Lugares imaginários em cartão-postais
I.Marques
(a),
(a) Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil. [email protected]
Resumo
Experimentação com as imagens dos cartões-postais como forma de conhecer-pensar os sentidos espaciais da cidade de Americana, São Paulo, Brasil. Os alunos ao rasurarem os postais expressam a força imagética do olhar para o espaço urbano, descobrindo outras perspectivas dos lugares, permitindo elaborar outros sentidos. As fotografias, os recortes e as criações arrastaram novos sentidos para o lugar-Americana, compelindo a re-existir outro por, sob, através das fotografias.
Palavras chave: lugar, cartões-postais, experimentação, rasuras.
Figura 1 – Colônia 1 – Luz. Acervo Pessoal, 2013.
Durante a experimentação com as imagens dos cartões-postais com alunos do 6º ano vivenciamos e tivemos a oportunidade de “despregar as fotografias do real que as aprisiona, fazendo-as – e a eles –
delirar em proliferações ainda impensadas” (Oliviera; Soares, 2012, p.21) mobilizando pensamentos acerca do espaço onde vivem, na cidade de Americana.
A leitura dos livros de Boris Kossoy nos permite uma ampla visão do uso dos postais. Descreve como os cartões foram aceitos e assimilados pelos meios de comunicação como expressão de verdade. Os cartões-postais surgiram na virada do século XIX para o XX e foram uma inovação, uma revolução cultural. Um mundo acessível e portátil. Permitiam conhecer lugares e viajar sem sair de casa. Facilmente distribuídos, consumidos, adquiridos e transformados em objetos de desejo para a população. Foram usados de maneira artística, comercial, científica e promocional. Essas são algumas das proposições lançadas por Kossoy em seus livros. A fácil aceitação surge pelo forte apelo da crença de que são “espelhos fiéis dos fatos” (
Kossoy
, 2009, p.22). Alguns historiadores e pesquisadores usam as imagens como reconstituição histórica tentando desvendar o passado. O uso da imagem dá às pessoas “a posse imaginária do passado irreal” (Sontag,
2004, p.19)..
Figura 2 – Colônia 4 – Velar. Acervo Pessoal, 2013.
Nos postais estavam a fotografia como “ideia de real”. Um real que “indiciavam” um lugar conhecido pelos alunos em suas experiências espaciais: a cidade onde moram. Mergulhamos no clichê para fugir pelas bordas dos postais. Tentativas em arte com diferentes materiais disponibilizados como: linhas, agulhas, papéis coloridos, papéis transparentes, tesouras, colas, mas eles não foram suficientes. De repente, os alunos solicitaram outros para a brincadeira-criação, a cola glitter. As imagens encontraram outras maneiras de representar o lugar, forçando as fotos a serem meros “índices do real” como os alunos viam – iluminada e brilhante – como a iluminação da avenida principal da cidade. Ao forçar, representam o que ainda não estava visível na foto. A imagem – linguagem fotográfica – foi atravessada por algo que
antes não era fotografia e se viu arrastada a outros possíveis modos de se relacionarem com o o que ainda não estava visível na foto, com o espaço de Americana e com os corpos dos alunos. Delas proliferaram “[...] devires minoritários que não aspiram imitar nada, modelar nada, mas interromper o que está dado e propiciar novos inícios”
(Kohan,
2007, p.97).Os alunos criaram outros mundos e outras formas de evidenciar suas intensidades/resistências como ação acerca do espaço (
Massey, 2008
). As imagens das Figura 1, Figura 2, Figura 3 e Figura 4 são alguns dos postais brincantes, intensos e poeticamente deslizantes agrupados em colônias.
Figura 3 – Colônia 2 – Brilho. Acervo Pessoal, 2013.
As experimentações de uns iam contaminando as dos outros. As derivações da imagem durante a experimentação aproximaram a arte e a cultura e as construções/ desconstruções deslocaram múltiplas conversas e pensamentos acerca do lugar onde vivem. Deixaram de ser reféns e passaram a ser multiplicadores de pensamentos. A presença dos pares, colegas, deslocou as ideias. Cria-ação em geografias: o espaço a partir das relações e na intensidade da vida.
