UNIVERSIDADEDOSULDESANTACATARINA JOÃO PEDRO LOBO E LEITE
BORDERLINE E CINEMA:
O LIMITE ENTRE O ESTEREÓTIPO E A VEROSSIMILHANÇA
Palhoça - SC 2020
UNIVERSIDADEDOSULDESANTACATARINA JOÃO PEDRO LOBO E LEITE
BORDERLINE E CINEMA:
O LIMITE ENTRE O ESTEREÓTIPO E A VEROSSIMILHANÇA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Cinema e Audiovisual.
Profa. Dra. Solange Maria Leda Gallo
Palhoça - SC 2020
JOÃO PEDRO LOBO E LEITE
BORDERLINE E CINEMA:
O LIMITE ENTRE O ESTEREÓTIPO E A VEROSSIMILHANÇA
Este trabalho de conclusão de curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel/Licenciado em Cinema e Audiovisual e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Palhoça, dia 14 do mês de dezembro de 2020.
Dra. SOLANGE MARIA LEDA GALLO Orientadora Universidade do Sul de Santa Catarina
Dra. MARA SALLA Co-Orientadora
Universidade do Sul de Santa Catarina
Dra. RAMAYANA LIRA DE SOUSA Co-Orientadora
Dra. ANA CAROLINA CERNICCHIARO Co-Orientadora
Universidade do Sul de Santa Catarina Dra. NÁDIA R. MAFFI NECKEL
Avaliadora
Eu dedico este trabalho a todos aqueles que me permitiram entender um pouco mais do borderline, que demonstraram interesse em dispor do seu tempo e das suas histórias para enriquecer a abordagem que eu quis abraçar para tornar possível esta pesquisa e, consequentemente, a elaboração de um projeto audiovisual que a terá como base.
AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha orientadora e todos as professoras que tornaram a minha linha de raciocínio passível de compreensão. Agradeço a minha família por me apoiar de todas as maneiras em podem, sempre. Agradeço aos meus amigos que tiveram interesse em debater sobre a psiquiatria no cinema e agradeço àqueles que me deram a oportunidade de trabalhar em produções audiovisuais, que também contavam com abordagens interligadas a psiquiatria. Em especial, agradeço aos amigos borderline que me permitiram conhecer um pouco mais das suas vivências e convivências com o transtorno. Sem a experiência, as oportunidades e o apoio de todos que citei aqui, este trabalho não teria sido possível.
“Acho que algum dia alguém já se sentiu um pouco border. Aqueles dias de baixa autoestima e sentimento de insuficiência. Na primeira tristeza profunda da paixão não correspondida, ou no sentimento denso de um término de namoro. A diferença entre estar border é que uma hora isso vai passar. Ser border é conviver com esses sentimentos de imensa melancolia todos os dias. Parece que algo me falta, e essa falta é de mim. Não sei como e onde me encontrar. Talvez não seja mais difícil ser solitária quando me sinto assim desde a minha infância. A solidão é o melhor e o pior caminho que percorri, ao mesmo tempo que me sinto acolhida, ela me sufoca.” (Sam Nunes).
RESUMO
A pesquisa Borderline e Cinema: entre o estereótipo e a verossimilhança visa buscar a compreensão do efeito do discurso na projeção do comportamento social. Reconhecemos no cinema comercial, uma ferramenta didático-pedagógica que interfere na cultura e remaneja os seus sentidos. Refletimos, aqui, especialmente sobre os elementos cinematográficos do discurso fílmico que tendem a produzir um impacto negativo a respeito dos personagens borderline, assim como reconhecemos outras estruturas que causam aproximação do público, gerando empatia. Utilizando a Análise do Discurso como método mediador das interpretações feitas neste trabalho, entendemos as condições de produção do discurso fílmico aqui abordado, assim como sua interpretação, tanto por parte do autor, que utiliza a intertextualidade em função dos efeitos de sentido desejados, quanto por parte do espectador, que consome o discurso vigente na obra fílmica e tende a adotá-lo, reverberando-os na construção das estruturas sociais. Os estudos de caso aqui apresentados são produtos da indústria cinematográfica estadunidense, que impacta mundialmente proliferando sua cultura, ditando comportamentos desde o início do século XX. O trabalho partirá da compreensão do discurso cinematográfico, e os interdiscursos que o circundam, para a construção do discurso fílmico, podendo assim absorver os sentidos propostos em cada objeto analisado.
RESUMEN
La investigación Bordeline y Cine: entre el estereotipo y la verosimilitud tiene como objetivo buscar la compresión del efecto del discurso en la proyección del comportamiento social. Reconocemos en el cine comercial, una herramienta didáctico-pedagógica que interviene en la cultura y reasignan sus sentidos. Reflexionamos, aquí, especialmente sobre los elementos cinematográficos del discurso fílmico que tienden a producir un impacto negativo en respecto de los personajes Bordeline, así como reconocemos otras estructuras que causan aproximación del público, generando empatía. Utilizando el Análisis del Discurso como método mediador de las interpretaciones hechas en este trabajo, entendemos las condiciones de producción del discurso fílmico aquí abordado, así como su interpretación, tanto por parte del autor, que utiliza la intertextualidad en función de los efectos de sentido deseados, tanto por parte del espectador, que consume el discurso vigente en la obra fílmica y tiende a adoptarlo, reverberándolos en la construcción de las estructuras sociales. Los estudios de caso aquí presentados son productos de la industria cinematográfica estadunidense, que impacta mundialmente proliferando su cultura, dictando comportamientos desde el inicio del siglo XX. El trabajo se partirá de la comprensión del discurso cinematográfico, y los interdiscursos que le circundan, para la construcción del discurso fílmico, pudiendo así absorber los sentidos propuestos en cada objeto analizado.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ...10
2 METODOLOGIA ...13
3 ESTRUTURA NARRATIVA – ATRAÇÃO FATAL ...19
4 ESTRUTURA NARRATIVA – GAROTA INTERROMPIDA ...35
5 CONCLUSÃO ...42
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho se iniciou em 2017, na estruturação de um enredo de longa-metragem que acabou por se tornar um projeto de curta-metragem para o trabalho de conclusão de curso. Enquanto estruturava o protagonista deste enredo, me deparei com inúmeras semelhanças e reproduções comportamentais deste com algumas pessoas borderline que tive e/ou tenho contato. Dito isto, sua estrutura como personagem se concretizou a partir desse argumento: um jovem-adulto borderline que sofre negligência parental, enfatizando ainda mais o transtorno da personalidade.
Para tanto, precisei enriquecer meu próprio entendimento sobre as maneiras de me apropriar de um discurso que apreende o transtorno da personalidade borderline. Nesse meio tempo, recebi a proposta de fazer uma monografia sobre o tema. Por isto, farei deste trabalho monográfico uma ferramenta de compreensão das maneiras de apresentar personagens que têm ou podem ter esse diagnóstico, com o propósito de tornar essa representação verossímil. Neste trabalho tenho como objetivo compreender o funcionamento do discurso fílmico ao produzir sentidos sobre um personagem borderline, principalmente em filmes de grande circulação.
O cinema, ao produzir imagens, marca posições e papéis sociais, exprimindo e impondo crenças em um quadro imaginário da coletividade. Neste sentido, a imagem é categoria fundamental para compreender a potencialidade do cinema, ao conferir sentido e significado de valor, as próprias imagens produzidas. (FILHO, 2013, p. 6)
É muito importante ressaltar que os diagnósticos são embasados em dissociações de comportamento com base em um padrão de comportamento que engloba cultura, criação, historicidade. No entanto, o trabalho visa reconhecer estruturas de representatividade e interpretações mediante ao que se apresenta narrativamente, longe de querer ditar ou se apropriar a fundo da psiquiatria, ou de discutir fronteiras entre saúde e patologia. Mesmo porque o foco aqui é a compreensão do gesto de interpretação trazido em obras cinematográficas, para as formas de
representar e manter ou quebrar métodos que venham a criar estereótipos na construção de personagens que apresentam transtornos da personalidade.
