Nas redes de São Braz, Fé, Tradição e Memória como Expovirtual
Vera Helem do Nascimento
RESUMO
Esse Trabalho de Conclusão de Curso utiliza o sistema de comunicação virtual, a internet, na difusão de uma cultura tradicional, tendo como enfoque a museografia e a exposição virtual como meio de comunicação produtora de significado e diálogos no contexto sócio-cultural da comunidade São Braz. O produto tecnológico que apresenta a história do referido lugar e a memória dos pescadores através de fotografias é resultado de uma intensa pesquisa de campo junto à comunidade, localizada no município de Nossa Senhora do Socorro/SE. Dessa forma, o trabalho apresenta dados de uma Ciência Social Aplicada em uma exposição virtual no blog www.saobraz2012expovirtual.blogspot.com, identificando e atuando na salvaguarda da cultura material e imaterial sergipana. O estudo proporciona o conhecimento dos costumes, hábitos e tradição da comunidade através de métodos de pesquisa como entrevista, fotografias, análise de fontes bibliográficas e documentais que subsidiaram a elaboração de uma museografia digital com a memória dos pescadores da comunidade São Braz.
Palavras-chave: Pescadores; memória; Povoado São Braz; exposição virtual.
ABSTRACT
The present work of final course aims through a strategic planning use the virtual communication system, internet, for the preservation of an museological environment, having as focus the museum exhibit design, expography and the virtual exhibition as an independent means of communication as producer of meaning and dialogues to the socio-cultural community of São Braz, where will be represented the history that place, Fishermen memory through of pictures. Therefore, this work search to do a virtual exhibition on the site http://www.saobraz2012expovirtual.blogspot.com.br/, with the objective to relate and identify the material and immaterial culture, and so the study will provide knowledge of customs, habits and traditions of a community through a data collection based in research methods as interviews, pictures, comments and bibliographical and documentary sources that supported a theoretical consistent memory of fishermen in the Community Sao Braz in Nossa Senhora do Socorro/ SE.
O estudo em questão trata da salvaguarda da memória dos pescadores do povoado São Braz1, em Nossa Senhora do Socorro/SE, enquanto objeto propício a uma musealização virtual alocada em agosto de 2012 no blog (www.saobraz2012expovirtual.blogspot.com). A temporalidade do estudo sobre os pescadores abrange o período de 1967 a 1987.
O trabalho buscou-se elaborar uma exposição virtual, valorizando a cultura material e imaterial, a partir de uma pesquisa de campo sobre os costumes tradicionais, as identidades sociais e as memórias dos pescadores do povoado São Braz em Nossa Senhora do Socorro/SE.
O estudo do povoado São Braz/SE entre 1967 a 1987, situado no lugar chamado de fazenda Cabralia, explica-se em função de ter sido o período em que o local passou por um processo de transformação, quando o primeiro morador e pescador Virgílio Matias dos Santos construiu a primeira casa em uns dos terrenos que pertencia a seu pai. Em 1967 as missas eram celebradas na sua casa no fim de semana, presidida pelo Frei Inocêncio Schleirmacher da Ordem Franciscana Menor (OFM), que junto com a comunidade em 1968, assim que a imagem doada chegou, inaugurou a Capela São Brás batizando o povoado. O local que antes era uma fazenda adquiriu o nome de povoado São Braz, porém mais tarde o terreno onde a Capela foi construída, segundo relato de sua filha, D. Maria de Lourdes Pereira Santos, foi doado a Arquidiocese de Aracaju.2
A escolha do assunto para a monografia (Nas Redes de São Braz. Fé, Tradição e Memória como Expovirtual) originou-se com a realização de um trabalho de campo inicial para a disciplina Antropologia Cultural e Etnografia Brasileira, em 2009, sob a condução do Prof. Msc. Wellington de Jesus Bonfim, na época professor contratado do Curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe/CAMPUSLAR. Utilizando-se de observação, entrevistas orais semiabertas e registros fotográficos como método de pesquisa, considerou-se em 2011 a possibilidade com as novas tecnologias á perspectiva da musealização da memória e cultura dos pescadores com a organização de exposição virtual através da criação e manutenção de um blog.
