Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina

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Texto

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ZONA ELEITORAL - LAGES (CAPÃO ALTO)

Relator: Juiz Vanderlei Romer

Revisor: Juiz Carlos Vicente da Rosa Góes Recorrente: Ministério Público Eleitoral Recorrida: Suelen Cardoso

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO CRIME ELEITORAL -SUPOSTA TRANSFERÊNCIA DE DOMICÍLIO ELEITORAL MEDIANTE FRAUDE (CÓDIGO ELEITORAL, ART. 289) - CONCESSÃO DE SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO - OBRIGAÇÃO DE RESTABELECER A INSCRIÇÃO ORIGINÁRIA - EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE APÓS A COMPROVAÇÃO DE VÍNCULOS FAMILIARES, SOCIAIS E PATRIMONIAIS DA ELEITORA COM O NOVO MUNICÍPIO - ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE PROVA DE RESIDÊNCIA MÍNIMA DE TRÊS MESES NO NOVO MUNICÍPIO -REQUISITO DESNECESSÁRIO PARA A COMPROVAÇÃO DO DOMICÍLIO ELEITORAL - DESPROVIMENTO.

"O art. 55, III, do Código Eleitoral, exige que o eleitor tenha residência

mínima de 3 (três) meses no novo domicílio. A regra, no entanto, deve ser mitigada quando restar comprovado que o eleitor mantém forte vínculo com o município, representado por laços familiares e patrimoniais. Precedentes: TSE. Ac. n. 16.397, de 29.8.2000, rei. Min. Jacy Garcia Vieira, e Ac. n. 4.769, de 2.10.2004, rei. Min. Humberto Gomes de Barros" (TRESC. Acórdão n. 28.872, de 04.11.2013, Juiz

Rodrigo Brisighelli Salles).

A C O R D A M os Juízes' do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, à unanimidade, em conhecer/clo/recurso e a ele negar provimento, nos termos do voto do Relator, que fica faze/do/parte integrante da decisão.

Sala de Sessões do Tribunal Regional Eleitoral. Florianópolis, 15 de abril de 2015.

Juiz VANDERLEI ROMER I Relator

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RELATÓRIO

O Ministério Público Eleitoral ofereceu denúncia contra Suelen Cardoso, ao argumento de que teria praticado o delito previsto no art. 289 do Código Eleitoral, em virtude dos fatos nestes termos narrados (fls. 2-3):

"A denunciada Suelen Cardoso, por meio de requerimento de transferência de alistamento eleitoral do Município de Lages para Capão Alto, efetuado no dia 09 de maio de 2012, por volta das 15h41 no Cartório da 104a Zona Eleitoral de

Lages/SC e deferido judicialmente, inscreveu-se fraudulentamente eleitora do Município de Capão Alto, lugar onde não residia."

Recebida a denúncia (fl. 7), o Ministério Público formulou proposta de suspensão condicional do processo, a qual foi aceita pela denunciada e homologada em juízo, com a imposição da obrigação de reparar o dano, consistente na conduta de

"transferir o título eleitoral para o Município de Lages, onde reside, assim que reabrir o cadastro nacional de eleitores (novembro de 2012)", entre outras condições (fl. 27-28).

Certificado o término de cumprimento das condições do sursis processual (fl. 30), o Juiz da 104a Zona Eleitoral, mesmo diante do inadimplemento da obrigação

pela denunciada de restabelecer a inscrição no antigo domicílio eleitoral, julgou extinta a sua punibilidade, expondo os seguintes fundamentos (fls. 71-72):

"Em vista dos autos, o Ministério Público Eleitoral atentou-se para o fato de que a acusada não ter transferido sua inscrição eleitoral, conforme havia se comprometido anteriormente. Pugnou então pela intimação de Suelen para que no prazo de 30 dias demonstrasse a transferência do título eleitoral para o Município de Lages ou, alternativamente, a alteração de seu domicílio de fato para o Município de Capão Alto, mantendo-se o registro originário (fl. 31).

Devidamente intimada, a acusada juntou aos autos a documentação acostada em fls. 35-53, com o intuito de manter sua inscrição eleitoral no Município de Capão Alto.

