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Episódio 7 Relacionando e compreendendo os fatos

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Academic year: 2021

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Episódio 7 – Relacionando e compreendendo os fatos

Samuel: Nós estamos aqui com o professor de filosofia Aparecido Gomes Leal e com o fact checker Marco Faustino. Vou começar pelo Marco, tudo bem Marco? Como garantir segurança, consistência, na hora de se informar e compartilhar informações? E aí pensando em credibilidade, profundidade, contextualização, veracidade dos fatos.

Marco: É importante a missão de quem está na posição de verificar uma informação, se ela é procedente ou não, até porque tem aquela frase “cada um tem a sua verdade”;

como o professor mesmo disse: “cada um acredita no que lhe convém”, no que lhe satisfaz, no que dá mais prazer na vida. A principal virtude, então, é a credibilidade. Você precisa ter. Você precisa não apenas desmentir algo. Você precisa ser exemplar. Sabe, você precisa saber, na sua condição, elaborar um bom texto, ter bons argumentos, se cercar de boas opiniões de especialistas realmente daquela área. Porque, hoje em dia, você tem praticamente que convencer uma pessoa que a posição dela está incorreta, digamos assim. E não deveria ser assim. “Olha, eu estou expondo para você que essa informação que você está compartilhando não procede. Se você deseja, ainda assim, compartilhar essa informação, é um problema seu, mas pode haver consequências, não da nossa parte. Nós estamos apenas checando, mas se alguém se sentir incomodado, se alguém se sentir importunado por aquilo, você pode ter problema”.

Aparecido: Existe um salvo-conduto, né. Então, por exemplo, o aluno fala para o professor: “é eu não acredito nisso que você está me dizendo. Prova”. Parece que hoje nós estamos vivendo numa época em que tudo tem que ser provado. Então, mesmo as coisas banais e óbvias a gente tem que provar o tempo todo que aquilo é de verdade.

Então criou-se um problema muito maior do que antes quando você vai discutir alguma coisa e você tem que provar por A mais B que aquilo é verdadeiro e não falso. Porque as pessoas estão esperando sempre que você tenha uma lei natural do conhecimento, que, como disse Aristóteles, “todo homem tende naturalmente ao saber”. Não é verdade. O conhecimento demora um tempo para ser construído. Então eu não tenho chaves para discutir com o aluno se aquilo é verdadeiro ou não, eu estou seguindo o roteiro, uma ementa do curso. É como a questão de o homem ir à Lua. “Ah, eu não acredito, eu não estava lá, eu não vi, eu não fotografei”. Me lembra aquele deputado Juruna, aquele índio, que gravava tudo o que os políticos falavam. Então, será que a gente vai ter que fazer isso, gravar tudo que eu estou vendo para depois dizer: “olha, eu tenho a prova aqui”. Mas a prova nas fake news, as fotos, podem ser manipuladas. Na história recente do mundo, a partir do século XX, muitos sistemas de governo apagaram fotos de pessoas que faziam parte do grupo, do clã que tomou o poder. Então, eu posso manipular o passado. Eu não posso mudar o passado, mas eu posso manipulá-lo.

Marco: Criar uma narrativa em cima do passado. Eu tenho a corrente do que aconteceu,

mas não, eu faço um desvio e conto a minha versão sobre essa história e convenço

pessoas que essa versão da história é a verdadeira. E que a outra que estão contando é

a falsa. E, assim, provas são limitadas, para quando você está tentando provar que algo

é verdade. Então, uma hora você fala assim, por exemplo, meu Deus, igual a foto da

pelúcia. É uma pelúcia. “Tá, mas prova”. Mas é uma pelúcia. Está escrito lá, tem uma

pessoa que fez essa pelúcia. “Tá, mas ainda assim eu não acredito”. Você vai fazer mais

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o quê? Você não tem mais o que fazer. Agora, a mentira não. “Eu não acredito, prova para mim, não, não acredito, então traz aí para mim, só eu vendo, só quando eu tiver um desse na minha mão eu acredito”.

Samuel: E, assim, existem vários tipos de conhecimento: científico, filosófico, mitológico, do senso comum...

Aparecido: E verdadeiro ou não... ou mais verdadeiro ou não. Porque o conhecimento não necessariamente é inabalavelmente verdadeiro. Porque aí você caminha para Sofia, caminha para a sabedoria.

Marco: E caminha também para a censura, porque eu tenho uma verdade, as outras são falsas e só vai prevalecer a minha verdade e eu não quero que ninguém fale mais nada sobre isso.

