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Leopardi revisitado

Autor(es): Chorão, João Bigotte

Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL

persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/42449 DOI: DOI:https://doi.org/10.14195/0870-8584_0_6 Accessed : 13-Jan-2022 10:28:56

digitalis.uc.pt impactum.uc.pt

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Nova Série Nº 0Estudos Italianos em Portugal

200 anni di regno: notas sobre o segundo centenário do nascimento de Giuseppe Verdi

Maria José Borges, Verdi e o gosto pela ópera italiana em Portugal no século XIX

Jorge Vaz de Carvalho, Fortuna de Verdi no teatro de São Carlos de Lisboa nos séculos XIX e XX

Antonio Rostagno, Il canone verdiano in Portogallo.

Formazione e funzioni

Marco Beghelli, La Traviata di Lisbona: note quasi autobiografiche attorno a un bicentenario

José Manuel de Vasconcelos, O reino dos limites: a ópera verdiana no contexto oitocentista

Roberto Gigliucci, Religiosità di Verdi

José Barreto, O fascismo e o salazarismo vistos por Fernando Pessoa

Giuseppina Raggi, La scenografia come architettura:

Niccolò Nasoni e la Torre dos Clérigos Copia Omaggio

ISSN 0870-8584

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LEOPARDI REVISITADO João Bigotte Chorão

CONFESSO, INLIMINE, que sinto um certo desconforto, em primeiro lugar por não falar em italiano, no temor de pro- nunciar como esdrúxulas palavas graves ou como graves palavras esdrúxulas. Escrever italiano ainda me atrevo às vezes, porque um vocabulário ou dicionário desfaz as hesitações sobre se um termo se escreve ou não com consoantes dobra- das. Em segundo lugar, esse desconforto vem de não ser eu um especialista leopardiano, embora de Leopardi tenha es- crito em circunstâncias um pouco inesperadas. Há coisas que se escrevem de motu proprio, digamos que por um impulso interior, e outras que se escrevem para responder a um con- vite ou desafio inesperado. E se esse convite ou desafio parte de alguém que admiramos, então uma resposta negativa se- ria quase descortesia.

Foi o caso do prefácio que antecede a tradução portuguesa dos Cantos, publicada em 1986. Quando o editor me fez essa proposta, sugeri logo o nome de David Mourão-Ferreira como a pessoa mais indicada, pelas suas afinidades com a literatura italiana e pelo seu fino espírito crítico, para fazer o que me pediam. Com um sorriso, disse-me o editor que David Mourão-Ferreira fora convidado, mas que, ele próprio, indicara o meu nome para escrever o que lhe solicitavam.

Tive de render-me, lembrado também de uma inesquecível viagem que fizemos juntos em 1984, quando falámos de

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literatura portuguesa em Roma, Bolonha e Milão. Ele tinha como eu, e melhor do que eu, o gosto da Itália – que visitou, ininterruptamente, de 1967 a 1993 – e o conhecimento da sua literatura. Não eram as mesmas as nossas predilecções literárias, ele mais próximo de Montale, eu mais afeiçoado a Ungaretti – esse grande poeta da família leopardiana. David Mourão-Ferreira sentia ainda o fascínio do esteticismo dan- nunziano, enquanto eu, leitor dos autores da Voce– a famosa revista florentina que reunia os melhores valores culturais do tempo –, me sentia atraído por uma austera literatura de ideias que apontava para uma reforma de mentalidades que devia começar por nós próprios, e daí que intensos e dramá- ticos exames de consciência tenham germinado naquele clima reformador. Livro paradigmático, e para mim fundamental, foi Un Uomo Finito de Papini – livro impetuoso de uma aven- tura espiritual que termina num desolado fracasso. Mas, fos- sem quais fossem as nossas opções particulares, o essencial era refazer os passos de Sá de Miranda, como, em carta, me dizia Miguel Torga, para significar a necessidade de nos apro- ximarmos de novo, culturalmente, da Itália.

Para não desiludir David Mourão-Ferreira lancei logo mãos ao arado, lendo Leopardi e coisas sobre Leopardi, e procurando rastrear influências do poeta italiano em poetas portugueses. Neste aspecto, regressei quase de mãos vazias, tão escassas são as pegadas leopardianas em nossa literatura.

Comecei, naturalmente, pelo seu coevo Almeida Garrett (1799-1854), também ele de sólida formação clássica, tam- bém ele trazendo para uma literatura muito livresca a sua experiência de homem vivido e sofrido. Com as Folhas Caí- das, de tão nua confissão, de linguagem tão coloquial, Garrett foi mais romântico que Leopardi, no claro enlace da litera- tura com a vida. Não consegui, porém, encontrar em Garrett qualquer eco de Leopardi, a não ser uma afinidade ideal e uma coincidência geracional. Agora que estamos no bicen- tenário de Leopardi e nas vésperas do de Garrett, seria opor-

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tuno um paralelo entre os dois escritores, num estudo de literatura comparada que abre sempre novas e fascinantes perspectivas de exegese.

