O ASPECTO DO AUXILIAR Teresa Cristina Wachowicz (UFPR)

16 

Loading....

Loading....

Loading....

Loading....

Loading....

Texto

(1)

O ASPECTO DO AUXILIAR

Teresa Cristina Wachowicz (UFPR)

0. Introdução

As teorias aspectuais costumam concentrar suas análises em verbos plenos, relacionando interpretações lexicais, flexionais e adverbiais em sentenças prototípicas como Manuel correu no

parque, Manuel corria no parque e Manuel corre no parque todos os dias (Verkuyl 1993, 2005,

Rothstein 2004, Delfitto & Bertinetto 2000, Lenci & Bertinetto 2000). O primeiro verbo da perífrase é também tratado como verbo aspectualizador (Verkuyl 1999) em algumas ocorrências como João

começou a trabalhar, João anda trabalhando demais. Mas o que se tem dito sobre o aspecto em

estruturas perifrásticas como Manuel tem corrido/vem correndo/está correndo no parque é que os primeiro verbos são auxiliares aspectuais (Ilari 2000, Mendes 1999, Castilho 2002). E o que significa dizer que um verbo auxiliar é aspectual?

O objetivo deste trabalho é abordar a leitura aspectual em sentenças com perífrases verbais, concentrando a atenção no papel dos verbos auxiliares vir, ter e estar. A hipótese é a de que esses verbos carregam informação aspectual, mas isso, à semelhança dos verbos plenos, depende de léxico e flexão verbal em combinação com o resto da sentença. Os argumentos para defender essa idéia são de natureza histórica, que envolve noções como de gramaticalização e auxiliarização, e de natureza semântica, que envolve interpretação aspectual em variações estruturais. Os auxiliares vir, ter e estar no presente carregam historicamente o traço de duração, homogeneidade e atelicidade (Cardoso e Pereira 2003), dentro da qual podem ser distribuídos eventos denotados pelo verbo principal – contáveis, para a terminação do particípio, e não-contáveis, para a terminação do gerúndio.

Teoricamente, se tomarmos a base reichenbachiana para o sistema temporal, e assumirmos que o aspecto está na relação entre o momento de evento E e o momento de referência R (Johnsohn 1981), e que o momento R só se justifica em tempos perfeitos (Bertinetto 1982), podemos defender que o verbo auxiliar, nas perífrases exemplificadas, abre o intervalo do momento de referência dentro do qual os momentos de evento podem ser distribuídos. Para outras perífrases, outras várias relações se estabelecem.

(2)

1. A história dos auxiliares e o traço de duração

É consenso na literatura a afirmação de que os verbos auxiliares derivam, por processo de gramaticalização, de verbos plenos. Mas não são quaisquer verbos que podem assumir historicamente o comportamento de auxiliar. Há traços semânticos, presentes em todos eles, que permanecem desde a fase lexical até a fase gramatical: o traço de duração e atelicidade. É um fenômeno conhecido como “persistência” (Hooper 1991, apud Squartini 1998), em que algum valor semântico lexical do verbo pleno se mantém durante o processo de gramaticalização.

Tomando, inicialmente, perífrases verbais no presente, com os verbos vir, ter e estar, temos sentenças como (1), que serão objeto principal de análise deste trabalho:

(1) a. Os policiais vêm enfrentando problemas no trânsito. b. Marta tem pagado as contas em dia.

c. A medicina está encontrando vírus diferentes todos os dias.

Mattos-e-Silva 1989, 2001, tratando especificamente de seqüências verbais com ser/haver/ter + particípio, ser/jazer/estar/andar/ir + gerúndio e verbos quaisquer + infinitivo, centradas em ocorrências do português arcaico (entre os séculos XIII, XIV e XV), assume que os auxiliares derivam de um processo de gramaticalização, em que o sentido de verbo pleno vai se perdendo e, combinados com as formas nominais do verbo principal, tornam-se “suporte das marcas de modo/tempo e pessoa/número da seqüência verbal” (Mattos-e-Silva 2001: 62). Nosso intuito neste trabalho é provar justamente que a categoria de aspecto também entra no rol de propriedades do auxiliar. Essa propriedade é lexical e justifica-se pelo fenômeno da ‘persistência’ semântica da gramaticalização.

