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A prática de Karatê e sua esportivização na cidade de Florianópolis

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Academic year: 2021

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CURSO DE GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA

WILLIAN THOMAS CORDEIRO

A PRÁTICA DE KARATÊ E SUA ESPORTIVIZAÇÃO NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS

FLORIANÓPOLIS 2016

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A PRÁTICA DE KARATÊ E SUA ESPORTIVIZAÇÃO NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS

Trabalho de Conclusão apresentado ao Curso de Graduação em Educação Física, do Centro de Desportos da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura em Educação Física.

Orientador: Prof. Carlos Luiz Cardoso Co-orientador: Prof. Tiago Turnes

Florianópolis 2016

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A PRÁTICA DE KARATÊ E SUA ESPORTIVIZAÇÃO NA CIDADE DE FLORIANÓPOLIS

Trabalho de Conclusão apresentado ao Curso de Graduação em Educação Física, do Centro de Desportos da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura em Educação Física, aprovado com nota ______.

Florianópolis/SC, 30 de Novembro de 2016 ___________________________________________

Prof. Dr. Carlos Luiz Cardoso

Professor Orientador ___________________________________________

Prof. Ms.Tiago Turnes

Professor Co-orientador ___________________________________________

Prof. Dr. Edgard Matiello Júnior

Membro da Banca Examinadora ___________________________________________

Prof. Ms. Maurício Camaroto

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Neste momento único, em que me encaminho ao final desta longa trajetória de formação, vejo-me diante do grande desafio de expressar em poucas palavras o imenso sentimento de gratidão, a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para que este dia fosse possível.

Em primeiro lugar, agradeço a Deus por iluminar meus passos, meus atos, meus pensamentos, toda minha trajetória, mantendo minha fé e dando-me o prazer de desfrutar de tudo que a universidade pode proporcionar.

A minha querida avó, Dona Amélia, que me criou e pode dar-me o prazer de ser considerado como mais um de seus filhos, que me mostrou o verdadeiro sentido da palavra “Amor”, que me influenciou diretamente em tudo o que eu faço, e tudo o que eu sou até hoje.

Aos meus grandes amigos e irmãos, Geovane Santos, Nycolas de Oliveira, Lillian Cardoso e Patrícia Domingos, por me aturarem por todo esse tempo, por me aconselharem, por me manterem focado, por estarem ao meu lado nos momentos dificeis, e simplesmente por estarem sempre alí, ao meu lado, não conseguiria chegar até aqui sem vocês, serei eternamente grato.

Aos meus famíliares, Minha mãe Elizabeth Cardoso, meu pai Anilto Cordeiro, meus irmãos, meus padrinhos, meus primos, meus avós, meus tios. Todos fazem parte do meu alicerce, da minha formação pessoal.

Ao meu grande mestre, Márcio Alexandre, meu professor de Karatê, que me apresentou para esta grande modalidade, que me passou os verdadeiros valores da vida. Assim como gostaria de agradecera todos os meus queridos alunos, com quem aprendo a cada dia, que são a razão de me fazer querer estudar cada vez mais. E a todos os professores da cidade de Florianópolis, que se disponibilizaram a participar da pesquisa.

Aos meus professores do CDS/UFSC, que marcaram minha trajetória, Professor Edgard Matiello Júnior, Professor Francisco Emílio De Medeiros, Professor Mauricio Camaroto e Professor Tiago Turnes, por repassar seus conhecimentos e experiências, levarei seus ensinamentos por toda minha carreira profissional.

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O presente estudo busca elucidar a prática de Karatê e sua esportivização na cidade de Florianópolis. Esta modalidade tem sido apontada como uma importante ferramenta pedagógica a ser utilizada na escola e em projetos sociais. Com este propósito, o mesmo teve como objetivo identificar o número de crianças e adolescentes praticantes de Karatê da cidade de Florianópolis – SC. Assim, pretende-se investigar o número próximo de crianças e adolescentes entre 07 e 17 anos de idade, praticantes do Karatê na cidade, bem como verificar o grau de esportivização destas crianças e adolescentes, descrever os estilos praticados por estes alunos, verificar o número de professores de Karatê na cidade e verificar os efeitos da idade e do tempo de prática na participação em campeonatos de Karatê. Estes objetivos foram obtidos por meio de uma pesquisa empírica e descritiva, de cunho qualitativo. Foram identificados 192 praticantes de Karatê na cidade de Florianópolis com idades entre 7 e 17 anos. Destes, 66 já participaram de campeonatos, o que correspondeu a 34,4%. Foi observada uma correlação fraca entre idade e participação em campeonatos (t= 0,309), e uma correlação forte entre tempo de prática e participação em campeonatos (t= 0,705). A participação em campeonatos foi de 68,6% nos alunos avançados (mais de 2 anos de prática) em relação aos iniciantes). Ainda, notou-se uma queda no número de praticantes a partir dos 14 anos de idade. Com relação ao ensino da modalidade, foram identificados 7 professores atuando em 9 locais, com idade média de 37,4 anos (mínimo 20, máximo 62 anos), tempo como praticante da modalidade de 22,9 anos (mínimo 10, máximo 40 anos) e tempo de prática como professor de 11,1 anos (mínimo 3, máximo 27 anos). Todos foram atletas de nível estadual ou nacional, com prevalência do ensino do estilo Shito-Ryo. Portanto, pode-se concluir que 34,4% das crianças e adolescentes praticantes de Karatê já participaram de competições. Além da idada, o aumento do tempo de treinamento é o principal aspecto para iniciação dos alunos em competições, com uma prevalência de participação em campeonatos de 68,6% quando os alunos passam de 2 anos de treinamento. Futuras pesquisas podem investigar a influência da participação em campeonatos em aspectos relacionados à filosofia do Karatê tradicional em crianças e adolescentes.

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1 INTRODUÇÃO...7 1.1 PROBLEMA DE PESQUISA...8 1.2 OBJETIVOS...9 1.1.1 Objetivo geral...9 1.1.2 Objetivos específicos...9 1.3 JUSTIFICATIVA...10 2 REVISÃO DE LITERATURA...12

2.1 CONTEXTO HISTÓRICO DAS ARTES MARCIAIS...12

2.2 ESPORTIVIZAÇÃO...15

2.3 PROCESSO DE DESESPORTIVIZAÇÃO...16

3 METODOLOGIA DA PESQUISA...22

3.1 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA...22

3.2 COLETA DE DADOS...22

4 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS...24

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES...30

REFERÊNCIAS...31

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1 INTRODUÇÃO

O Karatê é uma arte marcial milenar de origem japonesa, que consiste basicamente no uso de socos, chutes, joelhadas e cotoveladas. Em consequência da proibição do uso de armas, promovida pelo imperador japonês, começou a florescer secretamente na ilha de Okinawa o combate sem armas (BULL, 2014). Surgiu então a palavra escrita Tode (mãos da China), que pode ser lida também como Karate, para denominar essa nova arte marcial. Acredita-se que a prática do Karatê permaneceu em sigilo até o século XIX, tornando-se pública a partir da Era Meiji por meio de Gichin Funakoshi (1868-1957), responsável pelo processo de divulgação e expansão do Karatê no Japão e pelo mundo (BARREIRA; MASSIMI, 2012).

