Ética e Moral: esclarecendo conceitos
Laércio Antônio Pilz
Fala-se muito em ética atualmente. Afirma-se que certas pessoas não têm moral para darem conselhos ou lições de moral. Que falta caráter para certas pessoas em relação a assumirem posturas responsáveis e não sucumbirem à inveja e comportamentos mesquinhos em relação ao modo de tratar as pessoas. Estamos a todo momento presenciando a abertura de comissões de ética para desenvolver
julgamentos e cobranças morais. A Ética está em alta ou é a falta de ética que faz
com que seja proclamada como necessidade da hora? Me parece que o mais importante não é tentar resolver este paradoxo, mas aproveitar o momento para avançar no entendimento em relação ao que é ético e em relação às boas práticas. Nesta perspectiva, busco questionar certas compreensões limitadas em relação aos conceitos de ética e moral tentando esclarecer o que nos faz seres éticos capazes de, na prática, desenvolver boas ações. Com isso, também demonstrar como estamos, não raras vezes, presos a morais (moralismos) e que nos falta distanciamento - uma visão plural e aberta - e consistência teórica para poder avaliar melhor os comportamentos e pensar alternativas de ação.
1 – O uso indiscriminado dos conceitos
O que nos faz seres morais? Por que dar importância à reflexão ética em relação ao desenvolvimento pessoal e social? O que faz com que pessoas e sociedades avancem em suas práticas morais na direção de uma ética em que se afirma a dignidade da vida e das pessoas? Estas questões dão corpo à Ética e ao seu estudo. A reflexão crítica sobre valores pessoais e sociais e sua contribuição para um projeto de vida com sentido é o que anima a reflexão.
Percebemos o quanto relações superficiais e descartáveis estão presentes nas relações entre os indivíduos, enfraquecendo o comprometimento e a aprendizagem.
Na sociedade do mercado de objetos, onde tudo se transforma em mercadoria, as relações entram como mais um produto de consumo. Compra-se um pacote de relação que, se não agrada ao consumidor, é trocado ou jogado fora. O outro é aquele que mais se identifica com o modelo de minha referência. Como somos diferentes, logo nos frustramos por não encontrarmos nossos idênticos (nossa cara
metade, dito popular que deve ser questionado...). Resolvemos temporariamente o
problema ‘indo pra outra’ (ou trocando de mercadoria). Ocorre o enfraquecimento da responsabilidade e do comprometimento com a construção de um projeto com o outro.
Paradoxalmente, atualmente também se valoriza o fazer ético e o desenvolvimento de relações de confiança, do comprometimento e da responsabilidade como estratégia para salvar os negócios, salvar as relações, salvar
a educação e ter sucesso (a recente crise econômica mundial em boa parte também
foi uma crise de confiança). Vivemos um momento de transição em que os indivíduos querem se convencer da importância de fazer ética mais do que seguir padrões morais impostos. Promovemos a desconstrução moral, a crítica às morais tradicionais e convencionais. Abandonamos antigos padrões e nos dizemos livres para viver bem. Estamos num momento pós-moralista, como destaca Lipovetsky. Queremos viver bem, ter uma vida bela, porém, estamos um pouco perdidos. Não sabendo como, muitos vão aos mercados e lojas em busca de satisfação e prazer. Buscamos receitas em livros de pensamento positivo, acreditando que eles podem conter a resposta e até receitar o caminho. Desejamos trabalhar menos por obrigação e mais no que gostamos. Desenvolvem-se e se multiplicam práticas de lazer (o mercado de
entretenimento está em alta). É um sintoma moral: a vida é para ser bem vivida. Mas
a reflexão crítica sobre o que faz bem, como saber viver, que prazer o ser humano pode experimentar numa relação positiva consigo, com o outro e com o planeta, merece mais cuidado. Ainda compramos pacotes prontos de lazer e de prazer. Acreditávamos que havia receita para isto, que o progresso tecnocientífico e econômico traria o final feliz. Está no ar este desejo pelo bem viver. Por que não aproveitar para investir radicalmente na ética, pensar e elaborar morais ascendentes e que qualifiquem a vida? Mas como afirmar a nossa consistência ética?
