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Ciênc. saúde coletiva vol.14 número2

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Academic year: 2018

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(1)

Sobre as pesquisas,

suas conseqüências e interesses

About research,

its consequences and interests

Paulo Amarante

1

O artigo “Situação de crianças e adolescentes

bra-sileiros em relação à saúde mental e a violência”

aborda um tema de extrema relevância na medida

em que crescem os indícios do aumento da

violên-cia em praticamente todos os segmentos da

socie-dade. Seja pelo avanço do tráfico de drogas,

acom-panhado pelo tráfico de armas, seja pelo aumento

de conflitos bélicos, que afetam a todos, mas,

par-ticularmente, crianças e jovens.

O artigo realiza uma extensa revisão

bibliográ-fica, de uma seleção não sistemática, de estudos

epidemiológicos desenvolvidos em escolas e

comu-nidades brasileiras, relacionando-os também com

as pesquisas realizadas em nível internacional.

As autoras destacam ainda a escassez da rede

de atendimento voltada para os problemas de saúde

mental de crianças e adolescentes, assim como a

falta de preocupação, entende-se que por parte do

Estado e dos profissionais especializados, com a

prevenção da doença mental e com a promoção

da saúde mental. Finalizam com a elaboração de

algumas questões e perspectivas para o

atendimen-to deste segmenatendimen-to populacional.

A bibliografia é organizada de acordo com a

natureza da origem da violência, se familiar, escolar

ou comunitária. Na medida em que as autoras

con-sideram violência um fenômeno que engloba todas

as formas de maus-tratos físicos e emocionais,

abu-so sexual, descuido ou negligência, exploração

co-mercial ou outro tipo, que originem um dano real

ou potencial para a saúde de crianças e

adolescen-tes, é interessante notar a ausência de bibliografia

sobre a violência cometida pelo Estado através das

instituições correcionais e de saúde, mais

especifi-camente pela área da psiquiatria ou da “saúde

men-tal” e das instituições de educação e bem-estar, como

os orfanatos e educandários que mantém as

carac-terísticas de instituições totais

1

dos reformatórios e

casas de correção.

No caso das instituições de internamento

psi-quiátrico de crianças e adolescentes, existem

inú-meros registros relacionados aos maus-tratos e à

violência praticada nestas instituições. A pesquisa

de Bentes

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é uma boa fonte de consulta, dentre

muitas outras, sobre a dimensão da violência

nes-tas instituições.

Por outro, é interessante aprofundar a análise

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1 Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental,

Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz. [email protected]

tanto sobre as cham adas intervenções clínicas,

muitas das vezes de natureza notadamente

disci-plinares e corretivas, quanto sobre as próprias

pes-quisas epidemiológicas.

Uma pesquisa realizada há duas décadas e meia

por Almeida Filho

3

tem sido uma fonte ainda

per-manente de reflexão sobre as pesquisas

epidemio-lógicas e sobre as práticas preventivas, inclusive

sobre esta associação entre os dados encontrados

nas pesquisas epidemiológicas e sua utilização nas

políticas e programas de prevenção dos

transtor-nos mentais e na promoção da saúde mental. O

autor desenvolveu uma das mais interessantes

crí-ticas ao modelo da psiquiatria preventiva no

cam-po da infância e adolescência a partir da seguinte

questão: em que medida as pesquisas

epidemioló-gicas acabam induzindo comportamentos

consi-derados patológicos ou, ainda, em que medida tais

pesquisas ressignificam e reforçam estigmas e

pre-conceitos contra pessoas que tenham alguma

for-ma de comportamento diverso da média

social-mente considerada normal?

Almeida Filho

3

considera que um dos

concei-tos básicos da medicina preventiva é o de história

natural das doenças de Leavell & Clarck, que

pos-sibilita o desenvolvimento de “técnicas de

screening

para o exame massivo das populações, com a

fina-lidade de detectar e tratar casos de inúmeras

doen-ças, como, por exemplo, tuberculose pulmonar,

cardiopatias, neoplasias e outros”.

