15 a 17 de agosto de 2018
ACESSIBILIDADE E HUMANIZAÇÃO NA PRAÇA PORTUGAL
Patricia Correa de Sousa ([email protected]) Pedro Henrique Gomes Feitosa ([email protected])
Mônica Simioni ([email protected])
Resumo: A pesquisa realizou estudo sobre a acessibilidade na Praça Portugal, na cidade de Fortaleza, capital cearense. A partir da reflexão sobre a dimensão humana das cidades contemporâneas, foi realizada uma pesquisa de campo a fim de averiguar a aplicabilidade da NBR 9050/2015. Teve por base a metodologia utilizada por grupo de estudo, orientado pela professora Zilsa Maria Pinto Santiago, sobre desenho universal da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC). O estudo tem como objetivo analisar a qualidade da aplicação da acessibilidade realizada na Praça Portugal, após a realização da última reforma em 2016. Com isso, todos os segmentos sociais, incluindo, principalmente, as pessoas portadoras de deficiência, possam alcançá-la e usufruí-la sem limitações em seu percurso. Trata-se de um estudo exploratório, qualitativo e quantitativo, com realização de pesquisa exploratória, juntamente com a elaboração e aplicação de um questionário com os frequentadores da Praça Portugal. Realizou-se ainda uma revisão bibliográfica. Além disso, foram feitas diversas visitas em campo para a produção de registros fotográficos e para vivência com muletas e vendas. Ademais, execução de visita para aplicação de um checklist feito pelo próprio grupo. Apesar de estar mantendo um bom estado de conservação e boas condições de revestimento, concluiu-se que a Praça Portugal apresenta acessibilidade limitada, comprometendo sua vocação enquanto lugar de encontro entre indivíduos.
Palavras-chave: Acessibilidade. Praça Portugal. Fortaleza.
INTRODUÇÃO
O presente projeto teve início com o Grupo de Estudos “Cidade, Engenharia e Processos Sociais: a re- alidade Fortalezense”. A partir de estudos aprofundados no segmento da acessibilidade, do parâmetro social contemporâneo local e estudo do livro “Cidades para pessoas” (GEHL, 2014), percebeu-se a importância de estudar os temas nas praças públicas da cidade de Fortaleza e enxergar o que tem de mais importante: sua di- mensão humana, as oportunidades de encontro que ocorrem nos espaços de vivência das relações cotidianas e como esses territórios precisam ser estruturados para que essa dimensão não se perca.
O espaço público é considerado um local de posse comum e uso de todos os habitantes de tal região.
Entendendo-se cidade como ponto de encontros, feita para uso das pessoas que nela residem, os espaços pú- blicos formam o eixo determinante nesse contexto. Nele se desenvolvem atividades de interação entre os di- versos grupos que compõem a cidade, trocam experiências e conhecimentos de outras vivências. Portanto, sua existência é de grande importância para a formação cultural conjunta e compartilhada entre todos os ci- dadãos.
Durante décadas a dimensão humana tem sido negligenciada, enquanto o crescente tráfego de automó- veis estava efetivamente acabando com o restante da vida urbana para fora do espaço público, decorrente do advento do modernismo na década de 1960, descaracterizando o espaço público como local de encontro entre pedestres.
Acessibilidade é definida pela NBR 9050/2015 como sendo a “possibilidade e condição de alcance,
percepção e entendimento para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamen-
tos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem
como outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privado de uso coletivo, tanto na zo-
na urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida”
1. Nesse contexto, o conceito de acessibilidade avançou e envolve não apenas o ambiente físico, mas também as edificações, os transportes e o acesso aos meios de comunicação.
Por esse viés, o projeto trata da praça pública no âmbito da acessibilidade, visando avaliar a Praça Por- tugal como bem comum à população, de acordo com os elementos presentes na NBR 9050/2015, e também adotando as ideias de GEHL (2014) da escala humana, que favorece “bons espaços urbanos”, e a dimensão hu- mana, que prioriza o convívio entre as pessoas, e, assim, classificá-la acessível ou não.
A definição da Praça Portugal como objeto de estudo se deve ao fato de ela ter sido alvo de uma grande e polêmica reforma em setembro de 2016, e também devido à sua localização num dos bairros de classe mé- dia alta da cidade, a Aldeota, cujo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é 0, 915, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA).
Assim, foi realizada uma pesquisa exploratória sobre a qualidade da aplicação da acessibilidade realiza- da na Praça Portugal, com base na NBR 9050/2015 e nas ideias de uma cidade mais humana de Gehl, com uma definição prévia de prioridades e critérios estabelecidos a serem aplicados em praças públicas com base nas variáveis utilizadas no artigo científico “Acessibilidade no espaço público: o caso das praças de Fortaleza”
2, do grupo de estudo do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará. Também foi ela- borado e aplicado um questionário com os frequentadores da Praça Portugal com o objetivo de saber a opinião dos mesmos sobre a acessibilidade, dimensão humana e as condições da praça atualmente. Realizou-se ainda, uma revisão bibliográfica. Além disso, foram feitas diversas visitas em campo para realização de registros fo- tográficos e para vivência com muletas e vendas com todos os membros do grupo, além da realização de visita para aplicação do checklist de autoria do grupo.
1. DESENVOLVIMENTO
Esta pesquisa é relevante por se tratar de um assunto não muito comum nas engenharias: a reflexão de se construir uma cidade inclusiva, voltada para o bem-estar das pessoas, e não apenas preocupada com a ex- pansão de vias para veículos.
Diariamente cresce o número de portadores de deficiências em Fortaleza e, devido a isso, o tema aces- sibilidade foi de grande interesse dos integrantes do grupo de estudo “Cidade, engenharia e processos sociais:
a realidade fortalezense”. Como futuros engenheiros, consideramos que não há desenvolvimento urbano sem planejar uma cidade onde a premissa seja a de que todos os segmentos sociais que a compõe possam usufruí- -la sem que haja a presença de obstáculos em seu caminho.
Nessa perspectiva, voltamos o nosso olhar para as praças públicas de Fortaleza, analisando e verificando se a Praça Portugal está adequada para receber toda a diversidade de segmentos da população. Além disso, é preciso que a nossa consciência, como profissionais da construção civil, se baseie em soluções para as pessoas, criar obras que se adequem às necessidades da população em primeiro lugar.
Conforme Gehl aponta: “O natural ponto de partida do trabalho de projetar cidades para pessoas é a mo- bilidade e os sentidos humanos, já que estes fornecem a base biológica das atividades, do comportamento e da comunicação no espaço urbano” (2014: p. 33).
O estudo tem como ponto de partida a reforma na Praça Portugal que foi alvo de diversas manifestações antes da aprovação de seu projeto, envolvendo visões que colocavam em lados opostos ideias sobre a cida- de que queremos: soluções para melhorar fluxos viários ou para a manutenção de sua história e memória? Os R$ 6 milhões investidos na elaboração e execução do projeto atenderam, de fato, a sociabilidade das pessoas?
De acordo com a NBR 9050/2015, acessibilidade é a possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento com segurança e autonomia de edificação, espaço, mobiliário, equipamento urbano e elemen- tos
3. No Brasil, conforme o Censo 2010
4, 23,9% da população brasileira possuía pelo menos umas das seguin- tes deficiências: visual, auditiva, motora, mental ou intelectual.
1
Item 03 da NBR 9050/2015 (p. 2).
2
Disponível em: <http://www.repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/22651/1/2015_art_zmpsantiago.pdf>. Acessado em 04/03/2017.
3
Item 03 da NBR 9050/2015 (p. 2).
4
Disponível em: www.ibge.gov.br/.
Gráfico 1.
População residente no Brasil, por tipo de deficiência
Fonte: Elaboração dos autores (IBGE - Censo 2010).
No Ceará, a taxa de prevalência de pessoas com pelo menos uma das deficiências investigadas foi de 27,69%, o que aumenta a necessidade de mais estudos sobre o tema, diagnósticos e ações de políticas públicas voltadas para aperfeiçoar o caráter inclusivo das cidades.
Gráfico 2.
População residente no Ceará, por tipo de deficiência.
Fonte: Elaboração dos autores (IBGE - Censo 2010)
Segundo o Censo, na cidade metropolitana de Fortaleza, cerca de 646.493 pessoas apresentam pelo me- nos uma das deficiências investigadas, que representa 26,36% da população.
Gráfico 3.
População residente em
Fortaleza, por tipo de deficiência.
Fonte: Elaboração dos autores (IBGE -
Censo 2010)
Segundo o IBGE, os tipos de deficiência são: deficiência visual (i),que não consegue enxergar de modo algum, ou com grande ou alguma dificuldade; deficiência auditiva (ii), consegue ouvir de modo algum, com grande ou alguma dificuldade; deficiência motora (iii), com os mesmos tipos de variações; e a mental/intelec- tual (iv), da mesma forma.
1.1 Dimensão Humana
Segundo GEHL (2014), “nos últimos 50 anos, a dimensão humana foi seriamente negligenciada no pla- nejamento urbano”. Contra o modelo das cidades modernistas – entre elas, Brasília –, o autor analisa casos de cidades planejadas para as pessoas, onde as formas são equilibradas e harmônicas, favorecendo encontros sau- dáveis e qualidade de vida para todos os cidadãos. Para o autor, cidade e pessoas se relacionam constantemente em processos dinâmicos que influenciam o sentimento de pertencimento nos indivíduos.
“Agora, no início do século XXI, podemos perceber os contornos dos vários e novos desafios globais que salientam a importância de uma preocupação muito mais focalizada na dimensão humana. A visão de ci- dades vivas, seguras, sustentáveis e saudáveis tornou-se um desejo universal urgente.” (GEHL, 2014: p. 6) A dimensão humana abordada por Gehlaponta como fundamental à qualidade de vida na cidade, o que se reflete na escala e nos espaços urbanos, permitindo aos moradores usufruir, em conexão com suas ativida- des corriqueiras, de mais opções para caminhar, pedalar e se encontrar.
Para GEHL (2014), a qualidade de vida nas cidades se reflete na escala dos espaços, nas ruas, praças e parques, que vai tornando a cidade cada vez mais viva e convidativa para as pessoas. Na cidade de Copenha- gue, capital da Dinamarca, foi desenvolvido por muitos anos o estímulo ao uso de bicicletas, e no ano de 2005 um maior número de bicicletas do que de carros entrava e saía da zona central da cidade durante as horas de pico. No ano de 2008, numa pesquisa sobre o percurso indo e vindo para o trabalho e/ou a escola naquela ci- dade, cerca de 4% da população fazia o percurso andando, 37% de bicicleta, 31% de carro e 28% de ônibus.
Floriculturas, cafeterias, bares, lojas e boulevares fazem das ruas da cidade um bom lugar. Copenhague é cidade que ostenta o título da cidade mais feliz do mundo por ter um dos mais altos níveis de vida e oferecer bem-estar aos habitantes.
1.2 Praça Portugal
A Praça Portugal, localizada no bairro Aldeota, na cidade de Fortaleza, foi inaugurada no ano de 1968 ocupando uma área de 13,44 m². A criação da Praça foi autorizada entre abril e dezembro de 1947, o local es- colhido foi o Loteamento Lydiápolis, num terreno adjacente ao que seria construída a Praça Nunes. A primeira planta local apresentada por Antônio Cristalino do Plano de Urbanização de Fortaleza mostrando a conveniên- cia da substituição do local da praça, que mostra ainda os primórdios do que viriam ser as avenidas Desembar- gador Moreira (primeiramente denominada Avenida Otto de Alencar) e Dom Luís, que se chamava Rua Farias Brito, localizando-se a Praça Nunes Weyne no cruzamento de ambas. Foi construída pela Superintendência Municipal de Obras e Viação (SUMOV), a praça contava com uma fonte, uma ponte, postes, bancos. Osten- tando ainda, um lago artificial e um grande obelisco.
A Praça Portugal passou pela reforma em 1980, quando o lago ganhou um mural com uma caravela por- tuguesa. Em 2014, a Prefeitura Municipal de Fortaleza anunciou a reforma da Praça Portugal, o projeto de re- forma foi alvo de diversas manifestações da população devido à proposta de remover a rotatória e criar outras quatro praças menores nas laterais do cruzamento. As quatro praças menores teriam juntado 10,2 mil metros quadrados, ficando 35% maior. Além disso, outras mudanças seriam feitas: as vias internas até as quatro pe- quenas praças seriam incorporadas a área de cada praça, ou seja, as quatro praças laterais seriam estendidas até as calçadas. Haveria ainda uma passagem de pedestre elevada e ciclo faixa contínua. No entanto, a população manifestava com o intuito de manter o patrimônio histórico e preservar o legado cultural existente na praça.
Sendo assim, o projeto aprovado e executado manteve a rotatória, porém modificações foram feitas, como o
raio da praça reduzido em quatro metros, implementação de faixas e sinalizações, equipamentos de lazer, sinais
sonoros, e um grande aumento na arborização, segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambien-
te (SEUMA), um aumento de 90%. A Esfera Armilar, símbolo português, foi mantida em seu centro.
A reinauguração do local contou com uma homenagem à comunidade portuguesa. Para este momen- to, Sr. Ivens Dias Branco foi prestigiado em memória com um monumento de sua imagem em uma estátua de bronze no centro da praça. A escolha do Ivens Dias Branco se dá devido ao fato, de seu pai pela sua história com Portugal, tendo em vista que seu pai, Manuel Dias Branco, é de nacionalidade portuguesa e edificou, jun- to com Ivens uma das maiores empresas de alimentos do Ceará e do Brasil.
