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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. MARCELO PATRICIO ALLENDES VALDÉS. OS ANOS 1960 E A CULTURA DO CONSUMO SOB A PERSPECTIVA DA PUBLICIDADE VOLKSWAGEN. São Bernardo do Campo, 2019.

(2) MARCELO PATRICIO ALLENDES VALDÉS. OS ANOS 1960 E A CULTURA DO CONSUMO SOB A PERSPECTIVA DA PUBLICIDADE VOLKSWAGEN. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de PósGraduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Antônio Roberto Chiachiri Filho. São Bernardo do Campo, 2019.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. Al54a. Allendes Valdés, Marcelo Patricio Os anos 1960 e a cultura do consumo sob a perspectiva da publicidade Volkswagen / Marcelo Patricio Allendes Valdés. 2019. 137 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Antônio Roberto Chiachiri Filho. 1. Publicidade – Aspectos sociais 2. Cultura de consumo 3. Volkswagen do Brasil – Análise do discurso – Década de 60 I. Título. CDD 302.2.

(4) A dissertação de mestrado sob o título “OS ANOS 1960 E A CULTURA DO CONSUMO SOB A PERSPECTIVA DA PUBLICIDADE VOLKSWAGEN”, elaborada por MARCELO PATRICIO ALLENDES VALDÉS, foi apresentada e aprovada em 09 de abril de 2019, perante banca examinadora composta pelo Prof. Dr. Antônio Roberto Chiachiri Filho (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Roberta Cesarino Iahn (Titular/ESPM) e Prof. Dr. Vander Casaqui (Titular/UMESP).. __________________________________________ Prof. Dr. Antônio Roberto Chiachiri Filho Orientador e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________ Prof. Dr. Luiz Alberto de Farias Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação institucional e mercadológica.

(5) AGRADECIMENTOS. A MEUS ORIENTADORES E PROFESSORES PAULO ROGÉRIO TARSITANO E ROBERTO CHIACHIRI.. PAIS, FAMILIARES, AMIGOS, COLEGAS E PROFESSORES.. À CAPES, INCENTIVADORA DA PESQUISA ACADÊMICA..

(6) SUMÁRIO. Resumo Introdução .......................................................................................................... 11 Capítulo I – O BRASIL NOS ANOS DE 1960 1. A posse de Juscelino Kubitschek .................................................................... 14 2. O governo de Juscelino Kubitschek ................................................................ 15 3. O governo de Jânio Quadros ........................................................................... 18 4. A sucessão de João Goulart ............................................................................. 21 5. O Regime Militar ............................................................................................. 27 5.1 O governo de Castelo Branco .................................................................... 27 5.2 O governo de Costa e Silva ....................................................................... 34 6. As expressões sociais e culturais ..................................................................... 39 7. A indústria automobilística e a Volkswagen no Brasil ................................... 44. Capítulo II – A PUBLICIDADE E O CONSUMO ........................................ 53 1. Breve relato da publicidade no Brasil .............................................................. 53 1.1 Pregões ....................................................................................................... 53 1.2 A publicidade profissionalizada ................................................................. 56 2. Consumo e linguagem ...................................................................................... 59 2.1 A revolução do consumo ............................................................................ 59 2.2 A democratização do consumo .................................................................. 61 2.3 As motivações para o consumo ................................................................. 63 2.4 Tradição e moda ........................................................................................ 66 2.5 A moda copiada ......................................................................................... 68 2.6 Individualismo e identidade ...................................................................... 70 3. A busca da felicidade na sociedade consumista .............................................. 71 3.1 A felicidade e o consumo .......................................................................... 71 3.2 Felicidade na Revolução Industrial ........................................................... 73.

(7) 3.3 O consumo e o tédio .................................................................................. 76 3.4 O hedonismo moderno no consumo ......................................................... 79 3.5 A felicidade pela infelicidade no consumo ............................................... 81 3.6 Felicidade e consumo deslocados ............................................................. 82 4. O marketing e a publicidade na revolução do consumo ................................. 84 4.1 A publicidade e o status para diferenciação ............................................. 84 4.2 Vilã ou heroína ......................................................................................... 88. Capítulo III – A ANÁLISE DO DISCURSO, A PUBLICIDADE E ANÁLISE DAS PEÇAS PUBLICITÁRIAS ................................................. 91 1. A análise do discurso ...................................................................................... 92 1.1 O discurso no contexto extralinguístico ................................................... 92 1.2 Discurso como ideologia .......................................................................... 93 1.3 Interdiscurso e polifonia ........................................................................... 94 1.4 Dito e não dito .......................................................................................... 96 1.5 O ethos e o fiador ..................................................................................... 96 1.6 As faces .................................................................................................... 99 2. Publicidade como linguagem persuasiva, social e simbólica ......................... 100 2.1 A persuasão .............................................................................................. 100 2.2 Linguagem social e simbólica .................................................................. 102 2.3 Linguagem positivista de um mundo perfeito .......................................... 103 3. Corpus de análise e análise das peças publicitárias ....................................... 105 3.1 Corpus de análise ..................................................................................... 105 3.2 Análise das peças publicitárias ................................................................ 107 CONSIDERAÇÕES GERAIS ........................................................................ 126. Referências ........................................................................................................ 131.

(8) RESUMO Esta pesquisa procura analisar como a publicidade reflete o contexto social, econômico, político e cultural onde está inserida – e como esse contexto interfere nas condições de criação –, além de verificar de que forma as teorias que explicam as motivações de consumo do ser humano estão presentes na linguagem persuasiva dessa publicidade. O estudo foi limitado aos anos de 1960, no Brasil, por meio de alguns anúncios veiculados pela Volkswagen durante essa década. Dessa forma, optou-se pela combinação de uma pesquisa bibliográfica e da análise do discurso. Em seu resultado final, o trabalho mostra que a publicidade trabalha direta, indireta e simbolicamente mensagens reconhecíveis ao receptor, considerando as características culturais de um grupo social determinado, por meio de um discurso mercadológico onde o consumo transfere identidade, diferenciação e sensação de progresso. Palavras-chave: publicidade, consumo, análise do discurso, contexto social, Volkswagen.

(9) ABSTRACT. This research seeks to analyze how advertising reflects the social, economic, political and cultural context in which it is inserted - and how this context interferes in the conditions of creation -, as well as to verify how the theories that explain the motivations of human consumption are present in the persuasive language of this publicity. The study was limited to the 1960s, in Brazil, by means of some announcements issued by Volkswagen during that decade. Thus, we chose a combination of bibliographical research and discourse analysis. In its final result, the work shows that advertising works directly, indirectly and symbolically messages recognizable to the reader, considering the cultural characteristics of a social group, through a marketing discourse where consumption transfers identity, differentiation and feeling of progress.. Key words: advertising, consumption, speech analysis, social context, Volkswagen.

(10) RESUMEN Esta investigación busca analizar cómo la publicidad refleja el contexto social, económico, político y cultural donde está inserta - y cómo ese contexto interfiere en las condiciones de creación -, además de verificar de qué forma las teorías que explican las motivaciones de consumo del ser humano están presentes en el lenguaje persuasivo de esa publicidad. El estudio fue limitado a los años 1960, en Brasil, por medio de algunos anuncios vehiculados por Volkswagen durante esa década. De esta forma, se optó por la combinación de una investigación bibliográfica y del análisis del discurso. En su resultado final, el trabajo muestra que la publicidad trabaja directa, indirecta y simbólicamente mensajes reconocibles al receptor, considerando las características culturales de un grupo social determinado, por medio de un discurso mercadológico donde el consumo transfiere identidad, diferenciación y sensación progreso. Palabras clave: publicidad, consumo, análisis del discurso, contexto social, Volkswagen.