A psiquiatria preventiva adotou o modelo da

história natural das doenças e a importância do

screening ou “caçada ao doente” ou “busca de

sus-peitos” ou ainda a “vigilância epidemiológica

ati-va”, nas palavras de Caplan

4

, o mais importante

autor no campo da prevenção em psiquiatria e dos

programas de saúde mental comunitária, como

ficaram conhecidos e foram implantados nos

Es-tados Unidos.

(2)

Na tradição foucaultiana da análise da clínica

5

,

poder-se-ia considerar que o olhar clínico, ao

mesmo tempo em que produz saber sobre o

obje-to pesquisado, produz o próprio objeobje-to com o

patologia. Dizer o que está sendo visto, fazer ver o

que está sendo dito.

Um outro aspecto diz respeito à metodologia

destes trabalhos epidemiológicos, que pressupõem

que as entrevistas ou outras formas de coleta das

informações da pesquisa não sofrem influências

culturais, étnicas ou lingüísticas. Por exemplo, na

“Escala de Rastreamento Populacional para

depres-são (CES-D) em populações clínica e não-clínica

de adolescentes e adultos jovens”

6

existem tais

que-sitos: “senti-me incomodado com coisas que

habi-tualmente não me incomodam”, ou “senti que tive

que fazer esforço para dar conta das minhas

tare-fas habituais”. Outro exemplo é a “Escala de

Avali-ação de Transtorno Obsessivo-compulsivo na

In-fância e Adolescência”

7

, que tem como graus de

resistência os quesitos “meus pensamentos e

hábi-tos são até sensahábi-tos e razoáveis” e “isto é só um

hábito, eu o faço sem necessariamente estar

pen-sando a respeito”. Como estas questões são

real-mente formuladas para crianças e adolescentes?

Qual o nível de relativização que estas questões

podem possibilitar? Há, efetivamente, um nível de

consenso na compreensão de como estes aspectos

subjetivos podem ser aferidos em entrevistas e

ques-tionários com populações tão diversas social e

cul-turalmente? Poderíamos supor que, como

conse-qüência destes processos de investigação,

ocorreri-am processos de patologização e medicalização das

populações pesquisadas? No processo biopolítica

de medicalização da vida, as crianças e os

adoles-centes têm sido um dos alvos principais, basta

ob-servar, como um dos exemplos, a altíssima

farma-cologização com comportamentos destes

segmen-tos populacionais

8,9

e as estratégias bastante claras

da indústria farmacêutica em promover o maior

consumo de medicamentos intervindo nas

pesqui-sas epidemiológicas e nas práticas clínicas

10, 11

.

Para encerrar, um último aspecto diz respeito

aos diferentes conceitos adotados que, por si só,

denotam a visível dificuldade em expressar o que

pretendem. O texto das autoras mesmo

demons-tra isto na medida em que adota termos como

“problemas de saúde mental”, “distúrbios”,

“de-sordens” e “transtornos”. Seriam sinônimos? O que

realmente pretendem dizer? O que seria um

pro-blema de saúde mental? Uma experiência de

mal-estar poderia ser considerada como um problema

de saúde mental? Ou um problema de saúde

men-tal seria o transtorno menmen-tal?

Referências

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Bentes ALS. Tudo com o dantes no Quartel D’Abrantes: estudo das internações psiquiátricas de crianças e adoles-centes através de encam inham ento judicial [disserta-ção]. Rio de Janeiro (RJ): ENSP/Fiocruz; 1999. Alm eida Filho N. Crítica à Proposta da Psiqu iatria Preventiva. Informação Psiquiátrica 1983; 4(4):71-76. Caplan G. Princípios de Psiquiatria Preventiva. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1980.

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Debate sobre o artigo de Assis et al.

Comments on the article of Assis

et al.

Lúcia Abelha

2

A violência física, psicológica e sexual em crianças e

adolescentes é um assunto que vem mobilizando a

sociedade civil e em especial profissionais da área de

saúde mental. Algumas ações vêm sendo

trabalha-das; no entanto, não é fácil prevenir, identificar,

tra-tar e evitra-tar a impunidade dos autores das

violên-cias. Enfrentamos dificuldades importantes, como

2 Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, UFRJ.

Referências

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