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A Mensagem Do Antigo Testamento- Mark Dever

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Academic year: 2021

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Texto

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^ TESTAMENTO

A. EXPOSIÇÃO

\ E HOMILÉTICA

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U

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(3)

TESTAMENTO

U

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TEOLÓGICA E HOMILÉTICA

Ia Edição

TRA DUZIDO POR LEN A ARANHA

CWD

Rio de Janeiro

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Título do original em inglês: The M essage o fth e Old Testament. Promises Made

Crossway Books, Wheaton, Illinois, EUA Primeira edição em inglês: 2006 Tradução: Lena Aranha

Preparação dos originais: César Moisés, Daniele Pereira, Gleyce Duque. Revisão: Elaine Arsenio, Daniele Pereira, Gleyce Duque, César Moisés Capa e projeto gráfico: Josias Finamore

Editoração: Josias Finamore, Alexandre Soares, Natan Tomé CD D: 220 - Bíblia

ISBN: 978-85-263-0925-8

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br.

SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-21-7373

Casa Publicadora das Assembléias de Deus

Caixa Postal 331

20001-970, Rio de janeiro, RJ, Brasil 1a edição/2008

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Para Ligon Duncan, C. J. Mahaney e R. Albert MohJer, Jr., amigos e colaboradores, unidos pelo evangelho.

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M ais uma vez, estou em débito com muitas pessoas que me apoiaram e me ajudaram, sem as quais você não teria este livro.

Muitos amigos encorajaram-me de modo especial. C. J. Mahaney foi incansável. Em uma ocasião, quando pregava para um grupo de pastores da Sovereign Grace e acabei o r esumo de um sermão, ele disse-me para prosseguir com uma outra pregação — embora estivessem televisionando um jogo de basquete do Duke/Maryland.

Os estudiosos que me ensinaram o Antigo Testamento — quer pessoalmente, quer por meio de seus livros — foram Gordon Hugenberger, Graeme Goldswor- thy, Alec Motyer, Christopher Wright, Ray Orlund Jr., W illiam Dumbrell e Doug Stuart. E, claro, não posso omitir o grande avô de todos eles, Geerhardus Vos. Deus usou esses homens para moldar minha compreensão em relação a grande abrangência da história da redenção.

Os editores são pessoas que, se convertidos, devem ter virtudes especiais. Bill Deckard, da Crossway, foi sempre gentil e rápido em responder às perguntas e em acompanhar este manuscrito ao longo do processo de publicação. Jonathan Leeman deu um ano de sua vida para ler e editar os resumos de meus sermões do Novo e do Antigo Testamentos. Posso apenas começar a perceber as virtudes que ele desenvolveu ao trabalhar durante um ano comigo nesta tarefa. Sem dúvida, o cuidado, as reflexões, as sugestões e as edições de Jonathan trouxeram clareza ao texto que, neste momento, você tem em mãos. Ele foi generoso em ceder seu tempo e foi uma alegria trabalhar com ele.

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A pregação é um chamado maravilhoso e exigente. É um trabalho muito sa­ tisfatório que ajuda o pregador a entender a si mesmo e a tentar ajudar os outros de forma a despertar o interesse. Nossa congregação em Washington, D. C., tem sido abençoada com muitos pastores que amam esse trabalho e o desempenham bem. Todos são um estímulo para mim. Em nossa congregação, Michael Lawrence, em particular, é um colaborador do evangelho em nossa congregação e, mais de uma vez foi um exemplo, além de questionar e revisar, ao ajudar-me a pensar da forma correta e a pregar o Antigo Testamento. Ele foi dotado com a compreensão da Palavra do Senhor e a habilidade de transmiti-la bem para a glória de Deus. As conversas com ele modelaram e melhoraram esses sermões.

A família do pregador sempre fica em uma posição especial, difícil e aben­ çoada. Em parte, as dificuldades decorrem das expectativas dos outros e deles mesmos, assim como pecadores redimidos, como também o são todos cristãos. As bênçãos, às vezes, são menos evidentes. Preparei estes sermões na esperança de que essas bênçãos se realizem na vida de cada membro de minha família — Connie, Annie e Nathan. Louvo a Deus pelo que já posso ver e anseio por ver muito mais do maravilhoso plano de Deus.

E agora, leitor, vamos ao livro! Que Deus o ajude a vislumbrar mais do pla­ no maravilhoso dEle ao longo da história e em sua vida à medida que examina esses sermões.

— M ark Dever

Capitol H ill Baptist Church Washington, D. C.

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Jesus enfatizou de forma incontestável que as Escrituras do Antigo Testa­ mento testificavam dEle. Claro que elas também testificam todo tipo de outras coisas: piedade, fidelidade, o progresso e o regresso do povo de Deus, o pecado, o julgamento e assim por diante. Contudo, Jesus, os apóstolos e outros escrito­ res do Novo Testamento enfatizam que, acima de tudo, o Antigo Testamento é sobre Ele.

Portanto, por que a primeira pergunta que, muitas vezes, fazemos a respeito do Antigo Testamento é esta: o que essa passagem nos fala a respeito de nós mesmos? Sem dúvida, a primeira e principal pergunta que deveríamos fazer é: como essa passagem testifica de Cristo?

Sempre devemos começar por essa última pergunta, porque apenas Jesus Cristo, aquele que cumpre o Antigo Testamento, define a vida do cristão. Se o Antigo Testamento não apontar para Cristo, também não aponta para o cristão. Um sermão deve primeiro ser cristocêntrico para poder centrar-se de forma autêntica e cristã nas pessoas. Nas páginas do Antigo Testamento, aprendemos muito com os homens e as mulheres, bons e maus, que viveram antes de nós. Todavia, na análise final, apenas Cristo define como esses indivíduos foram bons ou maus. Além disso, nosso crescimento cristão vem de nos tornarmos mais parecidos com Cristo, não com Abraão, ou Davi, ou Daniel. Esses heróis

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do Antigo Testamento são exemplos para nós apenas à medida que prenunciam e apontam para Cristo.

M ark Dever, neste livro, empreendeu uma tarefa difícil e importante. Ele cristalizou a mensagem de cada livro do Antigo Testamento e empenhou-se em mostrar o valor cristão de cada um desses livros. Esses sermões não devem ser vistos como modelos de pregação rotineira sobre o Antigo Testamento, pois ra­ ramente um pregador tentaria cobrir todo um livro em um sermão. No entanto, ele fornece uma ampla perspectiva de como os livros apontam para Cristo e são cumpridos por ele. O pregador precisa inferir os princípios da pregação de Cristo do Antigo Testamento e aplicá-los às unidades textuais mais apropriadas para os sermões expositivos.

M ark Dever usa três caminhos principais para traçar a relação do Antigo Testamento com a mensagem de nossa redenção em Cristo. Esses três caminhos não são mutuamente exclusivos, mas sim perspectivas distintas da unidade das Escrituras. O cerne de todos eles é o princípio de que o Antigo Testamento registra muitas promessas feitas pelo Senhor em relação à redenção de seu povo. Essas promessas não encontram sua resposta derradeira no Antigo Testamento, que termina deixando-nos em suspense. Cabe ao Novo Testamento registrar o cumprimento perfeito dessas promessas na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré e por intermédio delas.

A prim eira abordagem que o autor usa é isolar o tema principal do livro específico que é objeto de sua pregação. A seguir, ele extrai esses temas por meio de referências diretas ao Novo Testamento ou dos mesmos temas te­ ológicos encontrados em Cristo. Isto é, iniciam os com os temas teológicos do Antigo Testamento e caminhamos para a explicação desses temas pelo evangelho de Cristo.

O segundo tipo de ligação explorado é o que segue a direção dada pelas alusões e citações do Antigo Testamento no Novo Testamento. Estima-se que o Novo Testamento faz cerca de 1,6 mil dessas referências. Cada livro do Novo Testamento, com exceção talvez de 2 e 3 João, torna essas conexões — em sua maioria teológicas e não meramente analógicas —- claras.

O terceiro método é muito tipológico. A tipologia baseia-se no fato de que o Deus das Escrituras revelou a si mesmo e a seus propósitos salvadores em estágios progressivos. Afinal, por que o Antigo Testamento é a única Bíblia de Jesus e dos apóstolos? E por que a igreja, desde o início, reconhece o Antigo Testamento como Escritura cristã? Porque as pessoas do Novo Testamento entenderam que tudo que Deus disse e fez ao longo da história de Israel preparava o caminho para vinda do Messias, Jesus Cristo, nosso Senhor. Alcança-se especificamente essa preparação pela prefiguração da verdade que seria totalmente revelada em Jesus.

