EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS BACIAS DOS RIOS MIRANDA E APA
Áurea da Silva GARCIA– Turismóloga, Mestranda Educação Ambiental, [email protected] Daniela de Almeida NANTES– Engenheira Sanitária e Ambiental, [email protected] Icléia Albuquerque de VARGAS– Geógrafa, Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, [email protected] Suzete Rosana de Castro WIZIACK– Bióloga, Mestre em Educação, [email protected]
Resumo:
Esta proposta apresenta e reflete a Educação Ambiental (EA) desenvolvida no âmbito do Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Integrado das Bacias dos Rios Miranda e Apa (Cidema), em Mato Grosso do Sul. O enfoque se dá para a formação do coletivo e as atividades dessa modalidade de educação cuja intenção é a conscientização da importância da bacia hidrográfica da Planície Pantaneira. Os resultados apontam para um processo capaz de indicar caminhos mais seguros para a realização de processos educativos comprometidos com uma educação ambiental de característica popular.
O Processo de Mobilização nas Bacias dos Rios Miranda e Apa para a proposição
de um Coletivo Educador
Foi no âmbito do Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento Integrado das Bacias dos Rios Miranda e Apa – Cidema que iniciaram-se as discussões com a Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (SRH/MMA) para a aprovação do projeto “Ciclo da Águas” com o objetivo de mobilizar pessoas e instituições com palestras orientadas para a difusão de informações sobre gestão ambiental e dos recursos hídricos nos Municípios e a coleta de subsídios à implementação de uma gestão integrada.
A proposta de inserção da temática água como pauta de reflexão e como veículo instigador da conscientização ambiental visou à participação de diversos atores sociais e, consequentemente, a ampliação dos conhecimentos desses sujeitos sobre a gestão integrada, participativa e representativa de bacias hidrográficas. Assim, ficou definido que, a partir do eixo central (educação ambiental) as ações a serem desenvolvidas deveriam tonificar a noção sobre a interdependência entre os hábitos cotidianos e os recursos naturais de forma a promover o
resgate cultural, novas formas de geração de renda, respeito às relações de gênero, conferindo, assim, a cada participante a emancipação e o empoderamento nas ações decisórias e de controle social.
Durante a execução do Evento “Ciclo das Águas” foram elaborados materiais informativos, de forma a atender o processo de mobilização dos atores sociais, que contou com mais de 5.000 participantes diretos nas 40 reuniões realizadas nos 26 municípios. Entre eles, destacam-se técnicos, estudantes (do ensino fundamental ao superior) e comunidade em geral (Fome Zero/2003).
Esta proposta credenciou o Cidema a estabelecer recomendações para o gerenciamento integrado da bacia do Rio Miranda através de Convênio encerrado em abril de 2002 durante o Encontro sobre Gestão de Recursos Hídricos com a Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (SRH/MMA). Naquele momento, apresenta-se aos atores, os objetivos, a metodologia e os resultados do Ciclo das Águas e, inicia-se, então novas articulações e a elaboração de uma proposta técnica com a WWF-Brasil.
A parceria com a organização não governamental WWF possibilitou a discussão e a criação da Câmara Técnica de Educação Ambiental – CTEA e a elaboração, em novembro de 2005, do Plano Integrado de Educação Ambiental para as Bacias do Miranda e Apa. Neste processo, os representantes dos municípios e de outras instituições descreveram as prioridades e estratégias de educação ambiental para a região. A idéia comum era estimular a participação da sociedade na conservação e gestão dos recursos hídricos em ambas às bacias. Com as demandas dos municípios identificadas, propunha-se sensibilizar a comunidade, criar uma rede de informações e captar recursos e mecanismos de fomentos a projetos.
Com a convergência de esforços dos membros da CTEA foi possível delinear uma proposta aprovada pelo Ministério do Meio Ambiente, intitulada Formação de Educadores Ambientais para a Sustentabilidade das Bacias dos Rios Miranda e Apa – o Coletivo Educador.
A Câmara Técnica de Educação Ambiental – CTEA
A necessidade de integração, interface e inter-relação nas atividades e ações de Educação Ambiental na região foi debatida no Encontro de Parceiros do WWF-Brasil, como um esboço de atividade para iniciar o processo de consolidação da Educação Ambiental no Pantanal. O evento contou com a participação de técnicos da Rede Aguapé de Educação Ambiental para o Pantanal, do Cidema e do Programa Pantanal para Sempre do WWF-Brasil.
