• Nenhum resultado encontrado

Protagonismo e desenvolvimento comunitário no sertão: desafios do trabalho interdisciplinar de pesquisa e extensão / Protagonism and community development in the sertão: challenges of interdisciplinary research and extension work

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2020

Share "Protagonismo e desenvolvimento comunitário no sertão: desafios do trabalho interdisciplinar de pesquisa e extensão / Protagonism and community development in the sertão: challenges of interdisciplinary research and extension work"

Copied!
11
0
0

Texto

(1)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

Protagonismo e desenvolvimento comunitário no sertão: desafios do trabalho

interdisciplinar de pesquisa e extensão

Protagonism and community development in the sertão: challenges of

interdisciplinary research and extension work

DOI:10.34117/ bjdv6n6-090

Recebimento dos originais: 08/05/2020 Aceitação para publicação: 04/06/2020

Alcineide Aguiar Pimenta

Mestre pela UNIVALI. Professora do Curso de Administração Faculdade Luciano Feijão

E-mail: [email protected]

José Maria Nogueira Neto

Professor do Curso de Psicologia Faculdade Luciano Feijão E-mail: [email protected]

Nivaldo Pereira Corrêa

Discente do Curso de Psicologia Faculdade Luciano Feijão

E-mail: [email protected]

Iara Gomes Liberato

Discente do Curso de Administração Faculdade Luciano Feijão E-mail: [email protected]

Francisca Flavia Freire Bastos

Discente do Curso de Administração Faculdade Luciano Feijão E-mail: [email protected]

Gleyciane Mendes Aguiar

Discente do Curso de Administração Faculdade Luciano Feijão E-mail: [email protected]

RESUMO

O projeto interdisciplinar de pesquisa e extensão “Canudos: Superando a diversidade étnico-racial através do diálogo” aconteceu em formato inovador quando propôs a junção de 05 cursos de graduação Administração, Direito, Enfermagem, Engenharia Civil e Psicologia, para vivências na comunidade sertaneja de Canudos, localizada às margens da BR 222, em Sobral/CE. O objetivo deste artigo foi evidenciar como distintas áreas aplicam suas teorias, métodos e práticas interventivas para afirmar a importância da interdisciplinaridade nos processos de produção de conhecimento e auto reconhecimento identitário de uma comunidade. A coleta de dados aconteceu por meio de imersões no campo para observação e escuta de narrativa. Os relatos foram registrados

(2)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

em diário de campo que posteriormente foram analisados, categorizados e transformados em uma coleção de produção científica socializada entre a comunidade e a academia. Através deste projeto, foi proporcionado o desafio de praticar conhecimentos teóricos, metodológicos, interventivos e técnicos junto ao compromisso ético profissional de cada uma das áreas envolvidas na mediação de grupos interdisciplinares.

Palavras-chave: Interdisciplinaridade, Intervenção Comunitária, Extensão Universitária. ABSTRACT

The interdisciplinary research and extension project “Canudos: Overcoming ethnic-racial diversity through dialogue” took place in an innovative format when it proposed the combination of 05 undergraduate courses in Administration, Law, Nursing, Civil Engineering and Psychology, for experiences in the hinterland community of Canudos, located on the BR 222, in Sobral / CE. The aim of this article was to show how different areas apply their theories, methods and interventional practices to affirm the importance of interdisciplinarity in the processes of knowledge production and self-recognition of a community. Data collection took place through immersions in the field for observation and listening to the narrative. The reports were recorded in a field diary, which were later analyzed, categorized and transformed into a collection of scientific production socialized between the community and the academy. Through this project, the challenge of practicing theoretical, methodological, interventional and technical knowledge was provided together with the professional ethical commitment of each of the areas involved in the mediation of interdisciplinary groups.

Keywords: Interdisciplinarity, Community Intervention, University Extension.

