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Desiree dissertação Final

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Academic year: 2018

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A CIDADE VISTA A PARTIR DOS DESLOCAMENTOS E FLUXOS: Estratégias discursivas para narrar a villa miseria de Cristian Alarcón

Dalva Desirée Climent

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Estratégias discursivas para narrar a villa miseria de Cristian Alarcón

Por

Dalva Desirée Climent

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como quesito para obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos - Literaturas Hispânicas)

Orientador: Professor Doutor Ary Pimentel

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Estratégias discursivas para narrar a villamiseria de Cristian Alarcón

Por Dalva Desirée Climent Orientador: Ary Pimentel

Dissertação de Mestrado submetida ao programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Literários Neolatinos/Literaturas Hispânicas)

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Climent, Dalva Desirée.

A cidade vista a partir dos deslocamentos e fluxos: estratégias discursivas para narrar a villa miseria no romance de Cristian Alarcón./ Dalva Desirée Climent. – Rio de Janeiro: UFRJ / Faculdade de Letras, 2017.

xi, 116 fl. il.; 31 cm. Orientador: Ary Pimentel

Dissertação (Mestrado) – UFRJ / Faculdade de Letras / Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, 2017.

Referências Bibliográficas: f. 101-109.

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Primeiramente, agradeço a Deus, a quem recorri e em quem me amparei em muitos

momentos de dificuldade e de enfrentamento dos obstáculos. Nele encontrei forças para

conciliar a tripla jornada de mãe, professora e pesquisadora.

Gostaria de fazer um agradecimento especial a duas colegas que me deram ânimo e

coragem quando nem eu mesma acreditava em mim: Bárbara de Oliveira Santos e Simone

Silva do Carmo. Obrigada por toda a ajuda que encontrei no gesto generoso da amizade. Sei

que muito dessa conquista devo ao apoio de vocês.

Agradeço ao colega de curso Thiago Carvalhal, que me possibilitou um importante

contato para que eu realizasse um encontro com o escritor Cristian Alarcón.

A Julia Nelly, minha professora de produção textual, que me mostrou que a escrita

acadêmica também poderia ser um caminho a ser trilhado por mim.

Agradeço ainda a um grande amigo que fiz dentro dessa universidade, Peter de Sá

Pereira. Obrigada por me fazer rir cada vez que eu estava desesperada tentando entregar um

texto no prazo, ou fechar algum capítulo. Para além das conversas pelos corredores, das

mensagens que me recordavam dos prazos, surgia uma amizade que ultrapassa os limites da

UFRJ.

Agradeço ainda a Renata Dornelles, pelos conselhos iniciais, pelas caronas, pelos

livros emprestados.

Minha maior gratidão está reservada a meu filho, razão de tudo, por me arrancar

sorrisos nos momentos mais difíceis, por cada vez que me interrompia a escrita para me dar

um beijo, dizer que me ama e pelas vezes que tentava me ajudar escolhendo um título para um

capítulo, dizendo: “mamãe, coloca «plutz faqui zoool», seu professor vai gostar”. Te amo! Obrigada por ser meu motor, minha vida.

À minha mãe, que me deu duas pátrias para amar, por mudar sua vida nesse último

ano para que eu pudesse concluir esse curso de mestrado. Sem você, eu não teria conseguido.

Obrigada por tudo.

Ao meu marido, pelo companheirismo, pelas fotos e, principalmente no auxílio com

o sério problema que havia “entre a cadeira e o computador”.

Ao meu irmão, que, quando eu estava longe de Buenos Aires, me ajudou comprando

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diferentes modos, constituíram oportunidades de crescimento pessoal e intelectual.

Ao escritor Cristian Alarcón, por disponibilizar longas horas de uma tarde perdida no

final de 2015 para uma agradável conversa sobre imigração, literatura e política, obrigada.

Agradeço ainda aos amigos, que me aguentaram todo esse tempo falando do meu

objeto de pesquisa, me escutando, me acalmando e me dando força, em especial a Michelyne

Barros Costa Ferreira, que me injetou a vontade de realizar esse Mestrado, e mostrou os

primeiros caminhos a serem trilhados. Às diretoras das escolas onde trabalho, que entenderam

os momentos em que tive de me ausentar para participar de congressos e seminários, por

sempre me incentivarem dando ânimo e demonstrando total compreensão.

Aos meus alunos, que me ensinam a cada dia, que me fazem rir e chorar, por me

ajudarem a pensar em alguma coisa diferente da pesquisa por umas poucas horas.

Por fim, um agradecimento especial ao meu orientador, Ary Pimentel, por ser

desafiador, generoso e me mostrar e me incentivar a percorrer os caminhos que se abriam à

minha frente. Por cada livro indicado, pelas críticas, pelos elogios e, principalmente, pela

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Con la expansión global de los imaginarios se han incorporado a nuestro horizonte culturas que sentíamos hasta hace pocas décadas ajenas a nuestra existencia.

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CLIMENT, Dalva Desirée. A cidade vista a partir dos deslocamentos e fluxos: Estratégias discursivas para narrar a villa miseria no romance de Cristian Alarcón. Rio de Janeiro, 2017. Dissertação de mestrado em Literaturas Hispânicas. (Mestrado em Letras Neolatinas. Área de Concentração: Estudos literários Neolatinos.) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Rio de Janeiro, 2017.

A presente dissertação traz uma análise do romance Si me querés quereme transa, de Cristian Alarcón. O texto narra a cidade de Buenos Aires com foco na criação de uma villa miseria

fictícia, na qual se reúnem sujeitos provenientes de países limítrofes, trazendo para o campo da literatura a discussão do incremento da imigração no final do século XX, e as consequências desse fenômeno para as formas de relacionar-se com o outro. Priorizando a questão imigratória, o escritor enfatiza o problema da visão homogeneizante constituída a partir de um mito fundacional e visibilisa as práticas culturais de que os imigrantes fazem uso para apropriar-se do novo território. Desponta na obra a questão da religiosidade, que constitui um patrimônio simbólico e político dentro desses espaços, sendo um importante fator para ler as villas do Conurbano Bonaerense. Para dar conta da narração de territórios e sujeitos complexos, o escritor lança mão de diversas técnicas literárias e jornalísticas, transitando entre ambos campos e diluindo as fronteiras entre o real e o ficcional. Cria uma narrativa porosa, conforme define Garramuño, assimilando a experiência do real como ponto chave para a construção do romance. Ao lançar-se no desafio de narrar uma cidade fragmentada, constituída de diversas lhas urbanas, o escritor prioriza a independência da criação literária e, ao mesmo tempo que nos desafia a repensar o gênero romance, dialoga com o cânone da literatura latino-americana. O livro é composto por uma narrativa complexa, polifônica, com inúmeros personagens, vozes e arquivos, apresenta uma forte carga de subjetividade e experiência do autor, fornecendo-nos através de um espaço fictício uma leitura das diversas periferias em um único espaço e demarcando a complexidade multicultural da capital argentina atual e das diversidades encontradas nos textos da literatura recente que buscam narrar o urbano e os sujeitos da contemporaneidade.

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CLIMENT, Dalva Desirée. A cidade vista a partir dos deslocamentos e fluxos: Estratégias discursivas para narrar a villa miseria no romance de Cristian Alarcón. Rio de Janeiro, 2017. Tesis de Maestría en Literaturas Hispánicas. (Maestría en Letras Neolatinas. Área de Concentración: Estudios Literarios Neolatinos.) - Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Rio de Janeiro, 2017.

Este trabajo de investigación ofrece un análisis de la novela Si me querés quereme transa, de Cristian Alarcón. El texto narra la ciudad de Buenos Aires con un enfoque en la creación de una ficticia villa miseria, en la que se reúnen sujetos procedentes de los países vecinos, trayendo al campo de la literatura la discusión sobre el aumento de la inmigración en el siglo XX y sus consecuencias en las formas de relacionarse dentro de la urbe. Al priorizar el tema de la inmigración, el escritor acentúa el problema de la visión homogeneizante constituida a partir de un mito fundacional y visibiliza las prácticas culturales que utilizan los inmigrantes para apropiarse del nuevo territorio. Sobresale en la obra el tema de la religiosidad, que constituye un patrimonio simbólico y político dentro de esos espacios, siendo un factor importante para leer las villas del Conurbano Bonaerense. Para ejecutar la narración de territorios y temas complejos, el escritor hace uso de diversas técnicas literarias y periodísticas, transitando entre los dos campos y diluyendo los límites entre lo real y lo ficcional. Crea una narrativa porosa, como lo define Garramuño, asimilando la experiencia de lo real como punto clave para la construcción de la novela. Al lanzarse en el reto de narrar una ciudad fragmentada, constituida en varias Islas urbanas, el escritor enfatiza la independencia de la creación literaria y, al mismo tiempo que nos desafía a repensar el género novela, dialoga con el Canon de la literatura latino americana. El libro está compuesto por una compleja narrativa, polifónica, con numerosos personajes, voces y archivos, presenta una fuerte carga de subjetividad y de la experiencia del autor, nos ofrece a través de un espacio ficticio una lectura de varios barrios en un único espacio y destaca la complejidad multicultural de la capital Argentina y la diversidad encontrada en los textos de la literatura reciente que pretenden narrar lo urbano y los actores de la contemporaneidad.

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CLIMENT, Dalva Desirée. A cidade vista a partir dos deslocamentos e fluxos: Estratégias discursivas para narrar a villa miseria no romance de Cristian Alarcón. Rio de Janeiro, 2017. Master Tesis in Hispanic Literature. (Master in Letras Neolatinas. Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Rio de Janeiro, 2017.

This research concerns about the analysis of the novel “Si me querés quereme transa”, wrote by Cristian Alarcón. This novel guides itself in a way that we may think about the characters’ and territories”performance narrated in the work . When bringing to the middle of the narrative the creation of a fictitious slum inhabited principally by immigrants who come from boardline and andine countries, the author brings out lots of conflicts on account of this immigration. The research seeks to solve such conflicts considering the several cultural practices portrayed in the plot analysing the distinct functions of these strategies . We , therefore, retake in our work the importance of the immigration subject into the argentine society and how ,nowadays the customs shown demonstrate the need of the territory affirmation and appropriation . Among the several cultural strategies presentesd in the text we emphasize the uses of religiousness which make an enormous change in the usage ways of such strategies by the urban popular sectors . The narrative of peripheral territories gives us elements that make us reflect upon the representation of the argentine town in its own organization. Besides, it makes possible to distinguish the frontiers established between the formal city and the periphery. Another important point in this work is the creation of a fictitious slum that rises after na intense writer’s participation in the various territories . It is quite interesting,though, to approach the different strategies used by the writer who varies from the investigative journalism to the literature, mixing the frontiers between reality and fiction , the text configures itself as a porous narrative following the definition given by Florencia Garramuño, the author uses not only his own experience but also the ones obtained in files along a deep investigation with anthropological and ethnological characteristcs . Launching himself on the challenge of narrating a fragmented city made of various urban islands , the writer emphasizes the Independence of literary creation, and at the same time that he challenges us to rethink the novel gender, he also talks to the canon of latin american literature. The book is formed by a complex polyphonic narrative , full of characters, voices and files, besides it shows such a powerful author’s subjectivity and experience giving us through a fictitious space, an approach of the several peripheries in a unique space and determining the multicultural complexity of the current argentine capital and diversities found in the recent literary texts which seek to narrate the urban side and the subjects of the contemporaneous narrative.

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INTRODUÇÃO...13

1. A VILLA DEL SEÑOR NO CENTRO DA NARRATIVA: A REPRESENTAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PERIFÉRICOS...20

2. BREVE PERCURSO PELA HISTÓRIA DA IMIGRAÇÃO ARGENTINA...33

2.1 A REPRESENTAÇÃO DA RECENTE IMIGRAÇÃO NO ROMANCE...43

3. OS USOS DAS PRÁTICAS RELIGIOSAS; ESTRATÉGIAS DE NEGOCIAÇÃO E APROPRIAÇÃO DO TERRITÓRIO...55

4. A INVENÇÃO DA VILLA MISERIA: ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS, A POROSIDADE DA NARRATIVA DE CRISTIAN ALARCÓN...73

5. CONCLUSÃO...97

6. BIBLIOGRAFIA...101

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I- INTRODUÇÃO

O processo de massificação e globalização permitiu a debilitação ou o rompimento de fronteiras e a integração de diversos territórios e culturas que se concebiam de modo separado. Deslocamentos e fluxos de todos os tipos vêm transformando as economias, as sociedades e as formas como as pessoas se organizam e vivem a cidade. Desse modo, nos tempos atuais, impõe-se pensar os processos de desterritorialização e reterritorialização provocados no âmbito local devido aos fluxos transnacionais, gerando um novo cenário especialmente nas periferias das grandes urbes.

Historicamente um país de imigrantes, a Argentina não ficou alheia aos fluxos populacionais do final do século XX e nas últimas duas décadas recebeu uma grande massa de imigrantes oriunda dos países vizinhos e andinos. Esse processo gerou identidades complexas, que entram em conflito com o relato nacional hegemônico, até então um elemento fundamental para imaginar a nação.

A partir da década de 1990, o campo literário argentino sofre uma verdadeira reconfiguração e percebem-se produções que passam a tratar prioritariamente da representação das questões urbanas e seus imaginários. Há um destaque para escritores que apresentam em comum a experiência da história contemporânea e que nasceram após de 1970, como por exemplo, Juan Diego Incardona, Félix Bruzzone, Ariel Magnus e o autor da obra aqui analisada, Cristian Alarcón.

Ao priorizar em suas narrativas questões referente à cidade e suas periferias, desponta nesses textos a representação de um dos territórios que gera os mais diversos discursos: as villas miserias1 argentinas. Nesses locais, que apresentam algumas características similares às favelas cariocas, encontra-se, ao contrário destas, uma grande concentração de imigrantes de países como Bolívia, Peru e Paraguai, fato que reforça os discursos discriminatórios com relação a esses grupos e aos territórios periféricos.

Em alguns casos, para a representação desses espaços, surge um elemento importante, que é a experiência do autor dentro do território narrado. Esta dimensão da literatura do presente pode ser percebida em diversas formas dependendo da narrativa.

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Temos textos nos quais ocorre uma vivência muito próxima do escritor com a experiência narrada e esse é o caso de Cuando me muera quiero que me toquen cumbia

e Villa Celina, nome do romance e da villa onde Juan Diego Incardona nasceu e viveu intensamente alguns anos da sua juventude. Outra vertente traz o relato ficcional de uma experiência periférica que foi basicamente fruto da de observação, como se dá com La villa, de Cesar Aira, por exemplo. Ainda podemos destacar obras em que o contato com o território foi de certa forma bastante superficial, importando mais os relatos e visões que circula sobre essas localidades do que o contato direto. Isto é o que ocorre com o romance La 31, de Ariel Magnus. Em outras palavras, esses escritores tratam de narrar um presente, de certa forma vivido, observado ou lido por eles, e terminam por criar uma série de textos que buscam plasmar figurações da periferia (villas miseria da Capital Federal e localidades do Conurbano Bonarense2) través de uma diversidade de projetos narrativos.

A obra analisada por nós se insere nesse panorama, trazendo uma figuração do urbano que se apresenta como um híbrido de ficção e jornalismo, testemunho e etnografia. Cristian Alarcón, o autor de Si me querés quereme transa, traz à cena literária a questão do incremento da imigração limítrofe na cidade de Buenos Aires e o tema do acelerado processo de villerización/favelização na virada do século XX para o XXI. O lócus da narrativa é a Villa del Señor, um assentamento informal no qual convivem sujeitos oriundos de distintos países e marcados por uma multiplicidade de deslocamentos. Num território ficcional bastante poroso, onde diversas etnias e grupos culturais convivem, os conflitos associados aos movimentos desses novos imigrantes da cidade de Buenos Aires e as relações estabelecidas entre esses sujeitos e o território aparecem marcadas por dois temas principais: o tráfico de drogas e a religiosidade.

Contudo, mais que reduplicar os lugares comuns de um discurso midiático que passa a relacionar os “bolitas”, “perucas” e “paraguas” (meros sujeitos supérfluos transformados em coisas) com o problema da segurança, Alarcón constrói uma narrativa na qual sobressaem momentos da vida cotidiana: os problemas, os dramas e as negociações desses imigrantes que deixam seus países para ir viver em uma villa

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miseria portenha. Fazendo o caminho inverso e voltando ao espaço de origem desses personagens que em grande medida correspondem a figuras com as quais o autor conviveu, o narrador lança luz sobre as práticas culturais de diversos grupos migratórios, que habitam a villa narrada (uma villa que é também uma mescla ficcional de todas as villas reais da cidade), possibilitando-nos analisar as estratégias desses atores como forma de afirmação e consolidação de suas culturas e como modo de utilização e apropriação do território que habitam.

Para dar conta dessas questões nesse momento apresentamos a estrutura escolhida para a escrita desse trabalho: optamos por escrever os capítulos de forma independente, porém conectando os pontos abordados, seguindo uma ordem que busca o melhor entendimento dos aspectos analisados na obra. Todos os capítulos são escritos com base nos suportes teóricos e no próprio texto de Alarcón, sendo os dois últimos os que apresentam um detalhamento mais completo das questões narrativas. Os primeiros capítulos visam a dar conta das questões sociais e históricas com relação aos grupos representados no romance.

O primeiro capítulo trata de processar o recorte de algumas publicações recentes que buscam narrar os territórios periféricos, realizando uma breve análise de obras que abordam essa temática. Não pretendemos, com isso, realizar a cartografia de uma produção necessária para ler esses espaços, destacando-se que a escolha destas se deram pela necessidade de criar um eixo possível de análise e leitura dentro da complexidade e riqueza existente na literatura argentina do presente.

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Para a análise dessas narrativas utilizaremos principalmente dos aportes de Josefina Ludmer ao analisar os territórios fragmentados definidos pela autora como “ilhas urbanas”, as considerações referentes ao campo literário argentino de Vicente, Vanoli e Beatriz Sarlo. Para tratar a questão da representação dos grupos e territórios denominados periféricos foram de muita importância as consideração e aportes de Paulo Roberto Tonani do Patrocínio, e, para a leitura das villas, recorremos aos estudos da antropóloga Maria Cristina Cravino e novamente às considerações de Beatriz Sarlo.

No segundo capítulo discorreremos brevemente sobre a história da imigração argentina, uma vez que a formação do Estado nacional argentino possui um papel de importância para entender as relações com os distintos imigrantes. A imigração é o ponto central para a construção dos personagens da própria villa narrada. Para pensar as questões e conflitos que envolvem a “imigración cercana”, recorremos principalmente a Alejandro Grimson e Elisabeth Jelín.

O segundo capítulo trata ainda de dar conta de analisar a questão imigratória no romance. As trajetórias dos sujeitos representados levantam a questão da formação de novas comunidades nas quais se observa um entendimento compartilhado por seus membros diferente daquele que marca a convivência no restante da cidade formal. A formação da identidade comunitária está fortemente relacionada ao que Arjun Appadurai chamou de “mundos imaginados” (1996, p.14), nos quais adquire um papel fundamental e um poder singular na vida social dos indivíduos a circulação de relatos, de canções, mitos e programas televisivos gravados na grade de canais de outros países.

O trabalho da imaginação e as representações coletivas nestas periferias transcende as fronteiras do território e observa-se que nas últimas décadas com o impacto das novas tecnologias, a imaginação passou a ser um fator social e comunitário. Tendo como base a pluralidade dos mundos imaginados, as comunidades demonstram assim a capacidade de armar o relato de suas vidas recorrendo a diversos acervos, fazendo com que estes deem sentido a uma trama de trajetórias cotidianas.

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cultura nacional, coerente, enquanto o próprio ato da performance narrativa interpela um círculo crescente de sujeitos nacionais” (BHABHA, 2003, p. 2017).

Para a análise dessas questões recorremos às noções de “comunidade” e sujeitos “supérfluos”, propostas por Zygmunt Bauman, e de “comunidade imaginada” (Benedict Anderson) e de “imaginação” como “fato social coletivo” (Arjun Appadurai).

Na representação da questão imigratória, sobressaem na narrativa os elementos relacionados aos aspectos culturais das diversas etnias. Portanto, no terceiro capítulo nos centramos na análise desses elementos. O romance apresenta uma grande diversidade de costumes das diferentes etnias que habitam a villa narrada, porém um deles ganha destaque que é a questão dos usos das religiosidades por parte dos personagens. Em nossa análise, apontamos que tais estratégias culturais surgem como um importante fator para demarcar a relação desses indivíduos com o território. Para problematizar o papel do território nesse contexto faremos uso dos estudos de Rogério Haesbaert, e para dar conta dos usos da religiosidade nos espaços narrados fazemos uso dos estudos de Pablo Semán, María Julia Carozzi e Rita Laura Segato.

O quarto e último capítulo trata da análise das estratégias narrativas e discursivas para a criação do assentamento informal fictício Villa del Señor. Aí nos deteremos nos mecanismos utilizados pelo autor que transita entre as esferas do literário e do jornalismo, e nos propomos pensar a importância do real para a construção da narrativa. Para essas questões nos utilizamos das concepções de “arquivo”, de Roberto González Echevarría, dos aportes referente às “literaturas do presente”, de Josefina Ludmer. Mostram-se ainda fundamentais para a nossa leitura dois conceitos de Florencia Garramuño: o de inespecificidade e o de porosidade da arte.

Esses aportes teóricos foram fundamentais para a elaboração dessa análise, porém outros apareceram no decorrer dessa dissertação, contribuindo também para pensar o texto e reforçando os conceitos aqui utilizados.

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formas de narrar, criando textos em que a separação entre o real e ficcional não pode ser percebida facilmente, porém muito mais que trazer para as suas narrativas a diluição das fronteiras entre o real e o ficcional, estas categorias se mesclam, criando a porosidade da narrativa, como definido por Garramuño.

A segunda hipótese que nos motivou para a análise de dita obra está relacionada com a forma como os personagens aparecem representados. Nesse romance, onde configura-se a visão de uma cidade multicultural, pressupomos que as práticas culturais que ocorrem dentro do espaço são mecanismos que buscam a apropriação e reivindicação do território, e que nas villas portenhas o principal fator para realizar essa estratégia é a religiosidade como marca de identificação de suas comunidades originárias.

Ainda com relação à escrita desse trabalho, cabe dizer que optamos por utilizar no corpo do texto os fragmentos do livro no idioma original, para proporcionar ao leitor o contato direto com o romance. Os trechos do romance estarão traduzidos nas notas de rodapé desse trabalho.

Referente às citações teóricas e críticas estas estarão traduzidas no corpo do texto, e na nota de rodapé se encontrará a transcrição no idioma original em que foram consultadas. Acreditamos que dessa forma a leitura se tornará mais objetiva. No caso da entrevista realizada com o autor da obra, são transcritos os trechos da mesma na versão original e sem a tradução , na intenção de não trazer uma interpretação que não esteja de acordo com a fala de Cristian Alarcón.

Assim, acreditamos que o presente trabalho se justifica por trazer como objeto um romance que desafia os parâmetros tradicionais de dito gênero, ao mesmo tempo em que traz questões que se destacam na realidade da cidade contemporânea, dialoga com o cânone literário hispano-americano, e estabelece que para narrar essa cidade contemporânea faz-se necessário embaralhar as fronteiras do real com o ficcional e voltar o olhar para as periferias.

Cabe ressaltar, que até a presente data o romance si me querés quereme transa

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Esperamos, portanto que esse trabalho contribua para pensar através da análise do romance Si me querés quereme transa como os escritores latino-americanos têm recorrido a diversas técnicas para narrar à complexidade das cidades contemporâneas e principalmente como a literatura vem se transformando, rompendo paradigmas e paradoxalmente os escritores mantém vínculos com a própria tradição dessa literatura. Acreditamos também que embora o livro se proponha a narrar à realidade das

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1. VILLA DEL SEÑOR NO CENTRO DA NARRATIVA: A REPRESENTAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PERIFÉRICOS

Dentro de nós.

Guarda estes nomes: bidonville, taudis, slum, with-town, sanky-town,

callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista , jacale, cantegril, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria, favela.

Tudo a mesma coisa, sob o mesmo sol, por este largo estreito do mundo. Isto consola?

É inevitável, é prescrito, lei que não se pode revogar nem desconhecer?

Não, isto é medonho, faz adiar nossa esperança da coisa ainda sem nome

que nem partidos, ideologias, utopias sabem realizar.

Dentro de nós é que a favela cresce e, seja discurso, decreto, poema que contra ela se levante, não para de crescer.

Carlos Drummond de Andrade

Iniciamos esse trabalho com um trecho da obra “Favelário nacional”, de Carlos Drummond de Andrade, pois ele demarca o tema que é abordado nessa pesquisa: a representação dos territórios periféricos.

Drummond associa as diferentes manifestações do fenômeno pelo mundo afora, transcrevendo os distintos nomes que podem ser encontrados para referir-se a tais espaços. As favelas apresentam muitas características similares, o que faz com que algumas discussões sobre esses locais sejam recorrentes, o que é sinalizado no poema. Podemos mencionar a falta de estrutura, concentração de pessoas menos favorecidas, e ainda o fato de que, segundo o senso comum, é o território com maiores índices de violência.

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Conurbano Bonarense que o autor do romance Si me querés quereme transa criou a Villa del Señor, palco de uma trama de muita complexidade e das ações de muitos atores que darão corpo à trama:

Villa del Señor se extiende a lo largo y ancho de treinta manzanas. De formas irregulares, atravesadas por arbitrarios pasillos angostos, sus terrenos fueron ocupados por los inmigrantes que llegaron a Buenos Aires a partir de la década del cincuenta. Las viejas fotos del archivo Histórico de la Ciudad muestran los baldíos en el lugar donde hoy se levantan desordenadas construcciones. (ALARCÓN, 2012, p.57)3

Assim como acontece em outros textos da literatura latino-americana, não se pode percorrer concretamente as ruas da Villa del Señor ou mesmo identificar suas coordenadas em nenhuma das atuais villas da cidade de Buenos Aires. Evidentemente não é possível delimitá-la em algum momento histórico da contemporaneidade e isto se dá porque o espaço onde transcorre a narrativa é marcadamente ficcional.

A partir da criação deste território, Cristian Alarcón trava um diálogo com obras canônicas como Pedro Páramo,de Juan Rulfo,e Cem anos de solidão, deGabriel García Márquez. Em Comala e Macondo a imagem da cidade remete povoados que seriam afetados pelo processo de industrialização e massificação (ROMERO, 1976). O que acontece em Villa del Señor é uma imagem oposta porque apresenta uma grande presença de aspectos de uma cultura pré-moderna e não urbana na cidade atual, trazendo para a cidade narrada a situação de muitos imigrantes que deixam seus lares para tentar uma vida melhor na capital de seus países ou nos centros urbanos de países vizinhos, levando consigo toda uma bagagem cultural que impactará no espaço receptor.

Em outras palavras, enquanto Pedro Páramo e Cem anos de solidão tratam de abordar na literatura os fluxos migratórias de meados do século XX, Alarcón trará para a literatura a questão das imigrações atuais e suas consequências na cidade do século XXI. Cabe a reflexão de que a villa/favela criada por Alarcón é habitada principalmente por imigrantes oriundos dos países limítrofes e andinos. Nesse e sentido o território ocupado apresenta as diversas estratégias e conflitos dos diferentes habitantes desse local, o que será retomado nesse trabalho posteriormente com um maior detalhamento.

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A Villa del Señor poderia ser lida então como uma Macondo ou Comala moderna, embora, para sua criação, o procedimento seja bastante distinto do utilizado para a criação das cidades nas obras canônicas referidas (Cem anos de solidão e Pedro Parámo). Enquanto nestas obras as cidades representadas inserem-se no campo da fantasia, utilizando-se de elementos fantásticos ou sobrenaturais como os que predominam no realismo mágico, a villa de Alarcón apresenta muitos dados da realidade atual para a invenção desse espaço, como trataremos no último capítulo dessa dissertação.

Outro ponto de análise seria a questão familiar, que surge como importante elemento, ora para dar início à trama como em Pedro Parámo, onde é a busca do pai que lança Juan Preciado rumo à cidade desconhecida, ora para demarcar o movimento cíclico que ocorre na história da família dos Buendía de Cien años de soledad. Na Villa del Señor também a questão familiar ganha espaço para estabelecer a importância do agrupamento dos novos imigrantes. E isto é dado a partir dos laços forjados entre os conterrâneos e da criação de redes seguras de relacionamento que transcendem as fronteiras nacionais.

Podemos prosseguir com a nossa breve análise comparativa, estabelecendo que, se em Cien años de soledad foi necessário agrupar os membros da família, por ser tão numerosa em uma árvore genealógica, no caso de Si me querés quereme transa, os personagens também serão alocados em um esquema organizador, pois agora o que se pluraliza é a nacionalidade dos que habitam as villas/favelas da cidade de Buenos Aires. E essa estratégia faz-se necessária para a organização dos grupos que articulam o tráfico de drogas dentro dessa villa.

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constituir-se em um dos principais vínculos sociais para certos grupos em certas conjunturas” (CRAVINO, 2009, p. 29).4

A Villa del Señor exemplificará essa análise exposta pela autora no que tange à apropriação do território, e traz para a literatura argentina atual a representação desses conflitos. Vale ressaltar que os territórios periféricos e seus sujeitos, em muitos momentos, foram representados na literatura argentina, porém ocupando um espaço secundário. Em 1956, Bernardo Verbistk, pela primeira vez, denomina esses espaços de

villa miseria em seu livro Villa miseria también es América e desloca a representação da favela para o centro da narrativa.

Nesse romance, Verbistk trata os problemas que ocorriam nas villas na década de 60, as políticas públicas de erradicação desses espaços e as dificuldades encontradas pelos novos moradores ao se instalarem nas zonas periféricas. Naquele momento, o autor trazia para o campo da representação literária as estratégias utilizadas pelos novos habitantes para instalar-se nesse novo espaço: como se relacionavam, como deveriam agir para sobreviver e resistir às diversas ações de repressão policial.

Cravino (2009,p.183) sinaliza que essa obra poderia ser chamada de “romance jornalístico” por ser “uma boa imagem do que significava a vida em uma villa nessa época. Estabelece também a vida da classe trabalhadora e a transição da vida campestre á proletária” 5

e a concentração dessas pessoas na nova cidade.

A Argentina que Verbistk narra é bem diferente da que vamos encontrar nas narrativas mais recentes sobre as villas de Buenos Aires. O processo de formação de cada villa demarca suas especificidades com respeito aos primeiros assentamentos informais, tanto no que se refere aos materiais usados para a construção quanto nas formas de convivência dentro do espaço e relação com os que se encontram fora da

villa. Isto foi devidamente sinalizado pela autora quando esclarece que:

Há transformações na sociabilidade desde o início de surgimento de cada uma das favelas ou assentamentos até a atualidade, porém particularmente nas favelas

4Para todo grupo humano, el control de un territorio es origen de poder desde el momento en que el territorio posee propiedades susceptibles de ser tratadas como recurso... el lugar puede ser fuente de identificación de un grupo, pero requiere que éste sea capaz de convertir lo local en fuente de prestigio del grupo y organizar normas comunes alrededor de la pertenencia local… el barrio puede constituirse en unos de los principales vínculos sociales para ciertos grupos en cierta coyunturas.”(CRAVINO, 2009, p. 29)

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também aumentou geometricamente a densidade, a quantidade de população, e variou a origem dos imigrantes, por tanto não há dúvida de que os laços não são os mesmos. (CRAVINO, 2009, p. 30)6

Para destacar apenas algumas das obras que abordam essa temática, sinalizamos cronologicamente Villa Celina, de Juan Diego Incardona, La Villa, de César Aira, La 31, una novela precaria,de Ariel Magnus, Cuando me muera quiero que me toquen cumbia, de Cristian Alarcón, Villa 31, la historia de un amor invisible, de Demian Konfino, Si me querés quereme transa, de Cristian Alarcón, entre outras. Embora tenham como cenário os mesmos espaços (os territórios denominados periféricos da capital e do Conurbano Bonaerense) apresentam escritas heterogêneas em que a experiência individual do autor torna-se um ponto chave para a leitura dessas narrativas.

Esses escritores trazem à cena literária a narração das periferias e de seus sujeitos, contudo não mais de forma secundária, e sim como elemento central. A villa miseria aparece como principal personagem de seus textos. Em seguida, realizaremos um rápido percurso nas obras mencionadas, para destacar os principais pontos dentro de cada narrativa e analisaremos mais detalhadamente a última publicação de Cristian Alarcón. Afinal o que pretendemos demarcar é a diferença entre Si me querés quereme transa e os demais textos selecionados que narram às villas contemporâneas.

Estes escritores apresentam um novo horizonte de sentidos e experiências vividas que alimentam suas obras e criam um complexo sistema de texto. Para Vanoli e Vecino estas narrativas podem ser chamadas de dispares e heterogêneas tanto em termos de tradição literária quanto em sua relação com os processos históricos. Mesmo apresentando características e temáticas comuns, estas obras não obedecem a um padrão estético homogêneo (VANOLI, VECINO, 2009-2010, p.259).

Diferentemente do que ocorre no campo da literatura brasileira, embora se encontre na literatura argentina uma vasta produção de obras que narrem as periferias e seus sujeitos, não constatamos até o momento nenhum movimento que se assemelhe ao que ocorreu no Brasil conhecido como Literatura Marginal. Os livros que se inserem nessa denominação apresentam como fator de importância a vivência do escritor dentro

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dos espaços periféricos que lhe asseguram a autoridade para narrar esses territórios e podem ser identificados como, por exemplo, em obras como Cidade de Deus, de Paulo Lins, ou Capão pecado, de Ferréz (PATROCÍNIO, 2016).

Mesmo encontrando diversas obras em que a experiência do escritor aparece como fator de importância para a narrativa, reiteramos a impossibilidade de identificar um movimento parecido ao que ocorre no Brasil.

Na Argentina, em sua grande maioria, as obras atuais que narram às favelas continuam sendo escritas por intelectuais e os escritores da literatura recente apresentam uma característica importante para pensar essas narrativas, conforme destaca Beatriz Sarlo: “Os novos gêneros jornalísticos são decisivos na formulação de narrativas sociais e na própria produção de uma categoria especializada de escritor: o jornalista moderno, repórter, entrevistador, cronista” (SARLO, 2006, p. 36-37)7, estes lançam mão de vários e distintos recursos para dar voz e vida às favelas e a seus sujeitos. Os autores transitam pela antropologia, etnografia, sociologia, psicologia, pelos arquivos, pela experiência pessoal e podem ou não ter tido profundo contato com as favelas narradas, como em La 31, de Ariel Magnus, como veremos a seguir.

Retomando as obras mencionadas, cronologicamente temos La villa, de Cesar Aira (2001), o escritor traz para a cena literária com seu estilo de escrita que não atende à linearidade para estruturar a narração da favela a partir do mundo dos catadores de papelão, chamados na cidade de Buenos Aires de “cartoneros”. Aira apresenta a villa

com uma descrição quase etnográfica sobre a atividade de catar papelões, através do olhar de um personagem que decide ajudá-los na tarefa diária. A obra surge com elementos que se mesclam entre a realidade do cotidiano e a fantasia, num registro em que não ocorre a separação clara entre um ponto e o outro. Embutindo nas linhas de seu texto uma leitura enigmática das favelas e dos sujeitos que passam a ocupá-la. Estes aparecem nas ruas da cidade, no final da década de 90 com o agravamento da crise.

Segundo a análise de Cravino, a descrição dessa favela e seus personagens termina por delimitar tais espaços com “estereótipos clássicos de uma favela... os narcotraficantes, empregadas domésticas, policiais, imigrantes” (CRAVINO, 2009, p.

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185).8 O autor ambienta sua história na villa 1-11-14 situada na zona sul do bairro de Flores na cidade de Buenos Aires, que é mais conhecida como Bajo Flores. Com essa narrativa, Aira visibilisa um fenômeno social que ocorre nos anos 90, época em que se observa o aumento e a circulação dos sujeitos dedicados a essa atividade na cidade, a qual é vista com mais intensidade devido à crise enfrentada pelo país.

No ano de 2003, Cristian Alarcón publica Cuando me muera quiero que me toquen cumbia. Esta publicação leva para o campo literário a representação do espaço periférico a partir da realidade de adolescentes que se envolvem com o mundo do delito. O livro centra-se na vida de jovens que entram a prática das infrações delitivas e na relação que estabelecem com o bairro.

A villa/favela retratada demarca os valores que eram importantes para os moradores desse espaço localizado na zona norte do Conurbano, em San Fernando. O bairro aparece como local da comunidade, onde os moradores compartem um sentimento quase familiar pelos que nele habitam: protegem-se entre si, os mais novos respeitam os mais velhos e há códigos de conduta que variam de grau, mas impedem, por exemplo, que sejam cometidos roubos contra os que compartilham do mesmo território, a história é ambientada na década de 90. Esse livro terá uma importância central para a criação do romance do autor, objeto dessa pesquisa, e, portanto retomaremos a essa análise, de forma mais detalhada, posteriormente.

Villa Celina (2008), de Juan Diego Incardona, apresenta uma forte carga de subjetividade e experiência pessoal do autor, que nasceu e passou boa parte de sua juventude morando na favela narrada. Villa Celina situa-se no município La Matanza na província de Buenos Aires e é o espaço retratado conforme comentam Hérnan Vanoli e Diego Vecino, ao analisar a obra: “aqui, o Conurbano é escrito com a gramática do bairro, do contato primário e local, quase familiar” (2009-2010 p. 270).9

Observa-se que o escritor constrói a narrativa a partir de uma visão bastante romantizada da favela. Neste espaço, as lembranças são recuperadas com carinho e certa nostalgia, não apenas do bairro, mas principalmente de uma época que trazia uma

8“estereotipos clásicos de una villa...los narcotraficantes, empleadas domésticas, policías, inmigrantes”. (CRAVINO, 2009, p. 185)

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sociabilidade e a presença de valores simbólicos. Desse modo, a história ambientada entre os anos 70 e 80 remete a muitas memórias do próprio escritor.

Quatro anos mais tarde, teremos a publicação de La 31, una novela precaria

(2012), de Ariel Magnus. Como antecipado no próprio título é um romance precário que traz a narrativa de várias cenas da favela, de forma radicalmente fragmentada. Numa fatura ficcional, as histórias e personagens vão desenhando uma villa/favela que representa o imaginário de muitas pessoas que não conhecem esses espaços. Nem mesmo o fato de apresentar o nome de uma conhecida favela de Buenos Aires ou ainda de trazer na capa do livro uma imagem da Villa 31,10 (localizada ao leste da cidade de Buenos Aires, no bairro Retiro) desfazem a ideia de que a favela representada por Magnus é ficcional. A chave de leitura desse texto é a própria fragmentação da narrativa.

Dessa forma, os relatos das diferentes personagens muitas vezes não são fechados e não obrigatoriamente retomados. O texto configura-se de modo não linear, e sua fragmentação surge como opção estética para representar a heterogeneidade dos próprios espaços periféricos e de seus sujeitos, e evidenciar os muitos discursos existentes sobre as periferias e o Conurbano Bonaerense.

No mesmo ano, teremos a publicação de outra obra que novamente traz como título a emblemática favela de Buenos Aires, La Villa 31, la historia de un amor invisible (2012). É conhecida como novela histórica, pois remete ao início das ações de ocupação dessa favela e na atualidade vem sendo alvo de muitos discursos conflituosos devido à percepção de que seu crescimento transformou e vem transformando a cidade.

Neste livro, a história é contada a partir das lutas sociais que os moradores travam com os meios políticos para reivindicar melhorias. A imigração aparece como fator importante para ler os personagens e como em Villa Celina a visão derivada da experiência do autor tem grande relevância. Cabe dizer que Demian Konfino trabalha

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realizando um serviço voluntário e de militância em um refeitório popular comunitário dentro dessa favela.

De alguma forma, esse espaço surge para demarcar no romance a importância do trabalho em comunidade e das lutas que os moradores realizam diariamente para conseguir melhores condições de vida. Cabe ainda ressaltar que tanto no livro de Magnus quanto no de Konfino aparecem na capa fotos da Villa 31, o que leva o leitor a associar a descrição dos personagens e fatos do texto literário à realidade encontrada nessa favela.

É interessante destacar que podemos encontrar um diálogo entre as três obras mencionadas que narram os problemas sociais existentes dentro das favelas representadas: Villa miseria también es América, La 31 de Magnus e no livro de Demian Konfino. Nelas encontraremos uma cena recorrente na qual os moradores discutem sobre os problemas sociais e quais estratégias deveriam tomar para solucionar esses problemas. Em La 31 de Magnus, o destaque é que os problemas surgem como os próprios sujeitos e a Miséria, a Fome, entre outros, ganham voz e se convertem em personagens alegóricos no capítulo que leva o nome de “Alegoría miseria”11.

No mesmo ano Cristian Alarcón publica o romance objeto desse trabalho, Si me querés quereme transa, que como mencionamos, diferencia-se das demais obras por criar uma favela absolutamente ficcional. Nela, a questão da imigração recente, seus conflitos e estratégias, trazem para o campo da representação a questão das cidades atuais e suas aglomerações informais. Como destaca Sarlo, “a cidade crioula foi de barro, a cidade moderna foi de tijolo e cimento, a cidade tugurizada é de amianto” (2009, p. 71).12

Esta interessante observação de Sarlo nos permite pensar na própria representação desses espaços levando em conta o próprio material usado ao longo dos anos que demarcam o processo de industrialização e formação das grandes cidades. O termo “tugurizar” refere-se às precárias casas que foram tomando as cidades e consequentemente à criação das periferias que historicamente concentram um grande

11

Para uma análise mais detalhada desse fragmento do livro de Ariel Magnus, consultar a dissertação de mestrado de Renata Dornelles Lima, intitulada La 31 e os limites da forma: Imaginários urbanos, fragmentação e inespecificidade do discurso na literatura Argentina.

12 “La ciudad criolla fue de barro, la ciudad moderna fue de ladrillo cocido y cemento

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número de pessoas desfavorecidas e na atualidade é perceptível pela própria construção das casas nas favelas, aglomeradas e feitas em sua grande maioria com telhados de amianto. Em outras palavras, narrar às cidades atuais é narrar as favelas nas substâncias de que são feitas.

Nesse sentido os espaços periféricos colocam tanto o território quanto os sujeitos dentro de um discurso que busca homogeneizar as diferenças existentes nessas periferias. Os indivíduos que habitam esses espaços são constantemente alvos dos mais diversos discursos que os colocam ocupando um espaço de inferioridade. Para o teórico Marcuse (2004, apud CRAVINO, 2009, p.34) essas questões são definidas como “processo de segregação”13

definido por ele como:

aquele onde um grupo populacional é forçado involuntariamente a aglomerar-se em uma área espacial definida em um gueto. Por tanto, este se forma e se mantém graças à ação adotada pelas forças dominantes da sociedade para separar, delimitar um determinado grupo populacional, externamente definido como racial, étnico o estrangeiro; tratado y assumido como “inferior”. (MARCUSE, 2004, apud CRAVINO, 2009, p.34)14

No caso da Argentina, esse espaço de inferioridade na atualidade é associado aos territórios periféricos que são conhecidos como villas miseria ou assentamentos precários. Em sua maioria são ocupados pelos imigrantes limítrofes e andinos que seriam, numa observação estratificada em classes sociais, o grupo mais subalterno da sociedade.

Em seu conhecido livro Os condenados da cidade, Loic Wacquant já nos apontava a importância de pensar nas diferenças desses espaços. E neste sentido, as favelas ou periferias da França, do Rio, São Paulo ou Buenos Aires não são uma mesma coisa.

É comum, devido à grande imigração de países próximos e andinos, a denominação da villa a partir da nacionalidade majoritária presente em determinado espaço. Um exemplo disto seria a identificação de certos territórios como “a villa dos peruanos”, “dos paraguaios”, “dos argentinos” ou “dos bolivianos”. Com isso, é

13“… proceso de segregación.”( MARCUSE, apud CRAVINO, 2009, p.34) 14“…

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possível verificar diferentes experiências dentro de cada território periférico e distintas formas de uso e apropriação desses espaços.

A Villa del Señor traz para o campo da representação os conflitos existentes entre as diversas etnias que ocupam a cidade, mas também apresenta essa favela como espaço de sociabilidade entre essas pessoas. A trama desenvolve-se a partir das brigas e disputas pelo poder, o que é observado a partir do domínio do tráfico dentro da favela. Tais conflitos ocorrem entre os diferentes grupos étnicos: a quadrilha dos bolivianos e a dos peruanos que travam verdadeiras guerras para a conquista desse espaço.

Esses conflitos representados na trama são constante na realidade argentina, e os meios de comunicação fazem a cobertura desses episódios de disputas pelo poder dentro das diversas villas. O escritor reúne as várias nacionalidades e traz para o campo da representação esses embates.

Cabe estabelecer a análise de Appadurai (1996, p. 36) em que “a realidade do pensamento etnoterritorial’’ faz com que os indivíduos criem uma “discriminação entre as diferentes categorias de cidadãos, ainda que todos ocupem o mesmo território”.

De volta à nossa obra, podemos dizer que a Villa del Señor é a grande personagem do romance. Trata-se de um território complexo habitado por imigrantes de diversos países que trazem consigo as mais variadas histórias. Essas surgirão em um primeiro momento, de forma fragmentada e parecem não ter relação umas com as outras. Porém, no decorrer da narrativa, percebemos que todas elas desenham e dão vida a esse espaço narrado.

Desse modo, essas histórias traçam o desenho da própria favela, com suas complexidades territoriais e étnicas, sendo a nacionalidade um ponto de importância dentro desses espaços. As diversas práticas culturais aparecem como importante fator para ler os indivíduos dentro da Villa del Señor. Como sinalizado anteriormente, estes são denominados diversas vezes a partir de suas nacionalidades e agrupar-se-ão em micro territórios, divididos de acordo com a identificação de seu país de origem.

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comprovada “a capacidade dos grupos humanos de recriar espaços múltiplos de sociabilidade.”

Para Ludmer (2010, p.131), esses micro territórios além de demarcarem a criação de espaços de sociabilidade e de manutenção das diferentes culturas encontradas na villa miseria podem ser entendidos como “ilhas urbanas” (2010, p. 121). Deste modo, nos permitem verificar que o crescimento das favelas faz com que a cidade atual pareça fragmentada. Há uma força dicotômica entre centro e periferia que cria um movimento tensional, mas percebe-se que a separação desses espaços tem sido vista como estando cada vez menos rígida como destacamos no próprio romance:

Aunque las zona se devaluó. Algunas de esas casas aún lucen los detalles de esos tiempos de abundancia y esplendor europeo, a pocas cuadras del lugar ahora ocupado por trabajadores peruanos, paraguayos, bolivianos y argentinos. La ciudad creció y la frontera entre Villa del Señor y “el barrio “se hizo laxa”. (ALARCÓN, 2012, p. 62)15

A mobilidade da fronteira existente entre a favela e a cidade é um ponto de relevância para pensar a relação entre esses dois locais. Os espaços periféricos são constantemente associados à marginalidade e sofrem vários estigmas negativos que foram identificados por Wacquant como “áreas a serem evitadas, profusas em crimes, em marginalidade e em degeneração moral, onde se pressupõe que habitem apenas membros inferiores da sociedade” (2001, p. 32).

Com o passar dos anos, as villas/favelas vão ganhando espaço e ocupando as áreas mais centrais da cidade. Dessa forma, a barreira entre o centro e a periferia torna-se visivelmente menor, a própria cartografia de Buenos Aires oferece uma experiência de estreitamento entre esses dois polos. Assim, os conflitos entre os membros que ocupam os dois espaços díspares tornam-se cada vez mais evidentes e os discursos discriminatórios aumentam com relação a esses locais e seus habitantes.

Dessa forma, as diferentes nacionalidades presentes na obra trazem à cena literária a realidade atual do grande fluxo migratório que se observa na Argentina. O romance enfatiza essa questão, trazendo para o campo da narrativa tanto a reconfiguração da urbe portenha quanto os conflitos e enfrentamentos originados pelos

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constantes fluxos imigratórios. Por tratar-se de uma narrativa contemporânea, na qual a migração que está em foco é a andina e limítrofe.

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2. BREVE PERCURSO PELA HISTÓRIA DA IMIGRAÇÃO NA ARGENTINA O romance Si me querés quereme transa traz como habitantes da Villa del Señor um conjunto muito diverso de personagens. Podemos identificar alguns deles e suas nacionalidades: Leoncio Reyes, peruano, Alcira que demarca a complexidade das identidades dos grupos imigratórios: “Argentina de nacimiento, Alcira era tan boliviana y andina como cualquier paisano de su pueblo cercano de Cochabamba” (ALARCÓN, 2012, p. 226).16 Dona Mari, boliviana, e ainda há outros personagens que não têm seus nomes próprios mencionados e sim são referidos através de suas nacionalidades como por exemplo a argentina, a paraguaia, a peruana.

Como acontece com os personagens, os espaços e grupos também são denominados pela nacionalidade “La canchinta de los paraguayos”, “El Rinconcito boliviano” ou “la banda de peruanos”. Esses exemplos de descrição dos personagens e de alguns espaços da favela estão presentes por todo o romance e assinalam a importância que a nacionalidade, a origem dos personagens, assumem na obra: “el boliche se llamaba Yuri y era el emprendimiento de una madraza ayacuchana casada con un boliviano que alternaban los discos de sus patrias para una concurrencia siempre andina” (ALARCÓN, 2012, p. 85).17

Essa villa traz como ponto central a questão das recentes imigrações na cidade de Buenos Aires, portanto, faz-se necessário realizar um rápido percurso na história da imigração argentina. Isto ajuda a entender a relação entre essa imigração e a sociedade atual. Historicamente, a Argentina é um país de imigração com duas dinâmicas migratórias: a transatlântica, que vai principalmente de 1880 a 1920, e a interna, que teve forte impacto no país durante a primeira metade do século XX. Estes foram fluxos populacionais importantes para a construção da realidade social, econômica e política do país.

Como destacado por Gimson, a imigração transatlântica não tinha o único propósito de aumentar rapidamente a população do país. O objetivo central era o de

16

Argentina de nascimento, Alcira era tão boliviana e andina como qualquer compatriota de seu povoado próximo de Cochabamba.” (ALARCÓN, 2012, p. 226)

(34)

“consolidar a influência civilizadora européia”18 (HALPERÍN apud GRIMSON, 2011, p. 30). Essa consolidação da cultura européia será um fator de grande relevância para a construção do relato nacional argentino bem como para a formação de toda a sociedade. Conseqüentemente, ocorreu um rechaço e discriminação daqueles que não se enquadram no modelo estabelecido. Em outras palavras, “na medida em que os Estados -Nações existentes apoiam-se em alguma idéia implícita de coerência étnica como base da soberania estatal, tendem certamente a transformar em minoria, degradar, penalizar, assassinar ou expulsar aqueles que são vistos como minoria étnica” (APPADURAI, 1997, p. 44).

Com a diretriz de que “governar é povoar” estabelecida na constituição argentina de 1853, o país nesse período começa a receber uma das maiores ondas imigratórias da história moderna, totalizando aproximadamente seis milhões de estrangeiros entre o final de século XIX e a metade do século XX.19 No ano de 1914, os estrangeiros contabilizavam 30% da população total do país, sendo que 60% eram residentes na cidade de Buenos Aires. Entre os anos de 1857 a 1940 a imigração européia teve o maior incremento de pessoas, totalizando entre a população estrangeira a maior porcentagem, sendo 51, 9% de italianos e 31, 5% de espanhóis.

Cabe lembrar que a industrialização do século XIX deu início a um processo de urbanização, que no século XX apresenta seu máximo desenvolvimento. Esse fenômeno foi observado em várias cidades de distintos países, demarcando a grande transição urbana e a concentração de imigrantes nas grandes cidades. Cravino destaca as cifras dessa mobilidade urbana e estas demonstram que:

no início do século apenas um oitavo da população mundial habitava as grandes áreas urbanas, porém na segunda metade do século XX ocorreria a grande transição: em 1950 moravam nas cidades 300 milhões de pessoas, em 1980 a cifra cresceu a 1.800 milhões e, para o fim da centúria, aproximadamente a metade da população mundial (3 mil milhões) moraria nas cidade. A característica sobressalente foi que dois terços dessa população se concentrava nos países menos desenvolvidos. (CRAVINO, 2009, p. 15).20

18 Consolidar la influencia civilizadora europeia.

19 Todos os dados desse trabalho referente ao censo nacional da Argentina, foram obtidos pelo INDEC (Instituto Nacional de Estadística y Censos, Argentina). Podem ser consultados pelo site oficial on line http://www.indec.gob.ar/ ou pelo documento “Población y desarrollo inmigración contemporánea argentina: dinámicas y políticas”. Dito documento se encontra na bibliografia desse trabalho.

(35)

Outro fator histórico importante para a consolidação dessa imigração no país foi a Campanha da Conquista do Deserto argentino que teve início em 1878. Esta foi responsável pela derrota e aniquilamento de tribos e povos que habitavam originalmente esses espaços: foram devastados os Mapuche, os Ranqueles e os Tehuelche.