As discussões iniciadas com este grupo duraram cerca de um ano, até chegar ao Projeto da Câmara Técnica de Educação Ambiental – CTEA, estrutura que possibilitaria a participação ampla de Educadores Ambientais da região com o envolvimento direto da Rede Aguapé de Educação Ambiental para o Pantanal e de Escolas Pantaneiras.
No âmbito das experiências de consórcios, a CTEA do Cidema foi a primeira Câmara Técnica que se baseou no modelo correspondente do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) e na Câmara Técnica de Educação, Capacitação, Mobilização Social e Informação em Recursos Hídricos (Cetem) do Conselho Nacional de Recursos Hídricos - CNRH.
Paralelamente, ao processo contínuo e participativo, realizou-se a Oficina para a Criação da Câmara Técnica de Educação Ambiental, em Bonito, no mês de abril de 2004. Contou com 60 educadores ambientais que identificaram demandas, atividades e ações a serem realizadas nos municípios envolvidos. Colheu contribuições dos participantes para criação e sustentabilidade da CTEA, com vistas a atender a estrutura do Cidema, a organização e oficialização do Conselho de Entidades.
Embora as comunidades já estivessem comprometidas com ações esporádicas, o processo de desenvolvimento de educação ambiental nas bacias indicava uma responsabilidade política a partir da integração e mobilização de pessoas e instituições. A idéia de promover educação ambiental na região visava mudanças de condutas entre as populações. Apontava, também para os agrupamentos urbanos e rurais que necessitavam de uma orientação efetiva para as ações de preservação ambiental, saneamento e sustentabilidade dos recursos ambientais.
Na ocasião, o representante do Programa Pantanal do Ministério do Meio Ambiente -MMA sinalizou a possibilidade de um Programa Formação de Educadores Ambientais na Bacia do Alto Paraguai, o que culminou com os ensejos dos educadores ambientais do Brasil. Propunha-se, então, o Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais (ProFEA), organizado sob a coordenação da Diretoria de Educação Ambiental do MMA.
Um segundo passo ocorreu em 21 de maio de 2004. Instala-se a CTEA e o Conselho de Entidades, com a participação dos 26 municípios de abrangência do Cidema e 22 instituições governamentais e não governamentais. Isto fortaleceu os indivíduos e o coletivo já formado, incluindo a EA, de forma direta e transversal, em todos os projetos do Consórcio.
Logo após, iniciaram-se as reuniões ordinárias (bimestrais), reuniões ampliadas nos municípios para a identificação de outros atores em vários segmentos sociais. Neste momento, novos anseios foram elencados e algumas prioridades definidas, estabelecendo como missão da CTEA, a de “promover a EA para uma mudança de paradigma, comportando a sustentabilidade ambiental como compromisso e responsabilidade política a partir da integração, participação social, integração e mobilização de pessoas e instituições nas Bacias dosa Rios Miranda e Apa”. Os esforços realizados durante a mobilização dos segmentos dos municípios, com otimização de recursos financeiros e humanos têm permitido a criação de redes locais, o que favoreceu a melhoria da participação em processos decisórios na região, tais como, a criação de comitês de bacia e de estruturas municipais de meio ambiente (secretarias, gerências, conselhos, fundos), com práticas nos municípios; envolvimento e anuência do executivo, legislativo, promotorias de
meio ambiente, sociedade civil e lideranças. Como resultado têm sido otimizado o estabelecimento de parcerias na formação continuada, potencializando assim, a atuação dos educadores em prol da conservação e gestão dos recursos hídricos.
Nos diversos encontros realizados foi demandado um Plano Integrado de Educação Ambiental para os Municípios das Bacias dos Rios Miranda e Apa. Em novembro de 2005, com a realização da Oficina para a Elaboração do Plano, com a participação ativa dos membros da CTEA engajados no enraizamento e difusão de atividades de EA na Região, foram estabelecidas as estratégias para o fortalecimento dos indivíduos e do coletivo do Cidema.