1 INTRODUÇÃO

O projeto interdisciplinar de pesquisa e extensão “Canudos: Superando a diversidade étnico-racial através do diálogo”, realizado por uma instituição de ensino superior de cunho particular, localizada em meio ao sertão cearense, proporcionou formato inovador, quando propôs a integração de cinco cursos de graduação: Administração, Direito, Enfermagem, Engenharia Civil e Psicologia para a realização de intervenção comunitária com objetivo em comum. A proposta foi fundamentada no princípio da interdisciplinaridade, na qual discentes e docentes foram desafiados a experienciar, no campo prático-interventivo, seus conhecimentos teóricos, através de metodologias vivenciais e compartilhadas. Cada área de formação elencou seus objetivos de trabalho com foco a responder o objetivo geral do projeto que visava desenvolver ações que integrassem ensino, pesquisa e extensão para assim colaborar com o desenvolvimento de Povos e Comunidades Tradicionais, a partir das relações étnico-raciais e da condição local, social, cultural, epidemiológico, políticas e econômicas. Canudos apresenta evidências de uma comunidade sertaneja e está situada às margens da BR-222, perímetro rural do município de Sobral/CE. Composta por 35 famílias, a principal atividade laboral é a agricultura familiar para consumo próprio e a criação de animais de pequeno porte, alguns moradores trabalham na cidade. Não há políticas de geração de renda e como fonte de renda para as

(3)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

famílias, além dos assalariados que se deslocam para o trabalho na cidade, encontram-se aposentados e beneficiários de programa de transferência direta de renda como o bolsa família.

Na comunidade não há equipamentos ou dispositivos públicos, portanto, as crianças e jovens em fase estudantil se deslocam diariamente para a sede do município, em transporte específico, para frequentarem a escola. A cobertura de saúde é precária, a visita de agentes comunitários de saúde não acontece com frequência e a unidade de saúde mais próxima fica em Sobral. A infraestrutura carece de melhorias, pois não há saneamento básico, a coleta de lixo acontece esporadicamente e o acesso a água nem sempre é garantido.

Canudos apresenta uma maneira peculiar de existência. As características de um povo sertanejo se apresentam muito marcantes. É comum se fazer associações e reconhecimento de alguns dos seus moradores com personagens presentes em clássicos da literatura sertanejas. A visão folclorizada que se tem sobre o sertanejo, como a cristalização da imagem da seca, a estagnação e o atraso social, ainda pode ser comumente observado.

Alguns outros aspectos são relevantes e devem ser observados: o linguajar e o sotaque regionalista; o formato das moradias, com os cômodos separados por paredes que não tocam o teto, sem forro, as portas partidas pela metade, podendo deixar aberta somente a parte superior; o apelo ao misticismo muito presente na oralidade e nos elementos simbólicos das casas; e, a forte religiosidade, presente em imagens sacras nas casas dos moradores ou trazida pelas narrativas (ALMEIDA & NETO, 2019). Percebeu-se, também, um modo de vida simples e não consumista; as vestimentas tipicamente características; uma culinária modesta, sem muita variedade, mas típica do sertão; um forte apego às tradições mais remotas; a relação com o território enquanto lugar de pertencimento; uma organização patriarcal das famílias. Desta forma, Canudos “pode ser compreendida como uma comunidade sertaneja conforme seus aspectos subjetivos e observáveis” (ALMEIDA & NETO, 2019, p.50).

O projeto, desenvolvido por professores e alunos da Faculdade Luciano Feijão, uma Instituição de Ensino Superior Particular, cravada em meio ao semiárido cearense, proporcionou o desafio de exercitar conhecimentos teóricos, metodológicos, interventivos e técnicos junto ao compromisso ético e profissional de cada uma das áreas envolvidas na mediação de grupos interdisciplinares. A mobilização maior se deu na busca por produzir conhecimento científico que pudesse orientar os discentes e docentes sobre os desafios da intervenção em sua magnitude e pela diversidade de áreas interligadas. O trabalho interdisciplinar exige cautela e nuances específicas por conta das múltiplas formas de visão de humano, dos diversos modos de observação e entendimento

(4)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

sobre os sujeitos, da forma de entender e pensar sobre o ambiente, as construções acerca de território e pelas formas de entender os modos de vida e de estar no mundo (ALMEIDA & NETO, 2019).

