Vistos, etc.
Recebo a denúncia.
Cite-se, designado o dia 12.06.08, às 08h30min, para o interrogatório, e às 14h30min, para as duas primeiras testemunhas do rol.
Acolho as declinações postuladas ao final da peça acusatória à constatação de que os fatos enunciados na exceção devem ser apurados na Auditoria de Santa Maria, porquanto, em tese, praticados na circunscrição territorial judiciária daquele juízo.
À pugnação de arquivamento, total endosso do juízo à fundamentação expendida pelo agente ministerial, concluído, à leitura da representação – dada também como documento probatório, às imputações delitivas -, que na narrativa das circunstâncias fáticas nela contida, vem destituída do dolo específico à configuração do crime de calúnia, inferido do conteúdo de uma suspeita fundada, adequadamente comunicada à autoridade ministerial e de cuja apuração surtiram as acusações subsumidas na denúncia em recebimento. Por óbvio, à vista deste resultado, não há, igualmente, identificação de informação de fatos falsos, máxime porque eles serviram à formação de um conjunto de indícios de veracidade.
Providencie, o cartório, no sorteio do CEJ, valendo-se de listagem atualizada dos oficiais da reserva remunerada, remetida pela Corregedoria da Brigada Militar e arquivada em pasta própria.
Decreto o sigilo do processo no que pertine ao nome e informações que envolvam a Aluna Oficial com identificação funcional nº ..., em salvaguardada a sua condição sanitária atestada nos enunciados probatórios, restringindo o acesso às partes, membros do órgão julgador e à Sra Escrivã.
À admissão da exordial acusatória – e em coerência a posição adotada em outros procedimentos criminais que tramitaram nesta justiça, nos quais figuraram como réus, Oficiais que exerceram a mesma e atual função do acusado -, entende o juízo ser conveniente e oportuno o afastamento do Cel. Nilson Nobre Bueno da posição de Comandante-Geral da Brigada Militar, não obstante sabida que a discricionariedade de tal procedimento administrativo caiba, exclusivamente, a Sra. Governadora do Estado.
Certa a inexistência de norma processual ou procedimental no âmbito desta justiça especializada que obrigue a autoridade administrativa a afastar das funções qualquer servidor que lhe seja subordinado, dando atenção à disposição constitucional de independência entre os poderes, como um dos princípios fundamentais da República, ( art. 2º da Constituição Federal), e da autonomia administrativa do Chefe do Poder Executivo em relação aos seus servidores, “ut” art. 82, II e XIII, da Constituição Estadual.
Entretanto, a postura do juízo busca resguardar a ética e a moralidade, indissociáveis de toda atividade pública, vendo-se que a conduta demonstrada pelo Cel. Nilson Nobre Bueno, enquanto Comandante-Geral da Corporação, violenta a moral de sua Instituição, na forma de sobreposição de interesses privados ao público, zelo a ser mantido justo porque ocupa a função maior da sua organização militar, ou seja, é réu pela prática de condutas eminentemente funcional (artigo 319 do Código Penal Militar – prevaricação), mas também por ações com intuito pessoal (artigo 251, § 3º, e artigo 312, ambos do Código Penal Militar – estelionato e falsidade ideológica, respectivamente).
Não pode ser outra a perspetiva da situação funcional do acusado simplesmente porque a função que ocupa, de reconhecida importância no cenário público, exige-lhe conduta translúcida, isenção e consciência de que seu afastamento somente contribuirá à preservação da organização militar que representa, sem provocação de embaraços a cada um de seus subordinados que diariamente representam a Corporação nas ruas e bem ais próximos da sociedade. Nesse contexto e nessa percepção da conduta do réu, torna-se incoerente o juízo não solicitar o afastamento dele da função que desempenha, modo de proteger a idoneidade do processo, ainda em fase inicial e vincenda a oportunidade da produção de provas. Mantê-lo na condição de Comandante-Geral, com certeza, causará sentimento de pressão ou sensação de constrangimento a qualquer subalterno que convocado judicialmente, ainda mais pela ampla repercussão que o episódio obterá na caserna, imediatamente após a divulgação do acolhimento judicial da denúncia contra ele ofertada. Enfim, pela gravidade e com tamanha divulgação interna, o afastamento evitará que, mesmo nada fazendo, mas só a sua presença, influencie ou prejudique a apuração dos fatos denunciados. Ora, o comando supremo ocupado pelo réu, como bem define o art. 23 do Estatuto da Brigada Militar, Lei Complementar 10.990/97, in verbis, “comando é a soma de autoridade, deveres e responsabilidades de que o servidor militar é investigado legalmente, quando conduz homens ou dirige uma organização policial, sendo vinculado ao grau hierárquico e constituindo prerrogativa impessoal, em cujo exercício o servidor militar se define e se caracteriza como chefe” é o quanto basta para assegurar o entendimento do juízo sobre possíveis pressões, até pelo natural e compreensível respeito que
seus subordinados prestam a sua hierarquia, superior a todos.
Por isso, e nessa linha de interpretação, é aplicável o dispositivo do art. 37 da mesma Lei, o
Servidor Militar cuja atuação no serviço revela-se incompatível com o cargo ou que demonstrar incapacidade para o exercício das funções policiais-militares a ele inerentes será o mesmo imediatamente afastado, sem prejuízo dos respectivos vencimentos e vantagens, salvo após decisão final do processo a que for submetido, desde que venha a ser condenado...
§2º O Servidor Militar afastado do cargo, nas condições mencionadas neste artigo, ficará privado do exercício de qualquer função policial-militar, até a solução final do processo ou adoção das providências legais que couberem ao caso”.
Ora, a previsão estatutária é ressonante com o art. 394 do CPPM: “o acusado solto não será
dispensado do exercício das funções ou do serviço militar, exceto se, no primeiro caso, houver incompatibilidade com a infração cometida”.
Dessarte, visando ressaltar a transparência com que a Brigada Militar tem agido nas investigações e julgamentos de seus membros, e já tendo o processamento do réu atingido repercussão estadual e reflexos na caserna, impõe, agora, pelas atitudes mentidas pelo Cel. Nilson Nobre Bueno, quebrada a higidez moral no desempenho da função, seu imediato afastamento da função de Comandante-Geral da Brigada Militar e sua conseqüente agregação, nos termos do artigo 92, § 1º, inciso III, letra “i”, do Estatuto da Brigada Militar, Lei Complementar 10.990/97, que determina : “a agregação é a atuação
ocupar vaga na escala hierárquica de seu quadro, nem permanecendo sem número.
§1º o servidor militar será agregado quando: (...)
III – for afastado temporariamente do serviço ativo por motivo de:
I – se ver processado, após ficar exclusivamente à disposição da justiça comum ou militar.
Assim, à apreciação da solicitação judicial, expeça-se ofício a Excelentíssima Senhora Governadora do Estado, solicitando que proceda, imediatamente, como Chefe Suprema da Brigada Militar, nos termos do artigo 82, inciso XIII, da Constituição Estadual, o afastamento do Cel. Nilson Nobre Bueno do exercício de sua funções de Comandante-Geral da Brigada Militar e sua conseqüente agregação.
Mediante protocolo, encaminhe-se ofício ao Sr. Chefe da Casa Militar, para entrega pessoal à Sra. Governadora do Estado.
Averbe-se. Intime-se.
Em 02 de junho de 2008.
Maria Emília Moura da Silva Juíza de Direito da JME