Não tinha noção.
A “Itália” foi fundada em mil novecentos e quarenta e seis, na verdade a República italiana foi constituída após a segunda guerra mundial.
Três anos depois eu vinha de avião para o Brasil, fui um dos primeiros a utilizar o avião, como pioneiro foram meus avós.
Viagem para a Itália de navio só em mil novecentos e sessenta após me formar em Direito, no Rio de Janeiro. Eu me formei em mil novecentos e sessenta e, em sessenta e um, a minha avó permitiu que eu fosse para a Itália. Quatorze anos depois daquela viagem de avião.
Eu saí garoto e voltei homem feito a Capriolle. Dessa vez fui de navio e voltei de navio, onze dias de viagem pra ir e onze pra voltar. Se fosse hoje, levar onze pra ir onze pra voltar se acabavam as férias!
Eu vim, não para ver o Rio de Janeiro. Vim por causa dos meus avós, porque o
meu avô tinha uma empresa, que era a “Del Fiore”. Quer dizer, nasceu Sociedade Anônima Mandorla só depois passou a se chamar Del Fiore.
Anônima Mandorla Del Fiore. A marca dos produtos Del Fiore ficou tão forte que por fim a empresa passou a ser Del Fiore S.A.
O nome fantasia era Del Fiore e tinha outras marcas, mas o mercado foi tão forte que ele sobrepujou todos os demais, passou a ser tão forte que acabou eliminando o nome de Mandorla e passou a ser Del Fiore S.A., Del Fiore S.A. Era Mandorla Del Fiore e depois passou a ser Del Fiore S.A.
O Mandorla, meu avô, veio pra cá no final do século XIX, ele nasceu em mil oitocentos e setenta e dois e veio pra cá em mil oitocentos e noventa e sete. Ele veio então pra Barra do Piraí com vinte e cinco anos, mais ou menos com a mesma idade do nosso amigo Renato. Viajou no navio e trabalhou nas caldeiras para chegar com um trocadinho aqui. Ele era analfabeto. Você vê que coisa bonita o avô que era analfabeto montou a Del Fiore o outro que era farmacêutico, falava latim. Então tem os dois extremos na minha família, uma coisa bonita.
Ele veio em mil oitocentos e noventa e sete, mil oitocentos e noventa e sete, desceu no Rio de Janeiro e trazia no bolso um papel com o endereço de uma pessoa conhecida, de uma tia dele. Aí ele desembarcou no cais, não sabia falar português nem
nada, tinha um peixeiro, italiano que passava para quem ele pediu informação. Conheceram-se no cais do porto, e ele disse:
- Eu não posso te levar lá, mas eu tenho que trabalhar, mas no final do meu trabalho... Então ele passou o dia todo vendendo peixe com ele...
Para no final do dia ser levado para o tal endereço, onde tinha uma pessoa conhecida. Bom, aí fica até um pedaço obscuro porque eu não me lembro de outros detalhes, só lembro que ele veio parar em Cruzeiro, ficou um tempo em Cruzeiro e veio para Barra do Piraí onde começou suas atividades.
Inicialmente ele vendia fazenda nas fazendas, vendia corte de fazenda, era mascate, chamadas de mascate naquela época, as pessoas que viajavam pelas fazendas vendendo as coisas.
Acabou concluindo que tinha que levar poucos tipos para não dar margem à dúvida. Passou a levar para as fazendas dois ou três tipos, com essa estratégia suas vendas aumentaram consideravelmente.
Ele sempre comentava isso, sobre aquela objetividade. Depois, com sua visão para negócios, montou uma empresa e começou a matar porco e vender suíno. Fazia banha, carne salgada, pensava em industrialização até que os tempos de guerra chegaram aqui também e teve problemas com controles da Cofap - Comissão Federal de Abastecimento e Preço.
O Brasil sempre teve a mania de controlar os preços o que felizmente acabou graças ao Sarney. Isso é uma coisa que pertence ao passado, mas foi uma fase complicada, que a política que precede tudo tentava dominar a parte comercial.