A difusão virtual das experiências da comunidade São Braz/SE, através do registro fotográfico da sua cultura material e imaterial e de suas formas de sustentabilidade, concede-lhes visibilidade acadêmica e social, bem como a possibilidade de sua patrimonialização “sem
1 Ao longo do texto será utilizada a palavra São Braz com “z” quando se refere ao povoado. E São Brás com “s”
quando se refere ao, (Santo e a capela do padroeiro da localidade).
2
fronteiras” geográficas. Compreende-se a utilização futura desse instrumento como um auxílio na reivindicação das demandas sociais da própria comunidade.
A manutenção dessa cultura (como tradição) ao longo dos anos e sua relação com sua identidade se consolidada através de sua memória social. Conforme Jô Gondar: “o conceito de memória produzido no presente, é uma maneira de pensar o passado em função do futuro que se almeja.” (GONDAR; DODEIBEI, 2005, p. 17).
A partir desses elementos pode-se pensar a perspectiva da musealização virtual da comunidade São Braz/SE, buscando: “(...) através das técnicas museográficas elementos de viabilização para o reconhecimento das identidades e, o posterior exercício da cidadania da sociedade contemporânea.” (SILVA, 1999, p. 78).
Na primeira etapa, optou-se por trabalhar inicialmente com entrevistas orais obtidas via questionários, semi-abertos junto á comunidade do povoado São Braz e registros fotográficos de suas atividades.
O povoado São Braz, fundado na década de 1940 por Virgílio Matias dos Santos, está localizado no município de Nossa Senhora do Socorro/SE, a 25 km da capital Aracaju/SE, banhado pelo rio do Sal e pelo riacho do Moleque. No ano de 1968 foi batizado como povoado São Braz. A fé de Diocridio Vasconcelos, amigo de Virgílio Matias dos Santos, foi quem deu ao local o nome do Santo São Brás. Os pescadores costumam realizar seu ofício de barco e canoa utilizando tarrafa, rede e anzol, coletando caranguejo, ostra, siri e camarão com o auxílio de covos feitos de vara de taboca.
As mulheres destes pescadores ajudam a comercializar os produtos pescados nas portas de suas residências para aumentar a renda familiar. Seguindo as tradições deixadas por seus pais, os pescadores mantêm o hábito de deixar os pescados secar ao sol, aliando-se a algumas inovações que adentraram a comunidade com o passar do tempo. Mudanças adquiridas por conta das novas tecnologias usadas para facilitar o manuseio e o tratamento do pescado, refrigerando (Freezer). A sociedade ribeirinha é formada pela organização de um pequeno grupo de pessoas com normas e costumes próprios que vivem e trabalham numa área geográfica comum para manter essa mesma sociedade, ou seja, onde existe uma relação muito estreita e sem interrupções entre a sociedade e a cultura, pois é na vida em sociedade que a comunidade ribeirinha manifesta a sua cultura. Essas manifestações na sociedade possuem seus padrões culturais, ou seja, baseados comportamentos e valores que os indivíduos devem respeitar para manter o equilíbrio e funcionamento normal da sociedade da qual eles
pertencem. Assim, os padrões culturais desta sociedade ribeirinha, formada pela colônia de pescadores, determinam e conservam sua forma de organização social (GUARIM, 2000).
Pequeno, calmo e aconchegante esses são os adjetivos que mais qualificam o povoado São Braz. D. Maria de Lourdes Pereira Santos afirma:
Quando meu pai chegou aqui no povoado, tudo era mangue, depois construiu uma casa nas terras que pertenciam ao seu avô. Nós fomos os primeiros moradores desta localidade. Na época em que ele chegou só tinham duas palhoças construídas por pescadores que frequentavam o mangue nos finais de semana e uma fazenda chamada Cabrália que pertencia a Luciano Cabral e Elifio Rocha.Era uma grande propriedade que até hoje existe, mas possui outros donos (família de japoneses) mantendo a extensão territorial e uma excelente estrutura para criações de camarão e peixes para exportação, existindo também no local uma fábrica de gelo e sal. Foi devido à existência das propriedades rurais que a comunidade começou a se formar na região, batizando o lugar de fazenda. Até pouco tempo o local era tomado pelas águas do rio em épocas de chuvas.3
Relata também que antes da construção da capela em 1967, as missas eram celebradas na casa de seu pai nos finais de semanas.4Foi a fé a responsável pela mudança de nome de fazenda para povoado São Braz. De acordo com D. Maria de Lourdes, o empregado da fazenda, que era gerente administrativo e amigo de seu pai Sr. Diocridio, fez uma promessa para o santo São Brás, pedindo a cura de seu filho mais novo de uma tosse e como seu pedido foi atendido ele trouxe uma imagem do santo para a comunidade, que após a construção da capela, tornou-o padroeiro e adotou seu nome para batizar o povoado, por volta de 1968. O santo é festejado pela comunidade no mês de fevereiro com novenas, procissões e batizados, no calor dos fogos e na animação do trio elétrico, geralmente cedido pela prefeitura do município; “é uma grande festa”, exclama dona Didi.5
E tudo aquilo que está aparente na comunidade serve para trazer as coisas à mente, quer como memória, quer como acalento presente para as dificuldades cotidianas a partir da manutenção das tradições (LE GOFF, 1992, p. 437). Este passo reevoca a sobrevivência da oralidade como instrumento de transmissão cultural das heranças sociais.