A capilaridade desse coletivo de educadores tem permitido o envolvimento e a realização de ações e atividades inerentes à educação ambiental como política pública na região. Para tanto, contou-se com a efetiva participação dos membros da CTEA na mobilização e articulação dos diversos atores da bacia do Rio Miranda. Esses esforços convergiram, em outubro de 2005, na criação do primeiro Comitê do Estado, o da Bacia do Rio Miranda, que ampliou a participação da sociedade civil na gestão dos recursos hídricos da bacia.
Essa união de forças e idéias também gerou o que denominamos certo protagonismo inerente aos diversos segmentos da sociedade organizada e a própria administração pública. O desenvolvimento de atividades e ações nos municípios, por sinal, é o que vem possibilitando a sustentabilidade e a busca de resultados compartilhados e integrados para a execução do Plano Integrado de EA, sinalizando, assim, novos subsídios para a elaboração do Plano de Bacia do rio Miranda e Gestão Compartilhada da Bacia Transfronteiriça do Apa.
O Processo Contínuo de Articulação para a Consolidação da EA
Com as atividades de EA iniciadas a partir do Ciclo das Águas e do Plano Integrado de EA para as Bacias dos Rios Miranda e Apa, foi possível a elaboração e aprovação, pelo Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA) e Diretoria de Educação Ambiental/DEA/MMA, do projeto “Formação de Educadores Ambientais para a Sustentabilidade das Bacias dos Rios Miranda e Apa – Coletivo Educador do Cidema”. O projeto atendeu ao Edital n° 05/2005 de Estruturação e Fortalecimento de Coletivos Educadores para Territórios Sustentáveis.
O projeto, em andamento, está disseminando informações junto às lideranças dos municípios e teve como resultado prático, a ampliação contínua do número de atores envolvidos no processo de difusão de informações. Vários desafios são postos permanentemente ao buscar a arquitetura de capilaridade proposta no Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais, em função, especialmente da diversidade territorial, do contexto ambiental, sociocultural e conseqüentemente sócio-econômico do território de abrangência.
Desde a aprovação do Projeto, foram realizados 10 encontros oficiais, 01 reunião de apresentação do projeto aos Prefeitos e Instituições, 05 reuniões de Articulação e 05 reuniões
ordinárias da CTEA, além de reuniões de estratégias e de articulação institucional para as ações e a definição de agenda de trabalho. Outros encontros tem contado com a participação expressiva de representantes de municípios e instituições parceiras. Na pauta, estão os conceitos do ProFEA, a definição de papéis dos diversos atores do Coletivo, além do Encontro Estadual do Fórum de Lixo e Cidadania.
Para a mobilização e apresentação do projeto aos quatro segmentos elencados no projeto: comunidade escolar, agentes e lideranças comunitárias, catadores de materiais recicláveis, e administração pública, foram realizadas nos meses de outubro a dezembro de 2006, reuniões locais, com a participação de aproximadamente 600 pessoas nos 26 municípios das bacias dos rios Miranda e Apa.
No sentido de garantir a participação e decisão dos diversos segmentos, ao final de cada reunião ficou definida uma Comissão Permanente para o Acompanhamento do Coletivo Local, com a representação dos diversos segmentos. A mesma tem a função de acompanhar e apoiar os PAP2 (representantes da CTEA) no processo de seleção. Para tanto, realiza-se reuniões com os demais participantes dos segmentos e indicação democraticamente cada representante.
A Formação dos Educadores Ambientais
O projeto de formação, por sua vez, foi estruturado em quatro eixos: articulação, mobilização e planejamento do Coletivo educador; desenvolvimento dos processos educativos (formação de educadores ambientais, educomunicação sócio-ambiental, educação por meio de estruturas educadoras e educação em foros e coletivos); avaliação participativa e planejamento da continuidade e ampliação do processo de formação; e comunicação.
Foi dada ênfase à comunicação, em atendimento às exigências do Edital do MMA, viabilizando a disseminação e democratização de informações. De acordo com os quatro eixos do programa educador ambiental da CTEA, utiliza-se jornais, internet e rádios comunitárias que colocam a sociedade em contato direto com o Coletivo Educador, proporcionando uma maior interação entre ambos. A articulação do projeto com a imprensa permite reforçar a participação da população na realização deste trabalho.