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Jesus disse aos judeus que afirmavam ser descendentes de Moisés: “Se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim, porque de mim escreveu ele” (Jo 5.46). A resposta de Jesus quando afirmavam que Abraão era o pai deles: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (Jo 8.56). Fica claro que, de alguma forma, o dia de Cristo estende-se até o Antigo Testamento. Cristo cumpre as promessas feitas a Abraão. O Jesus ressurrecto, quando apareceu para seus discípulos desmoralizados, lembrou-os da necessidade de que houvesse o sofrimento de Cristo. Então, “começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). As pala­ vras finais de Jesus a respeito da explicação das Escrituras do Antigo Testamento foram: “Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse e, ao terceiro dia, ressuscitasse dos mortos; e, em seu nome, se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.46,47). Isso só pode significar que o Antigo Testamento é sobre o evangelho de Cristo.

É preciso admitir que muitos pregadores negligenciam o Antigo Testamento porque é muito mais difícil de pregar do que o Novo Testamento. Alguns que o acham mais fácil do que eu creio que fazem isso, porque acham adequado reduzir o Antigo Testamento a uma fonte para homilias moralizadoras. Aceita-se o papel dos personagens do Antigo Testamento como puramente tipos. Também há os pregadores narrativos que se satisfazem em apenas recontar as histórias e deixar que os ouvintes cheguem as suas próprias conclusões. Todavia, toda a história da Bíblia é apenas uma. Ela apresenta muita variedade e diversidade, porém, ainda é uma e a mesma história. Sob o ponto de vista cristão, inicia-se com Cristo, o Criador (Jo I .I -3), chega ao ápice com Cristo, o Salvador e consuma-se com o retorno de Cristo em glória. Não podemos mais isolar a narrativa do Antigo Testamento do Cristo que lhe provê sentido, da mesma forma que não poderí­ amos isolar uma cena de uma peça teatral de seu ponto de culminância e de seu desenlace. O livro de M ark Dever lembra-nos da unidade que há na diversidade das muitas cenas do grande drama divino das Escrituras.

— Graeme Goldsworthy

Conferencista em Hermenêutica convidado Moore Theological College, Sidney

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Agradecimentos... 0 7

Prefácio de Graeme Goldsworthy...09

Introdução: Voe primeiro, Caminhe depois...15

A Bíblia inteira: O que Deus quer de nós?... 21

O Antigo Testamento: Promessas Feitas...4 7 A Gr a n d e His t ó r ia 1. A mensagem de Gênesis: “[...] das coisas não nascidas que ainda entesouradas se acham nos fracos germes e começos”... 67

2. A mensagem de Exodo: “O mundo todo é um palco”...89

3. A mensagem de Levítico: “Não se te mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo”... 1 13 4. A mensagem de Números: “O que é, não tem valor; só aó que foi e há de ser se vota amor!” ...13 5 5. A mensagem de Deuteronômio: “O passado é o prólogo”...15 7 O o u t r o Mil ê n io 6. A mensagem de Josué: conquista... 185

7. A mensagem de Juizes: beco sem saída...2 0 7 8. A mensagem de Rute: surpresa... 2 3 1 9. A mensagem de I Samuel: fé em momentos de transgressões...2 5 5 10. A mensagem de 2 Samuel: arrependimento...27 9 1 1 . A mensagem de I Reis: declínio...303

12. A mensagem de 2 Reis: queda... 3 2 7 13. A mensagem de I Crônicas: alturas...3 5 1 14. A mensagem de 2 Crônicas: profundezas...375

15. A mensagem de Esdras: renovação... 399

16. A mensagem de Neemias: reconstrução... 4 2 9 17. A mensagem de Ester: surpresa... 4 5 5 Sabedoria Antiga 18. A mensagem de Jó: sabedoria para os perdedores... 48 5 19. A mensagem de Salmos: sabedoria para as pessoas espirituais... 501

20. A mensagem de Provérbios: sabedoria para os ambiciosos...521

2 1 . A mensagem de Eclesiastes: sabedoria para os bem-sucedidos... 543

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Gr a n d e s Esp e r a n ç a s

23. A mensagem de Isaías: o Messias... 58 3 24. A mensagem de Jeremias: justiça... 605 25. A mensagem de Lamentações: justiça muito próxima...6 2 7 26. A mensagem de Ezequiel: paraíso... 649 27. A mensagem de Daniel: sobrevivência...6 6 9

Qu e s t õ e s Et e r n a s

28. A mensagem de Oséias: o que é o amor?...6 8 9 29. A mensagem de Joel: a quem Deus salvará?...7 1 3 30. A mensagem de Amós: Deus se importa?...7 3 7 3 1. A mensagem de Obadias: Deus tem inimigos?... 7 6 1 32. A mensagem de Jonas: você pode se esconder de Deus?...7 8 3 33. A mensagem de Miquéias: o que Deus quer?...8 0 7 34. A mensagem de Naum: quem está no comando?... 8 2 7 35. A mensagem de Habacuque: como posso ser feliz?...8 4 7 36. A mensagem de Sofonias: pelo que temos de ser agradecidos?...8 7 1 37. A mensagem de Ageu: seus investimentos sâo seguros?... 8 9 1 38. A mensagem de Zacarias: Deus dá uma segunda chance?... 9 1 5 39. A mensagem de Malaquias: é importante a forma como adoro a Deus?...9 3 7

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V

o e p r im e ir o

, C

a m in h e d e p o is

O mais alto que já estive acima da superfície da terra foi em um avião. As linhas comerciais voam cerca de 10,3 m il metros de altura, o que representa estar cerca de 1,5 mil metros acima da mais alta montanha da terra. Apenas pilotos militares, astronautas e alguns poucos indivíduos temerários já foram mais alto que eu! Claro, incontáveis pessoas — milhões? — já chegaram tão alto quanto eu, confortavelmente sentadas nas cabines pressurizadas e comendo amendoim ou salgadinhos.

A cada ano mais e mais pessoas fazem viagens aéreas para lugares distantes. E habitual que fiquemos muito mais acima do nível do mar quando voamos do que qualquer pessoa já esteve há apenas cem anos atrás! Em toda a história, o recorde de maior altura alcançada pelo homem na atmosfera sempre coube a alguns alpinistas ousados e aplicados. Agora, tudo que temos de fazer é chegar ao aeroporto uma hora antes do vôo, enfrentar umas duas filas e, depois, sentar em uma cadeira bem acolchoada por várias horas.

A partida é minha parte favorita da viagem. O avião desliza devagar. Faz uma pausa e, depois, engata uma marcha mais rápida. Depois de segundos, você olha pela janela e vê que está correndo mais rápido do que qualquer carro da rodovia.

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A seguir, as rodas deixam o chão, primeiro a da frente, depois as traseiras. Antes de perceber, você já observa os topos dos prédios em volta do aeroporto, a rodovia que leva a ele, o desenho da cidade, as montanhas, e os rios e o litoral!

Eu apenas afastei um pouco o olhar do computador, pois estou escrevendo essa introdução em um trem e acabo de atravessar uma ponte alta sobre um largo e impetuoso rio. Quando olho para fora da janela, o olhar alcança bem longe. Essas vistas — de um avião ou de um trem — lhe dão uma perspectiva totalmente nova de onde você está. Você se localiza e entende melhor para onde vai e como chegar lá.

Claro que, em tudo na vida, precisamos entender melhor para onde vamos, e isso requer que, primeiro, saibamos onde estamos.

A coleção de sermões deste livro — pregados na Capitol H ill Baptist Church, em Washington, D. C. — tentam ajudar-nos a fazer exatamente isso, ao voar mais alto do que os sermões costumam fazer. Cada sermão deste livro apresenta uma visão geral de todo o Antigo Testamento (também inclui um sermão sobre todo o Antigo Testamento e um sobre toda a Bíblia). Eu esperava que essas “visões bíblicas gerais” ajudassem minha congregação a conhecer melhor onde estamos e para onde vamos. Espero que façam o mesmo por você. Sem dúvida, eles fizeram isso para mim.

Eu já estava familiarizado com alguns livros do Antigo Testamento quando chegou a semana de pregá-los — Gênesis, Deuteronômio, Salmos, Jonas, M a- laquias. Contudo, começar a trabalhar os outros livros pareceu mais com minha primeira viagem a um novo país! Todavia, em ambas as categorias, encontrei muito mais do que esperava: uma estranheza rica, nova e saudável e ao mesmo tempo, uma característica familiar que me fez saber que apenas conhecia mais do mesmo Deus que viera a conhecer e a amar por intermédio de Jesus Cristo.