Desse modo, algumas mulheres da comunidade costumam coletar ostras nas margens do mangue e pegar aratu. Depois de coletado os mariscos, elas se juntam e tratam os mariscos em frente das suas residências ou nas margens do rio e com isso tira primeiro a sua parte para a sua alimentação doméstica e o restante comercializa nas ruas e nas feiras ou nos bares no âmbito local. Já os homens, quando não estão pescando ou quando o rio não está dando peixe,
4 Idem. 5
“como eles dizem” geralmente buscam outros serviços como o de pintor, pedreiro e ajudante, vigilante, montador e outras funções correlatas.
De acordo com Nunes (1994, p. 19), no ano 1980, o município de Nossa Senhora do Socorro passou por grandes transformações, entretanto, os povoados foram alvo de empreendimentos imobiliários que provocaram mudanças em áreas antes ocupadas por mangues e pouco povoadas, conseqüência do projeto grande Aracaju, que objetiva fortalecer a economia do estado, associando a atividade industrial á habitação. E com a instalação dos conjuntos começaram a surgir problemas, os quais o município tem dificuldade para resolver, associados ao desemprego, à violência e a marginalidade. A memória vinculada à identidade que remete-se às tradições do passado conforma-se como uma expressão da ancestralidade, onde um indivíduo ou mais de um está inserido num contexto familiar, de onde retira forças para superar as adversidades, tendo como elemento importante a percepção de si e de outros, uma “rede de sociabilidade”.
Entretanto, o povoado São Braz, apesar dos problemas ambientais que apresenta, consegue por sua natureza conquistar as pessoas em função de possuir uma rica cultura mística e ribeirinha de médio porte. É um belo ponto turístico na região, e aos domingos dezenas de canoas chegam a estacionar na orlinha movimentando o pacato povoado, embaladas pelas músicas dos carros dos visitantes que frequentam os bares para saborear as iguarias pescadas pela comunidade.
Dessa forma, preservar a memória da história dos pescadores relacionada à sua identidade social e sua própria autosustentabilidade, requer ter em mente que:
A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si (POLLAK, 1992, p.5).
O povoado São Braz apesar de possuir duas ruas hoje é muito elogiado e valorizado por todos que vem conhecer, agrada com seu clima e suas paisagens naturais e suas iguarias deliciosas. Paulo Roberto Atanásio, presidente da associação dos moradores do povoado, conhecido como “Paulo do São Braz”, relatou que o povoado já recebeu visitantes turistas de Minas Gerais e de Pernambuco que ficaram hospedados na Marina (salão de festa da comunidade) encantados com a paisagem do local e sua culinária.
Assim as lembranças da memória dos pescadores são mantidas na comunidade São Braz, contadas e envolvidas na socialização, na qual a relação humana ajuda a selecionar suas
necessidades e problemas facilitando a interação entre as pessoas, onde as lembranças em cooperação com uma cultura comunicativa onde transmite suas intenções, sentimentos, experiência e desejos.
Sua fé consolidou-se em sinais e símbolos presentes na comunidade, retratando a festa comunitária de fórum familiar. Hoje os fiéis rezam sua oração no dia do padroeiro, São Brás recebem a benção da garganta, no dia 3 de fevereiro, utilizam duas velas grandes em forma de cruz, velas finas, e bentas, posta sobre a garganta dos fieis, que através do sacerdote, diáconos e ministros ou seminaristas, sempre benzem no dia da festa, que é comemorada entre 28 de janeiro a 06 de fevereiro de cada ano na sua comunidade ou em outras igrejas, onde o padroeiro é São Brás. De acordo com Le Goff (1992, p. 443) os atos divinos de salvação situados no passado formam o conteúdo da fé e o objeto do culto, mas também porque o livro sagrado, por um lado, a tradição histórica, por outro, insistem, em alguns aspectos essenciais, na necessidade da lembrança como tarefa religiosa fundamental.