No romantismo português, o velho Castilho – na verdade mais árcade que romântico, mais epígono que criador –, o velho Castilho, segundo o testemunho de seu filho e memo- rialista Júlio, sabia de cor poemas de autores italianos, entre eles Leopardi. Mas, como observou alguém, para os nossos românticos os italianos eram mais modelos éticos que literá- rios: Sílvio Pellico tinha mais leitores que Leopardi. É em um aluno de Castilho – depois seu implacável adversário nas Letras, que não queria oficiais e reverentes, mas iconoclastas e inovadoras –, é em Antero de Quental (1842-1891) que se encontram mais vestígios leopardianos. É o mesmo pessi- mismo antropológico, a mesma agonia metafísica que apro- xima os dois poetas-filósofos, que na dor de viver têm, como Leopardi, a tentação do suicídio e, como Antero, a cedência a essa tentação. Em Raios de Extinta Luz, o nosso poeta tem um poema dedicado “À Itália”, que, como sabemos, é também um dos primeiros cantos de Leopardi. Na livraria de Antero de Quental, que se guarda na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, nos Açores, figuram as Poesie de Giacomo Leopardi, editadas por Sonzogno, de Milão, e oferecidas pelo seu amigo Joaquim de Araújo, cônsul que foi em Génova e cujo espó- lio se guarda na Biblioteca Marciana de Veneza. Dir-se-á que se trata de uma obra oferecida, não sendo, portanto, uma escolha pessoal. Porém, na livraria de Antero há outro Leopardi, em tradução francesa: Opuscules et pensées (Paris, 1880). Aí temos já, decerto, uma escolha, e não do poeta mas do forte pensador que foi também Leopardi. Eram ambos espíritos especulativos que se encontravam no duro terreno do pensamento. Quanto é pesada a cruz do pensamento!– diria em verso fruste o grande crítico Moniz Barreto.

E porque estamos na Casa Fernando Pessoa, não será des- cabido lembrar que, entre os livros que do também poeta-

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-filósofo se conservam, constam, no inventário publicado no número 0 da revista Tabacaria (Fevereiro de 1996), Canti scelti [...] (Florença, 1924) e uma tradução francesa (sem data) de Poésies Complètes de Leopardi. Fernando Pessoa, lembre- mo-lo aqui, escreveu um, infelizmente truncado, “Canto a Leopardi”, onde o poeta interrogativo se interroga: Se é fal- so crer num deus ou num destino/Que saiba o que é o coração humano,/Por que há o humano coração e o tino/Que tem do bem e o mal?, etc..

Temos notícia de que o poeta simbolista Alberto Osório de Castro (1868-1946) – um poeta da geração de António Nobre – traduziu Leopardi, mas não me foi dado apurar onde e quando. Outro poeta, e grande poeta simbolista, António Feijó (1859-1917), foi marcado, como ele próprio reconhece, pelo pessimismo de Leopardi, que associa, nas suas “crenças filosóficas”, assim lhes chama, a Schopenhauer. Como Leopardi, Feijó era fascinado pelo que designa por “máscara do Nada”.

Essa máscara ninguém seduziu tanto como Machado de Assis (1837-1908), que via nela o verdadeiro rosto humano.

Sopra sobre a obra do autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas o vento gelado do Eclesiastes, com a sua radical adver- tência de que tudo é vaidade:“Eu vi, debaixo do sol, a impie- dade no lugar do juízo, e a iniquidade no lugar da justiça.”

É esta lição desencantada, é este grito aflitivo, que ecoa em Machado de Assis, ao mesmo tempo atraído e repelido pelo Nada. Tudo, na vida e no homem, se equivale, a lucidez e a loucura, o riso e o choro. Numa passagem daquelas Memó- rias Póstumas (capítulo “O Delírio”), escreve: “Ao contem- plar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir;

e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir – de um riso descompassado e idiota.” Também na filosofia niilista de Machado de Assis a vida é uma história sem sentido contada por um idiota. E poder-se-ia ainda evo-

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car outro passo não menos expressivo dessa fascinação do Nada em Quincas Borba, quando uma personagem, num rasgo de loucura, “pegou em nada, levantou nada e cingiu nada”, como se nada fosse uma coroa imperial. Não é o poder e os seus símbolos também “vaidade de vaidades”? Tudo é motivo de lágrimas e de riso, porque tudo é uma e “a mesma cousa”.

Regressando, e não é já sem tempo, a Leopardi, acres- centarei que ele foi decisivo para a mundividência de Ma- chado de Assis, como reconhece Afrânio Coutinho, quando cita o poeta italiano depois do Eclesiastes, ao lado de Mon- taigne e de Pascal, e antes de Schopenhauer. Em carta par- ticular, expressamente confessa Machado o seu leopardismo, quando afirma: “Leopardi é um dos santos da minha igreja, pelos versos, pela filosofia, e pode ser que por alguma afina- ção moral; é provável que também eu tenha a minha corcun- dinha.” Mas, aludindo ao aleijão físico do poeta, vem depois dizer que, se “as razões pessoais” podem ter-se reflectido

“na aspereza dos sentimentos”, já “o pessimismo, ou o que assim se chama, não é forçosamente uma conclusão de enfer- mos”. E cita Schopenhauer, que “era um velho alegre e são”. Para concluir este excurso machadino, direi que o fino prosador escreveu, como Antero e quase na mesma época, uma débil poesia “À Itália”, com o refrão: Pálida Itália– ressuscita agora /O ardor nos peitosna esperança a fé.

Na literatura brasileira contemporânea, a sombra de Leo- pardi projecta-se também no esquivo e escasso poeta Dante Milano (1899-1991, que para fazer jus a tal nome chegou a traduzir, e admiravelmente, cantos do Inferno. O paradoxal e lúdico poeta Murilo Mendes (1901-1975), esse exprimiu o seu reconhecimento a Leopardi, a quem enviou um dos seus “murilogramas”.

Já nos anos 60, o ilustre humanista e italianista Prof. Pina Martins lamentava ser a poesia de Leopardi, “infelizmente, pouco conhecida em Portugal”. “Formulamos os nossos mais

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sinceros votos – acrescentava – por que, em breve, – antes do centenário, que só há-de comemorar-se em 1988 – surja um Aloysio de Castro português que se abalance corajosa- mente à tradução de todos os Canti na língua de Antero de Quental [...]”. O “Aloysio de Castro português” surgiu um quarto de século mais tarde, na pessoa do poeta Albano Mar- tins, que, se não traduziu todos os Canti, nos ofereceu nada menos de 17 em nosso idioma, e dos mais altos: “O Infinito”,

“A si próprio”, “A Giesta ou a Flor do Deserto”.

Neste ano do bicentenário de Leopardi, bem desejaría- mos ter uma versão integral dos Canti, por Albano Martins ou por outros poetas que tivessem continuado o seu labor.

Lembro, por exemplo, além de David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana, António Osório, Vasco Graça Moura.

Mas, seja em tradução, seja no original, podemos sempre ler e reler os Canti, em qualquer lugar e circunstância, no exílio ou na emigração interior, em casa ou em viagem.

Eles nos podem acompanhar como acompanharam toda a vida Unamuno, que elegeu Leopardi e o nosso Antero como seus irmãos mais velhos. O poeta italiano e o poeta portu- guês cimentavam o sentimento trágico da vida de Unamuno, que, paradoxalmente, descobria no canto amargo desses poetas não sei que desesperada esperança. O pessimismo era-lhe mais salutar que o optimismo iluminista, esse que Leopardi castigava como sendo uma crença vã nas magnifiche sorti e progressive. Ao contrário de outros românticos, que idealizavam a Natureza, vendo nela a mãe, ele olhava-a como madrasta. Cega como o fatum, indiferente à nossa humana e frágil condição, Leopardi não tinha ilusões sobre a Natureza, que na sua fúria sepulta em água, lava e lama os homens desprevenidos, como se viu, há pouco, no furacão que devas- tou países da América Central.

Actual é sempre a triste lição de Leopardi, que, sem decerto se dar conta disso, se aproxima a Camões, que, no clima

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pletórico do Renascimento, celebrando embora o triunfo do homem, não se esquece porém do desastre que o espreita:

No mar tanta tormenta e tanto dano,/Tantas vezes a morte aper- cebida!/Na terra tanta guerra, tanto engano,/Tanta necessidade avorrecida!/Onde pode acolher-se um fraco humano,/Onde terá segura a curta vida,/Que não se arme e se indigne o Céu sereno /Contra um bicho da terra tão pequeno?

Duzentos e cinquenta anos depois, ouvimos na voz deso- lada de Leopardi o mesmo sentimento de desamparo e inse- gurança ante a Natureza muda e traiçoeira. Se a Natureza é assim, não melhores são os homens, vítimas dela e vítimas de si próprios. Grande clássico por formação e linguagem, Leopardi é romântico por essa invencível desconfiança nos seus coevos e no seu tempo. É um acabado exemplo de pessimismo do contemporâneo – a essência mesma do roman- tismo, na definição de Gaétan Picon.

Referências

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