(11) 11. INTRODUÇÃO Ao percorrer peças publicitárias antigas – hábito que virou passatempo desde o tempo em que eu frequentava as tradicionais bibliotecas da minha adolescência –, pergunto-me o que elas realmente quiseram dizer para alguém, muito além da mensagem mercadológica aparente. Tento imaginar em que contexto estiveram inseridas, quem era o público-alvo, seus leitores, como era a sociedade que habitava seu entorno, o que faziam, ouviam, viam, liam, como era o governo, o sistema político vigente, a economia, os homens, as mulheres, crianças e idosos. Enfim, como a publicidade refletiu seu mundo contemporâneo. Evidentemente, as conexões que eu criava e imaginava não seguiam um processo analítico estruturado, tampouco havia por trás fundamentos metodológicos e teóricos que guiassem minha análise. O exercício resumia-se a voltar no tempo, a um tempo que não me pertencia, mas que por algum motivo expressavam algum sentido. Tal curiosidade foi, de certa forma, aproveitada nesta dissertação. Ao discutir o préprojeto com professores e colegas do mestrado, percebi que se ordenasse melhor minhas intenções, propostas com objetividade e clareza, encontrando assim uma pergunta central que quisesse e pudesse responder, talvez meu passatempo de tantos anos contribuísse um pouco para a linha de estudos da publicidade e da comunicação em geral. Cheguei então ao problema da pesquisa, considerando que a publicidade, por meio de um estilo de linguagem específico e intencional, vai além de seu objetivo promocional, muitas vezes sendo porta-voz de outras causas e de outras vozes. Mas como ela faz isso? Quais recursos utiliza? Encontrei na análise do discurso a ferramenta para direcionar esse trabalho. Caracterizada pela exaustividade e verticalidade de sua proposta analítica, a metodologia baseada principalmente nos conceitos de Dominique Maingueneau permitiu-me enxergar as marcas contextuais e ideológicas deixadas nas produções publicitárias, e que influenciam diretamente os autores dessa comunicação. Provavelmente, tão importante quanto a metodologia escolhida, o corpus desta dissertação é propriamente o seu próprio conteúdo e forma. Os anos de 1960, no Brasil, tiveram características, fatos e mudanças sócio-políticas-culturais suficientemente ricos que a publicidade, em algum momento, reproduziu em seu enunciado. Dentro da história no país, o desenvolvimento econômico nesse período – e que vinha sendo objeto obsessivo político desde a década anterior – foi caracterizado pela incessante.

(12) 12. busca da industrialização nacional, representada pelo setor automobilístico com seu peso financeiro e tecnológico para um Brasil que queria e precisava tornar-se referência continental e que ansiava por investimentos e renegociação com os credores da dívida externa. Protagonista por razões técnicas e mercadológicas, beneficiado e pressionado para sêlo por um governo que ansiava também o protagonismo, a Volkswagen foi referência da industrialização nacional, fabricando o primeiro automóvel totalmente brasileiro – o Fusca –, acompanhado pelo utilitário comercial – a Kombi –, projetos alemães que pela primeira vez eram produzidos fora daquele país. O corpus histórico deste estudo, portanto, é composto pela comunicação mercadológica veiculada pela Volkswagen nos anos de 1960, década que seria marcada por um golpe militar e por transformações sociais que a publicidade reproduziria em sua linguagem persuasiva.. A cultura e a sociedade do consumo Se este trabalho está estruturado no contexto histórico do pais – como poderá ser visto no capítulo I, totalmente dedicado aos acontecimentos sociais, políticos, culturais e, principalmente, políticos da década de 1960 –, a pesquisa bibliográfica sobre a cultura e a sociedade do consumo também foi fundamental para compor um cenário dialógico e perceber, dessa forma, a linguagem publicitária manipulando seu público, incentivando e promovendo marcas e produtos. Abrimos, assim, o capítulo II resgatando os passos da publicidade no Brasil e os principais meios de comunicação que dominaram o cenário nacional e interferiram na criação da linguagem comercial. Depois nos aprofundamos nas teorias do consumo, voltando à Revolução Industrial, início da chamada era moderna do consumo, onde a influência da moda passou a determinar produção, consumo e comportamentos, baseados então no novo e na novidade, deixando para trás a tradição familiar e o status da pátina, do antigo e do tradicional. Ao entender as teorias das motivações de consumo, descrevemos também as diferentes definições que autores dão ao espírito do consumidor, ora tido como um ser manipulado pelos símbolos criados pelo mercado, ora mero participante em busca da construção da própria identidade por meio da aquisição e do uso de produtos e serviços. É curioso perceber como o consumo é elusivo e ambíguo, sendo visto como forma de expressão cultural autêntica, ao mesmo tempo que transforma o indivíduo em um individualista.

(13) 13. solitário à procura de experiências hedônicas instantâneas, entre a felicidade de ter, o tédio de não querer mais e o desejo pelo novo. Essas teorias, que se confrontam e se complementam, somam-se aos fundamentos das primeiras ações de marketing e da publicidade, baseadas novamente na individualidade da ostentação, do status, da diferenciação e do consumo conspícuo, como também será visto no fim do capítulo II e no III, onde foca-se e destaca-se o papel da linguagem publicitária na construção da mensagem mercadológica, social e simbólica. Dessa forma, o capítulo III recupera os conceitos da análise do discurso para mostrar como esse discurso publicitário é também constituído por interdiscursos, polifonias, ideologias e silêncios no contexto extralinguístico do conteúdo escrito ou simplesmente mostrado. E, por isso, extrapola-se o objetivo meramente mercadológico nos e dos anúncios. Por fim, nesse capítulo, realizamos a análise das peças publicitárias propostas, selecionadas intencionalmente por seu rico conteúdo simbólico e ideológico, integradas ao contexto social, político e cultural dos anos de 1960. Esperamos, assim, ter conseguido encontrar supostas respostas para a pergunta da pesquisa, embora saibamos que na análise do discurso as próprias interpretações são expressões e escolhas ideológicas, próprias do analista e, inclusive, de quem avalia esse trabalho. Portanto, este estudo é uma parte de outras partes, não necessariamente complementares..

(14) 14. CAPÍTULO I – O BRASIL NOS ANOS DE 1960 1. A posse de Juscelino Kubitschek Embora o início dos anos 1960 encerre o governo do presidente Juscelino Kubitschek, não é possível falar dessa nova década sem entender o legado político e econômico de um governo empossado às duras penas, sob o conflito das Forças Armadas e do desentendimento no Congresso Nacional. Três partidos dominavam o cenário político nacional em 1955, todos fundados na década de 40, exatamente no fim da ditadura de Getúlio Vargas (1939-45): UDN (União Democrática Nacional), PSD (Partido Social Democrático) e PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Para a eleição presidencial, marcada para três de outubro daquele ano, a aliança PSD-PTB indicara Juscelino como candidato, nome conhecido principalmente em Minas Gerais onde fora governador do Estado. Do outro lado, a UDN concorria com Juarez Távora, general que ocupara a chefia da Casa Militar na presidência transitória de Café Filho (195456). Nas urnas, Juscelino venceu por margem estreita, obtendo 36% dos votos, seguido por Távora com 30%. Os demais votos foram divididos entre Ademar de Barros (26%), exgovernador de São Paulo pelo PSP (Partido Social Progressista), e Plínio Salgado (8%), da AIB (Ação Integralista Brasileira). Com pouco menos do que um terço do total de votos em todo o país, e tendo João Goulart como vice-presidente – nome indigesto para os militares, que o consideravam um comunista radical –, a legalidade da eleição de Kubitschek começou a ser questionada pelos adversários políticos e por parte das Forças Armadas. A UDN votou por levar o caso à decisão da Justiça Eleitoral, argumentando que pela Constituição os candidatos vencedores necessitavam de maioria absoluta de votos. Porém, êsse {sic} protesto já se mostrara ineficaz após a eleição de 1950 e oferecia poucas possibilidades de melhor sucesso agora. (SKIDMORE, 2003a, p. 189). O impasse se agravou em três de novembro, quando o então presidente Café Filho, que vinha trabalhando para garantir a transferência pacífica e legal do cargo, sofreu um ataque cardíaco e foi temporariamente afastado do poder. Em seu lugar assumiu Carlos Luz, presidente da Câmara do Deputados, dissidente do PSD e contrário à indicação de Juscelino pelo partido para a eleição de 1955. Além disso, Luz se posicionara contra a punição de militares que publicamente questionavam os resultados das urnas e se opunham à posse do novo governo..

(15) 15. A punição aos militares opositores não era apenas uma medida esperada por aqueles que apoiavam a democracia das eleições, mas uma solicitação direta do próprio Ministro da Guerra, general Henrique Lott, quem, segundo Skidmore (2003a, pág. 190), proibira qualquer posição política por parte de oficiais do Exército. A negativa de Luz ao pedido de Lott fez o general renunciar ao cargo, iniciando assim um processo de revolta entre os militares pró-legalidade presidencial. A partir daí, ocorreu o chamado “golpe preventivo”, ou seja, uma intervenção militar para garantir a posse do presidente eleito e não para impedi-la. {...} As tropas ocuparam edifícios governamentais, estações de rádios e jornais. Os comandos do Exército se colocaram ao lado de Lott, enquanto os ministros da Marinha e da Aeronáutica denunciavam a ação como “ilegal e subversiva”. As forças do Exército cercaram as bases navais e da Aeronáutica, impedindo um confronto das Forças Armadas. (FAUSTO, 2003, p. 421). O golpe preventivo foi uma ação rápida do Exército, apoiada posteriormente pela camada política do Rio de Janeiro. O general Lott havia renunciado ao cargo em nove de novembro de 1955, e já no dia 11 desse mês a ação legalista iniciou e encerrou suas manobras para depor o governo interino de Carlos Luz, quando o Congresso Nacional se reuniu para confirmar Nereu Ramos, presidente do Senado, na linha de sucessão constitucional. “A pedido dos ministros militares {..}, o Congresso aprovou o estado de sítio por trinta dias, prorrogado por igual período” (FAUTO, 2003, p. 422). Assim, Juscelino Kubitschek tomou posse em 31 de janeiro de 1956, ao lado do novo vice-presidente João Goulart. Contudo, a sociedade civil e política “haviam compreendido um ponto bem significativo: a democracia brasileira ainda não era capaz {...} de transferir o poder – teste fundamental do sistema sob pressão – por processos constitucionais normais” (SKIDMORE, 2003a, p. 197).. 2. O governo de Juscelino Kubitschek. Juscelino Kubitschek é lembrado pelos dois principais objetivos pessoais de seu governo: pela construção de Brasília, como nova capital do Brasil e sede do Governo Federal, e pela política econômica definida como Programa de Metas, que abrangia objetivos nacionais em cinco grupos: energia, transportes, alimentação, educação e indústrias de base. A ideia de uma nova capital para o país já fora proposta, na verdade, pela Constituição de 1891, mas retomada apenas na campanha eleitoral de 1955 por Juscelino. “A Constituição de 1891 havia estipulado sua construção e um local já havia sido selecionado em 1893. Ele se.

(16) 16. localizava no estado de Goiás, {...} num planalto semi-árido” (SKIDMORE, 2003b, p. 204), embora poucos acreditassem no projeto ou concordassem com ele, proibitivamente caro e longe, isolando o governo do centro econômico do país. Na visão dos historiadores, a construção de Brasília significava um período de otimismo associado a outras grandes realizações, como o próprio Programa de Metas, que procurava industrializar o Brasil por meio de infraestrutura rodoviária para o interior do país, o que “abriria terras anteriormente incultas e facilitaria o escoamento no ineficiente sistema de distribuição de alimentos” (SKIDMORE, 2003a, p. 209). O projeto da nova capital foi aprovado pelo Congresso em setembro de 1956, ano da posse de Kubitschek. Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, último período desse governo. Se o investimento em Brasília foi uma decisão política e economicamente acertada, em um período de dificuldades financeiras e crescentes déficits do orçamento federal, não é fácil dizer. Por outro lado, e segundo Fausto (2008, p. 427), a outra menina dos olhos de Kubitschek, o Programa de Metas, obteve resultados impressionantes, principalmente no setor industrial que, descontada a inflação, cresceu 80% entre 1955 e 1961, com grandes resultados nas indústrias do aço, mecânicas, de eletricidade e comunicações, além do setor de transporte.. De 1957 a 1961, o PIB {Produto Interno Bruto} cresceu a uma taxa anual de 7%, correspondendo a uma taxa per capita, ou seja, por habitante, de quase 4%. Se considerarmos toda a década de 50, o crescimento do PIB brasileiro per capita foi aproximadamente três vezes maior do que o resto da América Latina. (FAUSTO, 2003, p. 427). Na visão de Skidmore (2003b, p. 205), no entanto, o crescimento do Brasil e a estratégia para conquistar esse crescimento tinham um lado negativo, pois a poupança interna permanecia cronicamente baixa, mantendo assim também o investimento baixo. Além disso, o capital estrangeiro não era suficiente para um crescimento sustentado em longo prazo. “O lema de Juscelino era ‘cinquenta anos de progresso em cinco’. Seus críticos falavam de ‘cinquenta anos de inflação em cinco’. O financiamento inflacionário de Juscelino, como é geralmente o caso, estimulou a intervenção externa” (SKIDMORE, 2003b, p. 206). Se o país gastava mais do que arrecadava, e a balança comercial não era favorável, alguém precisava cobrir a diferença negativa. A esperança nos fundos obtidos de fontes públicas e privadas do exterior em 1958 não vingaram o suficiente para nivelar os números da economia real e, assim, continuar com o plano de expansão industrial e modernização produtiva. Para solucionar o problema, Kubitschek e sua equipe econômica decidiram negociar um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), órgão criado em 1946 como agência especializada da.

(17) 17. ONU (Organizações das Nações Unidas) para promover cooperação monetária, expansão do comércio e estabilidade cambial.. O FMI desempenhava um papel vital, não devido aos fundos que liberava, {...} mas sim ao fato de que sua aprovação constituía a pré-condição para novos auxílios dos principais credores, tais como bancos particulares norte-americanos e europeus e o Govêrno {sic} dos Estados Unidos. (SKIDMORE, 2003a, p. 218). Internamente, porém, um acordo com o FMI significava sacrificar os interesses nacionais a favor dos Estados Unidos, caracterizado segundo a oposição como o principal culpado pelos problemas sociais brasileiros. O Fundo exigia do governo estritos controles de crédito, restrições salariais e cortes no orçamento, cujas consequências naturais seriam a recessão e o desemprego, efeitos colaterais que minariam o Programa de Metas de Juscelino. “A indecisão nas relações entre o Brasil e o FMI durou quase um ano, chegando ao fim em junho de 1959. Naquela altura, Juscelino estava no final do mandato e tinha os olhos voltados para a sucessão presidencial” (FAUSTO, 2003, p. 435).. Juscelino assumiu um risco: decidiu romper com o FMI e continuar seu programa econômico a qualquer custo. Sua decisão revelou-se amplamente popular. {...} O jogo de Juscelino rendeu politicamente, mas rompeu relações com a economia mundial. O Brasil desafiara os especialistas financeiros ortodoxos, particularmente nos Estados Unidos. Mas haveria um alto preço a pagar no futuro financiamento externo. (SKIDMORE, 2003b, p. 207). Para Fausto (2003, p. 435), a ruptura do governo com o FMI significou o abandono final de um plano de estabilização e da superinflação, que em 1960 superava os 30% ao ano, cerca do dobro da inflação média anual do período 1950-58. Na visão de Skidmore (2003a, p. 224), Kubitschek aproveitou o fim das negociações com o Fundo para prosseguir com as metas de desenvolvimento industrial estabelecidas no início do mandato, direcionando os fracassos econômicos vigentes à má vontade dos órgãos estrangeiros. “Era uma estratégia arrojada, elaborada por um líder político ansioso por preservar sua reputação e destinada, talvez, a preparar terreno para seu retôrno {sic} à presidência nas eleições de 1965”. As análises a esse governo desenvolvimentista e industrial são praticamente homogêneas entre os historiadores pesquisados, principalmente sobre o Programa de Metas, bem-sucedido sob ponto de vista político, mas deficitário quando se considera a estabilidade institucional que o país poderia ter conseguido. Diz o professor de história Lincoln de Abreu Penna (1999, p. 236) que:.