Por isso a comunidade ribeirinha reza para o Santo São Brás pedindo graças e milagres, manifestando crença em Deus e na intercessão do santo São Brás. Aqui, portanto, se entende a cultura espiritual criada pelo espirito humano enquanto uma abstração que “não se vê e nem se toca”, mas que coeexiste nas crenças, na moral, nos valores, nas normas, nos sentimentos, nos desejos, ou seja, na subjetividade e imaginário humanos.
As significações imaginárias despertadas por imagens determinam referências simbólicas que definem, para os indivíduos de uma mesma comunidade, os meios inteligíveis de seus intercâmbios com as instituições. Em outras palavras: a imaginação é um dos modos pelos quais a consciência apreende a vida e a elabora. A consciência obriga o homem a sair de si mesmo, a buscar satisfações que ainda não encontrou (MORAES, 2002). Portanto, relacionando a arte da pesca, a religiosidade e a fé no povoado São Braz, a relação da comunidade com a natureza recria sua identidade a partir do mar, dos peixes, e do trabalho. Jesus um “pescador de homens”, cujo símbolo do peixe tornou-se uma forma de autoreconhecimento entre seus seguidores. Isto posto que a palavra grega para “peixe” (ιχθύς
-ΙΧΘΥΣ - Ichthys) é um acrónomo de “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”.
Muitos fiéis de comunidades vizinhas participam das missas dominicais na Capela São Brás, como também apreciam as paisagens do rio e do mangue nesse local que chega atrair turistas e visitantes de outros lugares para tomar banho de rio, pescar, comer as iguarias nos bares, beber e jogar nos quatro campinhos de areia, onde moradores e adjacentes treinam e realizam torneios nos finais de semana. Há também a festa do padroeiro São Brás, no mês de
fevereiro, acompanhada por novena, batizado, procissão, fogos e quermesse, show católico e popular, com palcos e trio elétrico cedido pela prefeitura de Nossa Senhora do Socorro.
Assim, a comunidade pesqueira São Braz se mantém espremida no processo de urbanização e do avanço da lógica capitalista nas relações econômicas que permeiam o povoado, tentando conservar suas tradições ancestrais. Ainda a lógica destrutiva da sociedade capitalista afeta diretamente a atividade pesqueira da comunidade São Braz a partir da deterioração do meio ambiente e a diminuição dos pescados. Essa diminuição de pescados vem ocorrendo, segundo os próprios pescadores, por vários motivos, dentre eles a poluição, onde hoje se encontra grande quantidade de lixo no Rio do Sal e no Riacho do Moleque. Observa-se a falta de consciência que parte dos danos causados pela própria população freqüentadora e de projetos para urbanização que acabam se apropriando de grande extensão da área, onde o manguezal e o rio saem prejudicados por essas invasões irregulares, além da pesca de arrastão motivo também que levam a diminuição dos caranguejos.
Os pescadores artesanais do povoado São Braz, são donos da arte de pescar e utilizando seus instrumentos de trabalho representam uma possibilidade de trabalho autônomo, colaborativo, mas isso não necessariamente significa uma escolha em permanecer na pesca artesanal. A busca também por outros meios de trabalho já reflete uma angustia evidenciada nos pescadores frente à incerteza do alimento perante um rio assoreado e poluído, sem uma renda certa para suprir outras necessidades.
Portanto, os fatores que afetam a pesca são o assoreamento das margens do rio, as invasões do sem terra em áreas próximas ao Rio do Sal e do Riacho do Moleque, a contaminação da água por produtos tóxicos e os esgotos domésticos e industrializados que são trazidos pelas águas da chuva e pelas tubulações, assim como a falta de conscientização da população com relação à natureza. O meio ambiente tanto no povoado São Braz e no Brasil, apresenta-se de forma extremamente vulnerável o que nos auxilia a compreender a crise ambiental atual, concorrendo para a necessária construção de uma “ecocidadania” tanto quanto para uma tomada de postura mais consistente dos “ecoeducadores”.