Dentro dessa perspectiva, quero analisar principalmente o roteiro, mas abordarei também algumas coisas da direção de atores e da preparação de elenco, como também da direção de arte, da trilha sonora, etc, para compreender as interpretações propostas nos filmes. Por isso, o caminho é buscar as técnicas que colocam em evidência esses perfis, em determinados filmes. Como se utilizam os recursos cinematográficos para colocar em evidência personagens com desvios de personalidade, sem uma necessária exclusão? No meu contato pessoal com pessoas borderline e antissociais, foram poucas as vezes que percebi esses desvios, pois eles se apresentam sutilmente na maioria dos casos, fugindo do padrão cinematográfico que tende a levar os personagens ao extremo da sua condição psiquiátrica. Aliás, dentro da própria caracterização de "loucura", existe uma enorme relatividade, pois só é considerado louco aquele que não segue o padrão comportamental do meio em que está inserido, ou seja, qualquer um pode ser considerado louco em determinados espaços e situações, simplesmente porque naquele contexto uma certa maneira de pensar e agir está errada, ou desviante.
Outro aspecto de extrema importância é o de que a maioria das pessoas atingidas por este transtorno são mulheres (75%), portanto não se deve deixar de lado a problemática da cultura patriarcal e machista, e como ela é um empecilho para o próprio diagnóstico e para a reprodução dos estereótipos destas mulheres, vistas também como histéricas. Para a compreensão desta forma de interpretação, trago uma breve explicação clínica a respeito do transtorno borderline.
A característica essencial do transtorno da personalidade borderline é um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e de afetos e de impulsividade acentuada que surge no começo da vida adulta e está presente em vários contextos. (DSM-V, 2013, p. 663)
Para entender a personalidade borderline podemos citar muito rapidamente, por não ser esse nosso campo nem interesse específico, o que Freud elaborou a respeito dela. Na perspectiva freudiana, a personalidade é moldada pelas adaptações do indivíduo ao mundo, aos seus impulsos pessoais e à moralidade construída socialmente. Estas colunas são denominadas ego (eu), id (impulsos internos) e superego (exigências morais). Visto isto, temos ideia de como as classificações
dos desviantes começam a se apresentar clinicamente, quando estas instâncias se encontram em desarmonia. Adolf Stern1 elaborou o conceito de borderline no final dos anos 30, que posteriormente
foi desenvolvido por Robert Knight2 e, somente em 1980, reconhecido e conceituado como distúrbio
da personalidade pelo DSM-III. Refletindo sobre a recente categorização do transtorno e sua relatividade, o cinema se torna uma ferramenta didático-pedagógica poderosa, tanto para aqueles que estudam a saúde mental, como para que se entenda e reconheça, de maneira mais geral, o transtorno borderline ou os demais transtornos mentais.
1 "A publicação, em 1938, do artigo de Adolph Stern, intitulado “Psychoanalytic investigation of and therapy in the border
line group of neuroses” constitui um marco decisivo na história da abordagem psicanalítica dos quadros ditos “limítrofes”. Esse texto pode ser considerado como a introdução, no campo da psicanálise, de um debate psicopatológico que já ocorria na psiquiatria desde a metade do século XIX, em torno de intrigantes situações clínicas caracterizadas pelo fato de os pacientes apresentarem um comportamento extremamente instável, impulsivo, com períodos de agitação e desespero durante os quais podiam chegar à auto-agressão e ao suicídio, sem, contudo, desenvolverem um quadro psicótico franco." (PERERIA, Mario Eduardo. A introdução do conceito de “estados-limítrofes” em psicanálise: o artigo de A. Stern sobre “the borderline group of neuroses”. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., II, 2, 153-158)
2 METODOLOGIA
Escolhi um filme como central para o gesto analítico, e um outro como contraponto. Ambos abordam questões sociais e clínicas e têm uma interpretação própria dessas questões materializadas nos elementos cinematográficos. Os filmes abordam o transtorno da personalidade borderline em instâncias distintas, gerando sentidos a respeito do TPB (Transtorno da Personalidade Borderline) com cargas destrutivas e agressivas, mas, também, um olhar empático. Antes desta leitura, farei uma breve introdução a respeito da metodologia que utilizo na análise, pensando justamente no discurso.
Quando tratamos de discurso, consequentemente, tratamos de signos, interpretação, língua, sentido, memória, historicidade, condição de produção, esquecimento, etc. O discurso é composto e estruturado de forma complexa e mutável, mesmo porque o sentido que eu pretendo construir pode ser interpretado de muitas formas, por diferentes pessoas, em inúmeros contextos políticos e ideológicos. Por isso, neste trabalho faremos uma análise dos discursos apresentados nas obras que escolhi para tal, possíveis interpretações dentro na minha condição de analista, fruto de uma cultura ocidental latino-americana em relação a obras fílmicas produzidas pela maior indústria cinematográfica que é a hollywoodiana/estadunidense.
Utilizamos a Análise do Discurso, buscando interpretar os sentidos atrelados ao discurso das obras escolhidas, que se relacionam (direta e indiretamente) com discursos elaborados pela psiquiatria.
A Análise de Discurso não estaciona na interpretação, trabalha seus limites, seus mecanismos, como parte dos processos de significação. Também não procura um sentido verdadeiro através de uma chave de interpretação. Não há esta chave, há método, há construção de um dispositivo teórico. Não há verdade atrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo deve ser capaz de compreender. (ORLANDI, 2003, p. 26).
Além da interpretação, buscamos entender as condições de produção e o interdiscurso. A condição de produção diz respeito aos fatores que contribuíram para a elaboração do discurso, o que
foi dito até então para que um "novo dizer" possa surgir. Estes fatores estão relacionados aos contextos histórico, social e ideológico e à própria memória (o interdiscurso) que os sustentam. Lembramos que a memória, que chamamos de interdiscurso, necessita de formulação, que chamamos de intradiscurso. A formulação é a maneira pela qual se acessa a memória e as ligações que estabelecem os sentidos.
A constituição determina a formulação, pois só podemos dizer (formular) se nos colocarmos na perspectiva do dizível (interdiscurso, memória). Todo dizer, na verdade, se encontra na confluência dos dois eixos: o da memória (constituição) e o da atualidade (formulação). E é desse jogo que tiram seus sentidos (ORLANDI, 2003, p. 33)
Uma autora que trabalhou com a teoria do discurso, Mara Salla, por ter tomado o audiovisual como objeto de análise, produziu dois conceitos que serão aqui mobilizados: discurso fílmico e discurso cinematográfico. "Estamos, portanto, tomando o cinematográfico como uma instância discursiva que pode se realizar de diferentes formas, por diferentes processos, enquanto o fílmico é o seu efeito de unidade, de fecho." (MARA SALLA, 2010, p. 16). Estes processos que cabem ao discurso cinematográfico, englobam cada elemento da composição de um produto fílmico, como o roteiro, a direção, a fotografia, o som, a cenografia, o figurino, a montagem, entre outros. Dentro das análises/leituras farei apontamentos dos elementos que contribuem para difusão dos conceitos unilaterais tão comuns em filmes comerciais hollywoodianos (que é o caso das obras escolhidas para este trabalho) em conjunção com a sua condição de produção, ou melhor dizendo, do lugar, do tempo, de quem produziu os sentidos apresentados nas obras.
A Análise do discurso foi uma proposta iniciada na França, na década de 60 do último século, por Michel Pêcheux e disseminado e aprofundado no Brasil, por Eni Orlandi, linguista, professora, pesquisadora da Unicamp e autora de inúmeras obras referentes à linguagem e ao discurso.
Segundo Orlandi,
...a primeira coisa a se observar é que a Análise do Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com homens falando, considerando a produção de sentidos, enquanto parte de suas vidas,
seja enquanto sujeitos seja como membros de uma determinada forma de sociedade. (ORLANDI, 2003, p. 16)
A metodologia da análise de discurso prevê a leitura/análise do gesto de leitura/interpretação do autor da obra que se analisa. Neste caso queremos ser capazes de compreender o gesto de interpretação que o autor produz sobre o transtorno borderline.
Na Análise do Discurso (AD) identificamos e analisamos, inicialmente, as condições de produção do discurso que tratamos.
Podemos considerar as condições de produção em sentido estrito e temos as circunstâncias da enunciação: é o contexto imediato. E se as consideramos em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico. (ORLANDI, 2003, p. 30)
A análise das condições de produção pode nos devolver a opacidade dos sentidos e as camadas de memória que significam, mas não estão materializadas em palavras. São sentidos que estão presentes nas entrelinhas, e constituem os não ditos. É o esquecimento dessa memória por parte do sujeito que enuncia, no caso o produtor do filme, que acaba por produzir um sentido transparente e óbvio, para aquilo que poderia, sempre, ter outra interpretação.
Atração fatal3 (1987) prega um ideal quase que de tradição católica, onde o problema é
eliminado pela família. Garota interrompida4 já apresenta um contexto e um desfecho menos
agressivo, levando o questionamento mais realista da loucura. São objetos de estudo ricos, pois suas abordagens e historicidades seguem caminhos discursivos bastantes diferentes, separados por pouco mais de uma década, marcada pela diferença do cenário psiquiátrico e da reprodução de estereótipos a respeito do transtorno de personalidade limítrofe. O Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-V5, prevê a necessidade de 5 ou mais critérios diagnósticos dentro dos 9
apresentados no livro, para diagnosticar uma pessoa com o TPB (Transtorno da Personalidade
3Atração Fatal. Direção de Adrian Lyne. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1987. 1 DVD (119 min.).
4Garota Interrompida. Direção de James Mangold. Estados Unidos e Alemanha: Columbia Pictures, 1999. 1 DVD (127
min.).
5AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5 - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Borderline). Durante as análises farei apontamentos dos comportamentos dos personagens para aproximar esse comportamento à narrativa fílmica.
O filme Atração fatal (1987) compõe o corpus deste trabalho, na medida em que reproduz estereótipos e me permite a pergunta: qual é a interpretação que o filme propõe para uma personagem vítima do seu próprio delírio? São muitos os fatores presentes nessa obra (Atração Fatal) e em tantas outras que criam um ambiente de exclusão para os personagens desviantes de um padrão comportamental.
Ao contarmos uma história, circunscrevemos os personagens no tempo e no espaço, abrimos a possibilidade para tratar os personagens em processo de transformação e, no enredo, colocamos os personagens em relação uns com os outros, criando um mundo social no qual os personagens entram em conflito e emergem com qualidades morais (MOUTINHO e CONTI, 2016, p.1)
Comecemos analisando o roteiro, que é produzido em determinado momento histórico, com determinados recursos e para determinadas pessoas. Segundo Riesmann6 (2005) uma das formas de
compreender a narrativa é considerar que na
análise de narrativa, toma-se essas histórias como expressão de uma realidade vivida pelo narrador em momento precedente à narração. A narrativa é igualada à própria vida. Essa forma de tratamento das narrativas se enquadra em uma perspectiva da linguagem tomada como representação, no caso de “uma” identidade contida no indivíduo, deslocada do tempo e do espaço, de um contexto sociocultural simbolicamente constituído. (MOUTINHO e CONTI, 2016, p. 46)
Tendo em vista os conceitos apresentados, analisaremos o enredo da obra, fazendo uma breve introdução sobre o período de realização do filme.
Garota, Interrompida (1999) é o filme que colocaremos em contraponto ao primeiro, para vermos com mais clareza aquilo que queremos enfatizar como procedimento recorrente na
6Riessman, C. K. (2005). Narrative Analysis. In N. Kelly, C. Horrocks, K. Milnes, B. Roberts, & D. Robinson (Eds.),
abordagem da temática, mas também para mostrarmos as diferenças possíveis. Trata-se de uma adaptação do livro de Susanna7, que relata sua passagem pelo hospital psiquiátrico, ou seja, é uma
adaptação autobiográfica. A narrativa se passa nos anos 60, um período onde era muito comum a exclusão de jovens que apresentavam comportamentos desviantes do que se acreditava como moralmente correto. Nessa narrativa, nota-se que a loucura é evidenciada pela instituição. O filme nos leva a compreender um pouco do sistema falho que os hospitais psiquiátricos têm, denunciando séculos de torturas permitidas por lei numa tentativa falha de fazer o paciente se arrepender, não se curar, medicando os pacientes sem nenhuma cautela ou embasamento para isto, apenas na tentativa de controle. (Como próprio Foucault relata no cap. 4 da História da loucura8). “No entanto, há um
fato irredutível: em certos estabelecimentos, os loucos só são recebidos na medida em que sejam teoricamente curáveis; em outros são recebidos apenas para a sociedade livrar-se deles.” (p.131). O orçamento do filme é de 40 milhões (US$) e a bilheteria de 48,3 milhões (US$), e foi gravado na Pensilvânia.
Comecemos por afirmar que a interpretação é “gesto”, ou seja, é um ato no nível simbólico (Pêcheux, 1969). Sem esquecer que a palavra gesto, na perspectiva discursiva, serve justamente para deslocar a ação de ato” da perspectiva pragmática; sem, no entanto, desconsiderá-la. O gesto da interpretação se dá porque o espaço simbólico é marcado pela incompletude, pela relação com o silêncio. A interpretação é o vestígio do possível. É o lugar próprio da ideologia e é “materializada” pela história (ORLANDI, 2007, p.18)
Ou seja, esse é um dos questionamentos do meu trabalho. Como se produzem as representações e interpretações das pessoas borderline no cinema, construídas historicamente com signos de descontrole, agressividade, de perigo e exclusão. Esse tipo de interpretação proposta pelos filmes, pode se materializar a partir de inúmeros elementos cinematográficos, mas a memória e o simbólico são importantíssimas ferramentas para essa desconstrução e reconstrução. Não devemos
7KAYSEN, Susanna. "Garota Interrompida". 2 ed. São Paulo: Única, 2013.
8FOUCAULT, Michel. Capítulo 4: experiências da loucura. In: A História da Loucura na Idade Clássica. 1997. São
deixar de lado que a interpretação está diretamente relacionada aos contextos político, histórico e ideológico.
O cinema conta com inúmeros recursos técnicos, imagéticos, sonoros e conceituais para produzir e disseminar sentidos sobre o transtorno da personalidade borderline. Uma das perguntas que faremos é como utilizar das ferramentas cinematográficas para aproximar o público dos personagens border, e não o distanciar: Como isso pode ser feito? Seria através de um trabalho com o casting? A elaboração dos roteiros e gênesis do personagem? Seria com a fotografia e/ou o som? Preparação de elenco? Tudo em um conjunto? Bom… é esse o caminho que seguirei buscando, através da análise das maneiras contemporâneas de ressignificar os personagens border no cinema e no audiovisual.
3 ESTRUTURA NARRATIVA - ATRAÇÃO FATAL
Abordando a estrutura de produção em um viés mais técnico, também poderemos dizer que o filme Atração Fatal (1987) foi gravado em Nova Iorque na década de 80, inovando a forma de abordar o tema da infidelidade conjugal, que se tornava cada vez mais aparente na sociedade civil dos Estados Unidos. Foi dirigido pelo britânico Adrian Lynne, roteirizado por James Dearden e baseado no curta-metragem Diversion9 de 1980 (também roteirizado por Dearden e dirigido por ele). O elenco foi composto por Michael Douglas, Glenn Close e Anne Archer. Levando em consideração as condições de produção, destacando nela a direção e o contexto social-histórico, temos um resultado fílmico que apresenta questões discursivas a serem observadas e analisadas com olhos da nossa contemporaneidade.
A década de 80 foi marcada pela instabilidade econômica nos Estados Unidos. Dentro deste contexto, o filme apresenta uma estrutura estável, onde o casal (Dan e Beth) habita em uma casa da classe média, têm uma filha, um cachorro, amigos, e aparentemente vivem bem felizes com sua condição.