Como uma ferramenta fundamentada na participação utiliza-se o envolvimento e comprometimento da comunidade, com base no relacionamento direto, no diálogo e acompanhamento direto junto a comunidade, tendo em vista a inter-relação e articulação com nos diversos programas e projetos existente no Estado.
Cada membro da CTEA tem a tarefa de identificar novos parceiros institucionais que poderão contribuir durante o processo de formação de educadores ambientais. Outra atitude de suma importância para os coletivos educadores, consiste no fomento de novas lideranças populares que possam formar novos coletivos e redes, em favor do meio ambiente. Conforme os pressupostos
do ProFEAP, isto só acontecerá se os educadores ambientais que estão em ação se retirarem da cena central e permitirem que novos atores sociais ocupem um espaço de maior atuação.
Um diferencial do Coletivo Educador Cidema diz respeito às articulações e intervenções nos municípios, que deve contar com a participação da própria população local, para identificar as necessidades e os problemas de cada região. Espera-se que desta forma, os resultados alcançados sejam legítimos.
Destaca-se, conforme Veiga (1998), que a reflexão norteadora do PPP exige uma reflexão profunda acerca da concepção de educação e uma consciência crítica da relação entre a sociedade e sua atuação. Portanto, ele deve garantir a participação efetiva dos sujeitos envolvidos.
O Projeto Político Pedagógico (PPP) do Coletivo Educador do Cidema está sendo elaborado a partir das demandas identificadas em cada encontro de articulação dos educadores ambientais, pois para sua legitimidade, sua construção precisa da contribuição de cada membro do Projeto. Paralelamente a esta elaboração, a formação do Coletivo Educador Cidema, em 2008, inicia-se por meio de cardápios (oficinas, cursos, palestras e intervenções). A duração mínima prevista é de 180 horas (presenciais e à distância para as intervenções nas comunidades). A certificação será realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ainda está previsto oferecimento de cardápios complementares em parceria com outras instituições.
Cada um dos 104 educadores selecionados (quatro por município) terá como responsabilidade o repasse das informações recebidas para pelo menos outras quatro pessoas de suas comunidades (processo de intervenção). Assim, espera-se o envolvimento direto de, no mínimo, 520 pessoas. Indiretamente outras centenas de pessoas devem ser atingidas com as ações de educação ambiental promovidas pelo programa.
Além de aulas de educação ambiental, a Formação do Coletivo Educador do Cidema disponibiliza aos alunos noções de comunicação sócio-ambiental e educomunicação com ferramentas para as intervenções (ações nas comunidades de cada aluno) propostas em curso. Como complemento das informações, ao longo do projeto, 8 informativos impressos “Boletim Coletivo” e on-line serão disponibilizados, além de uma pagina na internet e de outros materiais de apoio pedagógico. A situação sócio-cultural, econômico e ambiental foi diagnosticada, de forma a integrar as ações existentes, associando as intervenções com a disseminação dos resultados, a difusão das informações com o envolvimento dos diversos segmentos e atores locais, atingindo cada segmento e seu alcance, conforme descrição a seguir.
Comunidade escolar - apoio e fortalecimento das Com-Vidas (Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida nas Escolas) e outras atividades existentes.
Administração pública – incentivo à adequação da legislação, visando à organização de secretarias, gerências, departamentos, conselhos, fundos e outros coletivos.
Agentes e lideranças comunitários – incentivo à participação em coletivos locais de saúde, educação, meio ambiente, planejamento, entre outros.
Catadores de recicláveis – apoio com informações e mecanismos para a organização em cooperativas e/ou associações.
Assim, cada participante da formação, a partir dessa proposta se transformará em multiplicador de informações junto a sua comunidade. O projeto foi concebido no sentido de ser desenvolvido de forma contínua, com possibilidade de envolvimento permanente e progressivo da comunidade local.
No âmbito da comunidade escolar, a partir da articulação e discussões, os membros da CTEA/Cidema elencaram a Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (Com-Vida) como o coletivo a ser fortalecido, visando a formação direta de um educador ambiental por município. Conforme a metodologia do ProFEA, indiretamente, pelo menos outros quatro grupos são formados, o que totaliza o mínimo de 104 (cento e quatro) educadores(as) ambientais da comunidade escolar.
