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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. HÁBITOS, VIRTUDES E JUSTIÇA: RELIGIÃO EM SÃO TOMÁS DE AQUINO. MOACIR FERREIRA FILHO. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Mestre, sob a orientação do Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza.. São Bernardo do Campo Abril de 2019.
(3) A dissertação de mestrado intitulada: “Hábitos, Virtudes e Justiça: Religião em São Tomás de Aquino”, elaborada por Moacir Ferreira Filho, foi apresentada no dia 22 de maio de 2019 perante a banca examinadora composta por Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Helmut Renders (UMESP) e Prof. Dr. Pedro Monticelli (FAPCOM/FSB). _________________________________________________________ Professor Doutor Vitor Chaves de Souza Orientador e Presidente da Banca. __________________________________________________________ Professor Doutor Helmut Renders – Universidade Metodista de São Paulo Coordenador do Programa de Pós-graduação. Programa: Pós-graduação em Ciências da Religião Área de concentração: Linguagens da Religião Linha de pesquisa: Teologias das Religiões.
(4) AUTOBIOGRAFIA. Sou Moacir Ferreira Filho, tenho 23 anos, moro em Ferraz de Vasconcelos, Zona Leste de São Paulo e estou cursando o curso de mestrado em Ciências da Religião. Em se tratando de minha vida acadêmica, quando era mais novo sempre sonhei em ser médico por influência de minha família, na época dos vestibulares até consegui uma bolsa de estudo no Nordeste, mas desisti, pois, com o passar do tempo e conhecendo mais a fundo essa profissão, percebi que não teria vocação para isso. Também pensei em ser arquiteto e também consegui bolsa de estudos para esse curso, desta vez em São Paulo mesmo, mas também desisti, porque algo em mim falava mais alto: almejava ser sacerdote católico. Neste sentido, fui me aprofundando, ainda na adolescência, nas questões filosóficas e teológicas e percebendo o quanto elas davam sabor a minha vida e quanto eu gostava de me aprofundar nessas áreas de conhecimento. Na mesma época que consegui a bolsa em arquitetura, também consegui a bolsa de filosofia. Como almeja o sacerdócio, a filosofia foi escolhida como meio para alcançar meu objetivo e iniciei a vida acadêmica e religiosa (estudando fora do seminário). Na filosofia, ainda novo, com 18 anos, deparei-me com muitos questionamentos, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. Estudava os gregos, depois os medievais, os modernos e os contemporâneos. Embora haja uma gama muito grande de autores, e devido ao fato de ser de tradição católica, agarrei-me com a filosofia medieval, nisto começou a nascer o interesse por Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, entre outros, que, de algum modo, respondiam as minhas indagações pessoais. Muito me incomodava o fato de chamarem a Idade Média de “Idade das trevas” e sempre me questionava “será que nada de iluminado foi aproveitado deste período?”. Eis que com a ajuda do meu orientador da graduação, Prof. Dr. Pedro Monticelli, a quem devo muitos ensinamentos, aprofundamos os primórdios do conceito da dignidade da pessoa humana que foi meu trabalho de conclusão de curso intitulado “A ontologia da alma em São Tomás de Aquino” e que foi publicado no formato ebook e livro físico também..
(5) Graduado em Filosofia, já não queria mais ser padre, apaixonei-me pela vida acadêmica e queria prosseguir neste caminho. Não consegui entrar num programa de mestrado em seguida, pois demandava tempo. Com o passar de dois anos, quis retomar o caminho sacerdotal e entrei no curso de teologia (na faculdade do seminário diocesano) o qual fiz por muito pouco tempo, pois fui abatido da patologia da depressão que me impediu de prosseguir tantos outros projetos. Sendo assim, saí do curso para fazer o tratamento e desisti novamente da vida sacerdotal retomando assim o desejo por prosseguir na vida acadêmica. Nisto conheci o programa de pósgraduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista. Fui aprovado no processo seletivo e devo admitir que a cada aula, é um desmontar de mim mesmo e de minhas próprias convicções para que surja uma pessoa nova a cada etapa do curso. Como fiz na graduação, ainda procuro resgatar alguns valores enterrados na “idade das trevas” e assim colaborar com a área da Ciências da Religião. Estar cursando o mestrado, ao longo desse período, possibilitou-me participar de congressos, tendo artigos publicados em seus anais e ainda compartilhar e aprofundar o conhecimento tanto no meu objeto de estudo quanto nos que gravitam em torno dele. Indubitavelmente, uma das experiências mais marcantes que tive ao longo deste percurso foi a de poder participar da Missão de Estudos da Universidade Metodista de São Paulo a Portugal. Lá, além do crescimento pessoal, obtive muito crescimento acadêmico por poder participar das discussões ao longo dos congressos bem como angariar muitas fontes para esta pesquisa e compreender melhor a imensidão que é o mundo acadêmico. Também, faço parte de um grupo de estudos de Filosofia Social na Faculdade de São Bento de São Paulo e no futuro pretendo ingressar no doutorado em Ciências da Religião e ainda pretendo estudar a área de Direito pela qual me interessei por ter tido algum contato ao longo da graduação e do mestrado..
(6) para Vilma Aparecida Biancarelli Ferreira, Moacir Ferreira e Elvira Viggiano Ferreira.
(7) Alguém é considerado humano porque tem para com os outros, amor e afeto de consideração. Por isso, humanidade é proteger-se mutuamente. Santo Isidoro..
(8) Esta pesquisa foi patrocinada pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. A essa instituição e aos professores e responsáveis que me recomendaram à bolsa de estudos expresso aqui a minha gratidão..
(9) FICHA CATALOGRÁFICA Filho, Moacir Ferreira Hábitos, virtudes e justiça: Religião em São Tomás de Aquino / Moacir Ferreira Filho. São Bernardo do Campo, 2019. 137f. Dissertação (Mestrado) – Diretoria de pós-graduação e pesquisa. Faculdade de Humanidades e Direito, Programa de PósGraduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Bibliografia Orientação: Vitor Chaves de Souza. 1. Filosofia Medieval – Estudo e ensino 2. Virtudes 3. Religião I. Título.
(10) AGRADECIMENTOS. Certamente se fosse citar todos os envolvidos direta e indiretamente com a realização deste estudo, essa página são seria suficiente. Ademais, primeiramente rendo graças a Deus, autor e princípio da vida que me possibilitou estar nesta etapa acadêmica por caminhos até mesmo tortuosos. Agradeço à minha família nas pessoas de meus pais e da minha irmã. Agradeço ao Professor Doutor Pedro Monticelli que muito me apoiou desde a graduação e que me inspira academicamente sempre a prosseguir. Ao meu primeiro orientador desta pósgraduação, Professor Doutor Rui de Souza Josgrilberg cuja influência se encontra neste resultado final. Ao meu atual orientador, Professor Doutor Vitor Chaves de Souza que com maestria orientou-me ao término desta pesquisa sempre muito atento e disposto. Agradeço ao meu amigo Padre José Eduardo Ferreira que sempre apoiou minhas escolhas, acompanhou meu caminhar e rezou por mim para que chegasse até aqui. Aos amigos, que sorriram e choraram comigo cujos nomes estão escritos em minha alma eternamente. E enfim, agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bonificação da bolsa de estudos..
