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“O ADOECER NO CORPO: UMA MANIFESTAÇÃO DE UM TRAUMA INCONSCIENTE?”
Angelica Herminia de Aguiar Oliveira
Eixo: O Corpo na clínica
Palavras-chaves: Inconsciente; Corpo; Irrepresentável
Resumo
Esse trabalho tem como objetivo levantar uma hipótese do adoecer no corpo como uma manifestação de um trauma inconsciente. A ideia é investigar se é possível que o adoecer no corpo tenha a mesma lógica do adoecer psíquico proposta por Freud, ou seja, um trauma, carga de afeto/excitação superior a possibilidade de ser metabolizada, absorvida e descarregado por vias psíquicas e somáticas, restando como saída o sintoma, seja no âmbito do psiquismo ou no do corpo. O que mudaria o sentido, a direção para o corpo? A possibilidade do trauma ser da ordem do primitivo, não representável em palavras, de algo ocorrido anterior ao pulsional? Apresento uma vinheta clínica, onde trago o relato de uma paciente, onde tento fazer associações dos achados nas sessões, entre o dito e o não dito, com aspectos do que trazem esses autores em suas teorias, buscando subsidiar ainda mais essa discussão articulada entre o corpo e a mente. Assim como, também refletir como a psicanálise pode, hoje, se posicionar sobre o adoecimento no corpo somático e, ainda: como podemos com o método psicanalítico, repensar a clínica, a fim de contemplar a compreensão e a analisabilidade desses sintomas cada vez mais frequentes.
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Desarrollo
O que determinaria a apresentação de um sintoma, ou de um transtorno, ser no psiquismo ou no corpo físico? É possível que situações traumáticas vividas em momentos anterior à linguagem, determinem marcas, sequelas ou impossibilidades, que quando ativadas por um fato posterior, possa trazer à tona um sintoma, ou mesmo, uma patologia no corpo que fale desse sofrimento, que o reproduza, ou melhor, que revele esta marca, esta dor? Para dialogar em torno dessas interrogações, faço um percurso preambular a partir de Freud, articulando algumas ideias de autores que estudaram o sintoma no corpo, apontando para este vértice do não reprentável, como Winnicott, Joyce Mcdougal, André Green e Arnaldo Rascovsky, que enfocaram predominantemente o campo das experiências primitivas na relação com o outro, experiências da ordem da sobrevivência e da necessidade e portanto anteriores ao pulsional representável. Estes autores apontam e em certo ponto convergem no sentido de que as falhas neste campo de experiências, mais primitivas, dependendo de sua gravidade, geram falhas estruturais, incluindo-se aí as doenças somáticas, ou estados dissociados que, ao surgirem na clínica, demandam novas formas de manejo, diversas daquelas apropriadas para lidar com o inconsciente recalcado em estruturas já estabelecidas.
VINHETA CLÍNICA
Trata-se de uma paciente, com 37 anos de idade, solteira, advogada, que me procurou para tratar-se de um quadro clínico com muitas manifestações no aparelho ginecológico: cistos de ovários, nódulos de mama, e endometriose. Este quadro vinha associado a uma fibromialgia intensa: dores musculares generalizadas em todo o corpo. A mesma, entendia que tinha uma depressão subjacente a todo esse cortejo sintomático, por isso resolveu procurar análise com uma médica, assim se apresentou.
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No nosso primeiro contato falando de si, usou a expressão “Sou entendida e não tenho problemas em admitir ou assumir isto”. Eu não compreendi o que ela estava me dizendo e ela se explicou dizendo que esta expressão “Entendida” significava ser homossexual e, este, era um termo usado entre eles para se designarem. Nesta fala, a negativa pressupõe a afirmativa – tenho problemas com isso – revelado pela extensa disfuncionalidade em seu aparelho genital, traduzindo-se como uma grande ferida em sua feminilidade.
