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Arquivística.net (www.arquivistica.net), Rio de Janeiro, v.1, n.2, p. 8-30,jul../dez. 2005

ARTIGO

G

ESTÃO E PRESERVAÇÃO DE DOCUMENTOS ELETRÔNICOS DE

ARQUIVO

:

REVISÃO DE LITERATURA

P

ARTE

1

ARCHIVAL MANAGEMENT AND PRESERVATION OF ELECTRONIC RECORDS: A LITERATURE REVIEW –

PART 1

Kátia P. Thomaz

katia.thomaz@uol.com.br

Resumo

O volume de informação produzida em formatos digitais tem crescido sensivelmente ao longo das últimas décadas. Entretanto, os meios que utilizamos para transportar e armazenar essa informação são instáveis e a tecnologia necessária para seu acesso tem sido rapidamente substituída por novas gerações mais poderosas que, ao final, se tornam incompatíveis com suas predecessoras. Diversas iniciativas surgem para tratar o problema do documento eletrônico sob a óptica dos arquivos e este artigo oferece visão geral desta trajetória. Nesta primeira parte, relatam-se os fatos notáveis em nível internacional. Na segunda parte, examinam-se os fatos no âmbito nacional e os principais projetos acadêmicos desenvolvidos no campo.

Palavras-chave: arquivologia; documento eletrônico; arquivamento digital; preservação

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Abstract

The information volume in digital formats has been increasing over the last decades. However, the means we use to carry and store it are unstable and the technology needed for access is quickly superseded by newer technologies, generation after generation. Many initiatives emerge to address the electronic document under the archival science point of view and this paper provides an overview of this journey. This first part presents the main international facts. The second examines the facts in Brazilian territory and the primary academic projects developed in the field.

Keywords: archival science; electronic record; digital archiving; digital preservation;

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1 INTRODUÇÃO

Grande parcela da informação produzida no mundo está nascendo no

ambiente dos computadores, em diferentes formatos como texto, banco de dados,

áudio, filme, imagem. Entretanto, o software, o hardware e as mídias onde está

depositada são, constantemente, substituídos por novas gerações mais poderosas que,

ao final, se tornam incompatíveis com suas predecessoras. Segundo estudo da

University of Califórnia/School of Information Management and System (2003), 92% das

novas informações produzidas no mundo em 2002 foram inscritas em meio magnético.

Esse grande volume de informação digital, produzido nos dias atuais em praticamente

todas as áreas da atividade humana e projetado para acesso através de computadores,

poderá ser completamente perdido a menos que técnicas e políticas sejam

desenvolvidas para conservá-lo. Some-se a isso o fato de que as organizações, cada vez

mais pressionadas pela tarefa de manter esse acervo digital, carecem de orientações e

apoio para preservar o que deverá ser mantido em médio e longo prazos e, sobretudo,

aquilo que será demandado pelas gerações futuras.

A abrangência e a urgência dos problemas não envolvem somente a

comunidade arquivística, principal responsável pela preservação de informação

orgânica1 para futuras gerações, mas todos os produtores de informação, inclusive

fabricantes de software, que precisariam, ao projetar seus produtos, levar em

consideração a sua preservação, além dos aspectos funcionais tradicionais. A reação dos

arquivistas às mudanças em curso não correspondeu, em primeiro momento, à

dimensão das mesmas. Ao contrário, apenas muito lentamente a comunidade

arquivística passou a perceber as implicações desse novo suporte para a gestão e a

preservação de documentos de caráter arquivístico. Há bem pouco tempo, a prática

arquivística tradicional – fruto da visão sobre arquivos que remonta aos ideais da

Revolução Francesa –, estava voltada para o tratamento de grandes massas documentais

acumuladas ao longo do tempo como fontes para a reconstrução da história milenar.

Enquanto isso, os arquivos correntes, sob a guarda direta do produtor/acumulador não

1 Informação produzida e acumulada por um indivíduo ou organização pública ou privada no

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recebiam a devida atenção. Nessa conjuntura, os documentos eletrônicos surgiram e se

proliferaram, tornando-se rapidamente um dos grandes problemas que a arquivologia

contemporânea precisa solucionar. E, como afirma Margaret Hedstrom em uma das

passagens do documentário Into the future (1997), "certamente estes documentos não

serão preservados por acaso".

Conforme Moore et al. (2000), o presente momento é particularmente

oportuno para a pesquisa no campo da preservação digital, pois se chega a observar a

convergência das áreas de biblioteconomia, arquivologia, ciência da computação e a

indústria de tecnologia de armazenamento de dados para a solução do problema, cujos

principais interesses estariam voltados respectivamente para a definição de mecanismos

para representação de dados em formato digital; a definição de mecanismos para

preservação de dados em formato digital por longo prazo; a definição de mecanismos

para implementação de dados em sistemas de informação automatizados; e o

desenvolvimento de produtos para armazenamento de enormes quantidades de dados.

Na próxima seção, relatam-se os fatos notáveis que marcaram a trajetória do

problema do documento eletrônico sob a óptica dos arquivos em nível internacional.

2 EVOLUÇÃO DO PROBLEMA NO ÂMBITO INTERNACIONAL

Apesar de o tema já ter sido abordado pela primeira vez em 19642, considera-se

o marco inicial das discussões sobre os desafios do documento eletrônico para os

arquivos, o relatório preparado pelo professor Robert Henri Bautier para o International

Council on Archives - ICA, apresentado na Conférence Internationale de la Table Ronde

des Archives - CITRA, realizada em Bonn, Alemanha, em 1971. Segundo Fishbein (1984),

Bautier havia sido encarregado de pesquisar o uso das técnicas computacionais em

arquivos e chegou às seguintes conclusões principais:

• crescimento no uso das técnicas de computação pelos arquivos no final dos anos

1960;

2Segundo Fishbein (1984) o tema já havia sido apresentado durante o International Congress on Archives

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• crescimento da quantidade de pesquisadores, utilizando os computadores para

processar seus dados no período de 1965-1971, levando ao aumento da demanda

por documentos eletrônicos na administração pública; e

• eliminação de documentos em suporte digital por parte de algumas instituições no

mesmo período sem a intervenção de arquivistas em função de três fatores básicos:

1) falta de conhecimento sobre computação; 2) escassez de recursos para

preservação do acervo e 3) obstáculos legais para o recolhimento desse tipo de

documento.

Atendendo às recomendações do relatório de Bautier, o ICA criou grupo de

trabalho para tratar do assunto automação e arquivos, encarregando-o de inserir o tema

no próximo congresso internacional. As reuniões do grupo em Spoleto, Itália, no

período de 23 a 25 de maio de 1972, para preparação da sessão, resultaram também na

aprovação para a criação do boletim denominado Automatic Data Processing and

Archives - ADPA que teve seu primeiro número publicado no mesmo ano. Assim, o

International Congress on Archives, realizado em Moscou, URSS, em 1972, incluiu a

sessão plenária intitulada New archival techniques. É possível observar, entretanto,

através das recomendações do congresso, a dificuldade no reconhecimento do valor

arquivístico do documento eletrônico.

O grupo de trabalho sobre automação e arquivos organizou o primeiro

seminário em Chelwood Gate, Inglaterra, em 1974, dedicado ao uso de processamento

automático de dados pelos arquivos. Na ocasião do seminário, o grupo de trabalho

tomou caráter permanente, passando à condição de Committee on Automation - CA.

Ivan Cloulas, representante da França, fez palestra, durante o evento, apresentando

dados de nova pesquisa sobre o uso de computadores nos arquivos no período de 1971

a 1974. A palestra de Cloulas confirmou as mesmas tendências de crescimento

apontadas por Bautier e alertou para a questão da preservação do documento

eletrônico (CLOULAS, 1975).

No International Congress on Archives em Washington, EUA, em 1976, a

palestra de Lionel Bell destacou, pela primeira vez, os problemas da relação

arquivistas/profissionais da computação. Segundo Bell (1979), os arquivistas

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reclamavam da dificuldade dos profissionais da computação em reconhecer o valor

arquivístico do documento eletrônico. Nesse sentido, o autor defendeu a idéia tanto da

inclusão de profissionais da computação junto aos arquivos quanto do aperfeiçoamento

do conhecimento de ambos os profissionais no que se refere aos arquivos e

computadores.

Nos anos 1980, o problema do documento eletrônico começou a tomar maior

vulto. Destacam-se no período a pesquisa internacional sobre o uso do computador em

instituições arquivísticas, promovida pelo ICA/CA, em 1985 e o International Congress

on Archives, realizado em Paris, em 1988. Segundo o relatório de Cook (1986) sobre a

pesquisa realizada pelo ICA/CA, distribuída a 204 instituições, 65,9% das 132

instituições que responderam ao questionário usavam ou estavam em vias de implantar

algum tipo de sistema computadorizado. O Arquivo Nacional do Brasil não participou

da pesquisa, apesar de estar no período desenvolvendo trabalho para a construção de

base de dados sobre a administração pública federal. O International Congress on

Archives em 1988, pela primeira vez inteiramente dedicado aos novos materiais

arquivísticos, foi marcado por amplas discussões sobre definição, conservação e

aplicação dos princípios e práticas arquivísticas aos novos materiais. Na ocasião, o Brasil

fez-se representar na pessoa de Ana Maria Camargo com palestra sobre o tema da

formação do arquivista intitulada New archival materials and the training of archivists.

Em 1990, Charles Dollar realizou análise sobre os impactos da tecnologia da

informação nos princípios e práticas dos arquivos e Katharine Gravel preparou estudo

sobre os problemas do documento eletrônico para o Records and Archives

Management Program - RAMP da UNESCO. Dollar (1994) considerou, em sua análise, a

informação contemporânea ligada ao que denominou "três imperativos tecnológicos": a

natureza mutável da documentação, a natureza mutável do trabalho e a mudança da

própria tecnologia. Gravel (1990), por sua vez, elegeu como principal problema

relacionado à questão do documento eletrônico a dependência de tecnologia específica

para a sua preservação. Segundo a autora, essa dependência levava à necessidade de

recolhimento do hardware e software associados juntamente com os documentos,

processo que considerava inviável. Outra questão importante apontada por Gravel foi a

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detentor do conhecimento necessário para a programação dos computadores, e o

profissional dos arquivos, detentor do conhecimento necessário ao gerenciamento de

arquivos. Essa situação possibilitava que o profissional da computação mantivesse o

controle de todo os objetos produzidos no ambiente informático, sem qualquer consulta

à administração ou aos arquivos públicos. A informação digital era dessa forma

entendida como dados, não como arquivos.

Os anos 1990 foram importantes para definir a gestão de documentos

eletrônicos e a preservação digital como novos campos de estudo e se caracterizaram

pela riqueza literária e pela profundidade nas discussões. No que diz respeito às

variações terminológicas, tais como new technologies, new archives, machine readable

documents, computer documents e outras comuns aos anos anteriores, consolidaram-se

os termos electronic records management, electronic recordkeeping e digital

preservation, consagrados pela literatura mundial, demonstrando-se, finalmente, a

certeza quanto ao caráter arquivístico daqueles objetos. Assim, questões como a

natureza dos documentos eletrônicos, confiabilidade, autenticidade, preservação e

aplicabilidade dos princípios arquivísticos passaram a constar nas agendas de pesquisa

dos arquivistas de diversos países.

O grande marco decisivo para a organização das discussões e para o incentivo

à pesquisa no campo foi o Working Meeting on Research Issues in Electronic Records,

promovido pela National Historical Publications and Records Commission - NHPRC,

órgão vinculado à NARA, em Washington, EUA, nos dias 24 e 25 de janeiro de 1991.

Nesse encontro, quarenta e seis pessoas de diferentes áreas do conhecimento

reuniram-se para discutir os diversos temas relacionados à questão do documento eletrônico e

elaboraram agenda de pesquisa3, contendo dez itens a serem tratados nos dez anos

seguintes, a saber:

1. Que processos e dados são necessários para o gerenciamento de documentos

eletrônicos de acordo com requisitos arquivísticos? Esses requisitos e processos

devem variar conforme com o tipo de aplicação automatizada?

3

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2. Que implicações tecnológicas, conceituais e econômicas devem ser consideradas

para captar e reter os dados e as informações de descrição e de contexto no

formato digital, a partir de diferentes aplicações?

3. Como os objetos de dados dependentes de software poderão ser retidos para uso

futuro?

4. Como os dicionários de dados, os diretórios de fontes de informação e outros

metadados podem ser utilizados como suporte à gestão de documentos eletrônicos

e requisitos arquivísticos?

5. Que requisitos arquivísticos têm sido empregados nos principais projetos de

desenvolvimento de sistemas e por que?

6. Que políticas devem ser adotadas para a solução dos problemas arquivísticos

ligados à identificação, retenção, conservação e recuperação de documentos

eletrônicos?

7. Que funções e atividades devem estar presentes nos programas de manutenção de

documentos eletrônicos? Como devem ser avaliadas?

8. Que estratégias podem ser adotadas para incentivar o produtor e o usuário a

contribuírem para a solução dos problemas da gestão de documentos eletrônicos?

9. Que obstáculos têm impedido os profissionais de arquivos permanentes de

desenvolverem e implementarem programas de manutenção de arquivos

eletrônicos?

10. Que conhecimentos sobre documentos eletrônicos os profissionais de arquivos

permanentes devem adquirir?

A partir do encontro de Washington em 1991, a quantidade de publicações

cresceu consideravelmente. Dentre essas, destaca-se o artigo Easy to byte, harder to

chew, escrito por Terry Cook, em 1991; a revisão de literatura Metadata and the archival

management of eletronic records, preparada por David Wallace, em 1993; o estudo

Ensuring the longevity of digital documents de Jeff Rothenberg, publicado em 1995; o

relatório Preservation in the digital world elaborado por Paul Conway para a

Commission on Preservation and Access - CPA, em 1996; o documentário Into the

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digital dark ages? The challenges in the preservation of electronic information, produzido

por Terry Kuny, em 1998.

Cook (1991) separou os documentos eletrônicos em duas gerações: a primeira

geração envolvendo os então denominados documentos legíveis por máquina,

produzidos até meados dos anos 1980, em formato de texto no padrão American

Standard Code for Information Interchange - ASCII4 puro, separado por vírgula; a

segunda geração englobando os documentos mais recentes, produzidos em ambiente

informático que requerem software de gerenciamento de banco de dados, funções

hipermídia, documentos virtuais compostos e telecomunicações avançadas. De acordo

com o autor, essa segunda geração de documentos, dada a sua alta complexidade,

estaria ameaçando a capacidade dos arquivistas de manter a adequada documentação

sobre transações e tomadas de decisões no ambiente organizacional.

A revisão de literatura de Wallace (1993) concluiu ser a abordagem de

metadados5 a estratégia mais promissora para o gerenciamento de documentos da

segunda geração. Em contrapartida, Rothenberg (1995), após discorrer detalhadamente

sobre a estrutura do documento eletrônico e problemas decorrentes, apontou a

abordagem da emulação6 do ambiente original de geração do documento como a

estratégia mais adequada à sua preservação. A maior contribuição de Rothenberg nesse

artigo, entretanto, foi esclarecer a necessidade do deslocamento do conceito tradicional

da preservação do documento para a preservação do acesso ao documento. Conway

(1996) demonstrou, através dos dados apresentados em seu relatório, que a principal

preocupação da conservação de documentos eletrônicos reside no fato de que quanto

maior a capacidade de armazenamento, menor a expectativa de vida do suporte digital.

4ASCII é o acrônimo de American Standard Code for Information Interchange, o esquema de codificação

que atribui valores numéricos a 256 caracteres, incluindo letras, algarismos, sinais de pontuação, caracteres de controle e outros símbolos. O ASCII foi desenvolvido em 1986 para padronizar a

transmissão de dados entre diferentes ambientes de hardware e software (MICROSOFT PRESS, 1998, p. 139).

5 No contexto do modelo de referência Open Archival Information System – OAIS (CONSULTATIVE

COMMITTEE FOR SPACE DATA SYSTEMS - CCSDS, 2002), os metadados representam todo o conjunto de informações – representação, descrição de preservação, empacotamento e referência –, que auxiliam o público alvo a entender e a localizar o conteúdo da informação pretendida.

6 A emulação integra o conjunto de estratégias para a preservação de informação digital, referindo-se à

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A tendência representava, portanto, o aumento do risco de perdas com o avanço

tecnológico.

A CPA, preocupada com as constantes discussões sobre o documento

eletrônico, decidiu produzir o documentário Into the future (1997), dirigido por Terry

Sanders, no qual, em cuidadosa montagem, grandes expoentes da computação e da

arquivologia acenavam para as possibilidades de perda do patrimônio digital mundial e

agravamento dos problemas sociais. Kuny (1998) resumiu em uma pergunta as ameaças

pressentidas: a sociedade poder-se-ia considerar no meio de uma Era Negra onde

“muito do que sabemos agora, muito do que está codificado e escrito eletronicamente

será perdido para sempre?” Mas o autor não se deteve na pergunta e, influenciado por

relatório do Technology Assessment Advisory Committee para a CPA, propôs a

abordagem da migração contínua7 do conteúdo digital para novas mídias e novos

formatos, como nova estratégia. A proposta de Kuny incorporava, ainda, a idéia de

relegar a questão da preservação do suporte para segundo plano, elevando o conteúdo

à categoria principal a ser preservada.

O Committee on Electronic Records - CER do ICA, antigo Committee on

Automation, manteve-se bastante atuante nos anos 1990. Entre 1994 e 1995, realizou

nova pesquisa internacional para saber que instituições arquivísticas haviam implantado,

ou planejavam implantar, programas de gestão de documentos eletrônicos. Os

resultados apontaram que entre as 100 instituições respondentes, 65% não preservavam

nem gerenciavam documentos eletrônicos (ICA/CER, 1996). O Arquivo Nacional do

Brasil, nesta segunda vez, também não respondeu à consulta do ICA.