Proporia primeiramente uma reflexão (interiorizada) sobre os quatro constituintes básicos apresentados por Marilena Chauí1 para que nos tornemos sujeitos morais, ou seja, atores éticos (lembro que sujeito moral é aquele que consegue relacionar-se consciente, reflexiva e criativamente com sua moral).
a) Consciência de Si e dos Outros – a capacidade de ser autor de si mesmo na relação com o Outro, que é reconhecido como sujeito recíproco de aprendizagem. Ser criativo a partir do entendimento (processual) de si mesmo e do mundo e, consequentemente, desenvolver a capacidade de pensar e exercer uma intervenção autônoma no mundo.
b) Liberdade – não reduzir-se nem às suas representações e inclinações, nem a forças exteriores; ampliar seu mundo conceitual e sua linguagem para ter poder para ser capaz de intervir no tempo.
c) Vontade – interiorizar a força de vontade para com o Bem. A boa vontade é a força que faz com que seja efetivado na prática o desejo pelo Bem. Vontade aqui não se confunde com boas intenções, mas com uma inteligência espiritual que vê na busca de um mundo melhor o princípio que anima o comportamento humano.
d) Responsabilidade - comprometer-se com o que se faz na medida em que se é autor da ação. Aqui não é uma responsabilidade com uma regra externa que se efetiva, mas o comprometimento com regras com as quais nos relacionamos reflexivamente e nos relacionamos pessoal e socialmente.
A autora, em um ponto de seu escrito, afirma que ser responsável é
reconhecer-se como autor da ação. Muito já se falou sobre o quanto as pessoas não
se comprometem com aquilo que parece que é pré-determinado a se fazer, sem que se entenda o sentido que pode fazer em suas vidas. Por exemplo: uma Disciplina de Ética em que os alunos não percebem o sentido e o valor que pode ser
1
Em Convite à Filosofia, p. 337 e 338, 2005, Marilena Chauí desenvolve argumentação acerca dos Constituintes do Campo Ético. É com base nesta leitura que os mesmos são propostos acima.
agregado dificilmente compromete, logo, não nos tornamos responsáveis em relação à mesma.
É o questionamento o primeiro passo para fazer ética. Questionamentos sobre o que nos faz assim e até que ponto o que fazemos nos potencializa e aos outros. Há pessoas que muito rapidamente se dizem moralmente esclarecidas e capazes de fazer ética. Há de se ter cuidado com estes senhores da lei. A ética deve ser leve na medida em que ela nos desafia a ir além de nós mesmos. A moral pesada nos enquadra, nos fixa a certos padrões e a pior das morais é aquela em que nos fixamos em nossos juízos restritos. Diálogo e convivência tornam-se difíceis diante deste tipo de indivíduos. Aqui importa destacar que indivíduos leves não são superficiais (como se não tensionassem os valores), mas pelo contrário, são consistentes; não porque impõem uma verdade pela retórica clássica da argumentação (abstracionismo), mas porque testemunham sua potência no diálogo com o outro que passa a ser radicalmente digno em seu aprender. Sua dignidade é diretamente proporcional à sua postura aprendiz, como quem traz consigo mais conceitos e linguagens do que o Outro, mas está aí não para ensinar e dar receitas, mas para apresentar, testemunhar e aprender sobre como estes conceitos e linguagens podem ser atualizadas, contextualizadas e experimentadas pelo Outro, tão sujeito quanto ele.
As éticas idealistas tiveram seu tempo. Me parece que atualmente o que nos convence em sermos éticos são estas possibilidades de convivência radical da liberdade cooperativa em processo continuamente retomado. Certas tradições morais, historicamente, fizeram com que as pessoas se comprometessem com um projeto: o coletivismo dos ditos primitivos fazia com que qualquer membro fosse responsável pelo projeto da tribo; a pólis grega, especialmente em Atenas, exigia comprometimento diante da arte de fazer política em favor da cidade; a tradição religiosa comprometia perante Deus e seus representantes; as nações modernas desenvolveram constituições republicanas que, acreditava-se, iriam dar sustentabilidade ao progresso social pela justiça, logo, respeitavam-se as leis em favor do bem social que elas representavam.
Todas estas tradições morais estão fragilizadas diante da sociedade de indivíduos, cada vez mais interessados em seu bem viver pessoal (falo nisso como
característica de nossa época e não como algo negativo em si mesmo). Diante disso, penso que o maior desafio moral atual é se convencer e às pessoas de que fazer Ética vale a pena, pois avaliar como a Vida pode ser melhor vivida a partir do comprometimento com a dignificação das relações pode fazer bem para a saúde pessoal. Proponho subverter o significado batido (e muito criticado) de individualismo para ressignificá-lo como sendo a maneira como a pessoa encontra a si mesmo no encontro com as coisas do mundo, inclusive as outras pessoas. Indivíduo não mais como uma categoria restrita, atomizada...