(11) FILHO, Moacir Ferreira Filho. Hábitos, virtudes e justiça: religião em São Tomás de Aquino. São Bernardo do Campo, 2019. 137 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião – Religião, Sociedade e Cultura) — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019.. SINOPSE O presente estudo pretende fazer uma abordagem do conceito de religião enquanto virtude no século XIII a partir de São Tomás de Aquino e seu possível diálogo com as ciências da religião no século XXI. A construção desta pesquisa é feita se utilizando do mesmo percurso epistemológico que o Doutor Angélico: procura-se entender, primeiramente, o que são hábitos e após esses atos que pertencem aos indivíduos por repetição, distinguir uma virtude (bom hábito) de um vício (mau hábito). Com foco nas virtudes e não nos vícios, entre elas será destacado a virtude moral (umas das quatro virtudes cardeais) chamada de justiça, pois todo bom hábito que se refere a outrem está relacionado à justiça. Consequentemente, como através dos atos religiosos busca-se dar a Deus o que lhe convém, São Tomás se utiliza do conceito de religião como sendo uma parte potencial (virtude anexa) da justiça. Verifica-se que o medieval não trata de religião do ponto de vista nem institucional, nem sentimental, mas atrela esse termo às virtudes. Pretende-se também demonstrar, brevemente, como o termo religião foi constatado nos primórdios, e como é usado no século XXI. A partir disso estabelecer diálogos e comparações com o que fora postulado pelo Doutor Angélico também a partir da ética que emana do conceito de religião. Espera-se que esse estudo leve a ampliação da visão acerca dos estudos medievais e sirva de apoio para futuros estudos em São Tomás de Aquino. Palavras-chave: São Tomás de Aquino – hábitos – virtudes – justiça – religião..
(12) FILHO, Moacir Ferreira Filho. Habits, virtues and Justice: religion in St. Thomas Aquinas. São Bernardo do Campo, 2019. 137 f. Thesis (Master Degree in Sciences of Religion – Religion, Society and Culture) — São Paulo Methodist University, São Bernardo do Campo, 2019.. ABSTRACT. The present study intends to approach the concept of religion as a virtue in the thirteenth century from St. Thomas Aquinas and his possible dialogue with the sciences of religion in the 21st century. The construction of this research is made using the same epistemological path as the Angelic Doctor: we try to understand what habits are and after these acts that belong to individuals by repetition, to distinguish a virtue (good habit) from an addiction ( bad habit). With focus on virtues and not addictions, among them it will be highlighted the moral virtue (one of the four cardinal virtues) called justice, since every good habit that refers to another is related to justice. Consequently, as through religious acts it is given to God what belongs to him, St. Thomas uses the concept of religion as being a potential part (annexed virtue) of justice. It can be seen that the medieval does not deal with religion from the institutional or sentimental point of view, but he links the term to the virtues. It is also intended to briefly demonstrate, how the term religion was found in the earliest days, and how it is used in the 21st century. From this, it aims to establish dialogues and comparisons with what had been postulated by Doctor Angelico also from the ethics that emanates from the concept of religion. It is hoped that this study will broaden the view of medieval studies and support future studies in St. Thomas Aquinas.. Keywords: St. Thomas Aquinas - habits - virtues - justice - religion..
(13) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO .....................................................................................................14 CAPÍTULO 1: HÁBITOS, VIRTUDES E SUAS DISTINÇÕES .........................25 1.1 HÁBITOS ........................................................................................................29 1.2 VIRTUDES ......................................................................................................36 1.3 DISTINÇÃO DAS VIRTUDES INTELECTUAIS .........................................44 1.3.1 DISTINÇÕES ENTRE AS VIRTUDES INTELECTUAIS E MORAIS .....46 1.4 AS VIRTUDES MORAIS EM SI ....................................................................50 1.4.1 VIRTUDES CARDEAIS ..............................................................................53 1.5 VIRTUDES TEOLOGAIS...............................................................................55 CAPÍTULO 2: DE IUSTITIA .................................................................................60 2.1 JUSTIÇA DISTRIBUTIVA E COMUTATIVA, MEIO-TERMO E A ELEVAÇÃO DESTA VIRTUDE ..........................................................................69 2.2 PARTES INTEGRANTES E POTENCIAIS DA JUSTIÇA ...........................76 2.3 O ÁPICE DA JUSTIÇA ..................................................................................79 2.4 SINTETIZANDO .............................................................................................81 CAPÍTULO 3: RELIGIÃO ENQUANTO VIRTUDE NA BAIXA IDADE MÉDIA E SEU DIÁLOGO COM A CONTEMPORANEIDADE .....................................83 3.1 RELIGIÃO ENQUANTO VIRTUDE E O ATO DE FÉ.................................84 3.2 O CONCEITO DE RELIGIÃO: OUTRAS PERSPECTIVAS ........................88 3.3 ATOS DA RELIGIÃO EM SÃO TOMÁS DE AQUINO ..............................95 3.4 HÁ ALGUÉM SEM RELIGIÃO? .................................................................110 3.5 ÉTICA E RELIGIÃO .....................................................................................115 3.5.1 POSTULADO ÉTICO ................................................................................121 CONCLUSÃO .....................................................................................................128 Referências Bibliográficas ...................................................................................135.
(14) INTRODUÇÃO “Um pequeno erro no princípio é grande no fim”. (Citação do prólogo da obra “O ente e a essência” de São Tomás de Aquino retirado do livro I do céu e do mundo de Aristóteles). É com esta citação que inicio as primeiras considerações deste estudo, de modo que tendo conhecimento dos passos que serão dados capítulos adentro, não se gere um equívoco grande no término. É válido alicerçar-se bem para que um pequeno erro introdutório não gere consequências maiores no futuro. O tema foi escolhido a partir da observação de que pouco se fala sobre os medievais e suas contribuições para os dias hoje. Por vezes, são tidos como ultrapassados ou irrelevantes para as ciências contemporâneas. Nisto surge o questionamento: será que de fato, nem mesmo Tomás de Aquino, poderia contribuir de maneira universal para a discussão sobre religião dos dias atuais? Podemos dizer que sim como será explicitado adiante. A importância acadêmica desta pesquisa é justamente resgatar os estudos medievais que podem ter sido esquecidos pela academia e contribuir com o avanço da área das ciências da religião na tentativa de traçar um diálogo dos autores clássicos com os contemporâneos. A pesquisa poderá ser aplicada a sociedade como um outro parâmetro de observação dos fenômenos religiosos e da conduta ética das pessoas a partir do ponto de vista das virtudes. O objetivo geral desta pesquisa consiste em trazer São Tomás de Aquino para a discussão atual das Ciências da Religião Em se tratando de objetivos específicos busca-se definir, a partir dos vários autores que serão postos em discussão, o que é considerado religião no século XIII e como os fenômenos religiosos estão sendo observados na atualidade sob o prisma medieval e também sob o prisma de autores contemporâneos. Pretende-se, também, a partir da consideração do pensamento religioso simbólico destacar aspectos que influenciam nas relações humanas e, consequentemente, na conduta ética das pessoas. Essa pesquisa terá por base os conceitos utilizados por Tomás de Aquino, sendo eles aristotélicos ou oriundos de outros autores. Por vezes ao longo do texto irão aparecer colocações que são oriundas de obras de Aristóteles que o próprio Doutor Angélico cita na Suma Teológica, essas referências irão aparecer como forma de nota de rodapé ou dentro do texto quando conveniente. Além de São Tomás de Aquino e Aristóteles, vão aparecer neste estudo nomes de grande importância nos estudos acerca do tomismo, entre eles, Fernand Van Steenberghen, Andrés Martines Lorca, Henri Dominique Gardeil, Leo J. Elders, João Ameal, MarieDominique Chenu, Carlos Arthur Ribeiro Nascimento, Albert Plé, Carlos Josaphat Pinto de. 14.