Considerado o pai da modalidade, Gichin Funakoshi foi o responsável pela sistematização do Karatê moderno. Além da implementação de uma série de inovações como a indumentária e um sistema de graduação, o Mestre Funakoshi enfatizava o código de conduta denominado Dojo Kun, que busca a perfeição do caráter. Dessa forma, além do aperfeiçoamento dos aspectos motores, o Karatê promove o crescimento psicosocial, proporcionando um desenvolvimento integral do praticante (BARREIRA; MASSIMI, 2012). Como prova disso, o Karatê tem sido apontado como uma importante ferramenta pedagógica para crianças e adolescentes (CANTANHEDE et al., 2010).

Essa visão (compartilhada por muitos professores) demonstra o quanto ainda encontra-se polêmico o ideal de uma Educação Física escolar que supere a predominância das concepções competitivista e esportivista. Sob essa perspectiva, as aulas são orientadas pela adaptação do esporte de rendimento às condições estruturais da escola, criando o processo de esportivização das atividades e reforçando o "mito da competição" (CORREIA, 2006). Mito que acaba perpetuando uma concepção equivocada de que o aluno precisa aprender a competir para sobreviver às adversidades sociais, políticas e econômicas da vida lutando contra seus pares.

Assim como em outras artes marciais, o Karatê tem sofrido a influência da esportivização, que consiste no processo de transformação de práticas corporais em esporte institucionalizado (SILVEIRA, 2005). Essas tranformações tendem a gerar uma padronização de técnicas e regras por parte das federações em prol da participação em competições de alto rendimento. Em consequência, incentivados pelo espírito de competição, os praticantes podem ser frequentemente expostos a condutas que vão de encontro ao Dojo Kun do Karatê (ORLICK, 1978), que preza principalmente pelo caráter, respeito, esforço, fidelidade e a

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contenção da agressividade. Como um exemplo, estima-se que 6,5 milhões de crianças estão envolvidas com artes marciais nos Estados Unidos, sendo que em algumas regiões a procura pelo Karatê mais que duplicou na última década (AMERICAN SPORT DATA INC, 2004). Além disso, embora muitas crianças pratiquem a modalidade com fins recreacionais, muitas outras avançam para eventos competitivos, o que pode preocupar os pais quanto aos riscos envolvidos com a participação esportiva (ARRIAZA et al., 2015). Entretanto, embora o Karatê seja atualmente praticado em mais de 192 países pelo mundo, com aproximadamente 1 milhão de praticantes no Brasil, não foram encontrados estudos revelando o número de crianças e adolescentes praticantes da modalidade no Brasil, o que não é diferente na cidade de Florianópolis (BARREIRA; MASSIMI, 2002). Ainda, não foram identificados dados referentes à quantidade de crianças e adolescentes envolvidas com o Karatê com fins recreacionais ou competitivos, o que seria de grande importância para o planejamento de políticas públicas envolvendo a modalidade na região.

Enquanto na esportivização os elementos do código esportivo determinam o sentido da pratica corporal (GONZÁLEZ; FENSTERSIFER, 2005), na desesportivização busca-se atenuar a força desse código, procurando modificar algumas de suas características centrais e imprimindo outros sentidos na realização das práticas esportivizadas (LAUTERT et al., 2005). De acordo com Funakoshi (2014), a desesportivização é vista como uma alternativa aos procedimentos rígidos que se evidenciam pela presença dos valores da esportivização nas várias instituições políticas, sociais, econômicas, e culturais, já que permite que se façam questionamentos às regras com condições de modificá-las. Dentro deste contexto, tem-se a intenção de voltar o tema do presente estudo para identificação do número de crianças e adolescentes praticantes de Karatê em clubes, academias, projetos sociais e escolas que ofertam esta arte marcial na cidade de Florianópolis. Pretende-se, mais especificamente, nesta análise das bases de sustentação das propostas pedagógicas, identificar o quão esportivizado está a prática da modalidade, identificando o número de crianças e adolescentes que participam ou não de eventos competitivos.

1.1 PROBLEMA DE PESQUISA

Partindo do pressuposto que há um Karatê tradicional caracterizado desde a sua origem com princípios e valores estabelecidos, pode-se citar o Dojo Kun que contribui na formação moral do praticante. De acordo com a Japan Karate Association (2013, p. 1) o Dojo Kun é:

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É mais conhecido como código de conduta da escola. Foi criado por Sakugawa em1750. Ele é considerado o primeiro mestre de Okinawa de Tode. Sakugawa criou cinco regras simples do código de conduta, que ainda são muito valiosos hoje como eram na época em que ele estabeleceu. Muitas pessoas podem não ver como este conjunto de regras estabelece um código de conduta para um Karate ka, mas uma vez que eles entendem o verdadeiro significado por trás das palavras, eles vão ver o valor do mesmo. A instrução do Dojo Kun tem a natureza de desenvolver o caráter. Estas regras poderão ajudar os alunos a se desenvolver como artistas marciais e seres humanos.

Dentro deste contexto, também há um Karatê que sofreu e passa por um processo de esportivização que culminou por tornar-se um esporte generalizado no mundo inteiro. É possível pensar na possibilidade da sua desesportivização sem problematizar os princípios do esporte por ele incorporado e caracterizado. Por exemplo, pela exacerbação do espírito competitivo, da agressividade que se aproxima da violência, do visível desrespeito aos seus oponentes e adversários, de perceber o outro apenas como oponente a ser batido, valores estes contrários ao Dojo Kun (LOPES; TAVARES, 2008; ROSA, 2012).

Tais princípios têm afastado o Karatê das suas características originais e implicado no fato de que as futuras gerações de praticantes de Karatê podem se tornar refratárias desses princípios e valores originais. Desta breve problematização do tema pode-se colocar a seguinte questão de pesquisa: Qual o número de crianças e adolescentes praticantes de Karatê na cidade de Florianópolis – SC e quão esportivizado está o ensino da modalidade nesta cidade?

1.2 OBJETIVOS

1.1.1 Objetivo geral

 Identificar o número de crianças e adolescentes praticantes de Karatê da cidade de Florianópolis – SC.

1.1.2 Objetivos específicos

 Verificar o grau de esportivização das crianças e adolescentes praticantes de Karatê da cidade de Florianópolis;

 Verificar o número de professores de Karatê na cidade de Florianópolis – SC;  Descrever os estilos de Karatê praticados na cidade de Florianópolis – SC.

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 Verificar os efeitos da idade e do tempo de prática na participação em campeonatos de Karatê;

1.3 JUSTIFICATIVA

Baseado no caráter pedagógico do Karatê, que no seu fundamento tradicional enfatizava o desenvolvimento integral do praticante, a modalidade tem sido apontanda como uma importante ferramenta pedagógica a ser utilizada na escola e em projetos sociais. Dessa forma, a identificação do número de crianças e adolescentes praticantes da modalidade serve como primeiro passo no desenvolvimento de políticas públicas para o desenvolvimento do Karatê na região de Florianópolis – SC. Além disso, a caracterização do grau de esportivização da modalidade fornece valiosas informações para futuras pesquisas que buscam identificar as vantagens ou prejuízos associados ao processo de esportivização do Karatê em crianças e adolescentes.

Na prática deste esporte, tem-se observado uma tendência em valorizar a competição, a cultura pelo corpo, os valores financeiros investidos e as cobranças por resultados. É neste ambiente que estão inseridas as crianças e jovens. Neste ambiente, nota-se a exclusão natural de alunos e a consequente cobrança depositadas nos atletas, o que em alguns casos ocasiona a perda do prazer durante a prática da modalidade. Além disso, a falta de estímulo a outras características tão importantes, tais como a cooperação, solidariedade e companheirismo.

