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Pensamentos apocalípticos no Antigo Testamento

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Academic year: 2021

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Pensamentos apocalípticos no Antigo

Testamento

No início deste artigo é abordado, em primeiro lugar, o significado do tema. Depois, segue-se uma introdução ao conceito da história apocalíptica. A seguir, será explicado que o Apocalipse é uma interpretação da História e que fala sobre um objetivo da História. Por fim, serão mencionados os elementos essenciais da ideologia apocalíptica: a esperança na renovação do mundo, a expectativa do Messias ou do Filho do Homem, bem como a esperança da ressurreição dos mortos e da justiça.

Significado do tema

Já no tempo do Antigo Testamento, os Homens perguntavam como iria ser o fim da História e o que iria acontecer depois. O povo de Israel, a quem Deus se revelou como Criador do mundo e Senhor da História, vivia, desde a saída do Egito, como um povo cuja existência era direcionada para o futuro. No período de tensão entre a promessa de salvação do fim dos tempos e as ameaças de justiça encontram-se, no antigo ju-daísmo, muitas coisas que apontam para as „sombras das coisas futuras“ (Cl 2,17), o que com Cristo se tornou uma certeza e que para os cristãos novos-apostólicos faz parte dos elementos básicos da sua crença futura: a revinda de Cristo, o reino da paz, o Juízo Final, a nova criação. Este artigo trata das ideias que estavam associadas a estes conteúdos de fé no apocalíptico veterotestamentário.

O termo e a história do Apocalipse

O termo apokálypsis deriva do grego e significa „revelação“. A palavra apokalyptein, ou seja, „tirar o véu“, encontra-se no Apocalipse de João. Estes termos foram usados para descrever um determinado pensamento, bem como a literatura que expressa essa forma de pensar. No seu contexto geral, apokálypsis descreve um movimento religioso dentro do judaísmo original, que se verificava sobretudo na Palestina e que ocorreu entre o século III a.C. e o século I d.C.. Mesmo para o cristianismo primitivo, o pensamento apocalíptico teve um grande significado.

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O movimento apocalíptico surgiu numa época em que o judaísmo se quis separar do helenismo e libertar da repressão política. Os judeus lutavam contra a influência de falsas religiões, as quais ameaçavam obscurecer a fé no Deus uno que se tinha reve-lado ao povo de Israel. Ao mesmo tempo, tentavam libertar-se do domínio estrangeiro que os condicionava na prática da sua fé. Na sequência da profanação do templo, por Antíoco IV Epifânio, no ano de 167 antes de Cristo, desencadearam-se revoltas contra os estrangeiros (portanto, contra os gregos), a revolta dos Macabeus, que é relatada nas Escrituras veterotestamentárias da Antiguidade tardia (livros apócrifos), nos livros de Macabeus. Antíoco mandou erguer uma estátua de Júpiter na parte mais sagrada do templo de Jerusalém e ordenou que a adorassem. Desta forma profanou o santuário. Este acontecimento é relatado no 2.º livro dos Macabeus. O livro de Daniel (11,31; 12,11) remete para este acontecimento quando fala da „abominação desoladora“. Este ato abominável para os judeus foi certamente um motivo para o surgimento do Apocalipse.

A interpretação histórica do Apocalipse – A História tem um objetivo

Quando hoje se fala de Apocalipse ou de pensamentos apocalípticos, trata-se normal-mente de catástrofes naturais sem precedentes e de grandes dimensões que atingem a terra e as pessoas. Muitas pessoas conhecem filmes ou romances que descrevem a ameaça e a destruição da terra, seja por poderes e forças extraterrestres, seja atra-vés da natureza ou de guerras. Tudo isto tem pouco a ver com a origem apocalíptica, apenas aproveita algumas imagens.

Qual é o conteúdo apocalíptico em causa neste artigo? O Apocalipse, tal como o podemos encontrar na Bíblia e em escrituras não bíblicas, é, essencialmente, uma interpretação da História não feita pelo Homem, mas por Deus. A História, conforme mostra o apocalíptico, não é um acontecimento aleatório independente de Deus, mas antes pelo contrário: é o curso da História que se baseia no plano de Deus. A luta dos povos, os diversos regentes e impérios, tudo está incluído neste curso da História. Como podemos ver, embora o Apocalipse surja numa situação difícil, para não dizer ameaçadora, para o povo judaico e a sua crença, e não obstante as especificidades e as características de diferenciação representem uma necessidade, ele não visa apenas o próprio povo, a história do próprio povo, mas, em simultâneo, também a história do mundo. A interpretação apocalíptica da História tem, por conseguinte, um caráter universal.