(15) Oliveira, Jean – Louis Bruguès, Antonin – Marcel Henry, entre outros. Estes últimos quatro citados, são comentadores que aparecem diretamente na edição da Suma Teológica adotada para esta pesquisa. Para que não haja nenhum equívoco na leitura que irá se seguir, vale esclarecer os modos de citação que poderão aparecer além do modo tradicional exigido pelas normas técnicas. Quando se referir a uma citação de um comentador direto desta edição da Suma, vai se citar o sobrenome dele, o ano da edição sucedido do número do volume da coleção, o ano de publicação e a página onde está contida a informação (exemplo: Plé, 2015. In: ST IV, 2015. p. 76). Já para as citações diretas da Suma, adotou-se o modo de se fazer menção da seção de determinada parte da obra sucedida do número da questão e do artigo onde estão as informações (exemplo: ST I – II q. 52 a. 1)1. É importante destacar que, embora haja citações de outras partes desta obra, grande parte do conteúdo deste estudo é oriundo da segunda parte da Suma Teológica. Será observado também que não se usará a expressão homem para se referir à humanidade de modo geral, a não ser quando for citado diretamente dos autores que o faziam já que tal atitude era comum na época para os antigos e para os medievais. Para atender a linguagem inclusiva de nosso contexto atual e para não nos restringirmos a nenhum gênero, é utilizado o termo pessoa ou ente humano para se referir à humanidade. Não foi optado por utilizar o termo ser humano, pois em se tratando de termos tomistas, o ser é uma parte do ente e o conceito não seria suficiente para expressar o que se deseja, portanto, optou-se por utilizar o termo ente humano em vez de homem. Observar-se-á alguns autores contemporâneos que podem estar tratando do mesmo assunto e até mesmo sob prismas diferentes. O método nesse sentido será histórico com análise crítica dos textos que perpassam o tempo e dialogam. Porventura, poderá se utilizar de saberes de outras áreas, tais como: crítica literária, hermenêutica, ética, metafísica, psicologia, antropologia e sociologia. A pesquisa consiste em comparar o que já disseram os medievais, o que estão dizendo os contemporâneos, verificar as compatibilidades e incompatibilidades entre eles e propor trazer o que for relevante da idade média para os tempos atuais. A pesquisa trabalha com o método hipotético-dedutivo, definido por Karl Popper, em sua natureza investigativa a partir das críticas ao método indutivo. O percurso do método contempla a identificação do problema que consiste na identificação da relevância dos conceitos propostos por São Tomás de Aquino para as discussões das ciências atuais, e deste problema, surge a hipótese: Tomás não trata da. 1. Lê-se: Suma Teológica, primeira seção da segunda parte. Questão 52, artigo 1.. 15.
(16) religião sob o ponto de vista institucional tampouco sentimental. Pela hipótese há o trabalho investigativo e interpretativo das evidências empíricas, alcançando, por fim, considerações e reflexões acerca dos objetivos propostos. (Cf. GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA, Denise Tolfo (Org.). Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009, p. 27). Este estudo está estruturado em três capítulos de modo que se possa acompanhar a mesma construção epistemológica proposta por São Tomás de Aquino na Suma Teológica. No primeiro capítulo será abordado o que são hábitos e como eles serão considerados virtudes ou vícios. A partir disto, elencará e abordará os principais aspectos das virtudes, sejam elas intelectuais, morais, cardeais ou teologais. Será feita a distinção entre elas de modo que mais a frente se compreenda a qual grupo de virtudes a religião pertence. É como se estivéssemos diante de um grande terreno e agora nossa tarefa e localizar uma pedrinha preciosa dentro dele, ou seja, há um grande terreno conceitual no qual iremos escavar a trilha até encontrarmos a pedra desejada. Adiante, tratar-se-á, no capítulo segundo, especificamente sobre a virtude moral (uma das chamadas cardeais) que pode ser institucionalizada: a justiça. Acerca dela será abordado sobre as espécies pertencentes a ela, o porquê de ela ser considerada uma virtude mais elevada, suas partes integrantes e potenciais e ainda destacar como e quando ocorre o ponto mais alto da justiça, isto é, o seu ápice, a epiquéia. No terceiro capítulo encontra-se a pedrinha preciosa do terreno. Feita a escavação e retirando as coisas que não cooperariam par alcançar esta pedra, chega-se nela. Esta etapa é iniciada com as considerações sobre a religião enquanto virtude na baixa Idade Média. É indubitável que ao longo do desenvolvimento da humanidade, o conceito de religião tomou formas distintas. Deste há a constatação de um fenômeno chamado sobrenatural que é observado e de algum modo precisa ser observado, seja através de mitos ou através das ciências empíricas. É por esse motivo que serão feitas algumas considerações sobre o conceito de religião para os nossos dias. Voltando especificamente para o Doutor Angélico, veremos os principais atos da religião de modo que possam ser até mesmo universalizados, isto é, são alguns atos comuns também fora do cristianismo. Feitas tais considerações e levando em conta os aspectos de nossos dias, propõe-se tentar responder se existe alguém sem religião e ainda traçar características éticas oriundas do pensamento religioso. Para auxiliar na compreensão das ideias que gravitam em torno desta pesquisa, faz-se necessário compreendermos o contexto histórico onde os textos fundamentais foram escritos bem como saber, mesmo que limitadamente, traços característicos de São Tomás de Aquino.2 2. As informações que sucedem acerca da biografia, dos fundamentos do pensamento e do contexto de São Tomás de Aquino que não possuem autor citado diretamente no texto foram retiradas de uma cartilha publicada pela. 16.
(17) Tomás de Aquino nasceu no século XIII no Castelo de Roccasecca na pequena Vila de Aquino situada entre Roma e Nápoles. Estudou na Abadia de Monte Cassino com os monges beneditinos. Devido a guerra travada entre o pontificado e o império, teve que terminar seus estudos na Universidade de Nápoles onde teve seu primeiro contato com a Ordem Dominicana na qual ingressou alguns anos depois mesmo contra a vontade de sua família que, tendo influencia no exército de Frederico II, encarcerou-o por três anos e só foi liberto a pedido do Papa Inocêncio IV. Em liberdade, foi para Colônia e logo depois para Paris onde recebeu lições de Alberto Magno e voltaram juntos para Colônia para o Estudo Geral de sua ordem. Chamado pelos seus superiores, Tomás volta a Paris onde lhe foram confiados os comentários à Escritura e às Sentenças de Pedro Abelardo. O modo de ensinar de Tomás chamava atenção pelo fato de possuir muita autonomia e independência, segundo Guilherme de Tocco, um dos biógrafos do dominicano. O mesmo ensina que Aquino introduziu novos artigos em seus cursos, inaugurou na investigação e em resoluções científicas uma forma nova e clara de abordagem. Desenvolveu em suas exposições argumentos inéditos. Seu modo de ensinar era considerado tão brilhante que o Papa Alexandre IV o quis como consultor. Aquino viveu na Itália, novamente, por nove anos a partir de 1259 onde lecionou durante sua estadia. É neste período de transições (1259 – 1268) quando Tomás escreve a Suma de Teologia que fundamenta a presente pesquisa. Em 1269 volta a Paris onde fica até 1972. Neste mesmo ano, seus superiores solicitam novamente que retorne a Itália onde dirigiu estudos gerais. No início de 1274, ao sair para o II Concilio de Lião, convidado pelo Papa Gregório X, morre durante a viagem. Nascimento (2014) escreve que no segundo semestre de 1273, parece ter se acentuado a sua abstractio mentis, isto é, desligamento mental, em que Tomás era ‘arrebatado em espírito, absorvendo-se na contemplação e ficando fora de si’, de acordo com o testemunho de seu secretário Reginaldo. Por volta da festa de São Nicolau (6 de dezembro de 1273), passou por uma extraordinária transformação ao celebrar a missa e não quis escrever mais nada. Apresentava-lhe prostrado e lhe foi imposto um repouso. Restava ainda a Tomás uma longa viagem. Continuava meio aéreo e bateu com a cabeça numa árvore caída na estrada. Ficou meio zonzo, mas, aparentemente, nada de mais grave. Percebendo o estado em que se achava, pediu para ser levado para a abadia cisterciense de Fossanova. Fez uma confissão geral a Reginaldo,. Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa em fevereiro 1997 com o título São Tomás de Aquino – Doutor da Igreja do século XIII por ocasião da atribuição do nome do santo a uma rua das imediações da cidade universitária de Coimbra.. 17.
(18) recebeu o viático e, no dia seguinte, a unção dos enfermos. Morreu a sete de março de 1274, pela manhã. Em se tratando do contexto histórico, de uma maneira geral, Lorca (2015) divide a Idade Média, brevemente, da seguinte maneira: a primeira fase se dá no século V com a queda do Império Romano através das invasões bárbaras e, como consequência, houve um rompimento com o mundo greco-romano. A segunda fase se encontra onde o autor destaca que o Império Carolíngio estava no poder, isto é, entre o século VIII e IX. A terceira fase é descrita no século X e é chamada de Alta Idade Média. Na chamada Baixa Idade Média há o florescimento escolástico onde surgiram muitas ideias filosóficas que veremos mais adiante, no entanto, é importante ressaltar que, de acordo com Lorca (2015), com a crise histórica no século XIV houve o fim do medievo. Lorca (2015) nos auxilia fazendo as divisões da escolástica. O autor ensina que ela teve seu início com Pedro Abelardo (XI – XII), contudo o mesmo defende que o período de maturidade da escolástica se deu com Tomás de Aquino no século XIII e teve fim com Guilherme de Ocham no século XIV que fazia uso do criticismo lógico e político que marcou sua época. Em audiência geral na Praça de São Pedro no dia 28 de outubro de 2009, o então Papa Bento XVI ensinava sobre alguns pontos sobre a teologia monástica e escolástica. O pontífice declara que no século anterior em que viveu São Tomás de Aquino e Boaventura de Bagnoregio, a teologia refloresceu adquirindo maior consciência de sua própria natureza, isto é, apurou seu método, enfrentou problemas novos, progrediu na contemplação do mistério de Deus, produziu obras fundamentais, inspirou iniciativas importantes da cultura, da arte e da literatura. Estes fatos foram importantes colaboradores para a produção das obras de São Tomás e Boaventura. O atual Papa emérito escreve que os representantes da teologia escolástica eram homens cultos, apaixonados pela pesquisa, mestres desejosos de demonstrar a racionalidade e o fundamento dos mistérios de Deus e o de sua criatura humana, indubitavelmente acreditados com a fé, mas compreendidos também pela razão. Para melhor nos situarmos nos ideais onde estamos nos inserindo, Lorca (2015) ensina que convém considerar a escolástica na sua própria transformação, na sua pobreza teórica inicial, como historicamente sucedeu. O cristianismo, não esqueçamos, surgiu no Médio Oriente, em solo palestino, como uma corrente religiosa separada do judaísmo, isto é, como uma seita. O cristianismo, que desde cedo aspirou a ser universal diferenciando-se assim do nacionalismo judeu, começou a difundir-se nessa região, e, por isso, os cristãos mais antigos do mundo são os coptas egípcios. Estes primeiros seguidores do Nazareno não tardariam em passar para o continente europeu, Atenas em primeiro lugar e depois Roma, para fazer crescer o 18.
(19) número dos seus adeptos através da respectiva língua desses pagãos (grego e latim) e usando no seu doutrinamento categorias e conceitos herdados da filosofia platônica e neoplatônica. Lorca (2015) ainda destaca que com a queda do Império e a invasão dos povos bárbaros, a Igreja ficou imersa numa ignorância geral pelo fato da ocultação da cultura clássica. Apenas alguns fragmentos de obras de enciclopédias restaram além de blocos dogmáticos da Bíblia cristã e o conjunto teológico da patrística, especialmente obras de Santo Agostinho. Na parte filosófica, aproveitou-se ainda de obras de Cícero, dois ou três tratados lógicos de Aristóteles transmitidos por Boécio3. Escritos de Dionísio4 que em sua síntese sublinha a transcendência divina e propaga uma teologia negativa já que Deus é inefável. Entre os escolásticos, é possível encontrar algumas características comuns como ensina Lorca (2015) a partir de notas de Marie-Dominique Chenu5. O autor destaca a surpreendente forma literária que se nota ao observar a estrutura de raciocínio, a fragmentação de textos, a monotonia das fórmulas e os procedimentos constantes de divisão, subdivisão e distinção. Num plano sociológico, Chenu acrescenta estas explicações: os escolásticos são dialéticos, formados no domínio da gramática e da lógica. Baseados nas autoridades comentam e debatem, mas com o olhar posto no avanço do estado da questão, no aperfeiçoamento das doutrinas recebidas. Quanto ao método escolástico, Lorca (2015) ensina que inicialmente foi um método de ensino nas escolas (monásticas, catedralícias e palatinas) que encontrou seu desenvolvimento nas universidades. Juntamente com sua vertente pedagógica cujo eixo era a interpretação dos textos das chamadas autoridades, como a Bíblia, os Padres da Igreja, Aristóteles entre outros, foi crescendo um pensamento crítico que tendia a valorizar o rigor lógico, a argumentação apodítica e a distinção teórica entre filosofia e teologia. Como centro do método escolástico podemos destacar a exposição (lectio) e o debate (quaestio). Na exposição há uma explicação literal de um texto e análise do conteúdo para concluir com profundidade, já os debates consistiam no aparecimento do problema em questão em aula e os professores respondiam podendo chegar a debates públicos dependendo do grau de importância do problema. Com a evolução dos debates, chegaram as chamadas quodlibetales que eram abertas às perguntas que livremente os ouvintes quisessem formular e apenas alguns BOÉCIO (480 – 524): Foi herdeiro da cultura antiga (grega) veio a ser mestre do palácio do rei godo Teodorico, em 520. Foi acusado de traição falsamente, mas foi condenado à prisão e à morte sem chance de defesa. Foi responsável por transmitir aos romanos a sabedoria grega. Foi um cristão familiarizado com o pensamento de Santo Agostinho. 4 Padre grego, influente na teologia medieval que deve ter vivido entre os séculos V e VI e cuja identidade desconhecemos (essa é a razão pela qual, em alternativa é denominado como Pseudo-Dionísio, Dionísio Areopagita ou Dionísio, o Místico). (LORCA, 2015. p. 20) 5 Lorca (2015) teve como fundamento a obra Introduction à l'étude de Saint Thomas d'Aquin de Chenu, teólogo francês do século XX que pertenceu a Ordem dos Pregadores e teve grande influência no Concílio Vaticano II. 3. 19.
(20) mestres se atreviam a participar. Com efeito, uma grande parte da literatura escolástica tem origem nos relatórios escritos pelos mestres no final dessas disputas (debates) solenes. Segundo Lorca (2015), os gêneros literários evoluíram juntamente à metodologia de ensino. Com o tempo, passou-se da anotação de textos a comentários de obras chamadas expositio. Para o autor, o ponto alto da era da expositio, se concretizou com a elaboração sistemática de um campo científico concreto que são as chamadas Sumas que eram oferecidas aos universitários. Um exemplo deste gênero foi a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, obra esta que norteia a atual pesquisa. Lorca (2015) ensina que por método escolástico entende um método aplicado em filosofia (e em teologia), que se caracteriza pela utilização, tanto para a investigação como para o ensino, de um sistema constante de noções, distinções, definições, análises proposicionais, técnicas de raciocínio e métodos de disputa, que no início se pediram emprestados às lógicas aristotélica e boeciana, e mais tarde, de maneira mais ampla, à própria lógica terminista. Lorca (2015) destaca ainda que o formalismo dos escritos escolásticos que consiste num encadeamento de silogismos de diversos tipos num texto cheio de definições, divisões e distinções chama muita atenção de seus leitores. Ele adverte que por detrás de um formalismo lógico e de uma linguagem até mesmo religiosa existe ainda um pensamento vivo. O Doutor Angélico viveu na chamada Baixa Idade Média (séculos XII – XIII) onde ocorreram diversas mudanças nas atitudes religiosas e intelectuais influenciadas, inclusive, por ele próprio. A escolástica foi a realização filosófica mais notável da segunda fase da Idade Média. Este sistema consiste numa tentativa de harmonizar a razão com a fé. Os interesses dos escolásticos não se circunscreviam aos problemas da religião somente, mas incluíam questões da vida, quer do ponto de vista da religião, quer da política, quer ainda da economia ou metafísica. Assim como Santo Agostinho, São Tomás também se utiliza de conceitos filosóficos gregos, a diferença entre eles advém da época em que cada um viveu. Enquanto o primeiro viveu na Alta Idade Média, o segundo viveu na Baixa. Enquanto Agostinho emerge de um mundo em crise por onde se observa o desabar de uma civilização, Tomás surge de um mundo de novas formas de vida. Logo, ao acentuado pessimismo agostiniano, segue-se o otimismo tomista. Passando de certa forma, pelo pensamento de Aristóteles, Tomás estabelece a existência de duas fontes distintas harmônicas do conhecimento humano: a fé e a razão. Para ele, estas duas podem auxiliar-se mutuamente, pois a fé serve de norma extrínseca à razão, e esta, por sua vez, colabora com a fé na constituição de uma ciência teológica. Segundo Steenberghen (1990), para compreendermos ou até mesmo julgarmos a filosofia de Tomás de Aquino, é necessário o situarmos em seu contexto histórico. A 20.
(21) cristandade medieval no século XIII sofreu uma crise intelectual sem precedentes oriunda da grande invasão da filosofia pagã que se iniciou no século XII. Tal invasão pagã era considerada uma ameaça para o pensamento cristão vigente. Para o autor, até o final do século XII, o mundo cristão tinha vivido sob um regime intelectual teológico e Tomás intuiu que seria necessário dotar a cristandade com uma filosofia autêntica6 depois de repensar os problemas teológicos à luz deste instrumento racional. Sua fonte principal em filosofia foi Aristóteles, fato este que por muitas vezes o fez se opor a Platão e consequentemente a Santo Agostinho. Também se opôs ao iraniano Avicena7, ao judeu Avicebron8, ao árabe Averróis e ao seu colega franciscano Boaventura. Embora tenha sido muito fiel à filosofia aristotélica, Steenberghen (1990) ensina que Aquino possuía uma independência quando julgava corrigir ou até mesmo ultrapassar Aristóteles, ademais nenhum historiador conseguiria ver no tomismo um aristotelismo integral e exclusivo. Steenberghen (1990) escreve que Aquino bebeu das fontes do pensamento patrístico, escolástico e além delas numerosas fontes secundárias de ordem filosófica, literária, jurídica e científica. Aquino explorou com curiosidade insaciável os materiais de suas pesquisas. Para o medievalista belga citado acima, a síntese filosófica do Doutor Angélico é profundamente original e este fato impressionou seus contemporâneos de dois modos: uns exaltaram seu gênio criador outros denunciaram suas perigosas inovações. O mesmo autor cita testemunhos de Guilherme de Tocco, confrade de Tomás e seu primeiro biógrafo, sobre a impressão que o Aquinense causava aos seus ouvintes devido a sua radical novidade. Segundo os relatos, ele levantava novos problemas, tratava-os com um método novo, com argumentos novos tão bem que, depois de ter ouvido expor novas doutrinas apoiadas em novas razões, ninguém duvidada que Deus o inspirava para realizar seu ofício. Após sua morte, a escola teológica dominicana está tomada pela sua doutrina, ensina Steenberghen (1990). Sua influência atinge teólogos como Godofredo de Fontaines9, Egídio de 6. A expressão filosofia autêntica é utilizada pelo próprio autor citado como fonte para esses dados. Talvez o termo possa nos causar certa estranheza se questionarmos se a filosofia elaborada até então, não seria considerada autêntica também, entretanto, podemos inferir a partir de Gardeil (2013) que uma a filosofia considerada não autêntica para a época seria a filosofia pagã. 7 AVICENA (980 – 1037): Foi filósofo e médico árabe responsável, para os escolásticos como um dos introdutores do pensamento de Aristóteles, entretanto, introduziu no aristotelismo temas neoplatônicos, fato este que provocou a reação de Averróis. Este último era também grande admirador de Aristóteles e decidiu dedicar sua vida a comentar suas obras, tanto é que é conhecido entre os medievais como “O comentador”. Acusa Avicena de ter deformado a filosofia aristotélica. 8 AVICEBRON (1021 – 1070): Poeta e filósofo nascido em Córdoba aderente da filosofia neoplatônica. 9 GODOFREDO DE FONTAINES (1250? – 1306?): Conhecido também como Godfrey of Fontaines, foi teólogo e filósofo escolástico. Contribui para as áreas de filosofia moral e epistemologia, mas é mais famoso pelos seus estudos metafísicos. Recebeu ensinamentos de Tomás de Aquino na Universidade de Paris durante a sua segunda estadia na cidade.. 21.
(22) Roma10 e mais tarde atingiu também a escola carmelita. Obviamente, se por um lado a obra de Tomás admirou positivamente muitas pessoas, por outro foi muito contestada também. É o caso de alguns teólogos seculares, mas sobretudo franciscanos que eram fiéis às tradições da faculdade de teologia que recorriam aos ensinamentos de Santo Agostinho. Steenberghen (1990) escreve que já em 1270 Tomás tinha sido atacado publicamente pelo mestre franciscano João Peckham. Várias de suas teses filosóficas tinham sido atingidas, se não visadas, pela grande condenação de Paris de março de 1277. Entre 1277 e 1279, o franciscano Guilherme de la Mare publica o Corretório de Frei Tomás (Correctorium fratis Thomae), no qual denuncia 117 erros encontrados nos escritos de Tomás. Teses tomistas foram censuradas em Oxford em 1277, 1284 e 1286. Havia também, uma ameaça de excomunhão que acompanhava o decreto de 7 de março de 1277 que impediu o progresso do tomismo em Paris, pois consideravam suspeito o fato de suas doutrinas terem um grau de semelhança com as do aristotelismo heterodoxo, ensina Steenberghen (1990). Tal conflito foi solucionado com a canonização de Tomás em 1323. Steenberghen (1990), concordando com uma boa parte de historiadores, declara que, pensa que o receio dos teólogos mais conservadores não era fundado, pois as doutrinas filosóficas de Tomás de Aquino não ameaçavam a ortodoxia cristã. Seu pensamento filosófico marca um progresso decisivo na evolução da filosofia. Para ele, o Doutor Angélico domina o seu século, devido ao fato de que sua obra é o coroamento de um longo esforço de reflexão provocado pela literatura nova. Indubitavelmente, a escola tomista não é maioria na Idade Média sobretudo por conta do nominalismo11 no século XIV. O valor da filosofia criada por São Tomás só mais tarde se revelará plenamente.. EGÍDIO DE ROMA (1243 – 1316): Escritor, filósofo e teólogo ingressou na ordem dos eremitas de Santo Agostinho. Aluno de Tomás de Aquino entre os anos de 1968 e 1972, foi o primeiro agostiniano a ingressar na Universidade de Paris. 11 NOMINALISMO: (...) Doutrina dos filósofos nominales ou nominalistas, que constituíram uma das grandes correntes da Escolástica. Os termos nominalista (nominalís) ou terminista foram usados somente no princípio do séc. XV (...), mas O'ton de Freising, em sua crônica Gesta Friderici imperatoris (1, 47), afirmava que Roscelin fora "o primeiro em nossos tempos a propor em lógica a doutrina das palavras (sententiam vocum)". No princípio do séc. XII o N. era defendido por Abelardo (...), mas seu triunfo na Escolástica foi devido à obra de Guilherme de Ockham (c. 1280- c.1349), que com razão foi chamado de Princeps Nomínalium. Assim exprimia Ockham sua convicção sobre o assunto: "Nada fora da alma, nem por si nem por algo de real ou de racional que lhe seja acrescentado, de qualquer modo que seja considerado e entendido, é universal, pois é tão impossível que algo fora da alma seja de qualquer modo universal (a menos que isso se dê por convenção, como quando se considera universal a palavra 'homem', que é particular), quanto é impossível que o homem, segundo qualquer consideração ou qualquer ser, seja o asno" (In Sent., I, d. II, q. 7 S-T). Do ponto de vista positivo, o N. admite que o universal ou conceito é um signo dotado da capacidade de ser predicado de várias coisas. O conceito já fora assim definido por Abelardo (...). (...) (ABBAGNANO, 2007. p. 715 – grifos do autor) – Como o termo nominalista pode-se fazer muito abrangente de acordo com o passar do tempo, faz-se necessária a inserção desta definição nesta pesquisa para limitarmos sua conotação e a situarmos somente para o período histórico em questão. 10. 22.
(23) Este solitário não escreveu para o seu século, mas tinha o tempo a seu favor. (GILSON, 1944. In: STEENBERGHEN, 1990. p. 156). Sobre um renascimento do tomismo ou até mesmo de uma nova ascensão da filosofia de São Tomás de Aquino, Steenberghen (1990) relata que a ideia de um retorno autêntico surge entre os dominicanos em Nápoles em meados do século XVIII como efeito contra a escolástica eclética que dominava as escolas católicas de filosofia. Ademais, o resgate de Tomás de Aquino se torna necessário no início do século XIX após o que o escritor belga chama de confusão provocada pela Revolução e da ameaça que a filosofia kantiana representava para a filosofia tradicional até então. O movimento tomista vai crescendo novamente lentamente ao percorrer do século XIX, e em 1879, o Papa Leão XIII faz uma consagração oficial do tomismo através da encíclica Aeternis Patris. O historiador ressalta que o impulso dado ao tomismo através da encíclica suscitou muitos estudiosos na área não só no mundo católico, mas também, ultrapassando as fronteiras do catolicismo. Muito se questionou sobre um resgate dos ensinamentos medievais sendo inseridos no século XIX novamente em diante. Observa Steenberghen (1990) que se sentia uma necessidade de uma filosofia sólida que fosse capaz de entrar em diálogo com o pensamento contemporâneo da época de Kant. Alguns questionavam se não era sem sentido ressuscitar, um pouco mais adiante no século XX, uma maneira medieval de pensar ligada a uma cultura já considerada ultrapassada. Steenberghen (1990) discorre que pensa, com todos os tomistas, que estes pioneiros tinham razão, pois estão convencidos do valor permanente e da fecundidade da filosofia que Tomás de Aquino incorporou na sua obra literária imensa e variada, deixando-nos o cuidado de a pôr em evidência e de a reconstruir. A sua concepção do conhecimento intelectual, a sua ontologia (nela compreendendo a sua teologia natural) a sua antropologia e a sua moral mantem um valor inestimável, mesmo as teses filosóficas da sua cosmologia são de natureza a esclarecer o estudo do universo corporal, que deve evidentemente fazer-se hoje tendo em conta as aquisições da ciência positiva. Há, no entanto, um desafio grande pela frente. Como ensina Steenberghen (1990), é obvio que os textos do santo doutor têm marcas do seu tempo, sua linguagem, o vocabulário e estilo de escrita próprios de sua época. Neste sentido, os chamados partidários de uma renascença tomista encontram-se diante da tarefa de modernizar a filosofia de São Tomás. De a repensar e de a rescrever numa linguagem acessível as pessoas de nosso século. É válido ressaltar que se o medievalista belga já nota tal desafio no século XX que é de onde ele escreve, no século XXI o desafio se torna um pouco mais complexo. Ordine (2018) reforça que os 23.
(24) clássicos ocupam um lugar cada vez mais marginal nas escolas e universidades, pois é mais preferível serem guiados por resumos e sínteses de outros autores, porém não se leem o texto dos autores clássicos na íntegra. A verdade não muda, mas a sua expressão é sempre tributária da linguagem e da cultura em que se encarna (STEENBERGHEN, 1990. p. 160). Segundo Steenberghen (1990), tomistas ultraconservadores podem enclausurar o tomismo num gueto intelectual e impedir a irradiação de seu pensamento. O autor observa que tal atitude seria totalmente antitomista, pois o próprio Doutor Angélico deu exemplo de abertura ao progresso a ponto de suscitar a violenta reação dos conservadores do seu tempo. A recusa por modernizar o pensamento de Aquino é fazer dele um fóssil, um vestígio interessante do passado, uma peça de museu e não um pensamento vivo.. 24.
(25) CAPÍTULO 1: HÁBITOS, VIRTUDES E SUAS DISTINÇÕES As questões da Suma de Teologia que norteiam este estudo, estão localizadas principalmente, na segunda parte desta obra, portanto, é importante, antes de tudo, fazer uma abordagem sobre os textos nos quais iremos adentrar. Segundo Nascimento (2014), São Tomás de Aquino era especialista em escrever prólogos12, pois escrevia alguns muito bem elaborados, contudo, o autor observa que o prólogo da segunda parte da Suma de Teologia é bastante curto comparado aos demais: Afirma Damasceno que o homem é criado à imagem de Deus, enquanto o termo imagem significa o que é dotado de intelecto, de livre-arbítrio e revestido por si de poder13. Após ter discorrido sobre o exemplar, a saber, Deus, e sobre as coisas que procederam do poder voluntário de Deus, deve-se considerar agora sua imagem, a saber, o homem, enquanto ele é o princípio de suas ações, possuindo livre-arbítrio e domínio sobre suas ações. (Prólogo da ST I –II – grifos do tradutor).. Nascimento (2014) escreve que o que fora pretendido pelo Doutor Angélico a partir da passagem da primeira parte da Suma para a segunda foi encerrar o estudo sobre o modelo exemplar (Deus) e iniciar o estudo a fundo do que é considerado sua imagem, isto é, o ente humano. Tomás pretendeu nessa parte não mais tratar do ente humano enquanto o que procedeu de Deus, mas agora a partir do ponto de vista de que o ente humano é também princípio de suas obras justamente pelo fato de possuir livre-arbítrio e domínio sobre suas ações. Dito isso, é possível perceber que nessa segunda parte da Suma de Teologia não se trata do ente humano como aquele saído pronto das mãos de Deus, mas também a partir do que ele é capaz de fazer a si mesmo, aos outros, e ao mundo, de escolher o que ele quer ser e fazer ser, fazendo uso de suas potências14 oriundas da razão. De acordo com Nascimento (2014), é justamente pelo fato de possuir intelecto e decisão livre é que o ente humano é considerado imagem de Deus. Ele (Tomás) considera que o ser humano é a imagem de Deus naquilo que ele é em si mesmo (inteligência e querer livre, autônomo), o que o torna capaz de conhecer a Deus. Mas o homem não está acabado, ele é à imagem de Deus em sentido dinâmico, isto é, ele é para Deus, já é imagem e torna-se mais imagem, ao conhecer e amar a Deus (...). Dizer, portanto, que o homem é imagem de Deus é dizer que ele está se fazendo, está a caminho. (NASCIMENTO, 2014. p. 80) Todo mundo conhecia a receita fornecida por Boécio: “ todo prólogo, que tem intenção de preparar o ouvinte, como se diz na Retórica, ou capta a benevolência, ou desperta a atenção, ou produz a docilidade”. (BOÉCIO, Comentário aos Tópicos de Cícero, Patrologia Latina 64, coluna 1042D. In: NASCIMENTO, 2014. p. 79). 13 Nascimento (2014) traduz como autodomínio. 14 POTÊNCIA: 1. Toda capacidade de mudança ou de determinação. Caracteriza-se em relação ao ato: o que pode ser e não é como o que está em ato. – 2. Principais modalidades. Potência ativa, ou de mudança em um outro enquanto outro; potência passiva, ou potência de algo ser transformado por um outro enquanto tal. – Potências naturais: aquelas que pertencem às coisas em virtude de sua natureza; potência obediencial: aptidão a receber de um agente superior uma determinação que ultrapassa sua natureza, a graça, por exemplo. – 3. A potência e o ato são divisões primeiras do ser real. (GARDEIL, 2013. p. 534 – grifos do autor). 12. 25.