Tendo em vista a concepção equivocada de alguns instrutores de Karatê que enfatizam a perfeição técnica, tem-se observado um mau comportamento e atitudes pobres dos alunos de Karatê que estão aprendendo essa arte apenas como uma técnica para brigas. Dessa forma, justifica-se a necessidade de resgatar os princípios e valores tradicionais do Karatê com vistas ao seu ensino para as crianças numa perspectiva da desesportivização.

Outro fator que desperta o interesse pelo tema em questão surge do conhecimento mais aprofundado por parte do pesquisador da realidade do Karatê na região de Florianópolis - SC, tanto na condição de professor da modalidade como na de atleta. Mais especificamente, a experiência do pesquisador na atuação com crianças. Primeiro, numa instituição particular da região, onde o pesquisador ensinava as primeiras noções básicas do Karatê às crianças. Mais recentemente, após a passagem do pesquisador pela significativa e envolvente experiência de estágio de docência na disciplina de Estágio Supervisionado I numa Creche da Região. Em ambas experiências o contato e o relacionamento com crianças em idade entre

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quatro e cinco anos marcou de modo profundo o pesquisador a ponto de despertar e voltar o interesse profissional e científico para o trabalho com crianças.

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2 REVISÃO DE LITERATURA

Neste capítulo, são apresentadas as bases teóricas que fundamentam a presente pesquisa: uma revisão de literatura na qual abrange o contexto histórico das artes marciais, a esportivização e desesportivização, com destaque ao processo de desesportivização do Karatê. 2.1 CONTEXTO HISTÓRICO DAS ARTES MARCIAIS

Estudos indicam que existem algumas contradições acerca da origem das artes marciais orientais. Nessa linha, Bull (2014, p. 7) relata,

O início destas artes na Índia no século VI d.C.: Um monge budista chamado Bodhidharma, que tinha recebido também treinamento marcial, viajou inicialmente para a China a convite do imperador interessado nessa religião e, posteriormente, acabou levando seus conhecimentos ao templo Shaolin. Esses ensinamentos deram origem ao estilo de luta conhecido como Shaolin Kung Fu, que ajudou os monges a se protegerem dos constantes ataques de bandidos nômades, em conjunto com o ChiKung, que era também usado como treinamento para se atingir a plenitude espiritual, além de ser um método para o desenvolvimento da saúde e da longevidade. A partir daí, outros estilos de artes marciais foram surgindo de acordo com a expansão desses conhecimentos pelo país, fruto de situações históricas, como o Tai Chi Chuan.

Na abordagem a respeito da origem do Karatê, Bull (2014, p. 7) faz o seguinte esclarecimento:

Séculos mais tarde, Okinawa, então parte do território da China, estava, numa época, sobre dominação política chinesa. Lá começou a florescer o combate sem armas por meio da prática secreta, em consequência da proibição, promovida pelo imperador japonês, do uso de armas na região. Surgiu então a palavra escrita Tode (mãos da China), que pode ser lida também como Karatê, para denominar uma nova arte marcial que surgiu.

Funakoshi (2014) argumenta que o Karatê é uma arte marcial de origem japonesa, de Okinawa, embora no passado houvessem tendências em confundi-lo com o boxe chinês pela nomenclatura. Barreira e Massimi (2012, p. 40) afirmam que “sua prática nessa ilha era secreta até o século XIX e tornou-se pública a partir da Era Meiji através de Gichin Funakoshi (1868-1957)”. Os autores esclarecem também que o mestre okinawano introduziu o Karatê no resto do Japão e iniciou seu processo de divulgação e expansão pelo mundo:

As artes marciais japonesas eram acompanhadas de um conjunto de valores considerados virtuosos e o ensino de caratê, que era permeado por moralidade e

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religiosidade bastante intensas até então, tenderia a ater-se mais à técnica no decorrer desse processo de expansão. Gichin Funakoshi considerava essa arte uma forma de aperfeiçoamento da personalidade do praticante. Em sua obra escrita sempre enfatiza a conduta que o carateca deve ter. Foi o primeiro a chamar a arte de karate-do, o "caminho das mãos vazias", ao invés de somente "mãos vazias", dando um caráter doutrinário à arte. Por seu trabalho é considerado o fundador do caratê moderno.

Para auxiliar os praticantes dessa arte, foram criados diversos lemas, conhecidos como Dojo Kun. A Japan Karate Association (2013, p.1) descreve o Dojo Kun como:

O Dojo Kun é mais conhecido como código de conduta da escola. Foi criado por Sakugawa em 1750. Ele é considerado o primeiro mestre de Okinawa de Tode. Sakugawa criou cinco regras simples do código de conduta, que ainda são muito valiosos hoje como eram na época em que ele estabeleceu. Muitas pessoas podem não ver como este conjunto de regras estabelece um código de conduta para um Karateka, mas uma vez que eles entendem o verdadeiro significado por trás das palavras, eles vão ver o valor do mesmo. A instrução do Dojo Kun tem a natureza de desenvolver o caráter. Estas regras poderão ajudar os alunos a se desenvolver como artistas marciais e seres humanos.

Entre os lemas criados pelo Mestre Sakugawa não há uma ordem específica a ser seguida. “O Dojo Kun sempre começa com a palavra Hitotsu, que em japonês significa primeiro, porque todos tem a mesma importância e devem ser praticados igualmente” (ROSA, 2012, p. 16).

Entre os lemas do Dojo Kun estão:

Primeiro. Esforçar-se para a formação do caráter.

Para que se possa entender este princípio é preciso ter disciplina, pois o caráter envolve todos os valores que o indivíduo adquire durante a vida, como: humildade, honestidade, paciência e muitos tantos outros quanto forem possíveis agregar ao espírito do guerreiro. Só é possível atingir esse objetivo com muita disciplina (ROSA, 2012, p. 16).

Primeiro. Fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão.

“Esse preceito requer do praticante o conhecimento da palavra honra. Para tanto deve-se tornar uma pessoa virtuosa que não se desvie do Caminho, que saiba discernir entre o certo e o errado.” (ROSA, 2012, p. 16).

Primeiro. Criar o intuito de esforço.

“É inevitável que o aprendiz desde que se dedique com afinco e possua uma habilidade inata, se transforme em mestre” (HERRIGEL, 1975, p. 82). “Deve-se sempre dar o melhor de si em todas as coisas que se faz dentro do dojo. Pois se o aluno está desmotivado

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significa que ele não está ali por vontade própria. Deve-se ter determinação” (ROSA, 2012, p. 16-17).

Primeiro. Respeitar acima de tudo.

“Desde tempos imemoriais, relação entre mestre e discípulo pertence às relações elementares de vida e ultrapassa muito os limites da matéria que ensina. [...] Os dois dispõem de tempo: o mestre não pressiona, o discípulo não se precipita” (HERRIGEL, 1975, p. 51).

O respeito dentro do dojo aplica-se na relação entre mestre e aluno como cita acima Herrigel (1975). “na relação entre os próprios alunos entre si, no respeito pelos mestres que contribuíram pelo desenvolvimento e continuidade da arte marcial e na relação do indivíduo com o próprio dojo onde se treina” (ROSA, 2012, p. 17).

Primeiro. Conter o espírito de agressão.

Esse princípio nem sempre é compreendido pelos indivíduos praticantes das artes marciais, caso contrário não veríamos lamentáveis cenas de violência dentro e fora dos tatames. Ele possui uma importância no sentido de não deixarmos os sentimentos de raiva e vingança dominarem nossos pensamentos, o que se torna fundamental para manter-se no Caminho. É preciso trabalhar o desapego (ROSA, 2012, p. 17).

