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UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física

Daniel Alvarez Pires

Validação do Questionário de Burnout para Atletas

SÃO PAULO-SP

2006

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UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação Física

Daniel Alvarez Pires

Validação do Questionário de Burnout para Atletas

Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Educação Física da Universidade São Judas Tadeu como requisito à obtenção do título de Mestre em Educação Física

Área de Concentração: Bases

Biopsicossociais do Esporte.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Regina

Ferreira Brandão.

SÃO PAULO-SP

2006

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796.01 Pires, Daniel Alvarez, 1980

-P667v Validação do Questionário de Burnout para Atletas / Daniel Alvarez Pires. – São Paulo: USJT, 2006. 88p : il.

Dissertação (mestrado) – Universidade São Judas Tadeu – SP, 2006.

1.Estafa Profissional. 2.Psicometria. 3.Psicologia. I. Título.

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AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, agradeço a Deus Pai Todo-Poderoso, que me deu fé para conseguir sobreviver frente às dificuldades da vida nova em São Paulo, e me fortaleceu nos momentos de dúvidas e angústias.

Aos meus pais, Geraldo e Concitinha, que me ensinaram princípios de amor, disciplina e caráter, além de terem me incentivado e apoiado em todas as decisões de minha vida.

Ao meu irmão Hugo, que deixou a nossa família mais divertida, animada e unida, chegando doze anos depois de mim.

À minha Vó Concita, companheira inseparável, mesmo à distância, que sempre batalhou para que meus sonhos se tornassem realidades.

À Professora Regina Brandão, que acreditou, à primeira vista, no meu potencial, e me apresentou à Psicologia do Esporte, abrindo-me as portas das experiências acadêmicas.

Ao Professor Afonso Machado, que me ensinou a olhar pro meu interior, a perceber que só posso mudar a realidade a partir de minha própria transformação.

À Professora Cláudia Borim, pela consultoria fundamental no conteúdo estatístico desse trabalho.

Aos amigos do Cativeiro e, mais tarde, do Recanto dos Estudantes (Demilto, Lucinar e Arestides). Juntos, formamos uma equipe coesa, que superou todo tipo de obstáculo na busca de um objetivo comum: tornarmo-nos mestres em Educação Física.

A todos os alunos, professores e funcionários da Coordenadoria de Pós-Graduação da Universidade São Judas Tadeu, pelos imensos auxílios prestados.

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SUMÁRIO LISTA DE QUADROS...7 LISTA DE TABELAS...8 LISTA DE FIGURA...9 RESUMO...10 ABSTRACT...11 1. INTRODUÇÃO...12 1.1. Definição do Problema... 12 1.2. Objetivos... 14 1.2.1. Objetivo Geral... 14 1.2.2. Objetivos Específicos... 14 1.3. Justificativa... 14 2. REVISÃO DE LITERATURA...16 2.1. Burnout... 16 2.1.1. Caracterização do Fenômeno... 16

2.1.2. Percurso Histórico: dos Primeiros Estudos aos Estudos Contemporâneos... 18

2.1.3. Instrumentos de Mensuração... 21

2.2. Burnout no Esporte... 25

2.2.1. Percurso Histórico... 25

2.2.2. Estresse, Overtraining e Burnout: Semelhanças e Diferenças... 26

2.2.3. Modelos Teóricos... 29

2.2.4. Dimensões (Subescalas) de Burnout no Esporte... 35

2.2.5. Burnout em Professores de Educação Física... 37

2.2.6. Burnout em Diretores Esportivos de Escolas... 38

2.2.7. Burnout em Árbitros... 39

2.2.8. Burnout em Treinadores... 39

2.2.9. Burnout em Atletas... 41

2.2.10. Causas e Conseqüências do Burnout em Atletas... 42

2.2.11. Burnout e Motivação... 43

2.2.12. Prevenção e Controle... 45

2.2.13. Instrumentos de Mensuração no Esporte... 49

3. MATERIAIS E MÉTODOS...51

3.1. Amostra... 52

3.2. Instrumento... 55

(6)

3.4. Análise Estatística... 58

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO...64

4.1. Resultados quanto ao Burnout e aos Estados de Humor... 64

4.2. Validade de Construto do Instrumento... 66

4.3. Validade Concorrente do Instrumento... 71

4.3.1. Burnout Total... 71

4.3.2. Exaustão Física e Emocional... 73

4.3.3. Reduzido Senso de Realização Esportiva... 75

4.3.4. Desvalorização Esportiva... 77

4.4. Análise de Conteúdo... 80

4.5. Análise da Consistência Interna... 84

5. CONCLUSÃO...85 REFERÊNCIAS...87 ANEXOS...92 ANEXO 1... 93 ANEXO 2... 94 ANEXO 3... 95

(7)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1: Instrumentos de medida de burnout e seus respectivos autores. Fonte: GARCÉS

DE LOS FAYOS (1999)...24

Quadro 2: Etapas de prevenção e recuperação da síndrome de burnout em atletas (Fonte:

TAYLOR, 1991)...46

Quadro 3: Características dos seis estados de humor avaliados pelo teste POMS (adaptado de

BRANDÃO, 1999)...60

Quadro 4: Categorias da análise de conteúdo, definições e exemplos de palavras que as

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Distribuição de freqüência de atletas por modalidade esportiva e gênero....54

Tabela 2: Média e desvio padrão, em anos, da idade, idade de iniciação no esporte em que

pratica e tempo como atleta federado(a) ou profissional...54

Tabela 3: Média e desvio padrão do burnout total e das subescalas de burnout....64

Tabela 4: Média e desvio padrão do índice de saúde mental atual (POMS total) e dos 6

estados de humor...65

Tabela 5: Total de variância explicado....66

Tabela 6: Rotação Varimax da matriz dos componentes do QBA....68

Tabela 7: Classificação dos itens em relação às subescalas de burnout a partir da rotação

Varimax para os instrumentos QBA e ABQ (EFE= exaustão física e emocional; RSR= reduzido senso de realização; e DES= desvalorização esportiva)...69

Tabela 8: Correlações de Pearson das dimensões da síndrome e do burnout total com o

POMS total e seus seis estados de humor...71

Tabela 9: Correlação de Pearson do burnout total (BT) com o valor total do POMS e com os

seis estados de humor...72

Tabela 10: Correlação de Pearson da subescala exaustão física e emocional (EFE) com o

valor total do POMS e com os seis estados de humor...73

Tabela 11: Correlação de Pearson da subescala reduzido senso de realização esportiva (RSR)

com o valor total do POMS e com os seis estados de humor...75

Tabela 12: Correlação de Pearson da subescala desvalorização esportiva (DES) com o valor

total do POMS e com os seis estados de humor...77

Tabela 13: Média, desvio padrão e análise estatística entre os grupos “sim” e “não” quanto à

incidência de burnout...81

Tabela 14: Média, desvio padrão e análise estatística entre os grupos “sim” e “não” quanto à

incidência da subescala exaustão física e emocional...82

Tabela 15: Média, desvio padrão e análise estatística entre os grupos “sim” e “não” quanto à

incidência da subescala reduzido senso de realização esportiva...82

Tabela 16: Média, desvio padrão e análise estatística entre os grupos “sim” e “não” quanto à

incidência da subescala desvalorização esportiva...83

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LISTA DE FIGURA

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RESUMO

A síndrome de burnout pode ser definida como uma reação ao estresse crônico. No meio esportivo, todos os profissionais envolvidos tornam-se passíveis de serem acometidos por esse fenômeno e, em especial, os atletas, que se constituem em indivíduos com elevado potencial de incidência de burnout, devido ao fato de receberem críticas e cobranças mais diretas em relação à sua performance, bem como pela intensidade e freqüência dos treinamentos e competições. No entanto, são raros no Brasil os estudos sobre os instrumentos de identificação e mensuração dessa síndrome em esportistas. Assim sendo, o objetivo principal dessa pesquisa consistiu em validar um questionário de burnout em atletas para a língua portuguesa. Para tanto, foram realizados os seguintes passos metodológicos: tradução para a língua portuguesa do “Athlete Burnout Questionnaire” (ABQ), através do método de “Back Translation”, originando o Questionário de Burnout para Atletas (QBA); projeto-piloto; validação do QBA, através dos métodos de validade de construto (análise fatorial), validade concorrente (teste POMS) e análise de conteúdo com a formação de categorias a priori (3 palavras) e, por último, verificação da confiabilidade (α de Cronbach). Os resultados encontrados confirmaram tanto a validade de construto (o instrumento representa com exatidão o conceito de interesse) quanto a confiabilidade (o instrumento mede efetivamente o que se propõe a medir) do QBA. De acordo com o objetivo da validação concorrente, que consistia em validar um instrumento (o QBA) a partir da correlação com outro instrumento reconhecido na literatura científica (POMS), pode-se concluir que o QBA se encontra validado estatisticamente. Ao longo da análise de conteúdo, as palavras escritas pelos atletas foram classificadas por 3 juízes doutores. Conforme essa classificação, as mesmas poderiam ser enquadradas como pertencentes ou não ao burnout total e suas subescalas. Os resultados da análise de conteúdo demonstraram que os atletas que citaram palavras relacionadas ao burnout total ou à determinada dimensão de burnout obtiveram escores significativamente mais elevados para tais variáveis quando comparados com aqueles que não verbalizaram algo a respeito da síndrome ou de suas subescalas. Os achados dessa investigação permitem concluir que o QBA é considerado um instrumento adequado para a identificação e mensuração da síndrome de burnout em atletas brasileiros de alto rendimento.