(18) 18. O ingresso do Brasil nos marcos de uma economia capitalista, se trouxe certos atrativos a curto prazo, provocou problemas de gestão da coisa pública a longo prazo. {...} Dinamizou a economia apesar da inflação, {...} mas não assegurou o funcionamento das instituições políticas democráticas diante das violentas demandas contraditórias que se exacerbaram ao cabo de seu mandato.. Como veremos adiante, Kubitschek não conseguiu eleger seu sucessor – à época, a reeleição não era prevista na Constituição –, tampouco estabeleceu uma continuidade institucional para o futuro, dado era seu dom improvisador para governar. Sob a crítica dos historiadores, contudo, houve um legado que influenciou a vida política, social e econômica da nova década que chegava:. Do lado positivo, o Brasil obteve tecnologia inestimável, embora geralmente apenas por meio de investimentos de multinacionais estrangeiras. O país também viu o crescimento de um mercado nacional. {...} A perspectiva de ganhar espaço neste mercado atraiu firmas estrangeiras, mesmo que apenas pelos investimentos modestos. {...} Mas os críticos salientaram o que consideravam importantes custos em termos de efeitos sobre o bem-estar social. Estes incluíam crescente desigualdade de renda, na medida em que os trabalhadores industriais ganhavam mais do que os dos setores agrícolas ou de serviços. {...} Além disso, a inevitável concentração da indústria no Centro-Sul exacerbou as desigualdades de renda entre esta região e o resto do Brasil, especialmente o Nordeste. (SKIDMORE, 2003b, p. 207) O governo JK promoveu uma ampla atividade do Estado tanto no setor de infraestrutura como no incentivo direto à industrialização, mas assumiu também abertamente a necessidade de atrair capitais estrangeiros, concedendo-lhes inclusive grandes facilidades. {...} A expressão nacional-desenvolvimentismo, em vez de nacionalismo, sintetiza pois uma política econômica que tratava de combinar o Estado, a empresa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o desenvolvimento, com ênfase na industrialização. Sob esse aspecto, o governo JK prenunciou os rumos da política econômica realizada, em outro contexto, pelos governos militares após 1964. (FAUSTO, 2003, p. 427). 3. O governo de Jânio Quadros. Nas eleições marcadas para três de outubro de 1960, PSD e PTB voltaram a unir forças para reeleger um candidato da chapa à presidência da República. Optaram pelo nome do marechal Lott, responsável pelo “golpe preventivo” que possibilitara a posse de Juscelino em 1956. Para Skidmore (2003b, p. 234), Lott passava a imagem da “legalidade” política e da continuidade de um Brasil moderno e desenvolvido. Por outro lado, como destacado por Fausto (2003, p. 437), o antigo general “foi um candidato desastroso. {...} Falava mal em público, {...} desagradava ao PSD com sua defesa sincera da concessão de voto aos analfabetos; desagradava.

(19) 19. ao PTB {...} com suas críticas também sinceras a Cuba e ao comunismo”. No papel de candidato à vice-presidência, João Goulart voltou a figurar como personagem importante. Do outro lado, a UDN se debatia internamente entre a possibilidade de lançar um nome próprio ou apoiar alguém que desse ao partido a oportunidade de chegar ao poder. Esse alguém foi Jânio Quadros, lançado à candidatura pelo PTN (Partido Trabalhista Nacional), apoiado também pelo PDC (Partido Democrata Cristão), mas que reiterava sua independência política. Essa independência, preocupante principalmente para a UDN, que tinha linhas políticas bem definidas, era, no entanto, a única opção diante da possibilidade de vitória que já havia sido colocada à prova no mais importante e populoso Estado do país. Jânio fora vereador, prefeito e governador em São Paulo. “Jânio baseava-se na sua imagem como o ‘antipolítico’, o amador honesto que oferecia a possibilidade de uma transformação radical em relação aos detentores do antigo estilo” (SKIDMORE, 2003a, p. 231). A esperança direta da UDN era a candidatura à vice-presidência de Milton Campos, já que a Constituição à época previa que as candidaturas de presidente e vice-presidente concorressem de forma independente. No fim, Jânio Quadros venceu as eleições com 48% dos votos, seguido de Lott com 28%, e de Ademar Barros, com 23%, que tentara o cargo novamente pelo PSP. Contudo, a vicepresidência foi conquistada novamente por João Goulart, com 36%, pouco à frente de Campos, com 34%. Portanto, UDN e PSD-PTB estreitavam-se desta vez em Brasília, inaugurando a nova capital da política brasileira. “Em pouco tempo, os acontecimentos políticos iriam demonstrar os riscos dessa combinação inesperada”, (FAUSTO, 2003, p. 437). Combinação não só inesperada, mas contraditória, na avaliação de Gaspari (2004, p. 47): “Jânio prometera varrer a ordem política de que Jango era produto. {...} Assim, elegeram-se ao mesmo tempo Jânio, com sua vassoura, e Jango, que, a juízo dos seguidores do novo presidente, encarnava o lixo a ser varrido”. Antes do fim precoce do governo e das reviravoltas políticas, no entanto, parecia que Jânio Quadros tinha claro seus objetivos presidenciais, enfatizados em seu discurso de posse no dia 31 de janeiro de 1961: eliminar a ineficiência governamental e a crise financeira herdada de Juscelino, com hiperinflação e dívidas externas. Para este segundo ponto, criou um ministério com membros da UDN que traçaria os planos da estabilização econômica, com reformas do sistema cambial, fim de subsídios para importações de produtos essenciais, como trigo e combustível, e redução dos gastos governamentais. Contudo, a impressão era de que pouca coisa estava sendo feita em Brasília. “Jânio começou a governar de forma desconcertante. Ocupou-se de assuntos desproporcionais à importância do cargo que ocupava, como proibição do lança-perfume, do biquíni e das brigas de galos” (FAUSTO, 2003, p. 437)..

(20) 20. No exterior, por outro lado, as decisões econômicas do novo governo agradavam a credores e ao próprio FMI, que aprovou as medidas de estabilização e permitiu o empréstimo de mais de 2 bilhões de dólares, além da extensão do prazo de pagamento da dívida com os Estados Unidos e com os bancos europeus.. Após três anos de negociações frustradas, cada vez mais azedas durante o Governo Kubitschek, os credores do Brasil sentiam um grande alívio, face à possibilidade de um sério programa de estabilização que prometia reequilibrar as contas estrangeiras do Brasil. {...} Já despontavam, no entanto, as inevitáveis reclamações dos empresários, trabalhadores e consumidores que, embora em princípio não desaprovassem a estabilização, achavam que os sacrifícios que lhes eram impostos não se justificavam. (SKIDMORE, 2003a, p. 241). Se entre maio e junho de 1961 o governo obteve os empréstimos estrangeiros para investimentos e para novos financiamentos, em agosto daquele mesmo ano os rumores de que as medidas econômicas começavam a perder o apoio popular pareciam ser suficientes para Jânio mudar a estratégia de estabilidade econômica. Sem seguir diretrizes partidárias, como deixara claro em sua campanha à presidência, desfez o grupo que elaborara o plano de estabilização – formado por integrantes da UDN – e anunciou a criação da Comissão Nacional de Planejamento, cuja função seria buscar medidas menos ortodoxas de controle da inflação, contrariando assim as negociações feitas com o FMI e com os bancos credores. Paralelamente, Jânio atacava a ineficiência governamental por meio de investigações que envolviam corrupção nos cofres públicos do atual e dos antigos governos. Isso atingia tanto políticos e partidos aliados quanto opositores, que dominavam o Congresso. “Quadros podia, a curto prazo, pensar em obter prestígio entre a classe média, com sua cruzada de honestidade e eficiência no governo. Mas, a longo prazo, teria de lutar com o Congresso e teria de abrir uma porta aos políticos da oposição que ele agora detratava”, (SKIDMORE, 2003a, p. 244). Na política externa, o cenário não era melhor. Já eleito, Jânio estivera em Cuba em 1960, apoiando formalmente a revolução e o regime de Fidel Castro. E já no papel de presidente do Brasil, condecorara Che Guevara, um dos principiais revolucionários de Fidel, com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira a estrangeiros. Para Fausto (2003, p. 439), “não havia nesse gesto qualquer intenção de demonstrar apoio ao comunismo. Ele simbolizava para o grande público a política externa independente que Jânio começara a por em prática”. Também para Skidmore (2003a, p. 245), a aproximação do presidente com governos comunistas não tinha intenção política, apenas econômica, pois ele esperava diminuir os males.

(21) 21. financeiros do país através de negociações simultâneas com as três grandes potências: os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o bloco soviético. “No entanto, era aquêle {sic} um momento infeliz para se lançar uma política ‘independente’ no hemisfério ocidental”. Em 25 de agosto de 1961, sem uma razão clara, sem uma explicação oficial e presidindo um país dentro das dificuldades e das pressões comuns ao cargo – embora sem contar com uma base política de apoio –, Jânio Quadros renunciou, pondo fim ao seu governo.. Sendo um político que nunca fora dado às artes da negociação, a maneira que Jânio encontrou de atacar os obstáculos que seu programa de estabilização enfrentava no Congresso foi, sem aviso, renunciar. Ele evidentemente supunha que a renúncia não seria aceita e forçaria o Congresso a dar-lhe poderes de emergência. {...} Infelizmente para Jânio, o Congresso aceitou sua renúncia. (SKIDMORE, 2003b, p. 210). Na visão de Fausto (2003, p. 440), a renúncia do presidente ao cargo e a passividade política frente ao fato tinham explicação: “O PSD e o PTB dominavam o Congresso. {...} A UDN tinha várias razões de queixa. O presidente agia praticamente sem consultar a liderança udenista no Congresso. Além disso a política externa causava preocupações, assim como a simpatia presidencial pela reforma agrária”. Ainda para o historiador:. A renúncia não chegou a ser esclarecida. O próprio Jânio negou-se a dar uma versão clara dos fatos, aludindo sempre às “forças terríveis” que o levaram ao ato. A hipótese explicativa mais provável combina os dados de uma personalidade instável com um cálculo político equivocado. Segundo essa hipótese, Jânio esperava obter com uma espécie de “tentativa de renúncia” maior soma de poderes para governar, livrando-se até certo ponto do Congresso e dos partidos. Ele se considerara imprescindível para os partidos na campanha presidencial e se julgara imprescindível para o Brasil como presidente. Acaso os conservadores e os militares iriam querer entregar o país a João Goulart? (FAUSTO, 2003, p. 442). 4. A sucessão de João Goulart. João Goulart era visto pela direita e pelos militares conservadores como um risco comunista e populista desde os tempos do governo Vargas (1951-54), quando fora Ministro do Trabalho e responsável pela aproximação do Estado com a estrutura corporativista dos sindicatos trabalhistas, visando conquistas pessoais políticas. Para Gaspari (2004, p. 46), sua biografia raquítica fazia dele um dos mais despreparados governantes da história nacional..

(22) 22. Além disso, segundo Skidmore (2003a, p. 149), Goulart era considerado pelos inimigos um agitador demagógico que, para proveito pessoal, era capaz de organizar uma falange proletária capaz de derrubar a ordem social vigente. Esse temor cresceu com a renúncia de Jânio Quadros, pois a Constituição de 1946, no artigo 79, declarava que o vice-presidente substituiria o presidente, na falta deste, em qualquer circunstância. “A localização de Jango {apelido de Goulart} no momento de seu acesso ao poder não poderia ser uma confirmação mais dramática de que aqueles temores eram bem fundamentados. Ele estava voltando de uma missão oficial à República Popular da China”, (SKIDMORE, 2003b, p. 210). Nessa ausência temporária, os ministros militares do governo se rebelaram por meio de um manifesto onde repudiavam a posse do novo presidente. Do outro lado, os legalistas, apoiadores de Goulart, organizavam-se para que a Constituição fosse seguida e o novo governo tomasse posse em Brasília.. Os políticos centristas do Congresso estavam tão atemorizados com a perspectiva de guerra civil que começaram a negociar com os ministros militares para evitar um confronto. Em meio a um encarniçado debate nacional, alcançaram um compromisso. Jango assumiria a presidência, mas com poderes bastante reduzidos. O presidente governaria sob um sistema parlamentarista. (SKIDMORE, 2003b, p. 211). O sistema parlamentarista, que cedia o poder executivo a um primeiro-ministro, permaneceu por mais de um ano e foi derrubado em janeiro de 1963 por meio de um plebiscito popular. A partir dessa data, Goulart tomou efetivamente o poder, “procurando demonstrar sua adesão aos princípios democráticos e repulsa ao comunismo”, (FAUSTO, 2003, p. 453). A maior preocupação, nesse início de governo, era econômica, já que a hiperinflação criada ainda no governo Kubitschek, e não solucionada por Jânio, continuava indomável e crescente: 25,4% em 1960 para 34,7% em 1961 e 50,1% em 1962.1 Nesse campo econômico e financeiro, Goulart tentou encontrar um caminho de estabilização por meio do Plano Trienal, cujo objetivo era combinar o crescimento econômico, reformas sociais e o combate à inflação. Segundo Fausto (2003, p. 456), o plano previa a reforma agrária, que se acreditava necessária não só no aspecto social, mas inclusive para ampliar a produção agrícola. A curto e médio prazo, propunha a redução dos gastos públicos, cortes nos subsídios dados à importação e aumento dos impostos incidentes sobre os grupos de. 1. Fonte: The Brazilian Economy, 4ª ed., Westport, 1995, p. 392..

(23) 23. renda mais alta. Além disso, o governo pretendia garantir uma folga de divisas suficientes para que o país continuasse a adquirir bens importados indispensáveis à industrialização. Contudo, e como nos governos anteriores, o sucesso da reforma econômica não dependia apenas da vontade de Goulart:. O plano econômico dependia da colaboração dos setores que dispunham de voz na sociedade. Essa colaboração mais uma vez faltou. Os beneficiários da inflação não tinham interesse no êxito das medidas; os inimigos de Jango desejavam a ruína do governo e o golpe; o movimento operário se recusava a aceitar restrições aos salários; a esquerda via o dedo do imperialismo por toda parte. {...} Em meados daquele ano, tornou-se claro que o plano tinha fracassado. A pá de cal foi um aumento de 70% no salário do funcionalismo, em meio a uma inflação que já chegara a 25% nos cinco primeiros meses do ano. {...} O crescimento do PIB, que fora de 5,3% em 1962, caiu para 1,5% em 1963. {...} A partir de meados de 1963, a radicalização das diferentes posições cresceu. (FAUSTO, 2003, p. 456). Politicamente, Goulart não tinha sustentação e apoio que lhe pudessem garantir reformas e mudanças, já que seu partido, o PTB, naquele momento, buscava uma identidade ideológica radicalmente esquerdista, sem um bloco moderado que permitisse, como anos antes, uma aliança com o PSD – união útil, por exemplo, para o Programa de Metas implantado por Juscelino Kubitschek. E a UDN.... estava dividida entre sua ala moderada {...} e sua ala intransigente. {...} Seu interesse na política nacional tinha em mira radicalizar a opinião pública contra os novos beneficiários do “sistema” de Getúlio {no caso, Goulart, considerado herdeiro político de Getúlio Vargas}, não unindo forças para acelerar o desenvolvimento econômico ou realizar a reforma social. (SKIDMORE, 2003a, p. 283). Goulart não agradava aliados, tampouco opositores. Sem a presença de um partido de centro e moderado, seu governo era incapaz de implantar qualquer medida de longo, médio ou curto prazo. Em outras palavras, Goulart já não governava e o conflito político continuava a polarizar-se em torno dos extremos, sem esquecer que um governo federal em um Brasil de 1963, como nos anos anteriores, precisava do apoio militar para se manter em pé. Apoio que o presidente também não tinha. “Nos meios militares, cresceu a conspiração contra Jango, fortalecida pelos partidários de uma ‘intervenção defensiva’ contra os excessos governamentais” (FAUSTO, 2003, p. 458). Esses excessos eram, no fundo, as reformas do Plano Trienal que buscavam estabilizar a economia e auxiliar alguns setores sociais menos favorecidos desde a política de industrialização das últimas décadas. “O desamparado setor rural começou a ser mobilizado pelas Ligas Camponesas e sacudido por espontâneas ocupações.

(24) 24. de terras. As perspectivas para qualquer solução constitucional, porém, eram poucas”, (SKIDMORE, 2003a, p. 301) e incomodavam a política nacional, pois muitos integrantes do Congresso deviam seu sucesso nas urnas às zonas eleitorais comandadas pelos latifundiários. Enquanto isso, a reputação econômica do Brasil no exterior não era positiva, desmotivando empréstimos e investimentos estrangeiros de bancos e de empresas privadas que seguiam as recomendações do FMI e do governo norte-americano. “No início de 1964, o mercado financeiro brasileiro estava invadido por rumores de um golpe iminente. Em certos dias os supostos atacantes eram da esquerda, em outros dias, da direita. Em março de 1964, a taxa de inflação anual estava acima de 100%” (SKIDMORE, 2003b, p. 214-215). Para o historiador Carlos Fico (2004, p. 16), a atmosfera política era de grande agitação não apenas entre militares, políticos e empresários. O próprio João Goulart defrontava-se com sua própria fragilidade, pois chegara à presidência por acaso e por sorte. Decepcionado com o Plano Trienal que não conseguira implementar, e pressionado pelas crises econômica e política que não davam trégua, Goulart abandonou a posição de esquerdista moderado em março de 1964 para seguir um caminho mais radical, anunciando decretos que “incluíam desapropriação de terras e a nacionalização de todas as refinarias de petróleo privadas” (SKIDMORE, 2003b, p. 215), além da concessão de votos aos analfabetos e aos quadros inferiores das Forças Armadas. A expectativa do governo ao promulgar os decretos, segundo Fausto (2003, p. 458), era contar com o apoio nos dispositivos militar e sindical, passando assim por cima do Congresso. As decisões de Goulart extremaram ainda mais as posições ideológicas no país:. A direita ganhou os conservadores moderados para sua tese: só uma revolução purificaria a democracia, pondo fim à luta de classes, ao poder dos sindicatos e aos perigos do comunismo. {...} Na esquerda, a ‘democracia formal’ era vista como um simples instrumento a serviço dos privilegiados. Como aceitar seu jogo difícil de marchas e contramarchas, se havia todo um mundo a ganhar através da implantação das reformas de base, ‘na lei ou na marra’? (FAUSTO, 2003, p. 458). Para Gaspari (2004, p. 48), Goulart era um presidente em crise que àquela altura tentava governar com a bandeira das reformas hasteada no mastro da intimidação. Contudo, embora os decretos tivessem um claro viés de esquerda radical, não havia no governo e tampouco na base política do PTB um plano de sustentação e respaldo da sociedade civil ou ao menos de grupos aliados. Ou seja, além do estadista desesperado, tentando impor medidas desesperadas, Goulart estava sozinho e isolado..

(25) 25. Nesse ponto, como em outros, Jango foi incapaz de articular um programa coerente de esquerda, cuja ala mais radical êle {sic} parecia ter conquistado {...}. Destinavase, portanto, a ter o pior de todos os mundos. Jamais organizara uma base de apoio popular maciço para um Governo reformador. Nem tampouco mobilizara uma base de apoio para ataque revolucionário contra a estrutura constitucional que jazia por trás do impasse político. E êle {sic} próprio sequer se colocava em posição que pudesse ser descrita como inequivocamente esquerdista, e muito menos revolucionária. (SKIDMORE, 2003a, p. 353) Havia dois golpes em marcha. O de Jango viria amparado no ‘dispositivo militar’ e nas bases sindicais, que cairiam sobre o Congresso, obrigando-o a aprovar um pacote de reformas e a mudança das regras do jogo da sucessão presidencial. {...} Se o golpe de Jango se destinava a mantê-lo no poder, o outro destinava-se a pô-lo para fora. A árvore do regime estava caindo, tratava-se de empurrá-la para a direita ou para a esquerda. (GASPARI, 2004, p. 52). Quando os decretos foram anunciados pelo presidente, a reação popular mais contundente foi desfavorável ao governo, sinal de que Goulart não contava com apoio político, militar, tampouco civil. “Um sinal da tempestade veio com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade {...}. Cerca de 500 mil pessoas desfilaram pelas ruas de São Paulo {...}, em uma demonstração de que os partidários do golpe poderiam contar com uma significativa base social de apoio” (FAUSTO, 2003, p. 460). Para Skidmore (2003a, p. 355) os decretos governamentais de março de 1964 solidificaram a oposição a Goulart das poucas forças centristas que poderiam colaborar para a continuidade democrática. E essas forças estavam, em sua maioria, concentradas no seio do grupo que detivera o equilíbrio de poder durante todos os graves impasses políticos civis da história do Brasil: a oficialidade militar. “Os ativos conspiradores entre os militares foram ainda mais longe; resolveram então sair da defensiva e passar ao ataque” (SKIDMORE, 2003a, p. 356). O incentivo crucial à conspiração de um golpe ocorreu justamente depois de um conflito interno militar, quando no fim do mês de março de 1964 uma associação de marinheiros se reuniu para reivindicar melhores salários e direitos, e foi prontamente acusada de subversão hierárquica pelo Ministro da Marinha Sílvio Mota, quem ordenou a prisão dos dirigentes da associação. Goulart, contudo, tentando acabar com a crise interna, demitiu o ministro e perdoou os acusados. “Na realidade, {Goulart} lançou mais lenha na fogueira: o Clube Militar e um grupo de altas patentes da Marinha denunciaram seu ato como um incentivo à quebra de hierarquia militar” (FAUSTO, 2003, 460). Em 30 de março, após esse incidente, o presidente participou de um evento no Rio de Janeiro promovido por suboficiais e sargentos descontentes com o comando das Forças.