Lembro-me de pregar os profetas maiores em uma série intitulada “Grandes Esperanças”. A medida que trabalhava — um domingo, em Isaías, no seguinte, em Jeremias, depois, em Ezequiel e, por fim, em Daniel — , parecia-me ouvir os quatro movimentos de uma grande sinfonia. Isaías iniciava com grandiosas e sombrias premonições de destruição, o incrível amor da expiação e, depois, a triunfante alegria da esperança escatológica. Jeremias assumiu o segundo mo­ vimento com o aterrador cerco a Jerusalém, em escala menor, sem, contudo, deixar de trazer os doces temas da libertação e da justiça prometidas. A seguir, voltamos nosso ouvido para a Babilônia, em que ecoam as variações de Ezequiel sobre Jeremias. O tom dele é conhecido, mas menos particular mais abstrato. Ele nos dá perspectivas novas e estimulantes sobre o amor de Deus por seu povo, e de como esse povo o rejeitou. Por fim, Daniel reformula os grandes temas dos livros anteriores em diversas e belas vinhetas de indivíduos que crêem em Deus e

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esperam nEle, que se opõem ao Senhor e são antagonizados por Ele, e de alguns que experimentam o julgamento e a restauração dEle. Os temas transportam às visões de Daniel de um futuro místico e maravilhoso à medida que a “música” dos profetas maiores esmaece.

Uma coisa é entender cada livro em si mesmo. Vê-los um ao lado do outro — como eles se complementam, contrabalançam e expandem uns aos outros — , traz um novo brilho a cada um deles e ao conjunto.

Neste volume, voltamos-nos especificamente para o Antigo Testamento. Para alguns cristãos, o Novo Testamento pode parecer como os populosos estados da costa leste norte-americana. Em geral, os livros do Novo Testamento são menores, mais estudados e mais familiares. Por outro lado, os livros do Antigo Testamento podem parecer como as terras desconhecidas e célebres do oeste estado-americano pareceu aos pioneiros do século XIX. Os grandes campos abertos da história patriarcal, as impenetráveis rochas da lei levítica e as densas florestas e penhascos profundos dos profetas afugentaram muitos pretensos viajantes. Todos conhe­ cem uma ou duas histórias trazidas pelas almas corajosas que se aventuraram no desconhecido, porém, muitos cristãos ficam satisfeitos em passar suas horas de quietude entre os cenários mais conhecidos e, aparentemente, mais aconchegantes dos Evangelhos e das epístolas. Os livros do Antigo Testamento são grandes e não os conhecemos muito bem. Eles exigem que saibamos toda sorte de histórias que já esquecemos ou nunca aprendemos. E o que dizer de todos aqueles nomes impronunciáveislToda a idéia de fazer uma jornada ao Antigo Testamento começa a soar difícil, morosa, inútil e, talvez, até perigosa.

Por motivos como esses, muitos de nós abandonamos o Antigo Testamento em favor do Novo. Deixemos que os estudiosos, os arqueólogos, os caçadores de profecias e os professores da Escola Dominical lidem com ele!

Contudo, desprezamos a revelação de Deus ao deixar de lado esses livros. Mais que isso, limitamos nossa capacidade de entender a revelação de Jesus Cristo do Novo Testamento. Se Cristo é a chave da história humana, o Antigo Testamento descreve em detalhes a fechadura.

Se Cristo é o ápice da história, o Antigo Testamento arruma o cenário e inicia o enredo. Você lê apenas os finais dos livros?

O Novo Testamento apresenta-nos o cumprimento das promessas de Deus, o Antigo Testamento conta-nos as promessas que Ele fez.

Em outras palavras, se você não entender o que o Antigo Testamento ensina nunca entenderá Cristo. Nosso Deus não desperdiça palavras. Um Testamento precisa do outro. Se primeiro entender a questão que o Antigo Testamento deixou sem resposta, você será mais capaz de compreender a cruz de Cristo. A cruz é a resposta. Você conhece bem a indagação?

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Nada substitui o Antigo Testamento na transmissão da grandiosidade da obra de Deus, da magnificência de seu plano e da tenacidade de seu amor. Prive-se dessa parte da revelação do Senhor, e seu Deus parecerá menor, menos santo e menos amoroso do que realmente é.

Em vista dos temores que as pessoas têm em relação ao Antigo Testamento, nestes sermões de visão geral tento apresentar a obra maravilhosa de Deus no Antigo Testamento em um vôo a 10 mil metros de altura, não pelo caminhar passo a passo pelas planícies, pelas montanhas e pelos penhascos. Dessa forma, iniciamos com uma visão da amplidão e da extensão do continente inteiro. M inha esperança é inspirá-lo para que retorne e explore as muitas trilhas do Antigo Testamento mais detalhadamente.

Como mencionei na introdução do volume parceiro deste, The Message o f the New Testament: Promises Kept (A Mensagem do Novo Testamento: Promessas Cumpridas), incluímos no início de cada capítulo a data em que o sermão original foi feito, em parte como referência ocasional para os fatos que ocorreram na época. E mais, em reconhecimento à contínua importância da Palavra de Deus, estamos felizes em imprimir estes sermões.

Oro para que estes sermões exaltem a Deus na vida do leitor à medida que aprendem mais a respeito das formas como Ele escolheu revelar-se em sua Palavra. Se isso acontecer, estarei mais que bem pago pelo relativamente pequeno preço do esforço de prepará-los.

— Marke Dever

Capitol H ill Baptist Church Washington, D. C.

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PANORAMA GERAL

PROMESSAS FEITAS: A MENSAGEM DO ANTIGO TESTAMENTO

Uma H istória E specifica U ma Paixão pela Santidade Uma P rom essa de Esperança

PROMESSAS CUMPRIDAS: A MENSAGEM DO NOVO TESTAM ENTO

O R edentor P rom etido: C risto

O R elacionam ento P rom etido: O P ovo da N ova A liança A R enovação P rom etida: A N ova C riação

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O que Deus Quer de nós?

P anoram a G e r a l1

A Bíblia é objeto de numerosas e variadas opiniões.

Muitas pessoas não gostam dela. Voltaire, o grande filósofo francês, previu que a Bíblia desvaneceria em cem anos. Ele disse isso há mais de duzentos anos — no século XVIII. Talvez, em sua época, esse tipo de ceticismo fosse raro, porém, tornou-se mais comum nos séculos seguintes. Um historiador escreveu: “Por volta do século XIX, os ocidentais já tinham mais certeza da existência do átomo do que qualquer das coisas de que a Bíblia fala a respeito”.2 Por volta do século XX, grandes seções das partes do mundo antes “cristãs” caíram em um ceticismo oficial em relação à Bíblia. O governo soviético publicou há cerca de cinqüenta anos a obra A Dictionary of Foreign Words (U m Dicionário de Palavras Estrangeiras) que define a Bíblia como “uma coletânea de lendas distintas e contraditórias, escritas em diferentes épocas e cheias de erros históricos que as igrejas publicam como livro santo’”.

Por outro lado, muitas pessoas tinham opiniões excelentes a respeito da Bíblia. Ambrósio, o bispo de M ilão do século IV, descreve belamente a Bíblia com estas palavras: “Como em um paraíso, Deus caminha pelas Sagradas Escrituras à pro­ cura do homem”. Uma vez, Emanuel Kant afirmou: “Já senti mais conforto com uma simples linha da Bíblia do que com todos os outros livros que já li”. Daniel Webster falou o seguinte a respeito: “Tenho pena do homem que não encontra na Bíblia um rico suprimento de pensamentos e de regras de conduta”. Abraham Lincoln chamou-a de “o melhor presente que Deus deu para o homem”. Ele

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também afirmou: “Pois sem ela não conheceríamos o certo e o errado”.Theodore Roosevelt declarou: “O conhecimento integral da Bíblia vale mais que a instrução universitária”. Sem dúvida, uma das compreensões mais profundas da Bíblia vem de A. T. Robertson, grande estudioso de grego, que atestou: “Dê a um homem uma Bíblia aberta, uma mente aberta, uma consciência ordenada, e ele certamente se tornará um grande cristão”.3

Algumas pessoas acreditam que têm muita fé na Bíblia, contudo a sinceridade delas não é garantia de que a compreendam. O rei Menelique II, imperador da Etiópia cem anos atrás, tinha muita fé na Bíblia. Ele arrancava e comia algumas páginas do livro santo sempre que ficava doente. Essa era uma prática constante dele e parece que nunca lhe fez mal. Em dezembro de 19 13, ele se recobrava de um acidente quando começou a sentir-se particularmente doente. Pediu a um assistente que arrancasse as páginas de I e 2 Reis e o alimentasse com elas, página a página. Ele morreu antes de acabar de comer os dois livros.

