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signo, objecto, performance :: Brapci ::

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A im a ge m : sign o, obj e ct o, pe r for m a n ce

Ca t h e r in e Sa ou t e r*

Univer sit é du Québec à Mont r éal

Re su m o

As im agens figur at ivas fazem par t e dos inúm er os obj ect os ofer ecidos e pr oduzidos pela cult ur a, que cont r ibuem par a for m ular o m odo com o com pr eendem os o m undo e o m odo com o m anifest am os essa com pr eensão. Mediador as de r epr esent ações ( Fr ege, 1972 [ 1892] ) , as im agens figur at iv as r em et em t ant o par a um m undo m at er ial, enquant o ocor r ências t angíveis, quant o par a um m undo concept ual, enquant o for m ulações sem iót icas. As expr essões v isuais, com o as ex pr essões v er bais, são configur ações que dispõem do r eser vat ór io enciclopédico ofer ecido pela cult ur a, em função de um a exper iência do m undo per pet uam ent e r enovada. Apr esent a- se um exer cício sobr e a im agem figur at iva enquant o signo, enquant o obj ect o e enquant o per for m ance com unicacional.

Pa la vr a s- ch a ve :

I m agem ; signo; per for m ance; com unicação.

Abst r a ct

Visual im ages ar e obj ect s pr oduced by and m ade av ailable w it hin cult ur e, and t hey condit ion t o t he w ay s w e under st and t he w or ld and t he w ays w e expr ess our under st anding of t he w or ld. As im ages m ediat e our r epr esent at ions ( Fr ege, 1972 [ 1892] ) , t hey r efer bot h t o a m at er ial w or ld ( as t angible ev ent s) and t o a concept ual w or ld ( as sem iot ic for m ulat ions) . Visual expr essions, like ver bal expr essions, ar e configur at ions t hat use t he cult ur al ency clopaedic r eser v oir , m anipulat ing a per m anent ly r enew ed exper ience of t he w or ld. The ar t icle dev elops an exer cise about im ages as signs, sem iophor es and com m unicat ional per for m ances.

Ke y w or ds:

I m age; sign; per for m ance; com m unicat ion.

As im agens figur at ivas, no sent ido com um do t er m o, fazem par t e dos inúm er os obj ect os ofer ecidos e pr oduzidos pela cult ur a, que cont r ibuem par a for m ular o m odo com o com pr eendem os o m undo e o m odo com o m anifest am os essa com pr eensão. Mediador as de r epr esent ações ( Fr ege, 1972 [ 1892] ) , as im agens figur at ivas r em et em t ant o par a um m undo m at er ial, enquant o ocor r ências t angíveis, quant o par a um m undo concept ual, enquant o for m ulações sem iót icas. As expressões visuais, com o as expr essões ver bais, são configur ações que, de acor do com as suas est r at égias de com posição, dispõem do r eser vat ór io enciclopédico oferecido pela cult ur a, em função de um a exper iência do m undo per pet uam ent e r enovada.

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Est e r eser vat ór io enciclopédico pode ser explor ado, de m aneir a m uit o ger al, seguindo os dois eixos, sint agm át ico e par adigm át ico, descr it os num a das pr im eir as lições de Fer dinand de Saussur e ( 1974: 170- 175) . O plano sint agm át ico per m it e ident ificar os m odos de const it uição de ent idades, de acordo com os dois gr andes r egist os sem iót icos, ver bal e visual: essencialm ent e, um m odo sim bólico par a o pr im eir o e um m odo analógico par a o segundo. O plano par adigm át ico ( Mor in, 1991: 211- 219) per m it e ident ificar as classificações de unidades de conhecim ent os a par t ir de r egr as de selecção em núm er o infinit o, gerando um núm er o de classes igualm ent e infinit o. Dado que qualquer nova configur ação m ant ém um a r elação int er pr et at iva pot encial com o conj unt o, as soluções sem iót icas e r et ór icas pr esent es num enunciado assinalam a selecção das infer ências necessár ias par a a pr odução de um sent ido par t icular . Os t r abalhos de Char les S. Peir ce ( 1978) m ost r ar am as im plicações lógicas e filosóficas dest a dinâm ica e, m ais t ar de, Um ber t o Eco discut iu- as longam ent e a par t ir das noções de Enciclopédia, de int er pr et ação e de sobr eint er pr et ação ( 1985, 1988, 1992) .