(26) 26. Armadas. Embora desaconselhado por assessores – cientes de que esse ato só faria sentido se houvesse um plano organizado do governo no processo de radicalização política apoiado por camadas militares sólidas –, Goulart não apenas se fez presente, como também discursou:. Se quiserem saber quais as cores que presidirão as reformas que serão realizadas, basta olhar a túnica de comandantes e comandados do nosso Exército, da nossa Aeronáutica, da nossa Marinha, da Polícia Militar. E ali, em cada túnica, encontrarão o verde-oliva que é o verde da bandeira brasileira. O azul da Aeronáutica e da Marinha, que é o azul da bandeira brasileira. É com essas cores, verde, amarelo e azul, que faremos as reformas. {...} Não admitirei o golpe dos reacionários. O golpe que nós desejamos é o golpe das reformas de base {...}. (apud GASPARI, 2004, p. 65). Em 31 de março e 1° de abril de 1964, unidades militares tomaram prédios governamentais em Brasília, enquanto o general Olímpio Mourão Filho mobilizava as tropas sediadas em Juiz de Fora, Minas Gerais, rumo ao Rio de Janeiro, e o general Amauri Kruel deslocava seus comandados de São Paulo para a capital carioca para, assim, fortalecer as ações do golpe de Mourão Filho. “Tudo o que restava era saber a posição do comando do Primeiro Exército, sediado no Rio. O General Âncora, do Primeiro Exército, telefonou para o palácio presidencial em busca de instruções, e descobriu que o presidente se evadira. {...} Aquilo encerrava a questão” (SKIDMORE, 2003a, p. 364). Na visão de Fico (2004, p. 18), Goulart caiu sem resistência, mas poderia ter dispersado as tropas de Mourão através da ação de seu dispositivo militar. Porém, pretendeu evitar uma guerra civil ou avaliou que seria inútil resistir. Saiu do país, mas antes disso perdeu o mandato.. Para que o presidente vencesse {...}, era indispensável que se atirasse num último lance de radicalismo, límpido, coordenado e violento. {...} Para prevalecer no quadro que radicalizara, Jango precisaria golpear o Congresso, intervir nos governos de Minas Gerais, São Paulo e Guanabara, expurgar uma parte da oficialidade das Forças Armadas, censurar a imprensa {...}. Tratava-se de buscar tamanha mudança no poder que, em última análise, durante o dia 31 de março tanto o governo (pela esquerda) como os insurretos (pela direita) precisavam atropelar as instituições republicanas. {...} Esse passo, de natureza revolucionária, Jango não deu. (GASPARI, 2004, p. 8384). Na noite de 1° de abril de 1964, o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, declarou vaga a função de presidente da República, passando o cargo para o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli, conforme a Constituição vigente. “Mas o poder já não estava nas mãos dos civis e sim dos comandantes militares” (FAUSTO, 2003, p. 461)..

(27) 27. 5. O Regime Militar. 5.1 O governo de Castelo Branco. Essa mesma Constituição vigente determinava uma eleição em 30 dias caso os cargos à presidência e à vice-presidência ficassem vagos. E era esse o caso em abril de 1964, posto que Goulart governara o país sem um substituto oficial. Nos bastidores, porém, os militares tinham outros planos e não estavam dispostos a entregar novamente o comando, segundo eles, à atual elite política que os levaria novamente ao risco da corrupção, da subversão e do comunismo.. Ranieri Mazzilli tentou assumir a Presidência da República: acompanhado pelo presidente do Congresso, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal e por um grupo de parlamentares, encontrou a guarda palaciana estupefata e o Palácio do Planalto sem luz. Era no Rio de Janeiro que brilhava o poder de fato. (FICO, 2004, p. 19). Na ex-capital do país, o general Arthur da Costa e Silva autonomeou-se comandante do Exército Nacional e Ministro da Guerra no dia dois de abril, inaugurando o Supremo Comando Revolucionário ao lado do vice-almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald e do brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo. Em nove de abril, os três ministros expediram um Ato Institucional (AI-1) conferindo ao Executivo do Brasil poderes extraordinários, limitando a ação do Congresso. Segundo Skidmore (2003a, p. 373), o AI-1 tinha os principais poderes:. 1) O poder de submeter emendas constitucionais ao Congresso, que teria somente trinta dias para considerar as propostas e apenas precisava aprová-las pelo voto de uma simples maioria {...}. O Presidente recebia igualmente poderes para declarar estado de sítio ou prolongar tal estado de sítio por um período máximo de trinta dias sem aprovação do Congresso. 2) O Executivo recebia amplos poderes para suprimir direitos políticos até por dez anos {...} e suprimir por seis meses as garantias constitucionais de segurança para os funcionários públicos.. Além disso, o AI-1 determinava que a eleição de um novo presidente e de um vicepresidente se daria dois dias após a sua publicação, tornando candidatáveis ao cargo principal apenas os oficiais militares da ativa. Assim, em 11 de abril de 1964 o general Humberto de Alencar Castelo Branco foi eleito por votação indireta do Congresso Nacional, tendo como vice o líder do PSD José Maria Alkmin, gesto que parecia dar alguma esperança de independência.

(28) 28. ao Congresso, embora Alkmin fosse nome aliado dos conspiradores do golpe desde o governo Goulart. Se o PSD ocupava a vice-liderança no alto comando do país, a UDN fora convocada para indicar políticos e tecnocratas conservadores que ajudassem a compor o novo governo. Entre os escolhidos estavam Luís Viana Filho para chefe da Casa Civil; Otávio Bulhões, como Ministro de Finanças; e Roberto Campos, Ministro do Planejamento, quem teria a missão de desenvolver um plano de estabilização econômica, prioridade para Castelo Branco. Mas antes de resolver a economia, o presidente precisava governar e entregar um país organizado em 31 de janeiro de 1966, quando terminaria seu mandato. Para Fico (2004, p. 71), “Castelo queria governar, {...} delinear o futuro do país, bem organizado, reformado conforme retos julgamentos”. Assim, na esfera militar o presidente precisava agradar os conservadores da linha-dura e os pré-constitucionalistas que rejeitavam o populismo dos governos anteriores, mas que acreditavam na democracia. Na análise de Skidmore (2003a, p. 374), Castelo Branco estava sob pressão dos radicais, que esperavam cassar os direitos políticos de pelo menos cinco mil inimigos do novo regime. Com seu estilo moderado, o presidente cancelou 378 direitos, bem abaixo da expectativa radical, mas compensou a decepção incluindo os nomes de três expresidentes: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, sem direito a defesa. Embora para os historiares não se possa “negar os traços de moderação e legalismo de Castelo Branco” (FICO, 2004, p. 72) e que o presidente “tentou dissociar seu regime da posição reacionária dos revolucionários da extrema direita, {ponderando} que a revolução tinha sido feita para assegurar desenvolvimento econômico continuado e justiça social” (SKIDMORE, 2003a, p. 375), a pressão por encontrar uma base política o obrigou a decretar outros Atos Institucionais logo após as eleições diretas ao governo dos estados, em outubro de 1965, quando a oposição venceu em importantes regiões, como no Rio de Janeiro e nas Minas Gerais.. O resultado das urnas alarmou os meios militares. Os grupos de linha-dura, adversários dos castelistas, viram nele a prova de que o governo era muito complacente com seus inimigos. Eles pregavam a implantação de um regime autoritário com controle militar estrito do sistema de decisões para levar mais longe a luta contra o comunismo e a corrupção. (FAUSTO, 2003, p. 474). Sob essa pressão, Castelo Branco baixou o AI-2 em 17 de outubro de 1965, estabelecendo que a eleição a presidente e vice da República seria realizada pela maioria absoluta do Congresso Nacional, em voto aberto e nominal. Somado a isso, o novo Ato substituiu a antiga estrutura partidária por apenas dois novos partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), representando o governo militar, e o Movimento Democrático Brasileiro.