Atração Fatal é um thriller psicológico que apresenta uma estrutura narrativa baseada em uma “família perfeita”, em que o patriarca (Dan) decide se envolver em uma relação extraconjugal com uma executiva (Alex). Alex e Dan se conhecem em um evento de negócios, se reencontram em uma reunião e acabam saindo para tomar um café juntos e terminam o encontro vivendo um final de semana de amor intenso, enquanto a família de Dan se ausenta da cidade. Após a aventura sexual extraconjugal, Dan tenta voltar para sua rotina, demonstrando arrependimento pelo ocorrido, mas Alex começa a mostrar seu lado perseguidor, cria uma ilusão de relacionamento, alimentada por ela mesma.
Por seu comportamento, Alex pode facilmente ser diagnosticada com o transtorno de personalidade limítrofe por apresentar "esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado; um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela
alternância entre extremos de idealização e desvalorização, raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la", além de outras características que embasam o diagnóstico, segundo o DSM-5 (P. 663). A personagem acaba ferindo direta e indiretamente todos do núcleo familiar de Dan e, consequentemente, ferindo a si mesma. A proposta do filme é bastante interessante, tanto que é uma das maiores bilheterias da década de oitenta. Apesar desta inovação para a época, é inegável a estrutura machista que o filme estabelece, levando o espectador a sentir pena de Dan, culpabilizando apenas Alex por desviar-se de um comportamento pragmático, aceito socialmente.
A narrativa se desenvolve levando o espectador a simpatizar-se pela família apresentada no início do filme, pela harmonia na relação do casal e da sua filha. Neste primeiro momento já temos clareza do papel de cada personagem dentro da estrutura de família característica do tempo em que o filme fora produzido: Beth exerce o papel da esposa e da mãe, aquela que administra tudo e todos dentro de casa, indicando o atraso para irem ao evento, dizendo onde está o terno do seu marido, e ainda cuidando da sua filha. A sua posição de mulher é reduzida apenas ao quesito vaidade, que além de todo o trabalho que tem em casa, se apresenta bem arrumada, sempre com simpatia e só expressa insatisfação ou irritação sozinha (como, por exemplo, no momento em que está se arrumando e fala "merda" perto de sua filha e ela reproduz o xingamento); Dan é apresentado sentado no sofá, com fones de ouvido, supostamente trabalhando, aqui já se nota a diferença do seu papel na família, o homem que trabalha fora de casa e por isto não enxerga a necessidade de ajudar a esposa nos trabalhos domésticos, a não ser quando percebe a sobrecarga dela e se dispõe a atender o telefone, ou dar suporte com Ellen (a filha do casal). Ainda assim, a sua participação é bem reduzida, mostrando que o seu trabalho como advogado é mais relevante que a sua família.
Após a apresentação da estrutura familiar, chegamos no momento em que a personagem Alex aparece, pela primeira vez, em um evento. Um amigo de Dan tenta contato com ela e a personagem retorna o cumprimento saindo do ambiente, deixando claro sua falta de interesse. Alex só ganha voz quando Dan se aproxima dela no bar, deixando claro sua simpatia pelo protagonista, que por sua vez
é chamado por Beth logo depois que se apresentam.
Enquanto entendemos a construção de cada personagem no enredo, podemos notar pequenos comportamentos que validam ou invalidam a personagem Alex e seu envolvimento com Dan, como por exemplo a reunião em que eles (Dan e Alex) se reencontram, que acontece em seguida das cenas
que mostram a insatisfação de Dan com sua vida sexual. Dan e Beth chegam do evento de negócios, o protagonista sai para passear com o cachorro e no retorno à suíte do casal, encontra sua filha deitada com sua esposa e esboça desapontamento, como se esperasse por um momento íntimo. Em seguida sua família embarca em uma viagem e ele fica para trabalhar e então chegamos à reunião citada acima.
O interesse de Dan por Alex se intensifica tendo base na justificativa que o filme constrói a partir da frustração sexual do personagem, da monotonia que sua vida tem se tornado, mostrando que a vida em família se tornou chata, então ele "busca diversão fora de casa". Temos que ter em mente que o primeiro passo para que o encontro aconteça é do protagonista (Dan), que convida Alex para tomar um drink na tentativa frustrada de pegar um táxi para casa no meio de uma chuva intensa. Durante o encontro, assim como em diversos momentos no filme, Alex questiona sobre o paradeiro de Beth e do porquê Dan prefere estar com uma estranha e não com sua esposa, recebendo respostas pouco convincentes e sempre desviantes. Após o jogo de sedução que fazem um com o outro, acabam tendo uma relação sexual intensa, cheia de desejo. Os dois demonstram que estão se divertindo muito, Alex leva Dan a viver a sua realidade, que se mostra agitada. Depois do sexo, Alex convida Dan para uma festa, sem intervalo de descanso. Depois da festa, ambos vão à casa de Alex, ela sugere outra relação sexual dentro do elevador, eles o fazem, explorando fantasias que o protagonista nem imaginava viver, exatamente o oposto da monotonia que ele experimenta na sua estrutura familiar, que supostamente não permite este comportamento. Neste ponto do roteiro, já se percebe claramente a existência de um comparativo entre as mulheres dessa narrativa, Alex representando a "libertinagem" e Beth carregando o papel de "mulher recatada".
Quando Dan volta para casa, tem um recado de Beth na caixa postal perguntando sobre seu paradeiro e pedindo para retornar a ligação, com um tom compreensivo, como de costume. Na manhã seguinte, ele retorna a ligação da sua esposa, dizendo que estava com um amigo próximo. Beth, mais uma vez, se mostra compreensiva e avisa que voltará no dia seguinte para evitar o trânsito. Beth reforça o seu papel de esposa e de mãe, suas falas sempre atribuídas aos cuidados com a alimentação do marido e os desejos de Ellen, que neste momento narrativo pede um coelho aos seus pais. Dan se mostra irritado com a notícia e, outra vez, as atitudes da sua esposa e da sua filha parecem justificar a vontade do advogado de se encontrar com Alex novamente.
Logo após a ligação com Beth, Dan recebe uma ligação de Alex. Nesse momento começa a ficar clara a idealização da personagem, atribuída ao TPB (Transtorno da Personalidade Borderline). Ainda de maneira sutil, Alex demonstra sua insatisfação com a saída repentina de Dan da sua casa, e pede para ele voltar. Ele tenta se esquivar do convite, mas Alex consegue solucionar todas as desculpas que Dan inventa pedindo para que ele volte e leve o cachorro da família, para que ele trabalhe em sua casa, prometendo não o atrapalhar. Alex começa a trazer para a relação os dois elementos da família do advogado: o cachorro e o trabalho. Por fim, Dan acata sua sugestão e os dois vão ao parque com o cachorro, se divertem brincando com ele. Esse é um momento importante, quando Dan finge ter passado mal na intenção de fazer uma brincadeira, Alex fica visivelmente abalada com o ocorrido e conta sobre a morte de seu pai, que morreu de infarto quando ela tinha 7 anos de idade. Ela percebe sua vulnerabilidade na situação, utiliza o relato como uma brincadeira e mente sobre ele estar vivo para manter a situação agradável. Posteriormente, Dan descobre que a história tinha de fato acontecido, mais um esforço para evitar um abandono real ou imaginário. Em seguida, o advogado e a executiva vão à casa dela, ela cozinha para ele, ouvem a ópera preferida dele, constrói todo o cenário perfeito para o cativar, e neste momento ela está na posição que idealizou, exercendo o papel de Beth na vida de Dan. O protagonista conta história do seu primeiro contato com a ópera Madame Butterfly10, relatando seu desespero quando o marinheiro abandona a sua amada e ela se mata. Instantaneamente, Alex desvia a atenção toda para Dan, em uma posição analítica, como se ela conseguisse absorver a informação para utilizá-la posteriormente contra o advogado, quando se sente realmente abandonada por ele pela primeira vez.
Quando o jantar é servido, ambos começam a conversar a respeito do casamento de Dan com Beth, Alex já começa a sentir-se abandonada e faz um interrogatório para adquirir estratégias de manipulação, a fim de mantê-lo próximo. Nessa conversa, ela descobre sobre sua filha, que se torna um recurso para atingir o núcleo familiar de Dan e Beth.
