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H enri Atlan propõe que esqueçam os o li-vre-arbítrio cotidiano e pensem os em um de-term inism o decorrente de um conhecim ento científico absoluto capaz de determinar a prio-ri as causas n ecessáprio-rias a um a autoprodução
total daquilo que existe na Natureza. Diante desta hipótese de trabalho, a liberdade seria o deixar-se guiar apenas por sua própria lei pre-determ inada, fazer as escolhas sabidam ente corretas com o conseqüência do conhecim en -to total da Natureza e evitar os desvios da lei representados pelo aparente “livre-arbítrio”. Atlan pede em prestado aqui os conceitos da deidade de Spinoza, com sua liberdade ineren-te ao conhecimento absoluto de todas as rela-ções causais. Rem ete-nos à robustez, estabili-dade e inexorabiliestabili-dade dos processos de evolu-ção do Universo, guiados por um deus que sa-be absolutamente.
A liberdade hum an a seria equivalen te ao aprendizado lento em direção ao conhecimento conhecimentotal, contando sempre com os desvios im -postos pelo erro inerente a qualquer aprendi-zado e que reduzem sua freqüên cia à m edida que o ser hum ano aprende a lei regente do Universo. Neste olhar, a “liberdade afetiva” de Kant é apenas um a perturbação da “liberdade epistêmica” de Spinoza e Atlan, que é a liberda-de liberda-de seguir o cam inho aprioristicam ente liberda- de-terminado pelo conhecimento total.
Cabe aqui um a provocação que envolve a dinâm ica dos processos auto-organizados, pressupostos por Atlan com o os processos da Natureza. Nenhum processo de auto-organiza-ção dign o de n ota alcan ça seus objetivos de forma monótona. Faz-se necessária a presença de perturbações aleatórias, denom inadas por Atlan e outros de “ruído”, para que os procsos auto-organizados não se estacionem em es-tados in term ediários cham ados de “sub-óti-mos” ou “extremos locais”. É o ruído que retira o processo auto-organizado dos estados inter-m ediários não-ótiinter-m os, perturbando sua aco-modação a estes estados e o lançando em esta-dos a partir esta-dos quais a evolução em direção ao ótim o global seja possível. A “erraticidade” de um pouco intenso m as necessário ruído alea-tório é fundamental para que o processo auto-organizado constantem ente possa libertar-se dos cômodos estados intermediários de equilí-brio na trajetória entre a desordem e a ordem, entre a fumaça e o cristal.
Sendo assim, a “liberdade afetiva” de Kant é um m al n ecessário ao alcan ce da “liberdade epistêmica” de Spinoza e Atlan. O livre-arbítrio
8 Departamento de Ciências Sociais da ENSP, Fiocruz. [email protected]
O avatar da cidadania global The Avatar of the global citizenship
Alberto Lopes Najar 8
Um santo concede a uma mulher por seus méri-tos um desejo. Ela expressa o desejo de poder prender todo aquele que subir na sua ameixeira para apanhar am eixas. O santo satisfaz esse es-tranho desejo. Dez anos depois, a Morte passa pe-la sua casa com intenção de levá-pe-la. Epe-la se decpe-la- decla-ra disposta a acom panhá-la, m as antes de sair, solicita permissão para comer algumas ameixas. A Morte trepa na árvore para buscá-las e então a mulher diz: “Que a Morte não consiga mais des-cer da árvore sem a m inha perm issão”. A Morte se exalta, pede, ameaça, grita: não consegue mais descer. E ninguém mais pode morrer sobre a Ter-ra. Todos os enferm os, os feridos, os doentes so-frem terrivelm ente, pois não podem m orrer. As pessoas vêem de todos os lugares pedir à m ulher que solte a Morte. Finalmente, ela concorda com a condição de poder cham ar a Morte três vezes antes dela vir buscá-la. (Citado em Kast, Verena. Sísifo: a mesmo pedra, um novo caminho.
Edito-ra Cultrix, São Paulo, 1997, p. 72).