Alf Erlandsson produziu para o ICA/CER, em 1996, documento substancial para

uso na elaboração de guia para gerenciamento de documentos eletrônicos de caráter

arquivístico. O relatório de Erlandsson (1996) fornecia excelente visão da evolução dos

conceitos e das estratégias relacionadas ao campo e, por esse motivo, o comitê decidiu

divulgá-lo amplamente, antes mesmo da elaboração do guia, para auxiliar os arquivistas

a entender melhor o contexto mais amplo do problema. No ano seguinte, 1997, o

7A migração integra o conjunto de estratégias para a preservação de informação digital, consistindo no

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ICA/CER publicou o Guide for management electronic records from na archival

perspective.

No esforço de mudança da mentalidade predominante do "suporte papel" para

a mentalidade do "suporte digital", o ICA reuniu, em seu congresso de 1997, o

Committee on Electronic Records - CER e o Committee on Current Records - CCR em

novo comitê denominado Committee on Eletronic and Other Current Records - CER. No

International Congress on Archives, realizado em Sevilha, Espanha, em 2000, o comitê

sofreu ainda mais uma mudança para o atual Committee on Current Records in

Electronic Environments - CER. A última contribuição do CER para o problema foi o

esboço do Electronic records: a workbook for archivists, uma extensão do Guide for

management electronic records from an archival perspective, traduzido no mesmo ano

para o Português por um grupo de trabalho reunido pelo Instituto dos Arquivos

Nacionais/ Torre do Tombo, Portugal (ICA/CER, 2005).

É importante destacar que o ICA/CER trabalha em estreito relacionamento com

o Committee on Descriptive Standards - CDS, o Committee on Information Technology -

CIT e o Committee on Archival Legal Matters - CLM. O ICA/CDS tem estudado

ferramenta padrão para acesso a arquivos em ambiente eletrônico8 e desenvolvido os

padrões Encoded Archival Guide - EAG9 e Encoded Archival Context - EAC10. O ICA/CIT

desenvolveu, em fevereiro de 2003, pesquisa sobre software para gerenciamento de

arquivos disponíveis no mercado (ICA/CIT, 2003) e encontra-se, no momento, envolvido

8 O relatório final do ICA/CDS (2001) intitulado Report of the Ad Hoc Committee for Development of a

Standardized Tool for Encoding Archival Finding Aids, recomendou o desenvolvimento de software modular, de código-fonte aberto, que pudesse ser usado pelos arquivos em todo o mundo para controlar seus acervos através de dados descritivos padronizados, baseados na aplicação dos padrões ISAD(G) e ISAAR(CPF).

9 EAG é uma Document Type Definition - DTD no padrão eXtended Markup Language - XML que

disciplina o mercado da informação geral sobre os Centros de Arquivo, proporcionando um formato eletrônico de armazenamento, publicação e intercâmbio para as representações de Centros de Arquivo. O EAG está sendo desenvolvido por um grupo de trabalho da Subdirección General de los Archivos Estatales de España. (DESANTES FERNADÉZ, 2003)

10 Encoded Archival Context - EAC é uma nova Document Type Definition - DTD no padrão eXtended

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na elaboração de modelos de documentos a serem usados pelas instituições

arquivísticas nos processos de seleção e desenvolvimento de software específico, a

partir da compilação de diversos documentos de aquisição contendo requisitos técnicos

e funcionais. O ICA/CLM vem investigando questões ligadas à garantia da autenticidade

de documentos eletrônicos de caráter arquivístico. Como declarado no relatório de

Millar (2004), a autenticidade de documentos eletrônicos de caráter arquivístico corre

grande risco global, sobretudo nos países em desenvolvimento, por diversas razões,

incluindo "o baixo e limitado apoio aos trabalhos em arquivos; a ausência ou carência

de estruturas normativas e políticas de gestão de documentos eletrônicos; a ausência e

dificuldade de aplicação de padrões técnicos e operacionais para produção, gestão e

conservação de documentos eletrônicos; a falta de treinamento e formação adequada

em tecnologias da informação e gestão de documentos eletrônicos; e, principalmente, a

necessidade de abordagem estratégica de capacitação global para melhor utilização dos

recursos limitados".

Em virtude da complexidade do tema e da necessidade de otimização de

esforços, diversas alianças começaram a surgir no cenário mundial e se pode citar como

um dos resultados mais significativos o relatório Preserving digital information produzido

pela Task Force on Archiving of Digital Information - ArchTF, em 1996, fruto da aliança

entre a CPA e The Research Libraries Group - RLG. O relatório da ArchTF apresentou

alguns casos para demonstrar aquilo que definiu como “os limites da tecnologia digital”,

citando: o caso do censo norte-americano de 1960, armazenado em fitas magnéticas

que, já em 1976, somente dois computadores no mundo – um no Japão e outro

depositado como relíquia no Smithsonian Institution em Washington –, poderiam ler; o

caso da primeira mensagem eletrônica enviada do Massachusetts Institute of

Technology - MIT que não foi retida como prova documentária para determinar o grupo

que enviou a mensagem pioneira; o caso das observações via satélite do Brasil nos anos

1970, importantes para o estabelecimento da linha de mudanças climáticas da bacia

amazônica, perdidas em fitas obsoletas; o caso do projeto Land Use and Natural

Resources Inventory - LUNR conduzido em 1960 pelo New York State Department of

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Commerce e pela Cornell University que, em meados dos anos 1980, obrigou os

pesquisadores a digitarem novamente os dados a partir de cópia papel devido à

impossibilidade de recuperação das informações por falta do software e hardware

adequados (WATERS e GARRETT, 1996).

Em 2000, o congresso norte-americano instituiu o National Digital Information

Infrastructure and Preservation Program - NDIIPP11, encarregando sua biblioteca, de

construir, juntamente com outras instituições líderes, um programa nacional para a

preservação por longo prazo de conteúdo digital, bem como captura de conteúdo

digital corrente em risco de desaparecimento.

Em 2003, o Online Computer Library Center - OCLC e o RLG estabeleceram o

grupo de trabalho internacional Preservation Metadata: Implementation Strategies –

PREMIS12 cujo relatório final foi concluído em março de 2005. Esse relatório altamente

significativo inclui o modelo de dados PREMIS, a versão 1.0 do dicionário de dados

PREMIS, que define e descreve um conjunto de metadados centrais com grande

aplicação para repositórios de preservação digital, bem como alguns exemplos e

orientações para implementação.

Em 2004, o Joint Information Systems Committee - JISC lançou o pacote de

treinamento on-line Electronic Records Management Training Package – ERMTP13,

desenvolvido pela universidade de Northumbria, dentro de seu programa Supporting

Institutional Records Management. Esse pacote foi projetado para auxiliar a promover e

a desenvolver o gerenciamento de arquivos como meio de assegurar aderência legal e

regulamentar e preservar acervos institucionais e pode ser usado por todos os níveis de

pessoal e todas as áreas de ensino superior e extensão, tanto individualmente quanto

como parte de um programa de treinamento coletivo oferecido pelos responsáveis pelo

gerenciamento de arquivos de cada instituição.

No contexto do continente europeu, o DLM Forum14 – organizado de forma

conjunta pelos estados-membros da European Union - EU e da European Commission -

11<http://www.digitalpreservation.gov>

12 <http://www.oclc.org/research/projects/pmwg/> 13 <http://195.10.246.65/intro_0.asp>

14 DLM é o acrônimo para o francês Données lisibles par machine. O DLM-Forum é baseado nas

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EC em Bruxelas, Bélgica, em dezembro 1996 – reuniu especialistas da indústria,

pesquisa, administração e arquivos para discutir tópico de importância crescente: a

memória da sociedade da informação. A premissa era de que a autenticidade e a

preservação da informação por longo prazo estariam seriamente ameaçadas no futuro

em virtude dos impactos de inovações tecnológicas nas atividades arquivísticas. Um dos

principais resultados desse encontro foram as Guidelines on best practices for using

electronic information. O documento do fórum EC/DLM (1997) fornece exemplos de

prática mais adequada e sugestões para auxiliar na definição de estratégias específicas,

mas seu principal objetivo é “reunir a experiência adquirida pelas organizações

nacionais, regionais e européias para o benefício de todos”. Segundo o mesmo

documento, as diretrizes do DLM Forum'96 podem ser usadas em conjunto com o guia

do ICA/CER, tendo-se em mente que o primeiro é mais abrangente devido à sua

natureza multidisciplinar e o segundo é específico para o campo da arquivologia.