Toda pessoa carrega consigo a bondade e a maldade. A consciência e a vontade nos comprometem a buscarmos ser um pouco melhores. Mas para que isso seja possível, precisamos experimentar a liberdade: questionar e desafiar a nós mesmos (para que não estejamos fixados e reduzidos aos nossos modelos ou impulsos morais), avaliar como podemos transcender certos padrões morais exteriores e, em especial, alargar nosso pensamento e nossa linguagem para desenvolver uma ação esteticamente enriquecedora da vida. Fazer ética para tornar a vida mais alegre e bela.
2 – Diferença entre Ética e Moral
Penso que didaticamente é interessante propormos uma distinção entre moral e ética, mesmo que esta diferenciação seja colocada em discussão por muitos autores. Aprendemos a falar em moral e ética como se tivessem o mesmo sentido.
Os hábitos adquiridos no grupo em que nos criamos vão organizando nossa moral. O lugar da mulher e do homem, as tradições, o valor dado ao consumo, etc. Estamos cotidianamente agindo moralmente a partir de certos condicionamentos comportamentais. São gestos e juízos que são praticamente naturais. Estamos condicionados a ver o mundo assim e a julgar os fatos de certa maneira determinada (por isto se disseminaram preconceitos) e ignoramos a autocrítica construtiva.
No momento que tomamos distância e paramos para discutir e refletir sobre esta moral, sobre nossos hábitos, costumes e tradições, colocando em questão o valor destas morais, emerge o campo da ética, entendida como um saber-fazer.
Tanto ou mais do quer ser éticos, nos fazemos éticos pelo exercício da reflexão e da prática, que são complementares.
Sair de si, estender sua compreensão e alargar seu campo de percepção para outras morais, não é um exercício simples. De forma simples e direta, fazer ética significa desenvolver uma reflexão crítica em relação aos comportamentos e valores pessoais e sociais mediante um desenvolvimento conceitual e um alargamento cultural, ou seja, estudando mais conceitos e teorias, de forma a pensá-los em sua atualização, ampliando o nosso espírito de discernimento. Ao mesmo tempo, a visita a mais morais além da nossa, faz não só com que questionemos a nossa, mas que nos tornemos seres históricos que compreendem que a vida é dinâmica.
Quando os pais, por exemplo, reduzem a educação a seus modelos mentais e morais eles de fato estão moralizando a criança. Não podemos ignorar a importância desta identificação moral, ou seja, a criança não nasce num mundo qualquer, ou seja, é importante que reconheçamos a moral e a cultura a que pertencemos (e os pais devem buscar, mesmo que saibamos nossos limites, esclarecer sobre esta moral). Porém, ao aprender com os filhos maneiras alternativas de propor e desenvolver comprometimentos que não seja pela obediência coercitiva e formal, transcende-se a Moral e se experimenta a Ética.
Não podemos existir, enquanto seres ativos, alheios a uma moral (tanto por vivermos num ambiente com regras mínimas de relação, como porque apostamos nossas experiências em alguns valores). Porém, as belas morais se desenvolvem em territórios abertos e livres, onde a dúvida e o questionamento são alimentos da reflexão e qualificação das linguagens e pensamentos. Reduzidos a moralismos, nos tornamos ignorantes no fazer ética. Por exemplo: cada um de nós desenvolve certa convicção em relação às qualidades básicas da gestão e dos negócios (moral), mas estas passam a ganhar consistência pela avaliação que fazemos, a partir da extensão de nossa compreensão e de nossa experiência, de aspectos destas áreas que podem qualificar a vida e a dignidade nas relações (ética).
O discernimento é algo complexo, ou seja, ele se desenvolve a partir da formação integral da pessoa. Sensibilidades, percepções e compreensões que vamos
desenvolvendo comprometidamente, estendem e viabilizam nosso discernimento em relação às possibilidades (efeitos) de certas ações. A partir disso podemos repetir que a ética está além das boas intenções. Normalmente a intenção está condicionada pela moral (aqui podemos dar significado ao dito de que de boas intenções o inferno está cheio – os europeus justificavam a submissão de índios e negros afirmando que estavam oferecendo um mundo melhor para eles – o que se repete muitas vezes em muitas práticas).