Com certeza, a Bíblia é popular, quer você goste dela, quer não. Ela é uma campeã de vendas de todos os tempos. As pesquisas mostram que, em geral, os norte-americanos crêem na Bíblia.

Embora, provavelmente, o livro seja mais vendido que lido. Talvez a maioria dos norte-americanos não tenha o fervor gastronômico do rei Menelique, o que é muito bom, mas talvez também não conheçam a Bíblia melhor que ele. George Gallup, perito em pesquisa de opinião pública, relata: “Os norte-americanos respeitam a Bíblia, mas não a lêem. E tornaram-se uma nação de analfabetos bíblicos, porque não a lêem. Quatro em cada cinco americanos acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus literal ou inspirada, no entanto, apenas quatro em cada dez sabem que Jesus fez o Sermão do Monte, e um número menor ainda conhece o nome dos quatro Evangelhos... Parece provável que o ciclo de analfabetismo bíblico continue — os adolescentes de hoje sabem ainda menos sobre a Bíblia que os adultos. A celebração da Páscoa... é crucial para a fé, contudo três em cada dez adolescentes — 20% dos adolescentes freqüentadores regulares de igreja — não sabem nem por que se celebra a Páscoa. O declínio na leitura bíblica deve-se em parte à convicção muito difundida de que ela é inacessível e, em parte, à menor ênfase que as igrejas dão ao ensino da Palavra”.4

Com este estudo, queremos ajudar a acabar exatamente com esse tipo de ignorância. Talvez você e eu não aprenderemos tudo sobre o cristianismo em um estudo rápido. Na verdade, tenho certeza de que isso não é possível. Mas espero chamar sua atenção para o tema central da Bíblia, como também para a mensagem básica do cristianismo ou, como é chamado, do “evangelho”.

Muitas pessoas se surpreendem ao saber que a Bíblia trata de todo tipo de tema. Ela é muito conhecida como uma coletânea de livros. Como um estudioso bíblico diz:

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Fitam-nos de frente não menos que sessenta e seis livros separados, compostos cada um deles de cento e cinqüenta composições separadas. Esses tratados saíram das mãos de, pelo menos, trinta escritores diferentes, espalhados em um período de tempo de cerca de quinhentos anos e adotam estilos de quase todos os tipos de escritos conhecidos entre os homens. Histórias, códigos de lei, máximas éticas, tratados filosóficos, discursos, dramas, cânticos, hinos, épicos, biografias, cartas oficiais e pessoais, vaticínios. [...]

Os escritores também são de tipos diversificados. O tempo do trabalho deles estende-se do passado antigo do Egito até o brilho esplendoroso de Roma sob o comando dos césares. [...]

Contudo, podemos percebê-la com admiração ainda maior. Uma vez que pene­ tremos sob toda essa diversidade inicial e observemos o caráter interior de cada livro, perceberemos a mais incrível unidade que permeia o todo. [...] As partes estão tão ligadas que a ausência de um único livro traria confusão e desordem. Do início ao fim, ela ensina a mesma doutrina. [...] Na verdade, cada livro acrescenta alguma clareza, definição ou até incrementa o que os outros proclamam.3

Claramente, a Bíblia é composta de muitas partes. Contudo, esse livro é um único todo: “há diversidade total na origem desses livros e, todavia, uma precisão máxima na combinação de cada um com o todo”.6

Você já ouviu falar a respeito da grande série de livros de fotografias vista de cima? Washington vista de cima, Rio de Janeiro vista de cima, e Europa vista de cima e muitos outros. Eu gosto da série, porque nos dá um panorama geral. As plantas originais dos planejadores das cidades, escondidas quando caminhamos pelas ruas com seus prédios altos, tornam-se repentinamente visíveis à medida que as foto­ grafias nos eleva e permite que vejamos o todo do alto. As fotos aéreas fornecem perspectiva e correlação e conseguimos ver o que o planejador visionou em sua mente e em seu projeto. A percepção do todo é importante para a compreensão e para o planejamento. Algumas pessoas declaram que só quando foram publicadas as primeiras fotos da terra toda em 1970, tiradas do espaço, foi que começaram os movimentos ecológicos. Será que isso não estava na capa do antigo W hole Earth Catalog (Catálogo da Terra Inteira)? Eu acho que ver uma fotografia da terra define nossa compreensão do mundo como um todo e estimula certos tipos de indivíduos para a ação. Da mesma forma, queremos que estes sermões alcem vôo e forneçam uma visão clara, do tipo a “Bíblia vista de cima” ou a “Bíblia inteira”.

Ou podemos considerar o conceito de fotografia de lapso de tempo. Nesse tipo de fotografia, o fotógrafo posiciona a câmera para tirar uma série de fotos do mesmo local ao longo do dia. Isso lhe permite ver as mudanças que ocorrem em um local durante um longo período de tempo em apenas alguns momentos de

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leitura rápida das fotografias. Ler a Bíblia do princípio ao fim fornece o mesmo resultado. Claro que a Bíblia é muito mais curta que o período que ela registra. Sei que você precisaria de muito tempo para lê-la, mas levaria menos tempo que os séculos necessários para escrevê-la, como também levou menos tempo para ser escrita que os eventos levaram para acontecer. Portanto, o texto das Escrituras já é como uma série de fotografias de lapso de tempo, e no curso deste estudo, tentaremos fazer uma leitura rápida ainda mais resumida da série de retratos que apresentam a mensagem do todo.

A linha narrativa que seguiremos, como também a do esboço deste estudo, é a história das promessas feitas e cumpridas. No Antigo Testamento, Deus fez promessas ao seu povo e cumpriu-as no Novo Testamento. A mensagem mais im­ portante do mundo, até mesmo para você, é essa das promessas feitas e cumpridas. Neste estudo, talvez você as “apreenda”. Ou talvez ele o pegue. Como Martinho Lutero disse: “A Bíblia é viva e fala comigo, ela tem pés e corre atrás de mim, tem mãos e agarra-me”. Oro para que isso aconteça com você.

Antes de continuarmos, deixe-me mencionar alguns bons recursos para ajudá- lo a ter uma compreensão adicional da Bíblia. Primeiro, o livro God Has Spoken (Deus falou),7 de J. I. Packer, o ajudará a entender por que, como cristãos, temos de estudar e entender a Bíblia. Segundo, Chris W right escreveu um ótimo livro, bastante breve, intitulado Users Guide to the Bible (Usuário de Guias Bíblicos)8 que o ajudará a conhecer o conteúdo da Bíblia. Ele tem ilustrações, cronologia, cores vívidas e é bem fino! Ê um recurso maravilhoso! Por fim, o pequeno Gospel and Kingdom (O Evangelho e o Reino), de Graeme Goldsworthy, que inclui a primeira das três obras de sua GodsworthTrilogy (Trilogia de Godsworth),9 é um dos melhores tratamentos da linha histórica de toda a Bíblia. Goldsworth sustenta que Deus, em todas as Escrituras, traz seu povo para o lugar que deve ocupar sob o seu governo.

Pr o m es s a s Fe it a s: A Men s ag em do An tig o Te s ta m e n to

Nem todas as pessoas que lêem a Bíblia vêem-na como um todo. Alguns ig­ noram o Antigo Testamento. Perto do fim do século II, os seguidores de Marcião rejeitaram o Antigo Testamento, embora ele fosse a Bíblia de Jesus e dos apóstolos. Marcião e seus seguidores também excluíram tudo do Novo Testamento, com exceção de Lucas e das dez epístolas de Paulo. Embora os cristãos tenham rápida e completamente rejeitado esse corte radical, o Antigo Testamento, com muita freqüência, tem um destino similar nos círculos evangelísticos de hoje. Ninguém diz o que Marcião disse, mas o efeito é o mesmo: ignora-se o Antigo Testamento. As vezes, escavam-no à procura de boas histórias de José, Davi ou Moisés. Talvez procuremos bons exemplos de bravura ou de devoção para que nossos filhos os

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sigam. Ou sejamos sentimentais em relação a uns poucos salmos e provérbios pre­ feridos. Mas, via de regra, ignoramos o Antigo Testamento. E apenas por preguiça que fazemos isso?