Hoje está provado que o mercado é o que funciona, mas naquela época se tentava direcionar o mercado, então tinha controle de preços e tudo e o controle era tão grande nos produtos que ele resolveu diversificar. Montou uma fábrica de macarrão, para não depender apenas de um insumo, o porco, controlado na época pela Cofap.
Comprou umas máquinas para fazer macarrão, máquinas com uns parafusos
enormes que misturavam os ingredientes, a masseira, muito rudimentar. Botava nos parafusos que espremiam a massa contra os buracos para sair macarrão. Cortavam-na com a mão, penduravam-na num bambu, metiam-na numa sala com ventiladores enormes para não cainhar, cainhar é quando o macarrão fica todo rachadinho, trinca ou mofa, o produto se chamava Macarrão Dalva. Como a estrela Dalva, a cantora Dalva de Oliveira.
Além disso, também começou a trabalhar com fumo de rolo e cachaça. Tinha o porco que abatia por causa da banha e da carne, depois o macarrão, tinha fumo de rolo, aqueles rolos de fumo, tinha cachaça, engarrafava cachaça que comprava em Minas, a cachaça Capacete de aço, que na época da guerra era uma cachaça famosa.
O vovô se casou, nasceram três filhos, o primeiro foi a minha mãe, o segundo foi o César que foi presidente da Del Fiore até morrer, depois eu tive que assumir e o outro, o caçula, foi o Eduardo que foi o dissidente da família.
passando, chegamos até chegarmos aos anos cinqüenta. Eu tinha chegado ao Brasil em quarenta e nove, convivi com meu avô por dois anos, ele faleceu no dia vinte e um de abril de mil novecentos e cinqüenta e um. Ele tinha nascido em setenta e dois, então ele estava com setenta e nove anos. Quando ele faleceu o César tinha vinte e tantos anos na época, e teve que assumir as empresas. Era fim de ano, eu estava estudando um bocado de coisas, fazendo o terceiro ano ginasial na escola Nilo Peçanha, fui pro Rio, fiz São José, na Usina.
O César que era o segundo filho, a minha mãe morreu quando eu nasci, estudou química, então era um técnico, todo perfeccionista, gostava das coisas perfeitas. Foi ele que começou a Del Fiore e tudo. Também nasceu lá na Itália, veio para o Brasil com oito meses. Nasceu nessa casa aqui da foto que trago no display do meu celular.
O César era perfeccionista, chegou à fábrica e começou a mexer em uma porção de coisas. Quando chegou no setor onde fabricávamos o macarrão viu que o piso de concreto tinha cedido, então ele resolveu fazer uma coisa bem feita. Tirou as máquinas, botou o piso no nível, botou as máquinas no prumo, arrumou tudo direitinho, ligou o maquinário e nunca mais a fábrica de massas funcionou, nunca mais conseguiu fazer
macarrão, porque as máquinas tinham ganhado as formas do piso que foi cedendo, e elas foram se acomodando quando botou tudo no prumo não teve jeito, e ficou pra trás a fábrica de macarrão.
O São José era um internato, mas eu era externo, só assistia às aulas. Eu ia almoçar em casa porque morava pertinho. Pegava o bonde e ia almoçar, depois voltava para assistir as aulas da tarde, então eu era aluno externo.
cinqüenta foi inaugurada a sede náutica do Vasco da Gama na Lagoa Rodrigo de Freitas, que até hoje é bonita. Imagina, imagina cinqüenta e sete anos atrás, aquilo era um desbunde, era uma coisa maravilhosa. Um dia ele chegou e disse:
-Não, eu vou te levar pra jantar hoje. E me levou para jantar e botou na mesa, você como não era nascida, o Ademir Menezes, o Queixada, que foi o maior goleador que o Vasco teve, Antônio Campos e o Chico que era um dos expoentes da seleção brasileira e jogava no Vasco da Gama...