Como dito antes, aqui se repete o questionamento de Alex a Dan a respeito da sua felicidade dentro do casamento. Ele relata ser sortudo por ter sua família e ela retruca perguntando o porquê ele
10Madame Buttefly é uma ópera de Giacomo Puccini, dividida em três atos. Estreou no Teatro alla Scala de Milão a 17
está ali e, mais uma vez, ele desvia o assunto. Os dois fazem sexo, Dan se levanta para ir embora alegando ter seus compromissos e Alex demonstra quatro características do TPB, segundo o DSM-V, na sequência de cenas posteriores:
"2. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização." - Esses são demonstrados pelos seus elogios a Dan durante o jantar, a forma com que ela se porta até o momento em que ele precisa ir embora. Ela demonstra a insatisfação com a atitude de Dan ao ir embora logo após o sexo, se tornando uma pessoa violenta, levando diretamente ao critério 6.
"5. Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento auto-mutilante." - Quando percebe que todas os artifícios utilizados não são capazes de manter Dan em sua casa, ela utiliza da automutilação como última artimanha para atingi-lo, sabendo que ele sentiria remorso, pois o mesmo relatou a respeito da ópera Madame Butterfly, onde a asiática se suicida após o seu amado ir embora.
"6. Instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade de humor (p.ex.,disforia episódica, irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e apenas raramente de mais de alguns dias)." - Pelo mesmo motivo apresentado na cena descrita no primeiro critério. Depois do surto de irritabilidade, ela se torna doce novamente, quase que instantânea, antes de mostrar a Dan o corte que fez nos pulsos.
"8. Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la (p. ex., mostras frequentes de irritação, raiva constante, brigas físicas recorrentes)." - Na mesma cena, Alex tenta rasgar a roupa de Dan e o expulsa da cama com um chute, por ele não corresponder a sua expectativa. Seu plano de tê-lo como companheiro se torna distante, mesmo depois dos avisos do personagem sobre sua condição de casado com outra mulher.
Toda a cena dramática vivida pela personagem Alex é intensificada, também, pela trilha sonora, artifício que cito aqui na análise do roteiro, já que não analisarei esse recurso cinematográfico a fundo, nesta pesquisa.
Quando a personagem Alex finalmente consegue manter Dan, depois da sequência de acontecimentos narrativos de grande intensidade e euforia, ela se acalma. Dan liga para Beth, certificando-a de que está tudo bem e reforçando sua mentira. Alex demonstra sua insatisfação
silenciosamente, depois de todo o seu esforço de manter Dan por perto, ela acaba adormecendo. Dan continua ao lado de Alex até o amanhecer, ele se despede e ela aceita a situação, demonstrando-se compreensiva outra vez. Na conversa que os dois têm, antes de Dan ir embora, fica claro o carinho que um tem pelo outro e tudo termina bem entre eles. Por enquanto.
Chegando em sua casa, Dan monta o cenário perfeito para sustentar a omissão do seu fim de semana intenso fora dali. Ele bagunça a cama, dá a comida que Beth preparou para o cachorro e corre para o escritório a fim de terminar todo o trabalho atrasado que deixou acumular enquanto se envolvia com Alex. Depois do trabalho, quando volta para casa outra vez, é recebido calorosamente pela sua filha e esposa, demonstra que sentiu falta de Beth, a tratando muito bem, perceptivelmente carregando a culpa de ter mentido o tempo todo.
Tudo parece em perfeita harmonia, Dan até aceita visitar uma casa de campo que Beth almeja comprar. Ele se anima com a casa e aparenta estar disposto a recomeçar longe da cidade grande. Beth deixa Dan no escritório, ele se depara com Alex esperando na recepção. Ela se desculpa pelo ocorrido e Dan acata o pedido, mais uma vez a sua instabilidade emocional e a alternância de valorização e desvalorização do seu relacionamento com o advogado se mostra presente. Alex agradece a Dan pela ajuda, o colocando em um pedestal, como seu ele houvesse a salvo de um possível suicídio.
Na tentativa incansável de evitar o afastamento de Dan, ela oferece um ingresso para irem à ópera de Madame Butterfly, recebendo uma resposta negativa do protagonista. Ela se despede como se estivesse tudo acordado entre eles, mas logo sua postura muda quando se encontra sozinha em sua casa, completamente abalada, chorando no chão, enquanto ouve a ópera preferida do seu amado.
Dentro deste ponto da análise, resgato outro elemento cinematográfico que constrói o sentido desta cena: a montagem. Enquanto Alex está aos prantos em casa sozinha, Dan e Beth se divertem com seus amigos em um boliche, onde todos parecem felizes. Aqui o filme constrói este sentido: Alex, dentro de toda a representatividade que a sua personagem carrega, começa a ser invalidada, mostrando que a sua existência é triste e vazia, enquanto o casal, que representa toda a estrutura de uma família almejada por grande parte da sociedade da época em que fora produzido, segue feliz e estável, pois eles continuam tendo tudo aquilo que é "preciso" em suas vidas (o casamento, amigos, e todas essa estrutura apontada no início desta análise).
Em mais uma tentativa de contato com Dan, Alex liga para o escritório, quando ele decide tentar dar um fim à relação, pedindo a ela para não se falarem mais. A atração de Dan por Beth se intensifica no decorrer da narrativa, ele faz mais elogios a sua esposa, como se tudo que ele sentiu por Alex fosse canalizado para o seu casamento.
Arrisco-me a dizer que a intenção da roteirização se aproxima do discurso que prega a traição como um elemento necessário para o homem entender como agir dentro do seu casamento, ou seja, mais uma reprodução machista de hollywood no século XX.
Enquanto seu casamento se desenvolve com uma visão ainda mais harmônica, onde o problema atribuído à falta do envolvimento sexual de Dan com sua esposa aparenta ter acabado, o casal se encontra com amigos, têm momentos divertidos juntos, fazendo o público se envolver com aqueles acontecimentos narrativos descontraídos e divertidos. Logo o incômodo trazido pelas ligações recorrentes à sua residência, começam a surgir, percebe-se que a intensidade deste incômodo se intensifica justamente pela interferência nos momentos de lazer e harmonia, narrativamente isso acaba gerando mais revolta no público que já foi convidado a simpatizar-se pela família.
Quando tudo parece estar bem resolvido, uma atitude antagônica gerada por Alex quebra o equilíbrio, tornando as atitudes da personagem ainda mais carrascas, torturantes para Dan e para sua família. Aqui o espectador é conduzido a sentir pena dele, e culpabilizar ainda mais a personagem que, claramente, apresenta um desequilíbrio. O filme não traz um sentido de acolhimento ou até mesmo de reflexão a respeito das atitudes de Alex, muito pelo contrário, todos os elementos do discurso cinematográfico corroboram para a exclusão dela, o que veremos mais a fundo em relação à cenografia, principalmente.
Depois de muita insistência na tentativa de se comunicar com Dan, Alex consegue marcar um encontro com ele para conversar. O interessante neste momento narrativo é que ela se aproxima dele com uma abordagem desesperada, dizendo que o ama, que ele queria se safar ileso depois de ter se divertido, como se o que ela fizesse fosse a consequência de tudo o que viveram e, de fato, é. É perceptível, por mais que de forma agressiva, o reconhecimento de que a personagem Alex precisa investigar clinicamente suas atitudes, através da fala de Dan que diz clara e diretamente que ela precisa de um psicólogo. Alex percebe que sua abordagem não tem sucesso e diz que está grávida (algo não comprovado pela personagem, a não ser pelo telefone do ginecologista o qual ela
consultou), mais uma vez temos o primeiro critério do DSM-V para diagnóstico do TPB: “esforços desesperados para evitar abandono”. Dan, então, pede desculpas e em seguida oferece dinheiro para que ela realize um aborto, o que Alex nega imediatamente. É interessante perceber o comportamento de Alex nestes momentos, como se tudo estivesse calculado, ela se desenrola de forma confiante. Na verdade, a personagem é apresentada em uma "alternância entre extremos de idealização e desvalorização, sendo os relacionamentos marcados por freqüentes discussões, rompimentos, baseados em uma série de estratégias mal adaptadas que irritam e assustam outras pessoas." (CARNEIRO, 2004, p. 67).