Seu corpo é masculinizado, sua pélvis é estreita e seus ombros largos. Sua fala e sua meiguice, são femininas. Ela é esguia, de tônus muscular rígido. Seu nome traz na sua composição uma conjugação, um nome composto, sendo um masculino e um feminino. Ela não gosta e escolhe para ser chamada, o nome que está no feminino.
Ao descrever sua relação familiar, demonstra uma falta de intimidade, um distanciamento afetivo. “Somos onze irmãos e eu sou a sexta. Sou de família pobre, pai pedreiro e mãe doméstica. Pais distantes dos filhos. Ele é alcoólatra e machista. Foi todo um sofrimento pra mãe. Pai não queria que eu estudasse, era pra eu casar. Saí de casa pra estudar na capital e pai deixou de falar comigo”. No decorrer das sessões trazia sua mãe como uma mulher passiva, sofrida e indiferente – “Eu me apegava às mães de minhas colegas que me admiravam porque eu era estudiosa”.
Iniciamos a análise com duas sessões semanais que transcorreu por quatro anos. Antes da análise, seus relacionamentos eram sempre com garotas mais necessitadas do que ela, seja financeiramente, culturalmente, inclusive mais jovens. A esse respeito, comentava: “Com o tempo, as pessoas com quem me relacionei se desenvolviam, evoluíam, e quando não precisavam mais de mim, me deixavam”. Sentia-se usada. “Tenho atração por pessoas jovens, complicadas, para eu cuidar. Sempre como uma mãe incisiva. Sou mandona, independente, tenho que ter alguém pelo menos para pensar, sonhar e fazer planos”.
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Sua relação com o trabalho era de exclusivo cumprimento do dever, não tem nenhum prazer, apesar de ser bem remunerada e ter um emprego público adquirido por concurso. Tem um bom padrão de vida, mas isto não a faz vibrar. Nada a faz feliz, sempre se queixa de tédio. Não foi difícil para ela compreender a sua intensa fibromialgia. Que esforço para viver essa vida sem prazer, esta vida entediante, pontuei. Esta fibromialgia frequentemente lhe gerava afastamentos do trabalho por licença saúde. O que a doença, ou seu transtorno no corpo revelava para ela? Com o afastamento, ficava fácil dizer: ela não queria ir trabalhar. O inconsciente dela manifesto ali em sua corporeidade, lhe revelava que gostaria mesmo era de ser cuidada “de graça”, expressão que ela usava várias vezes nas sessões: “Não acho nada interessante eu mesma lutar e custear a minha vida... o bom mesmo era ter tudo isso de graça”.
Dizia eu: Porque você acha que se formou essa machucadura no seu útero? Nesse órgão que representa em nós a maternidade? Ela seguia dizendo: Mãe é seca! Não tem prazer em nada. Cuida da gente, como quem cuida dos pratos. Não gosto de ir ao interior. Não sinto prazer em vê-la, mas não creio que isso me adoeça. Eu nem penso nela. Eu me afastei dela tão cedo...”. Nestes quatro anos de análise, ela não namorou ninguém. Só estava se interessando por mulheres heterossexuais (naturalmente...!) Passou a sonhar engravidando várias vezes. Sempre meninos. As dores do corpo passaram. Estava se sentindo bem e quis parar com a análise. Seus exames não revelaram mais endometriose. Isso a deixara muito feliz. Concordamos com o fim daquele período analítico.