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pr ocesso da significação, r ealização da com unicação: est es t rês lugar es enquadr am a cont r ibuição das im agens par a o m undo das r epr esent ações, de acor do com um a t ax inom ia que nos pr opom os discut ir – a im agem com o signo, com o sem iófor o e com o per for m ance. Ret om am os assim um a r eflexão cuj as pr em issas for am esboçadas por ocasião da análise de um cor pus de im pr ensa ( Saout er , 2005) .

I – A im a ge m com o sign o

A im agem figur at iva é um signo. Ao enum er ar e com por o r egist o da cor e o r egist o da luz, ela pr opõe um a r elação par t icular com um obj ect o, essencialm ent e, m as não apenas, analógica, da qual pr opõe um a r epr esent ação: é isso que a fundam ent a com o obj ect o sem iót ico. De acor do com as pr opost as de Peir ce, a im agem figur at iva faz par t e daquela cat egor ia de signos em que a face apr eeensível pelos sent idos – a visão nest e caso – possui alguns t r aços com uns com aquilo par a que r em et e. Em ger al, est a par t ilha de t r aços com uns é qualificada com o sem elhança: um a im agem que m ost r a um cír culo est abelece um a sem elhança com o balão par a o qual r em et e. O pr oblem a do sem iólogo é com pr eender com o e por quê podem os passar de / cír culo/ a / balão/ ( Saout er , 1998) . É no cent r o dest e pr oblem a que se coloca a quest ão da nat ur eza da r elação ent r e a im agem e aquilo par a que ela r em et e – ent r e o r epr esent am en e o seu obj ect o –, a que se r efer em os dois gr andes

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ou ut ilizam . O pr oblem a das fot ogr afias dit as falsificadas pont ua a hist ór ia da fot ogr afia desde as suas or igens, m as, com o o ilust r a o exem plo que se segue, ele é par t icular m ent e act ualizado com o apar ecim ent o das im agens num ér icas.

Em 1997, um j or nal suíço, Blick, publicou um a fot ogr afia, t ir ada por ocasião de um at ent ado per pet r ado no Egipt o, no Vale dos Reis. Most r ando o t em plo de Hashepsout e a esplanada que o pr ecede, a com posição do cliché faz concent r ar a at enção num r io de sangue que escor r e pela escadar ia do m onum ent o e que invade a r efer ida esplanada. Dem onst r ou- se que um r et oque num ér ico t inha color ido de ver m elho um longo r ast o de água. O m onum ent o esvaía- se no seu sangue: a poder osa m et oním ia obt ida por est e ar t ifício const r uía,

com um a eficácia indiscut ível, um a int er pr et ação específica do acont ecim ent o. Cur iosam ent e, o problem a ent ão levant ado por est a alt er ação falaciosa não se r efer iu à int er pr et ação pr opost a, m as ant es aos m eios ut ilizados par a a infer ir : ut ilizando um a cor ver m elha, um a int er venção de car áct er icónico t inha post o em causa o car áct er docum ent al dest a im agem , o seu car áct er indiciár io, fundam ent o de qualquer fot ogr afia de im prensa e da deont ologia que lhe subj az. Essa int er venção foi consider ada suficient em ent e gr ave par a que o cliché r eapar ecesse no cont ext o de um a exposição, I m agens

enganosas, O sensacionalism o e a pr ocur a desenfr eada de fur os

j or nalíst icos, na Casa da Hist ória da República Feder al da Alem anha,

em Bona.