Aparecido: Então, mas eu tenho várias verdades, várias versões da verdade. Existe uma que é mais verdadeira que a outra. Por isso o termo mais verdadeiro é correto. Então, existe uma verdade mais verdadeira do que as outras. A palavra verdade é uma palavra que tem uma ascensão grega que é Alétheia ou Aletheia, como alguns preferem.

Alétheia ou Aletheia é descortinar algo, você tirar aquilo que está velando, que está tapando a vista. Então você está vendo na sua realidade total. Só que a palavra realidade é aquilo que é e não aquilo que eu quero que seja. Então, a verdade se esconde de nós e o ditado grego é que a verdade gosta de se esconder. E se a verdade gosta de se esconder, é muito difícil você checar as fake news. Porque quem cria e é muito habilidoso na criação da fake news consegue fazer com que você não perceba, obviamente, claramente, então você tem que pesquisar; e esse esmiuçar da notícia é complicado. Eu sou apanhado todos os dias no Facebook, por exemplo, com aquele enxame de notícias que as pessoas pedem; e eu vejo gente muito boa, como o Marco falou agora há pouco, que vai dizendo que sim, vai dando ali como ok, ok, ok... mas ele não leu a notícia, ele não percebeu a gravidade do que está sendo dito.

Marco: Tem gente, Aparecido, que compartilha informações, notícias de 2017 como se fosse algo recente e as pessoas compartilham essa notícia de 2017 sem prestar atenção na data. Quer dizer, “olha, o governo tal fez isso”. Mas espera, é 2017, não agora. Olha o absurdo que chegou. As pessoas já têm a clara noção de que o título funciona como arma de manipulação. Então elas já não ligam mais, não estão preocupadas mais com a data, “isso vamos jogar, porque eu sei que isso aqui vai ser compartilhado”.

Samuel: Diante dessa realidade, com tanta informação que chega, e vivendo esse momento, que está muito forte a questão das fake news, existe uma maneira, e seria esse o caminho, de a gente manter uma autonomia intelectual, de a gente pensar por nós mesmos?

Aparecido: Se existisse um remédio ele seria muito caro, ele estaria sendo vendido na praça...

Marco: Esse remédio caro, o custo dele ainda é a educação.

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Aparecido: Então, é o que eu ia falar. Educar a pessoa para ela não cair no joguete de outras pessoas é muito complicado. Porque você tem que começar a educação de casa.

As pessoas saem de casa, por exemplo, para você ter uma ideia bem cruel, as pessoas mandam os filhos para a escola como se fosse um depósito de crianças, onde elas estarão guardadas e não que elas vão estudar. Quando tem férias, por exemplo, não pense que os alunos estão morrendo de amores e querendo, com saudade obsessiva, voltar para a sala de aula. Não, eles querem voltar para o convívio com os amigos. Então o nosso ledo engano é acreditar naquilo que aparentemente é óbvio, naquilo que aparentemente parece verdadeiro. Então, as pessoas, por exemplo, uma pessoa bela no mercado de trabalho, já foi confirmado isso, ela tem mais chance de entrar no mercado de trabalho passando pela seleção rapidamente do que uma pessoa não tão bonita, ou como dizem no Nordeste: “desabonitada”. Então uma pessoa “desabonitada” não tem cacife, quer dizer, ela não tem credibilidade. Então a notícia falsa pode ser bela. Ela pode ser muito bela e convincente, e te agradar, e te massagear porque você está esperando aquilo. Então você vai compartilhar aquilo que você pensa, que é o caso da política.

Então eu torço para que tal político esteja melhor na fita; então tudo o que disser contra ele é fake, tudo que disser beneficamente sobre ele é verdadeiro. Então eu não vou checar porque eu já tenho indelevelmente lá dentro de mim mesmo a ideia de que ele estará sempre certo. Então, como a gente sabe, filosoficamente, nada é absolutamente certo, porque eu não tenho condições de fazer essa checagem ad infinitum; eu posso checar até um certo momento, mas outro vem lá e manipula novamente e transmuta aquilo e vai para outro lugar.

Marco: É, eu acho que, nesse sentido, o importante é que a checagem de fatos nunca pertença a uma pessoa. Como se tivesse um ministério da verdade. Isso foi até citado recentemente...

Aparecido: É 1984, o livro de George Orwell.

Marco: É muito perigoso que alguém tenha o controle da verdade. Eu acho que a checagem tem que ser plural. Você não gostou da minha checagem, você tem outras agências que vão checar de outras formas, com outros profissionais, que possuem outros tipos de conhecimento e talvez cheguem ou não na mesma conclusão.