[...]

A acusada, sem sombra de dúvida, logrou demonstrar que possui vínculos sociais e patrimoniais no Município de Capão Alto. Em que pese ter se comprometido a transferir sua inscrição para o Município de Lages, onde reside e trabalha, a opção de ser eleitora no Município de Capão não afronta a legislação, verificando-se o requerimento à luz de toda a documentação apresentada. Ressalte-se que tais documentos não foram apresentados no momento do requerimento de transferência, que ainda assim foi efetivado para evitar prejuízos à eleitora, enquanto os fatos eram apurados.

[...]

De acordo com o entendimento do Tribunal Superior Eleitoral e dos Tribunais Regionais, não é necessário residir para ter domicílio eleitoral. O domicílio eleitoral é mais amplo que o civil. A acusada demonstrou que possui vínculos sociais de longa data com o Município de Capão Alto e, além disso, demonstrou ter também o vínculo patrimonial, vez que sua mãe dispõe terras no referido Município. Assim, não há como negar a manutenção de sua inscrição em Capão Alto se esta é a vontade da eleitora."

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Irresignado, o Ministério Público interpôs recurso em sentido estrito, alegando, em síntese, que "há necessidade expressa para a transferência que o eleitor

resida no mínimo a três meses no novo domicílio, e a recorrida jamais residiu em Capão Alto, tendo residência habitual em Lages". Requereu a reforma da decisão para,

alternativamente, revogar o sursis processual, com o prosseguimento do feito, ou determinar à recorrida que comprove a mudança de seu título de eleitor para Lages (fls. 75-77).

O recurso foi respondido (fls. 85-88).

Nesta instância, a Procuradoria Regional Eleitoral manifestou-se pelo provimento do recurso, "determinándose a revogação da suspensão condicional do

processo, com prosseguimento regular do feito" (fls. 92-94).

V O T O

0 SENHOR VANDERLEI ROMER (Relator):

1. Senhor Presidente, o recurso é tempestivo e preenche as demais condições de admissibilidade, pelo que deve ser conhecido.

2. Como visto, a controvérsia consiste em apurar se a transferência do domicílio eleitoral da recorrida para o Município de Campo Alto é legítima diante da regra inserta no Código Eleitoral que disciplina a matéria, nestes termos:

"Art. 55. Em caso de mudança de domicílio, cabe ao eleitor requerer ao Juiz do novo domicílio sua transferência, juntando o título anterior.

Parágrafo 1o A transferência só será admitida satisfeitas as seguintes

exigências:

1 - entrada do requerimento no Cartório Eleitoral do novo domicílio até cem dias antes da data da eleição;

II - transcorrência de pelo menos um ano da inscrição primitiva;

III - residência mínima de três meses no novo domicílio, atestada pela autoridade policial ou provada por outros meios convincentes."

A jurisprudência tem flexibilizado o conceito de domicílio eleitoral, ao entendimento de que a comprovação de vínculos políticos, sociais, familiares ou afetivos do eleitor com o município seria suficiente para a sua configuração.

E, a respeito, não é válido o argumento de que semelhante elasticidade somente prosperaria para o requerimento da inscrição originária e não para a transferência do domicílio eleitoral, conforme revelam os seguintes julgados:

"RECURSO ESPECIAL. TRANSFERÊNCIA DE DOMICÍLIO ELEITORAL. VÍNCULO POLÍTICO. SUFICIÊNCIA. PROVIMENTO.

1. A jurisprudência desta Corte se fixou no sentido de que a demonstração do

vínculo político é suficiente, por si só, para atrair o domicílio eleitoral, cujo conceito é mais elástico que o domicílio no Direito Civil (AgR-AI n° 7286/PB,

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2. Recurso especial provido" (TSE. Recurso Especial n. 8551, de 8.4.2014, Min. Luciana Christina Guimarães Lóssio).

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DOMICÍLIO ELEITORAL. CONCEITO ELÁSTICO. TRANSFERÊNCIA. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS PREVISTOS NO ART. 55, § 1o, III, DO CÓDIGO

ELEITORAL. NÃO PROVIMENTO.