Ao perceber a inconformidade de Dan, ela diz que terá a criança independente da sua participação. O que vem a seguir é justamente a comparação que o protagonista faz da sua relação com Alex e da sua relação com Beth. Ele observa sua filha e sua esposa interagindo e demonstra uma enorme satisfação, aqui percebemos a interpretação cênica como gerador de sentido. Neste momento é como se ele cogitasse a ideia de ter mais uma filha, ou um filho, com Alex.
Em seguida Dan invade o apartamento de Alex, a procura de respostas sobre sua gravidez, e acaba encontrando uma notícia a respeito do pai da personagem, que foi citado acima no momento em que estavam se divertindo no parque, descobre que a suposta brincadeira feita por ela não era nenhuma piada. Seu pai realmente morreu de infarto. Esse momento narrativo é importante no desenvolvimento da personagem, primeiramente a respeito do seu comportamento em relação a situação ocorrida, mas por ser um dos poucos indícios que permitem o público acessar a sua história.
O protagonista consulta seu amigo (também advogado), alegando que ligou para o ginecologista e o mesmo confirmou a gravidez, mas Dan duvida da veracidade do diagnóstico, supondo que ela induziu o médico a dar aquela resposta. Dan assume para seu amigo sobre a invasão domiciliar e desabafa sobre estar assustado e encurralado pela situação, mais uma vez trazendo o espectador para perto de si, como se somente os seus sentimentos fossem validados diante de toda a situação. Apesar de Alex ter uma pouca abertura para dizer o que sente, ela sempre o faz de maneira exacerbada, sendo vista como histérica e como mentirosa, o que invalida todo e qualquer discurso que venha a ser seu.
Um elemento cinematográfico que colabora bastante para invalidar a personagem é a montagem, como já dito neste trabalho. As cenas e acontecimentos narrativos são sobrepostos na
intenção de gerar um sentido de contradição e de exclusão de Alex, tornando-a um elemento desumanizado, sem capacidade de empatia, como se sua intenção fosse sempre tirar a paz de Dan e sua família. Sua "loucura" faz com que a sua capacidade de sentir remorso seja completamente anulada pela intercalação das suas atitudes obsessivas e o medo do protagonista de ser desmascarado.
Nas tentativas frustradas de discagem para a casa de Dan, Alex descobre que o número foi desconectado, e ela acaba ligando para a companhia telefônica a fim de conseguir o novo número do advogado. O seu pedido é negado pelo atendente e, então, ela o ofende, desligando o telefone bruscamente. Na cena seguinte, Dan está atravessando a rua distraído e quase é atropelado, atordoado pela situação, ainda assim chega no prédio em que mora e abre a porta para uma senhora. A direção e preparação de elenco são elementos que constroem um personagem benevolente para o protagonismo, quase anulando sua culpa em toda a situação. Dan se apresenta em todo o enredo como homem cordial, calmo, cavalheiro, sempre bem intencionado. Outra forma de intensificar o comportamento de Alex em relação aos outros personagens, criando um contraste profundo entre eles.
Algo que chama atenção é o programa de TV que Alex está assistindo, enquanto tenta ligar para casa de Dan. Ele aparenta ser um noticiário que está mostrando algumas atrocidades cometidas com a utilização de um teaser elétrico. Parece fazer menção aos hospitais psiquiátricos que utilizaram por muito tempo o choque elétrico como tratamento, o que na verdade não passava de uma tortura punitiva. A cena pode constituir, simbolicamente, uma sugestão para a personagem supostamente borderline.
Abrindo a porta de casa, Dan escuta sua esposa conversando com Alex a respeito da venda do apartamento. Até então, elas não haviam se apresentado. Beth os apresenta, Alex comenta ter conhecido seu marido no evento que ocorreu no início do filme. Ele elogia sua memória, mas ambos fingem estar se conhecendo naquele momento. A antagonista (Alex, pois a narrativa a constrói como tal) comenta sobre o casal se mudar para o campo, Beth confirma dando mais informações a respeito do endereço e Dan não disfarça sua preocupação com a situação. Beth ainda comenta sobre a gravidez de Alex para Dan. Ele desvia o assunto dizendo que tem trabalho a fazer. Alex aproveita para ir embora, mas antes Beth deixa o número de telefone com ela. Dan observa Alex inconformado e assustado. Nesta cena a atuação cria um ambiente de tensão impressionante, onde a mentira de Dan
e as atitudes obsessivas de Alex começam a tomar proporções realmente incontroláveis. O jogo cênico é demasiadamente delicado, todos os personagens demonstram seu incômodo através da linguagem corporal e diálogos invasivos (por parte de Alex) e evasivos (por parte de Dan).
Dan vai até o apartamento de Alex para conversar, ela o oferece um drink na tentativa de deixar a situação agradável, como se fosse mais um encontro casual. O advogado perde o controle pela primeira vez, gritando com a antagonista. Os dois discutem sobre a gravidez, ela ainda tenta se envolver sexualmente com ele, dizendo até que se ele não tem intenção de fazer sexo, que tenha coragem para agredi-la. Ele demonstra pena dela. É uma cena rápida que faz a personagem Alex ir aos extremos da sua personalidade em segundos, da sua idealização de fazer parte da vida do advogado, até sua extrema desvalorização. Ele vai embora e ela tenta o impedir ameaçando contar para sua esposa, enquanto ele ameaça matá-la caso o faça. Alex até liga para Beth na tentativa de contar tudo, mas desliga o telefone assim que Beth atende.
Um momento interessante dessa cena é quando o protagonista chama a antagonista de doente, ela o questiona se ser doente é não aceitar ser tratada como uma "vagabunda" a qual ele se envolve somente quando quer e some em seguida deixando-a, como se ela não tivesse sentimentos. Um questionamento que permite o espectador a dialogar com outra reflexão, outro ponto de vista.
Uma outra interpretação possível seria a de que a situação apresentada no filme, teria Dan como principal culpado por ser quem realmente mantém a relação cada vez mais corrosiva, e quem insiste em manter a sua mentira até o ponto em que ela se torna completamente insuportável. Mas essa interpretação não é reforçada e, portanto, se perde no decorrer do filme.
A culpa e o medo da exposição da traição ficam mais evidentes no protagonista, depois da ameaça feita por Alex. Ele e a família se mudam para a casa de campo. Sua primeira reação é não deixar Beth atender o telefone, temendo que seja Alex, mas não é. Quase que em um ritual de compensação, o advogado decide comprar o coelho que a sua filha, Ellen, havia pedido. Há uma constante alternância entre os momentos de harmonia, que sempre estão atribuídos a família, e os momentos de tensão, que derivam das atitudes de Alex.
O advogado sai do escritório e vai até o estacionamento para buscar o carro e levar o coelho para sua filha. Enquanto sobe de elevador até a sua vaga, Alex aparece entre os cabos e vigas observando seus movimentos, ela corre e se esconde, dando a impressão que tem algo planejado para
surpreender o advogado. De fato, ela tinha feito algo, sabotou o carro do advogado e ainda o seguiu até sua casa. Antes mesmo de sair do escritório, Dan recebe um pacote em seu nome, no caminho para casa ele abre e encontra uma fita com o nome de Alex. Enquanto é seguido por ela, o advogado decide ouvir a fita, que diz basicamente que ele não irá se safar ileso, ainda mais da mãe do seu filho. Alex pede para Dan assumir suas responsabilidades, e que isto não é pedir demais. Ela vai até a casa de Dan, e o assiste chegando na sala de estar e entregando o coelho para sua filha e cumprimentando sua esposa, Beth. Ao assistir a cena a personagem acaba passando mal e vomita, o que pode ser ligado à sua gravidez ou ao seu repúdio pela família de Dan. O filme faz parecer que toda a vida da Alex gira em torno da sua obsessão pelo protagonista, como se ela não tivesse profissão, hobbies, família, amigos, ou qualquer outra coisa para fazer.
Mais uma vez nos deparamos com a desumanização da personagem, como se a sua única função narrativa estivesse atrelada a este comportamento, fazendo o público interpretar que seu desvio comportamental, que ligamos ao TPB, não permitisse a personagem viver sua vida minimamente de forma "normal". Dan, ao contrário, apesar de estar envolvido com o drama decorrente do seu envolvimento com Alex, ainda trabalha, cuida da sua família, sai com seus amigos.
