• Nenhum resultado encontrado

12º Encontro da ABCP 19 a 23 de outubro de 2020 Evento online

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "12º Encontro da ABCP 19 a 23 de outubro de 2020 Evento online"

Copied!
24
0
0

Texto

(1)

12º Encontro da ABCP 19 a 23 de outubro de 2020

Evento online

Área Temática: Política e Economia

NEOLIBERALISMO EXACERBADO: DEVASTAÇÃO AMBIENTAL E DEGRADAÇÃO SOCIAL

Andréia Galvão

Professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp

José Marcos Nayme Novelli

(2)

Resumo

O artigo tem como objetivos analisar as continuidades e rupturas entre os governos Bolsonaro, Temer, Dilma e Lula com relação às políticas ambiental e trabalhista. Mostraremos que a flexibilização da legislação, em um sentido regressivo, constitui um elemento de continuidade entre os governos. Ao mesmo tempo, observam-se diferenças significativas. A despeito dos retrocessos promovidos nos dois campos aqui analisados, partimos da hipótese segundo a qual a relação dos governos petistas com os movimentos sociais e a participação destes em instituições estatais possibilitaram alguns avanços legislativos e conquistas. Já a partir da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma, só há regressão. A regressão se dá tanto na legislação aprovada, quanto no que se refere à composição e ao funcionamento das instituições responsáveis pela implementação da política nessas áreas e ao próprio impacto das políticas adotadas. Verificam-se mudanças no perfil dos ministros, redução no número de servidores, cortes orçamentários, redução dos espaços de interlocução com movimentos sociais e degradação de direitos.

Palavras-chave: neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, reforma trabalhista, questão

ambiental

Abstract

The paper’s purpose is to analyze the continuities and ruptures in environmental and labor policies during Bolsonaro, Temer, Dilma and Lula governments. We will show that the flexibilization of legislation, in a regressive sense, constitutes an element of continuity among those governments, but we also see differences among them. Our hypothesis is that the relationship of PT governments with social movements and the participatory institutions have made possible some legislative advances and achievements. Nevertheless PT governments have also promoted setbacks in both fields anlyzed here. However from the beginning of the political crisis that culminated in President Dilma's impeachment, we find only regression. The regression occurs on the current legislation and on the composition and operationion of the institutions responsible for implementing the policieis analyzed and on the very impact of the implemented policies There are changes in the profile of ministers, reduction in the number of civil servants, budget cuts, reduction in the spaces for dialogue with social movements and degradation of rights.

(3)

Introdução

O presente artigo pretende abordar dois aspectos que marcam o aprofundamento do neoliberalismo no Brasil, sobretudo a partir da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016: a questão social, especialmente no que se refere à aprovação da reforma trabalhista, e a questão ambiental.

O debate sobre essas questões não é novo e não esteve ausente no período em que o governo federal esteve sob o comando do PT. No entanto, o impacto ambiental das políticas de desenvolvimento adotadas pelos diferentes governos nas últimas duas décadas é um dos aspectos pouco estudados no campo “política e economia”1, sendo geralmente realizado a partir dos movimentos ambientalistas e do debate sobre participação.

O projeto neoliberal se insurge contra a regulamentação que protege o trabalho e o meio ambiente da devastação. Embora o neoliberalismo não estivesse ausente nos governos petistas, foi atenuado pela tentativa desses governos, sobretudo a partir de 2006 com a posse de Guido Mantega no Ministério da Fazenda, de reorientar o desenvolvimento brasileiro a partir de uma perspectiva neodesenvolvimentista2. Os impactos dessa política, porém, são contraditórios (Singer e Loureiro, 2016), e isso se expressa tanto no campo trabalhista quanto no ambiental.

Essas contradições precisam ser analisadas a partir das características mais gerais dos governos do PT, definidos pela bibliografia como governos de conciliação de classe (Singer, 2012), como fruto de uma ampla frente política de teor neodesenvolvimentista (Boito Jr., 2012) ou como a tentativa de combinar dois elementos contraditórios: a agenda neoliberal e políticas sociais de alto impacto (Paulani, 2016). Com efeito, a estratégia de inserção da economia brasileira na economia mundial, através da formação de grandes grupos nacionais nas áreas nas quais empresas de engenharia pesada e agronegócio são, de fato, competitivas, levou a um retrocesso da agenda ambiental nos governos do PT. Um novo ciclo de financiamento de obras de infraestrutura com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção de hidroelétricas na região Amazônica fez com que as salvaguardas socioambientais criadas pela própria instituição para o financiamento de projetos deixassem de ser observadas.

A concepção segundo a qual a legislação ambiental prejudica o desenvolvimento econômico tem como correlato, no campo trabalhista, a tese segundo a qual o excesso de leis inibe a contratação e causa desemprego. No que se refere a esse aspecto, os governos

1Uma das raras exceções é a coletânea organizada por Little (2014).

2 Esta análise não é consensual na bibliografia. Para uma crítica do conceito de neodesenvolvimentismo, cf. Paulani (2017). Para uma análise dos limites do neodesenvolvimentismo, cf. Novelli (2014).

(4)

do PT fizeram “movimentos contraditórios em relação à regulação social” (Krein e Biavaschi, 2015, p. 47), introduzindo certos direitos (por exemplo, a extensão do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço às empregadas domésticas e a ampliação da licença maternidade) e reduzindo outros por meio do reconhecimento de contratos precários de trabalho.

Apesar de todos os seus limites, as políticas petistas provocaram descontentamentos os mais variados. A perda de dinamismo econômico a partir de 2013 abriu espaço para a retomada de projetos de flexibilização e “modernização” da legislação trabalhista e para a intensificação de críticas ao intervencionismo estatal e às políticas sociais dos governos do PT (Carneiro et al., 2018). A reação neoliberal às políticas neodesenvolvimentistas culminou com o documento do PMDB (Uma ponte para o futuro), que serviu de base para angariar o apoio do poder econômico para a derrubada do governo Dilma por meio de um golpe jurídico-parlamentar. Esse documento constitui a negação do projeto neodesenvolvimentista e o compromisso de Michel Temer com a adoção de uma política de austeridade, o que daria origem à EC 95/2016, que limitou por vinte anos o teto dos gastos públicos. Foi dentro desse contexto que se deu a aprovação da reforma trabalhista já sob ogoverno Temer, em 2017.

Bolsonaro aprofunda o combate à legislação e à fiscalização nessas duas áreas cruciais para o processo de acumulação e valorização do capital. Se o neodesenvolvimentismo é o “desenvolvimentismo possível dentro do modelo capitalista neoliberal periférico” (Boito Jr., 2012, p. 69) e o governo Temer representa a ofensiva política restauradora do campo neoliberal (Boito, 2018), a eleição de Bolsonaro representa a vitória do neoliberalismo extremado, exacerbando o combate aos direitos sociais, trabalhistas e ambientais.

O objetivo do artigo é analisar as continuidades e rupturas entre os governos Bolsonaro, Temer, Dilma e Lula com relação às políticas ambiental e trabalhista. Não se trata de pesquisa comparada, mas de uma reflexão suscitada pelo movimento comum observado: embora cada um dos campo possua suas especificidades, foram afetados pela flexibilização da legislação, em um sentido regressivo. Esse constitui um elemento de continuidade entre os governos. Ao mesmo tempo, observam-se diferenças significativas. Partimos da hipótese segundo a qual a relação dos governos petistas com os movimento sociais e os canais de participação que estes tiveram os governos possibilitou alguns avanços legislativos e conquistas.O aprofundamento da agenda neoliberal a partir da crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma reverte esse cenário, amplificando a degradação ambiental e produzindo devastação social.

(5)

Para discutir essa hipótese, analisaremos, na primeira parte do texto, os movimentos contraditórios dos governos petistas; na segunda, as mudanças proporcionadas pelo aprofundamento do neoliberalismo e, na terceira, a degradação sob Bolsonaro.

1. Os movimentos contraditórios dos governos petistas

A combinação de elementos contraditórios rapidamente mencionados na introdução fez com que as tendências de flexibilização das relações de trabalho verificadas no Brasil desde os anos 1990 fossem atenuadas, mas não revertidas, pelas políticas adotadas pelo executivo federal entre 2004 e 2014 (Krein e Biavaschi, 2015). Apesar das diferenças entre os governos Cardoso e os governos petistas, observa-se um traço comum no tratamento conferido à legislação trabalhista: a necessidade de modernizar e atualizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 19433. O pressuposto desse discurso é que há um excesso de leis e que a CLT é ultrapassada, sendo necessário adaptar as normas à realidade de cada setor e às transformações do capitalismo internacional4.

A tese da modernização das relações de trabalho se presta à defesa de formas mais ou menos abrangentes de flexibilização. A flexibilização irrestrita ou a reforma global das relações de trabalho é sustentada pelos defensores de uma perspectiva abertamente neoliberal, para quem a legislação trabalhista constitui uma excrescência, um anacronismo que “engessa” o mercado de trabalho porque impõe limites à livre contratação de trabalhadores5. A crítica à interferência do Estado no campo normativo tem como contrapartida a defesa da perspectiva contratualista. A lei, universal e ampla, deveria se tornar focalizada e residual, transferindo-se a definição das regras que regem as relações de trabalho aos contratos celebrados entre as partes interessadas. Não se trata, portanto, de ausência de regras mas, antes, de passar da regulamentação pelo Estado à regulação pelo mercado, na perspectiva de reduzir o escopo e o alcance dos direitos (Galvão et al., 2017).

3Ver, por exemplo, a declaração de Lula a respeito: “‘Ora, meu Deus do céu, longe de mim querer tirar direito de trabalhador [...] Mas não é possível que as coisas feitas em 1943 não precisem de mudanças em 2007, 2008. São 50 anos. O mundo do trabalho mudou’ […] Lula relatou que os sindicalistas dizem que um contrato especial de trabalho tornará mais precário o sistema e criará um ‘trabalhador diferente’. ‘Tudo bem, trabalhador diferente ele já é, quando está na rua, sem trabalhar’” (Nossa, 2007).

4 Ao contrário do que reza esse discurso, a legislação consolidada em 1943 não pode ser considerada anacrônica, já que foram promovidas 233 alterações até 2016 (Galvão et al., 2017). Além disso, embora a CLT tenha chegado a ter mais de 900 artigos, a legislação não é rígida, já que pode ser complementada pela negociação.

5 Cf. uma das mais ardorosas propagadoras dessa perspectiva, a Confederação Nacional da Indústria, no documento da CNI denominado 101 propostas para modernização trabalhista: “Um sistema trabalhista moderno é formado por uma base legal que trata dos direitos fundamentais e estabelece as regras do processo de diálogo entre as partes envolvidas, sendo o restante definido por negociações que levem em consideração especificidades setoriais, regionais e mesmo da cada empresa e de cada trabalhador. Nesse sentido, seria preciso substituir um modelo que quase tudo é definido em lei e muito pouco é negociado, por um outro que privilegie a negociação e reduza a tutela estatal homogênea” (CNI, 2012, p. 20).

(6)

Enquanto o governo Cardoso pretendia promover uma reforma global da legislação trabalhista, a estratégia adotada nos governos petistas foi distinta: buscou-se reformar pontualmente a legislação, introduzindo regras direcionadas para determinados públicos-alvo, como jovens ingressantes no mercado de trabalho e trabalhadores de micro e pequenas empresas, bem como ampliando as possibilidades de adaptá-las às condições locais/setoriais (Galvão, 2008).

O governo Lula reforçou as possibilidades de contratação flexível por meio da lei 10.748/2003, que instituiu o Primeiro Emprego6; e da lei 11.196/2005, que permite a contratação de prestadores de serviços na condição de empresas constituídas por uma única pessoa. Essa modalidade de contratação, denominada “pessoa jurídica” (PJ), tornou legal o que antes era uma forma de burlar os direitos trabalhistas, pois possibilita a dissimulação da existência de vínculo empregatício. Além de isentar-se do pagamento de férias, 13º salário, FGTS, horas extras, aviso prévio, o empregador transfere ao empregado contratado como PJ a responsabilidade de recolher os impostos decorrentes de sua atividade e de contribuir integralmente para a previdência. O governo ainda aprovou uma lei de falências na qual o salário deixa de ser crédito privilegiado7e facilitou a flexibilização do pagamento de direitos trabalhistas em micro e pequena empresas8. A criação da figura do Microempreendedor individual, por sua vez, tem uma dupla implicação: ao reduzir o valor da contribuição previdenciária para o autônomo ou o empreendedor individual, possibilita a formalização de sua atividade e lhe assegura proteção social em caso de doença e/ou aposentadoria9 mas, ao mesmo tempo, pode estimular a substituição de trabalhadores assalariados por falsos autônomos e, assim como a modalidade de contratação via PJ, pode constituir uma forma de ocultar a relação de emprego, fraudando o pagamento de direitos trabalhistas e encargos sociais.

A pressão das empresas pela redução de custos para fazer frente à competição internacional, sobretudo depois da crise de 2008, estimulou a adoção de medidas que buscam reduzir direitos e estimular alternativas ao assalariamento, como a prestação de serviços e o empreendedorismo, e o recurso a formas precárias de contratação, a exemplo

6Trata-se de um contrato de duração determinada de, no mínimo, 12 meses, para jovens entre 16 e 24 anos, parcela da PEA em que o desemprego é mais elevado.

7Cf. a Lei nº 11.101/2005, apenas as dívidas trabalhistas no valor de até 150 salários mínimos passaram a ser consideradas prioritárias em caso de falência da empresa, não havendo garantia de estabilidade no emprego enquanto durar o processo de recuperação da empresa.

8 A Lei Complementar 123/2006, que instituiu o Super Simples, dispensa as empresas enquadradas nesse regime da fixação de quadro de avisos e da anotação de férias em seus livros de registro, o que impede a verificação do cumprimento dos direitos por parte da empresa (a exemplo das férias e do horário de trabalho). Estabelece que a fiscalização trabalhista, dentre outras, tem caráter orientador, sendo necessário haver reincidência para o registro de infração (ou seja, na prática, não há penalidades ao descumprimento de direitos). 9Cf.Lei Complementar nº 128/2008.

(7)

da terceirização. A expansão da terceirização, tanto no setor privado quanto no setor público (especialmente nos setores de limpeza, vigilância e saúde, com a contratação via Organizações Sociais) impacta negativamente a proteção social, pois os salários e direitos dos terceirizados são rebaixados se comparados aos percebidos pelos trabalhadores diretamente contratados pelas empresas, o que faz com que o valor das contribuições previdenciárias e, consequentemente, dos benefícios a serem futuramente recebidos, seja reduzido (DIEESE/CUT, 2015). A desoneração da folha de pagamentos promovida em 2012, já no governo Dilma, também fragilizou a seguridade social, pois a contribuição previdenciária patronal foi reduzida, em alguns setores de atividade, de 20% para alíquotas que variavam de 1% a 2% (Diap, 2012). Os autônomos, por sua vez, contratados como MEI ou PJ, contribuem para a previdência com alíquotas muito baixas, o que afeta não só o valor de sua aposentadoria, como o volume de recursos destinados a financiar a seguridade social.

A tendência de flexibilização das relações de trabalho se manteve no governo Dilma. Ao recolocar em discussão uma eventual reforma na CLT, o governo admitiu a possibilidade de que novos contratos de trabalho (eventual e por hora trabalhada) fossem criados. Embora apresentados publicamente como uma forma de modernização que não acarretaria perda de direitos, esses contratos garantiriam aos trabalhadores eventuais e horistas um patamar de direitos proporcionais ao tempo efetivamente trabalhado, portanto, inferior ao estabelecido pela legislação existente10.

A prevalência do negociado sobre o legislado voltou à tona, com duas matérias negociadas com o movimento sindical: o Acordo Coletivo de Trabalho com Propósito Específico, proposto em 2011 pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, autoriza os sindicatos a negociar com as empresas acordos coletivos cujas cláusulas derrogam normas da CLT. A CUT foi a principal interlocutora do governo na negociação do Plano de Proteção ao Emprego (PPE) em 2014, uma medida que possibilita a redução da jornada com redução salarial.

A relação com o movimento sindical é um diferencial dos governos petistas, que estabeleceu diversos canais de comunicação com seus representantes, seja por meio da negociação direta com os diferentes órgãos do executivo, seja por meio da participação de dirigentes sindicais em diferentes esferas do governo e conselhos de políticas públicas, como o Fórum Nacional do Trabalho (FNT) e o Conselho de Desenvolvimento Econômico e

10

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,nova-lei-trabalhista-garante-carteira-assinada-a-empregado-eventual-e-por-hora-imp-,843740. Esses contratos - algo próximo ao que viria a ser o contrato intermitente introduzido na reforma implementada por Temer em 2017 - não avançaram no governo Dilma possivelmente devido à oposição do movimento sindical. Ver: http://cntm.org.br/flexibilizar-clt-ctb-e-cut-discordam-forca-sindical-mostra-concordancia/

(8)

Social (CDES). Os governos do PT ainda promoveram uma série de conferências para debater políticas públicas em diferentes áreas, o que assegurou novos espaços para a intervenção dos trabalhadores por meio de suas organizações sindicais e movimentos sociais. Além de prestígio e reconhecimento, o movimento sindical obteve novos recursos financeiros, com a lei das centrais, de 2008.

A proximidade do sindicalismo com o governo viabilizou a implementação de medidas que ampliaram a regulação pública do trabalho, tais como a política de valorização do salário mínimo (no governo Lula) e a regulamentação do trabalho doméstico (no governo Dilma). O salário mínimo foi valorizado em 76% entre 2003 e 2015 e a participação dos salários no PIB aumentou 4,1 pontos percentuais entre 2004 e 2014 (Rossi, Dweck e Oliveira, 2018). Ao mesmo tempo, demandas históricas do movimento sindical, como a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial, o fim da demissão imotivada e a assinatura da convenção 151 da OIT de modo a instituir a obrigatoriedade da negociação coletiva no setor público, não avançaram nas mesas de negociação. Nossa hipótese é que a participação sindical nas instâncias governamentais e a visibilidade dela decorrente possibilitaram o atendimento de algumas demandas dos trabalhadores, especialmente aquelas que afetavam menos a gestão das empresas.

Os dados do mercado de trabalho reforçam a tese dos movimentos contraditórios: ao mesmo tempo em que há avanço da flexibilização do trabalho, sobretudo com o aumento da terceirização, há melhora nos indicadores de emprego e renda. A taxa de desemprego caiu de 12,3% em 2003 para 6,8% em 201511 e o percentual de ocupados sem carteira de trabalho assinada e sem proteção previdenciária passou de 57% para 42% entre 2002 e 2013 (Krein e Biavaschi, 2015, p. 53). A redução do desemprego e da informalidade melhorou a posição dos trabalhadores no mercado de trabalho, mas esse processo foi revertido a partir de 2015.

Na área ambiental também verificamos movimentos contraditórios ao longo dos governos petistas. A abertura de novos canais de interlocução com a sociedade Civil, a exemplo das Conferências Nacionais de Meio Ambiente, criadas no governo Lula, possibilitaram a democratização do processo de discussão da política ambiental, ainda que as demandas ali apresentadas enfrentassem obstáculos para sua implementação (Losekann, 2012). Outro órgão importante, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA)12, que conta com a participação de povos indígenas e tradicionais, comunidade científica, sindicatos, registrou um aumento no número de conselheiros (IPEA, 2011).

11Pesquisa Mensal de Emprego, IBGE, disponível em: http://www.ipeadata.gov.br/exibeserie.aspx?serid=38401 12Orgão consultivo e deliberativo, criado pelo regime ditatorial militar (Lei nº 6.938, de 31/08/1981).

(9)

A despeito das instâncias de participação, as três principais agências no desenho institucional do Estado brasileiro no tocante às políticas ligadas à proteção do meio ambiente stricto sensu13 são o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), criado já no governo Lula, para gerir e fiscalizar as unidades de conservação federais14.

A legislação relativa ao meio ambiente é incremental e se constroi especialmente após a Constituição de 1988, tanto no aspecto institucional quanto no que se refere às políticas adotadas. No entanto, é preciso destacar que a mesma lei que criou o CONAMA criou também a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) e o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), instituindo “a responsabilidade civil objetiva por danos causados ao meio ambiente” (Leuzinger, 2014, p. 439).

Nos governos que se seguiram à Nova República, grosso modo, havia uma separação identificável entre os ocupantes do MMA, IBAMA e ICMBio e os do MAPA. Os que ocupavam os três primeiros órgãos tinham algum vínculo com a questão ambiental, seja por meio de militância em movimentos sociais e ONGs, seja em virtude de sua atuação enquanto cientistas ou políticos cujo mandato tinham alguma relação com a defesa da causa ambiental, ou ainda na condição de funcionários que pertenciam à própria burocracia do órgão (Abers e Oliveira, 2015), e que, portanto, tinham alguma identificação com a temática. O caso mais notório é o da ministra Marina Silva (2003-2008). Já os ocupantes do MAPA ou eram proprietários de terra, representantes das organizações do agronegócio ou membros da bancada ruralista. A origem dos ocupantes dos cargos de alto escalão dessas instituições contribuiu para viabilizar a adoção de legislação de combate ao desmatamento, a criação de unidades de conservação e o próprio fortalecimento institucional das agências encarregadas da implementação dessas políticas.

Apesar do avanço legislativo nos mandatos de Fernando Henrique Cardoso15 seu governo pouco fez no tocante ao fortalecimento da burocracia do MMA e ao combate efetivo ao desmatamento. No tocante à burocracia, a despeito da criação da carreira de Especialista em Meio Ambiente (Lei n° 10.140, de 11/01/2002), ocorreu, inclusive, uma

13 As políticas relativas ao clima estão sob a tutela do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e as políticas referente aos agrotóxicos ao Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (MAPA).

14 Criados, respectivamente, pela Lei nº 8.490, de 19/11/1992, Lei n° 7.735, de 22/02/1989, Lei n° 11.516, de 28/08/2007.

15Por exemplo, a criação da Lei de Biossegurança (Lei nº 8.974, de 5/01/1995 revogada pela Lei n° 11.105, de 25/03/2005), a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei n° 9.433, de 8/01/1997), a Lei de Crimes Ambientais (Lei n° 9.605, de 12/02/1998), a Política Nacional de Educação Ambiental (Lei n° 9.795, de 27/04/1999), o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC, Lei n° 9.985, de 18/07/2000).

(10)

redução no número de servidores. Já nos governos Lula, houve uma expressiva contratação, por concurso público, de servidores para o MMA.

Nos governos petistas também houve avanços na legislação, com a Política Nacional de Saneamento Básico (Lei n° 11.445, de 5/01/2007), que define sanameamento básico como um conjunto de serviços, de infraestruturas e instalações operacionais para o abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e drenagem e manejo de águas pluviais urbanas (art. 2°) com objetivo de universalizar o acesso respeitando o meio ambiente; a Lei da Mata Atlântica (Lei n° 11.428, de 22/12/2006), que regulamenta sua exploração e proteção; a criação do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (lei n° 12.114, de 9/12/2009), com a finalidade de assegurar recursos para apoio a projetos ou estudos e financiamento de empreendimentos que visem à mitigação da mudança do clima e à adaptação à mudança do clima e aos seus efeitos (art. 2°); a Política Nacional sobre a Mudança do Clima (Lei n° 12.187, de 29/12/2009), visando compatibilizar o desenvolvimento econômico-social com a proteção do sistema climático (art. 4°); a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n° 12.305, de 2/08/2010), que reúne um conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações adotados pelo Governo Federal, isoladamente ou em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal, Municípios ou particulares, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos (art. 4°); a Lei da Biodiversidade (Lei n° 13.123, de 20/05/2015) “estimula a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico que faz uso da biodiversidade brasileira16, entre outras.

No entanto, isso não significa que as questões ambientais tivessem prioridade no governo. A adoção da política neodesenvolvimentista, a construção das obras de infraestrutura previstas no Plano de Aceleração do Crescimento e o apoio, inclusive com crédito subsidiado pelo BNDES, ao agronegócio levaram à implementação de medidas controversas, como as usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio e a transposição do Rio São Francisco, que desencadearam conflitos com ambientalistas, indígenas e comunidades ribeirinhas. Os governos do PT enfraqueceram as regulamentações da política ambiental, rejeitaram relatórios técnicos contrários ao licenciamento ambiental de certas obras e, após intensa disputa, deram prosseguimento à construção de Belo Monte (Santos, 2014, Abers e Oliveira, 2015).

Entre os retrocessos verificados na legislação aprovada destacam-se a Lei de Biossegurança (Lei n° 11.105, de 25/03/2005, revogou a Lei nº 8.974, de 5/01/1995) e o novo Código Florestal (Lei n° 12.651, de 25/05/2012 alterada pela Lei n° 12.727, de

(11)

17/10/2012). Com a primeira, a competência para julgar e conceder a liberação dos

organismos geneticamente modificados (OGMs) foi transferida do MMA para o Ministério de Ciência e Tecnologia, sob alçada da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), um “espaço que não prevê a participação da sociedade civil com a justificativa de que se trata de uma comissão meramente técnica” (Losekann, 2012). No entanto, o quadro técnico do CNTBio não é habilitado para tratar de proteção do meio ambiente (Leuzinger, 2014: 444). A liberação do plantio e comercialização da soja geneticamente modificada Round Up Ready, levou não só à publicação da nova Lei de Biossegurança como à alteração da Lei do SNUC (Lei nº 11.460/2007), “pois a simples possibilidade de se cultivar OGMs no interior de unidades de conservação [...] já significa um risco à finalidade precípua desses espaços ambientais, que é a preservação da diversidade biológica” (Leuzinger, 2014: 443-447).

Se a regulamentação dos transgênicos foi fruto da pressão de grandes transnacionais do setor, bem como dos sojicultores, a mudança do Código Florestal atende aos interesses mais gerais do agronegócio. O novo Código promove a alteração dos parâmetros de metragem das áreas de preservação permanente, concede “ampla anistia” aos agentes de desmatamento ilegal e redefine as áreas de reserva legal de tal modo que se torna impossível recuperar a áreas degradadas. Apesar de Dilma ter feito vários vetos ao código aprovado pelo Congresso, ele é considerado menos protetivo do que o Código Florestal de 1965 (Leuzinger, 2014: 442-456). Mas os ruralistas queriam mais.

2. A reversão neoliberal

A partir de 2015, em meio à crise do segundo mandato de Dilma, a agenda neoliberal ganha novo fôlego (Boito, 2018; Carneiro et al., 2018). A adoção de uma política de austeridade abre espaço para a desconstrução de direitos. Os movimentos contraditórios verificados até então desaparecem, dando lugar ao reforço da perspectiva de flexibilização das relações de trabalho, num contexto de deterioração dos indicadores de emprego e renda. O documento Uma ponte para o futuro sinaliza o compromisso de Temer com as reformas trabalhista (ao propor, dentre outras medidas, a derrogação da lei pela negociação coletiva e a ampliação da terceirização para todos os tipos de atividade) e previdenciária.

Apesar da expansão da terceirização, já apontada, a regulamentação restritiva dessa modalidade de contratação desagradava os setores patronais17. Em 2015, a tramitação de antigos projetos que autorizavam a terceirização das atividades principais das empresas foi

17A Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST) autorizava a terceirização em atividades-meio, ou seja, atividades não diretamente relacionadas à razão de ser da empresa.

(12)

retomada em regime de urgência, culminando com a aprovação da Lei 13.429/2017, que eliminou as barreiras legais para a terceirização de qualquer atividade.

Com a ascensão de Temer, a posição em prol da flexibilização se tornou majoritária no executivo federal, no legislativo e mesmo no judiciário trabalhista18. O projeto de reforma trabalhista encaminhado pelo governo Temer ao Congresso (PL 6.787/2016), que culminou na promulgação da Lei 13.467/2017, recebeu 842 emendas na Câmara dos Deputados. As emendas, acolhidas em sua maioria pelo relator, deputado Rogério Marinho (PSDB/RN), ampliaram o projeto original do governo19. O parecer do relator parte do pressuposto de que a legislação trabalhista promove injustiças e que o contrato de trabalho é um contrato entre “iguais”. Sua argumentação enfatiza a defesa da segurança jurídica e o combate ao ativismo jurídico em nome da autonomia da vontade coletiva e da “justiça social”. Segundo o deputado, o entendimento direto entre as partes interessadas possibilitaria “empreender com segurança”, “atendendo as vontades e as realidades das pessoas” (Marinho, 2017, p. 19).

A reforma aprovada autoriza novas modalidades de trabalho precário (autônomo permanente, trabalho intermitente); transfere ao trabalhador a responsabilidade e os riscos inerentes ao processo de trabalho (teletrabalho, uberização); afrouxa as normas relativas à saúde e à segurança do trabalhador; reduz a fiscalização das empresas; dificulta o acesso à Justiça do Trabalho; possibilita a descentralização na definição das regras; autoriza a negociação individual de aspectos importantes da relação de trabalho; autoriza a derrogação da lei pela negociação; asfixia financeiramente os sindicatos e os fragiliza (pois como criar uma identidade coletiva entre trabalhadores sob diferentes contratos?). Desse modo, reforça as características da estrutura ocupacional brasileira, historicamente marcada pela alta informalidade e pela rotatividade no emprego, fomentando o empreendedorismo e diminuindo a proteção social (Galvão et al, 2017; Galvão e Krein, 2018). Desde então, observa-se o crescimento da precariedade e da informalidade no mercado de trabalho (Krein e Oliveira, 2019; Filgueiras, 2019). Além disso, ao contrário do prometido por seus defensores, o desemprego não se reduziu (Teixeira, 2019).

No que se refere à questão ambiental, a Ponte para o Futuro faz apenas uma alusão a ela ao acenar para o empresariado, especialmente do campo, com o compromisso de “promover a racionalização dos procedimentos burocráticos e assegurar ampla segurança 18De acordo com o então presidente do TST,Ives Gandra Martins Filho,a flexibilização era um requisito para

conferir “prestígio à negociação coletiva” e quebrar “a rigidez da legislação”. Afinal, “nunca vou conseguir combater desemprego só aumentando direitos”. Cf.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/11/1933111-e-preciso-flexibilizar-direitos-sociais-para-haver-emprego-diz-chefe-do-tst.shtml

19Posteriormente, Marinho seria secretário especial da previdência e trabalho no governo Bolsonaro, tendo um papel de destaque na aprovação da Reforma da Previdência, e ministro do Desenvolvimento Regional.

(13)

jurídica para a criação de empresas e para a realização de investimentos, com ênfase nos licenciamentos ambientais que podem ser efetivos sem ser necessariamente complexos e demorados”. Mas a tentativa de aprovar um novo marco legal para a realização do licenciamento ambiental não prosperou devido ao veto do ministro do Meio Ambiente20 de Temer, José Sarney Filho, que já havia sido ministro da mesma pasta no segundo governo Cardoso. Apesar da pressão ruralista, o governo Temer manteve funcionários de carreira à frente dos órgãos de gestão e fiscalização federais: a presidência do IBAMA foi ocupada por uma Consultora Legislativa da Câmara dos Deputados e doutora em Ciência Política pela UnB e a presidência do ICMBio por dois servidores com carreira na área ambiental, o que também pode ter ajudado a conter o movimento de devastação.

Temer também negou a concessão de licenças ambientais para projetos hidrelétricos e de exploração de petróleo na Amazônia (Calixto, 2017), criou o programa RenovaBio para incentivo da utilização de fontes de energia renováveis, aprovou a Política Nacional de Biocombustíveis (Lei n° 13.576, de 26/12/2017), sobre a destinação e a aplicação dos recursos de compensação ambiental e autorizou a contratação de pessoal por tempo determinado pelo IBAMA e pelo ICMBio (Lei n° 13.668, de 28/05/2018). No entanto, aprovou a Lei da Grilagem (Lei nº 13.465/2017), cuja constitucionalidade está sendo questionada no STF. Também enfrentou uma forte reação social por ocasião da extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) para permitir projetos de mineração (Decreto n° 9.142, de 22/08/2017), o que levou à revogação do mesmo (Decreto n° 9.147, de 28/08/2017). Por fim, deu início ao desmantelamento das agências estatais, especialmente na FUNAI, com redução do orçamento e extinção de cargos (Angelo, 2017).

No que se refere aos recursos destinados à política ambiental, convém lembrar que a EC 95/2016, ao estabelecer o congelamento do gasto primário da União, traz riscos de cortes adicionais para o orçamento da pasta. Por ser considerada marginal em relação a outras igualmente afetadas pelo teto de gastos, como saúde e educação, o risco de desmatamento e de desastres ambientais aumenta, ao mesmo tempo em que a capacidade de combate a incêndios se reduz (Gramkow, 2018).

3. A devastação bolsonarista

Desde Temer, verifica-se um processo ininterrupto de redução de direitos, que se intensifica sob Bolsonaro. Além de atacar de modo virulento os direitos sociais e restringir e/ou neutralizar os espaços de participação democrática em nome dos imperativos do

(14)

mercado, como é característico de governos neoliberais, Bolsonaro pratica sistematicamente uma política de arbítrio e fere os fundamentos da própria democracia.

A extinção do Ministério do Trabalho e de conselhos com participação da sociedade civil não exprime apenas uma questão organizacional. Nossa hipótese é que, além de denotar a falta de prestígio e o lugar marginal que a temática do trabalho ocupa no atual governo, ela facilita o desmonte das políticas e dos direitos trabalhistas. Além disso, revela o desprezo pelas instituições democráticas e pelos próprios sindicatos e movimentos sociais, que deixam de ser considerados interlocutores legítimos do governo para serem tratados como inimigos a serem eliminados. A eliminação pode se dar tanto por meio da criminalização e repressão dos movimentos sociais, quanto pelo estrangulamento de suas fontes de financiamento21.

A defesa de uma perspectiva abertamente patronal é traduzida, no plano do discurso, pela lógica do “menos pior”. Como declarou, ainda enquanto candidato, em visita à Associação Comercial do Rio de Janeiro: “Aos poucos, a população vai entendendo que é melhor menos direitos e [mais]emprego do que todos os direitos e desemprego” (Bolsonaro, 21/5/2018)22. Ao defender a informalidade como regra, Bolsonaro mira a legislação mas também as instituições públicas de fiscalização e justiça: “No que for possível, sei que está engessado o artigo sétimo [da Constituição], mas [a norma trabalhista] tem que se aproximar da informalidade [...] O Ministério Público do Trabalho, por favor, se tiver clima, a gente resolve esse problema. Não dá mais para continuar quem produz sendo vítima de uma minoria, mas uma minoria atuante”23. De acordo com essa posição, o mercado seria a medida mais justa de regulação do trabalho, pois “dadas as condições que existem na lei, você é desestimulado [a ser patrão no Brasil] [...] Se o governo não atrapalhar o empreendedor e o trabalhador com essa legislação enorme e com fiscalizações absurdas, com toda a certeza melhoraremos a questão do desemprego no Brasil”24.

Orientado por essa perspectiva de que a legislação atrapalha, onera e exprime uma desconfiança em relação à boa fé do empregador, o governo reduz recursos para fiscalização do trabalho e questiona o próprio papel dos auditores fiscais25. A redução de

21A Medida Provisória 873/2019 limitou a cobrança de contribuições sindicais (inclusive o imposto sindical) aos trabalhadores sindicalizados, definiu que o direito de oposição a qualquer tipo de contribuição estabelecida pelos sindicatos deveria ser exercido de modo individual — e não votado em assembleia — e impediu que as contribuições devidas aos sindicatos, inclusive mensalidades, fossem descontadas em folha de pagamento. A MP não foi votada no prazo de 120 dias estabelecido para sua conversão em lei e perdeu eficácia.

22Essa lógica foi reproduzida no contexto da pandemia de Covid-19, por meio da dicotomia entre emprego e vida. 23 Cf. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/12/lei-trabalhista-tem-que-se-aproximar-da-informalidade-diz-bolsonaro.shtml

24Entrevista ao programaRoda Viva, em 30 de julho de 2018.

25 Cf. https://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2020/09/fiscalizacao-trabalhista-cortes-bolsonaro/

(15)

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/09/verba-para-fiscalizacoes-trabalhistas-cai-pela-metade-no-recursos atinge especialmente as ações de combate ao trabalho em condições análogas à escravidão, cuja existência é inclusive descartada pelo governo: “o empregador [...] Não quer maldade para o seu funcionário nem quer escravizá-lo. Isso não existe. Pode ser que exista na cabeça de uma minoria insignificante, aí tem que ser combatido. Mas deixar com essa dúvida quem está empregando, se é análogo ou não é, você leva o terror para o produtor”26. Essa operação discursiva inverte a assimetria presente nas relações de trabalho e transforma o empregador em vítima: a este cabe receber garantias de que não será perturbado, ao passo que ao empregado é negada qualquer proteção estatal. Ao trabalhador, despojado de direitos, só resta confiar no mercado e apostar em seu mérito individual como “critério” de bem-estar.

Não por acaso, uma das principais medidas aprovadas pelo governo chama-se Lei da liberdade econômica. A lei 13.874/2019 dispensa empresas de até 20 empregados de efetuar registo de ponto, dificultando o controle da jornada efetivamente trabalhada e, por conseguinte, a fiscalização das empresas e a reclamação de direitos na Justiça. Também libera os dias e horários de funcionamento dos estabelecimentos, inclusive em feriados, sem a obrigatoriedade de pagamentos adicionais. Mas nada disso parece suficiente. O governo instituiu um Grupo de Altos Estudos do Trabalho (GAET) cuja tarefa é promover uma nova rodada de mudanças na legislação, com foco nas normas de segurança e saúde no trabalho e na organização sindical27. E apresentou, via medida provisória, a proposta de uma carteira de trabalho “verde e amarela” para legalizar a negociação direta entre patrão e empregado, sem que os direitos previstos na CLT e nas convenções coletivas precisem ser respeitados. A despeito da MP 905/2019 ter perdido a validade, ela compreende um conjunto de dispositivos que permanecem no horizonte do governo, como: o contrato “verde e amarelo”, um contrato de prazo determinado, voltado para jovens, com redução de alíquotas do FGTS e isenção de contribuições (previdenciária, salário-educação e sistema S); a liberalização do trabalho aos domingos sem necessidade de autorização sindical e sem pagamento em dobro, em caso de folga durante a semana; a exigência de dupla visita como regra para a fiscalização do trabalho, com maior prazo para empresas recorrerem e efetuarem o pagamento de multas devidas; a revogação da necessidade de inspeção prévia para início

governo-bolsonaro.shtmlAlém da redução de recursos, os dados indicam uma redução no número de auditores fiscais do trabalho. Essa redução já ocorria nos governos petistas, devido ànão reposição de aposentados.No entanto, entre 2005 e 2013, houve um aumento nas autuações (autos lavrados por auditores, embargos e interdições), bem como um aumento nos valores pagos como multas pelas empresas infratoras (Filgueiras, 2014), o que alimenta o discurso acerca das “fiscalizações absurdas” empreendidas por uma “minoria atuante”, conforme os termos empregados por Bolsonaro.

26Cf. Declaração em30 de julho de 2019:

https://oglobo.globo.com/economia/bolsonaro-critica-perda-de-propriedade-em-caso-de-trabalho-escravo-23843760.

(16)

de atividade empresarial; a redução das multas e menor valores para o cálculo de débitos trabalhistas.

A Reforma da Previdência aprovada em 2019 dificultou o acesso acesso à aposentadoria ao tornar obrigatória a idade mínima (fixada em 65 anos para os homens e 62 anos para as mulheres) e eliminar a possibilidade de aposentadoria com base no tempo de contribuição. A mudança na regra afeta especialmente os trabalhadores mais pobres e vulneráveis, que ingressam mais cedo no mercado de trabalho, e as mulheres, que acumulam o trabalho doméstico e os cuidados com a família, na medida em que se veem obrigados/as a se manter na ativa por mais tempo Além de aumentar o tempo de contribuição, a reforma reduz o valor dos benefícios, que passam a ser calculados com base na média de todo o tempo de contribuição, sem a possibilidade de descontar os 20% menores salários.

As medidas adotas pelo governo durante a pandemia de Covid-19 reiteram a lógica flexibilizadora e a tendência a contornar os sindicatos. A MP 927 garante aos empregadores a possibilidade de alterar os contratos de trabalho, unilateralmente ou mediante acordo individual, no período de calamidade pública. A MP 936 (convertida na lei 14.020), que instituiu o Programa de Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, autoriza acordos de redução da jornada com redução salarial e suspensão do contrato de trabalho, admitindo que, para certas faixas salariais, os acordos podem ser celebrados individualmente, sem a participação do sindicato.

A intensificação do processo de flexibilização do trabalho foi acompanhada pela deterioração do mercado de trabalho. A taxa de desocupação aumentou, entre 2015 e 2017 e, embora tenha se reduzido ligeiramente entre 2017 e 2019, essa redução mascara o fato de que muitas pessoas desistiram de procurar emprego. Em 2020, tanto a taxa de desocupação quanto a de subutilização aumentam, ao passo que a informalidade caiu, muito possivelmente em virtude do impacto da pandemia28.

Se, no caso do trabalho, o desmonte da política foi acompanhado pelo desmonte institucional, o caso do meio ambiente se deu de forma distinta. O MMA se mantém, mas é esvaziado institucionalmente e passa a operar de forma concertada com o MAPA. Além disso, o perfil dos ocupantes do primeiro escalão do MMA muda radicalmente. Se o agronegócio fez parte da frente política neodesenvolvimentista (Boito, 2012) ou da “coalizão produtivista” (Singer, 2015) e sempre esteve no comando do Ministério da Agricultura

28 Cf. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/28478- pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-13-3-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-29-1-no-trimestre-encerrado-em-junho-de-2020

(17)

durante os governos petistas, a principal novidade sob o governo Bolsonaro é a entrega do controle e da gestão das agências ambientais a nomes ligados à bancada ruralista ou àqueles que estão em sintonia com a agenda do agronegócio, como os agentes do aparelho repressivo estatal.

A nomeação de dirigentes em sintonia com a agenda ruralista e do agronegócio para os órgãos ambientais federais explica o retrocesso legislativo e institucional da proteção ao meio ambiente e aos povos originários. Ao mesmo tempo, a promoção de um discurso antiambientalista por integrantes do governo, seu empenho em promover a revisão de áreas de proteção ambiental, assim como em questionar e paralisar a demarcação de terras indígenas e quilombolas, intensificam a expropriação e a violência contra povos tradicionais. Os resultados saltam aos olhos: aumento da área devastada pelo fogo, pelo garimpo, pela extração de madeira e mineração, aumento do desmatamento e da grilagem; da liberação de centenas de agrotóxicos proibidos em outros países; e do número de assassinato de lideranças, sobretudo de indígenas.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, foi Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo entre 2016 e 2018 (Governo Alckmin) e candidato a deputado federal, em 2018, pelo Partido Novo, defendendo a agenda pró ruralista (violenta) contra o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e a proteção ao meio ambiente. A escolha do número do candidato (3006) não foi ao acaso: refere-se ao fuzil .30-06 Springfield, cuja munição foi utilizada em sua propaganda eleitoral29. Em seu currículo, destaca-se a condenação pela Justiça paulista por improbidade administrativa, em dezembro de 2018, por fraudar o processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê30. Seu discurso na famigerada reunião ministerial de 22/04/2020 constitui a melhor expressão da política que foi incumbido de implementar:

Nós temos a possibilidade neste momento, que a atenção da imprensa está voltada quase que exclusivamente para covid-19 [...] A oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação [...] Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid-19, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas31.

29 https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/ricardo-salles-defendeu-municao-de-fuzil-contra-esquerda-e-mst

30 Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2018/12/19/justica-de-sp-condena-futuro-ministro-do-meio-ambiente-por-improbidade-administrativa.ghtml.

31 Disponível em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/05/23/entidades-repudiam-fala-de-ricardo-salles-em-reuniao-ministerial.htm

(18)

O presidente do IBAMA é Eduardo Fortunato Bim. Procurador da Advocacia-Geral da União (AGU) na procuradoria do Ibama e mestre em direito ambiental pela Unimep, Bim manifestou-se publicamente pelo voto em Jair Bolsonaro no segundo turno. Defende uma maior celeridade no processo de licenciamento ambiental32. O ICMBio está em seu terceiro presidente no governo Bolsonaro. O primeiro foi o ambientalista Adalberto Eberhard, exonerado a pedido em abril de 2019, em razão da ameaça do ministro Salles em abrir processo administrativo contra os servidores do ICMBio e também por discordar da tentativa de fusão do IBAMA com o ICMBio33. Foi substituído por Homero de Giorge Cerqueira, coronel da Polícia Militar, que promoveu a militarização do órgão ao nomear policiais militares para as diretorias do ICMBio e que teria sido demitido, em agosto de 2020, em razão de divergências com o ministro Salles em relação aos incêndios no Pantanal34. Fernando Cesar Lorencini, coronel policial militar e Diretor de Planejamento, Administração e Logística do ICMBio, desde abril de 2019, tornou-se o novo presidente do instituto em setembro de 202035.

A composição do CONAMA foi alterada pelo Decreto n° 9.806, de 28/05/2019, o qual reduziu número de conselheiros de 96 para 23 membros, mas aumentou relativamente o número de vagas destinadas aos representantes do governo federal de 29% para 41% o que, obviamente, aumentou o controle do ministro sobre o resultado das votações.

A gestão Salles no Ministério do Meio Ambiente ensejou a propositura pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal, em julho de 2020, de uma ação civil pública por ato de improbidade administrativa contra o ministro. A petição está dividida em 4 seções (desestruturação normativa; desestruturação dos órgãos de transparência e participação; desestruturação orçamentária e desestruturação fiscalizatória), nas quais – de forma cristalina e minuciosa – apresentam-se as ações do ministro no desmonte da legislação e instituições ambientais36.

A política ambiental do governo Bolsonaro não causa surpresa. Entre 2013 e 2016, algumas manifestações do então deputado Jair Bolsonaro no plenário da Câmara dos

32 Disponível em https://www.oeco.org.br/noticias/procurador-da-agu-eduardo-fortunato-bim-presidira-o-ibama/ 33 Disponível em https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/04/16/presidente-do-icmbio-e-exonerado.ghtml 34 https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/bolsonaro-exonera-coronel-cerqueira-da-presidencia-do-icmbio

35 https://g1.globo.com/natureza/noticia/2020/09/22/coronel-da-pm-e-nomeado-presidente-do-icmbio.ghtml 36 Cf. http://www.mpf.mp.br/df/sala-de-imprensa/docs/aia-salles-1. Em 28/09/2020, por iniciativa do ministro Salles, o CONAMA revogou quatro resoluções que “restringiam o desmatamento e a ocupação em áreas de preservação ambiental de vegetação nativa, como restingas e manguezais, liberou queima de lixo tóxico em fornos usados para a produção de cimento; e derrubou uma outra resolução que determinava critérios de eficiência de consumo de água e energia para que projetos de irrigação fossem aprovados”. Disponível em:

https://g1.globo.com/natureza/noticia/2020/09/28/conama-derruba-resolucoes-que-restringiam-o-desmatamento-em-manguezais-e-restingas.ghtml.

(19)

Deputados expressavam a sua visão sobre a questão ambiental, sobre os povos originários, e seus vínculos com o agronegócio e a mineração predatórios37. A demarcação de reservas indígenas sempre foi criticada por Bolsonaro. Em pronunciamento em 08 de outubro de 2013 afirmara: “já temos 12% do território nacional demarcado como terra indígena. … Isso é um absurdo! … É justo uma reserva ianomani para 9 mil índios ter duas vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro?” “A política de demarcação de terra, de criação de parques e reservas está sufocando o Brasil, está sufocando a agricultura…” Trata-se da “indústria da demarcação de terras indígenas” afirmava em discurso proferido em 5 de dezembro de 2013 e em 9 de dezembro de 2015 respectivamente. “Temos uma enorme mina de potássio na região do Rio Madeira que não é explorada por vários motivos: licença ambiental – um Presidente com pulso resolveria o problema; questões de reserva indígena” (discurso em 23 de fevereiro de 2016).

Mas houve uma mudança nos discursos do deputado Bolsonaro, pois havia neles um viés nacionalista e uma preocupação com a soberania do território nacional. A autodeterminação dos povos indígenas era entendida como a criação de “nações dentro do Brasil… [que]... vedaria o ingresso de tropas militares nessas áreas demarcadas” (discurso em 29 de maio de 2014). ‘É também por uma questão indigenista criminosa, praticamente está inviabilizando explorar minério lá [Roraima]. Mas o Governo do PT fez um pré-acordo com a China, entregando o nosso nióbio... para a China…” (pronunciamento em 23 de novembro de 2016).

Já empossado presidente, ao participar do Fórum Econômico Mundial em janeiro de 2019, afirmou ao ex vice-presidente estadunidense Al Gore (1993-2001) - reconhecido pelo seu engajamento na defesa do meio ambiente -: “temos muita riqueza na Amazônia e eu adoraria explorar essa riqueza com os Estados Unidos”38. Em 2020, o governo Bolsonaro enviou à Câmara dos Deputados o PL 191/2020 para regulamentar a exploração de minérios em terras indígenas e lançou o Programa Mineração e Desenvolvimento com o objetivo de “atrair novos investimentos [públicos e privados, nacionais e internacionais] e promover o desenvolvimento e o crescimento sustentável no País”39. Também aprovou o novo marco legal do saneamento básico (Lei n° 14.026, 15/07/2020), considerada um exemplo da “privatização da água” (FERREIRA, 2020).

37 As manifestações foram compiladas e estão disponíveis em

https://agenciasportlight.com.br/index.php/2019/08/26/bolsonaro-e-o-exito-do-projeto-de-politica-ambiental-que-defendeu-por-anos-no-congresso-separamos-6-discursos-da-ultima-decada/? 38 Disponível em https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/08/24/interna_politica,1178957/adoraria-explorar-amazonia-com-os-eua-disse-bolsonaro-a-al-gore.shtml 39 Disponível em https://www.gov.br/pt-br/noticias/energia-minerais-e-combustiveis/2020/09/lancado-programa-mineracao-e-desenvolvimento-que-vai-estimular-retomada-do-pais e http://www.mme.gov.br/documents/78404/0/PAM_V4.pdf/1ac2c603-2f11-9efd-ee2a-3de8067b2e65

(20)

O primeiro ano do governo Bolsonaro foi marcado pelo grande aumento de queimadas na Amazônia Legal, com grande repercussão nacional e internacional. Dados divulgados em agosto de 2020 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) calculam o desmatamento de 10.129 km2 entre agosto de 2018 a julho de 2019, um aumento de 34,41% em relação ao mesmo período anterior40. Em agosto de 2019, houve o famigerado “Dia do Fogo”, no qual fazendeiros, madeireiros e empresários de Novo Progresso (PA) triplicaram o número de focos de incêndio. O INPE identificou 197.634 focos de queimada no Brasil em 2019, um aumento de 48% em relação a 2018 (132.872 focos)41. Em 2020, os eventos se repetem e atingem o Pantanal. Segundo Alberto Setzer, Coordenador substituto do Programa de Queimadas do INPE, “o aumento é de quase 200%, levando em conta que em 2019 já teve aumento de mais de 320% em relação a 2018”. E “Em 2020 o número de focos já ultrapassou qualquer outro ano que tínhamos registrado na série histórica, desde 1998”42.

A resposta do governo Bolsonaro tem sido negar as evidências, perseguindo os cientistas responsáveis pela divulgação dos dados43. Além de desmentir cientistas, Bolsonaro responsabiliza o pequeno produtor, o indígena, ou o clima, pelas queimadas. Como declarou na abertura da Assembleia Geral da ONU:

Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas…. O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição44.

Por fim, a devastação ambiental é acompanhada pela queda no número de servidores estáveis do MMA e por uma redução sistemática no número de fiscais no IBAMA: entre de 2010 e 2019 a redução foi de 55% e entre 2019 e 2020, de 47%45. O orçamento também se

40 Disponível em http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5465#:~:text=A%20taxa%20consolidada%20de%20des matamento%20tem%20um%20valor%203%2C76,%C3%A9%20apresentada%20na%20Tabela%203. 41 Disponível em http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal/outros-produtos/infoqueima/2019_12_infoqueima.pdf 42 Disponível em https://www.camara.leg.br/noticias/696913-inpe-confirma-aumento-de-quase-200-em-queimadas-no-pantanal-entre-2019-e-2020/

43 Como atesta a demissão de Ricardo Galvão, diretor do INPE, em agosto de 2019 e de Lubia Vinhas, coordenadora-geral de Observação da Terra do INPE em julho de 2020.

44 Disponível em https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/discursos/2020/discurso-do-presidente-da-republica-jair-bolsonaro-na-abertura-da-75a-assembleia-geral-da-organizacao-das-nacoes-unidas-onu

45Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/09/08/no-governo-bolsonaro-numero-de-fiscais-do-ibama-

despencou-e-desmatamento-disparou#:~:text=O%20n%C3%BAmero%20de%20fiscais%20do,%2C%20uma%20redu%C3%A7%C3%A3o%20 de%2055%25.

(21)

reduz redução a partir de 2018. Além disso, é importante destacar que até agosto de 2020, o MMA "liquidou somente R$ 105.410,00 nas ações orçamentárias “finalísticas”, isto é, políticas públicas sob condução do próprio ministério46. As atuações do IBAMA reduziram-se de 7.522 em 2017, para 5.750 em 2018, para 4.834 em 2019 e 1.187 em 202047.

Considerações finais

A análise das políticas ambiental e trabalhista adotadas nos diferentes governos aqui considerados mostra que, em todos eles, houve um processo de flexibilização na legislação. No entanto,seu conteúdo e as estratégias para promovê-la são distintas.

Os impactos contraditórios da política neodesenvolvimentista se expressam tanto no campo trabalhista quanto no ambiental. Em ambos os casos houve retrocessos, pois os sacrifícios impostos ao meio-ambiente e o estímulo ao empreendedorismo foram componentes fundamentais da política neodesenvolvimentista. Porém, se medidas flexibilizantes no campo das relações de trabalho estiveram presentes nos governos petistas, elas foram contrabalançadas pelo aumento do nível de emprego e a valorização do salário mínimo. A despeito dos retrocessos, houve avanços, e nem todos os aspectos da pauta de flexibilização total da legislação foram contemplados.

No campo ambiental, apesar da expansão de canais de diálogo e negociação com os movimentos sociais, a política neodesenvolvimentista produziu impactos socioambientais que não podem ser revertidos. A política ambiental foi subordinada à estratégia de desenvolvimento. Mas, com relação aos arranjos institucionais, é preciso destacar que os governos petistas impediram que as agências como o Ministério do Meio Ambiente, IBAMA e ICMBio, cujas políticas produzem impactos ambientais, fossem capturadas e controladas pelo agronegócio e suas expressões institucionais, como a bancada ruralista e as entidades representativas do agronegócio.

O fim do ciclo de commodities afetou o agronegócio, ao mesmo tempo em que os programas de assistência e agricultura familiar aumentaram o custo do trabalho para o setor, aumentando a pressão para que a flexibilização da legislação trabalhista e do meio ambiente fosse ampliada. A partir do golpe, esse processo muda de patamar, pois observa-se não mais um movimento contraditório de avanços e retrocessos, mas uma regressão geral. No campo trabalhista, trata-se da volta da “mercadorização” da força de trabalho e da

46 http://www.observatoriodoclima.eco.br/wp-content/uploads/2020/09/nota-OC-execuc%CC%A7a%CC%83o-orc%CC%A7amenta%CC%81ria-MMA-Administrac%CC%A7a%CC%83o-Direta-final.pdf

(22)

própria questão social. No caso ambiental, de reduzir ou eliminar as restrições para o licenciamento ambiental, e revogar medidas anteriormente adotadas pelo Estado, como a demarcação de reservas indígenas e quilombolas. No plano do discurso, é interessante

notar como

modernização, democracia (essa mesma em franca deterioração) e liberdade são expressões invocadas para justificar uma política de “liberar geral”.

No governo Bolsonaro, além das alterações na legislação, ambas as áreas são afetadas pelo desmonte das agências estatais, seja mediante sua pura e simples extinção, como o Ministério do Trabalho e Emprego, seja através da asfixia orçamentária, o que prejudica a atuação do Ministério do Meio Ambiente, bem como as condições de trabalho da inspeção ambiental e a própria fiscalização efetuada por auditores do trabalho. O embate em torno da definição do que seria um trabalho análogo à condição de escravo, que opõe ruralistas, de um lado e ambientalistas, movimentos populares e instituições de regulação do trabalho, de outro, sugere que as duas áreas aqui analisadas estão embricadas, afinal, destruição da natureza e daforça de trabalho caminham juntas.

Referências bibliográficas

ABERS, Rebecca Neaera e OLIVEIRA, Marília Silva de. Nomeações políticas no Ministério do Meio Ambiente (2003-2013): interconexões entre ONGs, partidos e governos. Opinião Pública, 21(2), 2015, p. 336-364.

ANGELO, Maurício. Assim é, se lhe parece: Brasil regride 50 anos em 2 no governo Temer. Disponível em https://br.boell.org/pt-br/2017/10/31/assim-e-se-lhe-parece-brasil-regride-50-anos-em-2-no-governo-temer. Acesso em 10/12/2019.

BOITO JR. Armando. Governo Lula: a burguesia nacional no poder in: BOITO JR. Armando; GALVÃO, Andréia (Eds.). Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000. São Paulo: Alameda Editorial, p. 67-104, 2012.

BOITO, Armando. Reforma e crise política no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, São Paulo: Editora da Unesp, 2018.

CALIXTO, Bruno. O desmanche ambiental do governo Temer. Para ganhar apoio no Congresso, o presidente sacrifica salvaguardas ambientais do país, acelerando o retrocesso dos últimos anos. Disponível em https://epoca.globo.com/ciencia-e-meio-ambiente/blog-do-planeta/noticia/2017/09/o-desmanche-ambiental-do-governo-temer.html. Acesso em 10/12/2019.

CARNEIRO, Ricardo et al. (Org.) Para além da política econômica. São Paulo: Editora Unesp digital, 2018.

CNI. 101 Propostas para Modernização Trabalhista. CNI, Brasília, 2012.

DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Desoneração da folha e os impactos sobre o patrimônio da Seguridade Social. Boletim do DIAP, n. 267, dez, 2012. DIEESE/CUT. Dossiê Terceirização e Desenvolvimento, uma conta que não fecha. São Paulo, 2015.

FERREIRA, Ramon de Souza. Valorisation and commodification of water.Research, Society and Development nº 9 (7), 2020, p. 1 - 19.

(23)

FILGUEIRAS, Vitor. As promessas da Reforma Trabalhista: combate ao desemprego e redução da informalidade. In: Krein et al, (Org.) Reforma trabalhista no Brasil: promessas e realidade. Campinas: Curt Nimuendajú, 2019, p. 13-52.

FILGUEIRAS, Vitor. Padrão de atuação da fiscalização do trabalho no Brasil: mudanças e reações. Revista de Ciências Sociais, n. 41, Outubro de 2014, p. 147-173.

GALVÃO, Andréia; KREIN, Jose Dari; BIAVASCHI, Magda; TEIXEIRA, Marilane (Org.) Dossiê Reforma Trabalhista. In: Teixeira et al. (Org.) Contribuição Crítica à Reforma Trabalhista. Campinas: Unicamp/Cesit, 2017, p. 25-56. Disponível em: http://www.cesit.net.br/wp-content/uploads/2017/06/Dossie-14set2017.pdf. Acesso em 15 jul. 2018.

GALVÃO, Andréia. Entre o real e o virtual: as reformas sindical e trabalhista no governo Lula. In: LUCENA, Carlos; PREVITALI, Fabiane (Eds.) Capitalismo, Estado e Educação. Campinas: Átomo-Alínea, p. 207-223, 2008.

GALVÃO, Andréia; KREIN, José Dari. A contrarreforma trabalhista e a fragilização das instituições públicas do trabalho. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. v.53, p.89-106, 2018.

GRAMKOW, Camila. Política ambiental no Brasil: perspectivas a partir do gasto público federal. In: ROSSI, Pedro; DWECK, Ester e OLIVEIRA, Ana Luiza. Economia Para Poucos: impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil. São Paulo: Autonomia Literária, 2018, p. 147-170.

IPEA. Processo Político e Decisório no Âmbito do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).Relatório de pesquisa 1. O Conama na Visão dos seus Conselheiros. Brasília, 2011.

KREIN, José Dari; OLIVEIRA, Roberto Véras de. Para além dos discursos: impactos efetivos da Reforma nas formas de contratação. In: Krein et al, (Org.) Reforma trabalhista no Brasil: promessas e realidade. Campinas: Curt Nimuendajú, 2019, p. 81-126.

LEUZINGER, Márcia D. Avanços e Retrocessos no Direito Ambiental Brasileiro. In.: LITTLE, Paul E. (org.). Os novos desafios da política ambiental brasileira. Brasilia: IEB, 2014.

LOSEKANN, Cristiana. Participação da sociedade civil na política ambiental do Governo Lula. Ambiente & Sociedade (Online), v. 15, p. 179-200, 2012.

MARINHO, Rogério. Relatório da Comissão Especial destinada a proferir parecer ao projeto de lei nº 6.787, de 2016. Brasília, abril de 2017.

NOSSA, Leonencio. Lula afirma que CLT precisa ser flexibilizada. O Estado de S. Paulo, 18 maio 2007.

NOVELLI, José Marcos N. O neodesenvolvimentismo no Brasil: ideias econômicas sem poder político. 38º Encontro Nacional da Anpocs, 2014. Disponível em:

https://www.anpocs.com/index.php/papers-38-encontro/gt-1/gt12-1/8926-o-neodesenvolvimentismo-no-brasil-ideias-economicas-sem-poder-politico/file

PAULANI, Leda. A experiência brasileira entre 2003 e 2014: Neodesenvolvimentismo? Cadernos do Desenvolvimento, vol 12, n. 20,2017,p. 135-155.

ROSSI, Pedro; DWECK, Ester e OLIVEIRA, Ana Luiza. Economia Para Poucos: impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. SANTOS, Ailton D. dos. Os Megaprojetos, o BNDES e o Tema das Savalguardas Socioambientais. In.: LITTLE, Paul E. (org.). Os novos desafios da política ambiental

(24)

SINGER, André. Cutucando onças com varas curtas: o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014), Novos Estudos Cebrap, n. 102, p. 42-71, 2015.

SINGER, André. Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SINGER, André e LOUREIRO, Isabel (Orgs.) As contradições do lulismo. A que ponto chegamos? São Paulo: Boitempo, 2016.

TEIXEIRA, Marilane. (2019). Os efeitos econômicos da reforma trabalhista. In: KREIN, Dari et al. (Org). Reforma trabalhista no Brasil: promessas e realidade. Campinas: Curt Nimuendajú, pp. 53-80.

Referências

Documentos relacionados

Com base no trabalho de Araújo (1989), nota-se que alguns conceitos como “mãe” e “pai” apresentam termos especiais dependendo do ponto de vista social ou individual, como por

Assim, ao proceder à correlação de Pearson entre as variáveis: motivação, ambiente de aprendizado, atividades de trabalho e família, estilo ativo, estilo reflexivo,

Tanto a proibição de venda de bebidas alcoólicas como a restrição de consumo de álcool é punível, sendo a única solução apresentada pelo Estado para o problema

Os aportes teóricos da pesquisa foram a resolução de problemas em seus aspectos históricos; a utilização da resolução de problemas em sala de aula segundo os documentos oficiais;

-Antes de utilizar Primperan tenha em atenção o intervalo entre as tomas de metoclopramida (de pelo menos 6 horas) especificado na secção da posologia e modo de administração,

Esperamos que estes princípios norteadores nos guiem para que todos juntos possamos obter um diálogo franco, aberto e fortalecido entre os segmentos, garantindo

Ganhar muitas almas demonstra que a igreja é mais santa que as outras, e o pastor e os seus integrantes usam esse discurso para convencer as pessoas não

Tendo em vista que os mecanismos pelos quais os principais metabólitos acumulados na DXB prejudicam o metabolismo energético cerebral não estão completamente esclarecidos, o