Isso com um garoto de quinze anos... Eu ia fazer o que? Eu virei vascaíno na mesma hora.
É pegar um garoto hoje e botar com Romário... esses jogadores famosos aí. Pra um garoto de quinze anos... de trinta e seis à cinqüenta, estava com quatorze anos, então um garoto com quatorze anos... virei vascaíno.
Depois de estudar no São José resolvi fazer Direito e tive que sair de lá porque naquela época só havia dois cursos: o clássico e o científico. Quem fosse fazer Letras, Filosofia, Direito tinha que fazer clássico. Agora, quem fosse fazer Engenharia, Medicina tinha que fazer o científico.
Eu acho que uma das razões que me fizeram pensar em sair foi que ali só tinha homem. Então, eu já estava ficando crescido, não é possível ver só marmanjo e no Lafaiete não, no Lafaiete tinha muita mulher, muita menina bonita e tal e eu ficava de olho comprido, por isso acabei indo para o Lafaiete fazer o Curso Prático. Em cinqüenta e dois, eu estudei lá uns anos. Meu nome está lá na estátua do padre, porque estudei no ano do cinqüentenário.
E pensar que vim para cá porque na Itália, apesar do meu pai ser médico, o meu avô farmacêutico estávamos no período do pós-guerra e na Itália faltava tudo, pois tinha sido destruída, bombardeada.
Faltava tudo. Faltava gasolina, faltava pneu, faltava... Não tinha nada.
Durante a guerra o meu pai era militar e meu tio, um dos dois tios também era militar. Meu pai foi oficial, era Tenente, viajou para a Albânia. Todos os colegas do papai morreram, todos caíram. E ele ficou. Não tinha trauma, não, mas ficou marcado com a guerra, só se lembrava da guerra com tristeza e acabou morrendo de problema no coração, mas eu acho que o problema era da guerra, morreu com oitenta e oito anos. Ficou doente, mas quando eu cheguei já tinha morrido. Eu o encontrei ainda, mas já morto.
A guerra tem passagens muito tristes, porque faltava tudo. Como a minha família tinha propriedade tinha um pouco de conforto porque a propriedade era grande. Tinha gordura, tinha rebanho de ovelha, dava pra fabricar queijo, tinha cabrito, tinha galinha...
Mas faltava tudo. Eu me lembro que eu escutava o barulho das bombas: era o
barulho da guerra, eu ouvia lá da minha vila, escutava o barulho das bombas dos Aliados chegando na praia de Pestum.
Pestum fica encostada em Salerno. Os Aliados desembarcaram ali. Eles desembarcaram em um lugar que lá de casa dava para escutar, porque é um lugar relativamente perto.
Houve a invasão, os problemas das insulinas, o fato de a Itália ficar dividida quando parte do território virou casaca, virou pros americanos e tal. Virou, fez parte dos aliados, mas antes disso tudo houve uma época que ficamos sob a invasão. E nessa época da invasão o pessoal tinha muito medo, porque a guerra estava ali perto, era como ter a guerra na porta de casa. Então, o quê que acontecia, o pessoal da aldeia resolveu guardar as coisas lá em casa. A confiança que se tinha no meu avô, no meu pai, era tão grande que a aldeia toda resolveu guardar alguma coisa de valor lá em casa.
A minha casa tem vinte e seis cômodos, umas paredes de dois metros, no porão da casa, que agora foi transformada em residência, tinha engenho pra fazer vinho e engenho pra fazer azeite. O meu avô com os caminhões transportava azeite, vinho. Também lá tinha uma trave de madeira de nove metros de comprimento, e o meu avô descia tudo, explicar é complicado, mas era ali que fazia o engenho todo.