No caso de sentenças com ter + particípio (1b), o valor aspectual antigo é de ação conclusa, perfectiva. A autora defende que esta forma só se fixa no português como perífrase quando o verbo ter perde sentido de posse e o particípio deixa de ser flexionado em concordância com o objeto direto da sentença1. Nesses casos antigos, o particípio tem função adjetiva:

(2) Aquelas cousas que ten aparelhadas. (3) Os serviços que aviam feitos a seu padre2.

1 Ilari 2002, em revisão da literatura sobre a perífrase, denomina essas perífrases de passado composto.

(3)

No caso de sentenças com estar + gerúndio (1c), o valor aspectual é de ação durativa inconclusa, ou imperfectiva. O verbo, antes pleno (o estar vem do latim stare ‘estar de pé’), perde significado e entra em processo de gramaticalização (4). Há, porém, casos registrados da seqüência já com valor da perífrase (5):

(4) No dia da as morte estando os homens bõõs da cidade onde el era bispo fazendo gram chanto sobre el.

(5) Stat spargendo medelas (‘está espalhando ungüento’)

Com relação a outros verbos das perífrases de gerúndio, a autora justifica a não-continuidade de ocorrências das perífrases com jazer (do latim jacere ‘estar deitado’) e ser (do latim sedere ‘estar sentado’) em razão de eles não terem tido transformação semântica, e conseqüentemente não terem entrado em processo de gramaticalização (*Ele jaz entrando/*Ele senta andando, inaceitáveis como perífrases). Já os verbos ir e andar, tal como o estar, gramaticalizaram-se: Ele vai pensando nisso/Ele anda pensando nisso.

Cardoso e Pereira 2003, centrando-se nas perífrases com ter/haver + particípio, preocupam-se igualmente com a história dessas seqüências, mas alongando a análise para as questões aspectuais, que nos interessam mais diretamente. Segundo as autoras, houve gramaticalização do verbo ter, que: “a) expressa um valor aspectual durativo; b) associa-se a uma classe de instantes construída como não delimitada” (p. 161). Logo, a designação “Pretérito Perfeito Composto” é inadequada, à medida que não há mais perfectividade na maior parte das sentenças contemporâneas, com valor ora iterativo (6) ora cursivo (7) – com verbos estativos -, à exceção de ocorrências como (8), ainda vinculadas à leitura do português antigo:

(6) João tem pintado a casa todos os anos.

(7) Ela tem morado no campo desde a doença do pai. (8) João tem a casa pintada.3

Mas o que nos chama a atenção nos trabalhos de Mattos-e-Silva 2001 e Cardoso e Pereira 2003 são dois pontos. O primeiro diz respeito às propriedades semânticas dos verbos auxiliares. Os exemplos

(4)

de Mattos-e-Silva, em especial os com particípio e gerúndio (já que as com infinitivo apresentam comportamento mais heterogêneo), trazem verbos auxiliares durativos e homogêneos, não denotando lexicalmente telicidade ou pontualidade: ter, haver, ser, estar, jazer, ir e andar, numa perspectiva como a de Bertinetto 2001, que subespecifica as classes aspectuais vendlerianas em traços, são ou estado ou atividade:

Durativo Dinâmico Homogêneo

Estados + - +

Atividades + + +

Achievements - + -

Accomplishments + + -

Tabela 1: Subespecificação em traços das classes vendlerianas, de Bertinetto 20014.

De fato, verbos accomplishments ou achievements não entram em lugar de auxiliar; só ocorrem

em seqüências verbais ditas de predicação secundária (9):

(9) João clica no nosso link pensando em você.

Além disso, os traços das perífrases, de duração e homogeneidade, dependem diretamente do auxiliar. Cardoso e Pereira 2003 assumem diretamente o verbo ter como portador do traço durativo, conforme visto acima. Mas o que comprova isso é o fato de que, mesmo com verbos principais

achievements (10) ou accomplishments (11)5, a sentença responde ao teste dos advérbios em e

por/durante, que verifica duração – já apresentado pelo próprio Vendler 1967:

4 Grosso modo, os traços de Bertinetto podem ser assim conceituados: 1) durativo é a propriedade de um evento que dura no

tempo. Os achievements não são durativos porque são pontuais; 2) dinâmico é a propriedade de um evento que tem agentividade do sujeito (guardadas as ressalvas relativas à nomenclatura de papéis temáticos (Cançado 2005)); homogêneo é a propriedade de um evento que não muda de natureza. Accomplishments e achievements não são homogêneos porque têm telicidade.