1. Na espécie, a declaração subscrita por delegado de polícia constitui requisito suficiente para comprovação da residência do agravado e autoriza a transferência de seu domicílio eleitoral, nos termos do art. 55, § 1o, III, do CE.

2. O TSE já decidiu que o conceito de domicílio no Direito Eleitoral é mais

elástico do que no Direito Civil e satisfaz-se com a demonstração de vínculo político, social ou afetivo. No caso, o agravado demonstrou vínculo

familiar com o Município de Barra de Santana/PB, pois seu filho reside naquele município.

3. O provimento do presente recurso especial não demanda o revolvimento de fatos e provas, mas apenas sua correta revaloração jurídica, visto que as premissas táticas encontram-se delineadas no acórdão regional. Precedentes. 4. Agravo regimental não provido (TSE. Agravo Regimental em Agravo de

Instrumento n. 7286, de 5.2.2013, Min. Fátima Nancy Andrighi).

- RECURSO CRIMINAL - ART. 290 DO CÓDIGO ELEITORAL - INDUZIMENTO À INSCRIÇÃO ELEITORAL - INEXISTÊNCIA ANTE A ATIPICIDADE DA CONDUTA DOS ELEITORES QUE POSSUÍAM VÍNCULOS SOCIAIS COM A COMUNIDADE.

"O deferimento de transferência da inscrição eleitoral requer a comprovação de que, há pelo menos 03 meses, o eleitor possui residência no município, assim entendida, como a morada habitual, ou, ainda, a comprovada existência de

antigos vínculos políticos, sociais, afetivos, econômicos ou comunitários com a localidade na qual deseja exercer seus direitos políticos (CE, art. 55,

par. 1o, III)" [Precedente: TRESC Ac n 28.528, de 28.03.2013, Rei. Juiz Luiz

Cézar Medeiros - negritei]. [...] (TRESC. Acórdão n. 30258, de 17.11.2014, Juíza Bárbara Lebarbenchon Moura Thomaselli).

RECURSO CRIMINAL. CRIME ELEITORAL. ART. 350 DO CÓDIGO ELEITORAL. SUPOSTAS DECLARAÇÕES DE RESIDÊNCIA FALSAS PARA FINS DE TRANSFERÊNCIA ELEITORAL. VÍNCULOS SOCIAL E AFETIVO COMPROVADOS. IRRELEVÂNCIA JURÍDICA DAS DECLARAÇÕES. ABSOLVIÇÃO.

No caso, ainda que as declarações de residência firmadas pelo recorrente sejam consideradas inverídicas, eis que os eleitores (codenunciados) não possuíam residência permanente em Tangará, tais declarações, para fins de transferência eleitoral, não tinham relevância jurídica porque, conforme comprovado pelas

provas orais, os eleitores em questão tinham vínculos com o mencionado município e, dessa forma, domicílio eleitoral na circunscrição.

O provimento do recurso é medida que se impõe, com a absolvição do recorrente e a extensão dos efeitos dessa absolvição aos codenunciados beneficiados com o sursis processual (TRESC. Acórdão n. 29.470, de 24.7.2014, Juiz Ivorí Luis da Silva Scheffer).

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- RECURSO - IMPUGNAÇÃO - TRANSFERÊNCIA DE DOMICÍLIO ELEITORAL - COMPROVAÇÃO DE VÍNCULOS FAMILIARES E PATRIMONIAIS ANTIGOS NO MUNICÍPIO FAMILIARES QUE TERIAM SIDO COLONOS NA REGIÃO -COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL DE PROPRIEDADE - ELEMENTOS SUFICIENTES PARA ATESTAR A EXISTÊNCIA DOS VÍNCULOS ANTIGOS QUE JUSTIFICAM O PEDIDO DE TRANSFERÊNCIA - MANUTENÇÃO DA DECISÃO - DESPROVIMENTO.

"O art. 55, III, do Código Eleitoral, exige que o eleitor tenha residência mínima de 3 (três) meses no novo domicílio. A regra, no entanto, deve ser mitigada quando restar comprovado que o eleitor mantém forte vínculo com o município, representado por laços familiares e patrimoniais.