No final do século XIX e início do século XX o Karatê ganhou um pouco mais de visibilidade internacional. Conforme afirma Bull (2014, p. 8), o Karatê no Brasil chegou:

[...] com os imigrantes japoneses, em 18 de julho de 1908, quando o navio Kassato-Maru aportou em Santos. A colônia se instalou primeiro no interior de São Paulo, e, durante décadas, professores vindos do Oriente ensinavam a arte da mão vazia aos jovens nipônicos e aos poucos brasileiros que se interessavam.

Nas práticas atuais apresenta-se um Karatê globalizado e praticado em todas as regiões do mundo, as formas de competição desta modalidade podem ser divididas em: Shiai-kumite individual, que é uma luta propriamente dita, entre dois atletas. Shiai-Shiai-kumite por equipe, que serão as mesmas regras de pontuação, porém, cada equipe terá 3 ou 5 atletas para lutarem em uma ordem escolhida por cada equipe ou pelo técnico, a equipe que vencer o maior número de lutas vence, em caso de empate haverá um sorteio para uma nova luta. Kata individual, que é uma determinada sequência de movimentos de uma luta imaginária. Kata por equipe, que serão as mesmas séries de movimentos, porém, em sincronismo entre três atletas de cada equipe (LAUTERT et al., 2005).

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2.2 ESPORTIVIZAÇÃO

Todos os esportes encontrados na atualidade sofreram um processo de reestruturação até que chegassem nas formações atuais. Estas reestruturações se devem à transformação de práticas corporais em “Esporte”. Este processo pode ser chamado de “Esportivização” (SILVEIRA, 2005).

Para entender “Esportivização” primeiramente é necessário entender o “Esporte”, que segundo Barbanti (2003, p. 229):

Uma definição precisa de esporte é impossível devido à grande variedade de significados. Quase tudo que é entendido sob o termo esporte é menos determinado por análises científicas em seus domínios do que pelo uso diário e pelo desenvolvimento histórico e transmitido pelas estruturas sociais, econômicas, políticas e judiciais. Para os sociólogos do esporte uma definição bastante aceita diz: “É uma atividade competitiva, institucionalizada, que envolve esforço físico vigoroso ou o uso de habilidades motoras relativamente complexas, por indivíduos cuja participação é motivada pela combinação de fatores intrínsecos e extrínsecos.” O objetivo no esporte é comparar rendimentos. O critério para comparações do que se realiza necessita da padronização do equipamento e das instalações, assim como da existência de um procedimento quantitativo de comparação. Dentro do escopo da Ciência do Esporte, o esporte é estudado sob vários ângulos, entre eles o da agressão. Pesquisas indicam que há muitos modelos explicativos para as situações específicas do esporte, onde o comportamento agressivo não é apenas típico dos esportistas, mas dos espectadores também. Além da agressão, a motivação também é considerada como relacionada fortemente com o esporte.

Com base nessa definição de esporte, é possível pensar em esportivização como uma transformação de qualquer prática corporal em esporte. Por exemplo: “pular amarelinha”, uma brincadeira tradicional em todo país brasileiro (SILVEIRA, 2005). Para que a “amarelinha” seja transformada em “esporte” é preciso criar um tamanho padrão de seus componentes para realização do jogo (campos, instrumentos), os participantes teriam obrigatoriamente que ter as mesmas condições, com as mesmas regras, com essas regras institucionalizadas por federações, confederações de amarelinha, e, sobretudo, teria muita competitividade entre os indivíduos ou grupos envolvidos. Esta transformação é conhecida como “esportivização” (GONZÁLEZ; FENSTERSIFER, 2005).

No momento em que uma prática corporal torna-se um esporte (de rendimento), automaticamente os indivíduos (atletas) envolvidos neste passam a priorizar o resultado positivo. Técnicos/treinadores, assim, visam o desenvolvimento da técnica de seus movimentos por meio de repetições mecânicas e na maioria das vezes deixando de lado a criatividade e ludicidade, que faz parte da natureza humana e também deveriam ser envolvidas (LAUTERT et al., 2005).

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Sobre o desenvolvimento do esporte, relata Tubino (1988, p. 51):

O esporte de alto rendimento brasileiro foi, tradicionalmente, desenvolvido nos clubes. A situação se alterou na medida em que o esporte de competição foi transformado, simultaneamente, em instrumento político e atividade comercial. A apropriação, pelo Estado, do esporte como fator político simbólico, modificou a relação tradicional que presidia a articulação entre o poder público e as associações esportivas, ligas, federações e confederações.

Pode-se perceber que com a prática do esporte a principal preocupação está em desenvolver a cultura pelo corpo e o resultado positivo, o que pode deixar de lado outras características tão importantes como a cooperação, solidariedade e companheirismo. Como afirma Brotto (1999), na competição, também, apenas um entre os participantes sai como “vencedor”, consequentemente, produzir muito mais “perdedores” do que “vencedores”. 2.3 PROCESSO DE DESESPORTIVIZAÇÃO

A desesportivização deve ser analisada à luz da padronização das práticas corporais. Isso significa que o primeiro objetivo de tornar qualquer atividade um esporte, é colocá-la sob normas e regras padronizadas e subjugadas a federações e confederações, para que sua difusão seja ampla em todo o planeta, deixando o aspecto criativo da expressão corporal num segundo plano (SILVEIRA, 2005).

Por exemplo, nos dias atuais é comum presenciar situações nas quais um atleta de uma determinada modalidade, ao realizar uma jogada criativa, sai do padrão, ser punido com um cartão ou uma advertência por atitude antidesportiva. Isso demonstra o quanto o rigor técnico e a padronização dos movimentos prevalecem sobre a criatividade.

Isso não significa que a criatividade não esteja mais presente nos esportes. Basta lembrar as inúmeras jogadas criadas por jogadores de futsal, ou dos movimentos criativos da ginástica rítmica. Ainda assim, a objetividade é predominante no esporte de rendimento e, portanto, priorizada em detrimento da criatividade.

Com esse olhar, o professor poderá discutir com seus alunos as contradições presentes nesse processo de esportivização das práticas corporais, pois no ensino de Educação Física é preciso compreender o processo pelo qual uma prática corporal é institucionalizada internacionalmente com regras próprias e uma estrutura competitiva e comercial (SILVEIRA, 2005).

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Desse modo, perceber o motivo que leva uma luta como a capoeira a ter roupas próprias, estrutura hierárquica interna (graduação), campeonatos mundiais com regras estabelecidas, federações e confederações próprias, pode ser um, entre vários caminhos, para a análise crítica dos conteúdos estruturantes. Tal olhar pode ser lançado sobre todos os demais conteúdos, percebendo em que condições seus conteúdos específicos tornaram-se esporte institucionalizado e quais os impactos desta transformação (SILVEIRA, 2005). Com relação a isso, descreve Tubino (1988, p. 57):

É de pasmar, contudo, que diretores de colégio e professores de Educação Física, por razões de interesses menores, hoje se concentram afastados da luta pelo esporte escolar enquanto formação e muitas vezes até mesmo resistindo a esta ideia. São tantos anos de ênfase no alto rendimento que acabaram intoxicados pela medalha, pela estrela, pelo primeiro lugar. O esporte escolar, então, continua sendo esporte de alto nível, de minorias, de talentos, dos primeiros lugares.