Na casa tinha uma escada para baixo, e embaixo dessa escada tinha um vão, então resolveram que dava um cômodo grande, o cômodo era metade dessa saleta aqui. Então, todos os habitantes da aldeia, cada um levou um baú com dinheiro, com jóias, relógios. A gente fez uma parede, fechamos, sem nada e escurecemos a parede,
passamos carvão e tudo, envelheceu a parede de modo que você chegava e não via aquilo, via a escada, mas não existia nada. Então se porventura houvesse invasão, os bens ficariam preservados e quando o perigo passasse abriríamos os baús e cada um teria como recomeçar a vida.
Não houve invasão na minha zona, e eu me lembro de quando o cômodo foi aberto. Abriram-se os baús e tudo mofado. Não tinha jeito, com a umidade tudo estava estragado, mas as coisas estavam lá, guardadas lá em casa de modo que cada um levou o seu baú, depois da guerra.
Então são coisas que ficam registradas, ainda me lembro como se fosse hoje. A guerra se foi em agosto de quarenta e cinco, eu nasci em trinta e seis, portanto tinha nove anos quando acabou a guerra. Saí na rua cantando: “acabou a guerra, acabou a
guerra”! Eu tinha nove anos, então está bem vivo na minha memória. A guerra acabou em quarenta e cinco, eu vim em quarenta e nove. Quatro anos após a guerra ainda estava tudo destruído.
Só me lembro de tamanha alegria quando a luz chegou à aldeia. Minha tia, a sogra do meu pai, tinha uma casa na praia, a cidade em que nasci era em um terreno muito montanhoso, a uns doze, quinze quilômetros ela tinha essa casa. Era eu acabar de prestar os exames e fugir para a casa dela. Passava os três meses de verão lá, na praia. Era uma coisa maravilhosa. A tia então era uma coisa muito ligada. Então quando veio a luz eu estava em Pietro, isso foi antes do armistício. Eu devia ter uns cinco, seis anos. Quarenta e dois, quarenta e três, quando a vi sob a luz pela primeira vez, exclamei: - Tia “peppina”, come sei bella!
Porque veio a luz, então via como ela era bonita, antes era só a luz da vela, você não via direito à noite. Foi um acontecimento que me marcou.
Como já disse, meu pai era médico, e na época do Mussolini médico era
chamado de “doutor”. Ele atendia o município, era médico, oftalmologista, pediatra, ortopedista. Fazia de tudo um pouquinho. Fazia de tudo porque era só ele.
Toda a população do município na minha faixa etária nasceu pelas mãos do meu pai. Consertava braço e perna quebrada da turma que trabalhava na zona rural, a colher azeitona, buscar fruta...
Então ele recebia azeitona, porquinho, essas coisas. Ele não recebia, nem cobrava porque não tinham dinheiro para pagar, um dava uma galinha outro mandava uma cesta de figo. Engraçado mesmo, a época na qual meu pai era médico. Fase boa da vida!
O meu avô materno estava aqui. Tenho dois ramos da minha família italianos. O do meu pai que é família Mango, que está todo na Itália, o da minha mãe Mandorla que está todo no Brasil.
foram colegas de infância depois ela veio pra cá. Passado alguns anos o papai veio para o Brasil, começou a namorar minha mãe, noivou e casou e foram-se embora pra Itália.
V
“Venham a mim as massas
exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade. Eu os guio com minha tocha.” (inscrição na Estátua da Liberdade)
Você conhece aquilo? Luzzi?
No, não é. É o Rio. O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar!
Aquilo me deixou a maior lembrança do mundo! Embarquei dia vinte e nove de julho! Desembarquei no dia vinte e um, del mille novecentos e quarenta e nove. Na madrugada, vou falar português, torto, como meu italiano.
- O Cristo Redentor com os braços abertos, porque o Marconi, tinha dato a luce!
Em 12 de outubro de 1931, exatamente às 19 horas e 15 minutos, Guglielmo Marconi, cientista italiano, inventor do rádio, foi convidado, por iniciativa de Assis Chateaubriand, em cerimônia presidida por Dom Sebastião Leme e Getúlio Vargas, para proceder a iluminação do monumento ao Cristo por intermédio de um sinal elétrico enviado de algum ponto da Itália, o que permitiu aos cariocas verem até mesmo em noite de lua nova, o que atualmente é considerado, uma das sete maravilhas do mundo moderno.