Se você é cristão, com certeza, sabe que o Novo Testamento registra a mara­ vilhosa revelação que Deus faz de si mesmo em Cristo. Todavia, se você ignora o Antigo Testamento, também deixa de lado a base e o fundamento do Novo. O Antigo Testamento fornece o contexto para a compreensão da pessoa e da obra de Cristo. A obra da criação, a rebelião do homem contra Deus, a morte como conseqüência do pecado, a eleição de um povo específico, a revelação que Ele faz do pecado por meio da lei, a história e as obras de seu povo em meio aos outros povos — poderia prosseguir indefinidamente — , todas essas coisas formam o cenário para vinda de Cristo. Ele entra em cena em um ponto específico da linha da história. Portanto, as parábolas de Jesus, muitas vezes, referem-se à história que se iniciou em Gênesis. As suas batalhas verbais com os fariseus enraízam-se nas diferenças em relação à interpretação da Lei. E as epístolas, com freqüência, fundamentam-se no Antigo Testamento. Para entender tanto o propósito de Deus na história como a linha histórica, temos que começar do início. Quando entendemos melhor o Antigo Testamento, damos um grande passo em direção a um melhor entendimento do Novo Testamento e, por conseguinte, também de Jesus Cristo, do cristianismo, de Deus e de nós mesmos. No Antigo Testamento, consideraremos primeiro a história específica. Em segundo lugar, estudaremos a paixão de Deus pela santidade. Em terceiro, observaremos as promessas de esperança do Antigo Testamento.

Uma H istória Especifica

Como não é de admirar, nosso texto se inicia na primeira página da Bíblia: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn L I ). E aí que se inicia a narra­ tiva dessa história específica. A Bíblia não é apenas um livro de sábios conselhos religiosos e de proposições teológicas, embora seja as duas coisas. Ela é um relato verdadeiro situado na história real. E uma saga histórica — um livro épico. E o relato do Antigo Testamento é incrível!

Nesse primeiro versículo, inicia-se o relato com o maior evento da história do mundo. Você não tem nada e, de repente, tem alguma coisa.

Mas, ao continuar a leitura, tem mais! Você tem a criação inanimada e, de repente, tem vida!

Você tem as criaturas e, depois, o homem feito à imagem de Deus. Você tem o jardim do Èden e, a seguir, a queda.

E tudo isso acontece nos três primeiros capítulos da Bíblia. Algumas pessoas consideram o terceiro capítulo de Gênesis, em que Adão e Eva pecam no jardim.

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como o mais importante para a compreensão de toda a Bíblia. O restante fica sem sentido se abolirmos Gênesis 3.

Depois do pecado de Adão e Eva, Caim matou seu irmão, Abel. E a humanidade degenerou ainda mais por muitas gerações. Por fim, Deus julgou o mundo com o dilúvio e salvou apenas um homem justo — Noé — e sua família. As gerações que vieram depois de Noé não foram melhores. A humanidade se rebelou na torre de Babel; dessa vez, Deus dispersou todos pela face da terra. Deus promete um novo começo ao mostrar sua fidelidade a outra pessoa específica, Abraão, e sua família. Após um breve período de prosperidade, os descendentes de Abraão, agora chamados de Israel, tornam-se escravos no Egito. A seguir, acontece o êxodo quando Moisés leva o povo para fora do Egito. Deus dá a Lei a Israel. O povo entra na Terra Prometida. Durante um breve espaço de tempo, eles são governados por uma série de juizes. Estabelece-se um reinado, e os reis Davi e seu filho, Salomão, foram o pináculo desse período. Salomão construiu o Templo que guardava a arca da aliança e era o centro israelita de adoração a Jeová. Pouco depois da morte de Salomão, o reino dividiu-se entre Israel e Judá — o Reino do Norte e Reino do Sul. Depois, Judá se deteriora até ser destruída pela Babilônia. Os sobreviventes foram exilados na Babilônia, onde permaneceram por setenta anos. A seguir, um remanescente retorna a Jerusalém e reconstrói oTemplo, contudo Israel nunca reviveu a glória que conheceu sob o reinado de Davi e de Salomão. E essa é toda a história do Antigo Testamento.

Se você olhar o índice da Bíblia verá que essa história não foi recontada em apenas um livro, mas em 39 livros menores. Esses livros, que juntos compõem o Antigo Testamento, são bem diferentes um do outro. Chama-se de Pentateuco os cinco primeiros livros, de Gênesis a Deuteronômio, ou os cinco livros da Lei. Os doze livros que seguem esses cinco são chamados de históricos — de Josué a Ester. Esses dezessete livros juntos trazem a narrativa da criação até o retorno do exílio e terminam cerca de quatrocentos anos antes de Cristo. Todos os dezessete livros, um após o outro, são razoavelmente cronológicos.

Os cinco livros seguintes que vêm depois desses de narrativa histórica — Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares — enfatizam algumas experiências mais pessoais do povo de Deus. Esses livros são grandes coletâneas tiradas de todo esse período do Antigo Testamento de literatura de sabedoria, poemas devocionais e literatura cerimonial do templo.

Depois de Cantares, temos uma série de dezessete livros que se inicia com Isaías e termina com Malaquias, o último livro do Antigo Testamento. Esses são os profetas. Os primeiros dezessete livros seguem a história de Israel, o grupo de livros a seguir descreve as experiências pessoais que aconteceram nessa história, e o último grupo apresenta os comentários de Deus sobre a história. Os livros de profecia são, como o eram, os editoriais autorizados de Deus.

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Portanto, o Antigo Testamento, como um todo, fornece uma revelação clara e concreta de Deus para seu povo, feita a diversos autores e durante um grande perí­ odo de tempo. E que forma magnífica Deus escolheu para se revelar a nós. Se você já esteve na posição em que precisou contratar funcionários sabe o que representa receber um currículo de uma página que tenta resumir a vida de um indivíduo, e sabe como esse resumo deixa a desejar em seu objetivo de propiciar o conhecimento do mesmo, além do fato de você ter de tomar uma decisão importante com base nessa informação reduzida. È muito mais revelador encontrar e interagir com a pessoa. Bem, no Antigo Testamento, Deus nos fornece muito mais que apenas um currículo superficial. Ele nos dá um relato de como trabalhou com seu povo ao longo das eras. Vemos como Ele os tratou, e como eles responderam a Ele. Vemos como Ele é. E isso nos leva à segunda coisa que temos de perceber a respeito do Antigo Testamento se quisermos entender a mensagem da Bíblia.

Uma Paixão pela Santidade

O Antigo Testamento não só nos apresenta a história específica de Israel, mas também a paixão de Deus pela santidade.

Muitas pessoas associam o Antigo Testamento a um Deus raivoso. Elas até acham que esse Deus do Antigo Testamento é injusto. Mas nada poderia estar mais longe da verdade! Tenha certeza de que quando Deus fica irado no Antigo Testamento não é por tirania caprichosa ou excêntrica. Ele está comprometido com seu caráter santo e glorioso e com a aliança que fez com seu povo. O pecado é o culpado, o que causa a ira do Senhor, tira-lhe a glória e quebra a sua aliança com seu povo.10

O que significa o termo “aliança”? Os cristãos se referem à aliança quando se reúnem na ceia do Senhor e lembram as palavras de Jesus: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue” (Lc 22.20 ARA). Talvez algumas pessoas pensem que a fala de Jesus sobre a nova aliança seja fria ou legal, mas não é; Ele usou o termo do Antigo Testamento para formar relacionamentos. Uma aliança é um compromisso relacional de confiança, de amor e de cuidado, e, no Antigo Testamento, Deus fez várias alianças com seu povo — com Abraão, com Moisés e com outros. A paixão do Senhor por santidade fica mais evidente quando seu povo quebra os termos da aliança relacional com Ele, termos esses definidos pela lei mosaica e em confor­ midade com o seu caráter santo. Dessa forma, podemos definir o pecado como uma quebra na aliança, mas também sabemos que essa quebra da Lei representa a quebra da aliança, do relacionamento e — em grau mais profundo — um desafio à santidade de Deus. O Antigo Testamento nos apresenta um Deus raivoso? Sim, mas é um Deus que está justamente irado porque não fica indiferente frente ao pecado e ao incrível sofrimento e dor que este causa.