Na interpretação histórica do Apocalipse existe uma contradição irreconciliável entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás. Esta contradição é designada de dualismo. Para o Apocalipse, a história do mundo desenvolveu-se para o mal; mal esse, que será aniquilado através da intervenção radical de Deus. Por conseguinte, o curso da História é inalterável. O destino dos impérios, dos povos e de cada indivíduo já está

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determinado na História. Em Daniel 7-12, encontramos um exemplo histórico de quatro impérios que se desmoronam um a seguir ao outro.

Encarando a História por este prisma, torna-se clara uma particularidade do pensa-mento apocalíptico, nomeadamente, a linearidade, ou seja, a visão direta da História. O pensamento antigo, pelo contrário, tinha uma conceção cíclica da História. Na reali-dade, ela não tem fim, sendo antes um processo contínuo de crescimento e decadên-cia, de ascensão e queda. Em contrapartida, o Apocalipse fala da intencionalidade da História. Ela tem um princípio e um fim, um ponto de partida e um ponto de chegada. Se falarmos de um ponto de chegada, então também se pode falar de um sentido ou de um motivo que tenha levado ao acontecimento. Mas, afinal, de que forma é que o Apocalipse fala do ponto de chegada e do sentido da História?

Aspetos comuns nas Escrituras Apocalípticas

Ao olharmos para as diferentes Escrituras apocalípticas, reconhecemos que existem determinados aspetos idênticos entre elas. Em primeiro lugar, reconhecemos que estas Escrituras normalmente contêm o nome de uma pessoa do Antigo Testamento. O „vidente“, o autor anónimo do Apocalipse, aparece sob o pseudónimo de um devoto do passado. Assim, existem Escrituras apocalípticas, nas quais, por exemplo, Enoque, Moisés, Daniel, Esdras ou Isaías são chamados autores. As Escrituras apocalípticas, que parecem ter sido escritas por Moisés, Esdras ou Isaías, pouco têm a ver em ter-mos de conteúdo com os livros do mesmo nome do Antigo Testamento. Elas também vêm de uma época muito posterior à das escrituras canónicas, que têm o nome de Moisés, Esdras ou de Isaías no título.

Os livros apocalípticos alegam muitas vezes dar a conhecer uma verdade desconhecida até então. O plano que Deus tem com a História é revelado. Segundo dizem, este livro esteve escondido durante muito tempo, no entanto, presentemente – pouco antes do final dos tempos – apareceu. O livro de Daniel é o único livro do Antigo Testamento que, em grande parte, (capítulos 7-12) contém afirmações que se enquadram nos pensamentos apocalípticos. Enquanto o livro de Daniel é vinculativo para a doutrina e para fé da nossa Igreja, o mesmo não acontece com as outras Escrituras apocalíp-ticas. No entanto, existem muitas similaridades entre as afirmações apocalípticas do livro de Daniel e os livros apocalípticos não bíblicos.

O tempo, no qual o autor de um livro apocalíptico fala, é um tempo final, o tempo pouco antes do fim da passagem histórica aqui demonstrada. Assim, fica claro que toda a História é uma história de decadência voltada para o mal. Por conseguinte, encont-ramos aqui uma imagem histórica extremamente pessimista, o que torna evidente o agravamento permanente da situação histórica. O pior tempo para o desenvolvimento histórico é o presente, ao qual a Escritura apocalíptica se destina. „Presente“ aqui significa, o tempo do antigo autor e da antiga situação histórica concreta e

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ameaça-dora. No entanto, o facto de a regência do mal estar a aumentar não é motivo para ficar consternado, uma vez que, a viragem histórica é iminente. Ela é „salvação nas grandes aflições“ e acontece através do surgimento das potestades divinas no mundo caído no pecado. A viragem histórica acontece através de fenómenos maravilhosos e é caracterizada por uma sequência de acontecimentos, cujo objetivo é a revogação do mal e a vitória total do bem, isto é, a vitória de Deus.

Mas antes de tudo isto acontecer existe uma luta entre as potestades do bem e do mal. Esse tempo, assim foi definido por alguns autores do Apocalipse, é marcado por catástrofes naturais, fome e guerras. É um tempo de sofrimento e de perigo, do qual, por fim, os justos serão resgatados.

Para a maioria das Escrituras apocalípticas a esperança na revinda do Messias é de extrema importância, visto que, esse será o momento em que começará a viragem histórica. Messias significa „Ungido“, por conseguinte, trata-se de um título real. Com a vinda do Messias aparece um rei superior a todos os reis que até hoje existiram, uma vez que, a Sua regência é caracterizada pela justiça e a Sua atuação é do agrado de Deus. Este Messias não é apenas o regente de Israel, mas antes do mundo.