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algum a out r a coisa, m ant ém com essa out r a coisa um a r elação ao

m esm o t em po de subst it uição e de sim ilit ude. Est a dupla r elação, com o r efer e Car lo Ginzbur g, inscr eve um a t em por alidade no pr ocesso com unicacional do signo: " por um lado, a r epr esent ação ocupa o lugar da r ealidade que r epr esent a e, por conseguint e, evoca um a

ausência; por out r o lado, t or na visível a r ealidade que r epr esent a,

logo suger e um a pr esença" ( 2001 [1998]: 73) . Est e ar gum ent o explica a confusão possível ent r e o signo e o seu obj ect o. À expr essão a palavr a cão não m or de, cor r esponde a adver t ência gr avada no século XI no t ím pano nor t e da I gr ej a Saint - Michel d’Est ella, em Navar r a: " est a im agem que vês não é nem Deus nem hom em , m as é Deus e hom em o que figur a [nest a] im agem sagr ada" .

Com pr eender por que r azões est a confusão pode ser deliber ada im plica com pr eender a sua possível acção em função das necessidades com unicacionais. Par a isso, é necessár io int er essar m o-nos por aquilo que se faz signo, ou sej a, t er em cont a a ocor r ência t angível m ediador a de um a significação: o sem iófor o na t er m inologia de Kr ist of Pom ian ( 1997: 73- 100) .

I I – A im a ge m com o se m iófor o

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benefício de um a r elação exclusiva com o que é dado a ver , levando a consider ar com o quase sinónim os os t er m os " im agem " e " r epr esent ação" . Tal t endência não pode, no ent ant o, aspir ar a algum a v alidade, sem ânt ica ou cult ural, qualquer que sej a o lugar ou a época: " «r epr esent ação» t em o duplo inconvenient e de designar um cam po que ult r apassa lar gam ent e a im agem e de negligenciar a

sua dim ensão de obj ect o [ ... Ser ia necessár io, por conseguint e,]

vincular a análise das duas r elações que a repr esent ação m ant ém ,

por um lado com o seu pr ot ót ipo e por out r o lado com o elem ent

o-obj ect o que fundam ent a a sua inscr ição num disposit ivo" ( Bachet ,

1996, 11- 13) .

Consider ar a im agem com o um sem iófor o, com o um obj ect o concr et o e m ediador de um a r epr esent ação, conduz à consider ação do que designám os, nout r o lugar , a r elação ent r e o " dar a ver" e o " dado a ver" ( Saout er , 1998, 34) , ent r e o pôr em im agem e a r epr esent ação, t endo em cont a a função da m at er ialidade da im agem

nest a r elação. I st o exige consider ar o plano da enunciação, o plano do enunciado e a ar t iculação ent r e os dois.

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est e t er m o, pr ocedent e do par adigm a do quadr o m oder no, t em o defeit o de induzir um a for m a necessar iam ent e quadr angular , e a delim it ação do cam po não pode ser r eduzida a essa única for m a. Pr efer im os, por conseguint e, o t er m o cont or no. O cor t e do capit el, os ângulos das par edes, a m oldur a de um enquadr am ent o, os lim it es r ect ilíneos da página e cur vilíneos do ecr ã, são as m ar cas t angíveis ou vir t uais dos cont or nos, que, quando or t ogonais, podem ser nom eados quadr os.