Pensando o filme comercial como um instrumento educacional, que atinge grandes massas e acaba por se tornar símbolo vívido e reverbera no comportamento social, é de grande importância que estes desenvolvam personagens de maneira verossímil, quando se trata de expor fragilidades humanas.
Outra vantagem desse recurso didático-pedagógico é o fato de as películas serem melhores do que a linguagem verbal ou escrita na transmissão de conteúdo. Isso ocorre porque há um acesso mais imediato ao psiquismo do receptor, que capta as informações não só pelo processamento cognitivo, mas também pelos canais sensoriais. Os estudantes passam a associar e internalizar as situações vivenciadas pelos personagens. Desse modo, são geradas reações emocionais e afetivas que facilitam o processo de aprendizagem e memorização (Pandey, 2012). Além disso, o filme se mostra um recurso de fácil acesso e prático. Por fim, vê-lo é uma atividade na maioria das vezes motivadora, pois associa lazer ao aprendizado, promovendo contato e estreitamento social (Mais et al., 2005). Logo, além de promover conhecimento técnico, o cinema leva a um enriquecimento humanístico (Schneider, 1987). (HONORATO, 2018, p. 13)
Justamente por se tratar de um objeto de contato com um personagem borderline, quando este se apresenta de forma agressiva e incontrolável, o público que desconhece o transtorno e que não tem oportunidade de conhecê-lo, acaba o significando desta forma, constituindo na sua percepção um sentimento de medo, de fobia.
Seguindo a narrativa cronologicamente, Dan vai até a polícia e conta a sua versão da história, desesperado para dar um fim à perseguição de Alex, alegando que o ocorrido não se passou com ele, mas sim com um amigo. Na expectativa de obter alguma solução em relação à Alex, o advogado só recebe um conselho de não a provocar e esperar até que ela possa ser pega em flagrante, só assim poderia abrir um processo contra ela de maneira efetiva.
Ao final do áudio gravado na fita que o protagonista recebe de Alex, ela diz que Dan tem medo de mulheres, que mulheres o assustam, e o filme intensifica essa afirmação em detalhes. Enquanto ele ouve, Beth coloca a mão em seu ombro e o advogado leva um tremendo susto. Toda a trama gira em torno do medo que ele constrói tanto da perseguição de Alex, quanto de Beth descobrindo alguma de suas omissões ou mentiras. Este sentimento fica mais evidente diante da sua atitude de procurar à polícia e da sua própria postura diante do delegado. Ainda assim, ele ocupa uma posição de "coitado", que precisa de cuidados e tem sempre suporte por perto. A cada cena em que o personagem procura por ajuda, ou que recebe algum cuidado de Beth, conselhos da polícia e de amigos, ele ocupa seu papel de vítima e atribui a culpabilidade a Alex.
A família faz uma visita à casa dos pais de Beth. Em uma cena rápida nos deparamos com mais um momento feliz, no qual o protagonista demonstra seu amor por sua filha e vice-versa, um cenário claro e bem iluminado. Em seguida, a cena que mostra a família chegando em casa. Ellen corre com o cachorro no quintal, até que Beth entra na casa. Em um plano sequência que apresenta a casa escura e ela acendendo cada luz até chegar perto da cozinha, o suspense é constituído. Beth encontra uma panela no fogo e anda lentamente até ela, Ellen corre em direção a gaiola do seu coelho, a montagem constrói o sentido da cena intercalando os acontecimentos paralelos. Ellen grita por seu pai, pois não encontrou o coelho, Beth grita da cozinha quando abre a tampa da panela e encontra o coelho lá dentro.
Nesta cena temos um marco, Ellen fica completamente abalada com a situação. Alex é definitivamente colocada na condição de alguém sem limites, capaz de monstruosidades. Beth questiona Dan sobre ter ligado para a polícia, ele acaba contando que sabe quem fez aquilo e o porquê. Então o advogado conta a sua esposa sobre a traição, e a gravidez consequente desta, acabando em uma discussão, a qual a filha do casal assiste. Beth manda seu marido sair de casa, mas antes disso, ele liga para Alex e diz que contou tudo para sua esposa. Alex não acredita sobre a revelação e Dan passa o telefone para Beth, que a ameaça de morte caso venha a chegar perto de sua família outra vez. Nas cenas seguintes estão Beth e Ellen sentadas ao piano, Ellen atende a uma ligação do seu pai, pergunta quando ele volta para casa e conversam um pouco. Insisto em dizer que o protagonista continua sendo validado por várias âncoras que o mantém próximo do público, principalmente por valores morais. Sua filha é a principal ferramenta em que o personagem se apoia para ser validado pelo espectador (mas, também, sua simpatia, seu medo, entre outros elementos citados neste trabalho). Apesar de todo o transtorno causado por ele, Ellen ainda o vê como um herói e pede para ele voltar, mesmo porque ela não entende o que se passou ali. Até mesmo a personagem Beth demonstra na sua encenação a aflição de separar o pai da filha. No final das contas quem continua sozinha e perde cada vez mais sua voz é a Alex. Preparando o espectador para o final do filme, na intenção de causar aquele alívio clássico de filmes comerciais norte-americanos, o suposto "final feliz", mesmo que este custe uma vida.
Beth vai buscar Ellen na escola e, quando chega lá, não a encontra. Ela procura sua filha pela instituição de ensino e, na medida em que seu desespero aumenta, a trilha sonora e o movimento da câmera criam a atmosfera de tensão. Beth procura pelas ruas e, mais uma vez, a montagem brinca com a dualidade entre a tensão e a calmaria. Alex está com Ellen em um parque de diversões, as cenas intercalam, evidenciando o desespero de Beth enquanto Alex tem um passeio calmo com Ellen.
O passeio calmo logo se torna turbulento. Alex e Ellen estão em uma montanha russa, algo muito interessante dentro da cenografia, pois ela também faz menção a própria personagem Alex e o seu transtorno, simbolizando a intensidade e instabilidade, a alternância entre extremos, a euforia e a depressão. Aqui percebemos que, durante o filme, a infelicidade de uma parte está ligada à felicidade da outra. É como se não houvesse uma forma de todos estarem bem ao mesmo tempo, quando Alex demonstra satisfação e alegria, alguém do núcleo familiar de Dan e Beth está em desespero e
vice-versa. É claro que, dentro da estrutura narrativa, para gerar o sentido esperado, o roteiro é construído na intenção de colocar Alex na posição de antagonista, a figura que vai contra todos os outros personagens que vivem suas vidas de maneira "normal", justamente para causar a dramaticidade. Além, é claro, de reforçar as categorizações entre o certo e o errado, o normal e o bizarro, o belo e o grotesco. Ou seja, o filme como um "bom produto hollywoodiano" tem sua estrutura completamente unilateral, desconsiderando um lado e supervalorizando o outro. Dividindo o mundo entre "mocinhos e mocinhas" e os "vilões e vilãs".
As posições-sujeito estão sempre atravessadas por tantas formações discursivas nas quais o sujeito se inscreve no seu movimento. Aí está a singularidade que nos é silenciada. A produção de filmes cujos efeitos de sentido pretendem negar essa falha, é aquela que idealiza o sujeito na forma de um estereótipo. Em uma posição dada espera-se que os sujeitos inscritos nela ajam de acordo com o que se idealiza para a posição. Na falha, o sujeito revela sua condição subjetiva, seu modo particular de assujeitamento e, contraditoriamente, sua universalidade. O sujeito que se constitui no discurso cinematográfico enquanto personagem em um filme comercial, geralmente é um personagem estereotipado. (SALLA, 2010, p. 15)
Dito isto, fica mais fácil de compreender o jogo que a montagem faz com a estrutura narrativa (que é o principal elemento deste trabalho: o roteiro), intercalando os momentos alegres da família com os momentos de surto de Alex, fazendo um comparativo incansável entre uma vida perfeita para aquela sociedade e uma vida frustrante dentro da mesma.