Vale ressaltar que no Rio do Sal, em sua área margeia o povoado permitindo assim que ao longo das décadas se estabelecesse a atividade pesqueira, conta com as margens dos rios de um lado preservadas em uma grande extensão de manguezais. Nesse sentido, permanecer ali, é viver do que sempre viveram, do que sabem viver, com a comunidade que constrói sua própria forma de se relacionar, mas além de permanecer eles resistem, porque insistem em viver da pesca. Desse modo, o povoado São Braz é antes de tudo uma construção
cotidiana de quem permanece, resiste e busca se reelaborar frente às transformações da cidade.
As histórias de vida dos pescadores possuem um caráter sócio-cultural, revelando em sua maioria uma transmissão da atividade pesqueira para as gerações futuras, quer seja por sobrevivência financeira ou por hobby. Ao refletir sobre O que é ser pescador nos dias atuais, compreende-se que é uma categoria que apresenta uma significativa diversidade cultural (educacional, financeira, faixa etária).
Em sua maioria, os entrevistados mostram-se vinculados à pesca artesanal no povoado São Braz, como pescadores profissionais com carteirinha, buscando seu alimento cotidiano e a geração de renda no comércio do peixe ou das redes. Configuram-se como guardiões do rio, realizando um diagnóstico crítico das condições do rio e pleiteando a revitalização desse para a continuidade de seu ofício. As mulheres pescadoras hoje já participam mais como pescadoras profissionais, tendo direito ao seguro no tempo do defeso6, e direitos previdenciários, que ainda recebem críticas carecendo de melhoria.
No plano da diversidade religiosa, a comunidade São Braz, também abriga o terreiro Cento de Ogum Abarexá, localizado na Rua 1, cuja dona chama-se Maria Amélia Ferreira Santos, 66 anos, que estudou até a quarta série do ensino fundamental. Maria relatou que quando chegou no povoado tinha 19 anos, e hoje tem 20 anos de confirmada na religião Nagô, sendo filha de santo e tendo por Pai de Santo, (Carlos Magno dos Santos). Disse ainda que lá qualquer Ogum é Santo Antônio e ela é zeladora do Santo, Abarexá. Maria Amélia Ferreira Santos contou que conheceu Pai Magno quando ela estava bem doente e ele cuidou dela, porque ela andava “muito perturbada” e teve que se tratar. Hoje ela diz: “Estou curada” e relata que o Centro Raio do Sol, que fica na Rua 2, pertence a Carlos Magno que é o patrono dos dois terreiros e sua esposa, Joelma, é a lôxa.7 Maria Amélia relata que em suas festas acontece a distribuição de Caruru, no dia 26 de julho, e nos dias 17 e 27 de outubro. O Centro de Ogum Raio do Sol, localizado na Rua 2, cujo patrono é o Pai de Santo Carlos Magno e sua esposa, Joelma, a lôxa, possibilita ao Pai de Santo o descanso embaixo das mangueiras, lugar de costume durante o dia, onde ele conversa com os colegas. Carlos Magno dos Santos, 64 anos, estudou até a quarta série do ensino fundamental.8 Segundo Carlos Magno esse Nagô é
6 Tempo da desova dos peixes, quando são paralisadas as pescarias.
7 Entrevista dia 16/04/2011, com D. Maria Amélia Ferreira Santos, no Povoado São Braz.
um pouco diferente do Nagô de Belina em Laranjeiras, que considera o tronco que da cultua as mesmas origens, toca com a barrica, os homens ainda brincam de avental, que é o original.
Preservar a memória dos pescadores do povoado São Braz, requer preservar a sua história, tradições, sua cultura e divulgá-la de maneira informal em uma exposição virtual para que as pessoas possam ter acesso ao blog, vinculando tradição às novas tecnologias da informação e da comunicação com qualidade atrativa e dinâmica.
Portanto a exposição virtual da memória dos pescadores na perspectiva de um lugar de memória como patrimônio intangível, por ser digital, mas preservado um patrimônio material (fotos) e imaterial (o cotidiano e modo de fazer da pesca artesanal) coexiste com o lugar onde a realidade concreta se manifesta. Através da virtualidade é possível sistematizar e compartilhar informações históricas da comunidade pesqueira de São Braz, em diferentes cronologias. Quando musealizamos objetos e artefatos – aqui incluídos os caminhos, ou as casas e a cidade, natureza, tradição, cultura, religião, trabalhadores da pesca e a paisagem com a qual o homem se relaciona – preocupações relacionadas à documentalidade e fidelidade, no repasse de informações à comunidade permeiam o processo. De acordo com (GUARNIERI, 1990, p. 7):
A informação pressupõe conhecimento, (emoção, razão), registro, (sensação, imagem, ideia), e memória, (sistematização de ideias e imagens e estabelecimentos de ligações). É a partir dessa memória musealizada e recuperada que se encontra o registro e daí, o conhecimento suscetível de informar a ação.