(11)

ABSTRACT

The burnout syndrome can be defined as a reaction to chronic stress. In the sport’s environment, all the professionals involved are vulnerable to be reached by this phenomenon and, specially, the athletes constitute themselves in individuals with high probability of burnout occurrence, due to the fact that they receive more direct criticism and charging about their performance, as well as by the training’s and competition’s intensity and frequency. However, the syndrome identification and measurement instrument studies are fairly rare in Brazil. Therefore, this study aimed to validate a burnout questionnaire for athletes of Portuguese language. Four methodologically steps were followed: Back Translation of the Athlete Burnout Questionnaire (ABQ) to the Portuguese language, what led to the “Questionário de Burnout para Atletas” (QBA); pilot project; QBA’s validation, through construct validation (factor analysis), competitor validation (POMS test) and content analysis (3 words); and, finally, the QBA’s reliability. The data found confirmed both the QBA’s construct validity (the instrument represents exactly the interest concept) and reliability (the instrument measures effectively what it purposes to measure). According to the aim of the competitor validation, which consisted to validate an instrument (QBA) through the correlation with another known instrument in the scientific literature (POMS), we can conclude that QBA is statistically validated. About the content analysis, the words written by the athletes were classified by 3 Doctors. According to this classification, these words could be chosen as pertaining or not to the burnout syndrome and its subscales. The content analysis results showed that athletes who wrote words related to the burnout and its subscales had scored significantly higher in these variables when compared with those who didn’t write anything about the syndrome and its dimensions. The findings of this investigation let us conclude that QBA is considered an appropriate instrument for the burnout syndrome identification and measurement in high level Brazilian athletes.

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1. INTRODUÇÃO

1.1. Definição do Problema

A partir de minha vivência como professor e pesquisador na natação, entrei em contato com todos os fatores do treinamento relacionados à performance: físico, técnico, tático e psicológico. Sobre o último fator mencionado, foi possível perceber, entre os nadadores, a relevância do controle emocional para enfrentar situações características do esporte, como a solidão das piscinas, a cobrança de pais e treinadores, além da escassez de momentos de lazer e contato com a família, contrastantes com o excesso de horas de treinos, viagens e competições.

O nadador, portanto, acaba vivenciando, com muita intensidade, emoções e sentimentos tais como ansiedade e estresse. No entanto, quando essas emoções se tornam crônicas, o atleta pode experienciar uma síndrome denominada de síndrome de burnout, implicando em prejuízos tanto de ordem física quanto psicossocial.

Nos Estados Unidos, o burnout já se constituiu em objeto de estudo de diversas pesquisas e publicações científicas. Esses estudos objetivaram desde a elaboração de modelos teóricos sobre a síndrome até a aplicação e análise de dados de questionários de mensuração da mesma, passando pela relação do burnout com outras variáveis físicas e psicossociais.

Devido aos raros estudos nacionais sobre o tema, é provável que quantidades significativas de nadadores e demais esportistas estejam sendo vitimados por essa síndrome, sem que suas comissões técnicas percebam as manifestações, causas e conseqüências da mesma.

No terceiro ano de minha graduação em Educação Física, desenvolvi um trabalho de iniciação científica abordando as manifestações de burnout em nadadores pertencentes à

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categoria júnior (17 a 19 anos) na cidade de Belém-PA (PIRES, 2003). Os resultados encontrados nesse estudo mostraram relevantes sintomas físicos e psicossociais relacionados à síndrome, bem como um elevado percentual de atletas afirmando que cogitavam abandonar o esporte, fenômeno conhecido como “dropout”1. Esses dados são interessantes devido ao fato de convergirem com a literatura quanto à identificação do dropout como uma das prováveis conseqüências do burnout.

Uma das principais barreiras para o melhor entendimento sobre o burnout está representada pela carência de instrumentos de mensuração da síndrome no meio esportivo. Os questionários, geralmente utilizados pelos cientistas esportivos, são advindos de estudos que abordavam o burnout em outras profissões, em especial as profissões de ajuda. Isso significa uma certa ausência de especificidade nessas pesquisas, pois se sabe hoje que a Psicologia do Esporte possui uma realidade bastante particular, necessitando, portanto, de instrumentos que reflitam o contexto único do esporte, aumentando-se, assim, a validade ecológica2 dos mesmos (LIDOR, 1998).

A falta de um instrumento válido para a língua portuguesa inviabiliza a realização de pesquisas e publicações científicas nacionais, dificultando o entendimento e a conscientização sobre a síndrome por profissionais esportivos.

Diante do exposto acima, essa dissertação de mestrado tem os seguintes objetivos:

1 Abandono esportivo em virtude da ausência de prazer, recompensas estáveis ou reduzidas, custos elevados,

pouca satisfação, incremento de alternativas e baixo investimento em relação à carreira atlética (SCHMIDT e STEIN, 1991).

2 A “visão ecológica dos questionários torna possível analisar os indivíduos em seu mundo real e dá a devida

atenção à importância da relação e inter-relação entre o ambiente e as competências psicológicas das pessoas que dele participam” (BRANDÃO, 2000, p. 06).

(14)

1.2. Objetivos

1.2.1. Objetivo Geral

- Validar um questionário para a língua portuguesa de identificação e mensuração da síndrome de burnout em atletas.

1.2.2. Objetivos Específicos

- Traduzir o Athlete Burnout Questionnaire (ABQ) para a língua portuguesa, originando o Questionário de Burnout para Atletas (QBA);

- Aferir o QBA, através de estudo-piloto;

- Verificar a validade (de construto, concorrente e de conteúdo) e a confiabilidade da nova versão do instrumento.

1.3. Justificativa

A pesquisa em questão justifica-se pela relevância, do ponto de vista científico, da existência de um questionário validado para a língua portuguesa para a identificação de burnout em atletas. A partir da utilização desse instrumento, uma pluralidade de estudos poderão ser desenvolvidos, a saber: detecção da síndrome em atletas, comparações de ocorrências da mesma entre duas ou mais modalidades esportivas, comparação entre atletas pertencentes a diferentes faixas etárias e, finalmente, abordagens cross-culturais acerca das manifestações de burnout.

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Essa dissertação poderá se constituir como uma fonte de consulta para os treinadores esportivos no sentido de detecção, prevenção e tratamento do burnout em atletas. A aplicação desse questionário poderá resultar, ainda, em um melhor entendimento sobre a síndrome em esportistas de um modo específico e sobre a Psicologia do Esporte de um modo geral. Pretende-se, então, gerar reflexões quanto às cargas físicas e psicológicas empregadas nos atletas de alto rendimento na atualidade, contribuindo para a melhoria biopsicossocial dos esportistas, característica determinante para a otimização da performance.

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2. REVISÃO DE LITERATURA

Para um melhor entendimento sobre o fenônemo conhecido como síndrome de burnout, a presente revisão de literatura estará dividida em duas sessões principais. A primeira consistirá na caracterização do fenômeno, no descobrimento da síndrome, seus primeiros estudos, estudos contemporâneos e instrumentos de mensuração na área da Psicologia Organizacional. A segunda sessão focalizará a síndrome de burnout no contexto esportivo, seu percurso histórico, a diferenciação entre estresse, overtraining e burnout, os principais modelos teóricos que explicam a síndrome, as suas dimensões, as manifestações nos diversos profissionais da área da Educação Física e Esportes, especialmente em atletas, causas e conseqüências de sua ocorrência em atletas, os instrumentos de mensuração e, finalmente, a prevenção e o controle da mesma.