No Conselho de Lisboa em março de 2000, os países membros da EC

concluíram que até 2010 a Europa deveria ser “a economia baseada em conhecimento

mais competitiva e dinâmica do mundo...”15 O acesso a materiais digitais fidedignos e

autênticos passaria, portanto, a ocupar o ponto central para o alcance desse objetivo. A

EC e o governo suiço, reconhecendo a necessidade de ação nos campos da curadoria e

da preservação digital, decidiram em 2001 apoiar a Electronic Resource Preservation

and Access Network - ERPANET, conduzida pelo Humanities Advanced Technology and

Information Institute – HATII na University of Glasgow, Inglaterra, e seus parceiros o

Schweizerisches Bundesarchiv, Suiça, ISTBAL na Universit à di Urbino, Itália, e o

Nationaal Archief van Nederland, Holanda, contando ainda com o envolvimento de

outros profissionais da Europa, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e EUA. A ERPANET

trabalha no sentido de aperfeiçoar a preservação de objetos digitais culturais e

científicos e, mais especificamente, oferece pesquisa, produção de conteúdo, serviços

de consultoria, seminários de treinamento, encontros temáticos de trabalho, estudos de

caso tanto para a produção de informação quanto para comunidade usuária,

disponibilizando ferramentas, conhecimento e experiência.

15

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Ainda em 2001, a EC patrocinou, através do programa Interchange Data

between Administrations - IDA16, o desenvolvimento do Model Requirements for the

Management of Electronic Records, conhecido como MoReq. O MoReq (EC/IDA, 2001)

apresenta uma especificação de requisitos para o gerenciamento de documentos

eletrônicos de caráter arquivístico através de um Sistema de Gestão Eletrônica de

Documentos de Arquivo - GED/A17.

Também em 2001, foi estabelecida por um grupo estratégico central de

membros/parceiros a Digital Preservation Coalition - DPC18, organização sem fins

lucrativos com o objetivo de fomentar ação conjunta para tratar os desafios prementes

da preservação digital no Reino Unido e trabalhar com outras instituições internacionais

para garantir a memória digital e a base de conhecimento global19. As principais

contribuições da DPC foram a versão on-line do manual Preservation management of

digital materials em 2002 e a instituição da premiação Digital Preservation - DP

AWARDS em 2004. (DPC, 2005)

Em 2004 foi lançado o Digital Curation Center20, Inglaterra, conduzido por um

consórcio compreendendo as universidades de Edinburgo e Glasgow, a UK On Line –

UKOLN, a universidade de Bath e o Council for the Central Laboratory of the Research

Councils – CCLRC. O centro apóia as instituições inglesas no armazenamento,

gerenciamento e preservação de dados digitais através do ciclo de vida de interesse

acadêmico, oferecendo ainda a reprodução e a reutilização, com atenção à

proveniência dos dados. O centro inclui também um programa de pesquisa sobre

questões mais abrangentes de curadoria digital, promove ligações através da

16O programa Interchange Data between Administrations - IDA foi estabelecido em 1995 para promover

a troca eletrônica de informação, de forma flexível e de custo efetivo, entre administrações públicas para apoiar o regime regulamentar do mercado único e a implementação das políticas da comunidade européia. O principal objetivo atual é promover a interoperabilidade de redes, através de avanços na Internet e de produtos relacionados à Internet.

<http://europa.eu.int/ISPO/ida/jsps/index.jsp?fuseAction=home>

17 Neste contexto é preciso distinguir gerenciamento de documentos (document management) de

gerenciamento de documentos de arquivo (record management). Esta questão terminológica é amplamente discutida no artigo de THOMAZ, Katia P. e SANTOS, Vilma M. Metadados para o gerenciamento eletrônico de arquivos – GED/A. DatagramaZero, v.4, n. 4, ago. 2003.

18 <http://www.dpconline.org>

19 Apoio administrativo e operacional tem sido oferecido pelo Joint Information Systems Committee - JISC,

através do JISC Digital Preservation Focus e DNER Office, que representa importante patrocinador da coligação.

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comunidade de prática existente e desenvolve serviços para avaliar ferramentas e

informação técnica.

A Oceania destacou-se com a iniciativa Preserving Access for Digital Access -

PADI21 da National Library of Australia - NLA, lançado em Janeiro de 1997, com o

objetivo de "fornecer mecanismos para auxiliar a garantir que informação em formato

digital seja gerenciada de forma adequada para a preservação e o acesso futuros"

(LYALL e BRANDIS, 1998).

