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Perspectivas outras de dizer a vida

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Academic year: 2021

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Perspectivas outras de dizer a vida

Jorge Otinta1 contingência eu sou eu eu

nasci lá onde a vida dança

eu sou eu sou?

o meu desejo está lá onde o sonho não alcança

sou lápis borracha

às vezes, tocha

sou o sol que se põe; e outra luz se acende em seu lugar

1 Tradutor e ex-professor universitário na Guiné-Bissau. É Mestre em Letras (Estudos

Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa / USP, 2008) e licenciado em Letras: Língua Portuguesa e Tradução: Francês-Português (PUC/SP, 2001).

(2)

eu sou e ponto.

são paulo, julho/ 2000

conversinha céu deu leu e muito rolo rol gol sol

na melhor voz solo luz deu seu fim em metáforas dispersas mor réu sem cor

nas deliciosas conversas das damas da misericórdia

(3)

Revista Crioula – nº 5 – maio de 2009

Caderno de poesias – Jorge Otinta

mora: amor tempo amante calar todavia antes rio correr a corrente ausente

(4)

se podes olhar, vê. se podes ver, repara. (saramago, ensaio sobre a cegueira)

bissau cidade de sons dores e sabores

bissau dos gintons2

tons tambores novidades

de gente de idade perdida gente confundida

urbe

dos apertadinhos namoricos de ruas tortuosas

frias brisas pindjiguytianas3

de noites

quentes e calientes

cidade beleza

de cidadãos de pés descalços pois ainda laços

2 Gintons, kriolo guineense: uma pessoa da elite meio aburguesada (un pétit bourgeoise).

3 Pindjiguity: renomado porto bissauense onde ocorreu em 3 de Agosto de 1959, o massacre-mor que viria a inspirar decisivamente a gloriosa luta de libertação nacional empreendida pelo PAICC (protagonista da nacionalidade guineense).

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Revista Crioula – nº 5 – maio de 2009

Caderno de poesias – Jorge Otinta

os separam da unidade ao progresso

bissau de cenas que atiçam desejos excitam nossos "ps" discursatas políticas e futricas manjuas4 das joanas

mistidas5 das amélias

manxidas6 das camélias cidade de troços e almoços vazios de homens mulheres bissau alfa e ômega

merda que se herda imbecil que se gera do milho bacil7

capital de gente órfão de pensamentos crianças desesperançosas

de um certo destino

4 Manjua, lê-se “mandjua”: irmandade, mas não no sentido religioso, e sim no sentido de convivência de pessoas da mesma faixa etária.

5 Mistida, kriolo guineense: negócio, afazer, desejos, aspirações.

6 Manxida, kriolo guineense: confraternização, ocorre nos festejos fúnebres, conhecidos por toca-choro, em memória do defunto, com comes e bebes. E também pode ser uma grande festa.

7 Milho Bacil: o milho amarelo, com o qual é feito a pamonha; assim é como designamos na Guiné-Bissau.

(6)

coberto de desmandos

cidade sensação

eu te vejo em kussilintra8

te encontro em varela bela e singela

cheia de meiguice de pikil9

filha querida da guiné terra de ilhas exóticas quiçá eróticas

de serenas sereias peixes bús10

- linda

bissau

saudade próxima e distante que corrói a alma

bissau, menina-flor, que embeleza o jardim do meu ser e o torna real a minha quiçá

a tua talvez

a nossa digamos (in) completude.

araruama (rio de janeiro), fevereiro/ 2000.

8 Kussilintra: uma cachoeira da Guiné-Bissau que fica no Leste do país.

9 Pikil: santuário mítico e religioso dos pepéis; é também uma linda praia, fica na região de Biombo, Guiné-Bissau.

10 Peixe-bús: peixe corpulento, encontrado nas águas da Guiné-Bissau, assemelha-se ao corpo de uma mulher.

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Revista Crioula – nº 5 – maio de 2009

Caderno de poesias – Jorge Otinta

beleza & nódoa

de ti, beleza, não gosto. a ti, nódoa, vai o meu gosto porém tu, de mim, não gostas:

costureiro de versos e amante das lagostas.

percursos I. chão uma rota de esperança II. pequenos gestos a infância, a terra em grandes esperas. olho as estrelas nuas.

a terra, a infância perdida navega sem direção

o destino.

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kambansa da noite em dia.

cai a conta gotas a manha infernal. IV. chamo a cada passante de amigo um confidente. e os amigos somem.

mas vem o mais grave não há chão

mais pesada

a areia sobre a esperança.

é o outro lado da história. V. e o ofuscar no céu há anos de fé sonho suspenso porque eu o fiz, a ruína e a queda. Comigo caem as almas desoladas. VI.

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Revista Crioula – nº 5 – maio de 2009

Caderno de poesias – Jorge Otinta

céu uma gota de chão. VII. notas bizarras algazarras davam os pretos. tempos mortos informações veiculadas: fatos, vida, amor, caos: mito.

Referências

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