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O Antigo Testamento, como o Novo, ensina que todos os homens são peca­ dores e não podem lidar com isso sozinhos.11 O pecado exige alguma forma de reparação. Contudo, como pode ser reparado? Deus é santo, e a justiça só poderia ser restaurada, assim parece, quando Ele condenar justamente a pessoa que, de forma pecaminosa, quebrou sua lei (os termos de sua aliança com Moisés). Portanto, o pecado deve ser condenado! Ou — e essa é nossa única esperança — , precisa-se fazer algum tipo de expiação.

O que é expiação? O termo “expiação” tem origem latina e quer dizer algo realizado em que as duas partes passam a ter “uma só mente”. Uma oferta de expiação capacita duas partes antagônicas a se tornar uma, ou seja, reconciliar-se. A nação de Israel não era a única no mundo antigo do Oriente Próximo que sabia que precisava de expiação diante de Deus, pois era comum a noção de conciliar- se com uma deidade; no entanto, apenas o Antigo Testamento apresenta a noção de expiação no contexto de um genuíno relacionamento pactuai entre Deus e o homem.

No Antigo Testamento, a expiação também é única, mas de outra forma. Ela está, como em muitas culturas, ligada ao sacrifício. Todavia, na Bíblia, o sacrifício da expiação não depende da iniciativa do homem, como acontece com algumas lamentáveis tentativas de apaziguar um deus vulcânico jogando um objeto de es­ timação no fogo. No Antigo Testamento, o Deus vivo fala e diz a seu povo como se aproximar dEle. Ele toma a iniciativa de providenciar a forma como será feita a reconciliação.

O sacrifício não é a única imagem que o Antigo Testamento usa para descrever a expiação,12 mas desde o início, ele teve um papel importante. Logo depois da queda, Caim e Abel oferecem sacrifícios (Gn 4.3,4). Ordena-se aos israelitas que antes de deixar o Egito matem um cordeiro pascal sem defeitos e pintem as portas de suas casas com o sangue (Êx 12). O sangue do cordeiro era o aviso para o Espírito de Deus ignorar a casa e poupar a vida do primogênito da família (que representa a família toda) da justa punição do Senhor por causa do pecado. Em tudo isso, fica muito claro que o Senhor era o objeto do evento sacrificial. Os sacrifícios eram feitos para satisfazer a Ele e às suas justas exigências. Por isso, Deus diz a Moisés: “Vendo eu sangue, passarei por cima de vós” (Ex 12.13).

O livro de Levítico desempenha um papel importante para levar ao conheci­ mento do povo israelita que o relacionamento deles com Deus seria restaurado por intermédio de sacrifício. Todo sacrifício tinha de ser voluntário, ter um custo, ser acompanhado da confissão do pecado e estar de acordo com a prescrição do Senhor. Dava-se a vida do animal sacrificado, simbolizado pelo sangue dele, em troca da vida do adorador culpado. O que um animal tinha a ver com o indivíduo culpado? Em certo sentido, absolutamente nada. N a verdade, supunha-se que o animal fosse

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puro.I3Todavia, a expiação tinha de ser por meio do sangue.14 “Porque a alma da carne está no sangue, pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação pela alma” (Lv 17. II). Deus usava o ato sacrificial para pôr na mente de seu povo a imagem de trocar uma vida inocente por uma culpada. O derramamento de sangue revela claramente que o pecado causa a morte. O pecado custa caro. A salvação e o perdão custam caro. Agora, sei que toda essa idéia de sacrifícios e de sangue é impopular — para dizer o mínimo — para muitas pessoas de hoje.Todavia, é a forma como o Antigo Testamento mostra a santidade de Deus e sua ira contra o pecado. Os sacrifícios bíblicos, ao contrário de outros sacrifícios antigos, não eram, via de regra, feitos pelas pessoas agradecidas, mas pelas culpadas; eles não eram feitos pelas pessoas ignorantes, mas pelas instruídas.

A planta do Templo do Antigo Testamento também era usada para mostrar às pessoas como o pecado as separava de Deus. No fim da Bíblia, você pode encontrar um diagrama do Templo que mostra que tinha uma série de quadrados e retângulos concêntricos. Os adoradores ficavam separados do Senhor, que ficava no quadrado mais recôndito chamado de Santo dos Santos. A planta física dos templos mostra que o pecado impede o acesso a Deus. Era um quadro visual de como o pecado separa o homem de seu Criador. Afora os sacrifícios que ocorriam no pátio exterior do Templo durante o ano inteiro, uma vez por ano, o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para oferecer sacrifício por todas as pessoas (Lv 16). Esse era o Dia da Expiação.

O simples fato de os sacrifícios terem de ser repetidos anualmente mostra que o sacrifício, em si mesmo ou por si mesmo, não era o ponto.15 Em vez disso, a repetição do ato mostra que as pessoas estavam em estado pecaminoso, e que por mais completo e perfeito que fosse o sacrifício não podia afastar totalmente o pecado. Ironicamente, os sacrifícios eram mais eficazes quando feitos com o co­ nhecimento de que não eram eficazes e que apenas a graça de Deus salva. Todavia, perceba o problema que há aqui. Se, no fim, o sacrifício não era eficaz para remover o pecado, como a graça de Deus podia salvar de forma justa?

Nesse ponto, chegamos ao enigma do Antigo Testamento. Em Exodo 34, Deus refere a si mesmo com as seguintes palavras: “Jeová, o Senhor, Deus m i­ sericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado; que ao culpado não tem por inocente” (3 4 .6 ,7 ). Agora, como pode ser isso? Como Deus pode “perdoa[r] a iniqüidade, e a transgressão, e o pecado” e ainda “ao culpado não te[r] por inocente”? Isso nos leva à última coisa que precisamos compreender em relação ao Antigo Testamento e ao Deus que Ele revela.

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Uma Promessa de Esperança

O Antigo Testamento não apresenta Deus como um indiferente distribuidor de condenações severas. Sim, Ele é santo, justo e firme em seu compromisso de punir o pecado, da mesma forma que o é no Novo Testamento. Mas o Senhor do Antigo Testamento é um Deus de amor, mesmo em relação a seus inimigos. Ele é o “Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e verdade” (Ex 34.6). O amor não é unicamente cristão, é bíblico.

Muitas passagens do Antigo Testamento ordenam o amor. Por exemplo, o mandamento que Jesus chamou de o primeiro e o maior dado a Israel foi: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” (D t 6.5\ Também vem do Antigo Testamento o segundo mandamento logo abaixo do primeiro:

“O estrangeiro que peregrina convosco como a vós mesmos; amá-lo-eis” (Lv 19.34). E Israel devia amar pelo mesmo padrão que o Senhor ama: “[Ele] que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e veste. Pelo que amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito” (Dt 10.18,19). Já que Deus ama os inimigos, seu povo também deve amá-los. Em Provérbios ordena: “Quando cair o teu inimigo, não te alegres, nem quando tropeçar se regozije o teu coração” (24.17). Em Provérbios 25 ensina: “Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; e, se tiver sede, dá-lhe água para beber” (v. 21). O Deus do Antigo Testamento é um Deus de amor.

Vemos o indizível e indulgente amor de Deus ao observar sua longanimidade em relação àqueles que se declaram seu inimigo pela desobediência em toda a ex­ tensão de tempo da história do Antigo Testamento. Ele não precisaria deixar que a história da humanidade continuasse depois da Queda no jardim do Eden. Ele não precisava preservar a desobediente nação de Israel. Contudo, Ele demonstra graça, amor, misericórdia e longanimidade em escala épica — ao longo de toda a história da humanidade. Quase parece que Ele planejou usar a história para revelar sua glória ao seu povo. N a verdade, foi o que Ele planejou.

Como já disse, é necessário entender essa promessa de esperança para compre­ ender o Antigo Testamento. Que esperança? Falamos bastante sobre o compromisso de Deus com a santidade e o fracasso de seu povo em viver de acordo com as condi­ ções da santidade. Também vimos a promessa de punição ao perverso (em Ex 34). Portanto, que esperança o pecador poderia ter? A esperança não está na história deles. A história do Antigo Testamento provou que eles (e nós) eram seres caídos moral e espiritualmente.Tampouco a esperança estava no sistema sacrificial. Como o salmista disse: “Sacrifício e oferta não quiseste”,16 pelo menos sem alguma coisa mais fundamental. “Perdoa[r] a iniqüidade” e ainda

“cio culpado

não te[r] por inocente”? Se a resposta não estiver nas pessoas do Antigo Testamento e na história

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delas está em Deus e na sua promessa, especificamente na

pessoa prometida

por Ele. Já vimos que para mitigar a sua justa ira é necessário o derramamento de sangue. A justiça exige que o pecado seja pago pelo próprio culpado OU por um substituto inocente que suporta o sofrimento e a morte em favor do culpado. Além disso, a punição de um substituto requer algum tipo de relação entre o culpado e o que é oferecido em sacrifício. Todavia, onde encontrar um substituto perfeito?