Precedentes: TSE. Ac. n. 16.397, de 29.8.2000, rei. Min. Jacy Garcia Vieira, e Ac. n. 4.769, de 2.10.2004, rei. Min. Humberto Gomes de Barros" (TRESC. Acórdão n. 28.872, de 4.11.2013, Juiz Rodrigo Brisighelli Salles).

Na hipótese em apreço, o acervo probatório apresentado pela recorrida demonstra, de forma segura, a existência de estreitos laços familiares, patrimoniais e sociais com o Município de Capão Alto (fls. 35-53 e 60-70), pelo que seria lícito requerer a transferência do domicílio eleitoral.

Dentro desse contexto, a conduta da eleitora é manifestamente atípica em face da descrição do art. 289 do Código Eleitoral, consoante precedentes abaixo transcritos:

"Recurso em sentido estrito. Rejeição da denúncia. Transferência eleitoral fraudulenta. Art. 289 do Código Eleitoral.

Atipicidade da conduta imputada à recorrida. Demonstração de vínculos entre a eleitora e o município. Condição suficiente para autorizar a transferência do domicílio eleitoral. Entendimento consolidado do c. Tribunal Superior Eleitoral quanto aos requisitos previstos no art. 55 do Código Eleitoral para a transferência de domicílio eleitoral. Manutenção da sentença.

Recurso em sentido estrito a que se nega provimento" (TREMG, RC n. 38441, de 09.06.2014, Juíza MARIA EDNA FAGUNDES VELOSO).

"RECURSO CRIMINAL CONTRA SENTENÇA CONDENATÓRIA. PRÁTICA DO CRIME PREVISTO NO ART. 289 DO CÓDIGO ELEITORAL. ATIPICIDADE DA CONDUTA, VISTO QUE O ELEITOR POSSUÍA VÍNCULOS NA LOCALIDADE. REFORMADA A SENTENÇA PARA ABSOLVER O RÉU (CPP, ART. 386, INC. III). RECURSO PROVIDO" (TRESP, RC n. 161, de 06.09.2011, Juiz ALCEU PENTEADO NAVARRO).

Sendo assim, o entendimento inserto na decisão recorrida é juridicamente razoável, devendo ser mantido.

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RECURSO CRIMINAL N° 157-57.2012.6.24.0104 - RECURSO CRIMINAL - RECURSO EM SENTIDO ESTRITO - CRIME ELEITORAL - ALISTAMENTO ELEITORAL - INSCRIÇÃO FRAUDULENTA - EXTINÇÃO DE PUNIBILIDADE - ART. 289 DO CÓDIGO ELEITORAL

RELATOR: JUIZ VANDERLEI ROMER

REVISOR: JUIZ CARLOS VICENTE DA ROSA GÓES RECORRENTE(S): MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL RECORRIDO(S): SUELEN CARDOSO

ADVOGADO(S): GUILHERME AUGUSTO DA ROSA; JOÃO ALÉCIO DE SÁ JÚNIOR PRESIDENTE DA SESSÃO: JUIZ VANDERLEI ROMER

PROCURADOR REGIONAL ELEITORAL: ANDRÉ STEFANI BERTUOL

Decisão: à unanimidade, conhecer do recurso e a ele negar provimento, nos termos do voto do Relator. Foi assinado o Acórdão n. 30577. Presentes os Juízes Vanderlei Romer, Antonio do Rêgo Monteiro Rocha, Carlos Vicente da Rosa Góes, Hélio do Valle Pereira, Vilson Fontana, Bárbara Lebarbenchon Moura Thomaselli e Alcides Vettorazzi.

SESSÃO DE 15.04.2015.

R E M E S S A

Aos dias do mês de de 2015 faço a remessa destes autos para a Coordenadoria de Registro e Informações e Processuais - CRIP. Eu,

, Coordenador de Sessões, lavrei o presente termo.

R E C E B I M E N T O

Aos dias do mês de de 2015 foram-me entregues estes autos. Eu, , Coordenadora de Registro e Informações Processuais, lavrei o presente termo.

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Referências

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