5 Estou assumindo que as classes aspectuais e respectivos traços são propriedades do VP (léxico do verbo + complemento),

conforme Rothstein 2004 e inúmeros outros autores que diferenciam aspecto lexical de aspecto gramatical (Lenci & Bertinetto 2000, Verkuyl 2005). Quer dizer, a terminação –do e –ndo, dos verbos principais, dizem respeito à interpretação do aspecto gramatical: perfectivo e imperfectivo.

(5)

(10) a. João tem encontrado/vem encontrando/está encontrando Maria durante todos esses anos. b. João tem clicado/vem clicando/está clicando no nosso site durante dois meses.

(11) a. João tem pintado/vem pintando/está pintando a casa durante todos esses anos.

b. João tem corrido até o parque/vem correndo até o parque/está correndo até o parque por quinze semanas.

O segundo ponto que emergiu das resenhas acima é que a gramaticalização do auxiliar não é nem de longe um processo homogêneo. Para Mendes 1999, o processo de gramaticalização é definido por três considerações centrais: a) ela é um processo diacrônico; b) envolve sobretudo noções de morfologia; c) é unidirecional por natureza. Os verbos apresentam geralmente as seguintes ‘fases’ de gramaticalização: verbo pleno > verbo auxiliar > clítico > afixo > zero. Contrariamente ao modelo de gramaticalização da perda semântica (bleaching), em que o verbo auxiliar, em relação ao verbo pleno do qual ele deriva, apresenta perda de conteúdo semântico, Mendes defende o modelo de implicatura, em que o verbo auxiliar, na mesma relação com o verbo original, apresenta significado derivado de um mecanismo de implicatura, geralmente de um ‘mundo real, físico’ para o ‘mundo do discurso’. Esse caminho desenha uma espécie de ‘cadeia de extensão metafórica’ por que passam, concomitantemente ou não, as expressões em processo de gramaticalização. Nesse sentido, as implicaturas seguem a seguinte seqüência: PESSOA > OBJETO > ESPAÇO > TEMPO > PROCESSO > QUALIDADE (Heine & Hünnemeyer & Claudi 1991, apud Mendes 1999).

Para os nossos exemplos das sentenças em (1), acima, os verbos vir, ter e estar parecem estar cada um num estágio diferente de gramaticalização, embora ocorram casos que mostram estágios diferentes. Se eles sofrem alteração em seu significado no trajeto entre verbo pleno e verbo auxiliar, o verbo vir, inicialmente, parece ser o menos gramaticalizado, pois ainda mantém significado ‘referencial’ de localização espacial, mesmo em algumas sentenças com gerúndio em que se intercalam termos locativos (12). Esse é possivelmente o motivo por que Mattos-e-Silva 1989, 2001 e Cardoso & Pereira 2003 desconsideram perífrases com vir.

(12) Muitas pessoas vêm pra cá tentando abrir postos. (Londrina, PR, VARSUL)6

(6)

O verbo ter, apesar de freqüente e produtivo em perífrase de particípio do PB, ainda ocorre, sem

estranhamentos, em construções resultativas ((8), repetida abaixo em (13)) – menos produtivas. Quer dizer, no processo de gramaticalização, já alterou seu significado outrora referencial, de posse:

(13) João tem a casa pintada.

O verbo estar, por fim, sofreu maiores ‘implicaturas’ semânticas, pois o significado original, de

‘estar parado em pé’ – referencial - já não se verifica, a não ser em algumas sentenças com localizadores espaciais (14):

(14) As crianças estão sempre em volta me pedindo pra contar historinhas. (Curitiba, PR, VARSUL)

Logo, não há como tratar esses verbos só como auxiliares. Em estruturas como (12)-(14), eles estão menos gramaticalizados e, portanto, sem comportamento de auxiliar. Já em sentenças como (1), eles já estão gramaticalizados e exibem forte comportamento de auxiliar.

Mas tanto numa fase quanto na outra, os traços aspectuais se mantêm: duração e homogeneidade. Julgo que a “persistência” desses traços (Hooper 1991, apud Squartini 1998) tem forte evidência empírica para comprovar o valor aspectual das perífrases, bem como forte evidência teórica para comprovar a existência de um momento de referência R para a interpretação temporal-aspectual das sentenças. Estes dois pontos serão tratados nas seções seguintes.

2. A semântica dos auxiliares e as irregularidades temporais e aspectuais

Na seção 1 acima, tratamos exclusivamente dos verbos vir, ter, estar no presente simples e quisemos mostrar que, em estágios diferentes de gramaticalização, esses verbos conservam os traços de duração e homogeneidade (=atelicidade), tendo, portanto, conteúdo aspectual.