As ações neste formato podem contribuir para a produção científica sobre as relações que se dão entre os docentes e os formandos inseridos na comunidade, experienciando outros comportamentos e hábitos. O trabalho interdisciplinar tem o compromisso de qualificar o que é comum a duas ou mais disciplinas ou outros ramos do conhecimento. É o processo de ligação entre as disciplinas na qual criam situações onde ficam evidentes as divergências e convergências, e tudo deve ser respeitado e aproveitado para o enriquecimento do trabalho (BICALHO, 2011).

A relação entre os conteúdos disciplinares é a base para uma investigação mais coerente, onde uma matéria auxilia a outra, para que ambas encontrem as respostas para suas hipóteses ou criem perguntas mais bem elaboradas que as levem para uma elucidação mais ampla e mais dialética. Um conteúdo interdisciplinar pode fazer parte de um grande projeto, entre vários professores ou até mesmo com um único professor. Por exemplo: um professor de Administração ao aplicar os fundamentos da Administração para organizar um processo pode utilizar instrumentos de pesquisa da psicologia para personalizar a sua organização.

O projeto interdisciplinar de pesquisa e extensão “Canudos: Superando a diversidade étnico-racial através do diálogo” desafiou a compreensão de formas de vida e configurações das relações no âmbito da infraestrutura, do trabalho, jurídico, da saúde e psicossocial, bem como provocou nos alunos questionamentos, inquietações e disponibilidade para a realização de atividades desenvolvidas com a comunidade. Tratou-se de uma vivência que afirmou a importância de projetos de pesquisa e extensão na vida acadêmica dos estudantes e no processo da relação do desenvolvimento de vínculo com as questões sociais, políticas, históricas, culturais, econômicas, geográficas e antropológicas. Tudo isso atrelado às novas formas de produzir ciência, a partir da interação com o cotidiano e dos processos de produção participativos, onde o extensionista é o protagonista e autor.

2 METODOLOGIA

Uma proposta de trabalho que prevê a inserção no campo de alunos e professores requer uma variedade de dispositivos metodológicos que vão além dos oferecidos pela metodologia científica, no que diz respeito à produção científica. Portanto, as diretrizes teórico-metodológicas pensadas para a execução desse projeto foram articuladas, principalmente, na dimensão da construção coletiva, na relação dialógica e na legitimidade e reconhecimento dos saberes populares tradicionais

(5)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

pelo saber científico, permitindo uma aproximação entre as realidades vividas com as realidades vivenciadas (FALCÃO, 2014).

Enquanto movimento formativo foi pensado a oferta de oficinas e estudos entre os professores e alunos para um alinhamento das discussões a partir de referenciais teóricos específicos. Os estudos formativos pautaram nos estudos sobre a extensão universitária, conceito de comunidade e povos tradicionais, estudos sobre o sertão, oficinas sobre técnicas de facilitação comunitária, métodos e estratégias de pesquisa-intervenção e direitos humanos. As ações do projeto eram divididas em alguns eixos: 1) Estudos teóricos 2) Rodas de discussão e orientação; 3) Oficinas preparatórias para alinhamento dos estudantes; 4) Planejamento das atividades; 5) Produção de insumos; 6) Atividades/Intervenção no campo; 7) Reflexão sobre a intervenção e apresentação dos dados e demandas coletadas; 8) Produção de textos sentidos sobre o momento vivido; 9) Postura investigativa e construção da pesquisa; e, 10) Rodas de conversa sobre temas gerais.

O foco metodológico para as vivências comunitárias estava na troca de experiências entre os grupos em si, entre os dois grupos (academia e comunidade), e entre os grupos e a sociedade de forma geral. A pretensão foi de criar pontes de diálogo entre as vivências e o olhar da ciência. Com isso, foi proposto um conjunto de atividades com a comunidade: caminhadas comunitárias, exercício do olhar apreciativo, construção de diagnóstico para identificação das necessidades psicossociais, conversas informais, rodas de conversas, visitas domiciliares, participação em momentos coletivos comunitários, atividades de comensalidade e momentos de aproximação com as lideranças locais.