3 – O Fazer Ética
É imprescindível a boa vontade como força para assumir consistentemente o que fazemos. Porém, mesmo entendendo a boa vontade como força que tensiona para a qualificação do fazer ética, devemos ter cuidado:
a) Em pensar de forma abrangente, ou seja, o que fazemos cada vez mais tem relação com vários outros aspectos, tanto do ponto de vista profissional como pessoal. Como diz o ditado: de que vale a pena ganhar o mundo se perder a minha
alma? Até que medida vale a pena ter sucesso no trabalho se me transformo em um trapo de gente?
b) Pensar não estritamente em bom OU mau, mas em mais do bem E menos
do mal, pois o Bem E o Mal em absoluto, do ponto de vista das relações
humanas, são discutíveis. Bons E maus porque as contextualizações (em especial num tempo complexo e dinâmico como o atual) tornam-se tão ou mais importantes do que as convicções. Exemplo: é importante reconhecer a dignidade da vida e das pessoas como valor primeiro (chamamos isto de ética deontológica, de convicção), mas ela se efetiva e se desenvolve diante e dentro de um contexto que é diferente e está em transformação (chamamos isto de ética teleológica e da responsabilidade). Como pai, posso querer o bem de meu filho, mas posso estar usando métodos questionáveis no processo de relação para promover suas aprendizagens. Responsabilizar-se eticamente é aprender a aprender em relação à
As pessoas se desenvolvem eticamente na medida em que vêem sentido no que fazem e sentem-se co-autoras nos processos. Proponho a Ética como a arte de desenvolver o pensamento, as percepções e as linguagens para Viver Bem. Uma sutileza de reflexão sobre o que nos acontece e como aprendemos com o viver e nos sentimos mais fortes para viver bem. Lembro aqui reflexões que emergem a partir de leituras de Nietzsche: muitos parecem camelos que carregam o peso da moral e das obrigações em suas costas e, consequentemente, são pouco alegres. Estamos falando de um a ética do cansaço. Ele propunha uma criança jogadora, um dançarino como imagem de uma moral que deseja a vida como experiência moral consistente.
De certa forma a filosofia serve para lidar com aquilo que não tem resposta, logo, ela reclama liberdade. Para aquilo que está respondido formalmente (pela Ciência, por exemplo, ou pela Religião e seus dogmas) não há o que filosofar. É claro que quando questionamos como certo imaginário religioso atua sobre a vida e como certas descobertas científicas alteraram a maneira de pensar o mundo e a vida, estamos novamente filosofando e questionando o valor moral destes campos de ação humana. Neste sentido, fazer Ética é filosofar e exige liberdade radical. O que nos prende e nos condiciona não passa de moralismo e torna-se pesado. Uma religiosidade e uma ciência abertas ao diálogo tornam-se leves e alegres, comprometendo-se a partir de sua tradição, crença e rituais com o bem viver.
A singularidade de cada um é fundamental para que se possa fazer ética no encontro com os outros. Devemos cuidar atualmente quando falamos que o conceito de ética é muito particular, pois podemos estar privatizando a ética, ou seja, alguém pode sair dizendo por aí que é assim que pensa e não aceita diálogo. Impossível pensar em ética sem diálogo. Novamente entra aqui a questão da liberdade. A pior escravidão é a daqueles que escravizam a si mesmos (tornam-se pesados – perdoem a redundância). Insisto: é fundamental a autonomia que diz respeito a cada um desenvolver suas compreensões éticas, mas a autonomia e a própria liberdade se desenvolvem e são experimentadas na abertura para o de fora. Estamos falando a partir da proposição de uma ética pessoal aberta, aprendiz, em movimento e, por isto, muito viva. Em belos encontros com as possibilidades que outras formas de vida podem acrescentar à nossa.
Penso que devemos provocar os outros, testemunhar nosso comprometimento para ampliar cumplicidades em favor da ética, porém, nada nos assegura em relação ao grau de adesão que teremos e nem se o nosso entendimento ético dá conta sistematicamente de práticas mais coerentes (às vezes nos pegamos em comportamentos limitados). Devemos nos convencer cada vez mais de que vale a pena viver e que continuamos a apostar em nossa habilidade em motivar os outros, enquanto nós mesmos nos implicamos com o contínuo aprendizado moral.
Referências Bibliográficas
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2005.
CORTINA, Adela e MARTINEZ, Emilio. Ética. São Paulo: Loyola, 2009. FERRY, Luc. Aprender a Viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
LIPOVETSKY, GILLES. A Sociedade Pós-Moralista: O Crepúsculo do Dever. São Paulo: Ed. Manole, 2005.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez Editora, 1999.
SUNG, Jung Mo e SILVA, Josué Cândido da. Conversando sobre ética e sociedade. Petrópolis: Vozes, 2003.
VAZQUEZ, A. S. Ética. São Paulo: Civilização Brasileira, 2008.