Ao olharmos a produção dos alunos percebemos o quanto foram infectados pelos materiais e pelas imagens que iam sendo criadas. Estas invadiram os postais e as conexões outras surgiram. Hospedeiros de pensamentos feitos vírus ao qual se ligavam, desligavam e proliferavam em colônias. Aqui apresento
agrupamentos que chamo de Colônias, apesar de serem possíveis outros agrupamentos – Colônia de imagens.
Colônia1 – Luz: o vírus luz perfurando os postais com agulhas permitindo a entrada da luz natural (Figura 1 ). Colônia 2 – Brilho: o vírus brilho contaminado pela cola gliter, capturando a ideia do exagero na iluminação da avenida da própria cidade (Figura 3). Colônia 3 – Linhas: o vírus linha permitindo o trânsito de pessoas e carros por novos caminhos entre as palmeiras, prédios, céu e rios. Colônia 4 – Velar: o vírus velando e escondendo, encobrindo ou propondo transformações – uma cidade aventura com arborismo e outras múltiplas variações (Figura 2). Colônia 5 – Transformações: o vírus propondo variações em prédios e plantas sempre tão iguais. Colônia 6 – Contaminação: o vírus de outros materiais e pensamentos. Colônia 7 – Histórias contadas e re-inventadas pelos personagens criados: gigantes que escorregava e destruía tudo, dinossauros invadindo a cidade, alienígenas dominando tudo que transformaram a cidade em cenário (Figura 4). E outras diferentes colônias poderão surgir ao revisitarmos os postais.
Figura 4 – Colônia 7 – Histórias. Acervo Pessoal, 2013.
Repetindo as palavras de Sontag (2004, p.164), questionada sobre fotografia e arte: “mais importante do que a questão de ser ou não a fotografia uma arte é o fato de que ela anuncia (e cria) ambições novas para a arte”. Elo entre vida e arte característica da arte contemporânea.
Na experimentação disponibilizamos materiais e uma abertura para que as imagens ajam
(Wunder
, 2008, p.95) como um “pulular linhas criadoras” (Deleuze; Guatarri
, 1995, p.85). O convite foi aceito e algo diferente brotou entre as mãos hábeis dos alunos.As fotografias deixam de ser superfícies
lisas, observáveis a distância.
São levadas a terem verso, substratos, camadas subjacentes à imagem onde vivem outras possibilidades para as fotos – para o espaço fotografado: outras cores, formas, tempos, materiais, personagens, movimentos, luzes...Exigem do corpo outras maneiras de se relacionarem com as fotografias. Não mais só apuro dos olhos, mas também o uso das mãos, do tato, do gosto de deslocar os personagens por sobre a cidade, de brincar com as linhas que se cruzam, de pegar o cartão-postal e colocá-lo na direção contrária à luz para que a igreja ou o céu se iluminem. As fotografias, os recortes e as criações arrastaram novos sentidos para o lugar-Americana, compelindo a re-existir outro por, sob, através das fotografias.
A experimentação é parte dos estudos de meu mestrado, que seguiu por águas criativas, fabulantes e por geografias, experimentações e arte como forma de movimento/pensamentos para perceber melhor o mundo à nossa volta.
Bibliografia
Deleuze, G.; Guatarri, F. (1995). Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34. Kossoy, B. (2009). Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial.
Massey, D. (2008). Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Oliveira Junior, W. M.; Soares, E. S. (2012). Fotografias didáticas e geografia escolar entre evidências e fabulações. Revista Percursos (Florianópolis. Online), 13, 114-133.
Sontag, S. (2004). Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras.
Wunder, A. (2006). Fotografias como exercício de olhar. 29ª Reunião Anual da ANPEd – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Minas Gerais, Caxambú: Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp.