Filosofia e ciência. Problemas centrais
2009-2010
Ética e Internet
João Tiago Arriscado da Silva Cavaleiro
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
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1. Introdução
A mudança que se dá hoje nas comunicações implica, mais que uma simples revolução técnica, a transformação completa de tudo o que é necessário para compreender o mundo que a envolve e para verificar e expressar a percepção do mesmo. A apresentação constante das imagens e das ideias, assim como a sua transmissão rápida, até mesmo de um continente para outro, têm consequências simultaneamente positivas e negativas, no desenvolvimento psicológico, moral e social das pessoas, na estrutura e no funcionamento da sociedade, na partilha de uma cultura com outra, na percepção e na transmissão dos valores, nas ideias do mundo, nas ideologias e nas convicções religiosas.
Durante a década passada, a verdade destas palavras tornou-se mais clara do que nunca. Hoje, não há necessidade de uma grande imaginação para vislumbrar a terra como um globo interligado energicamente com as transmissões electrónicas — um planeta em diálogo, aconchegado no silêncio providencial do espaço. A questão ética consiste em saber se isto está a contribuir para um desenvolvimento humano autêntico e a ajudar os indivíduos e os povos a corresponder à verdade do seu destino transcendente. E, naturalmente, de muitas formas, a resposta é positiva. Os novos meios de comunicação são instrumentos poderosos para o enriquecimento educativo e cultural, para a actividade comercial e a participação política, para o diálogo e a compreensão interculturais. Contudo, esta moeda tem também o seu reverso. Os meios de comunicação que devem ser utilizados para o bem das pessoas e das comunidades podem ser usados inclusive para explorar, manipular, dominar e corromper.
A Internet é o mais recente e, sob muitos pontos de vista, o mais poderoso de uma série de instrumentos de comunicação — telégrafo, telefone, rádio e televisão — que, para muitas pessoas ao longo do último século e meio, eliminaram gradualmente o tempo e o espaço como obstáculos para a comunicação. Ela tem consequências enormes para os indivíduos, as nações e o mundo em geral.
A difusão da Internet levanta também um certo número de interrogações éticas acerca de problemáticas como a privacidade, a segurança e a credibilidade dos dados, os direitos de autor e a lei de tutela da propriedade intelectual, a pornografia, os sites que instigam ao ódio, a disseminação de boatos, a representação de homicídios sob a aparência de notícias, e muito mais.
2. Ética
Ética é uma palavra de origem grega (ethos) que significa «a ciência relativa aos costumes». É uma área da filosofia que estuda os valores ou princípios morais por que um indivíduo rege a sua conduta pessoal e profissional.
Segundo Nair de Souza Motta, a Ética baseia-se numa filosofia de valores compatíveis com a natureza e a finalidade de todo o ser humano, por isso, ―o agir‖ do ser humano está condicionado pelas duas premissas consideradas básicas pela Ética: ―o que é‖ o Homem e ―para que vive‖, logo todas as capacidades científicas ou técnicas necessitam estar ligadas aos princípios essenciais da Ética.
Ética, é uma palavra que gera diferentes conclusões e diferentes pontos de vista, pois uma conduta pode ser ética para uma pessoa e pode ser antiética para outra, dependendo da individualidade, dos princípios, dos costumes, de um modo geral de como aquela pessoa foi criada em determinada sociedade.
De acordo com Paulo Cesar Masiero, a Ética é uma ramificação da filosofia que estuda o comportamento moral do ser humano, classificando-o como bom ou mau, correcto ou errado e que os conceitos éticos provavelmente surgiram quando o ser humano começou a viver em sociedade e aprendeu a identificar certos comportamentos como positivos ou negativos para o bem-estar e segurança do grupo.
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Figura 1: Imagem simbólica onde a balança representa a equidade, o equilíbrio, a ponderação e a igualdade
As teorias éticas, também conhecidas como teorias morais, estudadas na filosofia podem ser baseadas no dever, no consequencialismo ou na virtude.
A Ética Cristã e a Ética Kantiana são baseadas no dever, ou seja, sublinham que cada um de nós tem certos deveres – acções que devemos executar ou não – e que agir moralmente é equivalente a cumprir o nosso dever, sejam quais forem as consequências que daqui se seguirem. A essência da Ética Cristã é um sistema de obrigações e proibições baseadas na vontade Deus e descritas nos Dez Mandamentos. Para Immanuel Kant, uma acção moral tem de ser executada por sentido do dever, e não apenas como resultado de uma inclinação, de um sentimento ou da possibilidade de qualquer tipo de benefício para o seu autor.
Figura 2: O filósofo Alemão Immanuel Kant
O tipo mais bem conhecido de teoria consequencialista é o Utilitarismo, defendida pelo Inglês John Stuart Mill. Esta teoria baseia-se no pressuposto de que o objectivo último de toda a actividade humana é a felicidade. Nesse sentido, para um utilitarista, a boa acção é a que tiver mais probabilidades de trazer a maior felicidade nas circunstâncias em causa, seja ela qual for. Por esse motivo, é necessário lidar com as consequências prováveis de uma acção específica.
Ao contrário dos kantianos e dos utilitaristas, que se concentram tipicamente na rectidão ou não de acções particulares, os teóricos da virtude concentram-se no carácter e estão interessados na vida da pessoa como um todo. Uma virtude não é um hábito irreflectido; ao invés, implica um juízo inteligente sobre a resposta apropriada à situação em que nos encontramos.
3. Internet
A Internet é um sistema global de redes de computadores interligados que utiliza o protocolo standard TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol) para servir milhões de utilizadores em todo o mundo, permitindo o acesso a todo o tipo de informações e transferências de dados. De acordo com um estudo da Internet World Stats, cerca de 1.73 biliões de pessoas tinha acesso à Internet em Setembro de 2009, o que representa 25.6% da população mundial. Segundo a mesma pesquisa, na Europa existem cerca de 420 milhões de utilizadores, o que corresponde a mais de metade da população europeia.