(29) 29. (MDB), da oposição. “Os militares consideravam que o sistema multipartidário era um dos fatores responsáveis pelas crises políticas” (FAUSTO, 2003, p. 474). Além de estabelecer novas diretrizes partidárias, o AI-2 ampliou os poderes presidenciais permitindo novas suspensões de direitos políticos, cassação de mandatos parlamentares, ordem de recesso do Congresso Nacional, criação de decretos-leis e estendeu o mandato presidencial para 15 de março de 1967. “Castelo cedeu às intensas pressões de seus articuladores econômicos, que acreditavam que as eleições presidenciais marcadas para novembro de 1965 não deixariam tempo para que sua política mostrasse resultados” (SKIDMORE, 2003a, p. 231). Para completar o controle político, Castelo Branco assinou em fevereiro de 1966 o AI3, estabelecendo eleição indireta também para governadores estaduais através das respectivas Assembleias. Para Gaspari (2004, p. 137), Castelo Branco era um oficial de formação liberal, mas receava perder a base militar, dividindo-a e tornando-a vulnerável a uma revanche das forças depostas. “Prometeu ‘entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa’. Em 1967 entregou uma nação dividida a um sucessor eleito por 295 pessoas”. No campo econômico, o governo tentava equilibrar medidas que promovessem desenvolvimento industrial e estabilização monetária, objetivos perseguidos por outros presidentes desde a Segunda Guerra Mundial, mas que até aquele momento só haviam gerado hiperinflação, desemprego e dívidas internas e externas. À frente dessa tarefa, denominada Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), estavam os já citados Roberto Campos e Otávio Bulhões, que acreditavam na necessidade de cumprir as diretrizes traçadas pelas autoridades financeiras internacionais e pelos credores para, então, desenhar metas de desenvolvimento interno. E essas diretrizes convergiam para o controle da inflação reduzindo o déficit público e os salários. Paralelamente, os novos responsáveis pelo futuro econômico viam no setor privado a saída para a eficiência produtiva, papel delegado principalmente ao setor público em governos anteriores.. O novo programa de estabilização econômica era duramente atacado pela esquerda (e por muitos no centro), que previa que o programa anti-inflacionário de Campos e Bulhões criaria desemprego em massa e facilitaria uma vasta tomada de firmas brasileiras por estrangeiras, especialmente norte-americanas. Mais uma vez, a esquerda retratava o Brasil deslizando para o domínio dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional. (SKIDMORE, 2003b, p. 230). Segundo Fausto (2003, p. 471), o governo buscou controlar os gastos dos Estados – proibindo que eles se endividassem sem autorização federal –, reequilibrar as Finanças da União.

(30) 30. – com cortes de subsídios à importação e com o aumento de arrecadação de impostos – e flexibilizar os direitos dos trabalhadores para melhorar a eficiência produtiva, controlar os salários e coibir paralizações. Para minimizar o déficit da balança comercial, o Brasil promoveu uma campanha de exportação não apenas para explorar as reservas naturais e vender produtos agrícolas, como também para promover os bens manufaturados. Ainda segundo Fausto (2003, p. 472), o PAEG alcançou alguns objetivos propostos, reduzindo por exemplo o déficit público anual de 4,2% do PIB em 1963 para 3,2% em 1964 e 1,6% em 1965. A forte inflação de 1964, na casa dos 92%, caiu para 34,5% um ano depois. Em 1967, quando Castelo Branco deixou a presidência, não passava dos 25%. Para alguns historiadores, as medidas econômicas implantadas pelo regime militar não diferiam tanto daquelas praticadas nos governos democráticos. O que diferia, no entanto, era como essas medidas eram mantidas pelos executores e como eram recebidas pela sociedade política e civil.. Sem dúvida, a implantação de um regime autoritário no país facilitou a ação dos ministros, o que não significa que um regime desse tipo garanta estabilidade econômica. {...} Para poder funcionar qualquer plano de estabilização dependia de sacrifícios por parte da sociedade. Em regime democrático, o êxito de um plano depende de um acordo com concessões recíprocas por parte dos diferentes setores sociais. Nas condições da sociedade brasileira da época e com a falta de visão de seus principais atores políticos, isso era coisa difícil de se alcançar. Foi o regime autoritário que permitiu {...} tomar medidas que resultaram em sacrifícios forçados, especialmente para a classe trabalhadora, sem que esta tivesse condições de resistir. (FAUSTO, 2003, p. 473) Mesmo se reconhecermos que o Brasil foi extremamente mal servido por seus dois presidentes depois de 1960, permanece o fato de que a necessidade de escolhas impopulares e dolorosas na política econômica impunha graves limites ao potencial de liderança política populista ou carismática. O que todos os líderes descobriram nesse sistema político foi a ineficiência da estrutura de partidos, a incapacidade de controlar a elite no meio de uma crise altamente controvertida de formulações políticas. {...} Os argumentos da extrema esquerda e da extrema direita tinham singular semelhança. {...} A esquerda bradava “entreguismo”, isto é, venalidade às potências capitalistas, particularmente os Estados Unidos. A direita clamava subversão e comunismo – venalidade ao bloco comunista. (SKIDMORE, 2003a, p. 385). Se a política econômica de Castelo Branco era eficiente, mas exigia sacrifícios da sociedade, especificamente da classe média e baixa que sofriam com salários achatados e desvalorizados pela inflação, a repressão da ditadura militar nos primeiros anos concentrou-se na cassação política de figuras que eles consideravam populistas irresponsáveis e comunistas, principalmente sob julgamento do corpo de oficiais do Exército, órgão responsável pela.

(31) 31. manutenção da ordem pública. Na análise de Skidmore (2003b, p. 230) “o governo militar fora bastante ostensivo em sua decisão de expurgar a esquerda do sistema político, {...} mas é preciso observar que a imprensa permanecia livre nesse período inicial; a censura da mídia veio mais tarde”. O golpe militar em 1964 não havia enfrentado nenhuma resistência armada significativa, embora os adversários do regime sofressem com prisões e torturas.. Foi sobretudo graças às denúncias do jornal carioca Correio da Manhã que o presidente Castelo Branco determinou uma investigação sobre a prática de torturas {...}. A investigação foi arquivada “por insuficiência de provas”, mas de qualquer forma a tortura deixou de ser uma prática sistemática. (FAUSTO, 2003, p. 467). Para Gaspari (2004, p. 144) a prática da tortura, não apoiada diretamente pelo primeiro governo do regime militar, e tampouco devidamente combatida por ele, era vista pela cúpula militar como uma consequência natural do processo de mudança, e era exatamente isso que fornecia aos radicais o alicerce de indisciplina e ilegalidade sobre o qual se edificaria a ditadura.. Durante o ano de 1964 as denúncias de tortura feitas em juízos militares foram 203. Em 1965 baixaram para 84 e no ano seguinte caíram para 66. Dentro do aparelho burocrático, porém, passara-se a senha da impunidade. E não só da impunidade. Como o tempo haveria de mostrar, a repressão tornava-se um dos instrumentos de ascensão e ampliação do poder. {combater a tortura, mas não puni-la} resultou num acerto que em vez de desarticular a tortura, perdoou-a. {...} Alimentou a lenda cultivada pelas Forças Armadas segundo a qual, mesmo dirigindo regimes repressivos, mantinham-se distantes dos crimes neles praticados. (GASPARI, 2004, p. 150). As impressões sobre a violência militar e sobre o rumo do próprio regime, nos primeiros anos de governo, talvez fiquem claras nas palavras dos próprios personagens envolvidos. O general Golbery do Couto e Silva, responsável pelo Serviço Nacional de Informações, como se verá logo adiante, diria (apud GASPARI, 2004, p. 133):. Nos meses seguintes à Revolução houve excessos. Eu achava que tudo não passava de acontecimentos produzidos pelo calor da hora {...}. Você não faz uma omelete sem quebrar ovos. {...} Além disso, eu achava que muitas das denúncias eram fruto do exagero. Outras, por certo, eram produto de condutas ignorantes. Mas, numa hora dessas, que se há de fazer?. Já o general Ernesto Geisel, que viria a governar o país entre 1974 e 1979, faria o seguinte comentário em 1965 (apud GASPARI, 2004, p. 220):.

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