Passou um ano e retornou a análise referindo que desta vez só queria parar “quando se encontrasse de verdade”. Neste período em que ficou sem análise, conheceu uma moça interessante, também bem sucedida. Entusiasmada com a sua mudança de padrão emocional, se envolveu afetiva e sexualmente. “Entregou-se”, disse a mim. E ocorreu o contrário do que
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ela esperava viver. Se comportou como uma menina, mendigando o amor da outra mulher, ambas não souberam o que fazer e o relacionamento acabou. Ela sofreu demais! Agora ela sabia que dor era esta! Uma dor que nunca sentira antes: Dor de alma! Chorava muito, feito uma menininha de 3 a 5 anos. Provavelmente no lugar deste sofrimento esteve instalado por muitos anos, possivelmente, as dores fibromiálgicas, as dores encapsuladas em forma de cistos e nódulos, as feridas endometrióticas. Antes era a secura da alma registrada num corpo que doía imensamente. Agora, era a expressão genuína da dor de um ser humano que clama por amor, por pertencência, por ser de alguém. E isto ela sentiu e pôde compreender-se.
Continuou em análise, os sonhos se intensificando, gerando filhos. Com mais um ano, decidiu adotar uma criança. Acompanhou toda a gestação da mãe que iria doar a criança. Não sabia o sexo. Dizia preferir homem, mas entendeu que deveria aceitar o que viesse, como sendo obra do destino, “assim como são com os filhos verdadeiros.... a gente não escolhe mesmo, né?”, dizia ela. E veio uma menina, da qual me permito revelar o nome verdadeiro, por ser muito significativo. O nome que ela escolheu para a menina foi “Vida”. Com o nascimento e adoção da filha, ela teve direito a seis meses de licença maternidade. Sobre isso comenta: “Esse é o primeiro período que estou sendo remunerada para não fazer nada, só para cuidar de Vida... quero aproveitar ao máximo esse tempo, especialmente para me conhecer...”.
O relato deste caso clínico me surgiu para demonstrar uma forma de abordar o sofrimento no corpo, numa articulação com seu psiquismo e, muito provavelmente, com a vida intrauterina. Ainda que o próprio paciente não compreenda a natureza do seu sofrimento, ainda que não saiba falar dele, é o que ele mais necessita, como forma real de aumentar sua saúde psíquica, física e emocional – uma maneira real de se prevenir sofrimentos e sustos posteriores, quando nos salta um retorno do não representável, por assim dizer. Este retorno
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do não representável salta sob a forma de patologias, cada vez mais graves, como é o caso dos cânceres, patologia muito frequente atualmente, representante desse vazio representacional no corpo. Bem como, patologias como endometriose e fobromialgia que a medicina tradicional não tem fundamentação etiológica que justifique ,as patologias do vazio, propriamente ditas.
A referida paciente tem sua vida e sua vinda ao mundo, marcadas por um contra desejo do pai, que já preferia que ela fosse do sexo masculino. Não bastasse isso, lhe dá um nome que já trazia em si uma marca do masculino-feminino. Esta trama vincular dos pais, segundo Rascosviski, em sua teoria do psiquismo fetal, já é sentida pelo feto e registrada no corpo sob forma de dores e disfunções.
Ela, a unidade psicossomática, não é algo dado, é um fenômeno que depende das condições ambientais que garantam a continuidade da existência de todo indivíduo que inicia sua vida. A construção do corpo é relacional e está vinculada ao ambiente sustentador do processo de amadurecimento do bebê” (Winnicott, 1987e[1966] /1988, p. 10).
Para Winnicott (1966d[1964] /1994), o distúrbio psicossomático constitui um sistema defensivo formado por uma cisão e vários tipos de dissociação. Esse sistema defensivo é criado pelo bebê logo no início de seu processo maturacional, o que significa que precisa ser compreendido como uma patologia que está na linha das psicoses. Essa organização defensiva tem a função de afastar a ameaça de aniquilamento. Winnicott, nos mostra que todas as experiências que o bebê precisa para se tornar uma pessoa inteira são permeadas pelas experiências corpóreas pessoais muito precoces e, por isso, o modo como o bebê entra em contato com seu corpo não é do domínio do campo representacional e sim do campo experiencial, das situações concretas que vivencia dia a dia. Essas experiências ocorrerão por meio de aspectos da corporeidade humana: odores, sons e gestos que estão presentes numa comunicação sutil e concreta feita entre mãe e filho.