Aspectos Metodológicos e Projeto Político Pedagógico - PPP
O projeto está delineado com diretrizes da educação ambiental para atender o objetivo geral de formar lideranças populares e comunitárias, com o intuito de contribuir com as políticas públicas e a gestão do meio ambiente.
Pretende-se fortalecer as ações de educação ambiental desenvolvidas em cada localidade e criar condições para que as instituições formadoras ou as que tenham capacidade formativa realizem permanentemente a educação ambiental, de acordo com os seguintes preceitos:
- Processo coletivo, com a construção de um Projeto Político Pedagógico; - Reflexão dos grupos e a intervenção em suas realidades;
- Processos educativos através de diversos espaços; em foros e coletivos, com a formação de quadros de educadores;
- Formação realizada por meio de cardápios
- Consolidação da Educação Ambiental como Política Pública em cada localidade; - Proposição e desenvolvimento de ações para mudanças sócio-ambientais locais;
- Mapeamento das ações educativas e ambientais presentes nas regiões contempladas pelo programa.
O PPP ancora-se nos pressupostos do Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais e nos objetivos do Projeto Coletivo Educador do Cidema. Deve orientar as ações do projeto Cidema e as instituições envolvidas a melhorarem sua capacidade formativa e realizarem permanentemente a educação ambiental.
Alguns aspectos foram listados como desejados no Coletivo Cidema, ou seja:
- Proposição e desenvolvimento de ações para efetivar mudanças nas condições sócio-ambientais locais;
- Mapeamento das ações educativas e ambientais presentes na região de abrangência do projeto;
- Consolidação da educação ambiental como Política Pública.
Desde a aprovação do Projeto, em dezembro de 2005, foram realizados mais de 40 encontros e reuniões com representantes das Instituições Parceiras e dos 26 municípios, envolvendo, mais de 800 pessoas. O Projeto Coletivo Cidema já levantou as características dos municípios envolvidos,a identificação de públicos, as demandas socioambientais, os temas geradores de formação, alguns cardápios e as necessidades dos grupos envolvidos.
Nesse processo surgiu a necessidade de subsidiar os educadores e educadoras com material de apoio, tendo em vista que os mesmos, nem sempre tem acesso as “teorias” propostas pelos diversos programas e projetos de EA. O Caderno “Ciclo de Atividades de EA” foi criado para subsidiar os processos e procedimentos capazes de atender as diretrizes propostas na PNEA, proporcionando aos educadores e educadoras o acesso a informações para o fortalecimento de sua práxis. Visa incentivar as práticas de pesquisar, partilhar, construir visões, percepções e relações sobre questões relevantes em conjunto com os vários atores sociais do território.
Este material, passível de complementações, considera como prioridade a dinâmica das características sócio-culturais, econômicas e ambientais da comunidade.
Idealizado como uma Série de Educação Ambiental, o material está sendo elaborado na perspectiva de envolvimento dos indivíduos em uma releitura da comunidade, sociedade e mundo, considerando sempre a realidade local e do entorno. Outros cadernos serão produzidos, tendo, cada um, o foco de um Tema Gerador: água, resíduos sólidos, solo, biodiversidade, bioregionalismo, histórico-cultural, turismo, legislação, espaço escolar, participação social, gênero, entre outros.
O Caderno Zero, intitulado “Ciclo de Atividades de Educação Ambiental”, apresenta sugestões para a práxis de educadores e educadoras. Com uma proposta simples e didática objetiva promover a participação da comunidade em processos coletivos. Oferece sugestões de mobilização, estrutura o passo a passo das ações. Os pensamentos e obras de Paulo Freire são
norteadores da reflexão, tendo em vista o papel de Freire como referencial da Educação Ambiental.
A proposta descrita do Ciclo de Atividades de EA contribui para uma releitura da realidade, que considera a comunidade local e global. Poderá ser adaptada e utilizada em quaisquer ações. Está amparada nos ensinamentos de Paulo Freire.
Freire, há mais de 40 anos nos ensina muitas questões fundamentais sobre a pedagogia do oprimido, a práxis pedagógica, o diálogo. Para o autor, o ponto de partida para uma transformação a partir da educação está nos próprios homens que percebem que “a existência humana não pode ser muda, silenciosa, nem tão pouco nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com os homens transformam o mundo” (Freire, 2005, p. 92). Infere Freire, que o diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo e é dele a superação dos problemas humanos.