2.1. Burnout

2.1.1. Caracterização do Fenômeno

O termo burnout consiste de uma conjunção entre “burn” e “out”, ambas palavras da língua inglesa, onde a primeira significa “arder”, “queimar”, enquanto a segunda se refere a “fora”, “para fora” (MICHAELIS, 1989). Portanto, o significado literal para burnout em português é “queimar para fora”. Porém, sua tradução é expressa com mais clareza pela palavra esgotamento. No entanto, devido ao fato de o burnout ter se firmado como um termo internacionalmente reconhecido na literatura científica, optou-se pela manutenção da nomenclatura original.

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O primeiro autor a descrever e conceituar a síndrome de burnout foi Freudenberger, em 1974 (GARCÍA UCHA, 2000; SOUZA e SILVA, 2002). Esse pesquisador definiu burnout como um estado de fadiga e exaustão, ou perda de energia física e mental, resultante de aspirações exageradas em alcançar objetivos não realistas traçados pelo indivíduo ou pelos valores da sociedade (FEJGIN, TALMOR e ERLICH, 2005).

Uma outra hipótese para a descoberta e denominação desse fenômeno surgiu de uma história interessante. De acordo com CHIMINAZZO e MONTAGNER (2004), Christina Maslach, uma psicóloga social, estava desenvolvendo, em um período não informado pelos autores, estudos sobre as relações de trabalho existentes entre os profissionais da área médica e seus pacientes, especialmente sobre as questões de comprometimento afetivo e humanitário em relação às pessoas enfermas. Ao expor seu objeto de estudo para um advogado, o mesmo relatou que os juristas que trabalhavam em processos envolvendo pessoas das camadas sociais menos favorecidas também sofriam a mesma realidade dos médicos, e chamavam tal processo de “esgotamento”. A partir daquele momento, “Christina Maslach não só descobriu que a situação que ela estava estudando tinha um nome como também acontecia em outras áreas do conhecimento” (CHIMINAZZO e MONTAGNER, 2004).

De acordo com as abordagens históricas do burnout, foram Christina Maslach e Susan Jackson que, ainda no final da década de 70 e início dos anos 80, elaboraram tanto um modelo teórico quanto um inventário para a mensuração da síndrome (SOUZA e SILVA, 2002).

MASLACH e JACKSON (1981) definiram burnout como uma síndrome psicológica de exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização profissional que pode ocorrer em indivíduos que se envolvem com pessoas dependentes, de algum modo, de sua ação profissional.

De acordo com essa definição, o burnout é uma síndrome, ou seja, um conjunto de sintomas, e está fundamentado em três dimensões: a exaustão emocional (caracterizada por

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sentimentos de extrema fadiga); a despersonalização (representada por atitudes e sentimentos negativos com respeito aos clientes, sendo ilustrada por um comportamento impessoal, de desligamento e descuido em relação aos mesmos); e, finalmente, a reduzida satisfação profissional (reflete avaliações negativas sobre si mesmo, particularmente com referência à habilidade de obter sucesso no trabalho com clientes) (RAEDEKE, 1997).

Em outras palavras, o burnout é causado por desejos e expectativas frustradas, sentimentos de controle inadequado do próprio trabalho e sentimentos de perda do sentido da vida. Dentre as principais conseqüências da síndrome, encontra-se a perda progressiva de idealismo, que está associada a um fraco desempenho no trabalho e ao comprometimento da saúde, incluindo-se o aparecimento de dores de cabeça, hipertensão, ansiedade e depressão. Alguns autores relatam que, em última instância, o burnout pode levar ao alcoolismo, uso de drogas e deterioração de relacionamentos familiares e sociais (DE MEIS, VELLOSO, LANNES, CARMO e DE MEIS, 2003).

2.1.2. Percurso Histórico: dos Primeiros Estudos aos Estudos Contemporâneos

Inicialmente, o burnout foi diagnosticado em indivíduos pertencentes às chamadas profissões de ajuda (“helping professions”). Advogados, professores, assistentes sociais, dentistas, enfermeiros e médicos são exemplos desse tipo de profissões, que se caracterizam por constantes relações interpessoais, bem como pela necessidade do profissional em proporcionar melhorias de ordem biológica, psicológica, social, intelectual e/ou financeira em seu cliente/paciente/aluno.

Na década de 80, RUSSEL, ALTMAIER e VAN VELZEN (1987) já indicavam que o magistério se constituía em uma profissão repleta de agentes estressores, como problemas disciplinares, apatia dos alunos, classes superlotadas e salários inadequados. O burnout, então,

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tende a aparecer como resultado desses aspectos estressantes da profissão, expresso em sintomas físicos (úlceras e dores de cabeça), psicológicos (raiva e depressão) e comportamentais (queda de rendimento profissional e absenteísmo) (CUNNINGHAM, 1982, citado por RUSSEL, ALTMAIER e VAN VELZEN, 1987).

Os estudos mais recentes acerca da síndrome de burnout mantêm seu foco nas profissões de ajuda. Assim sendo, os profissionais da área de saúde, de modo particular, constituem-se no grupo de indivíduos mais analisados em relação ao burnout sob o olhar da ciência psicológica.

Como se observou ao longo do levantamento de registros literários, a preocupação com o burnout no ambiente organizacional atinge proporções globalizadas. Na região de Guadalajara (México), MARTÍNEZ (1997) buscou traçar um perfil de risco para a incidência da síndrome entre os profissionais pertencentes a centros de atenção primária e especializada de saúde. De acordo com as variáveis abordadas, o perfil de risco epidemiológico obtido foi o seguinte: sexo feminino; idade acima de 44 anos; ausência de cônjuge estável; mais de 19 anos de profissão e mais de 11 anos no referido local de trabalho; lotação em serviço especializado com mais de 21 pacientes sob sua responsabilidade; mais de 70% da carga horária diária dedicada a esses pacientes e, por último, jornada semanal de 36 a 40 horas.

No Brasil, SOUZA e SILVA (2002) elaboraram um estudo a respeito do burnout em profissionais de saúde, porém relacionando-o com fatores de personalidade e de organização no trabalho. Nesse estudo, concluiu-se que o padrão de personalidade tipo A (estilo de vida caracterizado, entre outros fatores, por extremo senso de urgência, raiva, irritação, ambição e agressividade) mostrou-se um preditor significativo do burnout total, bem como de suas dimensões exaustão emocional e despersonalização. As variáveis traço de ansiedade (preocupação referente à determinada situação específica) e suporte de chefia (percepção do sujeito quanto à orientação recebida para a realização das suas tarefas) também se

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apresentaram preditores significativos do burnout, exaustão emocional e despersonalização. Esses achados estão em concordância com o estudo do cientista espanhol GARCÉS DE LOS FAYOS (1999), que propõe a classificação das variáveis preditoras de burnout em três grupos: as advindas do contexto organizacional, as intrapessoais e as ambientais. O autor menciona a personalidade tipo A como uma das variáveis intrapessoais preditoras de burnout. Em relação à ansiedade traço e ao suporte de chefia, o autor considera como preditoras da síndrome algumas variáveis organizacionais semelhantes a essas, tais como: falta de apoio organizacional, sobrecarga no trabalho e a não adaptação do indivíduo ao perfil profissional e pessoal do posto de trabalho, caracterizado pelo autor como uma inadaptação profissional. Em termos de variáveis do contexto ambiental, podem ser citadas, entre outras, o fator cultural, os problemas familiares e as atitudes negativas de parentes e amigos.

A exaustão emocional, uma das dimensões de burnout mencionadas anteriormente, foi pesquisada de modo isolado em relação à percepção de suporte organizacional e às estratégias de “coping”3 no trabalho de TAMAYO e TRÓCCOLI (2002). O “coping” pode ser considerado um recurso de defesa psicológica do indivíduo frente aos variados agentes estressores. Os fatores gestão de desempenho, sobrecarga, suporte social, ascensão e salários (relacionados ao suporte organizacional), bem como o escape (relacionado ao “coping”) revelaram-se preditores significativos da exaustão emocional. Um diferencial importante dessa pesquisa em comparação às demais aqui abordadas diz respeito à amostra, constituída de profissionais pertencentes aos setores bancário, de pesquisa e de serviços, descentralizando-se, assim, o foco nos profissionais de saúde.

