CAPÍTULO 2: DE IUSTITIA
2.2 PARTES INTEGRANTES E POTENCIAIS DA JUSTIÇA
Feitas as devidas considerações sobre as espécies da justiça, na questão 79 da segunda seção da segunda parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico discorre sobre as partes consideradas integrantes da justiça. Oliveira (2014) comenta que esta questão visa atingir a noção integral da justiça, especificando algumas atitudes virtuosas que contribuíram para sua realização ou para sua total perfeição de virtude.
São Tomás de Aquino (2014) antes de responder diretamente tal questão cita Santo Agostinho quando diz que à justiça da lei pertence evitar o mal e fazer o bem. Esta citação já é um prenuncio da resposta definitiva que o escolástico expõe logo a seguir onde considerando a justiça enquanto virtude especial, Aquino (2014) traz o bem que se refere à dívida para com o próximo, neste caso pertence à justiça especial fazer o bem devido ao próximo e evitar o mal oposto, isto é, aquilo que o prejudica. Ao passo que à justiça geral compete fazer o bem enquanto é devido à sociedade ou a Deus92 e evitar o mal contrário. Ademais, fazer o bem e
evitar o mal, são partes integrantes da justiça geral em especial devido ao fato de serem requeridas para a perfeição desta virtude. Neste sentido, Aquino (2014) postula que convém à justiça estabelecer a igualdade no que se refere às relações com o outro, mas é à mesma justiça que compete estabelecer algo e mantê-lo assim. Ora, a igualdade da justiça se estabelece fazendo o bem, isto é, dando a outrem o que lhe é devido, e mantém-se essa igualdade evitando o mal, ou seja, não causando ao próximo nenhum dano. Deixar de fazer o mal, para Tomás de
92 Neste tratado sobre a justiça, já vão aparecendo algumas elucidações que vão culminar na virtude anexa à justiça chamada de religião.
Aquino, comporta um movimento da vontade que repudia o mal e pode ser meritória quando alguém é assediado para fazê-lo e resiste, e ainda, fazer o bem é ato completivo da justiça bem como sua parte principal.
Aquino (2014) observa que nas outras virtudes, fazer o bem e evitar o mal se dão se a ação da determinada virtude está ou não conforme a razão, já para a justiça, como o meio termo consiste nos parâmetros da realidade, fazer o bem e evitar o mal, versa sobre as ações exteriores, pois a justiça versa sobre ações e realidades exteriores, nas quais uma coisa é realizar a igualdade e outra, não destruí-la, uma vez estabelecida. (ST II – II q. 79 a. 1).
Já no término do tratado da justiça, na questão 80 desta parte da Suma Teológica, São Tomás de Aquino ensina sobre as partes potenciais da justiça, isto é, o que são consideradas virtudes anexas a ela. Oliveira (2014) aponta que o estudo das virtudes vinculadas à justiça por uma espécie de afinidade, constitui a seção proporcionalmente mais ampla da parte moral da obra do escolástico. A questão 80 se preocupa em expor e legitimar as opções fundamentais e as principais divisões que presidirão ao ordenamento do conjunto que se estenderá da questão 81 até a 120, contudo busca-se contemplar neste estudo, embora se possa citar outras de passagem, somente as abordagens que irão gravitar em torno da virtude anexa chamada de religião.
Oliveira (2014) reconhece que há nesta questão o resultado de um minucioso trabalho efetuado ao longo dos séculos, visando uma definição precisa e uma classificação minuciosa das virtudes que se tentava relacionar às quatro destacadas como cardeais. Segundo o mesmo comentador, o Aquinense retoma os principais frutos dessa paciente reprodução de fontes e autores secundários, mas ele se mantém fiel às grandes tradições e sua rigorosa sistematização em torno das noções fornecidas pela ética aristotélica.
Juntamente com tal confluência de tradições, ensina Oliveira (2014), que deve destacar- se o lugar fundamental que cabe à herança bíblica, especialmente em se tratando da virtude da religião que vem à frente dessa rede de virtudes. Ela fornece inspiração primeira às virtudes chamadas de veneração e de subordinação tais como a piedade, o respeito, a obediência entre outras que emergem nessa visão hierarquizada da sociedade e das relações humanas. Este comentador observa que as obras de Cícero ocupam um lugar de destaque na classificação e nas definições dessas virtudes anexas à justiça, neste sentido, destaca que a síntese tomista permanece fiel a essas orientações anteriores.
