TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA PARAÍBA GABINETE DO DESEMBARGADOR JOAO ALVES DA SILVA
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ACÓRDÃO
MANDADO DE SEGURANÇA N. 999.2010.000737-9/001 RELATOR : Marcos Willian de Oliveira - JuizConvocado IMPETRANTE : Paulo Roberto Solano de Macedo
(Adv. Ronaldo Rafael Gomes Filho) IMPETRADO : Promotor de Justiça da Comarca de Areia
MANDADO DE SEGURANÇA. FECHAMENTO DE AGÊNCIA LOTÉRICA, AÉREENSÃO DOS OBJETOS E PRISÃO DE FUNCIONÁRIO. PRÁTICA DE JOGO DO BICHO. ALEGAÇÃO DE QUE O ESTABELECIMENTO É CREDENCIADO PELA LOTEP. INDIFERENÇA. SUMUL VINCULANTE NQ 02, DO STE
INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI QUE REGULA AS LOTERIAS ESTADUMS. AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. DENEGAÇÃO DA ORDEM.
G> "Direito liquido e certo é o que se apresenta manifesto na sua Cri -8
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existência, delimitado na suà extensão e apto a ser exercitaelk, , E à no momento da impetração". Não demonstrando o impetrante ,g
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de que os bens apreendidos .não eram destinados à prática de -
'Jogo do Bicho', há de se denegar a segurança.
e
"É inconstitucional a lei ou ato normativo estadual ou distrital que disponha sobre sistemas de consórcios e sorteies, inclusive bingos e loterias." ¡Súmula Vinculante 11.Q 02)VISTOS, relatados e discutidos estes autos, em que figuram corno partes as acima nominadas.
ACORDA o Tribunal Pleno do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba, por unanimidade, denegar a segurança, nos termos do voto do relator. Integra a presente decisão a súmula de julgamento de fl. 124.
Relatório
Trata-se de mandado de segurança com pedido de liminar impetrado por Paulo Roberto Solano de Macedo contra ato supostamente ilegal praticado pelo Promotor de Justiça da Comarca de Areia.
Narra o impetrante que é proprietário de uma casa loterica naquele município, autorizada a funcionar pela Loteria do Estado da Paraíba - Lotep. Aduz que, antes dos fatos, tomou conhecimento de que a autoridade dita coa tora teria proibido a prática de jogos de azar naquela comuna, precisamente aquela prevista no art. 58, da Lei das Contravenções Penais - Jogo do Bicho.
Antes de instalar o estabelecimento, assevera o impetrante que
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pediu esclarecimento acerca das proibições, tendo o impetrado. na oportunidade, apontado que a vedação estaria restrita à prática de Jogo do Bicho.Aduz que após a instalação da estabelecimento, seu empregado foi surpreendido com uma diligência da polícia militar, que o prendeu e apreendeu material de trabalho da lotérica. Ademais, narra que foi indiciado pela prática da contravenção penal acima enumerada.
Garante que tem autorização para funcionar, não havendo qualquer ilegalidade na atividade lotérica, que, no caso da Loteria do Estado C a Paraíba, tem metodologia distinta daquela utilizada para o "Jogo do Bicho" e
idêntica à utilizada nos sorteios das Loterias do Governo Federal. E
C) -8
Acrescenta, ainda, que "a combinação de quatro númere- o
.resultantes dos sorteios por ela realizados, tem" sido associada aos números do E È
o 'jogo do bicho' pela própria população, por razões de melhor compreensão cies
sorteios, tornando-se uma tradição, o que é inevitável pela LOTEP".
2 2:
e Aduz que o fechamento "sumário e arbitrário da agênc:alotérica acarreta sérios prejuízos [...]", uma vez que deixa de arrecadar, mas continua a recolher os valores devidos à LOTEP em razão do credenciamento, bem como aos colaboradores da loteria, que perdem as comissões angariadas com a venCa das apostas.
Afirma que a prisão do funcionário Fábio Soares Martins, a apreensão dos objetos e o fechamento da lotérica são ilegais.
Ao final pugna pela concessão da segurança. a fim de determinar o trancamento dos procedimentos criminais instaurados contra o impetrante e contra Fábio Soares Martins, a devolução dos materiais e a cessação C.a
ordem para fechamento da loteria.
Nas informações, a autoridade impetrada esclareceu que a proibição da prática de jogos de azar na comarda de Areia ocorreu após receber reclamação de que a agência lotérica 'Sonho da Sorte', conhecida corno 'Banca de Joga do Bicho', se recusou a pagar prêmio sorteado.
Confirma que o impetrante o procurou para confirmar a veracidade da proibição, fato este respondido por escrito. Mesmo assim, assevera o impetrado, o impetrante resolveu instalar e fazer funcionar no município de Areia a agência loteria 'Central da Sorte', onde passou a explorar, exclusivamente, o 'Jogo do Bicho', em total afronta ao art. 50 e seguintes da Lei de Contravenções Penais.
Argumenta, no que se refere a autorização para funcionamento,
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que o STF editou a Súmula Vinculante n-Q 02, apontando a inconstitucionaliclade da lei ou ato normativo estadual ou distrital que disponha sobre sistemas de consórcio esorteios, inclusive bingos e loterias.
Quanto aos fatos relativos à prisão do funcionário do impetrante, aduz o impetrado que realmente o delegado de policia, ao por em prática o ato, entrou em contato com ele para avisar que o proprietário do estabelecimento era esposo da Promotora de Justiça da comarca de Araruna, fato este que não mudaria nada em relação ao procedimento.
Assegura, ainda, que em momento algum o impetrante foi proibido de colocar em funcionamento uma casa lotérica naquela comuna, desde que não ofendesse as normas legais e que tivesse devidamente autorizado pela legislação
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pertinente. z ;
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)Garante, por fim, que agiu nos limites das atribuições do Ministério Público, daí porque não há que se falar em ato ilegal.
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e
O pedido de liminar foi negado (fls. 106/109).
Nesta instância, o Ministério Público opinou pela denegação da segurança.
É o relatório VOTO.
De inicio, esclareço que embora não haja previsão expresa quanto à competência desta Câmara Cível para julgamento de mandado c e segurança contra ato de Promotor de Justiça, penso que poder-se-ia invocar o
disposto no art. 16, V, do Regimento Interno do Tribunal de Justiça. que verbera: V — conhecer e julgar mandado de segurança, correição parcial, conflito de competência entre Juizes de primeiro grau, inclusive entre estes e os de Juizado Especial, e quaisquer outros feitos ou recursos cíveis que não se enquadram na competência do Tribunal Pleno, ou Conselho da Magistratura. Neste particular, nada obstante tratar-se de instituto diverso, penso que não há óbice à extensão da competência desta Câmara para julgamento deste feito, até porque o dispositivo veicula norma de conteúdo aberto, atribuind competência residual às Câmaras Cíveis para julgamento de processo não afeitos a competência do Tribunal Pleno e do Conselho da Magistratura.
Expostas estas razões, reconheço competência a esta Câmara para processar o mandado de segurança.
No mérito, penso que pedido não merece ser acolhido.
Com efeito, segundo as informações trazidas pelo próprio impetrante, precisamente aquelas constantes no termo circunstan.ciado. de ocorrência (fi. 23),. a policia prendeu, em flagrante, o funcionário da loterica, bem COM) apreendeu os objetos destinados à prática de jogo do bicho. conforme se pode conferir na transcrição abaixo:
e
cidade que os acusados supramencionados estavam no centro desta cidade, utilizando-se da prática do "Jogo do Bicho' ,
t» ic onde constatou o fato, apreendendo vários objetos (Ft" configuram a contravenção (descrita no auto de apreensão) e
."...\.:, os trouxe para esta delegacia, juntamente com os acusados,
para as providências cabíveis» . (grifou-se) C
á
rsDiante de tal cenário, entendo que o terno c,rcunstanc:.ad revela • prática de ato típico, previsto na Lei das Contravenções Penais, especificamente em seu art. 58, que verbera:
Art. 58 - Explorar ou realizar a loteria denominada jogo do bicho, ou praticar qualquer ' ato relativo à sua realização ou exploração:
Pena - prisão simples, de 4 (quatro) meses a 1 (um) ano, e multa.
Parágrafo único - Incorre na pena de multa aquele qt e "que foram informados através do promotor de justiça desta
participa da loteria, visando a obtenção de prêmio, para si ou para terceiro.
Acrescente-se que o fato do 'Jogo do Bicho ser tolerado pelo Estado não implica na sua legalização. Sobre o tema, confira-se precedente do Superior Tribunal de Justiça:
"PENAL. CONTRAVENÇÃO. JOGO DO BICHC ABSOLVIÇÃO. RECURSO. 1. A LEGALIDADE DA EXPLORAÇÃO DE LOTERIAS PELO ESTADO NÃO INDUZ A LEGALIDADE DE JOGO DE AZAR, VEDADO PELA LEGISLAÇÃO EM VIGOR. 2. ENQUANTO NÃO HOUVER REVOGAÇÃO EXPRESSA, FORMAL, PELO LEGISLADOR FEDERAL, O JOGO DO BICHO CONTINUARA A SER CONTRAVENÇÃO PENAL Ë POR ISSO A LEI TERA QUE SER APLICADA. 3. TODOS QUE SE ENVOLVEREM COM O JOGO DO BICHO, QUER NA CONDIÇÃO DE DONOS 1T-7_ BANCAS, DE CAMBISTAS OU DE APOSTADOREE, ESTARÃO PASSIVEIS DE SOFRER O PROCESSO POR CONTRAVENÇÃO. 4. RECURSO CONHECIDO PARA RESTABELECER A SENTENÇA CONDENATORIA". 1
Outrossim, quanto ao fato de Ser agente credenciado na Loteria
do Estado da Paraíba, importante anotar que o Stipremo .Tribunal Federal editou :N E Sumula Vinculante nQ 02, que aponta a inconstitucionalidade das legislações
estaduais que dispõem acerca de consórcios e sorteios. Para melhor compreensão,
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e
confira-se:
"É inconstitucional a lei ou ato normativo estadual ou distriel que disponha sobre sisteMas de consórcios e sorteios, inclusive bingos e loterias."
A súmula foi editada na esteira de inúmeros julgamentos sobre o tema. Segundo os julgados, declarava-se a inconstitucionalidade formal, "per violação do art. 22, XX, da Constituição Federal, que estabelece a competência privativa da União para dispor sobre sistemas de: sorteios" . 2 (ADI n0 3.060). Assim, em tese, a autorização e regulação da atividade dó impetrante estão amparados em lei que padece de vício de inconstitucionalidade.
REsp 25.115/RO - Rel. Min. Edson Vidigal — T5 —j. 26/05/1993 - DJ 14/06/1993 -p. 1178.
2
9.TF - ADI 3060 / CO — Rel. Min. Sepúlveda Pertence — Tribunal Pleno - DJe 31/05/2007 - p. 01'06 '200".
Anote-se, ainda, que o impetrante não conseguiu provar que os objetos apreendidos eram destinados à prática de outro tipo de jogo, que não fosse .3
"Jogo do Bicho".
Z75 -
Sabe-se que o mandado de segurança é ação instituída para proteger direito líquido e certo, sempre que alguém sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por ilegalidade ou abuso de poder.
Sobre o direito líquido e certo', confiram-se as palavras de HeIv Lopes Meirelles:
"Direito líquido e certo é o que se apresenta manifesto na sul existência, delimitado na sua extensão e apto a ser exercitado no momento da impetração. Por outras palavras, o direito invocado, para ser amparável por mandado de segurança, há de vir expresso em norma , legal e trazer em si todos 03
requisitos e condições de sua aplicação ao impetrante: se sul existência for duvidosa; se fsua extensão ainda não estiver delimitada; se seu exercício ; depender de situações e fatos ainda indeterminados, não rente ensejo à segurança, embora possa ser defendido por outros meios judiciais". 3
Entretanto, como já restou demónstrado acima, o impetrante não logrou demonstrar o direito líquido e certo alegado, daí porque a denegação da ordem é fato impositivo.
Ademais, no que se refere ao pedido de trancamento d 3
procedimento criminal, penso que falece competência a esta Câmara para o exame de matéria. de natureza criminal (trancamento do inquérito policial), que está afeto à competência da Câmara Criminal, conforme se
pode
notar do art. 1 VIII, do RITJPE, ta,que verbera: e;
"Art. 17. Compete à Câmara Criminal:
C: -3
VIII - conhecer e julgar correição parcial, mandado de
e
á
t3segurança e conflitos de competência entre ,juizes de primeiro grau, inclusive entre estes e os de juizado Especial, e quaisquer outros feitos ou recursos que não se enquadrem ra competência do Tribunal Pleno ou do Conselho C.,a Magistratura, em matéria criminal";
Por outro lado, deixo de remeter os autos àquela Câmara, uma vez que, igualmente, não terá ela competência para apreciar o mandado de segurança quantõ• à matéria cível nele veiculada. Isto posto, não conheço do pedido c e trancamento do inquérito policial.
in Mandado de Segurança. Ação Popular. Ação Civil Pública. Mandado de Injuação. Habeas Data. 2 .1tualH/ada p,)r Arnold W.ald e Gilmar Ferre ira Mendes. Malheiros, 2001. p. 36/38
da Paraíba, em 22 de março de 2'1 1 João P ssoa, 23
ata do julgamento). arço de 2011.
e Oliveira
Assim, considerando que o impetrante não logrou demonstrar o direito líquido e certo vindicado, denego a seguranCa. É como voto.
DECISÃO
A Câmara decidiu, por votação unânime, denegar a segurança. Presidiu o julgamento o Exmo. Des. Rornero Marcelo da Fonseca Oliveira. Participaram do julgamento, alám do relator, Exmo. Dr. Marco; William de Oliveira, Juiz convocado para substituiro Exmo. Des. João Alves da Silva, o Exmo. Des. Romero Marcelo da Fonseca Oliveira . e o Exma. Des. Frederico Martinho da Nábrega Coutinho.
Presente o representante do Ministério Público, na pessoa da Dra. Ana Cândida Espínola, Promotora de justiça Convocada.
Sala das Sessões da Quarta Câmara Cível do Tribunal de justiça
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