As sentenças em (1), repedidas abaixo como (15), ainda mantêm as leituras de duração e homogeneidade, mas têm também interpretação iterativa7:

7 Assumo aqui, seguindo Castilho 2002, que o valor iterativo existe e é aspectual, pertencente à face quantitativa do aspecto,

(7)

(15) a. Os policiais vêm enfrentando problemas no trânsito. b. Marta tem pagado as contas em dia.

c. A medicina está encontrando vírus diferentes todos os dias.

Quer dizer, nessas estruturas, com verbos principais dinâmicos (ver tabela do Bertinetto acima), e com modificações adverbiais de repetição, a leitura resulta iterativa. Em outras estruturas, com verbos não-dinâmicos, sem modificações adverbiais específicas de repetição, a iteratividade pode se neutralizar:

(16) a. Os policiais vêm querendo aumento faz tempo. b. Marta tem morado em Curitiba desde 1990. c. A medicina está evoluindo.

Em outros termos, a iteratividade não é uma propriedade lexical, nem flexional; mas sim um arranjo de combinações entre léxico, flexão, quantificação/modificação argumental e modificação adverbial, que resultam no valor final da sentença (Castilho 2002: 116). No caso de (15), a iteratividade encontra lugar para acontecer na duração e homogeneidade presentes no léxico do auxiliar, bem como na imperfectividade do presente simples.

Como ficam as perífrases em outros tempos verbais? Variando a flexão verbal, variam igualmente as leituras, tanto sob o ponto de vista aspectual quanto temporal e até sob a perspectiva de gramaticalização. No passado imperfeito, o verbo vir e o verbo estar, por conta da flexão, exibem ação conclusa (17 a, c), iterativa ou não, dependendo do léxico do verbo principal. Mas o verbo ter passa a ter implicações temporais: é como se ele desdobrasse o tempo em dois, localizando o evento do principal num momento anterior ao dele (17b):

(17) a. Os policiais vinham enfrentando problemas no trânsito. b. Marta tinha pagado as contas em dia.

c. A medicina estava encontrando vírus diferentes todos os dias.

O caso de (17b) é o que Longo & Campos 2002 chamaram de perífrase temporal, em que o verbo auxiliar tem localização temporal separada do verbo principal, e em que o verbo auxiliar

(8)

temporal, diferentemente dos auxiliares aspectuais (15 a,b,c e 17 a,c), atingiu “grau mais alto no processo de gramaticalização” (p. 456). Esse caso também é tratado diferentemente pela gramática tradicinal, que chama os casos de “tempos compostos”, em detrimento das “locuções verbais”. Mais do que confusão terminológica, a co-existência desses nomes parece ter fundamento – sobretudo histórico. Entre o que se costuma chamar de “locução verbal”, “perífrase verbal” e “tempo composto” parece haver um gradativo e crescente processo de gramaticalização, com implicações temporais diferentes. Voltarei a essa discussão na última seção deste trabalho.

Retornando às variações flexionais dos verbos auxiliares, se estes estiverem no passado perfeito, há novas interpretações. O verbo vir e o verbo estar aceitam essa forma, mas o vir (18a) mantém significado de verbo pleno em ação conclusa e participa de uma estrutura de predicação secundária (Foltran 1999). O estar (18c), por sua vez, já gramaticalizado, só colabora para o valor perfectivo, de ação conclusa da sentença. Por outro lado, o verbo ter fica inaceitável (18b), o que parece evidenciar que dois contextos perfectivos não ocupam o mesmo lugar dentro da sentença:

(18) a. Os policiais vieram enfrentando problemas no trânsito. b. * Marta teve pagado as contas em dia.

c. A medicina esteve encontrando vírus diferentes todos os dias.

O que se procurou mostrar com essas variações temporais do verbo auxiliar – e outras tantas poderiam entrar aqui, caso houvesse mais tempo e espaço – é que essa posição é participante do ‘cálculo’ temporal, e sobretudo aspectual, da sentença. Mais ainda, cada estrutura sentencial, com suas opções lexicais, temporais, quantificacionais, adverbiais, etc, exibe um comportamento complexo próprio, com implicações semânticas e históricas diferentes em relação a outras estruturas.