Todas as ações previstas foram pensadas a partir de referenciais teóricos baseados nas técnicas de facilitação comunitária de acordo com os escritos de Góis (2008), nos pressupostos da Educação Popular de Freire (1996, 2002) e nos processos de mediação de aprendizagem propostos por Vygotsky (1998), favorecendo o protagonismo e autonomia dos extensionistas enquanto interventores junto com a comunidade.

Durante o trabalho imersivo, observou-se a realidade da comunidade e buscou-se identificar elementos que evidenciassem o perfil, os modos de produção, a construção subjetiva, a estrutura geográfica e física, os movimentos comunitários e as formas de relacionamento. A princípio, o exercício do olhar apreciativo deu conta de desvelar as potencialidades do lugar através de caminhadas comunitárias.

A caminhada comunitária é um andar realizado em grupo, no qual se juntam para caminhar pelas ruas da comunidade, profissionais, estudantes, visitantes e moradores, com o fim de conhecer os locais, as pessoas, ver situações, ouvir casos e causos, saber da história do lugar, dar-se a (re) conhecer e estabelecer laços de convivência, estar mais dentro e por dentro do cotidiano do lugar.

(6)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

A caminhada comunitária quer dizer um andar coletivo visando olhar junto, compreender junto e atuar junto (GÓIS, 2008).

A vida no meio rural é historicamente estigmatizada por falas que enfraquecem a potencialidade das pessoas que vivem ali. O olhar apreciativo para os fenômenos que surgem nas comunidades rurais foi a primeira diretriz de trabalho para todo o grupo.

O olhar apreciativo requer sempre uma visão a partir de valores positivos para o futuro desejado, valorizar os pontos fortes da questão, saber que o conhecimento acontece através da interação com e dentro de um sistema social. Enxergou-se a potência dos aspectos psicossociais, emocionais, de ordens econômicas, políticas, epidemiológicas e ambientais. A investigação apreciativa prevê que

Em situações nas quais perguntas apreciativas eram formuladas, as pessoas foram capazes de se comunicar de maneira aberta e entusiasmada. Elas também se mostraram mais confiantes em si mesmas e começaram a valorizar as perspectivas das outras pessoas. E se mostraram mais dispostas a correrem riscos e promoverem mudanças (SOUZA; MCNAMEE; SANTOS, 2010, p.601).

Como forma de análise dos dados, foi proposta uma categorização dos trabalhos, em virtude dos objetivos de cada curso e dos objetivos comuns a todos. A organização das propostas de pesquisa se deu a partir de uma pergunta chave para cada curso e de uma pergunta chave coletiva para todos os cursos. Ou seja, os dados coletados alimentavam pesquisas por curso e a pesquisa geral. Além disso, o corpo docente do projeto se encarregou de produzir escritos sobre as perspectivas, desafios e horizontes do trabalho interdisciplinar na pesquisa e extensão universitária.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Antes de qualquer atividade, o conceito de extensão foi revisado pelos professores. Segundo Lima (2007), o conceito de extensão abrange múltiplas práticas: ações de intervenção pensadas para o fortalecimento da cidadania e da autonomia da comunidade; projetos de organização para o resgate dos papéis sociais dos sujeitos construtores da história pessoal e coletiva; organização de ações, eventos e campanhas de sensibilização sobre direitos humanos e desenvolvimento social; pesquisas e projetos de iniciação científica voltados à formação de estudantes investigadores aptos de compreender e intervir nos fenômenos sociais; programas interdisciplinares de formação de educadores sociais.

O sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, amplia e valoriza a concepção de extensão dizendo que

(7)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

A área de extensão vai ter no futuro próximo um significado muito especial. No momento em que o capitalismo global pretende funcionalizar a Universidade e, de fato, transformá-la numa vasta agência de extensão ao seu serviço, a reforma da Universidade deve conferir uma nova centralidade às atividades de extensão (com implicações no currículo e nas carreiras dos docentes) e concebê-las de modo alternativo ao capitalismo global, atribuindo às Universidades uma participação ativa na construção da coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural (SANTOS, 2004, p. 53-54).