Espaço, cam po, cont or no: as im plicações dest as dist inções são det er m inant es ( Shapir o. 1982 [ 1969] ) . O plano da enunciação per t ence a um cont ext o do qual dependem as condições de per cepção e legibilidade do plano do enunciado, consoant e, ent r e out r os fact or es, a dim ensão do cor po e as post ur as do suj eit o sem iót ico. O cor po do suj eit o est á ver t ical e m óvel quando obser va o pr ogr am a iconogr áfico de um a igr ej a m edieval ou, event ualm ent e, de um a int er venção em ar t e cont em por ânea; pelo cont r ár io, est á sent ado e im óvel em fr ent e ao ecr ã do com put ador . Pode est ar sent ado e im óvel dur ant e a cont em plação de um capit el específico, e per m anecer m óvel quando decifr a as pr im eir as páginas da im pr ensa em exposit or es ou as difer ent es com ponent es de um a exposição. Um fr esco é m aior que o cam po visual do espect ador , enquant o um a página de r evist a é concebida par a não exceder os seus lim it es. Na fr ent e de um quadr o, o cor po est á im óvel, sit uado num pont o do espaço det er m inado pelas r egr as de pr oxém ica e de per spect iva ut ilizadas no enunciado, ao passo que, ao per cor r er um m osaico, o cor po ocult a as por ções que est ão sob os seus pés ou at r ás de si.

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Consider em os agor a um out r o pór t ico ocident al, dest a vez o do Most eir o dos Jer ónim os, em Belém ( Lisboa) . Aí, encont r am os o m esm o escudo, m as m uit o m aior e, dest a vez, m esm o no cent r o do ar co da por t a. Est a deslocação e est a am pliação são os indicador es de um a m udança sem iót ica na const r ução da or dem do m undo. Enquant o D. João I , após a bat alha de Alj ubar r ot a, em 1385, concebia a sua vit ór ia com o pr ova da benevolência divina, dois séculos m ais t ar de, D. Manuel m anifest ava o seu or gulho laico face a essa espect acular avent ur a a que agor a cham am os as Grandes Descober t as. O pr im eir o expr essava a sua subm issão gr at a à int enção divina que lhe at r ibuír a a vit ór ia, colocando a Vir gem no pont o m ais elevado possível do pór t ico, enquant o o segundo consider ava o céu com o t est em unha do valor dos seus feit os e, em boa lógica, colocou as ar m as de Por t ugal no lugar m ais adequado. Discut ir em os nout r o lugar est a m agnífica audácia. Const at em os, por or a, que est a ar t iculação ent r e o plano da enunciação e o plano do enunciado nos r ev ela um a m udança fundam ent al de par adigm a na hist ór ia do Ocident e: a cham ada ent r ada na m oder nidade.

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com plet am ent e difer ent e se o m esm o r et r at o t iv esse sido r epr oduzido apenas nas páginas int er ior es dos per iódicos.

O plano da enunciação é m ascar ado, quando, por exem plo, os est udos cinem at ogr áficos est abelecem a condição necessár ia da cr ença na ficção. Aquilo a que cham am os o olhar par a a câm ar a é um a r evelação do plano de enunciação e, a esse t ít ulo, é banido do cinem a clássico hollyw oodiano par a não est r agar a ficção. Ocult ar o plano da enunciação é t am bém a condição necessár ia par a pr oduzir o for a- de- cam po, sem o que o univer so do film e, hollyw oodiano ou não, fique ar r uinado pela int r om issão das condições de visionam ent o. Além disso, em qualquer nar r at iva por im agens, essa r et ór ica t or na possível a const r ução da elipse, essencial à infer ência da dur ação e das ar t iculações espácio- t em por ais. Os est udos em nar r at ologia visual discut ir am abundant em ent e t odas est as quest ões e nós volt ar em os, no âm bit o dest as not as, às incidências que essa r et ór ica pode t er , num cont ext o de com unicação, sobr e a nat ur eza das t r ansacções nele im plicadas.

I I I – A im a ge m com o pe r for m a n ce

A im agem figur at iva, com o obj ect o r eal, pode dar lugar a usos, m anipulações ou r it os, com o bem o descr eve Jér ôm e Baschet ( 1996:

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A par t ir daqui, é possível elencar algum as configur ações, das quais um a pr im eir a é a ident ificada por Car lo Ginzbur g quando discut e a efígie, ut ilizada nos funer ais dos m onar cas ingleses ou fr anceses do

ant igo r egim e ( 2001 [ 1998] ) . Hoj e, t em os o equivalent e no derrube das est át uas de Saddam Hussein, após a ofensiva dos Est ados Unidos, em 2003 no I r aque: a queda das est át uas de br onze consagr ou a queda do dit ador .

