Luís Patriani VIAGEM49 experiências inesquecíveis Praia do Rosa Temporada de cruzeirosAno 9 No 107 Setembro / 2008
O Brasil que atrai os gringos não
é mais aquele
Navegar com Roberto Carlos. E todos os outros cruzeiros temáticos da temporada
49 a vida toda
■ Atravessamos o Saara
■ Vimos a aurora boreal
■ Dirigimos uma moto na Rota 66
■ Percorremos a Transiberiana
■ Mergulhamos com tubarões
■ Dormimos num hotel de gelo
■ Voamos num avião de acrobacias
■ Fizemos um safári de balão no Quênia
■ Acompanhamos o Paris–Dakar
■ Guiamos uma moto de neve a -30
oC
viagens para
Praia do Rosa
...as baleias voltaram! (e o luxo chegou)
Hotéis clássicos
Eles também estão de volta!
(depois de belas reformas)
Setembro 2008 No 107 R$ 9,90 www.proximaviagem.com.br Portugal
€ 2,50
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Eles vinham para ver mulatas e fotografar o Cristo Redentor. Agora, os new gringos querem aventura, gastronomia e envolvimento com o país real. O Brasil está pronto para eles
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Se você ainda vê um bocado de gringos no bondinho do Pão de Açúcar, pode ter a certeza de que há muitos outros visitantes estrangeiros aproveitando o Brasil de um jeito menos convencional.
Eles agora vêm para aprender capoeira, aventurar-se em comunidades ribeirinhas ou suar a camisa num spa, entre outras atividades. E, quer saber? Muitos estão
se deleitando com lugares e passeios tão exclusivos que nem mesmo são oferecidos a nós, pobres brasileiros.
Portanto, não dê tanta trela para o velho estereótipo do branquelo com camisa havaiana, louco para ver biquínis recheados e capaz de falar só três palavras em português: “samba”,
“Pelé” e “Copacabana”. O.k., neste exato momento, algum sujeito com essas características está comprando um berimbau ou um prato com borboletas pintadas em nosso território. No entanto, a cada ano, o contingente ganha a companhia de outra espécie de turista:
aquele que vem ao Brasil com muito mais informação a nosso respeito.
É um bom motivo para comemorar, embora seja preciso reconhecer: o Brasil varonil ainda
acolhe poucos visitantes estrangeiros. Levando em conta nosso potencial turístico, bem entendido. Segundo dados da Embratur, o país recebeu 5 025 834 turistas estrangeiros em
2007, que deixaram em nossos cofres a receita recorde de 4,9 bilhões de dólares. Parece
muito. Mas o número corresponde a menos de 1% do total dos viajantes que perambularam pelo mundo no mesmo período, 898 milhões de pessoas.
De qualquer maneira, a mudança de perfil do visitante estrangeiro vem sendo considerada auspiciosa pelos
especialistas. “Esse tipo de turista é mais jovem e tem menos tempo para viajar, mas gasta mais dinheiro”, analisa Paulo Melega, professor de Turismo na Universidade de São Paulo (USP). “Atender a ele exige segmentação e especialização
do mercado, como hotéis de design ou ecológicos, além de serviços diferenciados.”
O filão promissor despertou interesse do americano Mike Mitchell enquanto passava férias no litoral fluminense. Admirado com a beleza do lugar, voltou em 2002 para criar a Body and Soul
Adventures, empresa especializada em trazer gringos para retiro físico e mental. Hoje, o spa de Mitchell se divide em três endereços. Ele recebe seus gordinhos e estressados em duas pousadas em Paraty, além de chalés na Ilha do Breu, ao largo da costa de Angra dos Reis. O cotidiano dos estrangeiros dura uma semana e abrange seções de ioga à beira-mar, caminhadas em trilhas na mata, passeios de caiaque e comida orgânica. “Recebemos todos os anos até trinta grupos com oito pessoas cada um”, conta Joey Bayer, gerente operacional da empresa. “A grande maioria, cerca de
OS NOVOS VISITANTES O viking-tigrão escala, descalço, as paredes do Saco de Mamanguá, no Rio, um lugar remoto até para brasileiros. Já o candidato a mestre-cuca foi ver o que o tabuleiro da baiana tem.
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95%, é formada por mulheres americanas. Desse total, pelo menos metade vem de Nova York.”