O alinhamento sobre o entendimento do conceito de extensão foi importante e necessário para que pudéssemos desvincular a ideia de uma atividade descontextualizada que vai propor serviço assistencialista, pensada na lógica da ação social. Entender a dimensão plural, diversa, que promove intercâmbio de experiências, que vai pensar a lógica do empoderamento e promoção de autonomia comunitária foram os principais pontos de ancoragem enquanto consolidação desse conceito.

A transformação social tão esperada deve ser fruto de um reconhecimento dos saberes e interesses acadêmicos atrelados aos produtos sociais, culturais, econômicos, políticos, populares e dos direitos humanos. Para isso, foi importante o entendimento da articulação interdisciplinar entre extensão, pesquisa e ensino como indissociáveis e transformadores. Para Franco et. al (2013), interdisciplinaridade é

o diálogo é condição primeira da interdisciplinaridade, não somente entre campos disciplinares; ela requer trocas com a comunidade, abertura à inovação, busca de sustentação, exige interação dinâmica entre o público e sua aplicação na comunidade, enfim, diálogo com a região, com o país e com o mundo. reforçamos a importância da diversidade de diálogos, pois são eles que, em sua heterogeneidade, se transformam em canais de trocas enriquecidas nas peculiaridades das ressignificações locais/pessoais (p.13).

Inicialmente, correlacionar a concepção de interdisciplinaridade que orienta as propostas curriculares de cada um dos cursos envolvidos com as propostas para ações de extensão foi um desafio para docentes e discentes. Depois, o entendimento dos professores e estudantes sobre o que seriam os povos e comunidades tradicionais trouxeram alguns questionamentos. Em seguida, entender sobre o que se tratavam as relações étnico-raciais e suas dinâmicas tornaram o trabalho mais desafiador.

Vale destacar que a definição sobre o conceito para Comunidades e Povos Tradicionais aconteceu depois de um amplo debate e com a criação da Política Nacional de Desenvolvimento

(8)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNSPCT), aprovada de acordo com o Decreto nº 6.040/2007 que diz que as Comunidades e Povos Tradicionais são

Grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (Decreto n. 6.040/2007, 2007, p. 1).

Pensar ações coletivas, intercursos e com a comunidade exigiu outras e novas formas de entender a construção do conhecimento e as possibilidades de ensino e de aprendizagem no ensino superior, a partir da extensão. A intenção maior era favorecer à compreensão de uma realidade em sua totalidade, potencializando o entendimento das formações sociais, culturais e de modos de vida. A inserção comunitária favoreceu a formação de relações com o mundo real, por vezes bem próximas do que dizem as teorias, por outras, bem distantes.

Num trabalho interdisciplinar espera-se as divergências sobre a forma de olhar e entender cada fenômeno por conta das diferentes ciências envolvidas, Administração, Enfermagem, Engenharia Civil, Direito e Psicologia. As diferenças são trazidas nos discursos construídos por estudantes e professores. Muitas expectativas são geradas e isso faz com que algumas frustrações apareçam ao longo do processo, mas, ao mesmo tempo há surpresas quando se observam os resultados construídos com/no campo de intervenção.

Através de um movimento natural, as observações feitas conduziam a trabalhos específicos que, após socializados, eram discutidos e colocados como ponto de pauta com a comunidade. Alunos e professores, nas suas respectivas áreas de conhecimento, pautados nos objetivos estabelecidos pelo projeto, passaram a observar a realidade daquela comunidade e identificaram aspectos referentes aos seus campos de estudos específicos que, em rodas de discussão e orientação, foram sendo apresentados para todo o grupo de extensionistas.

Dentre eles, através do olhar da Engenharia Civil foi evidenciado a carência de recursos específicos, como a água potável e a estrutura de armazenamento e cuidados básicos para garantir a qualidade e uso adequado; aspectos relacionados ao armazenamento e coleta de lixo; topografia; mapa da comunidade; marcações de pontos importantes para os moradores e georreferenciamento do lugar, por exemplo.