Que emoção! Como no livro La leggenda del pianista sull´oceano, de Alessandro Baricco, a cena da chegada de imigrantes a Nova York, o momento no qual sempre há um passageiro que primeiro vê a Estátua da Liberdade ao aproximar-se da ilha da liberdade serve também para ele. Cenários diferentes, mas semelhantes emoções. Ao aproximar-se do Rio de Janeiro e vislumbrar a estátua do Cristo Redentor, ou de Nova York e deparar-se com a Estátua da Liberdade.
Recentemente em uma revista li que uma senhora, ao ver a estátua da liberdade disse que ainda descobriria o nome daquela santa. Se fosse uma santa, sob o olhar do imigrante, teria de ser a Santa Esperança.
Mille Novecento e Quarenta e nove... o pai tinha rientrato, então veio com o pai para cá. Era um rapazinho novo da Itália. Foi para Genova, nascera em Luzzi, província de Cosenza, Calábria. Em Genova foi para o porto, chegaram lá de madrugada. Dia vinte e um, de julho! Dias e mais dias no mar, até que um patrício gritou:
- Nós tamo no Rio de Janeiro! Ó, tem o Cristo Redentor!
Ele levantou-se, tirou o pijama. Dormiam em cima, no tombadilho do navio. Ah, o Cristo Redentor de braços abertos sobre a pedra! Ficou realmente encantado com aquilo, mas, mesmo já tendo se passado cinqüenta e poucos anos... Sua primeira lembrança continua sendo aquilo, daquela cena ao chegar ao Rio de Janeiro, disso não se esquece.
Não, não é propaganda de sutiã. Quando Washington Olivetto elaborou o tão
premiado comercial, em cima de uma frase de música popular nos anos 40, “o primeiro amor a gente nunca esquece”. Imortalizou para toda uma geração que viveu os anos 80 a
idéia das primeiras experiências, que tanto nos marcam por seu caráter único e impossível de reprodução e que ao mesmo tempo era um replay de um momento universal, de uma experiência já vivida, de uma experiência que algumas pessoas querem viver e de uma experiência que outras estão vivendo.
Assim como a menina Patrícia diante do espelho, nosso amigo ficou hipnotizado, completamente encantado com a visão do Cristo encrustado no Morro do Corcovado, Assim como a visão do Cristo à primeira vez, ele conheceu seu pai aos quatro anos e, diferente emoção lhe assolou:
- Chegou lá o mille novecentos e vinte e nove, io ero uma criança, no jardim de infância. Dei um chute na cara dele porque não o conhecia!
Os filhos nasciam com a diferença de quatro a seis anos, o tempo de trabalhar, juntar algum dinheiro para o que viria a ser o dote das filhas, naquele tempo só casavam as moças com dotes.
Deste modo, o pai regressou a Itália em mil novecentos e vinte e cinco, e o tiveram, depois voltou em mil novecentos e vinte e nove, virada para mil novecentos e trinta, e nasceu sua irmã mais velha, depois voltou em trinta e seis, e, finalmente a caçula nasceu, em trinta e sete.
Por causa da guerra o pai passou um longo período sem ir para a Itália, regressando somente em quarenta e oito. Não conviveu com os filhos, as crianças tinham um pai vivo e morto.
- Pesce, olha o pesce, la sardina!
No Brasil, o pai era peixeiro, com freguesia de mil novecentos e vinte e cinco a mil novecentos e sessenta e cinco. Sempre trabalhando com peixe, perambulava o Rio, pelos arredores do Campo de Sant´Anna.
O filho conheceu verdadeiramente o pai somente aqui no Brasil, já homem feito,
ao conviverem pela primeira vez por um período razoável de tempo, já que as idas e vindas do pai a Itália eram muito rápidas.