O Caderno Zero contém subsídios e ferramentas para a organização de atividades nas comunidades. Nele foram inseridas inúmeras epígrafes de autoria do educador Paulo Freire, extraídas de suas principais obras. A proposta alinha-se, portanto, às orientações do ProFEA, ao pautar-se na premissa de que cada indivíduo, grupo, ou coletivo, deve se responsabilizar por sua formação contínua, ser capaz de diagnosticar e interpretar sua realidade, sonhar sua transformação, planejar intervenções, implementá-las e avaliá-las (FERRARO JÚNIOR, 2005). A avaliação desse material encontra-se em andamento. Este processo será contínuo e contará com a participação de educadores e educadoras ambientais de 26 municípios. Consta no Caderno Zero uma ficha de avaliação. Espera-se, também, a produção de relatos de experiências pelos educadores (as). Os envolvidos estarão exercendo, assim, o papel de críticos e auto-críticos. A responsabilidade de cada participante da Formação é fazer a multiplicação a pelo menos outras quatro pessoas junto as suas comunidades de origem. Com os próximos passos do Caderno Zero da Série EA, Ciclo de Atividades de Educação Ambiental, cada participante da Formação assume a responsabilidade de fazer a multiplicação junto as suas comunidades de origem realizando as seguintes atividades:
Atividade 1 - retornando aos seus municípios, os participantes terão que se reunir (quatro segmentos), discutir e acordar sobre como cumprirão as atividades propostas.
Atividade 2 - cada participante deverá reunir-se com a sua comunidade de origem e fazer o repasse do que foi tratado no Primeiro Encontro de Formação do Coletivo Educador.
Atividade 3 - todos os participantes da Formação e seus convidados (pessoas que participaram da Atividade 2), deverão reunir-se e discutir sobre as atividades realizadas e encaminhar um breve relato para ser disponibilizado na página do Coletivo Educador.
Independente da identificação macro (os temas gerais) já realizada durante o PPP, é importante que cada comunidade discuta e determine quais as temáticas específicas necessárias ao seu território. Essas temáticas ou temas podem se desdobrar em outras, facilitando assim o estabelecimento de estratégias e um plano de ação local.
Dos educadores ambientais, espera-se a compreensão do sentido de educar ambientalmente, conforme propõe Guimarães (2004). Para o educador, esse sentido vai além da sensibilização para os problemas ambientais. Assim, alerta que é necessário superar a noção de sensibilizar como uma compreensão racional, pois sensibilizar envolve também o sentimento de amar, cuidar, doar, integrar e pertencer. Nesta visão, os problemas ambientais não são atividades-fim, pois neste caso, privilegia-os na ação reflexiva da práxis e da intervenção que ocorre durante o processo educativo.
Com esse entendimento, espera-se das ações desenvolvidas pelo Coletivo Educador Cidema, a realização de uma educação ambiental que se coloca verdadeiramente comprometida com a libertação, a intencionalidade e a problematização, conforme nos indicou Paulo Freire.
Referências Bibliográficas
________. Relatório de Gestão 2003/2006. MMA, Programa Nacional de Educação Ambiental, Diretoria de Educação Ambiental. 1° ed. – Brasília: Ministério do Meio Ambiente. 2007.
FERRARO JÚNIOR, L. A. (Org.). Encontros e caminhos: formação de educadoras (es) ambientais
e coletivos educadores. Brasília: MMA, Diretoria de Educação Ambiental, 2005.
FREIRE. P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983. 18ª edição. FREIRE. P. Educação e mudança. Trad. Moacir Gadotti e Lílian Lopes Martin. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987. 13ª edição.
FREIRE. P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996 (coleção leitura) 30ª edição.
FREIRE. P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005. 43ª edição. GUIMARÃES. M. A formação de educadores ambientais. Campinas, Papirus, 2004.
VEIGA, I. P. Perspectivas para a reflexão em torno do projeto político-pedagógico. In: Escola: espaço do projeto político pedagógico. Campinas, Papirus, 1988.