Há quase três décadas Tubino (1988) já mencionava sobre a transformação e reestruturação do esporte lecionado dentro da escola:

[...] Parece um paradoxo, mas somente a reestruturação do desporto escolar, desligado das obsessões da “sociedade de rendimento” (alta competição, e hierarquismo, elites, etc.) poderá nos levar ao esporte de maior qualidade. No Esporte escolar, antes de se exaltar campeonatos, taças, vitórias, havemos de proporcionar saúde, aptidão, qualidades motoras, possibilidades de comunicação, criatividade, desenvolvimento da personalidade e da cidadania. Também estaremos, todavia, aumentando o numero de competidores e não apenas de competições com os mesmos competidores e não apenas de praticantes (TUBINO, 1988, p. 59).

Orlick (1978, p. 28) há mais de três décadas também fala do conhecimento equivocado sobre a competição:

[...] Geralmente acredita-se que para “vencer” ou “ter sucesso”, é preciso ser um feroz competidor e quebrar as regras. Muitas pessoas parecem achar que para ensinar as crianças a viver e prosperar na sociedade é necessário prepará-las para serem competitivas e tirar vantagens dos outros, antes que os outros o façam.

Outro equívoco está em aceitar que os esportes competitivos são importantes para a redução da violência, com o argumento de que funcionam como um desabafo resultando na “renovação espiritual”. Dentro desse contexto, Orlick (1978, p. 67) esclarece que:

Baseados numa pesquisa ampliada, Gelfland e Hartmann, em 1975 concluíram que, em vez de diminuir o “impulso agressivo”, as brincadeiras competitivas produzem um aumento significativo da agressividade, seja o resultado vitória ou derrota. Eles prosseguem dizendo que a excitação da competição, conjugada aos modelos agressivos freqüentemente exibidos nos torneios atléticos das crianças, pode

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produzir nelas um aumento de reações indesejáveis de agressividade. Simplesmente não há qualquer diminuição das tendências agressivas devido ao envolvimento em uma atividade física competitiva vigorosa. Na realidade, a competição aumenta, ao invés de diminuir, a susceptibilidade à influência da agressividade.

Com relação à desesportivização das artes marciais, Lopes e Tavares (2008) afirmam que os conteúdos abordados pelo professor (mestre) são, em sua maioria, sempre transmitidos como verdades absolutas, limitando os alunos a intermináveis repetições da parte mecânica dos movimentos, ignorando totalmente qualquer singularidade dos alunos.

Face a isto, cabe ressaltar que independente do local onde se pratica determinado esporte, o mais importante é lembrar que os envolvidos são seres humanos. Nessa linha, Freire (1996, p. 33) salienta:

Mulheres e homens, seres histórico-sociais, nos tornamos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper, por tudo isso nos fazemos seres éticos. [...] Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, entre nós, mulheres e homens, é uma transgressão. É por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. Se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando.

É importante também ressaltar que em meio a tantas normas e condutas, que caracterizam o processo de desportivização, está o ser humano, o qual é considerado o principal sujeito desse processo.

Com relação às Artes Marciais orientais é possível afirmar que sofreram ou sofrem transformações decorrentes da esportivização. De acordo com Lautert et al. (2004), as Artes Marciais têm sofrido uma descaracterização, perdendo em sua maioria grande parte de seus verdadeiros significados e valores vindos de sua origem. Mais especificamente ao Karatê:

De fato, acreditamos que seja possível afirmar que o que ocorre hoje é que temos uma prática de karate-Do voltada às competições, isto é, as aulas podem ser corretamente descritas como sessões de treinamento esportivo em busca de um alto-nível de desempenho técnico. Resumem-se, na maioria dos casos e das vezes, em encontros destinados à busca da melhora da condição física, atlética. Deste modo, treinar Karatê-Do restringe-se ao sentido literal da palavra (o treinar), dado que os feitos são sempre visando a próxima competição, o bom desempenho que se deve alcançar nela. Já a outra palavra, Karatê-Do, esta sim é bem mais abrangente. Porém o seu significado amplo, que vai até a construção de valores que enaltecem o ser humano puro, por meio da cultura, tradição e filosofia orientais, só chega aos praticantes de maneira, muitas vezes, informal. Treinamentos rigorosos existiam mesmo quando a filosofia, a tradição e a cultura balizavam o treinamento dos

karatecas, não negamos isto, mas, no entanto, as finalidades de tais

circunstâncias/eventos é que eram outras, pois estavam preenchidas de diferentes significados. Conta-se que tudo o que era feito visava a valores e virtudes humanas, além das atitudes morais. (LAURET et al., 2005, p. 137).

(20)

Breda et al. (2010) apontam que a esportivização das lutas trouxe novos métodos de ensino e de treinamentos, o que vem sendo sempre alterado e reformulado com o processo de espetacularização dos eventos de lutas, grande exemplo disso percebe-se no MMA1que está

em alta na mídia internacional.

Em meio a tantas transformações, mercadorizações, descaracterizações, nos dias atuais, encontra-se poucas academias de Karatê onde ainda se valorizam os fundamentos filosóficos desta arte (LAURET et al., 2015).

A meu ver, priorizar a prática do karatê como um esporte é um grande erro, especialmente quando essa focalização faz o praticante abandonar o desenvolvimento espiritual e moral que Funakoshi tanto enfatizou quando decidiu mudar o nome e o propósito desse caminho marcial, como educador que era trocando-o pelo desejo de vitórias e medalhas. Os praticantes de karatê, assim como os de aikido, judô, kendo entre outras artes marciais, não podem perder a noção de que um Caminho Marcial é, antes de tudo, um estilo de vida, e não significa apenas a aquisição de conhecimento de técnicas de defesa pessoal (BULL, 2012, p. 8).

Portanto, como afirma o grande Mestre Funakoshi (2014), não teria sentido a prática do Karatê distanciando-se de suas filosofias. Sobre isso, relata Bull (2012, p. 9):

Afinal, esse é o grande diferencial das chamadas lutas marciais, que de fato são Caminhos Marciais, dos esportes. Por outro lado, se as artes marciais forem praticadas apenas como esportes, não terão a menor chance de se tornar fontes educadoras abrangentes do povo brasileiro. Afinal, como esporte, certamente, a maioria prefere futebol, basquete etc. do meu ponto de vista, se justifica o esporte nas artes marciais (competições) apenas como forma de atrair praticantes que ainda não se livraram da praga da necessidade de ter de vencer algo para se sentirem felizes e seguros. Há, é claro, o lado positivo da competição, que é – de certa forma – ter uma oportunidade para treinar a capacidade de saber controlar o espírito nas vitórias e nas derrotas, desenvolvendo o chamado “espírito olímpico”, mas jamais se deve fazer disso um jogo competitivo de afirmação do ego. Em uma Olimpíada, vi certa vez artistas marciais brigando por medalhas; isso não tem sentido em termos de Do e indica treinamento errado e visão equivocada do verdadeiro Budo.

Com as definições de Barbanti (2003) sobre esporte de rendimento, vale destacar a parte da agressão, que aparece como uma das características estudadas dentro do esporte, não só vindo dos atletas, como também dos espectadores. Dentro das modalidades esportivas que há um contato físico direto, estas agressões são frequentes e cada vez mais vistas com normalidade. Sobre isso, descreve Orlick (1978, p. 71):

1Vem da expressão em inglês Mixed Martial Arts, significa “artes marciais mistas”, é uma prática que propõe unir todos os estilos de lutas em um só. (MOTTA; BARBOSA, 2013).