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no artigo pressupõem, sobretudo, uma mudan-ça em nível do indivíduo que, essa sim, poderá produzir uma mudança societal. Ou seja, o cor-te episcor-temológico que se insinua no artigo su-põe a ocorrência de uma espécie de nova revo-lução copernicana nas ciências sociais e huma-nas que, conectam indivíduo e sociedade de tal forma que enseje uma nova organização das so-ciedades em particular e da sociedade global: um a nova form a de organização do próprio trabalho e da distribuição da riqueza, não ape-nas em sua acepção monetária, mas muito mais do que isso.
Nesse horizonte, estariam em jogo e colo-cadas em marcha questões relativas à constru-ção do consenso e da legitimaconstru-ção de uma “no-va hum anidade”, cuja realização encontra-se, ou encontrar-se-ia, num a difícil encruzilhada pois, quando se pensa nas formas e ações polí-ticas e mesmo nas bases dessa espécie de novo contrato, apresenta-se, a meu ver, obstáculos e dificuldades de um a ordem , arrisco afirm ar, muitíssimo complexa cuja perspectiva de obje-tivação não me parece muito simples. Como se pode pensar as bases desse novo contrato? Co-mo imaginar um projeto educacional que teria um compromisso radical e definitivo com a li-berdade respon sável do ser hum an o e que só aceitaria como limite a sua própria capacidade (infinita) de se auto-gerir?
Sem qualquer som bra de dúvida, de m eu ponto de vista, o artigo nos convida e nos insti-ga a pensar e a realizar um projeto grandioso. Um projeto cujo com prom isso radical com a Vida Boa, com a felicidade, com a auto-gestão, com o engrandecimento ininterrupto, está pre-sente todo o tempo e cuja radicalidade deve ser renovada a cada momento e que de alguma for-ma apresenta o Paraíso, não como um Jardim das Delícias de onde se foi expulso, mas como um jardim cultivado na m edida certa da res-ponsabilidade compartilhada, a partir de uma mudança no plano individual, base sólida para a mudança societal.
no sentido único de explicitar alguns aspectos que me tocaram em particular, colaborando as-sim, à minha maneira, para o debate.
Com certeza o projeto de uma consciência integral, conquistada pouco a pouco, que leve em conta as potencialidades, bem como as limi-tações do projeto científico hum ano, ganha uma resposta significativa com as elaborações atlanianas, tal qual apresentado pelas autoras. Pode-se mesmo concordar, conforme assinala-do, que há uma mudança de patamar. Sem dú-vida, a interpretação de Atlan dos escritos spi-nozianos e sua própria contribuição recente re-presentam o que há de m ais sofisticado para possibilitar um a saída da razão, dos becos em que a própria razão nos meteu. No entanto, há um a variável que, apesar de não ser objeto de consideração das autoras, portanto podendo-se alegar que seria estranha ao debate proposto, está ausente e sobre a qual, do m eu ponto de vista, é interessante refletir pois, de alguma for-ma, pertence, ao que parece, à ordem da execu-ção e/ou da realizaexecu-ção do universo atlaniano.
A variável é a política. Ten to m e explicar. Com o a m an eira pela qual a n ova ética in si-nuada no artigo poderia, ou deveria, se tradu-zir num projeto educacional fundado na busca da felicidade, ocorreu-me, ao ler, uma assime-tria. Qual seja? A de que essa questão introduz problem as da ordem do político e da política pública. Por que? Porque o m ote do texto é o de contribuir para as reflexões acerca da noção de humanização (em saúde), tomada como con-signa que reúne, de form a im plícita, qualidade da atenção, interação compreensiva entre profis-sionais de saúde-pacientes e revalorização do olhar clínico, no mundo proeminente das tecno-ciências e das biotecnologias.
Como um conjunto de políticas pode indu-zir a práticas virtuosas? Como um sistema po-lítico que, em última instância representa uma coalizão de forças societais, pode ser patrocina-dor de políticas públicas que, por fim, questio-narão, ou podem questionar, o próprio status quo que os sustenta? Com o um conjunto de
políticas públicas pode iniciar ou ensejar, de form a sustentada e no longo prazo, projetos educacionais que propiciarão a transformação e a superação das questões tão bem apresenta-das e ponderaapresenta-das pelas autoras e com especial atenção ao fato de estarmos, ao que tudo e to-dos indicam, num momento bastante especial da humanidade?