Navegar entre o Rio de Janeiro e a Ilha Grande no Tocorimé, um veleiro de 36 metros construído com madeira da Amazônia, não é exclusividade dos ianques, mas também de ingleses, alemães, suecos e por aí vai. Brasileiro a bordo é coisa rara. A embarcação foi feita em Santarém, no Pará, por três holandeses e um dinamarquês que não agüentavam mais velejar sob a batuta de um chatíssimo capitão francês. Durante seis anos, eles trabalharam na construção e sonhavam em transformá-la em um barco-escola para jovens carentes. O projeto social naufragou e os sócios resolveram ganhar moneycom turistas e corporações estrangeiras. O roteiro é oferecido lá fora pela GAP, operadora de turismo de
Contando só o ano passado,
AXÉ E O ZEN O gringo da foto bem que tentou entrar no ritmo da meninada do Olodum, em Salvador.
Acabou desistindo para não atravessar a batida. Bem mais fáceis são aulas de ioga à beira-mar em Paraty, no litoral fluminense.
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P R Ó X I M AV I A G E M aventura. Diferente do spa, não há restrições no
Tocorimé. Churrasco, caipirinha e cerveja estão liberados durante os sete dias de viagem.
As praias brasileiras ainda são nosso principal chamariz. Exemplo disso são as praias da Bahia. A costa sul daquele Estado abriga alguns resorts que se valem das belezas da região para aplacar os anseios dos novos forasteiros endinheirados. O Kiaroa, na Península de Maraú, com seus bangalôs em meio à reserva ecológica de 240 000 metros quadrados, tinha apenas 4% de hóspedes estrangeiros em 2005, ano de sua inauguração. Hoje, são 27% e a expectativa é ter, em dois anos, a metade da ocupação reservada aos gringos. Já o Warapuru, na praia da Engenhoca, em Itacaré, só abrirá as portas no ano que vem, mas espera ocupar seus bangalôs de
País Turistas Participação
1. Argentina 920 210 18,31 % 2. Estados Unidos 699 169 13,91 % 3. Portugal 280 438 5,58 %
4. Itália 268 685 5,35 %
5. Chile 260 430 5,18 %
6. Alemanha 257 719 5,13 %
7. França 254 367 5,06 %
8. Uruguai 226 111 4,50 % 9. Espanha 216 373 4,31 % 10. Paraguai 206 323 4,11 %
eles deixaram 4,9 bilhões de dólares por aqui. Ainda é pouco
Quem mandou mais gringos para o Brasil em 2007
■ www.frommers.com
O texto de introdução começa com uma velha piada contada por nós, brasileiros. É aquela em que um arcanjo consulta Deus sobre a injustiça de conceder ao Brasil todas as belezas e nenhuma mazela da natureza, como furacões, vulcões e terremotos. Deus então responde:
”Espere até você ver o povo que eu vou colocar lá”. Em tempo: o site sustenta que o povo daqui trabalha tanto ou mais do que os cidadãos do Primeiro Mundo.
■ www.i-escape.com
“O Rio de Janeiro tem fama de ser violento, mas os viajantes não encontrarão mais riscos do que na maioria das grandes cidades do mundo. De qualquer forma, é importante prestar atenção nos ladrões, particularmente em Copacabana, e não se aproximar das favelas, a menos que com um guia. Não espere que cidadãos falem inglês, a não ser nos principais pontos turísticos.”
■ www.lonelyplanet.com
“O Brasil é o gigante da América do Sul. Uma terra de praias, selvas abafadas e metrópoles maníacas. (…) Ainda que não seja o Éden pregado pela imaginação popular, o Brasil ainda é um país de beleza
incomum. Existem trechos de florestas inexploradas, ilhas com praias tropicais divinas e rios sem fim. E há também as pessoas, que deliciam os visitantes com sua alegria e energia.”
Nós, por eles
O que dizem os principais sites guias internacionais de turismo na internet sobre o Brasil
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Sim, 30% dos gringos vêm ao Brasil apenas para conhecer o Rio de Janeiro.
Entre eles, há quem desembarque na Cidade Maravilhosa para se submeter a cirurgia plástica, passear na Rocinha e até hospedar-se numa favela. Muito estranho?
Graças ao grande Ivo Pitanguy, os cirurgiões plásticos brasileiros estão entre os mais confiáveis do mundo.
Alie-se a isso o fato de cobrarem bem menos que clínicas no exterior. Por isso, empresas como a Cosmetic Vacations apostam em pacotes com transporte, hospedagem, cirurgia e passeios. O rendimento é alto: pelo menos 30 000 turistas vêm ao país todos os anos para
fazer tratamentos estéticos e de saúde.
O número de estrangeiros que desembarca para passear ou se hospedar em favelas é muito menor.
Até porque há poucos, digamos, hotéis de favela. A Pousada Favelinha, no alto do Morro do Pereirão, em Laranjeiras, é um deles. A história começou em Berlim, onde a brasileira Andréa Martins trabalhava como babá e conheceu o alemão Holger Zimmermann. A amizade transformou- se em casamento e depois em sociedade na pousada, aberta no início de 2005. O matrimônio acabou, mas o negócio, não. Holger voltou para a Europa e de lá cuida das reservas. Os
Cheia de encantos mil. Como bisturis e favelas
cinco quartos da Favelinha são ocupados por 90% de estrangeiros.
Eles não ligam para a simplicidade dos aposentos ou a falta de tevê e frigobar.
Os gringos querem ter a sensação de dormir e acordar dentro de uma favela. Perigoso? Absolutamente. Um posto do Bope garante a segurança.
Se a maioria não tem a ousadia de se hospedar numa favela, já há pelo menos um número razoável de forasteiros doidinhos para conhecê- las. Desde que em plena segurança. Foi o suficiente para surgir agências de turismo como a Jeep Tour, que botam os gringos dentro de jipes de guerra (sim, um pouco de mis-en-scène sempre
Ver de perto a nossa herança africana é grande atração.
FAVELA MARAVILHOSA Realmente exciting é se hospedar na Pousada Favelinha, no Morro do Pereirão.
Não tem deck de piscina. Aliás, nem piscina. Mas a vista da laje é simplesmente marvelous. Os menos ousados vão conhecer as vielas da Favela da Rocinha.
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ajuda) e os levam para passear por ruas e vielas da Rocinha, a maior favela do Brasil. Alguns dos pontos de maior sucesso: o Largo do Boiadeiro (um formigueiro humano em torno de uma feira de bugigangas), a Via Ápia, (onde ficam bares e clubes, como o Gaiola das Popozudas) e vistas do mar a partir de uma laje. Para os gringos, puro deleite.
330 metros quadrados e piscina privativa com 80% de hóspedes estrangeiros. “Empreendimentos caros como o Warapuru são focados no público de fora”, diz o professor Paulo Melega. “Por mais que tenhamos demanda interna para o mercado de luxo, ela não é suficiente.” O apelo baiano não se restringe a enseadas verdes. Na terra do saudoso Caymmi, o turismo cultural ganha a cada dia mais força. Não é de se espantar que o Hotel Convento do Carmo, instalado em prédio erguido em 1586 pelos freis carmelitas, em
Salvador, tenha metade da ocupação
garantida por estrangeiros. Os
franceses, em primeiro. Os americanos, em segundo.
Americanos?
Puxa, mas eles não preferem o Sheraton e o Hilton a um velho convento? O fenômeno tem explicação: muitos
CAPOEIRA QUE É BOM, NÃO CAI Diversos branquelos vêm fissurados para aprender golpes de capoeira com nomes exotiques, do tipo meia-lua e são-bento- pequeno. Acabam tomando um rabo-de-arraia da própria falta de ginga congênita.
Mas não estão nem aí...
Para isso, eles chegam a viajar até Cachoeira, a 120 km de Salvador
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Veja as principais diferenças entre…
■ Não estuda o destino
■ Escolhe vários pontos turísticos para conhecer
■ Aprecia apresentações folclóricas feitas para turistas
■ Hospeda-se nas grandes cadeias de hotéis
■ Visita o Brasil para ver beldades nas praias
■ Quer porque quer assistir a desfiles de Carnaval
■ Compra berimbau de suvenir
■ Não passa nem perto de uma favela
■ Adora excursão
■ Não desgruda da câmera fotográfica
■ Estuda o destino
■ Escolhe poucos lugares para conhecer
■ Quer ter uma experiência autêntica e original
■ Prefere hotéis pequenos e personalizados
■ Muitas vezes vem para ver passarinhos na floresta
■ Visita o Brasil para aprender percussão no Olodum
■ Aprende a jogar capoeira
■ Adora passeio na favela, desde que guiado
■ Tem bronca de excursão
■ Não desgruda da câmera fotográfica a Cachoeira, a 110 quilômetros de Salvador? Pois lá
estiveram vários americanos para acompanhar a Festa da Boa Morte, uma procissão de mulheres negras, com direito a samba de roda e rituais de candomblé.
A cerimônia acontece há 226 anos.
Jovens branquelos vindos da Alemanha e Suíça não buscam suas origens genealógicas, mas estão entre os que mais procuram a Boa Terra só para aprender capoeira e percussão. “Eles passam quinze dias para ter aulas particulares com músicos do
turismo na Europa.