O pai, analfabeto, não sabia muito não, mas, a seu modo, fez a Merica. No início, comprou duas latas, amarrou-as a um pedaço de pau, apoiava-o nos ombros e saia a vender peixe. Depois de um tempo, comprou uma carrocinha e com o peixe ele trabalhava, e com o peixe ganhava seu sustento.
Ia e voltava a Luzzi. Cumpria com a sua obrigação... Mandava um dinheirinho. Ia e voltava.
O imigrante sonhava com a América! Vou fazer a América! Diziam e acreditavam, como os eleitos dos deuses, em duas coisas na Sorte e no Destino em nada mais. Tem a vida amarga e a vida boa.
Com o dinheiro que o pai mandava para a mãe, a mãe comprou uma carroça com dois burros.
Não sendo burro, nem de intelecto nem de carga o pai chegou aqui em mil novecentos e vinte e cinco. Poderia ter desembarcado um ano antes, mas acreditava que o destino o tinha mandado para a Argentina e para lá seguiu em vinte quatro.
Lá chegando, começou a trabalhar em uma firma que fazia água doce, mas era muito sacrificado, não gostou de trabalhar naquelas bombas que ficavam a puxar água.
Então quando o pai veio aqui, o irmão dele emprestou um dinheiro, mas deixava a mãe muito jovem sozinha. E deixava o trigo pra moer, e alguns bichos pra criar, e os filhos pra cuidar, e tudo pra fazer.
A mãe era o homem e a mulher. A mãe foi uma sofredora, pois devia fazer a parte do uomo e da mulher. Deixou uma moça que era a sua mãe e ele até hoje não sabe como ela não botou chifre no pai! Já que somos de carne e osso...
VI
Dizem que ela era muito bonita, muito bonita! Não a conheci, tinha vinte anos, vinte e um anos quando morreu, era novinha. Era nova ainda... Veja só o destino, a minha mãe foi pra lá, estava grávida, eu nasci lá, acabei vindo pro Brasil. Muitos anos depois, após me casar, viajei com a minha mulher pra Itália, tínhamos um problema, ela não engravidava. Fomos para a Itália e ela voltou de lá grávida. Então meu filho mais velho foi feito também de contrabando, ou seja, minha mãe engravidou aqui e eu nasci lá, já minha mulher engravidou lá e o Alessandro nasceu aqui. De todos os meus três filhos ele é o que mais respira a Itália.
Eu conheci minha esposa no campo de futebol, eu gosto muito de futebol e eu freqüentei muito o Moirão, que é o meu time em Barra e é tricolor também. Freqüentava muito lá, tinha uns amigos meus, tudo homem casado, eu andava com gente mais velha. Eu só andava com gente casada, meus amigos eram todos na faixa do meu tio que a diferença era de dez anos, tem uma fase da vida que essa diferença é grande, depois a diferença desaparece e na velhice torna a aparecer, mas some depois dos vinte anos. Ela
também freqüentava muito lá e acabei a conhecendo.
No Moirão tem a parte social, a arquibancada social e dentro da arquibancada social tinha um telhadinho que a gente chamava de tribuna. Ela ia acompanhada por uns quatro ou cinco conhecidos da mãe dela porque as amigas não gostavam de futebol e ela sim. Um dia eu cheguei e estava muito cheio, então eu sentei na social, mas não na tribuna. O pessoal começou a mexer com a gente perguntando pra mim:
- Por que você não sentou lá?
Nós éramos os mais novos, solteiros. Ela tinha dezessete anos. Então, eles começaram a fazer sarro com a gente. Depois a gente namorou por três anos, ela já tinha se formado, já tava dando aula, isso foi em sessenta, em sessenta e seis a gente casou.
O namoro foi interrompido em sessenta e um porque eu fui pra Itália. Disseram pra ela que eu já era casado lá. Tinha uma senhora, que dizia que eu tinha namorado a neta dela, mas namorada eu só tive ela. Essa senhora dizia pra ela: