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66 • Brasil Energia, nº 351, fevereiro 2010

Jerson Kelman

É difícil fazer previsões cientifi- camente seguras sobre o que acon- tecerá com o clima e em particular com as chuvas e vazões fluviais de- vido ao aumento da concentração na atmosfera de gases que causam efeito estufa. Entre muitas razões, porque o aumento da temperatu- ra causa também aumento de eva- potranspiração e maior retenção de vapor de água na atmosfera. Como o vapor de água é o principal gás de efeito estufa, à primeira vista have- ria um feedback positivo. Entre- tanto, o aumento de concentração de vapor de água também causa au- mento de nebulosidade. E as nu- vens causam simultaneamente um efeito de incremento ainda maior de temperatura (aprisionam as on- das longas oriundas da Terra) e um efeito contrário (refletem as ondas curtas oriundas do Sol).

Há controvérsia sobre qual dos dois efeitos associados à formação de nuvens prevalecerá. Se o efeito

“tipping point” – como uma esfe- ra que atinge o cume de uma mon- tanha e desce ladeira abaixo – ou o efeito “joão-bobo” – como uma es- fera que atinge o ponto mais baixo de uma bacia e, por mais que seja deslocada, sempre retorna ao ponto de equilíbrio. O fato é que os mode- los de circulação da atmosfera ado- tam diferentes enfoques para repre- sentar os fenômenos relacionados ao aumento da concentração de vapor de água e da nebulosidade. Conse- quentemente, é grande a variabili- dade de resultados.

Todavia, há convergência de re- sultados no que diz respeito à dispo- nibilidade de água para a produção de energia hidrelétrica no Brasil.

Lamentavelmente, vai diminuir. A Fundação Brasileira de Desenvolvi- mento Sustentável (FBDS) utilizou um cenário de evolução de tempe- ratura obtido da média de 15 mo- delos globais de circulação (Estima- tivas da Oferta de Recursos Hídri- cos no Brasil em Cenários Futuros de Clima 2015-2100; Estudo Eco- nômico das Mudanças Climáticas no Brasil). Eneas Salati, o cientista que liderou o estudo sobre balanços hídricos futuros, calculou a evapo- transpiração potencial e a real a par- tir da previsão de temperatura mé- dia e da precipitação média em qua- drículas de 2 graus de latitude por 2 graus de longitude. A calibração foi feita para o período 1961-1990, le- vando-se em consideração medições de precipitação e de escoamento su- perficial disponíveis na Agência Na- cional de Águas (ANA).

Entre os muitos resultados do estu- do, destaco apenas a previsão da vazão média para o período de 2011 a 2040, quando comparada ao período de 1961 a 1990: deverá diminuir na or- dem de 20% na bacia do rio Paraná e de 30% na bacia do rio São Francisco.

Segundo Salati, “os estudos indicam que praticamente em todas as bacias hidrográficas do Brasil a tendência é de uma diminuição das vazões dos rios, cujos valores quantitativos dependem da bacia hidrográfica considerada. Es- ta observação é válida inclusive nas re-

giões em que os modelos indicam um aumento das precipitações. Nestes ca- sos, a diminuição das vazões é decor- rente das perdas por evapotranspiração causada pelo aumento da temperatura.

(...) É importante relembrar que cená- rios futuros do clima apenas são proje- ções prováveis de mudanças que pos- sam vir a acontecer como produto do aumento nas concentrações dos gases de efeito estufa. O nível de incerteza ainda é grande em relação ao que de fato possa acontecer”.

Apesar desse alto grau de incer- teza, a tendência geral é de redução da produção de energia hidrelétrica.

Nesse cenário, será necessário revisar para baixo os certificados de energia assegurada das usinas existentes – até o limite de 10% permitido pelo De- creto 2.655/98 –, bem como a con- tratação de uma maior quantidade de energia de reserva.

Adicionalmente, aqueles que se opõem de forma sistemática à cons- trução de reservatórios contíguos às novas hidrelétricas e só admitem, ainda que com relutância, a constru- ção de usinas a fio d’água, terão de reexaminar suas crenças. Serão cha- mados a examinar os prós e contras em cada caso específico, sem pre- conceitos. Nesse processo, é prová- vel que cheguem à conclusão que em alguns casos é preferível, sob a estri- ta ótica ambiental, não desperdiçar a água durante as cheias, e sim armaze- ná-la para uso nas estiagens.

A coluna de Jerson Kelman é publicada a cada dois meses

As mudanças climáticas e a produção de energia hidrelétrica

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