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Ciênc. saúde coletiva vol.10 número3

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Academic year: 2018

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gas alianças e da procura de alianças novas, quaisquer elas sejam. Afinal, não somos direta-mente responsáveis por aquilo que “somos” (se-ria eticamente cruel), mas por aquilo que faze-mos a partir daquilo que, provisoriamente, so-m os e que podeso-m os, eventualso-m ente, vir a ser dependendo do que entendem os e raciocina-mos sobre nossa atual condição “demasiado hu-mana”, mas que nada impede que tentemos su-perar rumo ao “ultra-humano”. O determinis-m o absoluto e o naturalisdeterminis-m o ético podedeterminis-m ser questionados, a meu ver, também a partir deste tipo de perguntar, ao qual não tenho, evidente-mente, resposta nenhuma. Resumindo, penso que seja correto pensar, como fazem as autoras, que a moral humanista, de origem kantiana é, de fato, demasiado formal e, portanto, de algu-m a algu-m aneira cruel – visto que se desprende da Lebenswelt e da carne e do sofrim ento deste Mundo, feito de sujeitos concretos (ainda) mortais, mas não devemos esquecer que a prin-cipal preocupação do mestre de Königsberg não era cognitiva mas sim ética, embora tenha para isso lançado m ão de um a hipótese ad hoc em sua epistem ologia, antecipando um problem a que estamos ainda discutindo aqui, para tentar “superar conservando” as várias “naturezas” que certamente nos determinam, mas das quais podemos também nos desprender num absolu-to aabsolu-to de liberdade ou de revolta contra a con-dição demasiado humana, como já fizeram, ao longo da história, muitos sujeitos inconforma-dos com o estado de coisas presente.

As autoras respondem The authors reply

Antes de mais nada, agradecemos o vigor inte-lectual e a vibração afetiva dos comentários de nossos debatedores, indicativos de um diálogo vivo. Lamentamos, dadas as limitações de espa-ço, não poder, nesta resposta, aprofundar nossa reflexão conjunta o quanto gostaríamos. Toda-via, procuraremos a seguir ressaltar e associar alguns tópicos particularm ente estim ulantes, propondo assim um entrelaçam ento de idéias propício à continuação desta produção inter-disciplinar significativa.

Comecemos com a aliança estabelecida en-tre os filósofos da ciência (Oliva e Santos) e o bioeticista (Schramm). A vocação progressista de Oliva o leva a repudiar o rótulo de “saber instrumental” para a ciência, crítica que Santos pondera ser pertinente quando as ciências na-turais são inseridas num projeto epistemológi-co que desqualifique a seu favor as ciências hu-m anas e sociais. Prosseguindo nesta direção, Oliva identifica na retórica a serviço da política a fonte do uso inadequado das conquistas cien-tíficas, em sintonia com a tripartição atlaniana dos poderes da palavra entre ciência, política e mídia e, como Atlan, distingue a racionalidade científica da elaboração filosófica e do processo de humanização como construção histórica. A seguir, Santos nos recupera o legado atemporal da filosofia grega e medieval que já contempla-va o dilema determinismo-liberdade de forma a encarecer, em pleno apogeu do predomínio de decodificações científicas da realidade, a garra de um cientista natural ao renovar estas inda-gações por um viés filosófico. Oliva vai adiante, voltando a analisar conosco a função, neste contexto, da “compreensão” e da “idéia de supe-ração”, que afrontam, sem lhes negar os deter-m inisdeter-m os da natureza, e reitera a questão da “perfectibilidade” do hom em , visceral para qualquer projeto que vise à melhoria do bem-estar humano.

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reencontraremos, a seguir, em Najar – norteia-se já pelo reconhecim ento de sua pertinência para a Saúde Pública. Frisamos nosso interesse em retom ar o tem a da “potência” (que, com o Schram m , Oliva aborda) para distingui-la da “vontade de poder”, providência teórica indis-pensável ao colocar em prática, liberando-a de equívocos autoritários, qualquer proposta emancipatória.

Nossos dois sociólogos aproxim am -se da arte (Nunes) e da política (Najar) de forma a nos provocar riquíssimas extrapolações. Já exer-citando bela fluidez vocabular, ao contrastar um afresco de Rafael com um pôster da revista La Recherche, Nunes elege as traduções pictóri-cas de diferen tes visões do m un do com o ex-pressões de criatividade adequadas a se consti-tuírem com o critério para com parações entre as ciências naturais e as humanas/sociais. Atra-vés de citação de Prigogine, recorda-nos de co-mo se dá a irrupção “individual’ da criativida-de em escritores e artistas, enquanto nos domí-nios da ciência este despontar é indistinto, es-parso num grupo de trabalho, em que a lide-rança pode ser circunstancial. Com isto, intro-duz um a revisão da din âm ica en tre o in divi-dual e o social, inspiração que tam bém guiou Najar pela variável da política. Najar alerta-nos que a mudança de patamar implicada no aces-so à consciência integral (que permitiria a ex-periência conjunta de liberdade individual/res-pon sabilidade social) an cora-se, atualm en te, no nível do indivíduo inovador. Ao contrário do que o senso comum pressupõe, esta é a úni-ca base efetiva para uma auto-organização cria-tiva da sociedade que corresponderia à trans-formação, de acordo com novos parâmetros, da interconexão indivíduo-sociedade. Najar aqui reverbera as idéias a respeito de Atlan, que as demonstra matematicamente através do teore-ma von Foerster-Dupuy (1991).