A expectativa do Messias está relacionada com a expectativa do Filho do homem, que encontramos, pela primeira vez, em Daniel 7,13.14: «... e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem: e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem. O seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino o único que não será destruído». Esta forma messiânica mencionada em Daniel, é parecida com um Homem, mas não é Homem; é um ser divino que recebe todo o poder do próprio Deus. No Apocalipse, este ser, ao qual Daniel se refere, é chamado de Filho do homem. O livro de Enoque1 também fala deste Filho do homem: «Este

é o filho do homem, ao qual a justiça pertence, com o qual a retidão tem habitado, e o qual revelou todos os tesouros do que é escondido: pois o Javé dos espíritos o tem escolhido e a sua porção tem excedido a tudo diante do Javé dos espíritos em eterna ascensão» (Enoque 46,2). O livro de Enoque é uma Escritura apocalíptica, que encontrou grande propagação. Ele não contém apenas afirmações sobre o futuro, como também sobre a ordem dos anjos. Foi publicado em diferentes versões, sendo as mais conhecidas a versão no antigo eslavo e em amárico.

À viragem histórica, à destruição do reino do mal, associa-se a grande esperança na concretização do „reino de Deus“, um reino onde a justiça divina prevalece. Um reino onde não haverá mais opressão dos fracos, e onde doença, fome e morte serão supri-midas. Muitas vezes, este reino está associado a uma paz abrangente entre o Homem ¹ O livro de Enoque, bem como outras Escrituras apocalípticas encontram-se nas antigas literaturas judaicas, não na Bíblia. Tradução e explicação em alemão de Paul Riessler. 2.ª edição, Heidelberg 1966.

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e a natureza. A razão principal para esta ideia é a visão de um mundo, onde não há morte precoce, nem injustiças sociais, e onde não há inimizade entre os homens e os animais, nem tampouco entre os próprios animais. «A vaca e a ursa pastarão juntas, e os seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca do áspide, e o já desmamado meterá a sua mão na cova do basilisco» (Is 11,7.8). Em Isaías 65,20 está prometido: «Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o mancebo morrerá de cem anos; mas o pecador de cem anos será amaldiçoado».

Em relação ao reino de Deus, também é expressa a esperança num novo céu e numa nova terra: «Porque, eis que eu crio céus novos e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão“ (Is 65,17).

Uma grande esperança, abordada diversas vezes no Antigo Testamento, é a ressur-reição dos mortos. A visão do vale de ossos em Ezequiel 37,1-14, descreve a res-tauração de Israel como um regresso dos mortos à vida. Esta visão, que inicialmente assinalava a restauração de Israel, passou a ser a imagem da ressurreição dos mortos: «E sabereis que sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra, e sabereis que eu, o Senhor, disse isto, e o fiz, diz o Senhor» (Ez 37,13.14). Em Daniel, a esperança da ressurreição torna-se um acontecimento concreto que abrangerá todos os mortos: «E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno» (Dn 12,2).

As ideias de justiça do Antigo Testamento são de naturezas diversas: Perdas de guerras, fome e catástrofes naturais são interpretadas como justiça. Para além disso, trata-se do „dia do Senhor“ (dia de Javé). Nesse dia, os pecadores serão castigados e os justos serão salvos: «Porque, eis que aquele dia vem ardendo como forno; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, que sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo. Mas, para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e salvação trará debaixo das suas asas» (Ml 4,1.2). Segundo o Antigo Testamento, o „dia do Senhor“ é um dia de terror, mas, ao mesmo tempo, um dia de redenção e de salvação.

As interpretações apocalípticas que se encontram no antigo judaísmo, também se voltam a encontrar nos discursos escatológicos de Jesus (Mt 25.26; Marcos 13; Lc 21) e na primeira cristandade. O Apocalipse de João também se consegue inter-pretar melhor se soubermos que as suas imagens e estruturas têm muitos pontos em comum com a antiga literatura apocalíptica judaica. No entanto, todas as afirmações apocalípticas não bíblicas terão de ser medidas pelas do Apocalipse e por outras Escrituras bíblicas canónicas. As imagens contidas nas Escrituras apocalípticas pre-tendem transmitir uma visão global da História de salvação, muito embora, em parte,

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seja extremamente difícil interpretar elementos individuais da imagem e relacioná-los com uma situação histórica real. Por conseguinte, é aconselhável sermos muito cau-telosos ao interpretarmos Escrituras apocalípticas que se refiram ao nosso presente. Para a nossa expetativa do fim dos tempos, é particularmente importante ter a certeza de que Deus tem um plano de redenção para a humanidade e de que a História do mundo se refere à revinda de Jesus Cristo. É para esse dia que o apostolado prepara a comunidade. No entanto, dentro dos estudos novos-apostólicos sobre os últimos acontecimentos, o ponto principal não são as catástrofes incomuns, mas antes a salvação e a redenção ligadas à revinda de Cristo.

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