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Há tantos casos de espectadores que se tornaram violentos depois de um jogo emocionalmente carregado que perguntamos por que persiste a ideia de que as inclinações agressivas diminuirão com o jogo. Talvez tenham esquecido de dizer a estes torcedores que assistir a esportes altamente competitivos ou agressivos não diminui ou atenua suas tendências agressivas. [...] Descobertas feitas em estudos controlados apóiam a proposição geral de que a observação da agressão nos esportes aumenta a probabilidade de um subsequente comportamento agressivo. A agressão modelada pelos atletas, conjugada a excitação maior que às vezes envolvem as competições esportivas pode ajudar a explicar as brigas e os tumultos que irrompem entre os espectadores. A explosão da violência grupal entre os torcedores pode também ser facilitada pela difusão da responsabilidade. Ninguém realmente acha que a culpa é sua e há pouca probabilidade de ser apanhado.

Diante do exposto, é comum encontrar afirmações errôneas no sentido de que a violência está relacionada às lutas corporais organizadas, tal como o Karatê, sofrendo assim uma forte resistência, principalmente quando praticado por crianças e/ou dentro das escolas.

Contrariando esses equívocos, mestre Funakoshi (2012, p. 23) enfatiza que:

O uso indiscriminado da arte do karatê causa no público uma grande preocupação, e não se pode negar seu perigo potencial. Contudo, seria lamentável que a busca dessa misteriosa arte, da qual pode-se orgulhar-se com legitimidade, fosse evitada simplesmente por ser muito perigosa. A causa da preocupação é em grande parte baseada na concepção equivocada difundida por instrutores de caráter pobre, que impensadamente deram ênfase à técnica em vez de ressaltarem os aspectos espirituais do dô, e no mau comportamento e nas atitudes pobres dos alunos de karatê que estão aprendendo essa arte apenas como uma técnica para brigas. Há casos extremos em que os alunos são realmente encorajados a empregar o karatê em brigas. Advertências como “Você nunca irá desenvolver ou melhorar suas técnicas sem alguma aplicação delas em brigas” ou” Se você não consegue bater desse ou daquele jeito, então talvez seja melhor que você deixe definitivamente o treino do karatê” são verdadeiramente graves para a reputação do karatê-dô. Entretanto, essas falas apenas mostram a falta de noção daqueles que não conhecem nada sobre o karatê-dô. Quando devidamente concebida, ensinada e praticada com o verdadeiro espírito do karatê-dô, essa arte não é apenas a antítese de um perigo eminente, mas de fato é, como poucas, uma arte marcial integralmente nobre (budo). [...] Aquele que treina verdadeiramente nesse dô e realmente compreende o karatê-dô nunca irá facilmente envolver-se em uma briga. Um ataque ou um simples chute pode determinar a vida ou a morte. A devida aplicação do karatê ocorre apenas naquelas raras situações em que se deve derrubar alguém ou ser derrubado por ele. Uma situação dessas é vivenciada por uma pessoa comum possivelmente uma vez na vida; portanto, uma oportunidade para se usar as técnicas do karatê pode ocorrer apenas uma vez na vida.

Contudo, o ensino do Karatê está associado ao contato corporal, chutes, disputas, quedas, atitudes agressivas,

Pode-se enumerar diversos benefícios físicos tais como o aumento da capacidade cardiorrespiratória, ganho de agilidade, força, resistência, velocidade, equilíbrio, benefícios psicomotores como lateralidade, tempo de reação, consciência corporal, benefícios mentais como autoconhecimento, concentração, autodomínio e muitas outras vantagens (ROSA, 2004, p. 9).

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Ainda assim, ele não se resume apenas a técnicas, que também são importantes de serem transmitidas. Para aprender o Karatê os alunos devem ter acesso ao conhecimento que foi historicamente construído, com princípios essenciais na formação do ser humano, como cooperação, solidariedade, o autocontrole emocional e o entendimento da filosofia que geralmente acompanha sua prática, o autorrespeito pelo outro que é imprescindível na prática de qualquer tipo de luta.

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3 METODOLOGIA DA PESQUISA

Do ponto de vista de sua abordagem essa pesquisa caracteriza-se como quantitativa, pois pretende identificar um número próximo de praticantes do Karatê na cidade de Florianópolis. O caráter quantitativo justifica-se pela presença de variáveis que auxiliam na precisão dos resultados, evitando distorções de análise e de interpretação dos mesmos (BARBETTA, 2005). É também classificada como pesquisa empírica porque objetiva-se verificar por meio de levantamento empírico se o Karatê ensinado às crianças e adolescentes está marcado por princípios e valores do fenômeno da esportivização. Conforme afirmam Rocha, Mello e Jacks (2013), a pesquisa empírica tem por objetivo a coleta de dados por meio da vivência do pesquisador e do objeto pesquisado, suas experiências e seu conhecimento sobre o assunto analisado, ajudando a trazer novas percepções à base teórica e a criar novas conclusões sobre o trabalho.

Quanto à abordagem metodológica desta pesquisa do ponto de vista dos objetivos, classifica-se em pesquisa descritiva. A pesquisa descritiva tem por premissa buscar a resolução de problemas, análises e descrições objetivas, em que se tenta elucidar o conhecimento da realidade (GIL, 2010). É descritiva porque pretende observar, registrar, analisar e correlacionar variáveis sem manipulá-las (TRIVINÕS, 2008).

3.1 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA

A pesquisa foi desenvolvida nas academias de Karatê da cidade de Florianópolis – SC. A população da pesquisa foi composta pelas crianças e adolescentes com idade entre 07 e 17 anos praticante da modalidade na cidade.

A amostra foi escolhida, compreendendo os elementos presentes no momento da coleta de dados (BARBETTA, 2005). O período de coletas de dados foi realizado entre os meses de Setembro e Outubro de 2016.

3.2 COLETA DE DADOS

O instrumento utilizado para coleta de dados foi a análise documental e o questionário. Dentre as academias participantes, foram identificados por meio do registro de matrícula o número de alunos inscritos bem como a respectiva idade e tempo de prática. Os alunos foram classificados em duas categorias: Participantes ou Não Participantes de

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campeonatos de Karatê. Além disso, o número de competições também foi registrado. Escolheu-se o questionário por se tratar de um instrumento que alia rapidez e segurança, além de garantir ao sujeito da pesquisa maior liberdade e anonimato. (Gil, 2010).

Por intermédio do questionário (Apêndice A), que foi aplicado aos professores, pretende-se:

a) Identificar a quantidade de crianças e adolescentes com idade entre 07 e 17 anos que praticam a modalidade atualmente;

b) Identificar o tempo de prática dos praticantes da modalidade; c) Verificar quantos campeonatos os alunos participaram por ano;

d) Identificar a quantidade de professores, o estilo ensinado e seus locais de atuação. A análise dos dados foi realizada de forma quantiqualitativa conforme proposto por Minayo (2007). A análise dos dados qualitativos envolveu um processo de ordenação, classificação e análise final dos dados. Para tanto, foi descrito o número de alunos praticantes de Karatê em Florianópolis – SC. O grau de esportivização foi expresso por meio de distribuição de frequência em todos os sujeitos e por faixas etárias. O tempo de prática e a frequência em campeonatos serão apresentados em média ± DP. A distribuição de frequência possibilita a organização dos dados de acordo com as ocorrências dos diferentes resultados observados (BARBETTA; REIS; BORNIA, 2010, p. 53). Foi realizado o coeficiente de correlação de tau de Kendall para verificar a associação entre idade e tempo de prática com a participação em campeonatos.

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4 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Caracterização das crianças e adolescentes praticantes de Karatê:

Foram identificados na cidade de Florianópolis192 praticantes de Karatê na faixa etária de 7 a 17 anos. Destes, 66 alunos já participaram de competições fora das suas academias, o que correspondeu a um total de 34,4%.