Por outro lado, a Administração observou os saberes laborais das mulheres, donas de casa, as quais não valorizavam tais atividades por não reconhecer nestas, valorização de mercado.

(9)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

Utilizando o know how da Administração em economia criativa e articulação junto à empresas e organizações de fomento ao desenvolvimento local, foi articulado ações junto a comunidade para fomentar a produção de artesanato de forma organizada que pudesse viabilizar o acesso a matéria prima, a produção e a distribuição dos artesanatos produzidos, por meio de parceria estabelecida com a Casa de Economia Solidária do município de Sobral, Ceará.

Quanto a Enfermagem, percebeu-se a exposição a vários agentes contaminadores que prejudicam a saúde da comunidade. Trabalhou-se com processos de atenção em saúde. Os determinantes sociais de saúde apontavam para acometimentos em saúde que poderiam ser resolvidos com o uso de água filtrada, uso de medicina tradicional com ervas e plantas para o tratamento de algumas enfermidades, criação de estratégias de autocuidado em saúde e prevenção de doenças.

O curso de Direito promoveu rodas de conversa que facilitava o acesso das pessoas ao entendimento sobre negação e garantia de direitos. Produziu junto à comunidade o processo de organização político-social com a construção de um plano de acessibilidade aos aparelhos da política pública que lhes pudessem garantir direito, construiu caminhos para a organização de formas de participação popular através da revitalização dos laços entre os membros da associação comunitária até então, apenas um instrumento documental.

Nas intervenções psicossociais realizadas pela Psicologia foram promovidas ações para o fortalecimento de elementos identitários que definem aquela comunidade enquanto sertaneja. Durante as rodas de conversa e visitas domiciliares se trabalhou o reconhecimento dos saberes tradicionais, a construção da noção de pertencimento ao lugar/território, valorização da cultura, a importância do empoderamento comunitário, promoção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, condições para a libertação da condição de alienação e opressão.

Embora as impressões estejam amparadas pela vivência com a comunidade, Góis (2008) diz que a inserção e facilitação comunitária ocorre como um processo de interações, que envolve simultaneamente a comunicação entre os moradores e o uso de instrumentos, realizado coletivamente e promotor de ações práticas dentro da comunidade, de modo a possibilitar a transformação objetiva da realidade. Assim, a atividade comunitária compreende o enlace de aspectos físicos e histórico-culturais, atendendo, simultaneamente, a demandas coletivas e individuais, sendo constituída por dimensões instrumentais e comunicativas que se realizam de forma não dissociada.

Contradições, limites e dificuldades encontrados pelos professores levaram ao grupo de alunos uma sensação de desafio, pois assim buscavam-se as formas de superação e promoção da

(10)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

qualidade das ações. Entender que o ensino superior deve sair da condição de proprietário do conhecimento e que o mesmo é constituído, em sua totalidade, a partir da realidade objetiva vivida na qual faz parte e que essa realidade não se separa, nem se divide a partir dos planos de conhecimentos científicos foi o grande resultado do projeto.

4 CONCLUSÃO

O trabalho interdisciplinar proposto teve o compromisso de qualificar o que pode ser comum

a todas as disciplinas envolvidas, mesmo em circunstâncias em que se evidenciaram as divergências dos saberes. Foi conveniente utilizar as impressões colhidas a partir das vivências na comunidade de Canudos, enquanto grupo de pesquisa e extensão, para a produção de conhecimentos e na comunicação interdisciplinar entre os cursos envolvidos.

Produziu-se uma compreensão dos fenômenos na perspectiva do uso da linguagem na

relação dos saberes para melhoria das técnicas de investigação e do conceito de comunidade na contemporaneidade visando melhorias nas práticas investigativas e interventivas para todas as áreas implicadas no projeto.

As ações realizadas em Canudos produziram efeitos que fortaleceram o auto reconhecimento da comunidade enquanto povo sertanejo possuidora de direitos próprios que poderão contribuir para a redução da desigualdade. Foi possível observar o entendimento sobre a promoção de justiça social no processo de emancipação dos sujeitos afetados pela interação nas relações que se dão naquele lugar.