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Figura 3: Representação gráfica de computadores ligados numa rede internacional, denominada Internet
A Internet é uma rede de redes que consiste em milhões de redes públicas e privadas que podem ser académicas, governamentais ou de negócio, de âmbito local ao global, que estão ligadas através de uma vasta gama de redes tecnológicas electrónicas e ópticas. A Internet fornece uma vasta gama de recursos e serviços de informação, sendo os mais visíveis os documentos HTML (Hiper Text Markup Language) da WWW (World Wide Web), vulgarmente designados por páginas da Web, a infra-estrutura de suporte do correio electrónico e os serviços de IM (Instant Messaging) e File Sharing.
Figura 4: Visualização gráfica de várias rotas numa porção da Internet mostrando a escalabilidade da rede
A Internet surgiu devido ao desenvolvimento do sistema Arpanet em 1959 nos Estados Unidos. Após o lançamento soviético do satélite Sputnik, o Departamento de Defesa Americano criou a ARPA (Advanced
Research Projects Agency) com o objectivo de obter novamente a liderança tecnológica perdida para os
soviéticos durante a guerra fria. Esta agência criou uma rede militar baseada na comutação de pacotes, em vez da comutação de circuitos, para tornar as redes mais robustas e estáveis.
A primeira rede de grande extensão baseada no protocolo TCP/IP entrou em funcionamento no dia 1 de Janeiro de 1983, quando todos os computadores que utilizavam o Arpanet substituíram os antigos protocolos NCP (Network Control Protocol).
Como referido anteriormente, hoje em dia, a Internet fornece uma vasta gama de recursos e serviços de informação.
3.1
E-mail (Electronic Mail)
O correio electrónico, geralmente abreviado como e-mail, é um método que permite compor, enviar e receber mensagens digitais através de sistemas electrónicos de comunicação. Além do envio de mensagens, também é possível enviar qualquer tipo de ficheiros como anexo à mensagem. O termo e-mail é aplicado tanto aos sistemas que utilizam a internet e são baseados no protocolo SMTP (Simple Mail
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Transfer Protocol), como aos sistemas conhecidos como intranet, que permitem a troca de mensagens
dentro de uma empresa ou organização e são, normalmente, baseados em protocolos proprietários.
Figura 5: O símbolo at, um carácter obrigatório num endereço de e-mail
O correio electrónico surgiu antes da Internet e os sistemas de e-mail acabaram por ser uma ferramenta crucial para a criação da rede internacional de computadores. O primeiro sistema de troca de mensagens entre computadores de que se tem notícia foi o Autodin criado em 1966 pelo Departamento de Defesa Norte-Americano.
Alguns dos serviços de correio electrónico mais conhecidos actualmente são o Gmail da Google e o Hotmail da Microsoft. Actualmente, os serviços de Webmail são gratuitos e fornecem alguns gigabytes de espaço de armazenamento. A FEUP também criou um serviço de webmail no início dos anos 2000, que actualmente está estendido a toda a Universidade do Porto.
3.2
WWW (World Wide Web)
A World Wide Web, abreviada como WWW e geralmente conhecida como Web, é um sistema de documentos Hypertext interligados contidos na Internet. Com um Web browser (navegador da Web), é possível visualizar Web pages (páginas da Web), que podem conter textos, imagens, vídeos e outros tipos de multimédia, e navegar entre elas através dos Hyperlinks.
A WWW foi desenvolvida para ser um repositório de conhecimento humano, que permitiria aos colaboradores em locais remotos, partilhar as suas ideias e todos os aspectos de um projecto comum. A 12 de Novembro de 1990, Tim Berners-Lee com a ajuda de Robert Cailliau publicou uma proposta formal para construir um projecto em Hypertext chamado WorldWideWeb, ou W3, que seria uma rede de documentos Hypertext que seriam visualizados através de browsers, utilizando uma arquitectura cliente-servidor.
Figura 6: O histórico logótipo da Web concebido pelo Belga Robert Cailliau
Uma das ferramentas mais utilizadas na Web, são os motores de pesquisa que permitem procurar páginas da Internet que incluam a palavra ou conjunto de palavras seleccionadas na pesquisa. Actualmente alguns dos motores de pesquisa mais conhecidos são o Google, o ex-MSN agora denominado Bing, o Yahoo e o Sapo. Além de permitirem efectuar uma pesquisa na Web, também fornecem diversas informações tais como notícias actuais e informações meteorológicas e também incluem diversas aplicações úteis.
Uma das faces mais visíveis da Web, são as páginas relacionadas com a comunicação social. Todos os jornais, canais televisivos e rádios têm um sítio na Internet que contêm diversas informações sobre o seu funcionamento e permitem o acesso a notícias actualizadas e conteúdos multimédia, e até mesmo às suas emissões.
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3.3
IRC (Internet Relay Chat)
O IRC é um protocolo de troca de mensagens de texto em tempo real na Internet, também denominado
chat, que foi concebido para permitir comunicações em grupo em fóruns de discussão, também chamados
de canais, mas que permite também comunicação individual através de mensagens privadas bem como a transferência de dados via o protocolo DCC (Direct Client-to-Client). O protocolo IRC foi criado em 1988 pelo Finlandês Jarkko Oikarinen.
Com a abertura comercial da Internet ao grande público em 1993, surgiram grandes redes de IRC que possibilitaram que qualquer pessoa com ISP (Internet Service Provider) utilizasse esse protocolo. Durante a década de 90 e o início dos anos 2000, o IRC era o principal meio de chat na Internet, concentrando milhares de utilizadores todos os dias.
O mIRC, cliente de IRC para Windows, foi o mais popular por ser fácil de utilizar e apresentar uma interface clara e agradável para os iniciantes.
Figura 7: Logótipo do cliente de IRC mais popular de todos os tempos, o mIRC
A partir de 2003, com o aparecimento dos IM (Instant Messaging), o IRC começou a cair em desuso pois um utilizador tinha que entrar sempre num canal para começar a comunicar com alguém, e acabava por ser incomodado por outros utilizadores desconhecidos. Os clientes de IRC também tinham a desvantagem de não possuírem os mesmos recursos que os IM.