Reconhecendo a urgência de ações no sentido de evitar o desaparecimento de

uma vasta parcela da memória documental mundial, a UNESCO lançou, em 1992, o

programa Memory of the World22 para proteger e promover este patrimônio. O

programa tem como primeiro objetivo garantir, através do meio mais adequado, a

preservação do patrimônio documental de importância mundial e incentivar a

preservação do patrimônio documental que tenha significado nacional ou regional. O

segundo objetivo é tornar esse patrimônio acessível ao maior número possível de

pessoas, do próprio país onde esteja localizado ou de países estrangeiros, através das

tecnologias mais adequadas. Em 2002 esse programa criou a iniciativa: Preserving our

digital heritage. As mais recentes e importantes contribuições dessa iniciativa foram o

documento contendo as Guidelines for digitization projects (IFLA e ICA, 2002),

preparadas por um grupo de trabalho representando a International Federation of

Library Associations and Institutions - IFLA e o ICA e o documento contendo as

Guidelines for the preservation of digital heritage (NLA, 2003), preparadas pela NLA. O

primeiro documento, especialmente direcionado à condução de projetos de

digitalização em países em desenvolvimento, visa “oferecer uma síntese da informação

disponível, discorrendo tanto sobre fontes publicadas quanto sobre atividades de

projetos específicos, enriquecida pela experiência pessoal dos membros do grupo em

função de seu envolvimento nos referidos projetos”. O segundo documento "introduz

diretrizes gerais e técnicas para a preservação e o acesso contínuo ao sempre crescente

patrimônio digital mundial" e deve vir acompanhado da Charter on the preservation of

digital heritage que contém "uma declaração de princípios centrada nas questões de

21<http://www.nla.gov.au/padi/>

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políticas públicas, ou seja, nas questões técnicas abrangidas pelas diretrizes para a

preservação do patrimônio digital". O objetivo dessa declaração é auxiliar os

estados-membros na preparação de políticas nacionais e inspirar ação responsável com relação

à preservação e ao acesso a patrimônio digital.

O World Summit on the Information Society – WSIS23, atividade patrocinada

pela secretaria geral da United Nations – UN e conduzida pela International

Telecommunication Union – ITU em cooperação com outras agências da UN, pretende

reunir os estados-membros, agências da UN, organizações não governamentais,

organizações do setor privado etc. para tratarem os desafios da rápida evolução da

sociedade da informação global. A primeira fase do WSIS foi conduzida em Genebra,

Suiça, no período de 10 a 12 de dezembro de 2003, tendo-se adotado uma declaração

de princípios e um plano de ação para governos e outras instituições. A segunda fase do

WSIS ocorrerá em Túnis, Tunísia, no período de 16 a 18 de novembro de 2005.

Dois trabalhos publicados recentemente, It’s about time (HEDSTROM, 2003) e

Invest to save (HEDSTROM et al., 2003), propuseram agendas de pesquisa

complementares para arquivamento digital e preservação por longo prazo. O primeiro

apresentou os resultados e recomendações de um encontro co-patrocinado pelo

NDIIPP e os programas Digital Government e Digital Library da National Science

Foundation – NSF. O segundo apresentou recomendações de um grupo de especialistas

norte-americanos e europeus co-patrocinados pela NSF e pela Network of Excellence for

Digital Libraries - DELOS, criada pela quinta etapa do programa Information Society

Techonologies da EC24. Ambos os relatórios destacaram o crescimento centralizado da

informação digital no governo, comércio, ensino e pesquisa, patrimônio cultural e

mesmo nas comunicações interpessoais, bem como a inadequação das estratégias e

métodos atuais de preservação digital para tratar os desafios impostos pelas crescentes

entidades digitais complexas. Há também indícios de que alguns patrocinadores estejam

solicitando propostas para o campo. A recente chamada de propostas do programa

Digital Government da NSF coloca o arquivamento digital como um componente-chave.

23<http://www.itu.int/wsis/>

24 NSF e DELOS patrocinaram outros sete grupos de trabalho conjunto sobre tópicos de interesse da

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A EC tenderá a incluir projetos de arquivamento digital em sua sexta etapa do programa

Information Society com a possibilidade de mais projetos internacionais.

Podem-se observar o crescimento e a importância do problema do documento

eletrônico para a prática e a pesquisa arquivística no âmbito internacional a partir do

conjunto de estudos, de trabalhos e de pesquisas relatado nesta seção. Já no âmbito

nacional, pode-se considerar que a questão se encontra, ainda, na fase de sensibilização,

vislumbrando-se ação mais concreta a partir da operacionalização da Câmara Técnica

de Documentos Eletrônicos - CTDE do Conselho Nacional de Arquivos - CONARQ, em

2002.

A seguir

A primeira parte deste artigo concentrou-se na trajetória da problemática do documento

eletrônico na arquivologia em nível internacional. A segunda parte irá relatar os fatos

ocorridos em nível nacional e resumir os principais projetos acadêmicos desenvolvidos

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