ACERVO DO IHGSLG Nos anos finais do século XIX o Brasil vivia uma crescente onda de republicanismo, várias pessoas e instituições assumiam publicamente sua contrariedade ao regime monárquico existente no país.
Em 1870 o Manifesto Republicano (documento assinado por im-portantes figuras da nossa história, como Quintino Bocaiúva e Joaquim Saldanha Marinho) demonstra publicamente a insatisfação com o regime monárquico. Na sequência surgiram centenas de Clubes Republicanos, in-clusive em São Luiz Gonzaga, todos pedindo a descentralização do poder e o fim da monarquia. Em 1873 na cidade paulista de Itu foi realizada a pri-meira Convenção Nacional Republicana, com a participação de 133 pessoas, entre elas Prudente de Moraes, futuro presidente da república. Na ocasião foi fundado o Partido Republicano Paulista (PRP), com forte ligação com a Maçonaria. O objetivo primeiro do PRP era implantar no Brasil uma fede-ração republicana, com um alto grau de descentralização administrativa, tendo em seus quadros, além do já citado Prudente de Moraes, Campos Sa-les, outro futuro presidente do Brasil.
O governo de D. Pedro II vivia uma crise: problemas com o Exército, a Igreja, a questão abolicionista, que irritou fazendeiros que pediam inde-nização e escravos libertos que reclamavam na demora da liberdade e no abandono após o fato.
Nessa onda, São Luiz Gonzaga seguiu o exemplo de São Borja, sendo um dos primeiros municípios do Brasil a aprovar um documento pedindo a mudança na forma de governo. Chamamos de Moção Republicana. A moção é uma proposta apresentada numa assembleia e submetida à avaliação e votação. Nesse caso, a moção foi uma proposta do conselheiro José Gomes Pinheiro Machado, mais tarde eleito Senador da República.
Há muito tempo sabemos sobre a Moção de São Luiz Gonzaga, mas foi somente no ano de 2017 que conseguimos estudá-la a fundo, quando o Instituto Histórico e Geográfico de São Luiz Gonzaga recebeu a doação do acervo do historiador José Gomes, falecido em 2004. Os documentos foram recebidos e incorporados ao acervo do Instituto, ficando a cargo do Centro de Documentação e Memória, órgão responsável pela guarda, conservação e pesquisa documental no Instituto.
Como citado, entre os documentos está a ata do Conselho Munici-pal de São Luiz Gonzaga de 27 de fevereiro de 1888.1 Nessa data os conse-1 No mesmo conjunto documental encontra-se o ofício expedido a 04 de abril de conse-1888 pelo
lheiros (autoridades legislativas e executivas) de São Luiz Gonzaga aprova-ram uma moção proposta por José Gomes Pinheiro Machado, para alterar o Artigo 4º da Constituição Nacional de 1824, que afirmava: “Art. 4. A Dynastia Imperante é a do Senhor Dom Pedro I actual Imperador, e Defensor Perpetuo do Brazil”.
Essa moção foi muito audaciosa, seguiu o proposto pela Câmara de São Borja no mês anterior, ou seja, o fim da monarquia e a imple-mentação da República no Brasil. Apesar de inspirar-se na moção são-bor-jense, a de São Luiz Gonzaga foi mais radical, pois afirmava a necessidade de acabar com a monarquia, enquanto a de São Borja previa um plebiscito para discutir a sucessão do trono de D. Pedro II, não aceitando a Princesa Isabel como governante. Pinheiro Machado propôs à Assembleia Provincial do Rio Grande do Sul que esta, de forma urgente, pedisse ao Parlamento Nacional que convocasse uma constituinte para mudar a Carta Magna de 1824, propondo o fim da monarquia. Dessa forma, constatamos – até o mo-mento – que São Luiz Gonzaga foi o primeiro município brasileiro a suge-rir, de forma oficial, a destituição de D. Pedro II do cargo de Imperador do Brasil e o fim da monarquia.
A moção marca a entrada de Pinheiro Machado no cenário político nacional e coloca, a partir de agora, São Luiz Gonzaga definitivamente nos estudos dos historiadores e estudiosos da história nacional. Esse muni-cípio deverá figurar como um desbravador da política nacional em fins do século XIX, ao propor oficialmente a criação de uma República no Brasil.
Na sequência, retirada da cópia da ata2 do Conselho Municipal que
propôs a Moção Republicana, transcrevemos as principais partes:
Aos vinte e sete dias do mez de Fevereiro de mil oitocentos e oitenta e oito, n’esta Villa de São Luiz Gonzaga e paço da Camara Municipal pelas dez horas da manhã reunidos o presidente da mesma Deolindo Vieira Marques e os vereadores Doutor Pinheiro3, S. Portinho4 e Lobo5, foi declarada aberta a sessão.
Foi lida e approvada a acta da antecedente. – Expediente – [...]
Indicação
Do vereador Doutor Pinheiro a seguinte: A Camara Municipal de São Luiz Gonzaga entendendo de urgente necessidade a reforma do artigo quarto da consti-tuição a fim de não continuar no throno a dinastia reinante, propoem a Assembleia Provincial que promova perante o Parlamento a idéa da convocação de uma consti-tuinte para a revisão da Constituição. O presidente declarou em discussão a aludida indicação.
Pedindo a palavra o vereador Lobo, disse que, votaria contra, por entender que a conservação da familia real de bragança no throno Brazileiro é uma necessi-dade publica.
O vereador Portinho, declarou que votava contra a indicação por julga-la infructifera e não attingir ao seu desideratum. O presidente afirmou que votava a fa-vor, e que, portanto, com o voto de qualidade para desempate, fica approvada a indi-cação, pelo que foi remettida a referida indicação em officio a Assembleia Provincial.
Deliberação [...]
Não havendo mais nada a tractar e tendo pedido dispensa do seu compare-cimento o vereador Lobo o presidente deu por concluidos os trabalhos das primeiras sessões ordinarias da Camara. E eu José Almeida Lencina Secretario que a escrevi.
Deolindo Vieira Marques Pedro Carneiro Lobo