3.4
IM (Instant Messaging)
O IM, em português mensagens instantâneas, é uma aplicação que permite o envio e recepção de mensagens de texto em tempo real. Através destes programas o utilizador é informado quando algum dos seus amigos, registados na sua lista de contactos, está online, isto é, conectou-se à rede. A partir daí, é possível estabelecer conversações privadas através de mensagens de texto que são recebidas instantaneamente. Normalmente estes programas incorporam diversos recursos, como o envio de figuras ou imagens animadas, transferência de dados, conversação áudio, através da utilização de colonas de som e microfones, e também vídeo-conferência, com a utilização de webcams.
Existem diversas aplicações gratuitas, como o ICQ que foi pioneiro, o Yahoo Messenger, o Gtalk da Goggle, mas sem dúvida que nos últimos anos o mais popular foi o Messenger da Microsoft, actualmente designado Windows Live Messenger.
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3.5
File Sharing
File Sharing, em português partilha de ficheiros, é a prática da distribuição ou fornecimento de acesso a
informação armazenada digitalmente, tais como programas de computadores, áudio, vídeo, documentos ou livros electrónicos. Pode ser implementado numa variedade de armazenamento, transmissão e modelo de distribuição. Métodos comuns de partilha de ficheiros são a partilha manual utilizando mídia removível, como as pen disk’s, cd’s e dvd’s, e a partilha automática através de um servidor de arquivos instalado num computador centralizado numa rede de computadores, documentos Hyperlinked baseados na WWW e a utilização de redes distribuídas P2P (Peer-to-Peer).
Apesar de o IRC e IM já permitirem a partilha de ficheiros, a legalidade desta actividade só começou a ser discutida com o aparecimento do software Napster em 1999. Este software baseado no sistema P2P, permitia a partilha de ficheiros áudio que utilizavam a codificação mp3 de modo a reduzir substancialmente o tamanho dos ficheiros áudio. Devido ao crescimento exponencial da partilha de ficheiros, que levou à redução das vendas das indústrias discográficas, começou a ser abordada a ilegalidade desta prática. O caso mais famoso e que conduziu ao fim do Napster, foi a queixa apresentada em tribunal pela discográfica A&M Records Inc em 2000 contra o Napster, que viria a ser considerado culpado em 2001 pela contribuição para a violação dos direitos de autor.
Figura 9: Logótipo do primeiro software de partilha de ficheiros, o Napster
Depois da queda do Napster, surgiram diversos programas de partilha de ficheiros baseados no P2P, tais como o Kazaa e o eMule, que além de ficheiros áudio mp3, permitiam a partilha de vídeos codificados no formato DivX, que reduzia consideravelmente o seu tamanho, bem como programas e jogos de computador. Estes três programas mencionados anteriormente, possuíam uma funcionalidade muito útil, a pesquisa de ficheiros por categorias nos servidores.
Figura 10: Logótipo do eMule, cliente da rede eDonkey
Actualmente o protocolo P2P mais utilizado para a partilha de ficheiros é o BitTorrent. Existem diversos clientes, como por exemplo o µtorrent, Vuse, BTnext, que podem ser utilizados para efectuar downloads de qualquer tipo de ficheiros. Para pesquisar pelos ficheiros torrent que permitem efectuar o download, é necessário aceder a páginas na Web para esse efeito. Uma das mais famosas foi a The Pirate Bay que foi criada pela organização anticopyright sueca Piratbyran no início de 2004, tornando-se mais tarde uma organização independente. Devido às leis suecas, o serviço disponível no site, a indexação de ficheiros, não era ilegal, e por isso enfrentaram poucos problemas com a justiça e inclusivamente tinham a fama de responderem ironicamente aos departamentos jurídicos das empresas que os ameaçavam. No entanto, em Maio de 2006 o site sofreu um rude golpe. A empresa onde ficavam hospedados os servidores do site recebeu a visita da polícia e todos os computadores ligados ao The Pirate Bay foram apreendidos.
Actualmente, além da utilização de torrents para a partilha de ficheiros, também são utilizados indevidamente os serviços de File Hosting.
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3.6
File Hosting Service
Os File Hosting Service, também conhecidos como One-click Hosting, são serviços da Web que permitem que qualquer utilizador da Internet faça o upload de qualquer tipo de ficheiro do seu disco rígido com um único click para um servidor, de forma gratuita. A maioria desses serviços apenas retornam um URL (Uniform Resource Locator), que não é mas do que um endereço da Internet, que pode ser fornecido a outros utilizadores da Internet para poderem efectuar o download do mesmo ficheiro. A página de serviço de armazenamento de ficheiros mais popular é o Rapidshare, mas existem outros também conhecidos como o Megaupload e 4Shared. Actualmente existe uma grande diversidade destes serviços, e inclusivamente até a FEUP disponibiliza aos seus estudantes o FEUPload, criado pelo Núcleo de Informática no ano de 2009.
Figura 11: Logótipo do File Hosting Service mais conhecido, o Rapidshare
Existem outras variantes deste tipo de serviço, dedicados a determinados tipos de ficheiros ou com finalidades diferentes. Por exemplo, os serviços de correio electrónico impõem um limite ao tamanho dos ficheiros enviados em anexo numa mensagem. Aproveitando o conceito dos File Hosting Service, foram criados serviços como o YouSendIt ou TranferBigFiles que têm um funcionamento idêntico, mas em vez de retornarem um endereço URL, encaminham-no para um endereço de e-mail pretendido. Deste modo é possível enviar para um e-mail um ficheiro com um tamanho superior ao limite imposto nos anexos. Outro tipo de serviços de armazenamento de ficheiros bastante populares, são os dedicados a ficheiros multimédia. Para o armazenamento e partilha de imagens existem, entre muitos outros, o Picasa, o Flickr e o Deviantart. Actualmente, os serviços de armazenamento mais populares são os que armazenam e transmitem vídeos como o YouTube, o Metacafe e o DailyMotion.
Figura 12: Logótipo do website de armazenamento e transmissão de vídeos mais popular de sempre, o YouTube
3.7
Streaming
Em português significa fluxo de dados, e é uma forma de distribuir informação multimédia numa rede através de pacotes. Em streaming, os conteúdos multimédia não são geralmente arquivados pelo utilizador que está a receber a ligação. Os conteúdos áudio ou vídeo são apenas transmitidos para serem reproduzidos. Actualmente, muitas rádios transmitem a sua emissão FM via Internet utilizando o
streaming. Com o aumento das velocidades de ligação à Internet, foi possível começar a fazer o streaming
de vídeos e alguns canais televisivos passaram a disponibilizar a sua emissão na Internet. Os serviços de armazenamento de vídeos acabam por utilizar também o streaming para permitirem a reprodução dos seus conteúdos num qualquer computador com ligação à Internet.
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Actualmente existem serviços da Web dedicados ao streaming que permitem qualquer pessoa fazer uma transmissão em tempo real de áudio ou vídeo. Actualmente são muito famosos os serviços de transmissão de vídeo como o Justin e o Ustream.
Figura 13: Logótipo de um dos serviços de streaming de vídeo em tempo real
Na FEUP já se recorreu ao streaming para transmitir por exemplo o vídeo em tempo real da última aula leccionada pelo Professor José Rodrigues de Almeida, que se iria aposentar.
3.8
VoIP (Voice over Internet Protocol)
O VoIP, Voz sobre IP, é um protocolo que permite a transmissão de voz nas redes IP, como a Internet. Isto permite efectuar chamadas telefónicas sem recorrer a uma linha telefónica, utilizando unicamente a ligação à Internet. Deste modo é possível efectuar chamadas entre dois computadores de modo gratuito. Também é possível efectuar chamadas para as redes públicas, como redes fixas e redes de telemóveis, mas já terão um custo associado.
Softwares como o VoipBuster permitem efectuar chamadas telefónicas e enviar mensagens de texto
(SMS) para qualquer rede com um custo reduzido. Actualmente o software mais popular, é o Skype que além dessas funcionalidades, permite também a vídeo-conferência com grande qualidade de áudio e vídeo.
Figura 14: Logótipo do software VoIP mais popular do momento
A FEUP já utiliza acerca de 3 anos o sistema de telefonia sobre IP, Polyspeak que integra voz e vídeo num único sistema baseado em software livre, disponibilizando um vasto conjunto de serviços, como conferências áudio e vídeo, correio de voz integrado com e-mail e controlo de custos por chamada. Actualmente este serviço apenas está disponível para docentes, investigadores e funcionários.
3.9
Blogs
Um blog, palavra que resulta da contracção do termo Web log, e que em Portugal é chamado de blogue, é um site cuja estrutura permite a actualização rápida a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou posts. Estes são, geralmente, organizados de forma cronológica inversa, tendo como foco a temática proposta do
blog, podendo ser escritos por um número variável de pessoas, de acordo com a política do blog.
Muitos blogs fornecem comentários ou notícias sobre um assunto em particular, outros funcionam como um diário online. Um blog típico combina texto, imagens e links para outros blogs, páginas Web ou conteúdos multimédia relacionados com o seu tema. A capacidade dos leitores deixarem comentários de forma a interagir com o autor e outros leitores, é uma parte importante de muitos blogs.
Existem alguns sistemas de criação e edição de blogs, como o Blogger e o WordPress, que são muito atractivos pelas facilidades que oferecem, disponibilizando ferramentas próprias que dispensam o
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conhecimento de HTML. Em Dezembro de 2007, o motor de pesquisa de blogs Technorati confirmou a existência de mais de 112 milhões de blogs.
Figura 15: Logótipos dos dois sistemas de criação de blogs mais conhecido, o Blogger e o WordPress
A FEUP também disponibiliza aos seus alunos, docentes, técnicos e ex-alunos um serviço de blogs, intitulado FEUP Blogs.
Actualmente existe também um sistema de microblogging bastante popular, denominado Twitter, que permite escrever mensagens até 140 caracteres, conhecidas como tweets, em que se é encorajado a dizer o que se está a fazer no momento. Este sistema de microblogging possui também um sistema do tipo rede social, que permite acompanhar os twitters de vários utilizadores fazendo ―following‖ desses mesmos utilizadores. Em Fevereiro de 2009, o blog Compete.com classificou o Twitter no terceiro lugar do ranking das redes sociais mais utilizadas, com 55 milhões de visitas por mês. Em Maio de 2009, as estimativas apontavam para cerca de 11.5 milhões de utilizadores registados em todo o mundo.
Figura 16: Logótipo do sistema de microblogging Twitter
3.10
Social Networks
Rede Social é uma das formas de representação dos relacionamentos afectivos ou profissionais das pessoas entre si ou entre agrupamentos de interesses mútuos. A rede é responsável pela partilha de ideias entre pessoas que possuem interesses, valores e objectivos comuns. As redes sociais estão hoje instaladas principalmente na Internet devido ao facto desta possibilitar uma aceleração e ampla maneira das ideias serem divulgadas e da absorção de novos elementos em busca de algo em comum.
As Redes Sociais na Internet são as relações entre indivíduos que comunicam através de um computador. Esses sistemas funcionam através da interacção social, procurando conectar pessoas que possuem perfis na rede e proporcionando a sua comunicação.
O Facebook, o Hi5, o Orkut e o MySpace são exemplos de redes sociais na Internet. Enquanto os três primeiros procuram relacionar pessoas ou grupos de pessoas entre si, o último procura também relacionar artistas com os seus fãs. O Facebook, segundo o blog Compete.com lidera o ranking de redes sociais com mais de 120 milhões de utilizadores activos em todo o mundo. Em segundo lugar, surge o MySpace, que é bastante popular nos Estados Unidos da América, com 110 milhões de utilizadores activos a nível mundial.
Figura 17: Logótipos dos dois sites que lideram o ranking das Redes Sociais, o Facebook e o MySpace
As redes sociais, além de permitirem os seus utilizadores estabelecerem contacto, também funcionam como um óptimo meio de divulgação de actividades. Prova disso é a presença da FEUP e da UP nas redes Facebook e Twitter. As redes sociais também fornecem diversas aplicações úteis, sendo muitas de cariz lúdico e permitem a publicação de imagens, áudio e vídeo.
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4. Ética e Internet
O acesso a um grande número de informações disponível para as pessoas, com ideias e culturas diferentes, pode influenciar o desenvolvimento moral e social das pessoas. A criação dessa rede beneficia em muito a globalização, mas também cria a interferência de informações entre culturas distintas, mudando assim a forma de pensar das pessoas. Isso pode acarretar tanto uma melhoria como um declínio dos conceitos da sociedade, tudo dependendo das informações existentes na Internet. Estas informações estão disponíveis sob várias formas.
Segundo Paulo Cesar Masiero os três principais serviços disponíveis na Internet relativos à disponibilização de informações são a troca de mensagens, a transferência de ficheiros e o acesso a informações armazenadas na World Wide Web.
Actualmente vivemos numa sociedade do multimédia, na qual a informação chega através de vários meios (texto, imagens, vídeos, animações, som) e em bastante quantidade. O célere desenvolvimento da Internet fez com que muita mais informação estivesse facilmente ao alcance de todos e de uma forma muito mais rápida, permitindo também a interacção com a própria informação entre os seus ―consumidores‖.
Não haverá dúvidas que esta massificação e simplificação do acesso à informação online trazem bastantes vantagens, inclusive como auxiliar ao trabalho de investigação jornalística devido à imensa quantidade de informação disponível, a qual se pode aceder de qualquer parte do mundo. É importante introduzir aqui conceito de globalidade ou de aldeia global, na qual a informação é veiculada de uma forma muito rápida de tal modo que aquilo que acontece num determinado local pode ser logo conhecido do outro lado do mundo, imediatamente nos instantes seguintes.
No entanto, toda esta informação, ou o chamado ―excesso de informação‖ pode também acarretar alguns problemas se algumas questões não forem devidamente acauteladas, nomeadamente no que toca à verificação da informação, ao rigor jornalístico e aos direitos de autor.
4.1
Sociedade da Informação
Paulo Serra afirmou que a sociedade actual, a que se tem vindo a chamar ―sociedade da informação‖, é uma sociedade em que a informação se transformou simultaneamente na matéria-prima e na mercadoria fundamental e que pela sua própria natureza, a informação acarreta desde o seu início um problema que caracteriza a ―sociedade da informação‖: o problema do ―excesso de informação‖.
No que diz respeito à verificação da informação, esta questão pode-se levantar devido à instantaneidade da notícia online e à facilidade com que qualquer pessoa pode inserir informação na rede global. O facto de, por exemplo, um jornal estar online, requer que a informação seja actualizada ao minuto, sendo as
deadlines apertadas, dificultando muitas vezes os jornalistas na verificação da própria informação,
podendo colocar em causa o rigor jornalístico.
Hoje em dia, não é muito raro depararmo-nos com discrepâncias nas notícias fornecidas por diferentes jornais online, por exemplo no que toca a números de vítimas ou causas de tragédias ou então no que toca por exemplo a contratações de jogadores no mundo do futebol.
Uma outra questão que se pode levantar relativamente à veracidade da informação presente na WWW é o facto de qualquer pessoa poder colocar online a informação que deseja, seja em fóruns de discussão, blogues ou até mesmo em sites criados com esse propósito, como é o caso da Wikipedia, que se intitula ―A Enciclopédia livre que todos podem editar‖. Neste tipo de site, cada utilizador pode colocar informação sobre qualquer assunto não havendo, à partida, qualquer verificação comprovada e, como tal,
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a mesma pode estar completamente errada e pode não passar de visões pessoais de cada diferente utilizador.
Figura 18: Logótipo da Enciclopédia Livre, a Wikipedia
4.2
Anonimato, privacidade e utilização indevida
Outro dos problemas que a Internet levanta diz respeito ao anonimato dos autores de determinada acções, à liberdade de expressão e à privacidade das pessoas e dos utilizadores da Internet. Qualquer pessoa pode publicar um texto difamatório ou áudio e vídeo sem o consentimento dos intervenientes, e sem ser necessário identificar-se.
Por exemplo existem páginas Web e blogues criados com intuito de difamar pessoas, onde são efectuadas acusações, sem a apresentação de provas e cujos autores dificilmente serão julgados, embora já tenha acontecido o contrário. Por outro lado, também existem sites e blogues onde as pessoas recorrem ao anonimato para comentarem determinadas situações sem prejuízo sobre si próprio, como por exemplo sobre factos que acontecem na cidade onde vivem ou no local onde trabalham.
Um dos casos mais conhecidos relativos à violação de privacidade de pessoas foi a publicação anónima no YouTube de um vídeo da modelo brasileira Daniela Ciccareli num momento íntimo com o seu namorado numa praia. Este caso chegou aos tribunais brasileiros em 2007 e levou a que o YouTube fosse temporariamente suspenso naquele país. Outra publicação anónima mediática, levada a cabo recentemente em Portugal, foi a partilha das escutas do processo Apito Dourado no YouTube, onde são reproduzidas na íntegra conversas entre diversos intervenientes do futebol português. Neste caso, além da violação de privacidade, também ocorre a violação do segredo de justiça. Mas nem tudo é mau no anonimato na Internet, pois também permite que sejam reveladas situações incorrectas que ocorrem em determinados locais, sem que as pessoas sejam castigadas pelas divulgações efectuadas. Por exemplo, tem sido fundamental para garantir a segurança de activistas dos direitos humanos no Irão e na China.
Na Internet revelar a identidade é um direito, não é uma obrigação. Isto leva a que as pessoas se possam refugiar atrás de um monitor de um computador e levar a cabo determinadas actividades imorais ou até mesmo ilegais. Por outro lado também permite protegê-las em determinadas situações.
Nas salas de chat do IRC e nos IM é possível estabelecermos contacto e comunicarmos com outras pessoas de modo instantâneo e gratuito. Sem dúvida que é uma ferramenta muito útil. Mas o facto de podermos utilizá-la sem nunca revelarmos a nossa verdadeira identidade, mas sim através de um
nickname que é uma espécie de pseudónimo, pode conduzir a situações indesejáveis. Por exemplo, é fácil
enganar os outros utilizadores menos precavidos, pois é possível transmitir uma imagem da nossa pessoa que não corresponde à realidade, ganhando confiança do outro utilizador. Isso pode levar a que as pessoas nos forneçam informações e dados pessoais, que poderão ser utilizados de modo incorrecto, como por exemplo fotografias e vídeos pessoais ou dados de acesso de determinados serviços. Este meio de comunicação permite facilmente que por exemplo um pedófilo, estabeleça contacto com uma criança que utilize estas ferramentas sem supervisão e ganhe a sua confiança de modo a que ela lhe envie fotografias ou vídeo através da webcam, ou até mesmo se encontre com o prevaricador que poderá resultar em consequências gravíssimas.