Fontes do século I sugerem que na época do nascimento de Jesus havia visível expectativa e promessa messiânica. As pessoas não se perguntavam se o Messias viria, elas tomavam isso por certo, pois a única esperança que tinham repousava no ungido especial do Senhor — o Messias. Por quê? O Antigo Testamento está cheio de promessas da vinda de uma pessoa. O povo de Deus esperava pelo profeta que Ele prometera a Moisés (Dt 18.15-19). Ele esperava um rei e, talvez, um servo sofredor (Is 9.6; 11.1-5; 53). Eles esperavam pela vinda do Filho do Homem sobre nuvens conforme a visão de Daniel (Dn 7.13).

Essas promessas apontam para a resposta do enigma do Antigo Testamento e são a esperança que ele contém. N a verdade, o Antigo Testamento nos ensina mais que qualquer outra coisa que essas promessas são nossa única esperança.

Pr o m es s a s Cu m p r id a s: A Men s a g em do No vo Te s ta m e n to

Pergunto-me sobre o que se fundamenta sua esperança. E crucial que respon­ damos a essa pergunta. Muitos de nossos problemas, se não a maioria deles, vêm de atarmos nossas esperanças a coisas que não foram feitas para suportá-las — coisas que afundam como pedra na água e nos levam para baixo com elas. No início, algumas coisas até agüentam grandes promessas, mas no fim, provam ser apenas fantasias passageiras ou coisa pior. Neste velho mundo, não é apenas na política que as promessas não são cumpridas.

Por isso, devemos virar-nos para Deus. Ele nos fez e nos conhece. Ele sabe onde devemos pôr nossas esperanças. No Antigo Testamento, Ele estabeleceu diante de nós a promessa sobre a qual devemos pôr nossa esperança. E no Novo Testamento, encontramos o cumprimento dessas promessas.

A nação de Israel aumentou e diminuiu por quase dois mil anos até que a espe­ rança dela quase desvanecesse. Até mesmo após a libertação do exílio na Babilônia passaram-se apenas algumas centenas de anos para que outro invasor estrangeiro a esmagasse — o poderoso Império Romano. O sentimento de desapontamento beirava o desespero. E todas as antigas esperanças que tinham? O seu Libertador nunca chegaria? O seu relacionamento com Deus nunca seria restaurado? O mundo nunca seria endireitado? Deus prometera todas essas coisas ao seu povo.

E Deus cumpriu suas promessas. O Novo Testamento relata a história do cumprimento de todas as promessas feitas no Antigo Testamento.

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A fim de entendermos o Novo Testamento, primeiro veremos a Cristo, depois o povo da aliança de Deus e, por fim, a renovação de toda a criação. Talvez o ajude pensar nesses três temas como três círculos concêntricos. Iniciamos com o centro e nos movemos para o exterior. Em tudo isso, descobrimos que Deus irrompeu na história do homem e tem trabalhado para que seus propósitos sejam alcançados.

O R edentor Prom etido: C risto

Primeiro, o Libertador de Israel realmente viria? O Novo Testamento responde a essa pergunta do Antigo Testamento com um ressonante sim! Na verdade, aquEle que cumpre essa promessa é o próprio cerne do Novo Testamento: Jesus Cristo.

O Novo Testamento ensina que Deus, antes da criação do mundo, planejara enviar Cristo. No jardim, Adão e Eva rebelaram-se contra as justas ordens do Senhor, e, durante milênios, o seu povo rebelou-se de forma constante. Contudo, o plano do Senhor permaneceu imutável em meio a tudo isso. Viria o Libertador ungido — o Messias (hebraico) ou o Cristo (grego). E Ele viria de um remanescente disperso de Israel que vivia em meio à ocupação romana.

A coletânea de 27 livros que compõem o Novo Testamento inicia-se com o tratamento direto dessa promessa com quatro relatos da vida do Messias. Os quatro registros, de Mateus, Marcos, Lucas e João, afirmam que Jesus de Nazaré é o Messias. Ele é o prometido por quem o povo de Deus estava esperando. Jesus foi fiel, onde Adão e Israel fracassaram. Ele enfrentou as tentações de Satanás, como seus predecessores. No entanto, sobreviveu a elas sem pecado. Ele é o profeta prometido por Moisés, o rei prognosticado por Davi e o divino Filho do Homem anunciado por Daniel. Na verdade, Jesus é a própria Palavra de Deus que se fez carne (Jo 1.1,14).

Depois dos quatro Evangelhos temos o relato de Atos que mostra como Jesus continua a ser ativo no mundo à medida que sua igreja se expande por todas as nações. O livro de Atos inicia-se com Jesus ascendendo ao céu e, a seguir, derra­ mando seu Espírito em Pentecostes. Nos capítulos seguintes, o Espírito estabelece a Igreja como a nova sociedade de Deus e capacita-a a crescer e a fazer o trabalho de Cristo. O livro acaba com Paulo preso em Roma.

No relato de Atos vemos, com freqüência, o cumprimento das promessas que Deus fez a seu povo (e.g. 15.13-18), e esse padrão é típico do Novo Testamento. Jesus é o novo Adão (I Co 15.45-47). Jesus é o Justo (I Pe 3.18; At 3.14; I Jo 2.1). Jesus é maior que Moisés (Jo I.I7; 5.45,46; Hb 3.1-6) e que Davi (M t 22.41-45; At 2.29-36). Jesus disse que Abraão regozijou-se em ver o seu dia

(Jo

8.56-58). De acordo com o Novo Testamento, Jesus cumpre as promessas feitas no Antigo Testamento.

N a verdade, Jesus Cristo é a essência da Bíblia, pois trata de sua totalidade. Você pode resumir a Bíblia em uma palavra ao apontar para Cristo. O Antigo Testamento fez promessas sobre Cristo, e o Novo Testamento cumpre-as em Cristo.

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Lemos a Bíblia porque amamos a Cristo, e porque queremos saber sobre o seu amor por nós. John Stott escreve: “O homem que ama a esposa, ama as cartas e as fotografias dela porque lhe falam sobre ela. Portanto, se amamos ao Senhor Jesus, amamos a Bíblia porque nos fala a respeito dEle. O marido não é estúpido a ponto de preferir as cartas da esposa à voz dela, ou as fotografias à presença dela. Ele apenas ama essas coisas por causa dela. Nós também amamos a Bíblia por causa de Cristo, pois ela é o seu retrato e a sua carta de amor”.17 Existem religiosos legalistas e insensíveis que brigam pela Bíblia, mas não amam ao Senhor conforme está des­ crito em suas páginas. A Bíblia apresenta-nos Cristo a fim de que possamos vê-lo como o centro de nossa esperança e de nossa satisfação. NEle encontramos todas as respostas que precisamos sobre Deus e seu chamado para nossa vida. Cristo é o Libertador prometido não apenas para o povo de Deus do Antigo Testamento, mas também para você e para mim.

O Relacionamento Prometido: O Povo da Nova Aliança

Isso leva-nos ao segundo círculo concêntrico de entendimento da mensagem do Novo Testamento: Cristo veio para um povo. A humanidade, embora tenha sido criada à imagem de Deus, perdeu a capacidade de refletir sua imagem com perfeição por causa do pecado. Cristo veio e, mais uma vez, revelou essa imagem. Mas não fez apenas isso! Ele veio para separar um povo para Deus, um povo especial da aliança especialmente chamado para refletir a imagem do Senhor para toda a criação. Já vimos que a linguagem bíblica pactuai não é fria e legal, mas, relacional. Também vimos que Jesus Cristo usa esse tipo de linguagem cristã quando nos oferece “o Novo Testamento no meu sangue” — palavras que lembramos quando compartilhamos a ceia do Senhor. A nova aliança, ou Novo Testamento, significa o novo relacionamento que os cristãos têm com Deus.