Geralmente, a gente chega. Em 99,9% dos casos nós temos coesão com outras agências porque também chegamos no mesmo denominador comum. Então, nós temos uma confiabilidade, de várias agências independentes chegarem no mesmo ponto, quer dizer, chegarem à mesma conclusão. Nós temos uma confiança nesse trabalho. Agora, a partir do momento que uma fala: “não, isso aqui é verdadeiro”, alguma coisa a gente fez de errado. Então vamos ver o que a gente fez de errado ou o que a outra agência fez de errado. Mas é importante ter essa pluralidade, né. Ficar concentrado termina em tragédia.

Aparecido: A análise de qualquer objeto de conhecimento deve ser muito verificada em

todos os ângulos. Por exemplo, quando o avião surgiu, o aparelho avião, sobrevoando

os céus, ele surgiu como uma ideia benéfica maravilhosa, mas ele foi usado na guerra

para lançar bombas, então ele foi condenado por conta disso. A ideia da ficção do

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átomo, que é para fazer uma bomba atômica, é uma ideia fabulosa da humanidade que ganhou o absurdo de avanço por conta disso. Mas ela construiu a bomba de Hiroshima que matou gente de Hiroshima e Nagasaki. Então, o aluno precisa perceber nitidamente que ele não pode se deixar subjugar por não saber e não buscar a verdade. Então, na sala de aula, o primeiro tira-teima é o professor. O segundo é a biblioteca que ele tem, a biblioteca virtual, a biblioteca física...

Marco: É ouvir mais e falar menos, né?

Aparecido: Ele deve procurar. Copiar e colar é o hábito do aluno moderno que anda por manada. Então, se ele vai fazer uma pesquisa, a primeira coisa que ele faz quando vai encontrando excertos de texto, aqui e ali, é ir copiando e colando e, assim, vai construindo um Frankenstein que não tem sentido. Aí quando o professor verifica isso e lhe cobra, como acontece comigo, o aluno fala: “ai, você foi impiedoso, me penalizou, porque eu não sabia”. Não sabia não, você tinha condições de jogar.

Marco: O que recai novamente na questão da ingenuidade, que também tem tanta culpa quanto.

Aparecido: Exatamente. Porque eu não consultei o site, eu não verifiquei se ele era verdadeiro, não verifiquei se aquela informação, aquele recorte daquela informação, cabia naquele texto que eu estou construindo. E o fato de eu copiar e colar me dá a garantia de que eu não sou o autor, eu sou simplesmente o copiador.

Marco: E simplesmente o aluno confia naquela informação sem nem ter verificado.

Aparecido: Porque está na internet.

Samuel: Bom, gente, a gente termina por aqui, então, o nosso podcast sobre fake news, várias questões levantadas, um bate-papo bem legal, muito conteúdo. Eu agradeço muito a contribuição de vocês.

Marco: Imagina, Samuel, eu que agradeço o convite. Eu convido a todos a acessarem também o nosso site, o www.e-farsas.com, para conferir diariamente. Às vezes, a gente pula um dia ou outro, porque é muito trabalho, verificação não é uma coisa tão rápida.

Algumas vezes são assim: algum ministro disse alguma coisa, não, não disse, ponto-final e acaba ali. Mas outras vezes dá um trabalho, tem um contexto histórico, então você tem que analisar aquele contexto. Mas é muito legal. Dá satisfação, no final do dia você fala: eu fiz um bom trabalho. Eu fiz pessoas entenderem, se eu consegui me fazer entender, então, já é um grande avanço ultimamente.

Samuel: E o professor também, obrigado pelas reflexões, pelas contribuições.

Aparecido: Eu acho que é um tema que não se extingue em um bate-papo. Inclusive até

porque seria interessante que as pessoas fizessem questões, de fora para dentro, e

trouxessem essas questões para o bate-papo. Por exemplo, um podcast poderia ser

montado através de questões que os alunos têm e trazer para nós. Afinal de contas, o

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que a gente faz aqui é um debate e o debate não quer dizer que as minhas idiossincrasias, as minhas verdades, sejam iguais às suas ou do mediador. Então, é necessário sempre fazer esse debate. Eu sou favorável ao debate e debate quer dizer debater ideias, debater conceitos, e não seguir a manada. Muito obrigado pela oportunidade.

Samuel: Obrigado vocês e fica o meu agradecimento também a você estudante que nos

acompanhou nesse podcast. Um abraço e bons estudos!

Referências

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