Portanto o espaço da Museologia junto à sociedade pesqueira do Povoado São Braz, no século XXI, pode estar centrado na consolidação de processos experimentais que viabilizam a visibilidade, salvaguarda e valoração cultural, histórica, religiosa tradicional humana a partir do encontro com a sua própria realidade.
Vale salientar que os pescadores possuem um relacionamento ético com a natureza e o meio ambiente, que garante um desenvolvimento sustentável nos seus trabalhos. Uma exposição virtual da memória dos pescadores de São Braz envolve pesquisa e sistematização de informações visuaus e textuais no âmbito de uma plataforma tecnológica capaz de comunicar sentidos e experiências. Através de uma visão de mundo singular se percebe o grande avanço da era da internet, no processo de registro e transmissão da informação utilizando-se de recursos atrativos e dinâmicos que permitam salvaguardar a cultura material e imaterial no plano digital.
Com o desenvolvimento tecnológico de grande avanço na sociedade atual, as Ciências Sociais Aplicadas (e no caso específico, a Museologia) cada vez mais sente a necessidade de trilhar novos desafios, propondo-se a atingir um público maior, superando as limitações de espaço físico, geografia ou horário de visitação. Assim, o desenvolvimento de uma exposição virtual, através dos recursos como os da (TIC), em torno das tecnologias da informação e da comunicação, que vem se desenvolvendo ao longo de alguns aspectos centrais para a área museológica, a saber: a concepção, a montagem e a alimentação da área expositiva de forma interativa. Essas experimentações alcançam a exposição como uma experimentação expográfica, ou seja, aquelas que rompem os paradigmas da exposição como linguagem própria dos museus reais. Segundo Muchacho (2005, p. 579):
Relações que se dão na realidade sugerindo um novo meio de contemplação, onde os pincéis e as cores são substituidas por determinada imagem, rato ou peixe, renovando o estatuto da imagem e a sua relação com a arte, no museu sem muros e coleções contidas na manipulação de artifícios, processos que fazem de pagina em pagina, como se andassem de galeria em galeria, interagindo com os objetos e mudando o percurso expositivo.
A exposição virtual da memória dos pescadores do povoado São Braz na aplicação do desenvolvimento tecnológico, na coleta de informação e na comunicação busca atingir um público maior, renovado, no sentido de levar o conhecimento da preservação da memória e do patrimônio cultural tradicional como um todo no âmbito local sem precisar se deslocar de um lugar para outro no processo online, unânime, ligado a museografia que engloba todas as ações práticas de um museu: planejamento, arquitetura e acessibilidade, documentação, conservação, exposição e educação. Para tanto a expografia, como parte da museografia visa à pesquisa de uma linguagem e de uma expressão fiel na tradução de programas científicos de uma exposição. Além disso, a museografia é o campo do conhecimento responsável pela execução dos projetos museológicos, que através de diferentes recursos torna possível apresentar o acervo com o objetivo de transmitir, através da linguagem visual e espacial, uma proposta de uma exposição. Segundo Cury (2005, p. 109):
O museólogo é um comunicador, é aquele que por meio de uma linguagem específica (a exposição), gerencia um processo de comunicação de uma idéia para um determinado público-alvo tendo como suporte de comunicação objetos muzealizados. O cenário da representação da exposição virtual da memória dos pescadores do povoado São Braz está relacionado à sua identidade cultural que será mostrada na exposição virtual através de fotografias, textos, sonorização, na sistematização das novas tecnologias
com todo o contexto histórico local. Para tanto a alimentação da exposição virtual no blog compreenderá, passo a passo de sua elaboração. Para se criar o blog foi preciso no primeiro passo, criar uma conta específica no gmail ([email protected]), depois definir uma senha para efetuar o login e ter acesso à plataforma que acondiciona o blog. No segundo passo foi escolhido o tipo de blog, gratuito, no site do blogspot.com pela popularidade e facilidade no manuseio da interface. No terceiro passo criou-se um título para o blog (São Braz (SE) Expo Virtual) e uma senha de acesso a esse. Criado o blog me transformei administradora do
blog, alimentando-o com informações e utilizando as ferramentas do blog para interatividade,