No outro pólo dos desafios interdisciplina-res, está o discurso do neurocientista com for-mação original em matemática aplicada (MIT), Daniel Levine. O grande mérito de seu texto é o de, por se concentrar numa transcrição neu-rocientífica de assuntos antes de alçada exclusi-va das humanidades, isto é, por assumir plena-mente “as regras do jogo científico”, compelir-nos a seu cotejo com “as regras do jogo filosófi-co”, à la Atlan. A “dissonância cognitiva” diag-n osticada por Levidiag-n e diag-n os rem ete, diag-n um outro registro, ao “hiato cognitivo” atlaniano, assim como sua defesa da otimização do sistema di-nâmico em que nos constituímos obriga-nos a

redefinir “felicidade” de m aneira a valorizar, sem confundi-los, o m elhor funcionam ento possível de corpo-mente e a experiência signi-ficativa singular da alma. Neste mesmo diapa-são, Carvalho, tam bém oriundo das ciências exatas (engenharia de sistemas e computação), lem bra os prim eiros passos da trajetória atla-niana, quando a sua teoria da auto-organiza-ção pelo ruído parecia opor-se a um determ inism o absoluto da natureza. A aparente con -tradição é resolvida por Atlan através do recur-so às condições de nosrecur-so conhecimento sempre parcial dos fenôm enos em seus diferentes ní-veis de observação e descrição, a par da Igno-rância substantiva que nos constitui face à To-talidade inatingível do Conhecimento.

E, retornando à filosofia, concluímos nossa resenha com o fascinante contraponto “dia-phônico” – ou seja, inscrito nos “desacordos ir-reconciliáveis” da tradição cética – entre o apaixonado relativismo epistêmico de Vidal e o realismo racional de Spinoza/Atlan. Seria esta extremada convicção epistemológica que teria n orteado a oposição de Vidal à m aioria das proposições atlanianas. Essa debatedora, inclu-sive, lhes atribui uma inexistente pretensão de chegar à Verdade última e a uma identificação entre progresso científico e agir correto incon-gruente com a intercrítica atlaniana e com seu endosso à filosofia protagoriana como funda-m ento para seu “relativisfunda-m o relativo”. Entre-tanto, ressaltem os a confluência das duas orientações epistemológicas, a de uma vertente pragmática da filosofia da linguagem e a espi-nosista, em relação a um pensar comprometi-do com a ação.

Em síntese, o que nos parece transparecer e palpitar por sob todos os comentários é o im -pacto do pensamento originalíssimo de Atlan, que, sem infringi-los, abala os alicerces usuais da elaboração filosófica, nos entre-lugares de filosofia da ciência e ética, nos entre-tempos da metafísica, da cisão ontologia/epistemologia e da filosofia da m ente. O rigor acadêm ico de Santos nos pede atenção para quão inédita é a releitura atlaniana de Spinoza, o que, a nosso ver, repercute num esforço de com preensão constituinte de uma ampliação de nossa condi-ção cognitiva.

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wicz, 2001). Assim , as ciências hum anas e so-ciais com partilhariam os diferen tes estatutos das racion alidades cien tífica e m ítica dado o duplo ponto de vista de observação do ser humano, o “objetivo” (ou externo), em que o in -divíduo se percebe como elemento componen-te de um siscomponen-tema e o “subjetivo” (ou incomponen-terno), o da singularidade irredutível da significação. É no cerne filosófico da incessante atividade in -tercrítica entre estas duas instâncias, no âmago – como bem nos lembrou Atlan – de nossa re-lação, dentro do tempo, com o que está fora de-le, que se dão o entendimento racional e a ex-periência existencial da conciliação entre deter-minismo e liberdade.

Quase todos os nossos debatedores nos in-citam – alguns mais expliin-citamente que outros – a levar adiante esta reflexão de forma a fazê-la repercutir fecundamente em espaços públi-cos. Esclarecemos que já se encontram em pro-cesso de produção acadêm ica alguns projetos neste sentido (na ESNP/Fiocruz). Mas para que estes – e outros do mesmo teor! – possam frutificar, é necessário adubar e irrigar as semen -tes representadas por nossa interlocução neste artigo. Sem dúvida, um dos fatores de sucesso das ciências naturais é sua certeza inequívoca, con cretizada n a prática, da relevân cia da im

-plem entação consistente de projetos audazes, nutridos por vastas alianças intelectuais de in-divíduos e equipes, com sua continuidade esti-m ulada institucionalesti-m ente. Urge que nossas instituições e agências de pesquisa propiciem o suporte im prescin dível à m issão de gerar co-nhecimento segundo a tônica do século 21, efetivan do cooperações in terdisciplin ares e en -frentando o desconhecido e os entraves buro-cráticos (Minayo, 2002). Que este nosso diálo-go, apenas iniciado, prospere e se consolide co-mo marco significativo para a realização desta esperança.

Referências bibliográficas

Aleksandrowicz AMC 2001. Henri Atlan e as hipóteses do possível nos processos de adoecer. Dissertação de

mestrado. Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, Rio de Janeiro.

Koppel M, Atlan H & Dupuy JP 1991. Complexité et alié-nation. formalization de la conjecture de von Foer-ster, pp. 410-411. In FF Soulié (org). Les théories de la complexité autour de l’oeuvre d’ Henri Atlan. Éditions

Seuil, Paris.

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