51.3 Hoje
O projeto atual contou com quatro construtoras responsáveis pela reforma e manutenção do equipamen- to. As empresas possuem empreendimentos no entorno, e cada uma delas ficaram responsáveis por um espaço, entre a rotatória e as quatro praças laterais, cujo valor global para as empresas foi de R$ 6 milhões. A obra foi iniciada no mês de maio de 2016 com conclusão no mês de agosto do mesmo ano.
Com base nos critérios pré-estabelecidos na NBR 9050/2015, a presente pesquisa realizou uma análise da estrutura da Praça Portugal. A ficha de análise seguiu os seguintes elementos: Quanto ao passeio, quanto às travessias e guias rebaixadas, sobre a vegetação, sobre o piso tátil de alerta e direcional contendo ainda espa- ços para observações e anotações.
Foram ainda abordados na ficha de análise os mobiliários urbanos e outros elementos presentes no espa- ço urbano (telefones públicos; caixas de correio; bancos; lixeiras; banca de revista/jornal; jardineiras; pontos de ônibus; semáforo sonoro; placas; postes; barreiras aéreas ou no piso). Na aplicação do check list (apêndice A), utilizou-se como ferramentas para a vivência vendas e muletas para analisar as condições da Praça, tam- bém, foi utilizada a fita métrica para auxiliar no cálculo de inclinação das rampas, sendo até 8,33% o recomen- dado, de acordo com a NBR 5090/2015.
Como apresentado no apêndice A, foi observado nos passeios da praça se há existência de revestimento, o tipo e o estado de conservação. Na Praça Portugal foi constatado a aplicação de revestimento de piso, que são de dois tipos: Piso Intertravado de Concreto Retangular, também conhecido como Piso Intertravado Tijolinho/
Paver ou Bloquetes, e o Revestimento de Pedra Portuguesa, ambos em bom estado de conservação.
Verificou-se também, que a Praça Portugal apresenta pelo menos duas rotas acessíveis, no entanto, nas rotas não foram implementadas guias e pisos direcionais de acordo com a NBR 9050/2015, pois em um dos acessos à praça, não existe um piso de alerta para que o deficiente visual perceba que a rua está próxima e a uma distância segura.
Em seguida, foi feita a análise das travessias e guias rebaixadas na Praça. Segundo a NBR 9050/2015, os rebaixamentos das calçadas devem ser construídos na direção do fluxo da travessia de pedestres. A inclina- ção deve ser constante e não superior a 8,33% (1:2) no sentido longitudinal da rampa e na rampa das abas la- terais. A largura mínima do rebaixamento é de 1,5 m, sendo tolerável a largura mínima de 1,20 m em calçadas estreitas, quando a largura do passeio não for suficiente para acomodar o rebaixamento e a faixa livre. Na Pra- ça Portugal, a inclinação da rampa foi medida com auxílio da trena métrica de laser e obteve um valor inferior a 8,33/%. Concluindo, assim, que a rampa atende a exigência da norma.
Ainda sobre guias de rebaixamento, é necessário observar o desnível entre o término do rebaixamen- to da calçada e o leito carroçável. Em vias com inclinação transversal do leito carroçável superior a 5%, deve ser implantada uma faixa de acomodação de 0,45m a 0,60 m de largura ao longo da aresta de encontro de dois pontos inclinados em toda a largura do rebaixamento. No caso da praça, observou-se que não há rebaixamento entre o leito carroçável e a calçada, ou seja, ambas seguem no mesmo nível.
Quanto às abas laterais da rampa, que devem ter largura mínima de 50 cm e inclinação de 10%, a análise feita mostrou que os valores encontrados são menores que a exigência da norma regulamentadora.
Observou-se ainda, a inexistência do corte do canteiro central para acessar as praças laterais e, também, a falta de uma rampa de acesso, que inviabiliza o uso da mesma, já que dificulta o acesso para um deficiente visual e impede a passagem de um cadeirante.
Outro elemento analisado foi o estacionamento. Segundo a Resolução do Conselho Nacional de Trânsi- to (CONTRAN), a vaga especial é um direito por Lei Federal, que determina que 5% do total de vagas do es- tacionamento regulamentada sejam destinadas a idosos e 2% aos portadores de deficiência. Porém, neste caso, por se tratarem de vagas de uso das lojas próximas à praça, esta regra não se aplica.
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