(26) No plano da obra de segunda parte da Suma de Teologia, que é justamente onde iremos localizar a questão central desta pesquisa (sobre a religião), Tomás de Aquino dedica as cinco primeiras questões para discorrer sobre a felicidade do ente humano (bem-aventurança) primeiramente examinando a meta final da vida humana e depois em que consiste essa meta ou essa felicidade completa também chamada de beatitude. Nascimento (2014) observa que após as cinco questões iniciais sobre a felicidade, o Doutor Angélico passa a tratar um pouco mais minuciosamente e longamente sobre o percurso do ente humano para alcançar tal felicidade. Aquino trata como se pode chegar a felicidade e como é possível desviar-se desse caminho concluindo que tudo isso depende das ações humanas. Por este motivo, das questões de 6 a 114 (da primeira seção da segunda parte) o Aquinense discorre somente sobre as ações humanas de modo geral: as próprias ações humanas (q. 6 a 48) e seus princípios bem como as capacidades e fatores que as tornam possíveis e que possibilitam a realização delas (q. 49 a 114). Já na segunda seção da segunda parte ele trata das ações humanas em particular. Primeiramente das ações que dependem das faculdades propriamente humanas, ou seja, que são oriundas diretamente da sua vontade15. Em contrapartida há também ações, que não são voluntárias, pois apesar de ser comandadas pela vontade, são diretamente executadas por outra faculdade humana. Por exemplo, estudar é uma atividade da inteligência, mas é possível querer estudar ou não. Todo esse conjunto de questões que trata das ações propriamente humanas, isto é, das ações que procedem diretamente da vontade e da inteligência (comandada pela vontade) tem grande semelhança com o que se chamou mais recentemente de “lógica de ação”. (NASCIMENTO, 2014.p. 83). Observando o que fora dito, é válido dizer então que Tomás também trata das ações que fogem do controle humano. Ele dedica um grupo de questões (q. 28 a 48) ao que ele chama de paixões, isto é, as emoções ou sentimentos, que são comuns aos humanos e outros animais, mas que podem ser até certo ponto comandadas pela vontade humana. (NASCIMENTO, 2014). Um exemplo é que quando um ente sente medo, ele pode até certo ponto, dominar seu medo ou então deixar-se dominar por ele. Nascimento (2014) pontua que as 21 questões sobre as paixões escritas por Tomás de Aquino constituem o primeiro estudo sistemático das paixões, emoções ou sentimentos no pensamento ocidental, não que Platão e Aristóteles não o tenham o feito, mas Tomás as caracteriza, classifica e avalia sua moralidade. Da questão 48 a 114 da parte final da primeira seção da segunda parte da Suma de Teologia, o Doutor Angélico escreve sobre os fatores ou princípios que permitem a realização 15. Segundo Gardeil (2013), ensina que aqui a vontade pode ser entendida como o apetite racional (entre vários apetites existentes), ou que se segue ao conhecimento intelectual. Seu objeto é o bem apreendido pela inteligência.. 26.
(27) das ações humanas. Nascimento (2014) observa que Tomás o faz em duas etapas: na primeira etapa (q. 49 a 89) são estudados os princípios internos ao agente humano, e na segunda (q. 90 a 114) os princípios externos.16 Nesta primeira parte, o Aquinense escreve sobre a qualificação dessas faculdades para a ação. Há, portanto, um estudo geral, primeiramente, de tais qualificações que tornam as faculdades habilitadas para determinadas ações que os medievais chamavam de habitus. O termo em questão significa algo que é tido de um modo estável e permanente, capacitando o agente para agir com facilidade, prazer e explicar como se faz. As capacitações, contudo, podem ser boas ou más. Quando boas são chamadas de virtudes que tornam boa a ação e o agente, e quando más recebem o nome de vício, pois sendo contrárias à natureza do agente, torna mau o agente e sua ação. É nesse momento de sua obra que, seguindo a tradição aristotélica que Tomás vai tratar das virtudes, tópico este que será aprofundado mais adiante. Acompanhando então a ordem do plano da obra desta parte da Suma, Tomás trata das habilitações, depois das virtudes. Dentro dos escritos sobre as virtudes, Tomás trata sobre justiça que é uma das virtudes cardeais e que será norte para o capítulo 2 deste estudo. Aprofundando um pouco mais, em se tratando de virtudes anexas, Tomás vai tratar de uma virtude anexa à justiça que é chamada de religião e que vai nortear o capítulo 3 desta pesquisa. A segunda seção da segunda parte da Suma de Teologia é parte mais extensa desta obra. Nascimento (2014) aponta que o primeiro grande bloco de questões (q. 1 a 170) trata em particular do que se refere a todos os agentes morais. Enquanto subdivisões, são postas as três virtudes teologais17 e as quatro virtudes cardeais. No segundo bloco (q. 171 a 189) é tratado sobre os estados ou situações especiais 18. Ele desenvolve o que se refere à condição própria de certas pessoas contando com diversidade de dons (carismas), gêneros de vida19 e diversidade de ofícios e estados. Nascimento (2014), em suas considerações finais sobre a análise da segunda parte da Suma de Teologia, ensina que o Doutor Angélico não faz moral no sentido corriqueiro da palavra, isto é, no sentido de determinar o que é permitido e o que é proibido. A moral tomista 16. Quanto aos fatores internos ao agente humano, Tomás deveria começar pelas faculdades da alma, mas isso já foi feito na primeira parte da Suma, ao se tratar da criatura humana (questões 77 a 83). (NASCIMENTO, 2014. p. 84). 17 Fé, esperança e caridade. – Elas são chamadas de virtudes teológicas ou teologais por se referirem direta e primeiramente a Deus. (NASCIMENTO, 2014. p. 88). 18 Podemos considerar que nosso comportamento ou ação humana engloba dois grandes tipos: as ações propriamente ditas, que dizem respeito aos outros e os sentimentos ou paixões. Daí três virtudes cardeais: a justiça, que se refere às ações; a coragem, que se refere aos impulsos agressivos; a temperança, que diz respeito aos desejos. Acresce a prudência, concebida como uma capacidade de discernimento prático ou sabedoria de vida e que se refere à avaliação e execução concreta de todo e qualquer ato humano. (NASCIMENTO, 2014. p. 87). 19 Contemplativa ou ativa.. 27.
(28) é uma moral de liberdade (como visto no prólogo da primeira seção da segunda parte), moral das virtudes (compreendidas aqui como habilitações para bem agir) e moral das situações, como pode ser observado a partir do prólogo da segunda seção da segunda parte: Depois do tratado geral das virtudes e dos vícios e de outros dados referentes à moral, é necessário considerar cada ponto em particular. Porque, na moral, as generalidades são pouco úteis, já que as ações se realizam em situações particulares. (Prólogo da ST II – II). Este primeiro capítulo marca o primeiro passo em direção da construção do conceito de religião em São Tomás de Aquino no século XIII. Para que se chegue a tal concepção de religião no século XIII, é proposto que se faça o mesmo percurso que o escolástico fez ao longo da Suma de Teologia. O medieval escreve sobre os hábitos, as virtudes, logo após dá um enfoque na virtude da justiça, e a partir das virtudes potenciais (anexas) da justiça chega ao conceito de religião enquanto virtude. Este capítulo pretende colocar o primeiro ‘tijolo’ na construção deste conceito iniciando com o que o Doutor Angélico ensina sobre os hábitos. Procurar-se-á citar os principais aspectos dos hábitos até que se possa compreender como um hábito se torna uma virtude ou um vício, isto é, um hábito bom é chamado de virtude e um hábito mau é chamado de vício. Não se aprofundando muito na questão dos vícios, mas voltando a atenção para as virtudes (bons hábitos) é que se conseguirá compreender mais a frente o conceito de religião para São Tomás de Aquino. Tendo já sabido que as virtudes são os bons hábitos. Há de se fazer as distinções pertinentes a cada tipo de virtude. Tratar-se- á das virtudes intelectuais, morais, cardeais e teologais. Em se tratando das virtudes intelectuais, isto é, as que aperfeiçoam o intelecto, adiante se verá a distinção delas entre si. Em seguida, far-se-á necessário tratar das virtudes morais e suas distinções em si mesmas e em relação às intelectuais. Dentro do grupo das virtudes morais, teremos as chamadas principais, ou cardeais. Compreender a virtude cardeal da justiça será de fundamental importância para a concepção de religião em São Tomás de Aquino. Devido a este fato, é que se dedicará o capítulo 2 para se tratar da justiça e, consequentemente o capítulo 3 como o tijolo final nesta construção conceitual. É possível, também que se tenha uma pré concepção da religião enquanto uma virtude teologal, mas há de se notar mais a frente que não é. Por isso, far-se-á necessário também discorrer sobre as virtudes teologais neste capítulo na tentativa de investigar a qual tipo de virtude a religião pertence. Tais indagações pretendem ser resolvidas ao decorrer dos tópicos dos capítulos seguinte.. 28.
