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Rev. esc. enferm. USP vol.16 número3

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Academic year: 2018

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E D I T O R I A L

PARADOXOS DA CIVILIZARÃO

Algumas revistas médicas vêm publicando, com tristeza, o aumento na Europa, de suicídios em crianças e adolescentes. A crueldade e a frieza das cifras, pequenas que sejam, revelam grave e oculto problema social. O mau trato e as torturas a que são submetidos crianças e adolescentes devem ser destacados como as causas maiores desta lamen-tável ocorrência, ressaltando-se, também, a profunda cumplicidade do silêncio por parte das autoridades. Não é compreensível que, no mundo de hoje, ainda existam crianças vivendo em condições semelhantes àquelas dos antigos campos de concentração, da Alemanha nazista. As crianças podem ser vítimas de traumas os mais variados, levando-as à revolta e isto, em países considerados os mais civilizados do mundo. Luís Carlos Raya, em seu interessante livro — "Da Infância à Adolescência; Da Teoria à Prática" (1978) refere, com razão, que as crianças e os adoles-centes são vítimas, nas mais das vezes, indefesas, de estruturas ricas em desentendimento, em injustiças, em egoísmo e, em contrastes sociais e o pediatra precisa olhá-los como médico, como psicólogo, como soció-logo, como político, como humanista, como espiritualista, para poder melhor conhecê-los, orientá-los e defendê-los.

As crianças sempre necessitam ser tratadas com amor, porque elas só têm, no justo dizer do Prof. Pedro de Alcantara dois únicos meca-nismos de defesa: "o choro, como sinal de sofrimento, e a morte como sinal de protesto".

Todos nós sabemos que milhares de crianças são torturadas diaria-mente, vítimas de maus tratos corporais e de agressões psíquicas e sociais. Segundo Krynski, estudioso desses problemas em nosso meio, a cres-cente instabilidade das relações familiares acarreta cada vez mais maior número de filhos nascidos fora do matrimônio legal, com as conse-qüências de privação familiar e social.

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através de um intercâmbio permanente com todos os membros da família. Raya refere-se, então, às crianças negligenciadas ou maltratadas, com um frágil senso de identidade, tornando-se tristes, medrosas, emocio-nalmente vazias e, ao mesmo tempo agressivas e com raiva reprimida.

Pobre e triste é o mundo em que hoje vivemos. A liberalização dos costumes, com todos os imperativos da moda, os casos de alcoolismo em crianças, com os seus malefícios, as imposições de uma sociedade materialista, a maré montante da violência organizada, da escalada das tragédias e das mortandades, a dança do ódio, do desespero e da des-truição dos valores fundamentais do homem e do convívio civil — tudo isto está contribuindo para esses tristes fatos. O que se observa hoje em dia é a brutalidade, o ódio que rastreia as próprias religiões.

Só o amor solidário será, ainda e sempre, o sentimento redentor de um "bicho da terra tão pequeno", como o pôs em verso o gênio maior de nossa língua.

No ano internacional da criança, fizemos um apelo aos homens responsáveis pelos destinos de nosso país que cuidem do menor aban-donado, do contingente assustador de adolescentes delinqüentes, de mar-ginais, vítimas dos riscos psíquicos que impediram aos mesmos o desen-volvimento sadio de sua personalidade e da perfeita estruturação de seu caráter.

Os lares desfeitos, os lares negligenciados, os lares brutalizados, no justo dizer de Luís Carlos Raya, traumatizam demais as crianças e, muitas vezes, infelizmente, os maus tratos físicos constituem a tônica na conduta dos adultos.

Onde cessa o amor, cessa a vida. E é, por esta razão fundamental, que as crianças e adolescentes negligenciados, tristes e vazios emocio-nalmente, tornam-se agressivos, preferindo seguir por outros lamentá-veis e condenálamentá-veis caminhos.

Referências

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