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No caso da minha paciente, seu corpo duro seco e rígido, repleto de dores, revelavam mais do que um ato falho ou um chiste, uma marca profunda, antiga, impossível de ser dita, um sintoma, uma dor. André Green, sugere que na defesa somática há uma tentativa fracassada de encenar um conflito entre eu e objeto no qual os impulsos agressivos dirigidos para o soma acabam por provocar uma lesão orgânica, caracterizando uma espécie de acting-in, uma atuação-dentro ou um agir sobre o corpo que revela a inflexão da agressividade ante a impossibilidade de representar, de expressar simbolicamente o sofrimento psíquico (Green, 1988c, p. 45). Por meio da dor, o paciente fronteiriço pode experimentar certa delimitação entre eu/outro, realidade interna/realidade externa, compensando, ao menos em parte, a ação fracassada do negativo na constituição dos limites. No entanto, é principalmente o uso defensivo da clivagem, além da tentativa de desligamento, da anestesia e do recurso à dor, que mais caracteriza esses pacientes.
Quando interrogo sobre que machucadura seria essa em seu útero, a referida paciente diz num ato de associação livre, como num sonhar possivelmente: “Mãe é seca! Não tem prazer em nada. Cuida da gente, como quem cuida dos pratos. Não gosto de ir ao interior. Não sinto prazer em vê-la, mas não creio que isso me adoeça. Eu nem penso nela. Eu me afastei dela tão cedo...”.
Observamos nesta fala, que a própria paciente não crê que isso a adoeça, como propõe todos esses autores, a questão do vazio representacional, a falta de expressão simbólica. McDougall, explica que a função da mãe teria o papel de "pára-excitação", fornecendo significantes para que o bebê possa lidar com essa energia, permitindo o acesso da criança, à palavra e favorecendo o desenvolvimento da capacidade de simbolização. Porém, se esse ambiente que possibilitaria o indivíduo a lidar com essa energia pulsional não existe, o bebê não tem acesso aos significantes vindos da mãe, não podendo, então, drenar a energia através
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da circulação desta por entre os significantes. Isto não ocorrendo, a saída seria, segundo a autora, a desafetação como saída para a somatização, como é o caso da nossa paciente.
Usei a doença como expressão do inconsciente, interpretando sempre com os símbolos, as metáforas pertinentes ao que se apresentava na relação analítica. Interpretava o corpo com a expressão mais genuína do seu sentir, ainda que não apreensível pela ordem da palavra. Sim, teria que fazer dessa forma, senão a sessão viraria o tédio que ela tanto reclamava em sua vida, pois ela era muito silenciosa. A nossa relação se transformaria fatalmente na relação fria e seca, como ela se referia à mãe dela.
Joyce Mccdougall se reporta à vivência transferencial desses tipos de pacientes com o analista, que se faz na intensidade de afeto, ressaltando o fato de geralmente este tipo de paciente apresentar dificuldades de base narcísica, e consequente negação da aceitação para auxilio.
As dificuldades contratransferências que quase inevitavelmente surgem neste tipo de trabalho não residem na incapacidade de identificar-se com o lactente escondido no mundo interior de nossos analisandos. Decorrem, antes, de sua total incapacidade de acreditar que poderiam ser ajudados, apesar do sofrimento que existe neles. Preferem destruir qualquer oferta de auxílio a terem que mergulhar novamente nas experiências traumáticas o início da infância (MacDougall, p. 129).