Se as praias são o atrativo do Nordeste, a selva é, obviamente, a atração da Região Norte. Qualquer um pode prever que os gringos vêm à Amazônia com mais freqüência que os brasileiros. Mas essa proporção surpreende. Um exemplo: 70% dos hóspedes do Anavilhanas Jungle Lodge — localizado no Rio Negro, em frente à Estação Ecológica Anavilhanas — são estrangeiros. O importante para eles é navegar no maior arquipélago fluvial do
…o velho turista…
…e o new gringo
OSVALDO PAVANELLI
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mundo, um shangri-lá dos ecologistas. Isso sem deixar de lado confortos como ar-condicionado, frigobar e cozinha internacional, é claro.
Outros estrangeiros buscam mais do que estar em meio à mata e o conforto de um hotel, e partem para os meandros da floresta. “Muitos querem conhecer as remotas populações ribeirinhas da Amazônia. E a melhor forma de fazer isso é de barco”, afirma Camila Belchior, da Matuete, agência de viagens
customizadas. Quando Camila diz barco, leia-se iate.
Sofisticado, por sinal. É assim que nossos visitantes chegam a comunidades como as de Arapixana, no Rio Tapajós, ou de Laranjal, no Canal do Jari.
Ao final de cada dia, degustam jantares especiais e participam de luaus em praias isoladas, onde pernoitam. Depois do curso intensivo de Brasil silvestre, resta aos forasteiros pegar o avião e o rumo de casa. Bye-bye, Brazil.
Gringos comandam o timão do Tocorimé e outros gringos aproveitam o passeio. Só a madeira amazônica da embarcação e o mar do litoral fluminense são brasileiros
■ Body & Soul’s Adventure
O spa recebe nas pousadas Bambu Bamboo e Águas de Parati, em Paraty, e em chalés na Ilha do Breu, ao largo de Angra dos Reis.
O programa de 6 noites inclui massagem, ioga, trekking, caiaque e refeições com baixa caloria. A partir de US$ 2 250, ☎ 1 877 627 8431 www.bodysouladventures.com
■ Tocorimé
O veleiro de 36 metros tem 5 cabines para 2 pessoas e 6 individuais.
O roteiro de uma semana entre Rio de Janeiro e Paraty, com parada de 3 dias na Ilha Grande, custa US$ 1200, ☎ 1 (347) 284- 6514, www.tocorime.net
■ Tours Bahia International
Pacotes com hospedagem na Bahia, traslado e aulas particulares.
Um dos mais procurados dura 5 dias e abrange dança afro-baiana, capoeira e
IANQUES, COME HERE! percussão. A partir de R$ 1 350. Largo Cruzeiro do São Francisco, 4, Salvador, www.toursbahia.com, ☎ 55 71 3320-3280
■ Jeep Tour
O roteiro em jipe conversível pelas ruas da Favela da Rocinha dura 3 horas.
Inclui guia falando inglês e espanhol. Valor R$ 95. www.jeeptour.com.br, ☎ 21 2108 5800
■ Matuete
A viagem de barco pelo Rio Tapajós e afluentes, na Amazônia, inclui praias de rio desertas, além de incursões na mata e passeios de canoa nos igarapés da região.
O pacote de 5 dias sai de Santarém e custa a partir de R$ 3968. Rua Tapinás, 22, 7o andar, São Paulo, SP; www.matuete.com,
☎ (11) 3071-4515
■ Anavilhanas Jungle Lodge Localizado em frente à Estação Ecológica de Anavilhanas, na Amazônia, o lodge é feito de uma estrutura suspensa, estilo palafitas, e tem 16 suítes com ar-condicionado.
Os pacotes de 2 a 5 noites custam de R$ 950 a R$1 731, com pensão completa e passeios na selva. www.anavilhanaslodge.com,
☎ 55 92 3622 8996
■ Pestana Convento do Carmo O Convento do Carmo faz parte da rede
“Pousadas de Portugal”, famosa por suas pousadas e hotéis de luxo instalados em sítios históricos. A recepção fica num altar do século 18, e os 79 quartos estão instalados nas antigas celas dos frades carmelitas.
Suíte para casal a partir de R$ 539.
Rua do Carmo no 1, Pelourinho, Salvador,
☎ 55 71 3327 8400, www.pestana.com
■ Kiaroa Eco-Luxury Resort Em meio a uma reserva ecológica na Península de Maraú, na Bahia, o resort oferece spa, cozinha internacional e uma piscina de 800 metros quadrados.
Suítes a partir de R$ 998. Distrito de Barra Grande, ☎ 55 (73) 3258-6213, www.kiaroa.com.br
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