Um t al r it ual ilust r a o ent endim ent o da efígie com o ocupando o lugar do que é r epr esent ado, no sent ido em que o que afect a a efígie afect a o que ela r epr esent a. Em r elação a est a configur ação da efígie,

m as no que r espeit a às im agens bidim ensionais e figur at ivas, um fait diver s da sociedade civil do Quebeque anim ou o início do Out ono de

2003. No pr im eir o dia de aulas, um pr ofessor de um a escola secundár ia fez pisar pelos seus alunos um a fot ogr afia do pr im eir o-m inist r o, ao-m pliada, plast ificada e colocada coo-m o uo-m a est eir a à ent r ada da sala de aula. " Se não podia ir vê- lo par a lhe dizer na car a o que pensava, [o pr ofessor] podia, pelo m enos, pisar a sua car a" ,

t est em unhou um aluno ( j or nal La Pr esse, Mont real, 9 de Set em br o de 2003) . Com a aprovação ger al, o dir ect or ger al da Com issão Escolar suspendeu o pr ofessor das suas funções e fez o seguint e com ent ár io: " É um gest o odioso pisar o r ost o de um a pessoa com cuj as ideias não se concor da" ( ibid.) . É not ável ouvir - se esse dir ect or declar ar " pisar o r ost o de um a pessoa" em vez de " pisar a fot ogr afia do r ost o de um a pessoa" : est a confusão r evela a m ist ur a deliber ada ent r e a im agem e o seu obj ect o.

Pr ossigam os a elencagem das configur ações com a r elíquia, o que r est a de: invest ida de um for t e valor m or al, r eligioso ou afect ivo,

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Encont r am os a r elíquia subent endida num a passagem fam osa da obr a de Roland Bar t hes, a propósit o de um a fot ogr afia da sua m ãe: " ao cont em plar um a fot ogr afia onde ela m e apert a, cr iança, cont r a o peit o, consigo desper t ar em m im a doçur a do cr epe da China e o per fum e do pó- de- ar r oz ( 1980: 102) . A fot ogr afia, pela sua dupla r elação indiciár ia e icónica, pr eenche facilm ent e est a função de r elíquia: nos dias que se seguiram , em 2001, ao desm or onam ent o das Tor r es Gém eas, os bilhet es- post ais ficar am lit er alm ent e esgot ados. Pelas m esm as r azões, a Sm it hsonian I nst it ut ion de Washingt on, o Museu Nacional de Hist ór ia, e out r as inst it uições am er icanas r ecolher am , j unt o das t est em unhas, dos sobr evivent es e dos par ent es das vít im as, par a além de obj ect os ( sacos de m ão, capacet es am assados, ar quivador es de escr it ór io, sandálias, lim pa-vidr os, et c.) e dos r egist os dos gr avador es de cham adas t elefónicas, os seus r egist os videogr áficos e as suas fot ogr afias de am ador es.

Acr escent em os agor a o t roféu, aquilo que celebr a um a per for m ance, que é um a par t e daquilo por que se lut ou quando se

alcançou um a vit ór ia. Despoj os, sím bolos, par t es de cor pos: são as ar m as gaulesas nos t r iunfos de Júlio César ; as colecções de or elhas viet nam it as feit as pelos m ar ines dur ant e a guer r a do Viet nam e; a cabeça do alce em cim a do aut om óvel dur ant e a est ação de caça no Canadá. É, t am bém , o gr ande plano do r ost o de Saddam Hussein nas pr im eir as páginas de t oda a im pr ensa nor t e- am er icana, no dia seguint e à sua capt ur a. Mais do que o valor indiciár io, é a r et ór ica da dim ensão, no plano icónico, que const r ói o t r oféu. O grande plano sobr e o r ost o, sinédoque da pessoa, t or na- se, em analogia per feit a, o t r oféu dos caçador es de cabeças.