executando o domínio adequado da formatação das postagens através da dashboard, um painel de controle, que confere acesso às ferramentas de edição de texto, imagens, vídeos, sons a serem compartilhados online. Vale ressaltar que a primeira postagem ao se criar o blog é sempre uma apresentação da funcionalidade da plataforma, e de seu propósito e público alvo. Busca-se trabalhar a cultura material e imaterial da memória dos pescadores do povoado São Braz, na trajetória, biografias, historicidade e tradição do referido lugar, valorizando e preservando, na interatividade, o compartilhamento do conhecimento na rede virtual. Salienta-se que na contemporaneidade, em tempos de globalização, expor as singularidades de uma comunidade em um momento onde se tem tentativas de homogeneização de idéias e comportamentos confere à exposição virtual da memória dos pescadores do povoado São Braz um potecial de “empoderamento político” no que diz respeito à visibilidade das demandas destes junto às instâncias representativas da sociedade. Assim, o patrimônio cultural torna-se mais do que contemplativo, torna-se um viés de exercício de cidadania ativa de uma comunidade ribeirinha. Portanto a exposição virtual tem um lugar privilegiado, institucionalizado, dando-se o encontro entre a “(logia)” e a “(grafia)”, que é compreendido como centro interpretativo, de campos discursivos e arena política. Segundo Barbuy (1999, pp. 49 -131):
A exposição é um fenômeno de visualidade, com grande poder difusão de imagens, que se trata de um complexo de elementos de construção de uma realidade forjada, (representação), a ser apreendida, visualmente, por um observador que obedece a disciplina própria do espetáculo, que tendo de seguir regras determinadas de comportamento para poder participar do que lhe é apresentado.
O estudo proporcionou o conhecimento dos costumes, hábitos e tradição da comunidade de pescadores do povoado São Braz, através de métodos de pesquisa como entrevista, fotografias, análise de fontes bibliográficas e documentais. Foi possível identificar
a comunidade São Braz como um espaço onde a memória atua na manutenção das tradições artesanais da pesca, perpassando a discussão da preservação do patrimônio natural. Verificou-se que dentre os homens a identidade apreVerificou-senta-Verificou-se muito mais fluida e plural congregando tanto os “modos de fazer”, as visões de mundo nostálgicas e contemporâneas como o próprio processo de integração social decorrente das manifestações religiosas que se mantêm como “memória viva”.
Com a apresentação de uma exposição virtual sobre comunidade de pescadores de São Braz/SE a partir de imagens, documentos e autorização concedida pelos mesmos que acompanham o processo de criação e divulgação de sua cultura no blog, esse grupo social se torna protagonista de sua própria trajetória recontada sob o viés da academia. Pensando assim em fomentar a economia local com o turísmo, a criação de salões para as exposições de seus artesanatos, este como espaço cultural, com parcerias do município e empresas privadas. Compreendeu-se então a necessidade da salvaguarda do patrimônio material e imaterial da coletividade São Braz. Para tanto o meio de divulgação virtual, favorece o entendimento do bem patrimonial na constância do desenvolvimento cultural, como também tecnológico, elaborando novas aplicações semânticas e cognitivas visando, sobretudo, a interatividade como um todo. Segundo Vera Dodebey e Regina Abreu (2008, p.11):
Patrimônio digital, memória social e teoria da informação são configurações e conceituações, cujo objetivo verifica a possibilidade de o patrimônio existir no mundo virtual, tendo como base os pressupostos de que se trata de uma categoria e de que o meio digital pode favorecer o entendimento do bem patrimonial como um objeto informacional em constante desenvolvimento, a um só tempo, circunstancial, único e virtual.
A informação compartilhada através da exposição virtual do blog atua na preservação da memória dos pescadores como o Sr. Diocridio Vasconcelos e o Sr. Virgilio Matias dos Santos, patronos solidários da comunidade pesqueira do povoado São Braz, em sua contribuição no desenvolvimento do povoado, bem como das vozes outrora anônimas e de todo o processo de socialização nas relações sócias culturais participativas da comunidade.
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