Com relação à análise por faixa etária, os dados referentes ao número de crianças, tempo de prática da modalidade e participação em campeonatos estão apresentados na tabela 1. Foi observada uma correlação forte entre tempo de prática e participação em campeonatos (t= 0,705; P< 0,01).

Tabela 1 – Idade e números de alunos de Karatê que competiram

Faixa etária (anos) Nº de alunos Nº de alunos quecompetiram Alunos quecompetiram (%) 7 9 1 16,6 8 13 2 15,3 9 12 2 16,6 10 16 2 12,1 11 18 2 11,1 12 22 4 18,1 13 12 2 16,6 14 20 9 45,0 15 11 4 36,3 16 8 6 75,0 17 3 2 66,6 Total* 192 66 34,3

*A análise por faixa etária foi possível em apenas 144 sujeitos, pois em 48 não foi disponibilizado a idade. Fonte: O autor (2016)

A figura 1 apresenta a relação entre o aumento da idade e a participação em competições. Foi observada uma correlação fraca entre idade e participação em campeonatos (t= 0,309; P< 0,01).

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7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 0 10 20 30 40 50 60 70 80

Faixa etária (anos)

A lu no s qu e co m pe tir am ( % )

Com relação à faixa etária, na Figura 1, pode-se observar um aumento do percentual de alunos acima de 14 anos que já participaram de campeonatos. Um dos fatores que pode ajudar a explicar esse aumento é pela sua associação com as competições mais importantes dentro do estado de Santa Catarina, como Olimpíada Estudantil Catarinense (Olesc) e Joguinhos Abertos de Santa Catarina. Dentro dessa faixa etária, esses são os eventos de maior expressão, diferindo dos outros pela visibilidade nacional e pelo investimento financeiro por parte dos municípios estaduais. Como o Karatê faz parte do cronograma esportivo dessas competições, este fato contribui para o ensino do Karatê voltado para estes eventos.

Juntamente com o aumento do percentual de alunos acima dos 14 anos que já competiram, pode-se observar uma queda brusca no número de alunos praticantes nesta mesma faixa etária. Esse resultado é importante para os professores da modalidade a fim de buscar maneiras de aumentar a adesão dos alunos a partir dessa idade. Muitos fatores podem ser determinantes para estes achados, como índice de alunos que trabalham além de treinar e estudar, falta de apoio financeiro dos órgãos públicos para os atletas, situação econômica dos alunos, entre outros.

Um dos fatores que também poderia ter influência direta nesta estatística é pelo fato que aponta Brotto (1999), em que afirma que a competição proporciona situações que podem ser capazes de eliminar a diversão e a alegria de jogar. O objetivo da competição, segundo o autor, é eliminar os menos capazes e, consequentemente, produzir mais perdedores do que vencedores, pois, apenas um sai vencedor e, os demais, perdedores. Este fato pode ser investigado em estudos futuros mais detalhados.

(27)

níveis: iniciantes, com até 1 ano e 11 meses de tempo de prática; e avançados, com mais de dois anos de prática. Os dados estão apresentados na tabela 2.

Tabela 2 – Tempo de prática e número de alunos de Karatê que já competiram

Nº de alunos Nº de alunos que competiram

Alunos que já competiram

Iniciantes 93 1 1,1%

Avançados 51 35 68,6%

*A análise por tempo de prática foi possível em apenas 144 sujeitos, pois em 48 não foi disponibilizada a idade. Fonte: O autor (2016)

Podemos observar que a correlação entre idade e competição foi sginificativa, mas fraca (t= 0,309), o que indica que esse fator é importante mas não tanto pra participar de campeonatos. Entretanto, na Tabela 2, onde se relaciona o nível de alunos que já competiram, entre alunos iniciante e alunos avançados, pode-se observar a maior diferença de percentuais, chegando a quase 68% de diferença entre eles. Além disso, foi observada correlação forte entre tempo de treinamento e a participação em campeonatos (t= 0,705). Neste sentido, pode-se afirmar que o tempo de prática e a idade são fatores que contribuem para a participação em campeonatos. No entanto, o principal fator que os professores levam em consideração para a participação é o tempo de treinamento, com maioria dos alunos tendendo a competir ao chegar a um determinado nível de treinamento, sendo este o fator principal para a inicialização dos alunos em campeonatos. Sendo assim, os dados apontam que quase 70% dos alunos, depois de certo tempo de prática, são inseridos em competições, afirmando que a modalidade realmente está esportivizada na cidade de Florianópolis.

Em um dos questionários direcionados aos professores, um dos participantes voluntariosamente citou ao final:

De fato acredito que há um divisor de água no Karatê e hoje a modalidade esportiva está muito mais em evidência, fazendo com que as crianças e jovens busquem mais este caminho das competições, deixando de lado ou talvez nunca o conhecendo do karatê tradicional. Precisamos encontrar o equilíbrio entre o Karatê esportivo e tradicional. Um grande desafio para os professores!

Esta afirmação retrata de certa maneira a preocupação de um professor perante a forte esportivização da modalidade atual.

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Foram identificados na cidade de Florianópolis sete professores de Karatê. Os dados referentes à idade, tempo de prática e de ensino de Karatê, nível competitivo quando atleta e estilo do Karatê ensinado pelo professor estão apresentados na tabela. Foram encontrados 9 locais em 8 bairros distintos onde crianças e adolescentes praticavam a modalidade em Florianópolis. Dos 7 professores, dois ministravam aulas em lugares diferentes. Dos 7 professores, cinco já competiram em nível nacional, o que correspondeu a 71,4%. Foi observada uma prevalência do ensino do estilo de Karatê Shito-Ryo, com 57,1% (4 academias), seguido de 28,6% do estilo Shotokan (2 academias) e 14,3% do Wado-Ryo (1 academia).

Tabela 3 – Número de professores, tempo de prática e de ensino de Karatê, nível competitivo quando atleta e estilo do Karatê ensinado

Professores Idade (anos) Tempo de prática da modalidade (anos) Tempo de prática como professor (anos) Nível competitivo Estilo de Karatê que ensina

Professor 1 34 16 13 Estadual Shotokan

Professor 2 42 23 4 Estadual Wado-Ryo

Professor 3 20 10 3 Nacional Shito-Ryo

Professor 4 37 25 5 Nacional Shito-Ryo

Professor 5 22 10 4 Nacional Shito-Ryo

Professor 6 62 40 27 Nacional Shito-Ryo

Professor 7 45 36 22 Nacional Shotokan

Média ± DP 37,4 ± 14,4 22,9 ± 11,9 11,1 ± 9,8 -

-Fonte: O autor (2016)

Na Tabela 3, referente aos dados dos professores da região pesquisada, nota-se variedade entre as idades (20 a 62 anos), os tempos de prática (10 a 40 anos), os tempos de prática como professores (3 a 27 anos) e, consequentemente, o tempo de prática quando começaram a lecionar. Nos níveis competitivos, podemos constatar que todos já competiram e que a maioria chegou até o nível nacional. Os estilos de Karatê encontrados foram variados, com predomínio do estilo Shito-Ryo. Este dado pode ser explicado pelo fato de que três Dojôs (local onde se treina o Karatê) desse estilo fazem parte de uma mesma associação e estão vinculados com um projeto social com o apoio da Secretaria de Esportes da Prefeitura de Florianópolis.