Beth se acidenta enquanto dirige à procura de Ellen. Apesar do sequestro, Alex deixa a menina em casa após o passeio no parque. Neste momento é possível atribuir a atitude de Alex não só à sua intenção de atingir Dan e Beth, mas, também, à sua idealização da maternidade.
Em poucos momentos, como este, existe a humanização da personagem. É claro que devido à circunstância, esta humanização acaba sendo anulada, pois está acompanhada de consequências como a hospitalização de Beth devido o acidente, o desespero dos pais da criança, e o próprio sequestro por si só.
Dan vai ao hospital e, ao entrar no quarto de Beth, diz que ficará tudo bem. Ambos esboçam um breve sorriso quase como uma reconciliação. Dan pega na mão de Beth, ela adormece e ele chora.
Mesmo depois de todo o ocorrido, a família ainda parece invencível. Pregando a união como uma força imbatível, a qual nenhuma crise teria a capacidade de abalar. Indiretamente, colocando Alex cada vez mais no papel de vilã, atribuindo somente a ela toda a culpabilidade do envolvimento de Dan com ela.
Dan sai do hospital e vai até a casa de Alex. Ele toca a campainha e quando ela abre, o advogado invade o apartamento e começa uma briga física com ela. Dan estrangula Alex, mas para antes de deixá-la inconsciente. Ela o ataca com uma faca, mas ele reage a tempo. Ambos se afastam um do outro. O silêncio cria o abismo que se forma entre eles, a câmera se distancia de Alex, assim como Dan se distancia da câmera, ele sai do apartamento, ninguém fala nada. Ao sair de lá, o advogado vai a delegacia ainda eufórico, conta a respeito do sequestro para o tenente que, em retorno, diz que fará um interrogatório.
Depois de toda a turbulência ocorrida no núcleo familiar de Dan, as coisas aparentam estar começando a ter estabilidade novamente. Dan consegue um parecer da polícia, na cena seguinte está colocando sua filha para dormir. Ela (Ellen) o questiona sobre ficar em casa dessa vez e ele responde que ficará. Como espectador este alívio é notável, pela própria estrutura narrativa com viés do "monomito11". Dentro desta perspectiva, encontramos "o retorno do herói", o momento em que volta
ao ponto de partida com todos os conhecimentos e aprendizados coletados na sua trajetória. Esta analogia do herói já fora abordada aqui, quando falamos da relação de Ellen com Dan, a conversa entre eles enfatiza essa figura atribuída ao advogado. O protagonista é visto como o salvador, quando volta para casa. Tudo parece estar bem novamente.
Enquanto Beth prepara seu banho, Dan está em uma ligação com a delegacia, que avisa não ter encontrado Alex. No momento em que isso ocorre, imagina-se que ela possa ter ido embora e deixado a família em paz. O protagonista cuida da sua esposa, dando a ela suporte, pois ainda se recupera do acidente. Ele sai do banheiro para preparar um chá e tranca as portas, que estavam todas abertas. A cena volta para Beth no banheiro, quando ela limpa o espelho embaçado para se enxergar, vê o reflexo de Alex atrás dela. Alex entra com uma faca, perguntando o que Beth está fazendo ali
11 monomito = imagem caracterizada por metas, valores e aspirações vocacionais inconstantes. Conceito elaborado por
(no banheiro da sua própria casa), alegando que Dan tentou se despedir na noite passada, que Beth queria levá-lo à casa de campo para brincar de família feliz. Ela faz o seu discurso enquanto se mutila. Beth permanece inerte e em silêncio. Essa passagem nos remete a mais um dos descritivos do manual de diagnóstico (DSM-V. 2013). Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou da percepção de si mesmo.
Quando termina seu discurso, Alex tenta esfaquear Beth, mas Beth consegue dar um golpe em Alex que a derruba no chão e joga a faca para longe. As duas caem, Dan escuta os gritos de Beth. Ele já chega tirando Alex de perto da sua esposa, que por sua vez está com o braço engessado. Eles brigam outra vez, Alex consegue esfaquear Dan, mas não é fatal, então ele a afoga na banheira até ela desmaiar. Alex acorda repentinamente e tenta apunhalar Dan pelas costas. Beth aparece na porta do banheiro e dá um tiro no peito de Alex, a matando.
Assim o filme finaliza, a "família perfeita" vencendo aquilo que a desestabilizou, selando com um abraço entre marido e esposa, a cumplicidade, após matarem o elemento que causava transtornos: a amante do marido, do pai, do "homem da família". Para deixar mais evidente a mensagem que beira o cristianismo, a última cena acaba com um Dolly Shot (ou zoom, como preferir) no retrato da família, em que todos sorriem.
4 ESTRUTURA NARRATIVA - GAROTA INTERROMPIDA
"Georgina:
Lisa? Is Daisy really getting out?
Lisa:
Yeah, she coughed up a big one.
Susanna:
But how could - I mean she's... *insane*.
Lisa:
Yeah, well that's what ther-rape-me's all about. That's why fuckin' Freud's picture's on every shrink's wall. He created a fuckin' industry. You lie down, you confess your secrets and you're saved. Ca-ching! The more you confess, the more they think about settin' you free.
Susanna:
But what if you don't have a secret?
Lisa:
Then you're a lifer, like me."
O filme Garota Interrompida não será analisado exaustivamente, mas somente em contraponto à Atração Fatal. Em ambos estão presentes personagens borderline.
Dito isto, vamos reconhecer que o filme é uma adaptação da autobiografia de Susanna Kaysen, que relata sua passagem por um hospital psiquiátrico no final da década de 60, uma época
em que o tratamento psiquiátrico ainda era marcado por métodos de segregação e tratamentos agressivos.
O filme apresenta uma carga de crítica, propondo a reflexão sobre o que de fato é loucura, contestando se o diagnóstico tem um poder de categorização/separação ou de serventia para um tratamento adequado. Este é o principal motivo que trago esta obra, lançada em 1999, contrapondo-a contrapondo-ao primeiro filme que contrapondo-ancontrapondo-aliso. Com contrapondo-a diferençcontrapondo-a de umcontrapondo-a déccontrapondo-adcontrapondo-a entre os lcontrapondo-ançcontrapondo-amentos, Gcontrapondo-arotcontrapondo-a Interrompida (1999) constrói um discurso inclusivo quando se trata da personagem, que supostamente apresenta o TPB, convidando o espectador a entrar nos pensamentos dela, na sua visão de mundo. Isso ocorre por alguns fatores os quais serão abordados no decorrer desta leitura/análise, um deles é que a personagem ocupa a posição de protagonista, ou seja, o enredo se constrói através do seu ponto de vista. Além de que, como já dito neste parágrafo, é um filme adaptado de uma autobiografia. Entendemos que por esses fatores, já evitamos estereótipos, pois o embasamento para a construção das personagens se deu a partir das lembranças de uma agente ativa na história contada. O que pretendo dizer com isto é que não se trata de uma apropriação rasa, ou de uma história sobre um sujeito borderline, somente, mas se trata de contar uma história na qual esse sujeito tem participação na elaboração das personagens, da visão do mundo que o filme propõe, enfim, de toda a estrutura narrativa.
O filme se inicia com uma cena em que Susanna, Lisa, Polly e Georgina estão abaladas emocionalmente e fisicamente. Elas estão em um local escuro, uma espécie de porão, no chão há uma seringa e cacos de vidro espalhados. Enquanto a câmera ambienta o espaço, Susanna narra uma reflexão sobre sua condição, preparando o espectador com perguntas que o conduzem a uma posição analítica, tendo em vista sua inserção em uma sociedade categorizante e, consequentemente, excludente.
Por isto, o enredo se constrói em uma condição bem equilibrada entre a exposição e a reflexão, categorias que caberiam mais em uma classificação de documentário, mas achei pertinente fazer esta ligação já que o trabalho tem como intuito questionar a própria categorização. Digo exposição pela sua condição de obra adaptada de uma autobiografia, utilizando recursos como a voz off, a utilização da montagem para construção de sentido do que se é dito conjuntamente ao que se é mostrado, preocupando-se com a visão da personagem baseada na autora da autobiografia. Por sua vez, digo