Ao avaliarem pesquisadores no meio científico brasileiro, DE MEIS e cols. (2003) verificaram que a pressão sofrida para que novas pesquisas sejam publicadas, a competitividade crescente entre os cientistas e entre algumas instituições de ensino superior

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nacionais, além da escassez de recursos destinados ao financiamento de produções acadêmicas, têm levado os pesquisadores (alunos de graduação e pós-graduação) e seus professores a um quadro característico de burnout. Para os autores, os indivíduos mais propensos ao desenvolvimento da síndrome são aqueles que apresentam mais dedicação e comprometimento com o seu trabalho. Isso acontece basicamente em razão de três motivos: em primeiro lugar, os cientistas vivenciam intensamente o ambiente de seus laboratórios, por vezes se esquecendo do mundo exterior. Em segundo lugar, o interesse por essa profissão é geralmente espontâneo e interno, visto que as remunerações não são atrativas em sua maioria. Por último, a perspectiva de descobrir ou desenvolver algo novo, pioneiro dentro da comunidade científica, conduz o pesquisador para o comprometimento com seu trabalho (DE MEIS e cols., 2003).

Conforme observado, o burnout no campo organizacional pode ser considerado um campo de pesquisa em ampla expansão na comunidade científica em geral e entre os profissionais de Psicologia do Trabalho de modo específico.

2.1.3. Instrumentos de Mensuração

A partir dos conhecimentos gerados através dos ensaios teóricos sobre a síndrome de burnout, surgiu a necessidade de construção de métodos de mensuração da mesma, a fim de que fosse possível detectá-la por meio de pesquisas aplicadas. GARCÉS DE LOS FAYOS (1999) propõe que um pensamento absolutamente necessário na investigação de um determinado construto é a possibilidade de encontrar um instrumento de medida que nos ajude a descrever cientificamente os diferentes aspectos conceituais associados ao construto. O mesmo autor salienta que outro pensamento relevante na construção de um instrumento leva em consideração que ele possa ser utilizado em diversos contextos laborais e, de preferência,

(22)

em países diferentes. Assim sendo, a riqueza das conclusões de cada instrumento melhora significativamente.

A questão da elaboração de modelos de mensuração da síndrome tem sido, inclusive, um dos principais fatores responsáveis tanto pelo reduzido número de publicações na área quanto pelo entendimento inadequado ou incompreensão da síndrome (ABRAHAMSON, 1997; HALL, CAWTHRA e KERR, 1997).

As pesquisadoras precursoras na elaboração de tais métodos indicadores foram Maslach e Jackson. No ano de 1981, surgiu o Maslach Burnout Inventory (MBI), que continua sendo o instrumento mais utilizado para a mensuração da síndrome nos dias atuais (SOUZA e SILVA, 2002). O MBI, contendo 25 itens, foi validado através da aplicação em 1025 indivíduos pertencentes às seguintes profissões: enfermeiros, professores, assistentes sociais, trabalhadores de saúde mental, psiquiatras, psicólogos, administradores de agência, consultores, empregados em período de experiência, físicos, policiais e procuradores. Da análise fatorial dos itens emergiram quatro fatores, sendo que três obtiveram valores significativos, os quais foram denominados de: exaustão emocional, com nove itens, despersonalização, com cinco itens, e realização pessoal, com oito itens. Foi verificado também que a realização pessoal, apesar de ser o único fator que possui conotação positiva, não pode ser considerada como oposta ou inversamente proporcional aos fatores exaustão emocional e despersonalização, visto que as correlações entre a realização pessoal e os dois outros fatores, mesmo sendo negativas, não foram significativas (MASLACH e JACKSON, 1981).

Entretanto, uma pequena ressalva deve ser feita. Percebendo a diversidade de ambientes laborais, e até mesmo extra-laborais (como as donas-de-casa), passíveis de ocorrência de burnout, Maslach, Jackson e Leiter (GIL-MONTE, 2002) resolveram elaborar três tipos de MBI, a serem aplicados em circunstâncias específicas, de acordo com o contexto

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em que os sujeitos estão inseridos: o MBI-Human Services Survey (MBI-HSS), voltado aos profissionais de saúde e serviços, versão original do MBI; o MBI-Educators Survey (MBI-ES), versão do MBI-HSS dirigida aos profissionais da educação, diferenciando-se do anterior por substituir, nos itens, a palavra paciente por aluno; e, por último, o MBI-General Survey (MBI-GS), escala direcionada a qualquer tipo de trabalhador, onde os itens possuem um caráter mais genérico (GIL-MONTE, 2002).

O MBI-GS está constituído por 16 questões, contra 22 do MBI-HSS e do MBI-ES. As 16 questões contemplam as três dimensões do burnout e estão assim distribuídas: seis referentes à eficácia profissional, cinco a respeito de esgotamento e cinco sobre cinismo. Pôde-se perceber, entretanto, que a nomenclatura original das dimensões sofreu modificações do MBI-HSS para o MBI-GS: a realização pessoal foi substituída por eficácia profissional, esgotamento emocional ficou reduzido a apenas esgotamento, e despersonalização foi alterada para cinismo. Cada item é seguido por uma escala numérica que se refere à freqüência percebida, variando de 0 (nunca) a 6 (todos os dias).

Em uma pesquisa desenvolvida junto a policiais municipais de Tenerife (Espanha), a versão espanhola do MBI-GS foi considerada válida e confiável (GIL-MONTE, 2002).

Além dos MBIs, outra ferramenta de mensuração de burnout encontrada na literatura foi o Inventário de Potencial de Burnout de Potter (GARCÍA UCHA, 2000). Esse questionário é composto de 48 itens distribuídos por 12 variáveis, a saber: impotência, desinformação, conflito, pobre trabalho de equipe, sobrecarga, aborrecimento, pobre retroalimentação, castigo, alienação, ambigüidade, ausência de recompensas e conflito de valores. Para cada item, a escala apresenta uma variação numérica de freqüência de 1 (raramente) a 9 (constantemente). Uma das poucas utilizações desse instrumento na literatura se deu por GARCÍA UCHA (2000), ao avaliar a síndrome em treinadores esportivos.

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Em sua tese de doutorado, GARCÉS DE LOS FAYOS (1999) apresenta uma revisão de 15 instrumentos de medida de burnout, os quais podem ser observados no Quadro 1:

Quadro 1: Instrumentos de medida de burnout e seus respectivos autores. Fonte: GARCÉS

DE LOS FAYOS (1999).

Instrumento de Medida Autores

Staff Burnout Scale Jones (1980)

Indicadores del Burnout Gillespie (1980)

Emener-Luck Burnout Scale Emener e Luck (1980)

Tedium Measure (Burnout Measure) Pines, Aronso e Kafry (1981)

Maslach Burnout Inventory Maslach e Jackson (1981)

Burnout Scale Kremer e Hofman (1985)

Teacher Burnout Scale Seidman e Zager (1986)

Energy Depletion Index Garden (1987)

Mettews Burnout Scale for Employees Mattews (1990)

Efectos Psiquícos del Burnout García Izquierdo (1990)

Escala de Variables Predictoras del Burnout Aveni e Albani (1992) Cuestionario de Burnout del Profesorado Moreno e Oliver (1993) Holland Burnout Assessment Survey Holland e Michael (1993)

Rome Burnout Inventory Venturi, Dell’Erba e Rizzo (1994)

Escala de Burnout de Directores de Colegios Friedman (1995)

Ao concluir seus comentários sobre os instrumentos analisados, o autor afirma que o “Maslach Burnout Inventory” (MBI), em português denominado “Inventário de Burnout de Maslach” (IBM), é considerado o melhor instrumento de medida da síndrome, e sobre o qual se tem desenvolvido a maioria das investigações científicas. Dentre os instrumentos alternativos ao MBI, o único inventário que obteve relatos de utilização mais freqüentes foi o “Tedium Measure”, cuja melhor tradução para o português seria “Medida de Tédio” (GARCÉS DE LOS FAYOS, 1999).

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2.2. Burnout no Esporte

2.2.1. Percurso Histórico

Após sua identificação nas profissões de ajuda, o burnout passou a ser percebido também no meio do esporte e da Educação Física. De acordo com GARCÉS DE LOS FAYOS e VIVES BENEDICTO (2002), os estudos direcionados à área do esporte começaram há pouco mais de 20 anos. Nesse período, conforme aponta GARCÉS DE LOS FAYOS (1999), o burnout no âmbito esportivo não despertava tanto o interesse dos investigadores se comparado ao contexto organizacional, especialmente por duas razões: primeiramente, porque os autores da época não consideravam a prática esportiva como um trabalho repleto de pressão, cujas demandas pudessem ocasionar situações tão aversivas a ponto de provocar burnout nessa espécie de “trabalhadores”; e depois porque a atividade esportiva não era considerada uma área de desempenho laboral, que se caracterizasse pela existência de uma certa “produção” advinda do trabalho.