3. A representação dos auxiliares e a relação R e E

A partir desse ambiente complexo de comportamento dos verbos auxiliares, em que sua funções semânticas dependem de flexões específicas em estágios diferentes de gramaticalização, uma preocupação que deriva imediatamente das observações empíricas diz respeito ao tratamento teórico que daria conta de um número mais abrangente possível de casos numa proposta teórica o mais simples possível.

(9)

Até agora, algumas considerações teóricas foram explicitadas: a) os auxiliares vir, ter e estar no presente carregam traços aspectuais de duração e homogeneidade; b) esses auxiliares abrem um intervalo de tempo dentro do qual se podem escalonar os eventos denotados pelo verbo principal.

Ora, essas duas pistas nos direcionam a perspectivas teóricas aparentemente diferentes, mas não excludentes. A primeira volta-se às representações sintáticas, em que os valores aspectuais lexicais são traços (aktionsart e as subespecificações ±durativo, ± dinâmico e ± homogêneo) do VP (Rothstein 2004, Verkuyl 2005), enquanto os valores aspectuais gramaticais são categorias sintáticas que operam sobre o léxico (±perfectivo). Seguindo aproximadamente a proposta de Beletti 1990 (apud Lenci & Bertinetto 2000), uma representação rudimentar para uma sentença como (19a) seria a estrutura em (19b):

(19a) Marta tem pagado a conta.

IP / \ Marta TP \ T’ / \ PRES AspP \ AuxP / Asp0 Imperf / \ Aux0 AspP Ter [+durativo; / -dinâmico; +homogêneo] \ Asp0 VP [+durativo; +dinâmico; -homogêneo] Perf / \ -do ti V’ / \ V0 Pagar [+durativo; +dinâmico; +homegêneo] as contas [+SQA; +PL]

O VP perfectivo pagado a conta, marcado pela terminação –do, denota um conjunto de eventos que podem ser contados, pois são completos e terminados. Esses eventos encontram o intervalo aberto denotado pelo auxiliar tem, imperfectivo, de denotação temporal presente, dentro do qual eles se distribuem. Assim, a sentença fica com valor aspectual imperfectivo e iterativo (Castilho 2002).

(10)

Outra perspectiva teórica diz respeito à representação do sistema temporal com os momentos de fala F, de evento E e de referência R (Reichenbach 1947). É consenso na literatura que a leitura temporal depende da relação entre o momento de fala e o momento de evento; e o da leitura aspectual depende da relação entre o momento de evento e o momento de referência (Johnsohn 1981).

Muito se discutiu a partir de Reichenbach, mas um trabalho pontual para as nossas conclusões foi o de Bertinetto 1982, segundo o qual o momento de referência só se justifica teoricamente na representação de tempos compostos, e é denotado pelo verbo auxiliar. Em tempos simples, o momento de referência e o de evento coincidem, mas em tempos compostos, não. Adaptando o sistema reichenbachiano para o PB:

(20) Pretérito perfeito – João comprou a casa: E – F,R

Passado mais que perfeito composto – João tinha comprado a casa: E – R – F

Se formos generalizar os pressupostos de Johnsohn 1981 e de Bertinetto 1982, e se formos resgatar nossas intuições da seção 1 e 2, podemos chegar às seguintes conclusões teóricas:

1) O aspecto está na relação E e R.

2) O momento do evento é denotado pelo verbo principal das perífrases. 3) O momento de referência é denotado pelo verbo auxiliar.

4) As perífrases estão em estágios distintos de gramaticalização. Logo, para os casos de (1), com os verbos vir, ter e estar no presente, a relação entre R e E, aspectual, é de sobreposição. Para os casos de (17b), com o verbo ter já em estágio avançado, só com implicações temporais, a relação entre R e E é de anterioridade/posterioridade. Em outros termos, o aspecto deriva de uma relação de inclusão entre R e E; enquanto implicações temporais derivam de uma relação de ordem entre R e E.

A diferença entre ‘Marta tem pagado a conta’ e ‘Marta tinha pagado a conta’, num continuum temporal, fica assim:

(21) Marta tem pagado a conta.

(11)

Marta tinha pagado a conta.

[ ] E •RF t

Numa semântica simplificada de linha temporal, essas representações limitam-se a indicar uma alternativa de distinção para as leituras das perífrases. Nos termos de Longo & Campos 2002, perífrases temporais têm relação de ordem entre E e R, e em perífrases de aspecto essa relação é de inclusão. O aspecto denotado pelos eventos E seria outra questão semântica que envolveria igualmente traço lexical e operação gramatical de flexões perfectivas e imperfectivas. E os inúmeros outros casos de perífrases, locuções e tempos compostos também poderiam receber tratamento nesses moldes.