Como visto até então, a justiça implica um triplo caráter a partir de São Tomás de Aquino que chama a atenção de Oliveira. Esse triplo caráter consiste em dizer que se dê a outrem aquilo que lhe é devido, de maneira a estabelecer ou restabelecer uma igualdade. É
exatamente sobre este tripé que o Doutor Angélico estabelece o leque de virtudes anexas da justiça ordenando-as em três grupos que realizam de maneira decrescente a noção dessa virtude principal.
Oliveira (2014) observa que na primeira categoria, o outro está de tal modo acima do sujeito virtuoso que este se vê na obrigação estrita de prestar-lhe os deveres mais elevados, entretanto se encontra incapacitado ou impossibilitado de fazê-lo por igual ou até mesmo de maneira equivalente. Este é o caso da virtude da religião (em relação a Deus), da piedade (em relação aos pais e à pátria) de respeito (que se dirige às pessoas constituídas em dignidade), de dulia, isto é, serviço que os servidores prestam a seus senhores, de obediência (devida aos superiores e às autoridades).
Na segunda categoria, elenca Oliveira (2014), é a dívida que não possui o caráter estrito do que é devido a outro. Neste caso, existe uma exigência de honestidade, de bondade moral que vai além das prescrições das leis. Deste modo, cita-se a verdade nas relações sociais, a gratidão ou punição em relação aos benfeitores ou malfeitores.
Enfim, num terceiro grupo, Oliveira (2014) ensina que se encontram as virtudes que regulam as relações com os outros, conferindo-lhes como se fosse um acréscimo de perfeição, um requinte à convivência, do que é agradável, além do que se impõe como dever ou obrigação. Nestes parâmetros, pode-se citar a amizade e liberalidade.
Segundo Aquino (2014) para que as virtudes acima citadas sejam consideradas virtudes anexas, elas devem ter algo em comum com a virtude principal, isto é, a justiça. Também é necessário que lhes falte algo da virtude principal na sua perfeita natureza, por exemplo, como a virtude da justiça é uma virtude que sempre se refere ao outro, todas as virtudes que se referem ao outro poderão ser anexadas a ela. É válido ressaltar, deste modo, que é da essência da justiça dar ao outro o que lhe é devido, entretanto, com observado acima, nem todas as partes potenciais (anexas) o fazem em igualdade. Essa deficiência de alcance da igualdade é observada em relação a virtude da religião, pois aquilo que se dá a Deus é devido, mas é insuficiente porque é impossível retribuir a Deus o tanto que se deve.
(...) acrescenta-se a religião à justiça, que consiste, segundo Cícero, em “apresentar cerimônias e culto à natureza superior designada pelo nome de divina”. – Não se retribui em igualdade, em segundo lugar, aos pais, por tudo deles recebido, como esclarece Aristóteles e, por isso, acrescenta-se a virtude da piedade, pela qual, segundo Cícero: “Aos consanguíneos e benfeitores da pátria se tributa um culto diligente”. – Em terceiro lugar, não se retribui em igualdade à virtude dos outros, conforme diz Aristóteles93. Por isso, acrescenta-se à justiça a veneração pela qual, segundo Cícero: “Aqueles que são superiores por alguma dignidade são cultuados e honrados”. (ST II – II q. 80. Artigo único – grifos do tradutor).
93 Livro VIII da Ética.
Em acréscimo, o Doutor Angélico ensina que a insuficiência quanto ao devido por justiça pode ser considerada segundo o débito legal, isto é, uma dívida prescrita na lei, ou débito moral que é exigido pela honestidade da virtude. Este segundo, segundo Aquino (2014) manifesta-se em dois graus: o primeiro consiste em o devedor mostrar-se ao outro quem de fato é, por palavras ou atos, por isso é acrescida a veracidade à justiça. O segundo grau de manifestação do débito refere-se a quem se deve, enquanto se recompensa o outro por aquilo que fez. Por isso se anexa a gratidão à justiça. Entretanto, em se tratando de recompensar ao outro por um bem que o fez refere-se à gratidão, do contrário, dar algo a alguém por causado alguns males, a gratidão passa a ser punição, portanto temos duas virtudes anexas diferentes. É a partir dos débitos expostos por São Tomás de Aquino, que Oliveira (2014) pontua que esta contraposição entre dívida legal e dívida moral se dá, principalmente pelo fato que esta última não possui caráter de obrigação estrita que exigisse a intervenção ou prescrição da lei para tal.