Entretanto, a partir das definições conceituais da síndrome (MASLACH e JACKSON, 1981; RAEDEKE, 1997), nas quais o burnout é descrito em termos de esgotamento emocional, físico e mental, despersonalização e reduzida realização pessoal, percebeu-se que tais elementos não eram específicos apenas dos contextos organizacionais, mas também do sistema esportivo, pois a realidade esportiva exige diferentes estratégias de enfrentamento do forte componente emocional característico da síndrome (GARCÉS DE LOS FAYOS, 1999).

Desse modo, profissionais como os professores de Educação Física, treinadores, preparadores físicos, atletas e árbitros tornaram-se indivíduos propensos à aquisição dessa síndrome. Tal propensão se desenvolve à medida que os profissionais da área lidam com constantes relações interpessoais, sejam elas com os alunos, diretores de escola, membros de

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suas equipes técnicas, equipe de arbitragem, dirigentes, imprensa, amigos e familiares, e são vivenciados sentimentos de cobranças, críticas, cansaço e estresse.

Em virtude das constantes comparações realizadas na comunidade científica envolvendo a síndrome de burnout, a síndrome de overtraining e o estresse, esses três fenômenos da Psicologia do Esporte serão comentados e diferenciados entre si na próxima seção.

2.2.2. Estresse, Overtraining e Burnout: Semelhanças e Diferenças

Devido ao fato da síndrome de burnout apresentar sintomas que podem ser confundidos com o estresse e o overtraining, faz-se necessário refletir sobre as semelhanças e as diferenças entre esses três fenômenos que ocorrem no esporte. Com isso, pretende-se esclarecer até que ponto determinadas adaptações negativas apresentadas pelo atleta podem ser atribuídas ao estresse, ao overtraining, ao burnout, ou, até mesmo, a uma convergência de dois ou três desses fenômenos.

O estresse pode ser definido como reações somáticas e psicológicas de um indivíduo frente a exigências que ultrapassam seus limites para lidar com elas (GOULDBERGER e BREZITZ, 1982). Portanto, o atleta experimenta o estresse quando não consegue reagir a determinadas situações ocasionadas pelo ambiente esportivo.

De forma didática, o estresse no esporte se manifesta em quatro estágios, desenvolvidos a partir do “Processo de Estresse de McGrath” (BRANDÃO, 2000), a saber:

No primeiro estágio, intitulado de demanda ambiental, o atleta se depara com uma demanda ameaçadora no meio em que se encontra. Essa demanda pode ser exemplificada, no meio esportivo, por uma ofensa do atleta adversário, por desentendimentos com a arbitragem, pela pressão da torcida e da imprensa, pela perda de um jogo nos minutos finais, etc.

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O estágio 2, conhecido como percepção da demanda ambiental, caracteriza-se pelo momento em que o esportista, após tomar conhecimento da situação, realiza uma avaliação cognitiva da mesma, podendo percebê-la como ameaçadora, em caso de uma avaliação negativa, ou como estimulante, em caso de uma avaliação positiva. No caso de uma partida de futebol, por exemplo, determinada demanda ambiental, como estar perdendo o jogo nos minutos finais, pode levar o jogador a avaliá-la de forma negativa (“a partida está quase perdida, resta pouco tempo para a reação”) ou de forma positiva (“nada está perdido, vamos partir com tudo para chegarmos ao empate”).

No terceiro estágio, aparecem as respostas físicas e psicológicas do estresse. Ao reagir frente aos agentes estressores, o atleta pode apresentar dois tipos de conseqüências: os sintomas biológicos, como, por exemplo, a elevação da freqüência cardíaca e da pressão arterial, e psicológicos, tais como a elevação da ansiedade-estado.

No estágio final, denominado conseqüências comportamentais, são observados os efeitos da avaliação cognitiva da demanda ambiental, bem como as alterações físicas e psicológicas, sobre o desempenho e o resultado atlético. Ainda a respeito desse estágio, as conseqüências comportamentais podem ser positivas ou negativas para o atleta. Quando ele busca superar a demanda estressora, para se tornar mais ativo e incrementar sua performance, isso se caracteriza como “eustresse” ou “estresse positivo”. Por outro lado, quando a situação causa danos ao desempenho atlético, então o caso é denominado de “distresse” ou “estresse negativo” (BRANDÃO, 2000). No exemplo citado anteriormente, a partida de futebol tanto pode ter terminado com a derrota do time que estava atrás no placar (distresse), quanto pode ter acontecido uma reação nos minutos finais, com o empate ou a virada do jogo (eustresse).

A síndrome de overtraining, por sua vez, pode ser explicada como um estado de fadiga crônica (fato que a diferencia do estresse) motivado por uma incorreta dosificação das cargas aplicadas e excesso de treinamento, em combinação com a ação de estressores externos

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ao processo de treinamento, tais como o excesso de viagens e competições, que podem intensificar o efeito das cargas de trabalho (BONETE e SUAY, 2003; GLEESON, 2002). Uma consideração importante deve ser feita em relação às cargas de trabalho. Apesar de ser abordada, geralmente, em termos fisiológicos, sabe-se que, juntamente a uma carga física aplicada no atleta, existe também uma carga psicológica envolvida no processo. Esse aspecto pode ser observado quando há competições sucessivas (carga física), promovendo o afastamento do sujeito de seus familiares e amigos (carga psicológica). Portanto, o termo “dosificação” deve ser refletido sob o ponto de vista de ambas as cargas.

Além das características citadas acima, o overtraining também promove a piora da performance competitiva, com diversas tentativas de melhora da condição física (GLEESON, 2002). Em geral, quando um atleta está com overtraining, a comissão técnica dificilmente reconhece a síndrome, e avalia a queda no desempenho como falta de treinamento adequado, aumentando a carga de trabalho. Essa conclusão equivocada acaba por levar o esportista a um patamar de rendimento atlético extremamente reduzido.

De acordo com McCANN (1995), o ponto de união entre os processos de overtraining e burnout é o estresse, que aparece como elemento fundamental na etiologia de ambas as síndromes.

Por outro lado, GIMENO (2003) aponta que a diferença chave entre essas duas síndromes reside no papel que os fatores cognitivos exercem no caso do burnout. Na perspectiva do overtraining, a atenção está voltada para a importância do agente estressor (treinamento) e para a resposta ou reação (sintomas), ignorando-se a interpretação que o atleta faz acerca do agente estressor. Entretanto, no contexto do burnout, é dada ênfase à interpretação subjetiva realizada pelo esportista sobre o agente estressor, o que mostra a importância dos mecanismos cognitivos.

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Conforme conclui GIMENO (2003) de forma bem objetiva, pode-se afirmar que existe um paralelismo geral entre os processos de overtraining e burnout, representado pelo estresse, do mesmo modo que a inclusão de elementos cognitivos os diferenciam com clareza. Em uma outra abordagem, fundamentada por Silva (1990, citado por GOULD, UDRY, TUFFEY e LOEHR, 1996b), os fenômenos são considerados dentro de um contínuo de adaptações negativas sofridas pelo atleta, na seguinte ordem: primeiramente, o estresse negativo, ou distresse; depois, o overtraining; e, por último, o burnout. A Figura 1 representa o contínuo de adaptações negativas proposto por Silva.

Figura 1: Contínuo de adaptações negativas sofridas pelo atleta.

As abordagens referentes ao burnout no âmbito esportivo foram desenvolvidas a partir da proposição de modelos teóricos, ou seja, sistemas que explicam os modos de ação da síndrome em profissionais do esporte. Quatro dos principais modelos descritos na literatura serão abordados a seguir.

2.2.3. Modelos Teóricos

O primeiro modelo é o proposto por SMITH (1986) e conhecido como

Cognitivo-Afetivo. Para esse autor, o burnout é uma reação ao estresse crônico. Conforme seu ponto de

vista, a síndrome possui componentes físicos, mentais e comportamentais, apresentando como EQUILÍBRIO DISTRESSE OVERTRAINING BURNOUT

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característica mais marcante a saturação psicológica, emocional e, por vezes, física de uma atividade anteriormente agradável e procurada.

De acordo com esse modelo teórico, tanto o estresse quanto o burnout apresentam modos de ação similares, baseados em quatro estágios. No caso do estresse, primeiramente, há a situação ambiental, que envolve a interação entre as demandas exigidas por ela e os recursos que o indivíduo dispõe para enfrentá-la. Logo após, aparece a avaliação cognitiva dos fatores que compõem a situação: demandas, recursos, conseqüências e significados das conseqüências. O terceiro estágio corresponde às respostas fisiológicas frente à avaliação cognitiva da situação e, finalmente, ocorre um “output”, ou seja, uma manifestação do comportamento no sentido de controle e enfrentamento da situação, reação também conhecida pelo termo “coping” (SMITH, 1986).

O burnout, por sua vez, apresenta os mesmos quatro estágios comentados em relação ao estresse. Porém, a diferenciação entre ambos está no fato de que o burnout representa as manifestações ou conseqüências dos componentes situacionais, cognitivos, fisiológicos e comportamentais do estresse (SMITH, 1986).

Portanto, no contexto situacional do burnout, observa-se, entre outras manifestações, a sobrecarga resultante das altas e conflitantes demandas, o baixo apoio social, a pouca autonomia do atleta e as reduzidas recompensas. No âmbito cognitivo, evidencia-se a falta de auto-valorização do indivíduo e de sentido da atividade para o mesmo, além da percepção de poucas conquistas significativas. No aspecto fisiológico, surgem as reações de tensão, raiva, ansiedade, depressão, insônia, fadiga e aumento da suscetibilidade a doenças. Por último, o componente comportamental apresenta, como conseqüências, atitude rígida e inapropriada, declínio do rendimento esportivo, dificuldades de relacionamento interpessoal e o abandono da atividade (SMITH, 1986).

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Um ponto importante comentado nesse modelo sugere que fatores motivacionais e de personalidade têm capacidade de interferir em todos os componentes de estresse e burnout. Esses fatores podem ser entendidos como a predisposição para perseguir situações ou objetivos, pensar, e reagir emocionalmente e comportamentalmente em determinadas maneiras (SMITH, 1986). Tal realidade enaltece a complexidade da síndrome, enfatizando que a mesma pode se manifestar de maneiras diferenciadas, ou até mesmo não se manifestar, dependendo de características individuais.

O autor recorre ao Modelo da Permuta Social de Thibaut e Kelley com o intuito de diferenciar o abandono das modalidades esportivas pelos atletas devido ao burnout daqueles motivados por outros aspectos. De acordo com esse modelo, nos casos em que o atleta abandona sua modalidade em virtude de interesses por outras atividades sociais ou, até mesmo, por outro esporte, tal abandono não se constitui a partir do burnout. Já no caso da síndrome, há uma elevação dos custos (sobrecarga) físicos e psicológicos induzidos pelo estresse gerado ao longo dos treinos e competições. Como as recompensas (satisfação, alcance de metas, prestígio social, ganhos financeiros) proporcionadas pelo esporte permanecem no mesmo patamar, o atleta comumente faz a opção pela interrupção da carreira esportiva competitiva (SMITH, 1986).

O segundo modelo teórico é o de COAKLEY (1992), denominado de Modelo da

Perspectiva Social. Inicialmente, a autora concorda com SMITH (1986) no sentido de que o

burnout está associado ao estresse. Entretanto, suas explicações para as raízes da síndrome estão voltadas para a organização social do esporte. O burnout, conforme esse modelo, surge à luz de uma estrutura social que reduz a identidade, a dimensão do “eu” do atleta, a apenas à modalidade esportiva praticada pelo mesmo. Tal realidade é denominada de desenvolvimento de um autoconceito “unidimensional”.

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Após realizar entrevistas informais com 15 atletas (nove homens e seis mulheres) com faixa etária compreendida entre 15 e 19 anos e pertencentes a seis modalidades esportivas (esqui, patinação artística, ginástica, natação, tênis e beisebol), COACKLEY (1992) concluiu que o burnout entre jovens atletas de elite é um fenômeno social em que os atletas podem abandonar o esporte competitivo em virtude de dois fatores:

• A restrição de experiências de vida, levando ao desenvolvimento do autoconceito “unidimensional”;

• Relacionamentos autoritários dentro e ao redor do esporte que impedem os jovens atletas de possuir controle sobre suas próprias vidas.

Os dados obtidos também sugerem que os jovens mais propensos ao abandono esportivo são atletas altamente determinados que têm se envolvido fortemente em esportes individuais por longos períodos. Tal sugestão se dá em razão da formação de uma identidade associada exclusivamente à participação esportiva, em que são perpetuados os relacionamentos sociais diretamente ligados ao esporte, bem como pela dedicação quase integral de tempo ao desenvolvimento de habilidades especializadas e pela definição de metas a partir do comprometimento com os treinamentos especializados a longo prazo (COACKLEY, 1992).

Portanto, somente com a aquisição de novas vivências o esportista tem a possibilidade de prevenção ou reversão do quadro de burnout. Para que isso aconteça, faz-se necessária uma transformação do cenário social do esporte atual.

O terceiro modelo tem a autoria de Silva, recebendo a denominação de Modelo de

Resposta Negativa ao Estresse do Treinamento (GOULD e cols, 1996b). Nesse modelo, é

dada maior ênfase à valência física do treinamento. De acordo com Silva, o estresse causado no atleta pode gerar efeitos tanto positivos quanto negativos. A adaptação positiva aparece em forma de resultados desejados e alcance dos objetivos do treino. Por outro lado, a adaptação

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negativa leva a um contínuo hipotético de respostas indesejáveis, que se inicia com o “staleness”4, passando pelo overtraining e se encerrando com o burnout, o qual, para Silva,

representa uma resposta psicofisiológica exaustiva, exibida como resultado de esforços freqüentes, algumas vezes extremos, mas geralmente ineficientes em lidar com o treinamento excessivo e com as demandas competitivas (GOULD e cols., 1996b).

Infelizmente, GOULD e cols. (1996b) comentam que não há registros na literatura de testagens científicas do modelo de Silva, com exceção do artigo original do autor. No estudo em questão, uma pequena amostra de atletas universitários foi avaliada em relação ao estresse causado pelo processo de treino. Os dados revelaram que 72% dos participantes reportaram staleness durante a temporada esportiva, 66% sofreram overtraining duas vezes ao longo de suas carreiras e 47% dos atletas padeceram da síndrome de burnout com uma média de 1,5 vez durante a carreira universitária.

Os três modelos comentados anteriormente assumem posicionamentos competitivos entre eles, de acordo com HALL e cols. (1997). Esses autores se referem aos estudos de GOULD e cols. (1996b) e GOULD, TUFFEY, UDRY e LOEHR (1996a), que tiveram por objetivo verificar qual o modelo teórico mais apropriado para a compreensão do burnout a partir do confrontamento de dados de entrevistas de atletas de tênis vitimados pela síndrome, e de atletas que não possuíam a mesma, com as conceituações de cada modelo teórico. Os resultados das análises quantitativas e qualitativas apontaram para a adoção do Modelo Cognitivo-Afetivo de SMITH (1986) nas futuras pesquisas na área, apesar do Modelo da Perspectiva Social de COACKLEY (1992) não ter sido totalmente ignorado.

Contrapondo-se a essa visão que valoriza apenas um dos modelos teóricos acerca da síndrome, em detrimento dos demais, HALL e cols. (1997) afirmam que é possível realizar uma aproximação integrada dos Modelos Cognitivo-Afetivo, da Perspectiva Social e de

4 Falha inicial dos mecanismos de adaptação corporal ao enfrentar o estresse psicofisiológico (SILVA 1990,

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Resposta Negativa ao Estresse de Treinamento, que denominaram de Modelo

Social-Cognitivo Motivacional. Para que isso aconteça, um novo sistema, baseado na motivação,

precisa ser criado. Segundo os autores, o burnout implica em um processo no qual o padrão de adaptação motivacional do atleta sofre, de alguma forma, uma desadaptação ou má adaptação como resultado do estresse crônico.

Esse modelo já havia sido empregado para explicar tanto o envolvimento quanto o desgaste do indivíduo com relação ao esporte, e se fundamenta em dois tipos de objetivos relativos ao contexto da realização esportiva: a orientação para a tarefa e a orientação para o ego.

A orientação para a tarefa está centrada no interesse intrínseco, ou seja, o indivíduo busca sempre desafiar a si próprio, esforçando-se e demonstrando persistência para a melhora pessoal. Desse modo, o fracasso, quando acontece, não incide de forma impactante sobre a auto-estima do atleta, pois o mesmo não realiza o julgamento de sua habilidade se comparando aos seus adversários (HALL e cols., 1997).

Por outro lado, a orientação para o ego está centrada na superação de um ou mais oponentes, no sucesso obtido e exaltado para um número significativo de pessoas, os objetivos do atleta têm origens externas ao mesmo, como o reconhecimento público, a fama e as recompensas financeiras. Esse tipo de orientação está diretamente relacionado com o abandono esportivo, visto que o atleta tende a procurar outras atividades, nas quais o sucesso seja conquistado de maneira mais rápida (HALL e cols., 1997).

Portanto, atletas orientados para o ego apresentam maiores possibilidades de aquisição da síndrome, e o mecanismo de ação do burnout acontece da seguinte forma: no início de sua carreira esportiva, há um relativo sucesso, e a postura ego-orientada parece ser uma boa opção a ser seguida, pois ainda há raros questionamentos acerca da habilidade atlética do indivíduo. Com o surgimento dos primeiros fracassos e da exposição de uma habilidade inadequada, o

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esportista tenta remediar a situação intensificando seu treinamento. Porém, ao perceber que tanto o esforço aplicado nos treinamentos quanto sua habilidade adquirida são incompatíveis com seus objetivos propostos para o esporte, torna-se aparente o processo de má adaptação motivacional. Com isso, o estresse passa a se tornar crônico, bem como as situações competitivas são percebidas como ameaçadoras (HALL e cols., 1997).

Dentre os quatro modelos teóricos abordados anteriormente, o primeiro modelo comentado (Modelo Cognitivo-Afetivo), de autoria de SMITH (1986), apresenta-se como o mais adequado para servir de referencial teórico para a presente investigação científica, visto que enfatiza a abordagem cognitiva e ressalta a percepção e os sentimentos do atleta em relação à síndrome.

2.2.4. Dimensões (Subescalas) de Burnout no Esporte

Por se caracterizar como uma síndrome multidimensional, o burnout está fundamentado em três dimensões ou subescalas, que são: a exaustão emocional, a realização

pessoal e a despersonalização (MASLACH e JACKSON, 1981). Cabe ressaltar que pequenas

adaptações nessas subescalas foram feitas pelos pesquisadores das Ciências do Esporte, visando à aplicação das teorias do burnout geral para as situações específicas do ambiente esportivo (RAEDEKE, 1997; RAEDEKE e SMITH, 2001). A seguir, cada uma dessas subescalas será conceituada e comentada, enfatizando-se o seu emprego na compreensão do burnout enquanto fenômeno inerente ao esporte contemporâneo.

Enquanto dimensão de burnout geral, a exaustão emocional, associada com tensão psicológica e fisiológica (LEE e ASHFORTH, 1990), foi denominada, no esporte, de

exaustão física e emocional, a qual está associada às intensas demandas dos treinos e

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atlética interferem no bem-estar físico, psicológico e social dos esportistas. Portanto, reações como ansiedade, tensão e estresse, além de cansaço físico e psicológico, representam essa subescala de burnout.

A subescala realização pessoal foi primeiramente descrita por MASLACH e JACKSON (1981) como sentimentos de competência e conquista de sucesso no trabalho com pessoas. Logo, diferentemente das duas outras subescalas, a realização pessoal teria uma conotação positiva. Por essa razão, autores como LEE e ASHFORTH (1990) a intitularam de

reduzida realização pessoal, nomenclatura essa que a torna diretamente relacionada à

síndrome de burnout. No esporte, o termo mais empregado é reduzido senso de realização

esportiva, interpretado, fundamentalmente, em termos de insatisfação quanto à habilidade e

destreza esportiva (RAEDEKE e SMITH, 2001). Exemplos dessa dimensão são a falta de progressos no desempenho atlético e percepções de falta de sucesso e falta de talento (GOULD e cols., 1996a).

A despersonalização é associada à estafa psicológica e à fuga como método de enfrentamento (LEE e ASHFORTH, 1990), ou seja, um sujeito decidiria por se manter afastado e indiferente em relação às pessoas para as quais ele exerce sua profissão, como, por exemplo, pacientes ou clientes, na tentativa de não sofrer de modo mais intenso as conseqüências do burnout. No campo esportivo, entretanto, a melhor nomenclatura encontrada para definir tal dimensão de burnout foi desvalorização esportiva, uma vez que RAEDEKE (1997) associou a despersonalização a uma atitude negativa e indiferente frente a algo importante em determinado domínio. Portanto, quando o atleta para de se preocupar com o seu rendimento e com o seu envolvimento dentro do meio esportivo, tem início um processo similar ao que ocorre na despersonalização, porém em relação à performance esportiva, e não mais em relação a outras pessoas. Dentre as principais manifestações dessa subescala,

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encontram-se falta de interesse, falta de desejo e falta de preocupação em relação ao esporte (SILVA, 1990, citado por RAEDEKE e SMITH, 2001).

Portanto, após a revisão das dimensões de burnout no ambiente esportivo, passaremos sempre a utilizar, a partir desse ponto, as nomenclaturas exaustão física e emocional, reduzido

senso de realização esportiva e desvalorização esportiva para nos referirmos às subescalas.

Ao longo dos próximos tópicos, a síndrome de burnout será comentada conforme sua incidência em diferentes profissionais da área da Educação Física e Esportes.

2.2.5. Burnout em Professores de Educação Física

Os professores de Educação Física Especial formaram o universo da pesquisa de DEPAEPE, FRENCH e LAVAY (1985). A hipótese inicial do estudo consistia em prováveis apresentações de altos níveis de burnout entre esses professores nos Estados Unidos, em virtude da responsabilidade aumentada, devido à lei 94-142, de 1975, que promoveu o Ato para todas as Crianças Deficientes, bem como pelos espaços físicos inadequados disponíveis para suas aulas. Tais hipóteses foram confirmadas após a aplicação do MBI. Outra descoberta interessante diz respeito à variação da freqüência dos sintomas de burnout ao longo do ano: durante o período letivo, a incidência dos mesmos é elevada.

Em um outro estudo, VILORIA, PAREDES e PAREDES (2003) verificaram a incidência da síndrome em 140 professores de Educação Física da cidade de Mérida (Venezuela), onde constataram níveis baixos de burnout em 41,4% da amostra, níveis médios em 48,6% e níveis altos em 10%. Também foi constatada a relação das variáveis idade, nível acadêmico, tempo livre e condição empregatícia do cônjuge com as três dimensões da síndrome.

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Comparando-se as duas pesquisas referidas, foi possível observar maiores índices de burnout entre os professores de Educação Física Especial. Isso se deve, supostamente, a elevadas cargas de ordem afetiva e emocional impostas pelo convívio com crianças e jovens portadores de necessidades educativas especiais (PNEE). Por outro lado, os resultados apresentados mostraram que os professores de classes não-especiais também não estão imunes contra a aquisição da síndrome.

2.2.6. Burnout em Diretores Esportivos de Escolas

Apesar de não atuarem diretamente no palco das competições esportivas, como acontece com os atletas, treinadores e árbitros, os diretores esportivos escolares podem apresentar quadro característico da síndrome de burnout. O principal estudo publicado na literatura a esse respeito consistiu em uma análise de estresse e burnout em 249 diretores esportivos de “high schools” (escolas equivalentes ao ensino médio no Brasil) pertencentes a um Estado do meio-oeste norte-americano (MARTIN, KELLEY e EKLUND, 1999). Através da aplicação do MBI-ES, com pequenas alterações em alguns itens, procurando-se melhor contextualização dos mesmos, verificou-se que 70,6% dos participantes apresentaram índices moderados ou elevados em relação à subescala exaustão emocional, ao passo que os mesmos escores referentes às subescalas despersonalização e reduzida realização pessoal foram de 49,5% e 49,8%, respectivamente. Os autores concluíram, portanto, que as percepções de burnout em diretores atléticos parecem residir predominantemente em sentimentos de exaustão emocional. Outro achado da pesquisa revelou que, tanto os fatores pessoais, como a persistência e o vigor, quanto os fatores situacionais, como as responsabilidades inerentes à profissão, influenciaram na ocorrência de burnout entre os diretores esportivos escolares.

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2.2.7. Burnout em Árbitros

Os árbitros consistiram na amostra do objeto de estudo de WEINBERG e RICHARDSON (1990). Os autores argumentam que a empolgação inicial dos árbitros com o esporte cede lugar, com o passar do tempo, aos sentimentos de estresse oriundos da profissão. Como vítimas desse processo, são listados famosos oficiais da arbitragem mundial. A conclusão do texto é a de que um percentual significativo dos árbitros que sofrem de estresse físico ou psicológico foram afetados pelo burnout.

Discorrendo sobre a investigação do burnout em árbitros, SILVÉRIO e SILVA (1996), após revisarem duas pesquisas da área, concluíram que “o medo de falhar é o preditor mais forte do esgotamento e que os conflitos interpessoais aumentam a percepção de esgotamento” (p. 514).

Apesar da pouca quantidade de estudos existentes envolvendo a psicologia da arbitragem, é visível o padecimento dessa classe com os sintomas do burnout, pois quando os árbitros falham, transformam-se em vilões, culpados pelo mau resultado de um atleta ou equipe. Contraditoriamente, mesmo quando desenvolvem bom trabalho, dificilmente acabam sendo reconhecidos a contento.

2.2.8. Burnout em Treinadores

Até o presente momento, a classe profissional pertencente ao meio esportivo mais avaliada em relação ao burnout é a dos treinadores. Existe uma gama de artigos científicos que objetivaram relacionar variáveis demográficas (especialmente o gênero), cognitivas e comportamentais com a ocorrência da síndrome.

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Quanto às diferenças entre os gêneros, os resultados de DALE e WEINBERG (1989) indicaram níveis significativamente mais elevados da dimensão despersonalização entre os indivíduos do sexo masculino. Complementando essa informação, VEALEY, UDRY, ZIMMERMAN e SOLIDAY (1992) afirmaram que as treinadoras, por sua vez, mostraram maiores índices de exaustão emocional do que seus pares do sexo masculino.

Abordando os fatores cognitivos, observou-se em um estudo (VEALEY e cols., 1992) que existem oito variáveis cognitivas preditoras de burnout, a saber: recompensas percebidas, valor da função percebida, excitação, sobrecarga, controle, suporte e sucesso percebidos. Na avaliação geral, tais itens estavam atrás apenas da ansiedade-traço, preditora maior da síndrome em treinadores.

Em relação aos laços existentes entre estilos de liderança do treinador e burnout, DALE e WEINBERG (1989) estudaram profissionais pertencentes a escolas de ensino médio dos Estados Unidos, percebendo que os líderes mais humanistas, aqueles que valorizavam, entre outros aspectos, a amizade, o respeito e a confiança, apresentaram altas pontuações no MBI para as dimensões exaustão emocional e despersonalização.

Para que haja prevenção e redução dos quadros de burnout, GARCÍA UCHA (2000) recomenda um controle sistemático do estado de saúde dos treinadores, bem como o melhoramento do estilo de enfrentamento da percepção de estresse, o treinamento de técnicas de suavização do estresse, a comunicação efetiva entre treinadores e seus supervisores e, finalmente, o aprofundamento dos estudos relacionados às características de personalidade.

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2.2.9. Burnout em Atletas

Na literatura científica internacional, desportistas de variadas modalidades já foram analisados em relação às manifestações de burnout. No golfe, COHN (1990) entrevistou 10 escolares competitivos. Após classificar em temas as respostas dos mesmos, verificou que as causas de burnout citadas com maior freqüência foram o excesso de treinos e jogos, a ausência de alegria e satisfação e, por último, o excesso de cobrança de bom desempenho oriunda de si próprio, do treinador e dos pais.

No tênis de quadra, GOULD e cols. (1996b) compararam 30 atletas da categoria júnior vitimados pela síndrome com 32 tenistas-controle. Alguns dos resultados com diferenças significativas apontaram, para os tenistas com burnout, menores índices de foco no treino, motivação externa, interpretação positiva e estratégias de “coping”, além de maiores índices de desmotivação e desejo de abandono esportivo. Em outra pesquisa complementar, os mesmos autores (GOULD e cols., 1996a) diagnosticaram sintomas mentais e físicos em 10 tenistas. Encontravam-se entre os sintomas psicológicos os seguintes itens: baixa motivação/energia, sentimentos e afetividade negativos, sentimentos de isolamento, problemas de concentração, instabilidade emocional e, contraditoriamente, motivação para competir, porém não necessariamente para treinar. Quanto aos sintomas físicos, foram mencionadas lesões, doenças, fadiga e cansaço.

Percebendo o burnout como um fenômeno atual e pertinente entre os esportistas, GARCÉS DE LOS FAYOS e MEDINA (2002) elaboraram princípios básicos a serem aplicados em programas de prevenção e intervenção. Na prevenção, são necessárias medidas como estruturação racional do treinamento, aplicação de treinamento psicológico e aumento da idade mínima para participação em competições profissionais. No âmbito da intervenção, os autores julgam relevante avaliar os impactos da síndrome na vida pessoal, esportiva e

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familiar-social dos atletas, assim como sincronizar o relacionamento do psicólogo do esporte com os sujeitos afetados. A prevenção e o tratamento da síndrome de burnout serão abordados com detalhes no sub-item 2.2.12 – “Prevenção e Controle”.

2.2.10. Causas e Conseqüências do Burnout em Atletas

As causas do burnout estão relacionadas principalmente às dificuldades de relacionamento com o treinador, altas demandas competitivas, monotonia dos treinamentos, falta de habilidades esportivas, decepção das expectativas iniciais com os resultados finais obtidos, interesses financeiros dos pais, ausência ou reduzida vida pessoal fora do esporte, falta de apoio de familiares e amigos, excessivas demandas de energia e tempo, sentimento de isolamento frente à equipe técnica e, finalmente, carência de reforços positivos pelos resultados conseguidos (GARCÉS DE LOS FAYOS e VIVES BENEDICTO, 2002).

Por outro lado, as conseqüências da síndrome atingem a dimensão física, gerando redução dos níveis de energia e aumento da suscetibilidade tanto a doenças quanto a distúrbios do sono; a dimensão comportamental, originando sentimentos de depressão, isolamento e raiva (SMITH, 1986); além da dimensão cognitiva, provocando percepções de sobrecarga, abandono e baixa realização, juntamente com o tédio (FENDER, 1989).

Concluindo, o burnout em atletas se origina de modo mais marcante a partir da incompatibilidade dos planos e metas iniciais dos mesmos na modalidade esportiva com as demandas crônicas de cunho sócio-psico-físico do próprio esporte, podendo ocasionar, como uma das características mais relevantes, o abandono precoce da modalidade pelo esportista.

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2.2.11. Burnout e Motivação

Ao ser entendida como uma síndrome resultante da percepção de incompatibilidade entre as expectativas do atleta e seu rendimento real, bem como ao se caracterizar por perda de entusiasmo e energia, diversos autores (GARCÉS DE LOS FAYOS e CANTON, 1995; GARCÉS DE LOS FAYOS e VIVES BENEDICTO, 2002 e 2005) argumentam que o burnout é fortemente influenciado pela motivação, ou melhor, pela perda da motivação em relação aos motivos que haviam levado o indivíduo a iniciar e a se manter na prática esportiva.

Essa estreita relação encontrada entre motivação e burnout serviu de base para a proposição de CRESSWELL e EKLUND (2005c) ao fundamentarem a explicação do fenômeno através da Teoria da Auto-Determinação, de autoria de Ryan e Deci. De acordo com essa Teoria, o bem estar do ser humano está sustentado na satisfação de três necessidades básicas: autonomia, competência e relações humanas. Por outro lado, o fracasso em atingir tais necessidades leva à percepção de ausência de autodeterminação, predisposição a enfermidades e demais conseqüências negativas. Ao longo de um contínuo, a desmotivação (ausência de motivação) se constitui na última forma de motivação em relação à autodeterminação. Ela se dá pela perda de satisfação das necessidades psicológicas e/ou pela crença de que o esforço empregado na busca de determinado objetivo não será suficiente para se obter êxito. Prosseguindo nesse contínuo, tem-se a motivação extrínseca, fundamentada na obtenção de compromisso e empenho através da perseguição de resultados conseqüentes ao próprio envolvimento na atividade em si (por exemplo, a conquista de posição de destaque na mídia e de prêmios volumosos em dinheiro). Na outra extremidade do contínuo da autodeterminação, aparecem as duas formas de motivação instrínseca, uma associada à realização pessoal (como, por exemplo, a satisfação em aprender novas habilidades) e outra

Referências

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