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O correio electrónico é uma óptima ferramenta para troca de mensagens e ficheiros quando utilizada para o seu propósito. É já um instrumento indispensável no mundo dos negócios empresariais e também na vida quotidiana das pessoas. Contudo pode ser utilizado para realizar o que poderão ser consideradas boas acções, como por exemplo o pedido de um donativo ou incentivar à doação da medula óssea para ajudar alguém, ou então como más acções, como por exemplo a tentativa de burlar alguém ou levar a que uma pessoa menos informada forneça informações e dados pessoais para utilizações ilícitas. Outro problema relativo aos e-mails é a falsa distribuição de informações a relatar supostos factos como verdadeiros, como por exemplo casos de violação ou roubo ou métodos para ganhar dinheiro. Os mais desprevenidos poderão ser induzidos em erro. O envio de textos e ficheiros anexos como imagens, powerpoints e vídeos podem conter programas maliciosos, como por exemplo vírus, worms e trojans, e além de nem sempre corresponderem à realidade têm como finalidade entreter ou distrair o receptor da mensagem, podendo levar, por exemplo, à quebra do rendimento de um trabalhador que utilize um computador com acesso à Internet. Por esse motivo, os acessos à WWW, ao correio electrónico e aos IM, geralmente são bloqueados ou limitados nas empresas, de modo a que os seus trabalhadores não desperdicem horas de trabalho com entretenimento nem comprometam a segurança dos sistemas. O e-mail também é utilizado, por vezes de modo abusivo, com fins publicitários. A esse tipo de actividade, dá-se o nome de spam, que basicamente é uma mensagem electrónica não solicitada enviada em massa.
As redes sociais são um óptimo meio de aproximar, encontrar e conhecer pessoas, mantendo-as em contacto regular e partilhando interesses comuns, entre outros. Contudo, não pode cair no esquecimento que tudo o que é publicado na Internet é de domínio público e portanto deve-se ter consciência das informações disponibilizadas e afirmações efectuadas. Na Internet não existe privacidade quando somos nós próprios a divulgar as informações. Tecer comentários desapropriados sobre determinadas pessoas, partilhar fotografias pessoais em poses menos próprias, ou informar o que andamos a fazer actualmente numa rede social, pode provocar-nos muitos dissabores. Por exemplo, recentemente ocorreu um caso com uns pilotos da TAP, que efectuaram uma conversa ―privada‖ na rede social Facebook, onde teceram alguns comentários negativos sobre outros companheiros de profissão, e originou uma grande polémica dentro da companhia aérea e um debate sobre as conversas, ditas privadas, sejam elas na Internet ou numa esplanada de um café. Outro exemplo, de como uma má gestão da informação disponibilizada na Internet pode resultar em consequências graves diz respeito à utilização da ferramenta de microbloging Twitter. Nesta rede social somos incentivados a dizer o que estamos a fazer. Já houve ocorrências de pessoas que relataram que estavam de férias ou num local longe de casa e viram as mesmas serem assaltadas. A rede social MySpace, permite por exemplo uma maior aproximação entre os artistas musicais e os seus fãs. Outro ponto positivo desta rede é a facilidade de utilização e o facto de ser gratuito, como todas as outras redes. Deste modo, qualquer artista musical pode ter o ―seu espaço‖ e dar-se a conhecer ao mundo. É um óptimo meio de divulgação e permite chegar, literalmente, aos quatros cantos do mundo. Mas neste caso, também poderá ocorrer um excesso de informação, devido à facilidade com que qualquer pessoa pode criar um perfil de músico, mesmo não tendo apetências para ser considerado um.
Existe um número infindável de outros casos que poderiam ser abordados relacionados com a Ética e com a Internet, com a boa ou má utilização dos serviços disponibilizados pela mesma. Mas um dos que suscita maior impacto na sociedade actual é a partilha de ficheiros na Internet, principalmente devido aos efeitos secundários que provoca.
4.3
Partilha de Ficheiros multimédia
A partilha de ficheiros multimédia remonta ao tempo do IRC em meados da década de 90. Nessa altura, devido às velocidades baixas de ligação à Internet, apenas era viável a partilha de ficheiros de músicas no formato mp3 e utilizava-se o protocolo DCC. Nesse tempo, a questão legal da partilha de ficheiros ainda não era abordada de forma intensa, pois a quantidade de utilizadores que recorriam a essa prática era relativamente reduzida.
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Mas tudo mudou com o aparecimento de um programa chamado Napster, baseado no protocolo P2P. O acesso aos arquivos mp3 tornou-se mais fácil e o número de utilizadores aumentou exponencialmente. Assim que se começaram a sentir os efeitos colaterais desta prática, com a queda das vendas das grandes indústrias discográficas, começou-se a debater a questão legal da partilha de ficheiros e surgiram os primeiros processos em tribunal. No ano de 2001, o Napster fechou as portas devido à condenação em tribunal por causa da queixa apresentada pela A&M Records por contribuir para a violação do direito de autor. Esta decisão dividiu o meio musical, onde uns concordavam que a partilha de ficheiros era o mesmo que roubar, e outros pensavam a partilha de ficheiros era um meio de divulgação e que lhes permitiria chegar a locais do planeta que de outro modo não seria possível.
A partir deste momento surgiram inúmeros programas de partilha de ficheiros, que tiveram o seu ciclo de vida. Ora por estarem tecnologicamente ultrapassados, ora por serem perseguidos pela RIAA (Recording Industry Association of America), acabavam por ser extintos. Alguns desses programas foram o AudioGalaxy e o Kazaa. Mas por cada programa que desaparecia, muitos mais apareciam.
Com a evolução das velocidades de ligação à Internet, rapidamente começaram a ser partilhados outros tipos de ficheiros como vídeos, que poderiam ser filmes ou videoclipes musicais, e ficheiros executáveis, como programas e jogos de computador. Um dos grandes impulsionadores nessa altura, foi o eMule, que teve inclusive diversas variantes, de modo a satisfazer qualquer tipo de utilizador. A partir deste momento, não era apenas a indústria discográfica a única prejudicada. A indústria cinematográfica, e a indústria de software e jogos de computador, também começaram a ter quebras nas vendas dos seus produtos. Foi declarada guerra à pirataria na Internet.
Muitos foram os críticos relativamente à pirataria e à violação dos direitos de autor, mas outras vozes também se levantaram contra as grandes indústrias criticando a postura estática das mesmas, e os preços de venda dos seus produtos inflacionados. José Victor Henriques afirmou em 2004, a propósito de uma reportagem do Diário de Notícias sobre a crise na indústria discográfica que ―as editoras encheram os cofres durante 20 anos, cobrando pelos cd’s o dobro do preço do que seria razoável. Agora choram pelo leite derramado e apontam o download como o mau da fita.‖. Estudos efectuados na mesma altura da reportagem concluíram que a Internet só em parte foi responsável pelos maus resultados de vendas de música. Haveria outras razões como o sucesso dos dvd’s e o apelo dos jogos de computador e de consolas junto das camadas jovens. O que é certo, é que mesmo com o fecho dos programas de partilha de ficheiros, as vendas não subiram, pelo contrário, desceram novamente.
Um dos primeiros casos de conflito entre a tecnologia e a propriedade intelectual, ocorreu na década de 70, quando surgiu a áudio cassete, invenção da empresa Holandesa Philips. Esta tecnologia permitia a regravação da música numa fita magnética resistente. Já nessa altura a RIAA levou a cabo uma campanha contra as áudio cassetes, temendo que o lucro da venda de discos diminuísse com esta tecnologia. No final da década, a empresa nipónica Sony lançou o walkman, que era um reprodutor de áudio cassetes ultracompacto com auscultadores e tornou-se um sucesso imediato.
Figura 19: Cartaz da campanha da RIAA contra as áudio cassetes
Ao mesmo tempo que uns criticavam a partilha de ficheiros no início dos anos 2000, houve empresas que se adaptaram às novas condições de mercado e vislumbraram uma oportunidade de negócio. Um desses exemplos é a Apple que criou o mais famoso leitor de mp3, o ipod, e criou também uma loja de música virtual, o itunes. Outros procuraram criar novas ofertas de produtos, direccionadas para determinados nichos de mercado, como edições especiais que incluíam extras. Outros ainda, souberam aproveitar as
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novas tecnologias para chegarem a novos mercados e se aproximarem ainda mais dos seus consumidores. No caso dos artistas musicais, tornou-se usual, manterem-se em contacto com os seus fãs através das redes sociais, mantendo deste modo um contacto estreito na expectativa de continuarem a conseguir manter os seguidores e consumidores fiéis.
No final de 2007, o grupo britânico Radiohead disponibilizou para download o seu novo álbum intitulado In Rainbows. Cada pessoa que efectuasse o download do álbum poderia escolher se queria contribuir monetariamente ou não. Aparentemente, no dia do seu lançamento, foram vendidas cerca de 1.2 milhões de cópias digitais do álbum. O facto mais incrível foi que apenas um terço das pessoas que efectuou download não contribui com nenhum valor, e o valor médio pago pelos dois terços que contribuíram foi de 4,5 euros. Tendo em conta que não houve despesas no suporte físico normal, o cd, e também não houve despesas de divulgação e promoção, pode-se afirmar que foi uma aposta ganha. Apesar de tudo, os Radiohead acabaram por ser criticados por esta iniciativa, pois outras bandas afirmaram que nunca teriam capacidade para obter lucros idênticos neste modelo de negócio.
Após o declínio do eMule, surgiu um novo sistema de partilha de ficheiros denominado BitTorrent. Existem diversos clientes, como por exemplo o µtorrent, Vuse, BTnext, que podem ser utilizados para efectuar downloads de qualquer tipo de ficheiros e diversos sites para pesquisar pelos ficheiros torrent necessários para efectuar o download. Uma das mais famosas páginas de indexação de ficheiros, foi a The
Pirate Bay criada pela organização anticopyright sueca Piratbyran no início de 2004. Devido às leis
suecas, o serviço disponível no site, não era ilegal, e por isso enfrentaram poucos problemas com a justiça. No entanto, em Maio de 2006 o site sofreu um rude golpe. A empresa onde ficavam hospedados os servidores do site recebeu a visita da polícia e todos os computadores ligados ao The Pirate Bay foram apreendidos. De modo a manter-se em funcionamento, deslocou os seus servidores para a Holanda. Na mesma altura foi criado o Partido Pirata Sueco que é contra as leis de copyright e patentes, contra a violação do direito de privacidade e a favor da prática de partilha de ficheiros. O movimento espalhou-se por dezenas de países, onde diversos partidos piratas se organizaram para defender os mesmos princípios. Actualmente o Partido Pirata possui grupos estruturados em cerca de 23 países.
Figura 20: Logótipo do Partido Pirata Sueco
O PPP (Partido Pirata Português) diz o seguinte na sua declaração de princípios: ―O Partido Pirata tem como objectivo mudar a legislação global de forma a facilitar o desenvolvimento da sociedade de informação emergente, que é caracterizada pela diversidade e pela abertura. Para que este objectivo seja alcançado exigimos um maior respeito pelos cidadãos e pelo seu direito à privacidade, bem como reformas do direito autoral (copyright) e da lei da patente. Os três princípios fundamentais do Partido Pirata são a necessidade de protecção dos direitos dos cidadãos, a vontade de tornar livre a nossa cultura, e o entendimento de que as patentes e os monopólios privados prejudicam a sociedade.‖
Entretanto, em Abril de 2009 os fundadores do site sueco Pirate Bay, Frederik Neij, Gottfrid Svartholm Warg, Carl Lundstrom e Peter Sunde, foram considerados culpados da acusação de violar as leis dos direitos de autor, e condenados pela justiça sueca a um ano de prisão e a pagar aproximadamente 2,5 milhões de euros a algumas das maiores empresas de entretenimento do mundo, como a Sony e a Warner. Em Outubro de 2009, os responsáveis pelo site foram obrigados a remover os torrents protegidos pelos direitos de autor no prazo máximo de três meses.