4. Onde ocorrem as perífrases?

Parece inevitável, em se tratantdo de aspecto, tratar de questões relacionadas ao ambiente contextual e discursivo em que as sentenças estão inseridas, pois “during the past few years linguists have become more and more aware of the inadequateness of a purely sentencial framework in the analysis of tense and aspect phenomena” (Bertinetto 1982: 48).

Durante a pesquisa sobre as perífrases, tanto a de estar + gerúndio, objeto de estudo de doutorado, quanto as de vir + gerúndio e ter + particípio, objeto de projeto de pesquisa sobre a iteratividade8, a preocupação foi a de investigar ambientes em que elas ocorrem. Outros trabalhos centrados em levantamentos estatísticos também trouxeram pontos esclarecedores.

A perífrase estar + gerúndio é bastante produtiva na fala, sobretudo em diálogos informais (Longo & Campos 2002: 460). É a perífrase que tematiza as discussões encaloradas sobre o gerundismo, sobretudo na imprensa escrita. Sua ambigüidade, entre os valores episódico e iterativo (Wachowicz 2003), bem como sua forte mobilidade temporal (passado, presente, futuro), propiciam que ambientes de diálogo resolvam ambigüidades pelo contexto de fala.

Já as perífrases vir + gerúndio e ter + particípio, no presente, tem maior ocorrência em registros formais da escrita, segundo dados ainda em processo de levantamento, feito por bolsista de IC sob minha orientação. É um dado revelador, pois há uma tendência generalizante sobre o uso de perífrases no PB, que defende um crescente emprego de perífrases no português falado. Na esteira do raciocínio das seções anteriores, podemos defender aqui a idéia de que essa tendência depende da perífrase.

8 Projeto intitulado “O léxico, os fenômenos lingüísticos sentenciais e leituras aspectuais do PB”, registrado no banco de

(12)

Quanto mais ambígua, maior o uso na fala, pois o contexto pragmático resolve. Quanto mais estruturalmente comprometida com uma leitura (a iteratividade presente do vir + gerúndio e ter + particípio), maior o uso em contextos formais, pois a estrutura – morfológica, sintática, semântica - resolve.

Mas as perífrases vir + gerúndio e ter + particípio também têm distinções de usos. E isso se verifica por condicionamentos discursivos. Há uma tendência de referência específica associada ao uso de ter + particípio em detrimento de uma referência genérica de vir + gerúndio. As sentenças coletadas do Varsul ilustram isso:

(22) Daí vem vindo outras coisas. (Pato Branco, PR)

(23) Através daquilo que vem... que vem vindo e daí você vai amadurecendo pra você pensar diferente. (Pato Branco, PR)

(24) As pessoas vêm pensando em ter uma vitória. (Londrina, PR)

(25) Ele tem pregado bastante a palavra de deus. (Londrina, PR)

(26) É um grande pistoleiro que aqui tinha por nome de augusto cela e esse por várias vezes tem atacado muito essa região. (Pato Branco, PR)

(27) A faculdade não tem falado muito em teatro. (Irati, PR)

Obviamente, há casos em que essa separação fica questionável, como em Tem chovido bastante, mas parece haver uma orientação de vir + gerúndio para a não-referência, e de ter + particípio para a referência concreta. Além da constatação estrutural nas sentenças de argumentos específicos ((25) a (27)) ou genéricos ((22) a (24)) associados a perífrases com particípio ou com gerúndio, há uma questão mais ampla, sobre gênero textual Qual o tipo de texto subjacente a cada uso?

Bronckart 2003, na base da orientação bakhtiniana de tratamento discursivo de textos orais e escritos, sistematiza uma conceituação de gênero textual associada muito mais a construções sociais do que a ‘formatos’ ou ‘fôrmas’ fixas de tipologia textual, presentes em manuais didáticos de redação. ‘Gênero textual’ é então um produto discursivo social e historicamente motivado, cuja composição, dependente então do contexto, combina dois eixos discursivos (ou tipos de discurso): o NARRAR e o EXPOR. O eixo do NARRAR está associado à elaboração de histórias, narrativas, textos informativos, que predominantemente exibem trechos referenciais, de semântica específica. Bronckart ilustra esse

(13)

fenômeno ao uso de verbos no pretérito perfeito. Já o eixo do EXPOR está associado a textos científicos, opinativos, descritivos, que exibem trechos atemporais, de semântica genérica. Verbos no presente simples ou no pretérito imperfeito são predominantes aqui.

Para a distinção de uso de ter + particípio e vir + gerúndio, há conclusões interessantes a serem tiradas. Nas entrevistas do Varsul, o informante era solicitado a descrever hábitos do lugar em que ele vive: como as pessoas trabalham, como é o movimento econômico, etc. Espera-se, então, que ele construa sua fala inicialmente orientada ao EXPOR, mas trechos do NARRAR surgem naturalmente para a ilustração do que se disse genericamente. Quer dizer, o informante vai do abstrato/genérico para o concreto/específico (e/ou vice-versa), sobretudo para responder à intencionalidade argumentativa – visto que o entrevistador deveria acreditar nele. De uma asserção de que ‘há muita violência nesta região’ para a ilustração de que ‘o pistoleiro augusto cela tem matado muita gente por aqui’, há um fenômeno semântico de requantificação (Ilari 2001: 208) que ilustra o caminho do EXPOR para o NARRAR. E isso baliza minimamente o uso de ter + particípio em detrimento de vir + gerúndio.

Além dos registros de fala do Varsul, dados da imprensa escrita, mais numerosos, também sugerem a distinção:

(28) Lula tem mantido a taxa de juros equilibrada. (Gazeta do Povo, 17/04/2005)

(29) A medicina chinesa vem mostrando que doenças graves podem ser tratadas com erva. (Folha de S. Paulo, 14/04/2005)

Os critérios variacionistas e textuais apresentados acima, sobre o uso das perífrases, mais do que localizar concretamente sentenças de interesse sintático-semântico, podem novamente confirmar um preceito teórico defendido por Bertinetto 1982, segundo o qual o momento de referência “deve ser sempre inferido do contexto sempre que tempos compostos são usados” (p. 70 (tradução minha)). Ora, a perífrase estar + gerúndio no presente é empregada em contextos em que o falante

descreve ações, no eixo do EXPOR, ora para referência de indivíduos concretos (João está

trabalhando), num trecho descritivo ora para referência de indivíduos abstratos ou genéricos (A doença está tomando conta do brasileiro), num trecho expositivo (Marcuschi 2005, Schnewly & Dolz 2004).

Essas orientações discursivas determinam os pontos de referência que se relacionarão com os momentos de evento, delimitando episodicidade vs. iteratividade, dependendo do contexto.

(14)

5. Conclusão.

Se o comportamento aspectual das perífrases e seus auxiliares depende de situações estruturais da sentença – flexão, quantificação, léxico, etc. -, formando um quadro complexo de situações semânticas, em que cada caso é um caso, e se ilustramos minimamente o comportamento de três delas – com vir, ter e estar -, o quadro de descrição de outras tantas perífrases pode ficar igualmente complexo. É um terreno de investigação no mínimo imbricado, mas muito interessante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERTINETTO, Pier Marco. Intrinsic and extrinsic temporal reference. On restricting the notion of ‘reference time’, In: Journal of Italian Linguistics. p. 71-108, 1982.

_____. Il dominio tempo-aspectualle: demarcazioni, intersezioni, contrasti. Torino, Itália: Rosemberg & Séller, 1997.

_____. On a frequent misunderstanding in the temporal-aspectual domain: the ‘perfective-telic confusion. In: CECHETTO, C. et alii. Semantic Interfaces: reference, anaphora and aspect. Stanford: CSLI Publications, 2001.

CARDOSO, Adriana & PEREIRA, Susana. Contributos para o estudo da emergência do tempo composto em português. In Revista da ABRALIN, vol. 2, n. 2, p. 159-181, 2003.

CARPENTER, Bob. Type-logical semantics. Cambridge, Mass: The MIT Press, 1997.

CASTILHO, Ataliba. Introdução ao estudo do aspecto verbal na língua portuguesa. Marília: Alfa, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, 12, 1967.

CASTILHO, Ataliba T. de; MORAES de CASTILHO, Célia Maria. O aspecto verbal no português falado. In: VIII Seminário do Projeto de Gramática do Português Falado. Campos do Jordão. 1994. (mimeo)

DELFITTO, Denis & BERTINETTO, Pier Marco. Word order and quantification over times. In Higginbotham, J.; Pianesi, F.; Varzi, Achille (eds.). Speaking of events. New York, Oxford: Oxford University Press, p.245-287, 2000.

FOLTRAN, Maria José D. Construções de Predicação Secundária do Português do Brasil: aspectos sintáticos e semânticos. São Paulo, 1999. 206 f. Tese (Doutorado em Lingüística) – FFLCH, Universidade de São Paulo.

(15)

ILARI, Rodolfo. Notas para uma semântica do passado composto em português. In: 4o CELSUL. Curitiba/UFPR, 2000. (mimeo)

ILARI, Rodolfo et al.. Considerações sobre a posição dos advérbios. In CASTILHO, A . T. de (Org.).

Gramática do português falado: a ordem. Campinas: Ed. da Unicamp, 1990. v. 1, p. 63-141.

ILARI, Rodolfo; MANTOANELLI, Ivonne. As formas progressivas do português. In: Caderno de

Estudos Lingüísticos. Campinas: IEL, Unicamp, n. 5, p. 27-60, 1983.

JOHNSON, Marion R. 1981). A unified temporal theory of tense and aspect. In: TEDESCHI, P. J.;

ZAENEN, A . (Ed.). Syntax and Semantics. New York: Academic Press, Inc, 1981. v. 14. p.

145-175.

LENCI, Alessandro & BERTINETTO, Pier Marco. Aspect, adverbs and events – habituality vs. Perfectivity. In Higginbotham, J.; Pianesi, F.; Varzi, Achille (eds.). Speaking of events. New York, Oxford: Oxford University Press, p.245-287, 2000.

LONGO, Beatriz de O.; CAMPOS, Odette de S. A auxiliaridade: perífrases de tempo e aspecto no português falado. In: Gramática do português falado: Volume VIII - Novos estudos descritivos. Campinas/SP: Ed da Unicamp, 2002.

MATTOS-e-SILVA, Rosa Virgínia. Estruturas trecentistas: elementos para uma gramática do português arcaico. Lisboa: Imprensa Nacional, 1989.

_____. O português arcaico – morfologia e sintaxe. Série Repensando a língua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2001.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: Dionísio, A.P.; Machado, A.R.; Bezzera, M.A.. Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. 3a. ed. MENDES, Ronald Beline. A gramaticalização de estar + gerúndio no português falado. Campinas,

1999. 110f. Dissertação (Mestrado em Lingüística) - UNICAMP.

PERINI, Mário A.. A gramática gerativa – introdução ao estudo da sintaxe portuguesa. Belo Horizonte: Vigília, 1976.

_____. Sintaxe portuguesa – metodologia e funções. São Paulo: Ática, 1989. REICHENBACH, Hans. Elements of symbolic logic. New York: Macmillan, 1947.

ROTHSTEIN, Susan. Structuring Events: A Study in the Semantics of Lexical Aspects. Oxford: Blackwell Publishing, 2004.

SHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim (et alli.). Gêneros orais e escritos na escola. Trad. Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas-SP: Mercado de Letras, 2004.

(16)

SQUARTINI, Mario. Verbal periphrases in Romance: aspect, actionality and grammaticalization. Berlin; New York: Mouton de Gruyter, 1998.

STOWELL, Tim. The phrase structure of tense. In ZARING, L.; ROORYCK, J. (Ed.). Phrase structure

and the lexicon. Dordrecht: Kluwer, 1994.

_____. What do the present and past tenses means?. In BERTINETTO, P.M.; HIGGINBOTHAM, J.;

Squartini (Ed.). Temporal reference, aspect and actionality: Semantic and syntactic

perspectives. Torino: Rosenberg & Seller, 1995.

VENDLER, Zeno. Linguistics in philosophy. Ithaca (NY): Cornell University Press, 1967.

VERKUYL, H.J.. Aspectual classes and aspectual composition. Linguistics and Philosophy, n. 12, p. 39-94, 1989.

_____. A theory of aspectuality – the interpretation between temporal and atemporal structure. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

_____. Aspectual issues - studies on time and quantity. Stanford: CSLI Publications, 1999.

_____. How (in-)sensitive is tense to aspectual information? In: Hollebrandse, B et alii. Crosslinguistic

Views on Tense. Aspect and Modality - Cahiers Chronos 13. Amsterdam, New York: Rodopi

B.V. p. 145-169, 2005.

WACHOWICZ, Teresa Cristina. Uma semântica de reticulados para plurais e termos de massa. Curitiba, 1997. 113 f. Dissertação (Mestrado em Lingüística) – Pós Graduação em Letras, UFPR.

Imagem

Referências

temas relacionados :