MacDougall (1991) defende que para o processo de análise possa acontecer de modo eficiente, é indispensável que o sujeito seja capaz de entrar em contato com seu sofrimento e estar disponível para refletir sobre influências inconscientes. Mais do que isso, é necessário também uma estrutura egóica fortalecida, com capacidade de lidar com angústias consequentes do processo analítico. Afinal, quanto mais prejudicado for o equilíbrio interno do sujeito, mais ele terá que lutar para manter suas defesas ativas, o paciente apresenta impossibilidade de pensar sobre fatores ligados à seu próprio adoecimento: “Não gosto de ir ao interior. Não sinto prazer em vê-la, mas não creio que isso me adoeça. Eu nem penso nela. Eu me afastei dela tão cedo...”. Quando se refere ao interior, pensa estar se referindo à
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sua cidade do interior, onde nasceu, e residem seus pais, mas podemos pensar, no seu interior, uma certa ilha de secura e frieza de afetos.
Segundo Green, “estes núcleos podem receber a designação de arquipélagos”, tal metáfora nos remete à imagem de uma ilha cercada por água que alude à falta de unidade, coerência e comunicação entre o ego e seus elementos cindidos. São esses espaços vazios, mais do que as ilhas, que caracterizarão a constelação psicopatológica do paciente fronteiriço como “uma coexistência de pensamentos, afetos, fantasias contraditórias, mas, além disso, subprodutos contraditórios do princípio do prazer, do princípio da realidade, ou de ambos” (Green, 1988d, p. 85). Um discurso vazio, repleto de palavras desconexas, sem encadeamento como um “colar de pérolas sem fio” (Green, 1988d, p. 85), expressa eloquentemente a dificuldade de representar e de expressar afetos, bem como o contato limitado com o outro, aspectos característicos do paciente fronteiriço que indicam a prevalência do mecanismo de clivagem.
Assim como nos sintomas psíquicos, no físico também parece ocorrer, a negativa, a defesa, o recalque, ou mesmo o excindido com denominaria André Green. E quando esses traumas ocorrem em um período muito tenro da vida, antes mesmo da representação verbal, ou até mesmo na vida intrauterina, como postulou Rascosviski, mais inconsciente é a dor, e mais difícil é para o paciente acessar o sentimento gerador de tal disfuncionalidade. Assim como tão difícil será o manejo na relação transferencial, na abordagem desses pacientes que trazem o seu sofrimento estampado na sua corporeidade. Acerca de exemplificar essa hipótese do psiquismo fetal, inferimos que toda a negação de sua feminilidade, expressa no seu corpo, através do nódulos e cistos mamários e ovarianos, assim como um útero com endometriose, possam ter advindo desde a negação do desejo dos pais, como da falta de identificação, com esse feminino da mãe, tão lhe negado. Até mesmo a questão da sua
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homossexualidade, assume um caráter contraditório, não compreensível por ela. A princípio, diz ser “Entendida” e não ter problemas em assumir a homossexualidade, mas não usa de pronto o termo pertinente. Adiante, seu desejo, apesar de gostar de mulheres, só pensava em adotar filho homem.
A evolução do caso demonstra que as antigas marcas de sofrimento psíquico, sem memória ou representação de palavra ou mesmo simbólica, podem ser contidas, compreendidas, interpretadas e decodificadas, ajudando o paciente a se compreender e usar o seu psiquismo – as outras ilhas do seu arquipélago – para mudar a sua história e não ficar refém da doença do corpo, como um estatuto de saber apenas do outro, no caso, da medicina. A paciente que veio marcada ao mundo, destinada a não ter filhos, pela própria “biologia” do seu corpo, biologia essa que podemos compreender um pouco mais do que apenas o seu determinismo genético, e ainda que fosse, mudou a sua história. Teve filhos! Sim filhos! Um ano depois, adotou outro, agora um homem, que deu o nome do seu avô materno, onde foi buscar um modelo de pertencimento e identificação afetiva. Se não pudermos mudar o corpo, que num futuro poderá até se pensar, que possamos com o psiquismo compreendê-lo, ajudá-lo a criar novas formas de satisfação libidinal, novos arranjos corpo-mente, capazes de trazer de um modo mais criativo e verdadeiro, a harmonia e saúde integral.
REFERÊNCIAS
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