Assinalem os, ainda, a pr ova, aquilo que ser ve par a est abelecer que um a coisa é ver dadeir a. É a função, pr ovavelm ent e a m ais

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Cuba. A fot ogr afia auxiliar const it ui um subgéner o da fot ogr afia docum ent al e ser ve, por exem plo, desde o século XI X, par a os ser viços de polícia const r uír em ficheir os ant r opom ét r icos. É út il t am bém aos dent ist as, aos cir ur giões, aos hist or iador es da ar t e, aos dir ect or es de fot ogr afias, aos m useólogos, par a quem são essenciais os ar quivos visuais. As fot ogr afias das t or t ur as de Abou Ghr aib, ao m esm o t em po r elíquias e t r oféus nos álbuns de r ecor dações pessoais dos soldados do r espect ivo cont ingent e, pr eencher am , no espaço público, a função im placável da pr ova. Pouco im por t ava a m ediocr idade dos clichés ou a falt a de cr édit o dos seus aut or es: for a de qualquer dúvida, e par afr aseando Roland Bar t hes, aquilo t inha sido assim .

Dest aquem os, t am bém , o em blem a, aquilo que ser ve par a expr im ir um a quint a- essência, que é um signo cuj a r em it ência t em

um alcance par adigm át ico. A fot ografia de Kim Phuc, queim ada por napalm em 1972, r em et e par a t odas as vít im as de t odas as guerr as. Na m esm a or dem de ideias, a fot ografia do t em plo de Hashepsout esvaindo- se em sangue r eenvia- nos par a a t ot alidade da civilização ocident al agr edida pela bar bár ie.

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t odas as m ar cas indiciár ias, as r est r ições à ut ilização da ilusão icónica, os usos inver osím eis, por ex em plo, da cor ou dos m at er iais, et c.) . Quando as m ar cas do cont r at o não est ão pr esent es no disposit ivo, o sim ulacr o t or na- se um a falsificação. Foi o que acont eceu no j or nal sensacionalist a Blick ( cf. supr a) .

Est as funções per for m at ivas da im agem , sim ult aneam ent e signo e obj ect o t angível, per m it em com pr eender em que m edida as condições de enunciação e a nat ur eza sem iót ica da r em it ência, indiciár ia ou icónica, t or nam possíveis e condicionam o desem penho com unicacional. Elas per m it em t am bém , sem dúvida, com pr eender m elhor em que m edida o sent ido é inelut avelm ent e pr ovisór io. Par a que o gest o de der r ubar por t er r a um a est át ua de Lénine ou de Saddam Hussein t enha um alcance sim bólico efect ivo, é necessár ia um a cum plicidade, par t ilhada pelos pr ot agonist as dessa t r ansacção. O m ovim ent o da sem iose per m it e adm it ir que essas m esm as est át uas possam um dia ser r est aur adas e cr it er iosam ent e expost as num m useu: elas não ser ão m ais efígies, m as vest ígios. A com pr eensão sem iósica ex plica assim , in fine, por que r azões um a est át ua de Adolf Hit ler não pode ser , ainda em 2006, um a peça de m useu.

O m ovim ent o opost o é igualm ent e possível. As fot ogr afias dos m onum ent os de Fr ança encom endadas à Missão Heliogr áfica, em finais do século XI X, m udar am de est at ut o. Docum ent os em sent ido est r it o, gr aças às per for m ances indiciár ias e aut om át icas da nova fot ogr afia, de acor do com a concepção posit ivist a da época, elas t or nar am - se hoj e ver dadeir as r elíquias, cuj a dim ensão icónica é valor izada ao pont o de lhes t er em sido at r ibuídos, em 2005 e 2006, os lugar es de dest aque do Museu da Car idade, em Mar selha e do Museu de Belas- Ar t es de Mont r éal, no âm bit o da exposição Debaix o de sol, exact am ent e – A paisagem na Pr ovença, do classicism o à

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