Como Cristo realiza isso? Jesus disse aos seus seguidores: “D erribai este templo, e em três dias o levantarei” (Jo 2 .1 9 ). No momento em que falou, Ele estava de pé no templo, mas não se referia ao prédio do templo, e sim a si mesmo. No Novo Testamento, Jesus é o novo templo. Ele é o novo local de congregação para Deus e seu povo. Ele é o M ediador. Cristo veio para cumprir a esperança por um Sacerdote, não apenas para cumprir a esperança do Antigo Testamento por um Messias como Profeta e Rei. Jesus, nosso Sacerdote M e­ diador, garante-nos um novo relacionamento com Deus ao resolver o enigma do Antigo Testamento: como o Senhor pode perdoar o perverso e não deixar o culpado sem punição? Cumpriu-se a punição de todos que se arrependeriam e confiariam em Jesus quando ele foi pregado na cruz. Ele sofreu a punição! Ele substituiu o culpado, e este pode ser perdoado. Após sua ressurreição, Jesus usou o Antigo Testamento para ensinar o seguinte:

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E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. [...] Então, abriu-lhes o entendimento para com­ preenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse e, ao terceiro dia, ressuscitasse dos mortos; e, em seu nome, se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém (Lc 24.27,45-47).

O sacrifício de Cristo forneceu a forma de seu povo ser perdoado, exatamente a promessa que o Senhor fez por intermédio do profeta Isaías:

Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido.Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele,

e, pelas suas pisaduras, fomos sarados.Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos (Is 53.4-6).

Foi isso que Cristo fez! Ele foi ferido. Ele foi moído. E levou sobre si nossas iniqüidades. O seu corpo forneceu o sacrifício sacerdotal que precisávamos para ficar entre Deus e nós, a fim de que pudéssemos ser o povo do Senhor. Como Jesus ensinou aos seus discípulos: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (M c 10.45; cf. G14.4,5; Fp 2).

Ao dar a si mesmo, Cristo combinou uma força e uma humildade incríveis. O capítulo 5 de Apocalipse apresenta um dos melhores retratos disso. Um dos anciãos diz para o apóstolo João que olhe para o Leão da tribo de Judá. Ele vira-se para ver o Leão, mas o que vê? Um Cordeiro. A mensagem não é de que há dois deuses, mas sim, de que o Leão é o Cordeiro. O Leão de Judá se transformou no Cordeiro morto pelos nossos pecados. Essa é a história do nosso grande Deus. Ele se tornou nosso Cordeiro sacrificial — nosso substituto. E Ele comprou-nos, a sua Igreja, com seu sangue ao agir como nosso substituto (At 20.28).

Portanto, Cristo é a resposta do enigma do Antigo Testamento. E as pessoas se tornam santas em Cristo. Agora, Deus tem, por intermédio de Cristo, o que desejava de seu povo no Antigo Testamento, o que planejou, e eles nunca realizaram: um rema­ nescente, uma nação, um povo para louvá-lo com os lábios e para viver em santidade. Ele tem um novo povo da aliança que é genuinamente santo em Cristo.

Ao longo das páginas do Novo Testamento encontramos essa ênfase, da maior importância, na salvação que vai do pecado à santidade. Paulo disse aos crentes

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efésios (E f 2.8,9), coríntios (I Co I.I 8 ) e romanos (R m 5.9) que estavam salvos. Os cristãos já são considerados santos em Cristo, até mesmo agora somos feitos santos e, um dia, graças a Deus, seremos santos em nós mesmos. Começou em nós a obra do Reino de Deus e aguardamos a sua conclusão.

O Novo Testamento retrata totalmente o contraste entre o mundo e o Rei­ no de Deus. A descrença marca o mundo, e a fé, o Reino do Senhor. O mundo caracteriza-se pela escravidão e pelas trevas, o povo da aliança do Senhor usufrui de liberdade e de luz. O mundo conhece apenas a morte, os que pertencem ao Reino têm a promessa de vida eterna. A raiva e o temor são típicos do primeiro, e o amor, do segundo. A vida separada de Cristo é marcada pela ilegalidade. Em Cristo, habitamos em Deus. As Escrituras concedem tantas coisas ao povo do Senhor, que eles vêem esses contrastes, descobrem como fazer para ser salvos e sabem o que acarretará o julgamento do Senhor. Assim, a confissão de fé de nossa igreja (tirada da Confissão de New Hampshire de 1833) inicia-se com as palavras:

Das Escrituras: Cremos que a Bíblia Sagrada foi escrita por homens divinamente inspirados, e é um perfeito tesouro de instrução celestial; que tem Deus como seu autor, salvação como seu fim, e verdade sem qualquer mistura de erro como seu conteúdo; que ela revela os princípios pelos quais Deus nos julgará; e por isso é, e continuará sendo até o fim do mundo, o verdadeiro centro da união cristã, e o supremo padrão pelo qual toda conduta, credos, e opiniões humanas devem ser julgados.

Após os Evangelhos, os demais Livros do Novo Testamento, enfatizam a identidade de Jesus Cristo e ajudam-nos a definir e a descobrir o que representa para nós ser o povo especial da aliança de Cristo. No índice do Novo Testamento encontramos os quatro Evangelhos. A seguir, temos o relato de Atos, que repre­ senta a transição entre os Evangelhos e os livros que tratam da forma como o povo de Deus deve viver. Em Atos, o evangelho expande-se para além dos limites de Jerusalém e alcança a Judéia, Samaria e o início das três jornadas missionárias de Paulo até os confins do mundo. Após o relato de Atos, temos uma série de cartas que descrevem o que significa viver como o povo especial da aliança de Deus.

Paulo escreveu as treze primeiras dessas cartas. Ele, originalmente um rabi do tipo mais rígido, foi convertido por Deus de forma espetacular quando viajara para perseguir alguns cristãos “até à morte” (At 22.4).

Depois das cartas de Paulo, ainda há mais oito escritas por Tiago, Pedro, João, Judas e uma de autor desconhecido (Hebreus). Ao ler essas cartas vemos que no povo de Deus da nova aliança cumpriram-se as promessas do Antigo Testamento. Veja, Deus desejava se revelar em uma comunidade onde as pessoas vivem umas

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para as outras e amam umas as outras de forma a manifestar o caráter de dEle para o mundo, e não apenas em Cristo. Se somos cristãos, isso acontece hoje mesmo em nossas igrejas!

Como cristãos, muitas vezes oramos: “Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu” (M t 6.10). Você já se perguntou o que isso representa? Algumas pessoas limitam a esperança das coisas que podem realizar em sua força pessoal. Contudo, o cristianismo nunca foi assim. Como cristãos, sempre pomos nossa esperança em algo que está além do que podemos realizar sozinhos. Em sua segunda carta, Pedro escreveu: “Aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pe 3.13). Esse reino vindouro, esses novos céus e nova terra, essa moradia da justiça, apontam para o cumprimento de nossa primeira e última esperança: o conserto do mundo inteiro. No Novo Testamento, esse é o terceiro movimento do plano de Deus à medida que se estende de Cristo para o seu povo da aliança e para o círculo mais exterior — toda a criação.

A Renovação Prometida: A Nova Criação

Qual é o propósito da história? De qualquer modo, por que a vida, o universo e você e eu existimos? Em última instância, toda a história e toda a criação existem para a glória de Deus. E o que diz a conclusão do Novo Testamento. Em Apocalipse, escrito pelo apóstolo João, toda a criação é alçada para a glória de Deus.

Sei que, às vezes, Apocalipse é objeto de documentários sensacionalistas com músicas funestas. No entanto, Apocalipse é um livro de esperança e de encorajamento maravilhoso para o povo de Deus. Ele apresenta a consumação da nossa salvação. Por fim, estamos no local em que o Senhor mora e sob o seu governo e em perfeita comu­ nhão com Ele. Os céus e a terra são recriados, e a igreja militante que enfrenta lutas se transforma na igreja triunfante que repousa (veja Ap 21.1-4; 21.22— 22.5).

Algumas pessoas lêem Apocalipse e comentam: “Isso é apenas platonismo grego idealista”; ou: “Isso é apenas outro gnosticismo que nega o mundo como se apenas o invisível tivesse importância”. Todavia, isso não é, de forma alguma, o que João nos apresenta. Em Apocalipse, a criação é concluída de novo, renovada e reapresentada em um novo céu e uma nova terra, tudo isso caminha em direção à grande finalidade da Bíblia e da história do mundo — a glória de Deus. Isso não é platonismo nem gnosticismo! Como cristãos não cremos apenas em uma alma eterna que ascende e vive nas nuvens com o Senhor, mas também acreditamos nesta doutrina, que era ofensiva para os gregos antigos: a ressurreição do corpo. Um dia, de uma forma que está além do nosso alcance, Deus reconstituirá nosso corpo caído e perecível. A ressurreição de Jesus era apenas as “primícias”. Foi o início da grande colheita que acontecerá (I Co 15.20). E a nova feitura, de nosso corpo é um retrato do que Ele fará com toda a criação.

Referências

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