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Ao mesmo tempo que o site sofria um duro golpe com as condenações em tribunal, fechando portas, e sendo vendido pelo dobro do preço da multa aplicada, para uma empresa de jogos que pretende montar um novo modelo de negócio, que respeite as leis internacionais; o partido fundado devido a esse mesmo site crescia angariando filiados e simpatizantes.
E eis que uma grande surpresa acontece nas eleições para o Parlamento Europeu em 2009, o Partido Pirata Sueco elege um deputado recolhendo 7.13 % dos votos, que mais tarde iria tornar-se em dois deputados europeus devido à ratificação do tratado de Lisboa em Dezembro de 2009. Em 2010 vão-se realizar as Eleições Gerais Suecas. Na sua primeira participação em 2006 obtiveram 0.63% dos votos. Existe uma grande expectativa quanto à percentagem de votos que irão obter este ano.
Actualmente é possível fazer download na Internet de álbuns de música, filmes, séries televisivas, livros electrónicos, jogos de computador e de consolas, programas de computador, entre outros. Além do sistema de torrents, também são muito utilizados indevidamente os File Hosting Service para a partilha de ficheiros. Outro tipo de pirataria recorrente nos dias de hoje, diz respeito à transmissão de eventos desportivos pagos. Para um utilizador comum, para visualizar um evento desportivo, quer seja futebol como no caso da Sporttv, quer seja de combates de boxe ou artes marciais muito populares nos Estados Unidos, seja na televisão ou no computador, tem que pagar pelo serviço. Mas aproveitando os sistemas de streaming como os websites Ustream ou Justin, ou programas próprios de streaming baseados no protocolo P2P, os piratas transmitem esses eventos de modo gratuito.
Neste momento a partilha de ficheiros, ou pirataria na Internet, segundo as leis de direitos de autor dos diversos países, é ilegal. Mas o aumento deste tipo de actividade leva-nos a crer que nem todas as pessoas julgam ser imoral. Como o exemplo sueco demonstra, se o crescimento do Partido Pirata ao longo do tempo for uma realidade, poderá chegar o dia em que a partilha de ficheiros na Internet não será mais ilegal, pelo menos nesse país escandinavo.
5. Conclusão
O aparecimento da Internet revolucionou a sociedade em que vivemos. Transformou-nos numa sociedade da informação, onde podemos aceder a grandes quantidades de informação disponível instantaneamente e a partir de qualquer lugar; e numa aldeia global, eliminando o tempo e o espaço como obstáculos para a comunicação.
Mas esta tecnologia levanta muitas questões éticas, muitas das quais não foram aqui abordadas. Como na nossa vida real, na vida virtual da Internet, também existem perigos. Para utilizarmos todas as ferramentas que a Internet nos proporciona, e que nos ajudam positivamente no dia-a-dia, devemos estar conscientes das suas limitações bem como do seu alcance. O anonimato permite uma maior facilidade na prática de actividades ilegais ou imorais, e a privacidade, apesar de não ser unicamente, depende em grande parte da nossa postura enquanto cibernauta.
De um modo geral, devemos actuar na Internet, do mesmo modo como agimos na vida real, sem praticar actividades consideradas ilegais ou imorais e ponderando todas as atitudes e decisões tomadas.
Recorrendo à lista de obrigações e proibições que faz parte da ética cristã, foi criada analogamente, uma lista com dez mandamentos que de uma forma muito geral permite-nos utilizar a Internet de um modo positivo. Os 10 mandamentos da Ética da Internet são:
1. Não deverá utilizar o computador para prejudicar terceiros; 2. Não deverá interferir com o trabalho informático de terceiros; 3. Não deverá vasculhar os ficheiros informáticos de terceiros;
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4. Não deverá utilizar o computador para roubar;
5. Não deverá utilizar o computador para prestar falsos testemunhos; 6. Não deverá utilizar ou copiar software pelo o qual não pagou;
7. Não deverá utilizar recursos informáticos de terceiros sem autorização; 8. Não deverá apropriar-se do trabalho intelectual de terceiros;
9. Deverá pensar nas consequências sociais daquilo que escreve;
10. Deverá utilizar o computador com respeito e consideração por terceiros.
6. Referências
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Warburton, Nigel, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, Lisboa 1998
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A elasticidade da ética na Internet, Updatefreud Kevin, http://updatefreud.blogspot.com/2009/05/elasticidade-da-etica-na-internet.html
A ética na sociedade da informação: entre a antinomia e o abismo, Paulo Serra, 2006, http://www.bocc.ubi.pt/pag/serra-paulo-etica-sociedade-informacao.pdf
Crimes na Internet: elementos para uma reflexão sobre a ética informacional, Mário Neto, José Guimarães, Brasília, 2003,
http://www2.cjf.jus.br/ojs2/index.php/cej/article/viewFile/523/704
Ética e Internet, Oriel Frigo, Santa Catarina, 2009, http://oriel.musa.cc/apresentacoes/etica_e_internet.pdf
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Ética na Internet, Colégio Antônio Vieira, Bahia, 2008 http://etica-cav.blogspot.com/
Ética na Internet ou Internet com ética, Colégio Guilherme Dumont Villares, http://www.gdv.com.br/etica/etica.htm
Fraudes na Internet, http://fraudes-na-internet.blogs.sapo.pt/
Fraudes na Internet: Passatempos fraudulentos, http://fraudesnainternet.blogs.sapo.pt/
Indústria Discográfica: o futuro é um lugar estranho, Ionline, 2010 http://www.ionline.pt/conteudo/40262-industria-discografica-o-futuro-e-um-lugar-estranho
Jornalismo on-line, Jorge Pedro Sousa, Universidade Fernando pessoa, http://www.ipv.pt/forumedia/5/13.htm
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Música e Internet: a ―Crise‖ da indústria fonográfica na era digital, Rafaela Leita, Universidade da Fortaleza, 2009,
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Pontifício conselho para as comunicações sociais: Ética na Internet, John P. Foley, 2002,
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/pccs/documents/rc_pc_pccs_doc_20020228_ethics-internet_po.html