Este trabalho de pesquisa e extensão mostrou-se relevante para a inserção do discente também na vida comunitária como campo real de atuação, além de proporcionar diálogos diretos com a sociedade, para além dos muros institucionais e fortaleceu a relação entre Ensino, Pesquisa e Extensão.

Relatou-se nesse artigo, a experiência vivenciada por alunos e professores dos cursos

envolvidos no projeto, com o intuito de entender os fatores colaborativos no processo de integração das ações propostas, bem como os pontos de desafios enfrentados durante o projeto. Entende-se que esse relato irá contribuir com novas propostas de intervenção interdisciplinar com ênfase ao desenvolvimento comunitário, redução da desigualdade e promoção de justiça social.

(11)

Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 6, p. 34075-34085 jun. 2020. ISSN 2525-8761

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, G.; NETO, J. A psicologia diante da construção identitária e à cultura sertaneja. In. VIANA, D.; ACIOLES, M.; OLIVEIRA, M. (Orgs). Psicologia e políticas públicas: contribuições das diferentes áreas da profissão para o debate. Série Diversidade de Práticas em Psicologia. Volume 2. Fortaleza: CRP11, 2019. P. 50-54.

BICALHO, L. M, (2011). Aspectos conceituais da multidisciplinaridade e da interdisciplinaridade e a pesquisa em ciência da informação.

Decreto n. 6.040, de 7 de fevereiro de 2007 (2007). Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Recuperado em 15 maio, 2020, de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6040.htm

FALCÃO, E. Vivência em comunidade: outra forma de ensino. João Pessoa: UFPB/ Editora Universitária/ AGEMTE, 2014.

FRANCO, M. P. et al. Interdisciplinaridade e Formatos Institucionais. In: Simpósio Internacional sobre Interdisciplinaridade no Ensino, na Pesquisa e na Extensão - Região Sul, Florianópolis, 2013. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

GÓIS, C.W. Saúde Comunitária: pensar e fazer. São Paulo, SP: Hucitec.2008.

LIMA, C. L, D.C. NECOM: uma experiência possível para a efetivação da extensão universitária na UniSantos. Em: Ação Comunitária – Revista do Núcleo de extensão Comunitária da Universidade Católica de Santos. Ano 4, abril, páginas 17-40, 2007.

SANTOS, B. S. A Universidade no século XXI. São Paulo: Cortez Editora, 2004.

SOUZA, L. V. e; MCNAMEE, S.; SANTOS, M. A. dos. Avaliação como construção social: investigação apreciativa. Psicol. Soc., Florianópolis , v. 22, n. 3, p. 598-607, Dec. 2010

Referências

Documentos relacionados

A consolidação no mercado global da marca Labellamafia mostra que a internacionalização da marca antes da internacionalização de seu produto foi capaz de trazer

Bom na maioria das vezes, tipo assim, muitos só se importavam com eles, eu ando bem o resto que se lixe, então, muitas vezes tinha que dar um jeito para sobreviver...., bem

O produto Prós HP (doxazosina+finasterida) está indicado no tratamento da hiperplasia prostática benigna (HPB) e dos sintomas relacionados à doença, como sintomas

A solução, inicialmente vermelha tornou-se gradativamente marrom, e o sólido marrom escuro obtido foi filtrado, lavado várias vezes com etanol, éter etílico anidro e

Os dirigentes sindicais eleitos, e no máximo de um por empresa, pertencentes ao Sindicato Profissional convenente, serão liberados por até 15 (quinze) dias sucessivos

c) A licitante poderá, ainda, suprir ou sanear eventuais omissões ou falhas, relativas ao cumprimento dos requisitos e condições de habilitação estabelecidos no

Formação oferecida pela Secretaria do Tesouro Nacional – STN/Ministério da Fazenda e pela Secretaria de Estado de Fazenda do Rio de Janeiro – SEFAZ-RJ. 16h30 – Tema