Essa empresa teve como principais consequências à adesão à soberania da Argentina de uma grande área dos Pampas e da Patagônia (chamados Puelmapu pelos mapuches) que até então era dominada pelos povos indígenas. Esses habitantes vencidos sofreram a aculturação, a perda de suas terras e identidade para ser realocados pela força em reservas indígenas ou transferidos para servir como mão de obra de trabalho forçado.

Esse episódio gera diversas discussões e diferentes visões sobre a Campanha. Por um lado, teremos discursos que defendem que essa conquista era necessária para o desenvolvimento do plano de progresso do país. Outros que consideram um dos maiores crimes contra a humanidade.

O fato, em nossa visão, está relacionado ao apagamento do reconhecimento das culturas dos povos originários e reflete-se no preconceito e rechaço que pode ser observado até os dias atuais na sociedade argentina. Há um processo discriminatório contra aqueles que possuem traços característicos desses grupos indígenas, reafirmando o projeto homogeneizador do mito fundacional argentino.

Dois livros importantes da literatura argentina trazem a questão desse projeto de Nação, e tais textos foram importantes para a consolidação do relato nacional, Facundo e Martín Fierro, neles a oposição e a figura do gaucho surgem como importante fator para pensar a identidade nacional argentina.

Facundo, civilização e barbárie de Domingo Faustino Sarmiento, considerado um dos principais livros da literatura argentina e latino-americana traz além de seu valor literário, uma análise do desenvolvimento político, económico e social da América do Sul, a sua modernização, sua diversidade potencial e cultural. Como indicado pelo seu

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título, o escritor, analisa os conflitos que surgiram na Argentina uma vez alcançada a independência política em 1816, com base na contradição entre civilização e barbárie.

Martín Fierro é um poema narrativo, escrito em verso por Jose Hernandez em

1872, considerada gênero gaúcho exemplar da obra literária. .O personagem é um

trabalhador gaúcho que devido a injustiça social do contexto histórico se torna um

bandido (fora da lei). Narra independente, o caráter heróico e sacrificial do gaúcho. O

poema é, em parte, um protesto contra a política do presidente argentino Domingo

Faustino Sarmiento de recrutar a força gaúcha para ir para defender as fronteiras

internas contra os índios.

Portanto, na literatura, a oposição entre os pólos referentes à modernização

versus atraso, cidade versus campo pode ser verificada nessas obras clássicsa . O crítico

literário Carlos Gamerro nos sintetiza esse ponto com sua análise em Facundo o Martín

Fierro, los libros que inventaron la Argentina:

Desde seu título, Facundo está construido como sistema de disjunções; civilização e barbarie, se desprendem outras: unitários e federais, Europa e América, Buenos Aires e o interior, progresso e tradição, cidade e campo, representando sempre uma o polo negativo e outra o positivo. (2015, p. 45)21

Alejandro Grimson (2011, p. 31) esclarece que a imigração européia passa a ser parte fundamental para o projeto de modernização e industrialização do país, e “os múltiplos traços xenófobos foram direcionados através do grande relato da «argentinidade»”. Com isto, a “argentinização” desses imigrantes fazia parte do ideal de progresso que estava diretamente vinculado ao projeto de nação da Argentina, conformando o mito fundacional de nação majoritariamente branca, homogênea e europeia (cf. 2011, p. 29, 30, 31).

Depois da crise econômica de 1930, o país sofrerá uma nova onda imigratória, dessa vez o incremento de pessoas será do campo para a cidade. Na chamada imigração

interna há a concentração de um grande fluxo de migrantes para as áreas industriais.

Esta onda migratória instala-se em Buenos Aires, concentrando-se na cidade. Passa-se a

observar uma variedade de etnias e de diferentes formas de vida o que acarreta choques

culturais, políticos e étnicos.

(37)

Diferentemente do que ocorreu com a imigração transatlântica, esses novos

habitantes em sua maioria provenientes do campo, sofreram grande rechaço por parte de alguns membros sociedade. É nesse momento que surge a denominação “cabecitas negras” que é uma forma de nomear de maneira preconceituosa e racista os novos migrantes. Grimson nos alerta (2011, p. 31) que há um destaque negativo para as

características étnicas de uma população com a maior proporção de antepassados

indígenas, colonial espanhola e afro-argentinos.

Na atualidade, ainda usa-se esse termo para referir-se a qualquer imigrante que apresente características físicas que se assemelhem aos povos originários, e o mesmo continua possuindo uma carga pejorativa e discriminatória com relação aos migrantes internos.

Percebe-se, nos dias atuais, o predomínio de termos como “bolitas” para os bolivianos, ou “paraguas” para os paraguaios, “perucas” para os peruanos, transformando-os a partir de uma visão homogeneizante em supérfluos, coisas, esvaziando-se a importância humana dessas pessoas.

Durante o período de “massificação da cidade” (ROMERO, 1976), os migrantes internos estabeleceram-se principalmente no chamado cinturão industrial de Buenos Aires. O resultado deste processo é que “se observava mais pessoas nas ruas; começou a ser difícil encontrar uma casa ou apartamento, começaram a aparecer barracas em terrenos baldios, que logo se transformaram em bairros.” (ROMERO, 1976, p. 349).22

Durante os anos de 1970 e 1980 a Argentina recebeu um grande número de

imigrantes do Sudeste Asiático que se concentraram nas grandes cidades e dedicaram-se

principalmente ao comércio. Na década de 1990, percebe-se um aumento de imigrantes

latino-americanos não vizinhos, como os peruanos, e o incremento de imigrantes provenientes de países limítrofes.

No final dessa década, o país sofre uma grave crise econômica que teve seu ápice no ano de 2001, e mesmo que os dados imigratórios não demonstrem um crescimento alarmante dos imigrantes limítrofes e peruanos. Nessa época a sociedade é

(38)

levada através de discurso do governo e da mídia a associar os problemas da crise aos novos habitantes, seja por conta do aumento do desemprego e da criminalidade ou ainda pelo crescimento das favelas.

É importante observar as cifras referentes a essa imigração: em 1991, 5% da

população estrangeira dividia-se em 3% de migrantes limítrofes e 2% dos migrantes de

outros países. A maioria dos imigrantes eram provenientes de países como Bolívia,

Paraguai, Uruguai, Chile e Brasil. Essa imigração é a que apresenta mais força nos dias

atuais na Argentina e em especial na cidade de Buenos Aires. (INDEC)

Os dados do censo nacional de população demonstram que os estrangeiros

provenientes de países limítrofes como Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai

apresentam uma imigração constante que varia entre 2% e 2,9% da população total do

país, como pode ser verificado no quadro em anexo nesse trabalho.23

Como podemos observar no quadro II,24 ao longo dos anos e principalmente a

partir da metade do século XX, a Argentina perde a relevância como destino prioritário

para os países europeus. Contudo continua sendo um pólo atrativo tanto para o Peru

quanto para os países limítrofes.

Podemos ainda observar no quadro III25 sobre a população estrangeira segundo

o país de origem realizado no último censo de 2001 que 67% da população imigrante

são de latino-americanos, sendo 88% de países limítrofes, conformando os paraguaios,

bolivianos e chilenos os maiores grupos, perfazendo um total de 50% de toda a

população nascida no exterior.

Entre os países não limítrofes, como dissemos anteriormente, destacam-se os

peruanos, que representam 5,8% da população. Os demais grupos imigratórios da

Europa representa um total de 28, 2 enquanto os de origem asiática um total de 1,9%.

(INDEC)

É a partir desses dados da imigração recente que pretendemos centrar a nossa

análise do livro Si me querés quereme transa, publicado no ano de 2001. Este apresenta

a realidade imigratória dos anos 1990 e 2000 bem como seu impacto em Buenos Aires,

23 Quadro de dados imigratório, anexo 1 desse trabalho quadro 1. 24

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