Entende-se que algumas perguntas poderiam ser inclusas dentro do questionário aplicado para que fossem explorados novos resultados, como o nome das academias, a idade

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inicial que os alunos praticantes participaram da primeira competição ou a situação econômica dos alunos. Porém, necessitaria de muito mais tempo devido a pouca disponibilidade de alguns professores para responderam os questionários.

Tendo em vista as realidades das academias e praticantes encontrados na cidade de Florianópolis, um elemento importante que devemos destacar é a grande diferença econômica destas academias de Karatê, percebendo-se uma discrepância nos locais de treino. Algumas academias em bairros nobres e com todas as estruturas necessárias para os mais variados tipos de treinos, assim como os objetos pessoais mais sofisticados dos alunos. Entretanto, também foram encontradas academias pequenas, em bairros de classe mais baixa, onde os alunos em sua maioria não possuíam materiais básicos de treino, e os mesmos revezavam o tatame para poder treinar por não haver espaço o suficiente para todos treinarem juntos. Essas disparidades podem influenciar diretamente nos dados pesquisados, como também em outros fatores não pesquisados, como a motivação e a permanência dos alunos. É possível perceber um descaso por parte dos órgãos públicos com estes espaços em meio a essas situações encontradas. Futuras pesquisas podem investigar o impacto ecônomico no nível de esportivização do Karatê.

Uma ocorrência marcante, e de forte discussão para a modalidade neste ano de 2016, é a confirmação pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) do ingresso do Karatê nos Jogos Olímpicos de 2020, o evento esportivo de maior amplitude na atualidade mundial, que será realizado no Japão. Quais seriam as vantagens e desvantagens dessa entrada nos Jogos Olímpicos?

Um ponto positivo é que com esse ingresso nos Jogos a modalidade passa a adquirir maior visibilidade e, por consequência, poderá ocorrer um aumento significativo no número de praticantes e investimentos nas escolas e projetos sociais, mudando essa realidade encontrada atualmente, e também, consequentemente, aumentando o número de estudos acadêmicos. A partir da presente pesquisa, será possível identificar o avanço da modalidade durante o próximo ciclo olímpico. Por outro lado, com a entrada nos Jogos, devido à grande transmissão na mídia internacional, poderão se perder ainda mais certas características primordiais da modalidade, como no caso a competição de Kata, que preconiza a técnica e não o combate. Se levarmos em consideração que o Kata faz parte da base do Karatê e é extremamente importante para a prática da modalidade, isso se torna uma perda cultural muito grande. Se apenas o Kumite (luta) for disputado nos Jogos, a prática do Kata dentro da própria aula em muitos locais tenderá a perder importância, pois não teria propósitos esportivos.

(30)

Muitos destes atletas marciais de alto rendimento veem sua modalidade apenas como uma profissão. No caso do Karatê, podemos citar três tipos de praticantes: I) praticantes de Karatê, que são todos que a praticam regularmente; II) atletas de Karatê, que são os praticantes que consideram o esporte sua profissão; e III) Karatekas, indicando no termo uma ligação teórica e prática com essa arte. Como relata Bull (2012), quando treinamos Karatê, aos poucos nos tornamos parte dele, bem como ele uma parte de nós. Incorporamos a arte ao nosso dia-a-dia, passando a agir e pensar de acordo com o que aprendemos ali, seja no treinamento de movimentos ou no conjunto de valores. Quando isso se torna internalizado, não apenas em aspectos físicos, mas mentais e espirituais, passamos a nos tornar karatekas, pois o que aprendemos no Dojô já mora dentro de nós como uma parte essencial. Isso pode ser atingido em tempos diferentes para cada um, de acordo com o nível de comprometimento de cada pessoa. Uma pessoa que treina apenas com o propósito de chegar à faixa preta e vencer campeonatos, mas negligencia o estudo da arte que pratica, não passa de um mero “praticante”.

Diante aos resultados obtidos, as dúvidas que permanecem são: Esta esportivização evidenciada realmente influencia nos fundamentos filosóficos do Karatê? Será que reduzir a modalidade a um esporte seria o melhor caminho a se seguir? Esta pesquisa teve como um dos objetivos dar um primeiro passo para que estudos futuros sejam promovidos em busca de respostas para estas perguntas centrais.

Um dos fatores que pode-se evidenciar durante o desenvolvimento desta pesquisa foi a falta de estudos que relatam fatores negativos dentro do esporte, normalmente encontra-se muitos estudos sobre o quão importante o esporte pode ser na vida de um praticante. Isso não pode ser descartado em hipótese alguma, certamente o esporte pode influenciar positivamente em inúmeros aspectos na vida de um praticante, sejam eles físicos, psicológicos ou sociais. Contudo, percebe-se que o esporte de alto rendimento também pode apresentar elementos negativos que deveriam ser mais explorados e abordados cientificamente.

Outros estudos inexistentes que poderiam ser explorados e também indagam a curiosidade seriam, por exemplo: Quais são as influências mediante a queda do número de praticantes após os 16 anos de idade? A relação entre o lazer e a prática da modalidade? Até que ponto o lazer está incluso na prática da modalidade? A inclusão do esporte de alto rendimento teria influência direta no lazer dos praticantes?

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Em conclusão, foram identificados 192 crianças e adolescentes praticantes de Karatê na cidade de Florianópolis. Destes, 34,4% já participaram de campeonatos fora de sua academia. Quando a análise foi realizada levando em consideração o tempo de treinamento, observou-se uma correlação fraca com a idade, e uma correlação forte com o tempo de prática. Desta forma, o tempo de prática parece ser o aspecto principal para iniciação em campeonatos. Foi observado um declínio no número de praticantes ao atingir-se 14 anos, o que deve ser levado em consideração a fim de evitar o abandono da prática da modalidade. Ainda, o presente estudo observou um total de 7 professores de Karatê ensinando a modalidade em 9 lugares diferentes de Florianópolis. Esses resultados possibilitarão a instauração de intervenções visando à expansão da modalidade.

Assim, a presente pesquisa será de suma importância para a continuidade de pesquisas posteriores dentro dessa área. Entende-se que o Karatê, assim como todas as modalidades marciais, passou e ainda passa por um constante período de transformação, novos professores e mestres com novos conhecimentos e estudos sempre terão coisas para acrescentar e enriquecer ou empobrecer a modalidade. Quem realmente é capaz de identificar o que é enriquecedor dentro destas mudanças? Somos karatekas, seres pensantes, que estudamos, vivemos e tentamos repassar conhecimentos da modalidade, e nossos atos, mesmo que pequenos, podem influenciar gerações de praticantes. Por isso cabe a cada um de nós, karatekas, mesmo com estas contínuas mudanças, mantermos a essência do Karatê. Bull (2012) afirma que devemos ser fontes educadoras abrangentes do povo brasileiro. Portanto, os professores, assim como todos os praticantes de Karatê, não podem perder a noção de que um verdadeiro caminho marcial é, antes de tudo, um estilo de vida.

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TUBINO, M. J. G. et al. Repensando o esporte brasileiro.São Paulo: IBRASA, 1988.

(34)

- Nome do professor responsável: - Idade:

- Tempo de prática da modalidade: - Tempo de prática como professor: - Estilo de Karatê que ensina: - Local de ensino:

- Já participou de campeonatos como atleta: ( ) Sim ( ) Não

Caso sim, qual nível: ( ) Regional ( ) Estadual ( ) Nacional ( ) Internacional

Favor listar abaixo os dados dos alunos praticantes com mais de dois meses de prática e idade entre 7 e 17 anos, que já participaram ou não de campeonatos de Karatê:

Referências

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