(29) 1.1 HÁBITOS São Tomás de Aquino, ensina que todos os nossos hábitos bons são virtudes, isto é, a virtude é um hábito que nos aperfeiçoa para agirmos corretamente. Do ponto de vista tomista, temos as virtudes intelectuais, morais (dentre tantas são destacadas as quatro chamadas cardeais) e as teologais. Antes de entrar no campo das virtudes, faz-se necessário compreender o que é um hábito já que consta na definição de virtudes até então. Portanto, o que é um habitus? A definição de hábito adotada por Steenberghen (1990) é a de que é uma disposição estável para agir em um sentido determinado. Ele pode ser orientado de diversas maneiras, uma delas é que através da repetição dos mesmos atos podem-se criar um hábito. Segundo Aristóteles (1965), a virtude ética provém do hábito (ethos). Consequentemente, o filósofo pontua que nenhuma das virtudes éticas é gerada em nós por natureza, isto é, não são inerentes de maneira perfeita nos indivíduos. No Livro II da Ética, Aristóteles cita que nenhum dos seres naturais toma hábitos diversos, por exemplo: uma pedra que fosse levada para baixo e para cima mais de mil vezes, jamais se habituaria por si mesma a alçar-se para cima, logo ele conclui que as virtudes não são geradas nem por natureza nem contra ela, mas no ente humano que é apto pela natureza (pelo fato de ser racional), recebe-as e se torna capaz de alcançar a perfeição através do hábito. Ao demais, de quantas coisas nos sobrevêm naturalmente, delas trazemos anteriormente em nós a potência, e depois exteriorizamos os atos. Tal coisa se evidencia nos sentidos: em verdade, não adquirimos o sentido da vista ou do ouvido por ter visto ou ouvido muitas vezes, pelo contrário, tendo-os, usamo-los, e não os obtemos com o uso. Mas as virtudes adquirimo-las tendo sido antes ativos (...). (ARISTÓTELES, 1965. p. 63). A partir de Aristóteles (1965) é possível acrescentar que toda virtude aperfeiçoa a boa conduta do seu agente, bem como torna valiosa e boa a sua obra ou sua ação, por exemplo: é através da virtude dos olhos é que se pode enxergar bem, e é também através da virtude do cavalo que é possível dizer que ele é bom e corre bem. Segundo Steenberghen (1990), os hábitos afetam principalmente as faculdades espirituais: inteligência e vontade. Deste modo, os hábitos que se inclinam ao bem agir são chamados de virtudes, por outro lado, os que se inclinam ao mal agir, vícios. A partir disso vamos encontrar alguns tipos de virtudes. A partir de Steenberghen (1990) é possível dizer que as virtudes intelectuais dispõem da inteligência para o conhecimento daquilo que é verdadeiro. Na inteligência especulativa, estas virtudes são a sabedoria (disposição para contemplar as causas supremas), a ciência (disposição para o conhecimento racional em domínio particular) e a inteligência (disposição para aprender os primeiros princípios). Na inteligência prática, as virtudes são a arte (disposição para o conhecimento prático de um oficio, por exemplo a ciência da arquitectura) e a prudência, rectidão no conhecimento prático do bem agir (recta ratio agibilium). A prudência é uma virtude indispensável à acção moral, visto que dispõe o homem a. 29.
(30) julgar com rectidão quanto ao uso do seu livre arbítrio. (STEENBERGHEN, 1990. p. 142 – grifos do autor). Acompanhando o raciocínio do autor citado, as virtudes no sentido estrito são as chamadas virtudes morais ou cardeais que significam os bons hábitos da vontade. As elencadas quatro principais são a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Albert Plé20 (2015) ensina que a palavra habitus significava uma constituição, um estado do corpo e da alma, uma maneira de ser, uma disposição, uma capacidade da natureza, a qual se enraíza em sua natureza específica e individual finalizada pelo agir. O ente humano que possui habitus é aquele que ao exercê-los, desenvolve suas capacidades naturais para leva-las a sua perfeita realização. São Tomás de Aquino inaugura a questão 49 da primeira seção da segunda parte da Suma de Teologia com um pequeno prólogo declarando que após um estudo sobre os atos e as paixões há de ser fazer um estudo sobre os princípios dos atos humanos. Ele discorre longa e minuciosamente, em primeiro lugar, sobre a definição de hábito que, como visto, vai ser levado à virtude. O Doutor Angélico ensina que a palavra hábito vem do verbo em latim habere que significa haver ou ter. O significado da palavra hábito deriva do verbo citado nos dois sentidos: quando se diz que algo ou alguém possui algo, ou quando se diz que algo ou alguém se tem a si mesmo ou em relação com outro. Para esclarecer um pouco mais, pode-se recorrer a seguinte definição de hábito no âmbito metafísico e psicológico moral que serão pertinentes para o nosso estudo: “HABITUS”. – 1. Metafísica. O ter: para um sujeito o fato de possuir algo de próprio; exemplo: uma vestimenta. O habitus é a décima das categorias distinguidas por Aristóteles. – 2. Psicologia Moral. Aquilo pelo qual um sujeito se encontra bem ou mal disposto em vista de sua forma ou de seu fim. Com a disposição, o habitus constitui a primeira espécie de qualidade. (...). Notar-se-á que o termo hábito que designa mais propriamente o comportamento do ato, e que parece implicar necessariamente automatismo e repetição, tem significação mais especial e mais restrita. (GARDEIL, 2013. p. 529 – grifos do autor). O Doutor Angélico também ensina, na questão 49 a partir de Aristóteles no Segundo Livro da Ética, que é segundo os hábitos que nos comportamos em relação com as paixões, bem ou mal. Quando um hábito está em harmonia com a natureza humana, ele é bom, mas quando está em desarmonia, é mau. É válido dizer ainda que o hábito é a primeira espécie de qualidade21. Em se tratando de qualidade, Tomás de Aquino (2015) cita que Simplício22 ensina que há qualidades naturais que são advindas ao ente por natureza e para sempre, e há aquelas 20. Comentador desta parte desta edição da Suma de Teologia. QUALIDADE. – 1. Acidente modificando intrinsecamente ou dispondo ela mesma a substância. É uma das dez categorias. (GARDEIL, 2013. p. 535). 22 SIMPLÍCIO (500?): Um dos últimos neoplatônicos que chegou a lecionar em Atenas. Dedicou-se a comentar algumas obras de Aristóteles as quais foram utilizadas por São Tomás de Aquino. 21. 30.
Outline
VIRTUDES
DISTINÇÕES ENTRE AS VIRTUDES INTELECTUAIS E MORAIS
AS VIRTUDES MORAIS EM SI
JUSTIÇA DISTRIBUTIVA E COMUTATIVA, MEIO-TERMO E A
PARTES INTEGRANTES E POTENCIAIS DA JUSTIÇA
RELIGIÃO ENQUANTO VIRTUDE E O ATO DE FÉ
O CONCEITO DE RELIGIÃO: OUTRAS PERSPECTIVAS
ATOS DA RELIGIÃO EM SÃO TOMÁS DE AQUINO
HÁ ALGUÉM SEM RELIGIÃO?
POSTULADO ÉTICO
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